quinta-feira, novembro 11, 2010
Em acelerada contramão
Em acelerada contramão
JOSÉ RENATO NALINI - O Estado de S. Paulo - 11/11/10
Noticia o Estado que o TJ paulista quer mais 2.199 comissionados (8/11, A18), e chama de polêmico o projeto de lei que cria 2.199 cargos em comissão para assistentes de juízes de primeiro grau. Salienta a reportagem, do jornalista Roberto Almeida, que o Judiciário paulista se compõe de 45 mil funcionários na ativa e de 10 mil aposentados. R$ 4,3 bilhões é o valor da despesa anual do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) com os seus servidores. Isso equivale a 90% do orçamento do Judiciário e essa contratação elevaria em 5% o quadro atual de funcionários.
Sem entrar no aspecto polêmico, o de se delegar uma função parajurisdicional a funcionário que não foi selecionado por concurso público, outra reflexão se impõe.
Esse projeto de lei não é o único em trâmite pelo Parlamento paulista. Ainda recentemente o Órgão Especial do tribunal aprovou a criação de mais de um milhar de cargos de escrevente técnico. O argumento foi o de que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinara a devolução aos quadros das Prefeituras de todos os funcionários que colaboram com o setor de Execuções Fiscais.
A voz dissonante no plenário foi a deste escriba, que insiste em propor ao Judiciário uma verdadeira revolução, que não se resumiria a multiplicar Varas, unidades judiciais, quadros e cargos.
A recente divulgação do Justiça em Números, do CNJ, comprova a constatação empírica: a administração pública é a maior cliente do Judiciário. Grande parte do trabalho confiado a juízes e servidores advém da cobrança da dívida ativa estatal. São milhões os processos em curso e a cada ano as estatísticas são infladas por distribuição de outros milhares de ações.
Enfrentar esse tema não se resume a ampliar o quadro funcional. É preciso ter coragem para dizer que o Judiciário não é agente de cobrança das dívidas públicas. As execuções fiscais oferecem nível escasso de litigiosidade. A maior parte delas consiste em quantias ínfimas, que não justificam a movimentação da dispendiosa máquina judicial.
Os agentes estatais desincumbem-se do seu dever de não tergiversar com o dinheiro do povo e atulham o Judiciário com essas verdadeiras lides ilusórias. Parcela dos devedores é insolvente e não possui bens que possam garantir um processo que a lei prevê, de trâmite peculiar e cujo início é a penhora dos bens de quem não honrou a sua obrigação. Outra parcela não é mais localizável.
Por isso é que o montante imenso de mandados resulta em reduzido número de citados que satisfazem o débito. Outros nunca são encontrados, ou, caso localizados, não há bens a penhorar. Poucos são os que embargam a execução, isto é, oferecem defesa para evidenciar a ausência de razão do Estado.
É frequente que as entidades credoras anistiem as dívidas ativas de milhares de devedores. Com isso, frustra-se a expectativa de cobrança judicial e é desperdiçado o dispêndio de trabalho e de recursos do já combalido Judiciário.
Se viesse a liberar-se dessa incumbência de agência de cobrança, a Justiça poderia cuidar melhor das demais contendas. Fazendo-o com a celeridade cobrada pelo constituinte de 1988 e de difícil enfrentamento, mercê de diversos fatores.
É preciso reconhecer que o problema central da Justiça não é a insuficiência de pessoal. É o mau aproveitamento de quadros desmotivados, destreinados, incapazes de encarar os desafios de um século em que a velocidade é um signo insuperável.
Pouco adianta repetir o truísmo de que o tempo da Justiça não é o tempo da mídia, ou que a resposta rápida pode não ser a ideal. O esmaecimento dos símbolos e dos valores atinge também a função judicial. Ela é remunerada com dinheiro do povo e precisa funcionar. Tem a obrigação de responder, com efetividade e em tempo oportuno, às demandas que a sociedade formula.
O juiz é um profissional que, em tese, julga bem, sabe apreciar as controvérsias à luz do Direito. Mas não foi treinado para administrar. E quando falha a atividade-meio, está comprometida a atividade-fim.
Seria preciso haver a coragem de se entregar a administração da Justiça a profissionais capazes de imprimir o choque de gestão presente em vários discursos, mas ausente na realidade. Deixar que a competência - em sentido vulgar - alargue os funis, elimine os nós burocráticos, para que o juiz julgue. Compreendendo que julgar é solucionar conflitos reais, não se manifestar sobre formalismos, procedimentalismos, no êxtase da elaboração de peças eruditas. Prenhes de precedentes e ajustadas à doutrina, mas de nenhum significado para aquele que aguarda a resposta para um problema concreto.
Quem é que já se preocupou em apurar qual é a porcentagem de respostas judiciais que se resumem a aspectos processuais e não chegam à substância?
Qual o tempo despendido em análise dos conflitos de competência, em que colegiados discutem qual a seção ou qual a câmara ou turma encarregada de apreciar a causa, quando o que interessa para as partes é que qualquer juiz decida quem, na verdade, está com o melhor direito?
Essa produção autofágica, destinada a satisfazer requisitos internos calcados em grande parte na burocrática visão compartimentada de um Judiciário cada vez mais especializado, poderia ser considerada índice satisfatório de produtividade?
Foi essa a escala de respostas que o constituinte quis reclamar a um Judiciário proativo, também responsável por edificar uma Pátria justa, fraterna e solidária?
No momento em que a Justiça repensasse a sua missão, que não é, dentre outras anomalias, a de fazer cobrança de dívidas públicas, ela poderia melhor desempenhar o papel institucional que o povo lhe atribuiu, pela voz do constituinte.
Mais inundações e secas no Sul
Mais inundações e secas no Sul
Mudanças climáticas intrigam cientistas e provocam estragos na Bacia do Rio da Prata
Renato Grandelle – O Globo - Ciência
Uma região rica, populosa e ameaçada. Assim é a bacia hidrográfica do Rio da Prata, a quinta maior do mundo, cercada por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, berço de 70% do PIB desses países e habitada por mais de 100 milhões de pessoas. Nem o gigantismo de seus números a protegeu das mudanças climáticas, cujos principais efeitos são sentidos no Sul do país.
A precipitação diária aumentou 33% em meio século, segundo centros de pesquisa europeus e sulamericanos.
Com as tempestades vieram inundações, solos erodidos e inúteis para a agricultura.
As chuvas, porém, estão mal distribuídas, o que fez a estiagem também aumentar. A seca observada em algumas regiões argentinas no ano passado foi a pior em décadas.
Os prejuízos também atingiram plantações no Brasil, obrigando os produtores a pensar em novas formas de cultivo.
É para desenvolver novas estratégias de adaptação que 170 pesquisadores de 20 países estão reunidos desde segunda-feira em Florianópolis.
Patrocinada pela Comissão Europeia, a Rede para Avaliação da Mudança Climática e Estudos de Impacto na Bacia do Prata pretende propor, nos próximos dois anos, uma série de medidas que amenizariam o impacto das ihttp://draft.blogger.com/post-create.g?blogID=4759591329996691554nundações e secas sobre as atividades econômicas da região.
— Precisamos avaliar as vulnerabilidades locais frente às ameaças climáticas — explica Sandro Schlindwein, pesquisador do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina. — Registramos muitas geadas e vendavais fora de época, mas o maior problema são as estiagens, principalmente no verão. É quando normalmente ocorrem as fases de enchimento de grão e a floração, os momentos em que o clima desfavorável mais seria capaz de provocar prejuízos.
A seca também é preocupante no inverno. Nesta estação, o índice diário de chuvas caiu 60% desde 1950 no Rio Paraná, o principal da Bacia do Rio da Prata.
Enquanto os pesquisadores traçam uma estratégia e procuram parceiros no campo, os pequenos agricultores improvisam. O aumento da seca fez produtores do oeste de Santa Catarina desenvolverem variedades do milho mais resistentes à estiagem.
— Eles preferiram mudar o produto a dependerem cada vez mais da indústria de melhoramento do milho — avalia Schlindwein.
Causas ainda são desconhecidas
O aumento das chuvas e secas na região seria consequência de um processo natural, ainda não decifrado pela ciência. Mas há consenso entre os especialistas que, em no máximo 30 anos, as mudanças climáticas observadas hoje podem se acirrar por efeito do aquecimento global.
— Nos anos 60 e 70, houve um grande desmatamento no Paraná, o que alterou o uso do solo e aumentou as precipitações — lembra Carlos Tucci, consultor de recursos hídricos e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. — Mas este processo teve uma influência limitada a algumas regiões. Há variações naturais no clima de uma década para a outra que a ciência ainda não sabe desvendar com precisão.
O climatologista José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, também é cauteloso ao comentar o papel do aquecimento global na Bacia do Rio da Prata.
— Por enquanto, vemos um fenômeno natural. Mas, até 2040, a emissão de gases-estufa pode tornar ainda mais comum esses eventos extremos. Aí poderemos atribuir com segurança a responsabilidade ao homem.
De acordo com as principais projeções climáticas, o aquecimento global poderia acelerar um dos mais importantes ciclos hidrológicos da América do Sul: a formação de precipitações na Amazônia, com a passagem da água pela planície do Pantanal e sua chegada à Bacia do Rio da Prata. As eventuais mudanças no escoamento dos rios locais provocariam revezes à biodiversidade desses ecossistemas.
O aumento do escoamento também provoca erosão do solo, reduzindo a área disponível para a agricultura. Os rios mudam de leitos, o que leva a alterações também nas matas ciliares, responsáveis por delimitá-los. E, como o material do fundo dos rios pode ser suspenso, a qualidade da água também fica comprometida.
Herança maldita
Herança maldita
Eliane Cantanhêde - FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - Foi só passar a eleição com seus programas alegres e coloridos e a realidade insiste em pipocar nas suas mais variadas formas. Como uma chuva de bolinhas, não exatamente de papel.
Aliás, o escândalo da vez é no banco PanAmericano, do Sílvio Santos, que visitou Lula no meio da campanha e é dono também do SBT, a rede que reduziu o rolo de fita da agressão a José Serra no Rio a uma mera bolinha de papel. Deve ser só coincidência. De concreto, o rombo é milionário, a solução foi negociada com BC e CEF e tudo foi descoberto durante a campanha, mas só divulgado agora.
Outro "probleminha" detectado antes da eleição, mas que vem à tona depois dela, é que uma das turbinas da usina de Itaipu, com mais de 30 anos de uso, apresenta trincas de até 30 cm. Quantas outras estão assim? Taí uma boa pergunta, enquanto os dez partidos aliados se estapeiam pelo rico Ministério de Minas e Energia.
E como o país da urna eletrônica, um dos sistemas mais sofisticados de votação do mundo, não consegue fazer o Enem direito? Rolou de tudo um pouco. Teve prova repetida, erro de gabarito, aluno tuitando, um festival de irregularidades. É nisso que dá fazer as coisas sem licitação - uma semana depois do segundo turno.
Para completar, mal acabaram de fechar as urnas e lá vem a eleita falar em CPMF, enquanto projetos de aumentos salariais tramitam no Congresso e grassa a suspeita de que as contas públicas chegam a 2011 fora de controle.
Deve ser por essas e outras que se discute a tal regulamentação da mídia, uma das coisas que a gente sabe como começa e não sabe como acaba. Como as CPIs dos bons tempos do PT na oposição, lembra?
Lula deveria ter pensado bem antes de abandonar o governo às moscas e às Erenices para só fazer campanha. Até porque Dilma, coitada, não vai ter a surrada bengala da "herança maldita".
Chão de ferro
Chão de ferro
Cora Rónai – O Globo – Segundo Caderno
Sempre gostei de tampas de bueiro, e durante algum tempo participei de uma comunidade no Flickr dedicada a fotografá-las. Há tampas muito variadas pelo mundo, e tenho fotos de uma mais linda do que a outra, em geral com os pés dentro do quadro, minha forma favorita de registrar por onde andei.
As tampas de bueiro brasileiras, infelizmente, são um fracasso estético na comparação com seus pares internacionais. Não passam de pragmáticas placas de metal, sem qualquer intenção de fazer bonito, perfeito exemplo do desleixo urbano que nos caracteriza. Uma tampa de bueiro bem decorada diz muito do capricho dos administradores da cidade.
Por outro lado, não conheço cidade tão cheia de bueiros quanto o Rio. No outro dia, andando por Ipanema e tendo de contornar uma obra que se fazia em torno de um deles, me dei conta de que a calçada era praticamente toda constituída de bueiros.
Decidi contá-los. Voltei para a esquina e comecei do começo. Vocês já tentaram contar bueiro? É muito difícil. O vaivém das pessoas atrapalha, amigos e conhecidos interrompem as contas e leva-se esbarrões de gente que não olha por onde anda, até porque o contador de bueiros anda sem olhar. Apesar disso, quando cheguei à outra esquina, tinha contado 161, e esbarrado em pistas da História das telecomunicações, com tampas da CTB, da Telerj e de um genérico Telefone convivendo lado a lado.
Também encontrei a preciosidade da foto, versão estapafúrdia da Light: depois a gente se espanta quando explodem.
O número não me saiu da cabeça. Cento e sessenta e um?! Como era possível a existência de 161 bueiros num único trecho de calçada?! Eu devia estar errada, mas ainda que tivesse errado por cem, sobrariam 61 bueiros num único lado de um único quarteirão, muito mais do que se vê em qualquer outra parte. Resolvi voltar no dia seguinte para uma recontagem... e cheguei a 164! Joguei a toalha. O fato é que, por uma ou por outra conta, está sobrando bueiro em Ipanema. Houve um tempo em que o gosto musical da Bia ficou tão diferente do meu que quase não havia o que pudéssemos escutar juntas; uma das raras exceções era “Hair”, o musical que fez a cabeça da minha geração e que continuou vitorioso nas paradas até a adolescência da minha filha.
Perdi a conta do número de vezes em que vimos e revimos o filme de Milos Forman, e a quantidade de vezes em que os dois CDs, o da produção teatral e o da versão para o cinema, foram trilha sonora para nossas viagens de carro.
“Hair” resumia tudo em que eu acreditava com 14 anos, época em que geralmente se acredita em tudo ou em nada com a mesma intensidade.
Eu acreditava em paz e amor, e achava, de verdade, que bastava um pouco de boa vontade para que todos os seres humanos passassem a conviver em harmonia; tinha uma saudável descrença de ritos religiosos, mas achava muito bonitos os mantras indianos, adorava aquelas túnicas coloridas e tinha enorme prazer em sentir cheiro de incenso pela casa. No mais, até pelo histórico da família, tinha horror a guerra, qualquer guerra.
Quando a Bia e as suas amigas descobriram “Hair”, o mundo já era outro. A identificação da sua geração com o “meu” musical passava por outros circuitos, talvez pela nostalgia de uma postura de rebeldia que, no fim dos anos 80, já não fazia sentido. Independentemente da motivação, porém, a história nos fisgou por igual, e até hoje sabemos as músicas de cor.
Agora, passados tantos anos, fomos juntas à estreia de “Hair” no Casa Grande — e saímos de lá com o mesmo encantamento antigo. A produção está linda, e tem um elenco jovem, afinado e cheio de garra: mesmo os atores que ficam no fundo do palco, encobertos pela sombra, dançam e cantam cheios de entusiasmo.
Os figurinos e o visual da tribo estão ótimos.
O mais importante de tudo, porém, é que Claudio Botelho conseguiu o prodígio de traduzir as músicas sem torturar as palavras: elas caem naturalmente onde devem cair, e não causam estranheza ao ouvido acostumado à versão original. Uma coisa é traduzir um musical do qual ninguém se recorda, ou do qual ninguém conhece as letras; outra é mexer com o ícone de tantas gerações, com músicas que todos cantaram milhares de vezes.
Sem essa tradução de alto nível, não poderia existir “Hair” em português. Nada como o tempo para aproximar as gerações.
Nos idos de “Hair”, a geração dos meus pais, e dos pais dos personagens, me parecia irremediavelmente perdida — uma geração que não sabia nada da vida, que tinha mania de trabalho e obsessão com contas e contracheques. Hoje, que já sou mais velha do que era aquela geração naqueles tempos, me pergunto como imaginávamos sobreviver.
Era fácil ser hippie com mesada, e relativamente simples viver à margem da sociedade com casa e comida na retaguarda.
Os pais de Claude, que eram ridículos quando foram escritos, hoje, apesar de caricatos, me despertam certa simpatia. A mãe aspira a casa porque, afinal, alguém precisa cuidar da limpeza; e o pai cobra um trabalho do filho porque, até prova em contrário, seres humanos precisam trabalhar para garantir seu sustento.
O fato de exigirem que o filho se aliste são outros quinhentos; essa é uma parte do “sistema” que nunca vou conseguir entender. Não acredito mais que a convivência entre os bípedes deste planeta seja exatamente uma coisa simples, mas continuo firmemente convencida de que não é brigando que a gente se entende.
Blog: cora.blogspot.com. E-mail: cora@oglobo.com.br
Voto do nordestino vale o mesmo que o do paulista
Voto do nordestino vale o mesmo que o do paulista
Maria Inês Nassif - VALOR ECONÔMICO
O Brasil elegeu, por dois mandatos, um ex-metalúrgico como presidente da República. Agora elege uma mulher. Ambos de centro-esquerda. Para quem assistiu de fora a eleição de Dilma Rousseff e os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pode parecer que o país avança celeremente para uma civilizada socialdemocracia e busca com ardor o Estado de bem-estar social. Para quem assistiu de dentro, todavia, é impossível deixar de registrar a feroz resistência conservadora à ascensão de uma imensa massa de miseráveis à cidadania.
Ocorre hoje um grande descompasso entre classes em movimento e as que mantêm o status quo; e, em consequência de uma realidade anterior, onde a concentração de renda pessoal se refletia em forte concentração da renda federativa, há também um descompasso entre regiões em movimento, tiradas da miséria junto com a massa de beneficiados pelo Bolsa Família ou por outros programas sociais com efeito de distribuição de renda, e outras que pretendem manter a hegemonia. A redução da desigualdade tem trazido à tona os piores preconceitos das classes médias tradicionais e das elites do país não apenas em relação às pessoas que ascendem da mais baixa escala da pirâmide social, mas preconceitos que transbordam para as regiões que, tradicionalmente miseráveis, hoje crescem a taxas chinesas.
A onda de preconceito contra os nordestinos, por exemplo, é semelhante ao preconceito em estado puro jogado pelos setores tradicionais no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na própria eleita, Dilma Rousseff, durante a campanha eleitoral. É a expressão do temor de que os "de baixo", embora ainda em condições inferiores às das classes tradicionais, possam ameaçar uma estabilidade que não apenas é econômica, mas que no imaginário social é também de poder e status.
Há resistências à mobilidade social e regional
São Paulo foi a expressão mais acabada da polarização eleitoral entre pobres de um lado, e classe média e ricos de outro. Os primeiros aderiram a Dilma; os últimos, mesmo uma parcela de classe média paulista que foi PT na origem, reforçaram José Serra (PSDB). A partir de agora, pode também polarizar a mudança política que fatalmente será descortinada, à medida que avança o processo de distribuição regional de renda e de aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres. A hegemonia política paulista está em questão desde as eleições de 2006 - e Lula foi poupado do desgaste de ter origem política em São Paulo porque era também destinatário do preconceito de ter nascido no Nordeste; e, principalmente, porque foi o responsável pela desconcentração regional de renda.
Com a expansão do eleitorado petista no Norte e no Nordeste do país, houve uma natural perda de força dos petistas paulistas, diante do PT nacional. Do ponto de vista regional, o voto está procedendo a mudanças na formação histórica do PT, em que São Paulo era o centro do poder político do partido. Isso não apenas pelo que ganha no Nordeste, mas pelo que não ganha em São Paulo: o partido estadual tem dificuldade de romper o bloqueio tucano e também de atrair de novos quadros, que possam vencer a resistência do eleitorado paulista ao petismo.
No caso do PSDB, todavia, a quebra da hegemonia paulista será mais complicada. Os tucanos continuam fortes no Estado, têm representação expressiva na bancada federal e há cinco eleições vencem a disputa pelo governo do Estado. No resto no do país, têm perdido espaço. Parte do PSDB concorda com o diagnóstico de que a excessiva paulistização do partido, se consolida seu poder no Estado mais rico da Federação, tem sido um dos responsáveis pelo seu encolhimento no resto do Brasil.
Mas é difícil colocar essa disputa interna no nível da racionalidade, até porque o partido nacional não pode abrir mão do trunfo de estar estabelecido em território paulista; e, de outro lado, o partido de Serra tem uma grande dificuldade de debate interno - como disse o governador Alberto Goldman em entrevista ao Valor, é um partido com cabeça e sem corpo, isto é, tem mais caciques do que base. Não há experiência anterior de agregação de todos os setores do partido para discutir uma "refundação" e diretrizes que permitam sair do enclave paulista. Não há experiência de debate programático. E aí o presidente Fernando Henrique Cardoso tem toda razão: o PSDB assumiu substância ideológica apenas ao longo de seu governo. É essa a história do PSDB. A política de abertura do país à globalização, a privatização de estatais e a redução do Estado foram princípios que se incorporaram ao partido conforme foram sendo assumidos como políticas de Estado pelo governo tucano.
Todos os partidos, sem exceção, estão diante de um quadro de profundas mudanças no país e terão que se adaptar a isso. Fora a mobilidade social e regional que ocorreu no período, houve nas últimas décadas um grande avanço de escolaridade. A isso, os programas de transferência de renda agregaram consciência de direitos de cidadania. O país é outro. Não se ganha mais eleição com preconceito - até porque o voto do alvo do preconceito tem o mesmo valor que o voto da velha elite. Se os grandes partidos não se assumirem ideologicamente, outros, menores, tomarão o seu espaço.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras
'Alta ajuda'
'Alta ajuda'
José Miguel Wisnik – O Globo – Segundo Caderno
A poesia do ocidente faz do poema o lugar de uma ausência, e dessa ausência a sua autoridade
Esta semana Francisco Bosco escreveu aqui sobre a canção como “um gênero absurdo”. Ele se referia à situação estranha de escrever um tipo de poema, a letra de canção, que não se basta como tal mas que tem que virar música, que se destina a outra coisa e que, por isso mesmo, deixa a sensação (em quem a escreve?) de não lugar, de incompletude.
No final, ele chega a falar de um “malestar incontornável”, de uma impossibilidade do gozo, de ejaculação precoce, de coito interrompido, do absurdo de um gozo que se consuma como exterior ao corpo, em sua ausência.
Acostumado a acompanhar os argumentos construídos e equilibrados do colega de coluna, sempre voltados ao esclarecimento da experiência compartilhada e ao estabelecimento de princípios de valor geral (Francisco Bosco está criando um gênero próprio que poderíamos chamar de “alta ajuda”, que eu admiro e invejo), estranhei com interesse a sua ênfase meio deslocada no absurdo do gênero canção como um impossível de gozo. O exagero não ficava caracterizado se era teórico ou confessional, embora ficasse claro que estava ligado à sua experiência de letrista, de quem escreve letras para que outro musique, pondo-se necessariamente na condição de uma espécie de poeta incompleto que não chega a ser músico.
Não acho que os cancionistas que fazem música e letra, isto é, não o poema para uma música que ainda não existe mas a letra para uma música que existe enquanto está sendo feita, partilhem o mesmo sentimento de algo que nunca se completa.O momento em que a canção é finalizada é bem comparável, me parece, ao instantâneo lum i n o s o a q u e Bosco se refere a propósito da conc l u s ã o d e u m p o e m a . B o s c o não se estendeu também sobre a experiência de fazer letra para uma música já existente, que é a tendência mais comum na música popular.
Mas o tema da cisão entre poesia e música tem sim a ver com um antigo mal-estar associado à canção, ou suscitado por ela, indissociável do fascínio universal que ela provoca. No conhecido texto sobre “Os compositores e a língua nacional”, Mário de Andrade diz, contrariando o senso comum, que “é coisa bem sabida que em todos os tempos o canto viveu em luta com a poesia”. Tendo como base comum o ritmo e a voz, presentes no canto e na palavra, as duas “artes gêmeas” são repuxadas para direções opostas uma vez que, no canto, o ritmo tende ao “puro dinamismo fisiopsíquico” e, na poesia, aos “processos de pensar por meio de palavras”. Podese dizer o mesmo do silêncio da página e dos volteios da entoação. Mário invoca o arco primitivo, arcaico, da tradição védica, que é arma de combate capaz de atirar setas e ao mesmo tempo instrumento musical capaz de produzir sons afinados.
A voz, diz Mário de Andrade, é arco e lira, instrumento de fala e de canto, que emite tanto significações como puras sonoridades, obedecendo cada polo, segundo ele, a “exigências e destinos diferentes” e irreconciliáveis.
Essa visão conflituada e agônica da relação entre a palavra e a música, em Mário de Andrade, talvez esteja ligada ao fato de ele ter renunciado à música, isto é, ao gozo de “tocar um instrumento”, quando se tornou escritor. Certamente também ao seu desejo de superar programaticamente, na época, a distância entre a empostação do canto lírico e a naturalidade da voz que fala, problema que a canção popular, e João Gilberto, resolveram depois para todo o sempre. Mas liga-se ainda à temática da fratura metafísica da presença no sentimento e no pensamento ocidentais, isto é, da não coincidência da expressão com o conteúdo, do significante com o significado, da palavra com o som que a sustenta e do desejo com o seu objeto, nunca alcançado.
Giorgio Agamben diz que “a única tentativa coerente do pensamento ocidental para superar a fratura metafísica da presença” foi dada pela lírica amorosa do século XIII. Nesta, o destino melancólico do desejo, fadado a nunca encontrar plenamente seu objeto, é revirado pelo “pneuma”, o sopro, a voz que vem do coração, que mobiliza o “fantasma”, isto é, as imagens da fantasia, que desembocam nas palavras que, por sua vez, voltam à voz que vem do coração.
É nesse movimento circular que se produz a “estância”, a estrofe da canção — o abrigo em que se contempla e gratifica a falta do objeto impossível.
No “pneuma” o arco e a lira divergem e convergem, como em Heráclito: ele desfaz a dualidade entre o canto e a palavra. Nesse jogo alegre (“joi d’amor”) o desejo, o fantasma e a palavra (isto é, o real, o imaginário e o simbólico) se entrelaçam na música da língua. “Assim vou entrelaçando as palavras e compondo o som: língua entrelaçada no beijo”, diz o poeta músico medieval, nos lembrando do nosso bem conhecido “deixa eu roçar a língua na língua de Luis de Camões”.
De Petrarca a Mallarmé a poesia do ocidente faz do poema o lugar de uma ausência, e dessa ausência a sua autoridade. Agamben diz que a questão pendula entre o Édipo, que quer superar a barreira entre o som e o sentido, e a esfinge, que porta o enigma da sua intransponibilidade.
Quem hoje poderia, pergunta ele sem esperança de resposta, dar o passo capaz de “voltar a medir-se” com aquela poesia do amor inspirante, do sopro do coração que insufla as palavras e a música, para trás e para além da melancolia? Dorival Caymmi e o vento, eu diria. Muitas das canções que dele se irradiam.
“Doce sereia”, de João Bosco e Francisco Bosco.
'Joi d'amor'
'Joi d'amor'
Francisco Bosco – O Globo – Segundo Caderno
A excepcionalidade de se escrever uma "letra de música" sem música é que se mira num alvo que não existe
Em sua coluna do sábado passado, José Miguel Wisnik comentou minha coluna anterior, intitulada “Um gênero absurdo”. Antes de passar ao comentário, propriamente, ele se diz “acostumado a acompanhar os argumentos construídos e equilibrados do colega de coluna”, e define o que venho fazendo aqui neste espaço como “a criação de um gênero próprio que poderíamos chamar de ‘alta ajuda’, que eu admiro e invejo”. Wisnik é um de meus mestres, e saber que um mestre está me lendo assim, atento ao sentido geral do que venho escrevendo, é um contentamento que eu não poderia, nem desejaria, disfarçar. Isso é o mais importante para mim, pessoalmente, no que ele escreveu. Entretanto, a coluna dele, bela e exata no tocante a seus próprios argumentos, revela que o argumento central do meu texto não lhe ficou claro. Vou retomar o problema para tentar dirimir o mal-entendido.
Logo em seu primeiro parágrafo, Wisnik escreve: “Esta semana Francisco Bosco escreveu aqui sobre a canção como gênero absurdo.
Ele se referia à situação estranha de escrever um tipo de poema, a letra de canção, que não se basta como tal mas que tem que virar música, que se destina a outra coisa e que, por isso mesmo, deixa a sensação (em quem a escreve?) de não lugar, de incompletude.” Um pouco adiante, Wisnik escreve: “(...) Estranhei com interesse a sua ênfase meio deslocada no absurdo do gênero canção como um impossível de gozo.” Reli minha coluna após ler o comentário de Wisnik. Em nenhum momento falo da canção como gênero absurdo.
O que procuro delimitar e definir é a prática, cuja repetição me permitiu chamá-la de gênero, que consiste em os letristas escreverem um texto e oferecerem-no a um músico cancionista, dizendo-lhe “Fiz uma letra para você musicar”, e esperando que lhe devolvam uma canção. Portanto, o que chamei de gênero absurdo designava especificamente essa situação: a escrita de um texto, chamado pelos letristas de “letra”, sem que haja música, isto é, na ausência desta, antecipando-a, convocando-a, imaginando-a.
O absurdo é, em primeiro lugar, teórico. Na situação específica de que estou tratando, os letristas escrevem um texto que chamam de letra.
Ora, o que define o gênero letra de música é o seu copertencimento, junto à música, numa totalidade, que é a canção.
Esse copertencimento só passa a existir quando existe a canção. Antes disso, sem isso, não se pode chamar um texto de letra de música. (Depois disso, pode-se: se lemos, num livro, a letra de “Vai passar”, dizemos, com razão, tratar-se de uma letra de música, pois a música existe, ainda que, naquele momento, apenas na memória.) O absurdo é também prático.
Como se pode escrever algo que só se realiza plenamente fora de si, junto a um outro, a música, que contudo não existe (ainda)? O que normalmente acontece é que os letristas escrevem um texto que acreditam ter características de letra de música: maior redundância semântica e estrutural, sintaxe direta, registro coloquial. Isso é pertinente da perspectiva da experiência, pois a maior parte do cancioneiro popular é assim.
Mas não o é do ponto de vista teórico, pois “O estrangeiro”, de Caetano Veloso, não é assim, “Quilombo”, de João Bosco e Aldir Blanc, também não, e tantas outras.
Teoricamente falando, qualquer texto pode ser musicado e tornar-se canção. O próprio Wisnik transformou em (esplêndida) canção um denso poema de Drummond. A definição teórica de canção é o copertencimento de palavras e sons. Copertencimento não designa apenas coabitação.
Declamar um texto sobre uma base musical não faz canção. Para haver canção, é preciso haver uma relação de recíproca transformação entre palavras e sons, que viram uma coisa só.
Wisnik comenta: “Não acho que os cancionistas que fazem música e letra, isto é, não o poema para uma música que ainda não existe mas a letra para uma música que existe enquanto está sendo feita, partilhem o sentimento de algo que nunca se completa.” Concordo totalmente. Mas, repito, a experiência incompleta a que me referi é a da situação específica de se escrever uma “letra de música” sem música, sendo que a única coisa que torna um texto, qualquer que seja ele, uma letra de música é a música.
Isso é o absurdo da situação: escreve-se tendo em mente traços positivos — tanto usando uma linguagem mais redundante, quanto supostamente mais “rítmica”, mais “musical” —, sendo que só a música pode tornar aquele texto uma letra de música, a despeito de quaisquer traços positivos. Como se sabe, Chico Buarque transformou em canção o poema mais famoso do poeta mais famoso por sua antimusicalidade.
Wisnik diz ainda que não me estendi “sobre a experiência de fazer letra para uma música já existente, que é a tendência mais comum na música popular”. Ora, é a mais comum justamente porque é a mais pertinente (junto, claro, com fazer letra e música ao mesmo tempo).
Quando se faz letra para uma melodia, ou letra e melodia juntos, ou mesmo quando se faz música para um texto, transformando-o em canção — em todos esses casos os elementos estruturais necessários à canção estão presentes.
Cria-se com a referência da totalidade final. Pode-se, por isso, chegar a algum lugar.
A excepcionalidade de se escrever uma “letra de música” sem música é que se mira num alvo que não existe.
Por falta de espaço não poderei desenvolver uma questão decisiva que ressai disso tudo: por que fazer uma melodia sem letra, antes da letra, mas para ela, não parece uma prática absurda?
Abaixo, a CRÔNICA objeto da análise acima:
Um gênero absurdo
Francisco Bosco – O Globo – Segundo Caderno
Letra e música são os fios com que se tece o corpo final da canção
Como erigir o precário? Como produzir deliberadamente o inacabado e, ao mesmo tempo, dá-lo em algum momento por acabado? Que critério pode presidir a decisão sobre o acabamento do inacabado? Como determinar o indeterminado, definir o indefinido, concluir aquilo que entretanto tem como horizonte um estado final de incompletude? São esses paradoxos que conferem à letra de música escrita previamente à música um estatuto de gênero absurdo — cuja frequente realização em nada dissolve seu impasse estrutural.
O que diferencia, da perspectiva teórica, a letra de música e o poema é que aquela possui caráter heterotélico, ao passo que este, autotélico: a letra de música é sempre e necessariamente letra para música, tem como finalidade as reciprocidades estruturais de sentido que perfazem a totalidade estética da canção, enquanto o poema tem a si mesmo como finalidade. Não importa em que ordem cronológica foram feitas letra e música — se antes a letra, se antes a música, ou se ao mesmo tempo —, pois no tempo estético da canção elas são sempre simultâneas. Quando o letrista escreve a partir da melodia, leva em conta sua estrutura prévia, a fim de fazer uma letra para essa melodia; do mesmo modo o compositor, quando faz a música a partir de uma letra, compõe a música para essa letra: no momento em que a letra é feita para a música, a música torna-se para a letra — e vice-versa.
Esse para, em que reside o núcleo estrutural da canção, designa uma finalidade compartilhada: o objetivo da letra de música é pôr de pé a canção, letra e música são os fios com que se tece o corpo final da canção.
Já com o poema é diferente: ele tem por objetivo pôr-se de pé sozinho, através de seus próprios recursos.
Todo poeta sabe que um poema está pronto quando ele finalmente se põe de pé sobre a página.
Há um momento em que o poeta sente que pode largá-lo e ele não desabará. Às vezes tiram-se-lhe as mãos e contempla-se-o ereto, incontornável; outras vezes, quando largado, ele titubeia como um joão-bobo, e então, trabalho de rasuras e emendas, é preciso colocar-lhe calços, descobrir suas zonas de desequilíbrio, de fragilidade. O poema dirige-se à sua própria completude, a seu acabamento, à sua determinação. Do poema só se pode dizer que seja o avesso de tudo isso — aberto, incompleto, indeterminado — da perspectiva de seu sentido, de sua produção de enigma, não de uma perspectiva estrutural: a estrutura deve ser acabada, fechada em si, definida. É essa combinação, em níveis diversos, do precário e do sólido, do aberto e do fechado que faz com que o poema almeje ser enfim um “claro enigma”.
Mas a letra de música feita previamente à música uma vez que se dirige ao acabamento, não de si, mas da canção, e entretanto não conta ainda com a parte (a música) junto à qual, através das operações do para recíproco, formaria a totalidade da canção, não possui em seu processo de escrita nenhum critério confiável que possa assegurar o seu estar-pronta.
Como escrever uma letra para algo que todavia não há (ainda)? Aí começam as agruras: tenta-se adivinhar o que pode ser “musicável”, recusa-se o acabamento estrutural (isso seria escrever um poema), procura-se manter um certo estado de indefinição estrutural (pois caberá à música completar essa estrutura), sem contudo saber em que medida, pois o que daria a medida não há.
Em geral o que acaba operando como critério de orientação para a escrita desse gênero absurdo que é a letra de música antes da música é algo da ordem de uma economia restritiva: julga-se estar escrevendo uma letra quando se utiliza de maior redundância, sintaxe mais direta, menor densidade semântica, tomando essas características como propiciadoras daquela indeterminação estrutural que visa à sua locupletação pela música. Se tal estratégia tem lá a sua pertinência teórica e histórica (funda-se numa compreensão correta da heterotelia da canção e num conhecimento das formas mais habituais da tradição cancional brasileira), incorre entretanto no impasse efetivo de escrever mirando num ponto que não existe. Talvez seja nesse contexto que se deva compreender a declaração de método de Chico Buarque: “Eu faço a letra para a música que já existe.
Então muitas vezes eu faço isso comigo mesmo. Quer dizer, a música fica pronta, não aparece nada, não aparece nenhuma ideia de letra num primeiro momento; mais tarde eu vou preencher aquelas notas. De qualquer forma, a letra nunca é anterior à música.” Pois tão logo alguém se lança nesse estrambótico gênero, ou desiste rapidamente, ou chega a um fim que não termina, que não se declara, que não nos liberta da escrita, que paradoxalmente se adia: um fim que, findo, contudo se prolonga, votando-se à música que pode ou não efetivar seu fim como fim estético: acabamento, definição, pôr-se de pé. Se, como escreve o poeta Armando Freitas Filho, “um poema termina com um corte brusco de luz”, uma “letra1” sem música é escrita sob um céu cinza pálido que não admite contrastes.
Daí o mal-estar incontornável desse gênero: sente-se que afinal escreveu-se pouco, em sentido obviamente não quantitativo — algo como uma ejaculação precoce ou um coito interrompido: trata-se de um gênero que proíbe o gozo.
Ou que pelo menos o situa num lugar incerto e longínquo: a canção, uma vez surgida através da música que se sobrepôs à letra.
Mas aí o absurdo se estende e se agrava: é como um gozo exterior a seu corpo, que se consumou in absentia.
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