sábado, novembro 13, 2010

Shigeru Miyamoto

Shigeru Miyamoto
Hermano Vianna – O Globo – Segundo Caderno
Segundo Jesse Schell, os games ainda estão no estágio do cinema mudo
Na semana passada, a Microsoft lançou o Kinect para Xbox 360. Foi o terceiro console a seguir a tendência, iniciada pelo Wii da Nintendo e depois pelo recente Playstation Move da Sony, de tirar os games da tela e misturá-los com o mundo. O Kinect tem câmera, microfone e sensores 3D que captam movimentos e falas. Assim, o jogador não precisa mais de controle para interagir com os games: ele está dentro do jogo. A empresa de Bill Gates diz que vai vender cinco milhões de Kinects em 2010. A Sony diz que já vendeu 2,5 milhões de Moves só nos EUA e na Europa. Números impressionantes. Mas ainda merreca se comparados com o US$ 1 bilhão que a Nintendo arrecadou só com o WiiFit, aquela “balança” de malhação do Wii. Shigeru Miyamoto, o gênio por trás de tudo o que a Nintendo lançou nos últimos 25 anos, continua em outro level, muitos pontos à frente nesse jogo feroz que vai determinar o futuro do entretenimento.
Vinte e cinco anos é a idade de Mario, aquele simpático encanador bigodudo que hoje tem a imagem tão reconhecivelmente pop quanto Mickey Mouse. Mario foi criação de Miyamoto, primeiro participando do triângulo amoroso de “Donkey Kong”, que é considerado decisivo na história dos games não apenas por ter lançado personagens que hoje são celebridades, mas por sua concepção engenhosa de plataformas e obstáculos, que depois se tornaram elementos triviais em muitos outros jogos.
Além de Mario, Miyamoto é também pai das oníricas personagens da série Zelda, que inclui alguns campeões da lista de melhores games de todos os tempos, influenciando o imaginário de várias gerações de adolescentes.
Shigeru Miyamoto
Todas as suas séries reunidas (Mario, Zelda e vários games, entre eles aqueles estrelados pelos fofíssimos Nintendogs) venderam mais de 350 milhões de exemplares. Não contente com ess e sucesso na criação de jogos, Miyamoto passou também a ser inventor de equipamentos que expandiram em muito a “jogabilidade” de seus universos ficcionais paralelos, lançando novas maneiras de brincar com a informação eletrônica, reinventando a indústria da qual faz parte.
Quando vi pela primeira vez alguém usando o controle do Wii como se fosse uma raquete de tênis, batendo na bola que era “arremessada” da tela da TV, eu pensei: “Será que tenho mesmo que encarar isso com naturalidade?” Nunca tinha presenciado algo tão parecido com ficção científica maluca. Hoje aquilo é totalmente natural.
Miyamoto é nosso melhor professor para a vida nessa nova natureza, desenvolvida em sua mente e em seus laboratórios.
Mas quem é esse cara que tem tanto controle sobre nossas vidas? Pouca coisa é realmente interessante na vida dele. Não é como Will Wright, outro gênio dos games, que tem atuação midiática mais “condizente” com artistas de sua estatura.
Miyamoto parece um trabalhador comum da indústria japonesa, nem considera o que faz uma arte, não dá entrevistas citando filósofos e cientistas, é figura tímida e quase apagada. Até hoje, quando tem 58 anos, fica religiosamente na Nintendo das 9h às 22h/24h, tendo mesmo se casado com outra funcionária da empresa.
Algumas de suas declarações famosas soam simplórias, jogando contra suas invenções, ou contra seu papel nessas invenções. Nos autógrafos para fãs crianças, ele escreve: “Em dias de sol, brinque ao ar livre.” Sobre o que busca em novos profissionais: “Quando alguém se destaca demais na fase de seleção, geralmente acabamos descobrindo que ele é do tipo que trabalha melhor sozinho, e, atualmente, para atuar na criação de jogos, é vital saber trabalhar em equipe.” Tudo bem japonês. Na realidade, como diz Jesse Schell, “a maioria dos mundos transmídia de sucesso está enraizada na imaginação e no estilo estético de um único indivíduo.
Gente como Walt Disney, Shigeru Miyamoto, L. Frank Braun, Tajiri Satoshi e George Lucas”. Schell é o pensador “da hora” quando o assunto é game. Foi catapultado para o mundo dos gurus há pouco tempo, através do vídeo de sua conferência (bit.ly/bf55MV) na D.I.C.E (Design Innovate Communicate Entertain), encontro fundamental para a indústria dos jogos eletrônicos (em 2011 terá sua décima edição), que acabou tendo mais de um milhão de views nos YouTubes da vida.
Uma palestra mais recente (bit.ly/bT62k3), proferida na Long Now Foundation, é uma maratona de boas ideias, um mapa essencial para nos guiar no mundo pós-Miyamoto, pós-Wii. Vale a pena ser assistida na íntegra, apesar de suas duas horas de duração (e uma alma generosa poderia colocar legendas em português no vídeo).
Schell é profeta do “gameapocalipse”, o momento em que estaremos envolvidos em jogos a cada segundo de nossas vidas. Por exemplo: você acorda e vai escovar os dentes, a escova tem sensores conectados via wi-fi à internet, a cada escovada você ganha pontos que poderão significar descontos na próxima ida ao dentista.
Ou então: na caixa do sucrilhos do café da manhã haverá uma tela através da qual você poderá se comunicar com seus amigos do Orkut que gostam daquela marca de cereais. E assim por diante. Schell diz que os games ainda estão no estágio do cinema mudo. Todo mundo achava engraçadinho, mas ninguém levava os filmes muito a sério. Até que surgiu o cinema falado. O que vai ser a “fala” no mundo dos games? Esperemos as próximas invenções de Miyamoto. Quietinho lá em Kioto, ele ainda vai nos surpreender muito, e mudar nossas vidas várias vezes.

Amorim, para o Correio do Povo


Trabalho é trabalho

Trabalho é trabalho
Arthur Dapieve – O Globo – Segundo Caderno
Lembranças de Duran Duran e A-Ha nos anos 80
‘Quem se lembra dos anos 80 é porque não estava lá”, diz um ditado mais ou menos popular. Bem, lembro-me de algumas coisas.
Talvez porque de vez em quando eu praticasse a sobriedade. Era preciso trabalhar. Duas das minhas memórias mais insólitas, por sinal, dizem respeito a coletivas de imprensa realizadas no final daquela década. Elas dão uma pálida ideia de como as coisas podiam ser ingenuamente doidas.
Primeiro, foi a entrevista do Duran Duran, uma das atrações do Hollywood Rock de 1988. O grupo de Birmingham, na Inglaterra, era um dos expoentes do que a gente então chamava de “novos românticos”, que se vestiam como dândis, cantavam amores impossíveis e investiam toda a mesada em teclados — daí um rótulo alternativo e mais genérico, “tecnopop”. Naquela primeira visita ao Brasil, o Duran Duran era formado pelo vocalista Simon Le Bon, pelo tecladista Nick Rhodes e pelo baixista John Taylor.
Isso significava que dois membros da formação que os levou a serem chamados por fãs mais exaltados de “Fab Five”, o guitarrista Andy Taylor e o baterista Roger Taylor (nenhum parentesco entre os três Taylor), já haviam pedido as contas. Virar um trio não os tornara menos populares. Ao menos não no Brasil, onde muitas meninas e alguns rapazes gritavam por eles como hoje gritam, sei lá, pelos Jonas Brothers ou pelo Restart. Pelo aspecto da idolatria, o Duran Duran ainda era, sim, o “Fab Three”.
Os membros do grupo estavam hospedados no Copacabana Palace. Em vez de ficarem sentados atrás de uma mesa, respondendo às perguntas com o protocolar ar blasé dos roqueiros, os três ficariam circulando pelo terraço, atendendo aos jornalistas quase caso a caso. A ideia era simpática. Ela não contava, porém, com duas variáveis: a) o plano vazou para os fã-clubes; b) a maioria dos repórteres brasileiros não falava inglês, e olhe que os caras nem ostentavam o pesado sotaque de Birmingham.
Uma galera inteiramente distinta, a do Black Sabbath, também é de lá. Na sua hilariante autobiografia, Ozzy Osbourne conta como era difícil para as pessoas entenderem o primeiro nome da banda, Earth, quando “latido” no sotaque local.) E lá fui eu, pelo antigo “Jornal do Brasil”.
Além das laudas para anotar as declarações de Le Bon, Rhodes e Taylor, levei a pedidos a prima paulista de uma colega de redação.
Pouco mais nova do que eu, a menina era louca pela banda, uma duranie de carteirinha. Eu previa problemas. Quando chegamos, o terraço do Copa já parecia ter se transformado num set de “Os reis do iê-iê-iê”, com os “Fab Three” no papel dos “Fab Four”. As fãs faziam o de sempre: corriam feito baratas tontas, soltavam gritinhos, passavam mal. Felizmente, minha acompanhante portou-se bem. Tanto que fomos tomar uns drinques no Crepúsculo de Cubatão, mais tarde. Ou no ano seguinte, ou anos depois, não me lembro bem. Estamos falando da década de 80, não estamos? A entrevista, em si, não chegou a ser prejudicada pelo formato pouco ortodoxo, apesar de ser chato ficar traduzindo as declarações para os coleguinhas que não tinham frequentado o Curso Oxford. Os caras do Duran Duran foram extremamente gentis e profissionais. Eram ingleses, ora bolas. Dava para notar que Le Bon já estava adentrando a sua fase “Elvis em Las Vegas” meio balofo, mas era um sujeito bonitão, carismático.
Procurei aqui na minha pasta de recortes o resultado impresso daquele final de tarde e não encontrei. Não me lembro das declarações, assim como também não lembro nada do show na Praça da Apoteose, o que apenas comprova que eu estava lá.
A segunda coletiva insólita foi a do trio norueguês A-Ha, realizada no ano seguinte, no Othon Palace. Como “rivais” do Duran Duran, eles tocariam na mesma Praça da Apoteose. A procura foi tamanha que foi necessário adicionar uma segunda noite à excursão. No hotel, embora tivessem mantido a feição tradicional das entrevistas coletivas, com os caras sentados atrás de uma mesa, respondendo às perguntas com o protocolar ar blasé dos roqueiros, o salão havia sido invadido pelas fãs, que se esmeraram em perguntas como: “Morten, você faz canções todas muito lindas. Mas qual é aquela que te toca mais fundo?” Resposta, gélida como um fiorde: “Todas.” Não me lembro disso. É que achei a reportagem na velha pasta de recortes. Encontrei também a crítica que fiz detonando o show.
Não consta do texto, entretanto, que trombei com Renato Russo no meio daquela multidão compacta de fãs. Ele sempre teve uma curiosidade antropológica por boy bands e assemelhadas. Não à toa viria a gravar uma canção dos Menudos. Lembro, ainda, que a equipe que cobriu o espetáculo para o jornal foi junta fumar e beber pra esquecer.
Eram os anos 80, lembra? Aliás, como cada lembrança tem a madeleine que merece, essas aí foram suscitadas pela notícia do relançamento no exterior, em edições superespeciais, duplas, com DVDs e o escambau, de “Notorious” e “Big thing”, os LPs mais recentes do Duran Duran por ocasião daquela vinda de 1988. Parece que o primeiro traz até cenas do show no Rio. Cogitei comprar, para ver se me lembro de alguma coisa, mas permaneço em dúvida.
“Notorious” não é o melhor disco do grupo, e há coisas que é mais prudente deixar para trás, embaladas pela benevolência da memória. Ou da falta dela.
E-mail: dapieve@oglobo.com.br

Jorge Braga


Obama derrotou Obama

Obama derrotou Obama
Por Luiz Eça*, para o Correio da Cidadania
Diante da derrota eleitoral de 2 de novembro, todo mundo reconhece que Barack Obama sofreu os efeitos de uma crise que ele não criou. Os grandes culpados são, sem dúvida, seus antecessores, Clinton e Bush, "que deixaram os touros de Wall Street avançarem selvagemmente na vida das pessoas comuns" (Robert Scheer, no Truthdig).
Aparentemente, o povo americano não se deu conta da cumplicidade do Partido Republicano, que deu todo apoio à desregulamentação radical da indústria financeira responsável pela crise. Tanto é que o premiou com a vitória.
O que se discute é se Obama poderia lidar melhor com a situação e assim, talvez, tirar dos seus ombros o peso negativo da crise.
O respeitado economista Paul Krugman sustenta no New York Times de 24 de outubro que Obama colaborou para criar uma imagem negativa de sua atuação e, por extensão, do Partido Democrata. Diz ele que o presidente e seus economistas ignoraram as lições da História, segundo as quais, depois de uma grave crise econômica, segue-se fatalmente um longo período de desemprego crescente. E garantiram ao povo que o desemprego bateria nos 9% e, em seguida, cairia rapidamente, alimentando assim falsas esperanças.
Krugman foi além: "A América precisava de um programa muito mais forte do que um modesto aumento nos gastos federais... A inadequação do estímulo era óbvia desde o início".
É certo, porém, que o plano econômico de Obama conseguiu alguns resultados. Estima-se que sem ele o desemprego no mês passado alcançaria 12%. Além disso, enquanto o déficit no último orçamento de Bush era de 1,465 trilhão de dólares, no primeiro orçamento de Obama caiu para 1,29 trilhão.
Mas não deu para o povo americano perceber esses detalhes em um quadro geral catastrófico: o desemprego chegou aos 9% e não parou de crescer. Em setembro foi para 9,6%, permanecendo nesse patamar em outubro. O nível de endividamento da população manteve-se muito alto. E as desapropriações, embora em número decrescente, não deixaram de alcançar cifras pesadas.
Como Obama dispunha da maior credibilidade, seu otimismo tinha dado esperanças às pessoas. Quando sentiram que as promessas do governo não estavam se concretizando, o desencanto foi enorme, gerando uma reação profundamente negativa.
Obama passou de herói a vilão. Um presidente sem competência para lidar com situações adversas. Perdendo a confiança no seu líder, os americanos voltaram-se para a única opção de que dispunham: os republicanos, que vinham constantemente denunciando os presumíveis erros do governo.
Isso aconteceu até com os eleitores independentes. Eles eram fundamentais para o Partido Democrata. Nas eleições de 2006, a maioria dos independentes optou por Obama em um score de 57% a 39%.
Agora, esses números se inverteram: os republicanos ganharam por 55 % x 39%. Os democratas também perderam os jovens (18-29 anos), um segmento fundamental, não só por seus votos, mas também pela sua capacidade de mobilização. Normalmente, nas eleições, os índices de abstenções deste público são muito altos, traduzindo seu desinteresse e desânimo diante da política.
A mensagem de mudança de Barack Obama mudou essa situação. Empolgados, eles fizeram mais do que votar. Era de jovens a maioria das 13 milhões de pessoas que militaram ativamente na campanha eleitoral de Obama, em 2008.
E eles foram às urnas em grande número, apresentando um comparecimento recorde para os EUA (51,1% - Instituto de Políticas de Harvard), sendo que quase o dobro optou pelo candidato democrata - 60% contra 38%.
Esse segmento do público, com os sindicatos, os liberais, os esquerdistas e os moderados do Partido Democrata, acreditava na mudança que Obama prometia. Que, com ele, os EUA seriam respeitados pela justiça, e não temidos pela força. E que os direitos humanos - esquecidos por Bush – seriam firmemente promovidos no país e no mundo.
As primeiras decepções começaram antes mesmo de Obama tomar posse, quando ele anunciou seus principais auxiliares. Talvez querendo formar uma "base aliada" que garantisse a aprovação dos seus projetos, o presidente nomeou pessoas das mais diversas orientações políticas (com exceção dos liberais de esquerda).
Para as áreas que cuidariam da política externa, Obama escolheu nada menos do que 20 notórios "falcões".
Robert Gates, ex-secretário da Defesa de Bush, continuou no cargo; Hillary Clinton foi para o Departamento de Estado; o general James Jones, para a assessoria especial de Relações Exteriores. Pelo passado desse trio, a política externa dos EUA dificilmente iria mudar. Na verdade, mudou num ponto: na retórica.
Havia uma perfeita divisão de trabalho entre Obama e seus auxiliares. A ele, cabiam as belas palavras; a eles, as ações duras. Obama fez um histórico discurso no Cairo, prometendo uma nova era no relacionamento EUA-Árabes, na qual o presidente garantia um Estado aos palestinos e amizade, baseada na justiça, a todos os povos islâmicos.
E, de fato, passou a exigir que o primeiro ministro Netanyahu interrompesse os assentamentos israelenses na Cisjordânia como primeiro passo para uma negociação de paz baseada na idéia dos dois Estados.
Talvez para agradar aos israelenses e convencê-los a abrandarem suas posições, os EUA condenaram o relatório Goldstone, que acusou o exército de Tel-aviv de crimes de guerra no ataque a Gaza; sabotaram a realização de um inquérito da ONU sobre o assunto; passaram panos quentes no massacre do navio que levava socorro humanitário a Gaza; ignoraram o assassinato de líder palestino pelo Mossad em Dubai; impediram que a ONU tomasse atitudes mais fortes contra o bloqueio de Gaza por Israel, entre outras ações e omissões.
Nada feito, Netanyahu, no máximo, aceitou uma interrupção parcial e por 10 meses dos assentamentos, saudada por Obama como uma grande contribuição à paz. Findo o prazo, por mais que Obama pedisse, o líder israelense recusou-se a prolongá-lo. Diante disso, os árabes não voltaram à mesa das negociações.
E tudo continua como antes. Algo semelhante aconteceu no front do Irã. Obama proferiu lindos discursos, estendendo suas mãos para os aiatolás. Proclamou que estava aberto às negociações. Mas nada fez de concreto.
Hillary fez: proferiu uma sucessão de ameaças, inclusive o famoso "todas as opções estão sobre a mesa".
Quando a Turquia e o Brasil conseguiram um primeiro acordo para resolver a questão atômica, os EUA simplesmente o rejeitaram, ao mesmo tempo em que apressavam a ONU para bombardear Teerã com novas sanções. Mais uma vez, nada de mudanças.
Aparentemente, elas aconteceram no Iraque. Afinal, as tropas americanas se retiraram, 19 meses depois da posse de Obama.
Retiraram-se? Em termos, pois permaneceram 50 mil soldados. É ridícula a explicação de que lá estão para treinar as tropas iraquianas e garantir a democracia do país.
Democracia, pero no mucho... Os últimos documentos revelados pelo Wikkileaks revelam barbaridades cometidas pelo exército iraquiano contra prisioneiros, sob olhares indiferentes de soldados americanos. Os quais, aliás, estariam cumprindo ordens de "fechar os olhos", que partiram dos altos escalões das forças armadas.
O triste é que o governo americano não está investigando esses graves fatos. Prefere fazer outra coisa. Julian Assange, o responsável pelo Wikileaks, informa: "Washington realiza uma investigação agressiva sobre nossa organização, com ameaças públicas, e pediram para destruirmos todos os documentos que temos, o que não aceitamos". Bush não faria diferente.
No Afeganistão, porém, Obama vai além de Bush. Por sua ordem, o número de bombardeios sobre a região fronteiriça do Paquistão com aviões sem piloto é muito maior do que o realizado na administração anterior.
Muito mais talibãs estão sendo mortos. E muito mais camponeses afegãos inocentes morrem com eles, pois os "bombardeios cirúrgicos" costumam deixar muitas vítimas num grande raio ao redor do alvo.
Para completar o rol das decepções, entramos na área dos Direitos Humanos. Aqui houve uma mudança: Obama proibiu terminantemente as torturas, inclusive o "waterboarding", tão em moda na era Bush. É verdade que se nega a processar aqueles que usaram esses métodos antes de sua posse, embora já fossem proibidos pelas leis americanas.
Animou bastante os liberais e os jovens quando declarou que cumpriria sua promessa de fechar Guantánamo em um ano. Infelizmente, por pressão militar, voltou atrás. Alegou que muitos dos prisioneiros, "sabidamente culpados", poderiam ser absolvidos na justiça civil e assim voltariam ao sinistro mundo terrorista.
É um interessante conceito de justiça. As autoridades de segurança podem decidir que alguém é culpado de terrorismo, mesmo que não haja provas suficientes para um juiz togado condená-lo. E o réu permanece preso ad aeternum.
Diante de tantas mudanças prometidas e fracassadas, Barack Obama foi interpelado por um jovem admirador desiludido. Ele respondeu que dois anos era pouco para mudar tudo. Tinha conseguido alguma coisa, a reforma da saúde, por exemplo. Seria preciso dar mais tempo para realizar o que faltava. Mas os jovens não deram.
Pesquisa do Instituto de Política de Harvard, realizada poucos dias antes da eleição, revelou que menos de três em cada 10 americanos na faixa de 18 a 29 anos afirmaram que iriam votar com certeza. O Partido Republicano foi o mais votado por eles: 54% x 43%.
Sem os independentes e sem os jovens, os democratas não tinham como vencer. Discute-se se Obama poderia ser mais eficaz no combate à crise, realizando mais mudanças em áreas chaves como política externa e direitos humanos.
O fato é que, nas vezes em que tentou enfrentar o "establishment, cedeu muito rapidamente.
E, se ficou muito aquém do que se esperava quando tinha maioria nas duas casas do Congresso, o que fará agora que não tem mais?
*Luiz Eça é jornalista. (Envolverde/Correio da Cidadania)

Duke


Em defesa da estudante Mayara

Em defesa da estudante Mayara
JANAINA CONCEIÇÃO PASCHOAL - FOLHA DE SÃO PAULO - 12/11/10
Mayara 
Não parece justo que Mayara seja demonizada como paulista racista, quando o mote da campanha eleitoral foi o da oposição entre as regiões
Sou neta de nordestinos, que vieram para São Paulo e trabalharam muito para que, hoje, eu e outros familiares da mesma geração sejamos profissionais felizes com sua vida neste grande Estado brasileiro.
É muito triste ler a frase da estudante de direito Mayara Petruso, supostamente convocando paulistas a afogar nordestinos.
Também é bastante triste constatar a reação de alguns nordestinos, que generalizam a frase de Mayara a todos os paulistas.
Igualmente triste a rejeição sofrida pelo candidato da oposição à Presidência da República, muito em função de ele ser paulista. Todos ouvimos manifestações no sentido de que, tivesse sido Aécio Neves o candidato, Dilma teria tido mais trabalho para se eleger.
Independentemente da tristeza que as manifestações ofensivas suscitam, e mais do que tentar verificar se a frase da jovem se "enquadraria" em qualquer crime, parece ser urgente denunciar que Mayara é um resultado da política separatista há anos incentivada pelo governo federal.
É o nosso presidente quem faz questão de separar o Brasil em Norte e Sul. É ele quem faz questão de cindir o povo brasileiro em pobres e ricos. Infelizmente, é o líder máximo da nação que continua utilizando o factoide elite, devendo-se destacar que faz parte da estigmatizada elite apenas quem está contra o governo.
Ultrapassado o processo eleitoral, que, infelizmente, aceitou todo tipo de promessas, muitas das quais, pelo que já se anuncia, não serão cumpridas, é hora de chamar o Brasil para uma reflexão.
Talvez o caso Mayara seja o catalisador para tanto.
O Brasil sempre foi exemplo de união. Apesar das dimensões continentais, falamos a mesma língua.
Por mais popular que seja um líder político, não é possível permitir que essa união, que a União, seja maculada sob o pretexto de se criarem falsos inimigos, falsas elites, pretensos descontentes com as benesses conferidas aos pobres e aos necessitados.
São Paulo, é fato, é fonte de grande parte dos benefícios distribuídos no restante do país. São Paulo, é fato, revela-se o Estado mais nordestino da Federação.
Nós, brasileiros, não podemos permitir que a desunião impere. Tal desunião finda por fomentar o populismo, tão deletério às instituições no país.
Não há que se falar em governo para pobres ou para ricos. Pouco após a eleição, a futura presidente já anunciou o antes negado retorno da CPMF e adiou o prometido aumento no salário mínimo. Não é exagero lembrar que Getulio Vargas era conhecido como pai dos pobres e mãe dos ricos.
Não precisamos de pais ou mães. Não precisamos de mais vitimização. Precisamos apenas de governantes com responsabilidade.
Se, para garantir a permanência no poder, foi necessário fomentar a cisão, é preciso ter a decência de governar pela e para a União.
Quanto a Mayara, entendo que errou, mas não parece justo que seja demonizada como paulista racista, quando o mote dado na campanha eleitoral foi justamente o da oposição entre as regiões.
Se não dermos um basta a esse estratagema para manutenção no poder, várias Mayaras surgirão, em São Paulo, em Pernambuco, por todo o Brasil, e corremos o risco de perder o que temos de mais característico, a tolerância. Em nome de meu saudoso avô pernambucano, peço aos brasileiros que se mantenham unidos e fortes!
JANAINA CONCEIÇÃO PASCHOAL, advogada, é professora associada de direito penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Caio Fábio acusa bispo Manoel Ferreira de ser maçom e que manda matar gente.

Caio Fábio acusa bispo Manoel Ferreira de ser maçom e que manda matar gente.


O Bispo Manoel Ferreira, líder da Assembleia de Deus Ministério Madureira tem se envolvido em várias polêmicas nos últimos dias.
O pastor Caio Fábio conhecido por não ter papas na língua, em seu programa “Papo de Graça” faz duras criticas a Manoel Ferreira, afirmando entre outras coisas que Manoel Ferreira é membro da maçonaria e que manda “matar gente”.
“Se quiser me encarar, eu estou te convidando há anos” esbraveja Caio Fábio contra bispo Ferreira.
Fonte: Gospel Prime

Elefantes de Samburu, no Quênia

Fotografia por Michael Nichols, a National Geographic

O dia em que Sílvio Santos fez a imprensa de boba

O dia em que Sílvio Santos fez a imprensa de boba
Blog do Ricardo Setti
Amigos do blog, apresento-lhes neste texto um dos melhores jornalistas que conheço: o bravo gaúcho Luiz Cláudio Cunha, que já enriqueceu redações e chefias em veículos como VEJA e o Estadão, e é autor de um esplêndido livro sobre um caso emblemático da nefanda “Operação Condor” — colaboração entre os órgãos de repressão das ditaudras que oprimiu o Cone Sul — que ele desvendou e cobriu quando chefiava a sucursal da revista em Porto Alegre, Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (editora L&PM, 2008).
Sílvio Santos não poderá mais repetir o seu famoso bordão: “Quem quer dinheiro?”.
Abriu-se na sexta-feira o baú de infelicidades do mais famoso animador de auditório da TV brasileira, dono do SBT, a terceira maior rede do país no ranking de audiência, transmitida por 106 emissoras (15 próprias e 91 afiliadas).
O seu banco, o Panamericano, queria dinheiro, muito dinheiro, para cobrir o rombo de 2,5 bilhões de reais no seu balanço fraudado. O banco de SS repassava carteiras de créditos de suas operações para outros bancos, mas não contabilizava essa transferência no balanço, que justificaria hoje o bordão de Santos no programa Tentação: ”Vale dez reais?”
No melhor estilo Lula, Sílvio Santos apressou-se a declarar: “Eu não sabia de nada”.
A fraude do lucro inflado no banco do apresentador de Topa Tudo por Dinheiro representa 40% dos ativos do Panamericano, que somam R$ 6,5 bilhões, e passou batido por uma das mais respeitadas empresas de auditoria do mercado, a Deloitte.
A solução engenhosa para sair da enrascada estava embutida num dos bordões mais conhecidos de SS: “Vem pra cá, vem pra cá”.
Foi o que ele disse ao governo Lula, que foi lá para o SBT em apuros, já que tinha interesse no caso — a Caixa Econômica Federal adquiriu no ano passado 49% das ações do banco –, por meio do camarada FGC, o Fundo Garantidor de Crédito, mantido pelos bancos mas sensível a apelos federais. Sobretudo quando o Banco Central recomenda que apóie determinadas operações.
O FGC, a quem SS ofereceu 44 empresas de seu grupo como garantia, disse que a recomendação de socorro feita pelo Banco Central tinha por objetivo evitar o “risco sistêmico” que poderia abalar a área financeira do país.
Quando o PT de Lula era oposição, essa desculpa do PSDB de FHC era motivo de zombaria para a inclemente confraria petista.
O sempre bem informado Guilherme Barros, colunista de economia do portal iG, informou que o BC, ao contrário de Lula e de Silvio Santos, sabia de “inconsistência contábil” no Panamericano há dois meses, ou seja, desde setembro.
Foi examente em setembro, uma quarta-feira, 22, dez dias antes do primeiro turno da eleição presidencial, que Sílvio Santos visitou Lula inesperadamente no Palácio do Planalto, causando o alvoroço previsível.
Naquele dia, o sorridente SS avisou que estava ali apenas para convidar o presidente para a abertura do Teleton, um programa que arrecada recursos para crianças e adolescentes com necessidades especiais. No embalo, ainda arrancou uma doação de R$ 12 mil de Lula.
Silvio atropelou a agenda presidencial, tirando do caminho uma reunião prevista para aquele horário justamente com Henrique Meirelles, o presidente camarada do BC que dois meses depois seria fiador do SOS para SS.
O que espanta, neste processo, é a inconsistência sistêmica da imprensa brasileira, que cobriu burocraticamente a surpreendente visita de SS ao Planalto: “Não venho aqui desde o governo Itamar Franco”, avisou ele, ou seja, fazia já 18 anos.
E os repórteres e editores engoliram, em seco, a explicação boboca sobre o Teleton. Se não fosse tão preguiçoso, habituado ao declaratório e ao oficialiesco, um jornalismo esperto poderia ter percebido ali as fagulhas do rolo do Panamericano que enfiou o FGC, o governo e Sílvio Santos no mesmo baú de desinformação e incertezas.
O desprezo de SS pela notícia já faz parte do folcore nacional. Na noite de 17 de julho de 2007, as maiores redes de TV do país interromperam a cobertura dos Jogos Panamericanos do Rio para mostrar as primeiras imagens fumegantes do Airbus da TAM que explodiu no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O SBT foi o último a informar sobre a tragédia.
Nem Bin Laden conseguiu desfazer o sorriso de plástico de SS. No 11 de setembro de 2001, o dia do maior ataque terrorista da história, que as TVs do mundo inteiro cobriram ao vivo para o mundo estarrecido, o SBT continuou, impávido, a transmitir sua programação normal, quebrada apenas por breves flashes de plantão nos horários comerciais.
Naquele dia, o SBT atingiu um dos menores índices de audiência de sua história.
Prova de que o povo, apesar de Sílvio Santos e alguns de nossos jornalistas, não é bobo.

Solda, para O Estado do Paraná


Nada inocentes

Nada inocentes
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 12/11/10
RIO DE JANEIRO - Fess Parker, o ator que interpretou o caçador Davy Crockett numa série produzida por Walt Disney para a TV americana nos anos 50, morreu em março último, e seus obituários ressaltaram o assombroso sucesso dos filmes: 40 milhões de telespectadores por semana, de 1954 a 1956, e um gigantesco merchandising em torno do personagem.
Durante anos, os garotos americanos obrigaram seus pais a comprar-lhes um chapéu de guaxinim, com rabicho e tudo, como o usado por Davy. Além dos mocassins, jaquetas de franjas e calças (tudo de couro), mochilas, rifles de brinquedo, machadinhas, quebra-cabeças, gibis, o disco com "The Ballad of Davy Crockett" e toda quinquilharia que se referisse ao herói.
Hoje, o herói já não o é tanto. Descobriu-se que Crockett, vivendo na floresta, não matava animais apenas para comer, mas esfolava-os -coatis, gambás, castores, alces, gamos e até ursos- às centenas, e vendia seus couros e peles para os intermediários que abasteciam os empórios. Vivia disso. E, de couro dos pés à cabeça, ele já era um comercial de si próprio.
Sem saber que incidia em pecado, a série também mostrava Crockett como matador de índios e feroz perseguidor dos mexicanos que ousavam conspurcar o solo dos EUA. Enfim, agora descobrimos que, aos olhos do politicamente correto, não podia haver personagem pior.
Até morrer, em 1966, Walt Disney (o Monteiro Lobato americano, só que ao cubo em matéria de negócios) nunca se preocupou com isso. Os meninos que idolatravam a série também não reparavam nas maldades de Davy. Da mesma forma, os milhões de brasileiros inocentes que lemos Lobato em criança nunca nos demos conta de que Tia Nastácia vivia sendo humilhada pelo autor. Tivemos de esperar 50 anos para que adultos de hoje, mais perspicazes e nada inocentes, finalmente nos informassem disso.

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