sábado, maio 29, 2010

FLY

Morosidade aumenta sensação de impunidade

Crime e castigo
Morosidade aumenta sensação de impunidade

Por Lilian Matsuura

Pela primeira vez na história do país, um governador em pleno exercício do poder foi preso. Em um só ano, governadores, senadores e deputados foram expulsos do cargo por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. O Congresso decidiu impedir quem tem condenação, mesmo com possibilidade de recorrer, de concorrer a um cargo público. Os investimentos em tecnologia a serviço da Polícia Federal nos últimos anos foram altos e, depois de reprimendas judiciais, os espetáculos das operações passaram a ser menos frequentes.
Diante desse quadro, que poderia ser considerado pela população como um avanço, a sensação de impunidade continua a permear a sociedade brasileira, em todas as classes, raças e credos. Intrigada com um possível descompasso entre as medidas definidas pelo Estado e o resultado alcançado, a ConJur foi procurar respostas.
Qual a principal razão da sensação de impunidade no Brasil? Perguntou a juízes, advogados, defensores públicos, promotores de Justiça. Recebeu visões múltiplas e até “provocações”, como a do criminalista Técio Lins e Silva. “Não há impunidade. Ao contrário, a Justiça Penal brasileira é insaciável e condena impiedosamente. Basta olhar para os cárceres e ver o imenso contingente de presos amontoados, sujos, maltrapilhos, onde não faltam sarnas e piolhos, para dizer o menos. Impunidade? Nunca se condenou tanto no Brasil”, diz.
Para ele, “a sensação, calejada no exercício da defesa dos perseguidos, não é de impunidade; é de injustiça”. O advogado reclama do que chama de sede de condenação, de aplausos a ações policiais “violentas e espalhafatosas”, do aumento das penas, da criação de novos tipos penais, do opressivo poder estatal, em detrimento dos direitos de cada um.
O também criminalista Daniel Bialski diz que é preciso saber um pouco mais sobre o processo penal para entender que a prisão não pode se tornar um castigo antecipado. “E nem se presta para acalmar eventual clamor público”, sublinha. Ele lembra “prisão é exceção” e diz que seria preocupante se meras suspeitas ou uma notícia na TV pudesse fundamentar um decreto de prisão.
Bialski se opõe à ideia de que apenas os pobres são condenados. Pela sua vivência na área criminal, já percebeu que é comum defensores públicos atuarem melhor que advogados contratados. E chama atenção para o trabalho de investigação feito pela polícia, que considera eficiente e dedicado. “Excetuando-se abusos ocorridos, raros, a polícia é merecedora de efusivos elogios.”
Não é como pensa o juiz do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, Paulo Henrique dos Santos Lucon, que considera a ineficácia da polícia a principal razão para a sensação de impunidade no país. “Quantos mandados de prisão não são cumpridos?”, pergunta e responde: milhares. A rapidez só acontece quando a imprensa se envolve no caso, afirma, despertando o interesse dos policiais. E chama atenção para as pessoas que cometem crimes porque sabem que “dificilmente serão presas; e se isso acontecer, cumprirão uma rápida pena”.
Quem defende a existência real da impunidade, e não só a sensação, concorda com a baixa qualidade do trabalho dos policiais e também do Ministério Público. Talvez, não por falta de qualificação dos profissionais, mas pelo excesso de trabalho ou por descaso. O que abre possibilidade para inúmeros recursos da defesa, levando o acusado à absolvição por falta de provas ou pela prescrição.
A advogada Luciana Lóssio entende que o “complexo rito processual” leva a essa excessiva demora na resposta do Judiciário ao jurisdicionado. Mas afirma que o descrédito da Justiça passa antes pela imprescindível atuação do Ministério Público e da Plícia, que devem evitar “operações espetaculosas e as denúncias irresponsáveis contra autoridades e empresários (que garantem exploração midiática do assunto)”.
Duração do processo
Há ainda quem diga que a imprensa tem a sua participação na criação ou, ao menos, na existência desse sentimento na população brasileira. “O descompasso entre o timing da imprensa e o da Justiça é o maior responsável pela sensação de impunidade”, segundo o advogado Alberto Toron. “A dita lentidão da Justiça é, muitas vezes, não mais que o tal descompasso. É isso que dá a sensação de impunidade”, decreta.
A sua opinião é compartilhada com muitos outros operadores do Direito. O desembargador federal Henrique Herkenhorff, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, entende que leis mais severas não vão ajudar a resolver a questão. O grande problema é a incerteza da população em relação à aplicação da lei. “É uma estupidez fazer leis aumentando as penas ou transformando qualquer pequena infração em crime, se continuar sendo incerta a sua apuração e, principalmente, se permanecer demorada a sua aplicação. É muito melhor uma pena branda aplicada prontamente do que uma severa que demore muito e talvez nunca venha”, declara.
O desembargador também faz uma crítica à atuação da imprensa e do Judiciário. Os crimes e infrações à lei são divulgados com rapidez, mas “o castigo”, às vezes, leva tanto tempo para chegar que “não permite que liguem uma coisa à outra. Na verdade, mesmo o criminoso fica com a sensação de estar sendo agredido sem motivo, não de estar sendo castigado pelos seus atos, porque até ele já esqueceu do crime, tantos anos depois”.
O ex-secretário de Justiça e de Segurança Pública de São Paulo, Eduardo Muylaert também acredita que o rigor da legislação penal não é a panacéia contra o crime: "O que desetimula a criminalidade não é o rigor das penas, mas a certezaa da punição", afirma. Ao analisar se o crime compensa, diz ele, o criminoso não avalia se a pena é maior ou menor, mas se a pena será aplicada ou não.
Marcos Fuchs, diretor executivo do Instituto Pro Bono, constata que as penas principalmente no âmbito penal estão cada vez mais duras, fazendo com que “os benefícios da lei aos poucos sejam extintos”. Mas o que o incomoda é o “desequilíbrio nas condenações e a possibilidade de uma defesa digna aos menos favorecidos. Existem hoje pessoas presas por furto de alimentos, roupas e viciadas em crack. Estes vão apodrecer sem defesa no sistema. Aos favorecidos o direito de ampla defesa e a possibilidade de liberdade rápida”, compara. O fortalecimento das defensorias, dos mutirões do Conselho Nacional de Justiça e iniciativas como do seu instituto e do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa) pode reverter essa situação.
O ex-secretário da Reforma do Judiciário e hoje advogado Pierpaolo Bottini não concorda com tese de que a Justiça só condena os pobres, apesar de acreditar que a falta de estrutura da defensoria acabe levando a mais acusações. Para ele, a morosidade processual é um dos fatores que mais contribui para a sensação de impunidade. “Por isso, me parece que a continuidade na reforma da legislação processual é o caminho mais adequado para a redução dessa sensação de impunidade”, opina.
O defensor público Renato Campos Pinto de Vitto é assertivo: “A seletividade do sistema de Justiça criminal é um entrave emblemático para a consolidação do princípio da igualdade no Brasil. Por outro lado, a despeito da progressão geométrica do contingente prisional, os resultados da reação estatal contra o delito não representam, de forma efetiva, um ganho para a sociedade e para as vítimas, colocando em xeque a credibilidade de todo o sistema”.
Para o advogado Daniel M. Boulos, o grande desafio será tornar o processo mais célere sem eliminar a segurança e a previsibilidade que ele precisa ter. “São essas características básicas e elementares do Estado de Direito”, afirma ao citar a elaboração do novo Código de Processo Civil e chamar atenção para a necessidade de melhora na estrutura do Judiciário.

A Copa salva Serra e Dilma

A Copa salva Serra e Dilma
Por Villas-Bôas Corrêa

Os candidatos José Serra e Dilma Rousseff , que se enfrentam na pré-campanha para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ficam devendo à Seleção Brasileira do técnico Dunga a salvação do ridículo em que se afundavam no bate-boca sobre coisa nenhuma. A candidata Marina Silva não aspira a mais do que a coerência de sua luta na defesa do meio ambiente. Já o candidato oposicionista, o ex-governador tucano de São Paulo, José Serra, e a candidata Dilma Rousseff, escolhida e lançada pelo presidente sem dar a mínima importância ao PT, jogam as ambições e os sonhos pela cadeira no Palácio do Planalto.
Até aqui, por falta de coisa melhor, Dilma bate na tecla de continuadora de Lula e dos programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida para a construção de milhões de residências populares ao preço de penca de bananas e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que escancara as portas do paraíso. Serra esperou o prazo final da desincompatibilização para confirmar a candidatura, carimbada pelo PSDB e tenta recuperar a liderança nas pesquisas, ora dividida com com Dilma. Francamente, munição discutível para uma pré-campanha de candidato à sucessão de Lula, com a popularidade passando da lua em disparada para o infinito.
Antes que a zombaria contaminasse candidatos e candidaturas, a Seleção Brasileira alçou voo, desfilou por Brasília em volta de cinco horas para ser recepcionada pelo presidente Lula e pela primeira-dama, Marisa Letícia, em meia hora de descontração simpática. Lula não precisa fingir que gosta de futebol, peladeiro desde a infância, torcedor do Corinthians e do Flamengo e que ainda dá os seus chutes nos rachas na Granja do Torto.
Com a Seleção ninguém pode. Até a estreia contra a Coreia do Norte (15 de junho), cada dia dos craques será acompanhado, sob o controle de Dunga, pela população de olhos grudados na telinha. Com os amistosos para garantir assunto para as conversas e discussões contra Zimbábue (dia 2) e Tanzânia (dia 7), adversários escolhidos com as cautelas para evitar qualquer contratempo Se a taça do hexacampeonato coroar o esforço, uma quinzena será pouco para as comemorações em Brasília e em todos os estados. Só depois, a murcha pré-campanha interrompida terá que dar o ar da sua graça. À dupla de favoritos faria bem uma recauchutagem. Serra está subindo o tom em cada discurso para marcar o seu lugar na oposição. Tática sem alternativa, mas de eficiência discutível. Lula não é candidato, mas o pajé da candidata Dilma.
Os candidatos à reeleição a mandatos parlamentares, para mais quatro anos de fruição de um dos melhores empregos do mundo, com pouco o que fazer e a penca de escandalosas mordomias – algumas com a mancha de uma punga no cofre da Viúva – estacam à porta de Brasília e dão meia-volta para não enfrentar a crise ética, moral que contamina a cidade construída para ser o Distrito Federal, a capital administrada por gerente de livre nomeação do presidente da República. E que desde a inauguração precipitada, antes de estar pronta, transformou-se na inacreditável baderna dos mais de 3 milhões de habitantes, dez vezes mais do que os 300 mil do previsto no plano de Lúcio Costa.
A crise é Brasília. Sem enfrentá-la com a reforma política, que todos prometem até serem eleitos e depois esquecem com o maior descaramento. O presidente Lula desfrutou da solução perfeita: tem casa e palácio em Brasília, e lá pouco para. E com os mais de 100 dias por ano em viagens pelo mundo, conquistou a popularidade nos cinco continentes. Se a Seleção de Dunga chegar à final, Lula dificilmente resistirá à justa tentação de correr o risco de assistir à decisão do hexacampeonato na tribuna de honra. E de voltar ao Brasil no mesmo avião dos seis vezes campeões do mundo. Nem precisará fazer campanha: Dilma será eleita. E aí começa outro capítulo da história de uma campanha presidencial, que será decidida pelo voto que não será conquistado apenas pelas promessas desacreditadas, mas pela Seleção que reuniu os craques brasileiros espalhados pelos grandes times do mundo. 

Decisão do TRF impõe que Estado forneça medicamento de alto custo a portadora de câncer

Decisão do TRF impõe que Estado forneça medicamento de alto custo a portadora de câncer

A 6ª Turma do TRF da 1ª Região, ao analisar o Processo nº 2006.3300012009-8, julgou procedente, por unanimidade, apelo de portadora de câncer de mama para que o Estado da Bahia forneça o medicamento necessário ao tratamento. O Desembargador Relator ressaltou que, como já estabelecido em sentença, deve a União ficar obrigada a reembolsar ao Estado as quantias que este tiver de suportar no cumprimento da obrigação. Afirmou ser obrigação do Estado, no sentido geral, ou seja, União, estados, Distrito Federal e municípios, solidariamente, conforme legislação, assegurar às pessoas desprovidas de recursos financeiros o acesso à medicação necessária para a cura de suas enfermidades.

sexta-feira, maio 28, 2010

Cícero, para Jornal de Brasília


Direito da USP vai retirar nome de doadores das salas

Portaria revogada
Direito da USP vai retirar nome de doadores das salas

A Faculdade de Direito da USP decidiu, em reunião nesta quinta-feira (28/5), revogar a portaria publicada pelo ex-diretor da unidade e atual reitor da universidade, João Grandino Rodas, que deu nomes de doadores a duas salas de aula na unidade, de acordo com informações do Estadão.com.
Os doadores são o escritório de advocacia Pinheiro Neto e o banqueiro Pedro Conde. Os herdeiros de Conde teriam feito doações com a condição de que teriam grafados os nomes nas salas. Alunos e professores protestaram contra a decisão, que seria contrária à tradição da casa. Na faculdade, apenas ex-professores batizam salas.
Por conta da polêmica, o atual diretor da São Franscico, Antonio Magalhães Gomes, que conta com apoio de professores e alunos, chegou a anunciar sua renúncia ao cargo. Voltou atrás, convencido pelos professores, por quem foi aplaudido com entusiasmo.
Na sequência, segundo representantes discentes que acompanham a reunião, cogita-se também a abertura de processo de improbidade administrativa contra o ex-diretor da unidade, João Grandino Rodas (atual reitor da USP), por conta da portaria publicada no início do ano.
Consultado pela ConJur, Grandino afirma:"Enquanto diretor da Faculdade de Direito fiz a minha parte.  Terminado meu mandato e tendo-me afastado em razão do cargo atual, não me cabe, quer interferir, quer julgar as decisões dos atuais poderes da Faculdade. Resta-me expressar meus melhores votos para o presente e o futuro da Velha Academia, que sempre teve e terá o meu apoio".
Em nota enviada à comunidade universitária de São Paulo, no dia 17 de maio, ele afirmava que é uma prática antiga na escola dar nomes às salas da faculdade, e as designações contestadas foram devidamente aprovadas pela Congregação de professores.
"Há salas na Faculdade de Direito com nome de não professor — a Sala Visconde de São Leopoldo. Por outro lado, em nível de Universidade de São Paulo, inexiste proibição de se colocar nome de aluno ou de terceiros: A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, tem o nome do doador do respectivo terreno; há na Escola Politécnica, um prédio nominado Olavo Setubal, ex-aluno ilustre e doador", escreveu o reitor.
O Pinheiro Neto divulgou nota de esclarecimento e afirmou que "doou recursos para a reforma de uma das salas da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) sem condicioná-la a qualquer contrapartida". E afirmou, também, que "o intuito do escritório foi o de colaborar para a preservação e a modernização de um dos maiores patrimônios da formação social e jurídica do Brasil".
O escritório ressaltou que tem entre seus compromissos o de colaborar para o aperfeiçoamento da qualidade do ensino do Direito no país. "Por essa razão, considera importante apoiar instituições de inegável relevância como a Faculdade de Direito da USP. Apesar de extremamente lisonjeados pela deferência a seu fundador, José Martins Pinheiro Neto, os sócios do escritório não têm pretensão alguma de interferir em decisões que cabem única e exclusivamente ao corpo diretivo da entidade", finalizou.

Dep. Cidinha Campos no programa Manhattan Connection do GNT

Stan Getz & Joao Gilberto - Vivo Sonhando (Dreamer)

Fernando Sabino Ser mineiro

“Ser mineiro é não dizer o
que faz, nem o que vai fazer
é fingir que não sabe aquilo
que sabe, é falar pouco e
escutar muito, é passar por
bobo e ser inteligente, é
vender queijos e possuir
bancos.
Um bom mineiro não laça
boi com imbira, não dá
rasteira no vento, não pisa
no escuro, não anda no
molhado, não estica
conversa com estranhos, só
acredita na fumaça quando
vê fogo, só arrisca quando
tem certeza, não troca um
pássaro na mão por
dois voando.”
Fernando Sabino

Passos Pagoda, Nepal Fotografia por Bas Uterwijk

Um homem e sua neta fazem uma pausa nos degraus de um templo em estilo pagode na Durbar (Kings), 
na Praça Bhakthapur, Kathmandu Valley, no Nepal.

Posicionamento



"Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir."

Martinho Lutero

Renoir


IO CHE AMO SOLO TE - Sergio Endrigo


C'e gente che ha avuto mille cose
Tuto il bene tutto il male del mondo
Io ho avuto solo te
E non ti perderó non ti lascero
Per cercare nuove aventure 
C'e gente che ama mille cose
E si perde per lastrade del mondo
Io che amo solo te
Io mi fermero e ti regalero
Quel che resta della mia gioventu

Solo final

Tem gente que teve mil coisas
todo o bem e todo o mal do mundo
Eu que tive só você
Eu não te perderei
não te deixarei
À procura de novas aventuras
Tem gente que ama mil coisas
e se perde pelas estradas do mundo
Eu que amo só você
Eu me deterei
e te presentearei
com o que resta da minha juventude

O amor acaba - Será?

O amor acaba

Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania[1] da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

 (O amor acaba: crônicas líricas e existenciais. 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 21-22).


[1] No sentido literário, a "epifania" é um momento privilegiado de revelação, quando acontece um evento ou incidente que "ilumina" a vida da personagem.

Autopsicografia - Fernando Pessoa

Autopsicografia
                                   
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

A volta do capitão Palocci

A volta do capitão Palocci
Rogério Furquim Werneck - O Globo - 28/05/2010

Está em curso mais uma emocionante história de metamorfose no PT. Oito anos se passaram desde que o bravo capitão Palocci cumpriu com admirável sucesso o que então parecia uma missão impossível: convencer o país de que a cúpula do PT havia adotado um discurso econômico ponderado, completamente distinto da pregação tresloucada que se viu nas eleições municipais de 2000. O novo desafio com que agora se defronta Palocci é parecido com o anterior. Trata-se de convencer o país de que a ex-ministra Dilma Rousseff já não é mais o que mostrou ser nos últimos cinco anos e que, de repente, suas ideias sobre política econômica passaram a ser equilibradas e perfeitamente defensáveis. 
Na semana passada, a candidata foi cuidadosamente preparada para deixar boa impressão junto a investidores em Nova York. O que se viu foi uma Dilma quase irreconhecível, totalmente remodelada. Novo penteado, nova estampa e ideias novas em folha. No evento em que participou, a candidata fez várias menções a seu conhecido alinhamento com as posições de Antonio Palocci. Evitando qualquer referência ao ministro Guido Mantega, ressaltou a importância que sempre atribuiu à condução prudente da política fiscal. Externou ainda seu reconhecimento ao excelente trabalho que vem sendo prestado ao país por Henrique Meirelles. E sublinhou seu inarredável compromisso com metas de inflação cadentes e a manutenção da autonomia operacional do Banco Central.

Quem quer que tenha acompanhado as posições defendidas por Dilma Rousseff ao longo dos últimos cinco anos deve ter ficado boquiaberto diante do recém-estreado discurso da candidata. Há uma mudança impressionante, por exemplo, em relação ao que se viu no final de 2005, quando a já então ministra-chefe da Casa Civil, sem deixar margem a dúvidas sobre a real extensão de seu compromisso com a estabilidade de preços, se permitiu declarar que melhor seria ter inflação de 15% ao ano e recursos mais fartos para investimento. 
Há também contraste gritante com a forma aguerrida com que, também em 2005, a ex-ministra comandou o torpedeamento da proposta de contenção da expansão de gastos correntes feita pelo então ministro Antonio Palocci. Ou, ainda, com suas declarações do final de 2007, quando afirmou que qualquer esforço de contenção de gastos seria deixado para o próximo mandato presidencial, que "o popular choque de gestão não leva(va) a nada" e que o grande mérito do PAC era ter feito o país romper com a tradição de contenção fiscal. 
No afã de romper com essa suposta tradição, a ex-ministra deu amplo respaldo ao Ministério da Fazenda, no seu meticuloso trabalho de demolição institucional do arcabouço de condução de política econômica que, a duras penas, foi construído no país ao longo de duas décadas. Foi esse bota-abaixo que permitiu, por exemplo, que hoje esteja em operação, à luz do dia, um bilionário e grotesco esquema de concessão de crédito subsidiado pelo BNDES, direta e fartamente abastecido pelo Tesouro com recursos provenientes da emissão de dívida pública. Trata-se de involução lamentável, que viola a separação de contas dos segmentos não financeiro e financeiro do setor público, fundamental para a manutenção do controle fiscal no país. 
Causam também surpresa os elogios tardios, em falseta, à condução da política monetária, vindos da parte de quem jamais deixou de mostrar hostilidade escancarada à atuação de Henrique Meirelles no Banco Central. 
Graças a Antonio Palocci, o PT convenceu o país, em 2002, que havia abandonado seu discurso econômico inconsequente e passado a dizer coisa com coisa. Mas os efeitos dessa injeção de credibilidade se dissiparam no segundo mandato do presidente Lula, quando, já não podendo contar com Palocci, o governo abriu espaço para figuras como Dilma Rousseff, Guido Mantega e Luciano Coutinho. É desanimador que, com nova eleição pela frente, o PT se veja obrigado a recorrer mais uma vez aos poderes do capitão Palocci para tentar revalidar a credibilidade do seu discurso econômico. 

Bessinha


A resposta desse grande artista merece uma reflexão atenta! E ainda há quem queira essas mazelas para o nosso País!

O jornal O Globo publicou no Segundo Caderno do dia 05 de março de 2010 uma ótima entrevista com o barítono brasileiro PAULO SZOT que venceu o Prêmio Tony, em 2009, na categoria melhor ator em musical, em Nova York (EUA). Ele foi indicado ao prêmio por sua atuação no musical "South Pacific", que ganhou sete prêmios no Oscar do teatro dos EUA. Pois agora, ele será o segundo brasileiro a estrelar uma ópera no Metropolitan Opera House (a primeira foi Bidu Sayão). Ele interpretará a personagem Kovalyov, protagonista da ópera "O nariz", de Shostakovich. A entrevista foi feita por Eduardo Frdkin e me chamou a atenção a resposta que o barítono deu a uma das perguntas. Nessa resposta há uma bela análise conjuntural de uma época e lugar. E é interessante que nós, brasileiros, assimilemos bem a essência do que foi relatado.

PERGUNTA: Shostakovich foi perseguido a vida toda pelas autoridades soviéticas e foi acusado de ¨formalismo" (que, na teoria, é a valorização da forma no lugar do conteúdo, mas na prática, era qualquer coisa que Stalin e seus supervisores da vida cultural não tivessem a capacidade de entender ou julgassem de caráter antipopular). Você tem uma forte ligação com a Polônia, que também sofreu muito com a opressão soviética. Isso faz com que você tenha algum sentimento especial em relação à Shostakovich ou a atuar em "O nariz"?

RESPOSTA DE SZOT: Eu vivi na Polônia durante oito anos e guardo memórias de grandes incentivos culturais apesar das enormes carências fundamentais naquele momento, naquela sociedade. Marcou-me, por exemplo, a dificuldade dos poloneses de viajar além dos países da Cortina de Ferro, portanto a falta de liberdade. Além disso, havia o racionamento de vários produtos de alimentação e higiene. Obviamente, minha experiência como estudante estrangeiro não se comparava à complexidade da realidade de Shostakovich e de várias outras pessoas que viviam dentro daquele regime. Gogol (autor da história "O nariz", que inspirou a ópera) retrata nesse conto vários absurdos vividos por Kovalyov (personagem principal do enredo) e a dificuldade de ser compreendido por uma sociedade extremamente burocrática. Muitos dos relatos de Gogol remetem a situações que vivi na Polônia e que realmente existiam naquele período. Lembro-me das filas em todas as lojas, da burocracia nas repartições públicas e da má vontade de alguns funcionários. Porém, o mais interessante é que, mesmo com a censura e as dificuldades daquele momento, a arte sublime de Shostakovich – assim como de vários outros artistas que viveram situações parecidas – sobrevive, provando que a genialidade está acima de qualquer imposição.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

Visitantes

free counters