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segunda-feira, outubro 18, 2010
França à beira da paralisação
França à beira da paralisação
Às vésperas da votação da reforma da previdência, falta combustível em postos e trens entram em greve
O Globo e RTP - Portugal
Esta semana será crucial para o governo da França, que tentará aprovar a reforma da Previdência em meio à mobilização popular. Ontem à noite, os caminhoneiros começaram a bloquear as estradas, e os ferroviários cruzam os braços a partir de hoje, reduzindo em um terço a circulação do metrô e dos trens, com o tráfego de TGV (trembala) reduzido à metade. Segundo o jornal francês “Le Monde”, a paralisação pode afetar ainda o setor aéreo e o transporte de valores — e consequentemente, os bancos. Apesar de o governo Nicolas Sarkozy afirmar que não há problemas de abastecimento de gasolina, os franceses fazem filas nos postos, que já começam a fechar por falta de combustível.
A reforma da Previdência, que, entre outras medidas, eleva a idade mínima da aposentadoria de 60 para 62 anos, será votada quarta-feira pelo Senado. Para o mesmo dia, os sindicatos convocaram nova mobilização popular, a sexta desde o início dos protestos. Nas manifestações de sábado, estima-se que tenham ido às ruas entre 825 mil (segundo cálculos do governo) e 3 milhões (de acordo com os sindicatos) de pessoas.
Ontem, havia filas em postos por toda a França, apesar de o governo negar que haja escassez. O ministro dos Transportes, Dominique Bussereau, disse na rádio Europe 1 que os postos que dizem estar sem combustível “estão guardando para seus clientes habituais”. Ele estimou que, dos 1.300 postos do país, 200 tenham problema de escassez.
Mas a distribuidora Total tem outro número: só em sua rede, seriam de 300 a 400. Todas as 12 refinarias do país estão paradas.
Os funcionários de um depósito de combustível em Marselha estão em greve há 22 dias, deixando presos no porto 47 navios petroleiros. A cidade ainda sofre com uma greve de lixeiros. Outro depósito, em Vatry, na região do Marne, foi liberado pelo governo ontem pela manhã.
O frentista de um posto em Paris disse ao jornal espanhol “El País” que a gasolina havia acabado às 10h de ontem. E contou que as pessoas têm levado galões de gasolina e diesel, para fazer estoque.
Sobre o fato de o governo negar que haja escassez, ele foi franco: “O que você quer que eles digam?”.
Governo: polícia vai liberar depósitos
O governo também afirmou que não há problemas nos aeroportos, apesar de o ministro dos Transportes admitir que os estoques de combustível em Nice e Nantes estão baixos. Os aeroportos de Paris, segundo o ministro, não ficarão sem combustível graças à retomada das operações, no sábado, do oleoduto de Trapil. Os sindicalistas da CGT, no entanto, disseram à Europe 1 que o oleoduto está sendo operado pelo pessoal administrativo, sem preparo para o serviço. Os funcionários da produção estão em greve.
O ministro do Interior, Brice Hortefeux, disse que a polícia vai liberar os depósitos de combustível que forem bloqueados por piquetes. Semana passada, houve três ações do tipo.
— Digo com muita serenidade: aqueles que quiserem trabalhar não poderão ser impedidos — afirmou Hortefeux no programa “Grand Jury”, do canal RTL, ressaltando, como outros membros do governo, não haver risco de faltar combustível.
Além das filas, a população enfrenta a alta dos preços. O ex-premier Laurent Fabius, do Partido Socialista (PS, de oposição), denunciou ontem que vários postos estão remarcando os preços. A ministra da Economia, Christine Lagarde, prometeu sanções para os casos em que a remarcação for provada.
O primeiro-ministro, François Fillon, foi ontem à noite à rede de televisão TF1 para anunciar que a votação não será adiada, como pediram os partidos de esquerda. E afirmou que o governo não permitirá que os manifestantes parem o país: — O direito de greve não é o direito de impedir o acesso a um depósito de combustível, esta é uma ação ilegal. Não deixarei que parem nosso país, não permitirei que a economia francesa seja sufocada pelo bloqueio ao fornecimento de combustível.
O líder da CGT, Bernard Thibault, disse ao jornal “Le Monde” que o país ainda não está parado, mas que a perturbação do dia a dia “começa a ser real”. Já François Chérèque, líder da central sindical CFDT, disse que, para evitar a paralisação do país, o governo precisa retomar o diálogo.
Um apoio inusitado a Sarkozy veio do ator Gérard Depardieu, de 61 anos.
Ele chamou os protestos de ridículos e de “manipulação dos sindicatos”.
sábado, outubro 16, 2010
STF e CNJ entram em rota de colisão
STF e CNJ entram em rota de colisão
Luiz Orlando Carneiro – Jornal do Brasil Online - Brasília
O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estão, cada vez mais, em rota de colisão. Na quinta-feira, por unanimidade, os sete ministros presentes à sessão plenária do STF reafirmaram que o órgão de controle externo do Judiciário não tem poderes para exercer a fiscalização de atos de conteúdo jurisdicional, restringindo-se sua competência aos âmbitos administrativo, financeiro e disciplinar. E revalidaram mandados de segurança concedidos pelo Tribunal de Justiça do Maranhão a titulares de dois cartórios do interior do estado, afastados por decisões do corregedor do CNJ, que “tornou sem efeito” os acórdãos daquele tribunal.
O relator dos recursos (agravos) interpostos pela União, ministro Celso de Mello – que já havia concedido liminares nos mandados de segurança em causa – relembrou, no seu voto, já ter proferido decisões em igual sentido, “advertindo que o CNJ – quer colegiadamente, quer mediante atuação monocrática de seus conselheiros ou do corregedor nacional de Justiça – não dispõe de competência para intervir em decisões emanadas de magistrados ou de tribunais, quando impregnadas de conteúdo jurisdicional”.
Segundo o ministro Marco Aurélio, que acompanhou o relator, o CNJ tem desconhecido, em muitos casos, a sua destinação de órgão criado pela Emenda Constitucional 45/2004 para “o controle da atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário e do cumprimento dos deveres funcionais dos juízes”.
– O primeiro erro foi a inclusão topográfica do CNJ no artigo 92 da Carta, logo depois do STF e à frente do STJ, na relação dos “órgãos do Poder Judiciário”, dando a impressão de que se trata de um tribunal – comenta o ministro. – Mas é claro que o conselho não pode agir como órgão revisor de decisões judiciais.
Marco Aurélio foi relator, no fim do ano passado, de um mandado de segurança do estado da Bahia contra ato do CNJ que reposicionou o precatório de duas senhoras octogenárias, modificando decisão do Tribunal de Justiça estadual. A maioria do plenário seguiu o seu voto, no sentido de que o conselho “extravasou, em muito, os limites simplesmente administrativos de sua competência” ao decidir sobre “aspectos substanciais de execuções contra a Fazenda Pública”.
Outros casos Na última semana, o ministro Ayres Britto concedeu liminares em mandados de segurança, dispensando a realização de concurso público para o preenchimento das vagas de dois cartórios do Rio de Janeiro. As ações – cujo mérito ainda vai ser julgado pelo plenário do STF – foram ajuizadas pelos titulares do 13º Ofício de Notas e do 2º Ofício de Registro de Títulos e Documentos contra a decisão do CNJ, que determinou a realização de concursos públicos para o preenchimento de mais de 4 mil cartórios do país considerados vagos. Segundo um dos advogados das partes, José Rollemberg, as decisões provisórias do ministro Ayres Britto “abrem precedente importante para os demais notários que estão em situação semelhante”.
Nos dois casos, os donos dos cartórios contestavam a determinação do corregedor nacional, que não teria levado em conta o fato de que, para assumir os cargos, eles tinham passado por “concurso de remoção”, em 1994.
Ao conceder as liminares, Ayres Britto suspendeu os efeitos da decisão do corregedor nacional de Justiça, que inclura os dois cartórios do Rio de Janeiro “na lista definitiva de vacâncias”.
sexta-feira, outubro 15, 2010
FHC desafia Lula a debater 'cara a cara'
FHC desafia Lula a debater 'cara a cara'
Roberto Almeida - O ESTADO DE S. PAULO
FHC: “Quero ver o presidente Lula, que fez o PT votar contra o Real, dizer que estabilizou o Brasil”
Em discurso inflamado para tucanos, ex-presidente classifica sucessor de 'mesquinho' e de mentir 'sem cessar' sobre o País que encontrou ao assumir mandato
SÃO PAULO - Em sua mais contundente incursão na campanha tucana até agora, que incluiu a defesa de seu legado à frente do Palácio do Planalto, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, desafiou ontem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um debate "cara a cara" após o fim das eleições.
Diante de centenas de militantes do PSDB, em um hotel na zona norte da capital paulista, FHC pediu a Lula que, quando "perder o monopólio da verdade", vá ao instituto que leva seu nome, em São Paulo, para debater. "Presidente Lula, quando acabar as eleições, quando você puser o pijama, será bem recebido. Venha ao meu instituto, vamos conversar, cara a cara", bradou, em discurso inflamado.
O ex-presidente, dizendo-se alvo de mentiras, passou a defender suas gestões na Presidência (1994–2002). As cenas, gravadas por uma equipe da campanha do presidenciável tucano José Serra – que não esteve no evento –, devem ir ao horário eleitoral.
"Estou calado há muitos anos ouvindo. Agora quando o presidente Lula vier, como deve vir, como todo presidente democrata eleito, perder a pompa toda, perder o monopólio da verdade, está desafiado a conversar comigo em qualquer lugar do Brasil", disse FHC.
"Não é para conversar para dizer o que eu fiz, o que ele fez. Isso o povo vai julgar. É para ter firmeza, olhando cara a cara, um ao outro, e ver se um é capaz de dizer ao outro as coisas que diz", continuou o ex-presidente.
Como exemplo dos pontos que abordaria no debate com Lula, FHC citou o Plano Real, principal bandeira tucana, e disse que questionaria o petista sobre as responsabilidades pela estabilização econômica do País.
"Quero ver o presidente Lula, que votou contra o Real, que fez o PT votar contra o Real, dizer que estabilizou o Brasil. Ele não precisa disso. Ele fez coisas boas que eu reconheço. Ele agiu bem na crise atual, financeira. Para que, meu Deus, ser tão mesquinho? É isso que quero perguntar a ele: ‘Lula, por que isso, rapaz?’", bradou.
Aos militantes tucanos, o ex-presidente apostou na veemência para que seu nome, antes escondido nas campanhas, passe a ser defendido abertamente.
"Eu não tenho do que me arrepender. Eu mudei o Brasil. Eu nunca disse isso. Agora, oito anos depois do governo Lula (digo que) eu mudei o Brasil. Não mudei sozinho, mas com o povo brasileiro, com uma equipe de gente competente, com outros partidos. Tudo o que foi inovador foi plantado naquele período. Chega de ficar calado", afirmou FHC.
Privatizações. O ex-presidente elevou o tom e pediu "respeito" ao rebater nota divulgada ontem pelo presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, que o acusou de preparar a estatal para a privatização.
"Quem é esse Gabrielli pra falar isso pra mim, meu Deus? Eu mandei uma carta ao Senado para dizer que não privatizaria a Petrobrás. Eu perdi uma cátedra porque eu defendi a Petrobrás e fui processado", anotou FHC.
De acordo com FHC, a "politicalha" voltou avançar sobre a estatal após sua saída do governo. "Por isso, perdeu já 20% do valor de mercado sob a batuta dessa gente. O mercado, assim chamado, percebeu agora – custou – que tem ingerência política", anotou.
Ao final do discurso, o ex-presidente lembrou ainda a queda da ex-ministra chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, acuada por denúncias de lobby no Planalto. "Não queremos um Brasil de preguiçosos, não queremos um Brasil de amigos do rei. Nós não queremos um Brasil de companheiras tipo Erenice", anotou FHC, que pediu "apoio total" à candidatura de Serra.
Como os países minúsculos veem os grandes temas internacionais
Como os países minúsculos veem os grandes temas internacionais
Gustavo Chacra – de são paulo
Todos os anos, ao longo de duas semanas, chefes de Estado de 192 países, ou seus representantes, discursam para apresentar ao mundo as posições de política externa de seus governos na Assembleia Geral da ONU em Nova York. No dia seguinte, jornais de Jacarta a Buenos Aires, publicam o que disse Barack Obama. Líderes folclóricos, como Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez e Muamar Kadafi também deixam suas marcas ao atacar os Estados Unidos, seguindo os passos de Fidel Castro em outros anos.
Presidentes, premiês e chanceleres do Brasil, que tradicionalmente faz a abertura da assembleia, França, Alemanha, Rússia e outras nações de importância econômica e política também têm os discursos analisados por diplomatas e jornalistas redor do mundo. Mas quase ninguém se importa com o que dizem os países minúsculos na tribuna da ONU, apesar de, na Assembleia Geral, eles terem o mesmo peso da China e da Índia.
Estes microestados se dividem em dois grupos em seus discursos. Há os que preferem falar de seus problemas locais e os mais preocupados com os grandes acontecimentos do mundo. Jaume Bartumeu Cassany, chefe de governo do Principado de Andorra, único país do mundo que tem o catalão como língua oficial, lembrou que sua nação, em 700 anos, nunca se envolveu em um conflito armado apesar de estar no coração da Europa, sendo, portanto, a favor do desarmamento internacional. Mônaco e San Marino, outros dois principados europeus, se focaram na defesa das mulheres.
As ilhas Maldivas demonstraram preocupação com o crescimento da islamofobia, tema que teve destaque nos discursos de outros países. Assim como quase todos países-arquipélagos no Índico, no Pacífico e no Caribe, Seychelles alertaram o mundo para os riscos das mudança climáticas que podem levar ao desaparecimento de muitos destes Estados. Já Tonio Borg, vice-premiê de Malta, preferiu debater o conflito entre israelenses, lembrando que seu país fica no meio do Mediterrâneo, entre a Europa e o mundo árabe.
O chanceler do Brasil, Celso Amorim, talvez tenha ficado com inveja do discurso de Tuila’Epa Sailele Malielegaoi, primeiro-ministro das Ilhas Samoa. “Nunca deixamos de lado nosso apoio à expansão do Conselho de Segurança, tanto de seus membros permanentes, como não permanentes. As realidades geopolíticas mudaram”, afirmou o primeiro-ministro. Seguindo a linha maltesa, também defendeu uma solução de dois Estados para palestinos e israelenses – posição adotada pelo chanceler de São Tomé e Príncipe. O Reino da Suazilândia, África, foi mais longe e também fez propostas para a solução de conflitos no Afeganistão e no Iraque.
Defendendo o fim do embargo a Cuba e a construção do Centro Islâmico em Manhattan, o presidente do Timor Leste, José Ramos-Horta, não escondeu que poucos se importariam com o que ele diria no seu discurso, acompanhado por meia-dúzia de pessoas em um plenário vazio. “Eu me sinto um filme de Fellini falando para uma sala vazia, falando para fantasmas. Espero que, em compensação, o senhor (presidente da Assembleia Geral, que é da Suíça) me dê uma caixa de chocolates suíços. Tampouco vou imprimir o discurso, porque ninguém lê. E vou falar pouco porque as pessoas devem estar cansadas de ouvir tanta gente”, disse o líder timorense.
domingo, setembro 19, 2010
Campanha amazônica refuta discurso verde - O Outro lado
Campanha amazônica refuta discurso verde
Candidatos criticam ambientalistas e atribuem indicadores sociais ruins a visão da floresta como "santuário"
Especialistas criticam discurso de políticos na eleição e temem que degradação ambiental na região aumente
ESTELITA HASS CARAZZAI - FELIPE BÄCHTOLD - DE SÃO PAULO KÁTIA BRASIL - DE MANAUS – Folha de SP
Se na campanha para presidente Marina Silva (PV) é a militante ecologista, nos Estados da Amazônia há candidatos fazendo campanha cujo lema é a flexibilização de restrições ambientais.
Na esteira da discussão sobre o novo Código Florestal, partidos prometem lutar por mais autonomia dos Estados nos licenciamentos. Há ressentimento contra o que chamam de centralização de Brasília e "tecnocratas" que "agem com base no Google".
Vários candidatos culpam os indicadores sociais ruins da região pela visão da mata como "santuário".
A disputa no Acre é o caso mais evidente: uma das maiores coligações tem como nome "Liberdade e produzir para empregar".
Tião Bocalom - foto esquerda (PSDB), que disputa o governo, fala que a população "não aceita" o atual modelo de desenvolvimento sustentável "do PT".
"Muitos olham a Amazônia e apenas os macacos, as árvores, os bichos e esquecem que aqui tem gente também, que essa gente precisa de qualidade de vida."
Outros mantêm críticas ao mesmo tempo em que adotam o slogan do "desenvolvimento sustentável".
Em Roraima, a revolta tem origem na demarcação de terras indígenas, como a Raposa/Serra do Sol, e de áreas de preservação federais.
O governador José de Anchieta Júnior - foto à direita (PSDB), que tenta a reeleição, e seu rival Neudo Campos (PP) acham que isso trava a economia local (leia texto nesta página).
Anchieta fala que os países desenvolvidos querem que o Brasil seja a "babá ambiental do planeta".
Em Rondônia, Expedito Júnior- foto esquerda, candidato tucano, vai na mesma linha e diz que outros países "acabaram com suas florestas e agora querem interferir" no Brasil.
O governador, João Cahulla - foto abaixo (PPS), falou num debate que o "agricultor da mão calejada está sendo enrolado pelos ambientalistas".
O candidato do PSDB no Amapá, Jorge Amanajás, que também fala em sustentabilidade e em "pressões internacionais", considera que a candidatura de Marina não "defende da forma que deveria" o desenvolvimento da região. "Não podemos olhar só o lado preservacionista."
"AMAZÔNIA ARRASADA"
Especialistas criticam a visão das campanhas e temem que as ideias se concretizem.
O pesquisador do Imazon Adalberto Veríssimo afirma que essas propostas prejudicam interesses do país.
"O Brasil pode e deve desenvolver a Amazônia sem desmatar. Temos uma área desmatada de três vezes o Estado de São Paulo. É uma parte, inclusive, abandonada. Vamos aproveitar áreas já desmatadas, intensificar a agropecuária lá."
Cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o americano radicado no Brasil Philip Fearnside diz que a liberdade aos Estados "arrasaria a Amazônia".
"[Os Estados são] muito mais sujeitos a lobbies de quem vai ganhar diretamente com os desmatamentos", afirma Fearnside, integrante da equipe premiada com o Nobel da Paz por trabalhos sobre mudanças climáticas.
Ser "pulmão do mundo não resolve problema do caboclo", diz Anchieta
FOLHA DE SÃO PAULO
O governador de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB), 45, foi um dos maiores críticos da demarcação contínua da terra indígena Raposa/Serra do Sol, decidida na Justiça em 2008. Segundo ele, países ricos querem que o Brasil seja "coleção de árvores a ser mantida em pé". Leia trechos da entrevista, feita por e-mail.
Folha - Por que o sr. é contra a criação de novas áreas de conservação no Estado?
José de Anchieta Júnior - Não dá para concordar com o tecnocrata de plantão que risca propostas de criação ou ampliação de reservas no mapa de Roraima tirado do Google.
É imperativo que a União reconheça o direito dos roraimenses de destinar parte do território à geração de riquezas. [Uma das propostas de parque] é maluquice e lutaremos contra.
Como o sr. quer fazer o PIB do setor primário crescer 20% sem dano à preservação?
Nossa base agrícola é pequena. O crescimento será baseado no aumento da produtividade por hectare mediante tecnologia adequada.
O sr. pensa que Roraima seja punida com pressões internacionais pela Amazônia?
Essa coisa de pulmão do mundo não resolve o problema do caboclo. Enquanto o Sul-Sudeste encarar a Amazônia como almoxarifado de matéria-prima e Brasília achar que resolve a questão criando unidades de conservação, prevalecerá esse regime de destruição.
terça-feira, setembro 14, 2010
Escândalos marcam debate entre os presidenciáveis
Escândalos marcam debate entre os presidenciáveis
O GLOBO – 13/09/2010
A quebra de sigilos de tucanos na Receita e a denúncia de tráfico de influência na Casa Civil marcaram o debate entre os principais candidatos à Presidência, ontem, especialmente nos ataques entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). A petista minimizou o caso que envolve a ministra da Casa Civil, Erenice Guerra: "Não vou aceitar que se julgue a minha pessoa baseado no que aconteceu com um filho de uma ex-assessora."
Em meio a escândalos
Dilma minimiza denúncia de tráfico de influência que envolve filho de seu ex-braço direito
Os quatro principais candidatos à Presidência voltaram a debater ontem à noite, mas os primeiros blocos foram dominados pela troca de acusações entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) por causa dos recentes escândalos de quebra de sigilos de tucanos na Receita e do suposto tráfico de influência na Casa Civil. A petista minimizou a relação que tinha com Erenice Guerra, seu ex-braço direito na Casa Civil e atual ministra da pasta, que foi acusada em reportagem da revista Veja de estar envolvida em um caso de lobby e corrupção em contratos de empresas com os Correios. Perguntada no debate da RedeTV! e da Folha de S. Paulo se ainda poria a mão no fogo por Erenice, Dilma afirmou: Eu tenho até hoje a maior e a melhor impressão da ministra Erenice.
O que se tem publicado nos jornais é uma acusação contra o filho da ministra. Esta acusação contra o filho da ministra o governo deve apurar de forma rigorosa, e deve avaliar se houve ou não tráfico de influência.
Se houve, tem de tomar as providências mais drásticas possíveis. No caso da ministra Erenice, foi feita uma acusação, ela foi desmentida e o que se tem hoje ainda é exatamente nada disse Dilma, referindo-se à denúncia de que o filho de Erenice, Israel Guerra, era lobista e auxiliava empresários a fazerem contratos com o governo mediante um percentual dos negócios governamentais.
Entretanto, Dilma minimizou o fato de Erenice Guerra ter sido seu braço direito no governo e de ter herdado dela a cadeira de ministra da Casa Civil.
A candidata do PT referiu-se a ela como uma ex-assessora. Dilma também afirmou estranhar a reportagem da Veja e disse acreditar que tudo se trata de uma manobra pra prejudicar sua candidatura: Agora, eu quero deixar claro aqui: eu não concordo, não vou aceitar que se julgue a minha pessoa baseado no que aconteceu com um filho de uma ex-assessora. Até porque, eu perguntaria a você (a jornalista que fez a pergunta): você acha correto responsabilizar o diretorpresidente de sua empresa pelo que foi feito pelo filho de um funcionário dele? Eu, pessoalmente, não acho.
Acho que isso cheira a uma manobra eleitoreira, feita sistematicamente contra mim e contra a minha campanha disse Dilma.
Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) também participaram do debate. Plínio disse não ver importância nos escândalos, e Marina condenou veementemente, dizendo que o país avançou no social e na economia, mas está na pré-história da política.
Serra é questionado sobre os sigilos
Na sequência, o tucano José Serra foi pressionado pelos jornalistas que faziam as questões do segundo bloco do debate. Foi perguntado a ele se estava utilizando politicamente as denúncias de que houve quebra do sigilo bancário de sua filha, de seu genro e de pessoas de seu partido. A jornalista lembrou que o próprio Serra já havia admitido que tinha rumores dessas violações no início do ano, mas que só utilizou os dados no auge da campanha, quando já estava atrás nas pesquisas: Não tem nada a ver, a questão é a seguinte: quebraram o sigilo de gente do meu partido, de gente próxima, e isso apareceu comprovadamente.
Quebram o sigilo da minha filha, eu suspeitava, mas não tinha prova disso. Eu não vou, com base em suspeitas, ficar levantando uma acusação sem ter uma base para isso. Eu fui apenas responsável disse Serra.
Ele completou depois: Eu não sou jornalista, eu sou político, um homem público, não cabe a mim colocar rumores, olha, eu tenho a impressão que pode ter tal coisa, etc. No momento em que apareceu (comprovação da quebra do sigilo), que quebraram a intimidade, a vida privada da minha filha de maneira ilegal, e não só, que fizeram isso também com o meu genro, o que eu deveria fazer? Agradecer ao PT? Agradecer à campanha da Dilma? Muito obrigado por terem invadido o sigilo da minha filha, do meu genro? questionou Serra, dizendo que foi comprovado que a quebra dos sigilos foi realizada por petistas.
Isso foi trazido a Brasília pelo Fernando Pimentel, que é homem de confiança de Dilma, hoje candidato ao Senado disse José Serra.
Esse é um assunto que é importante para a democracia. Por que, se eles fazem isso hoje na campanha, imaginem o que vão fazer amanhã completou.
Dilma reagiu mais tarde, dizendo que Serra quer ganhar a eleição no tapetão, mas não consegue convencer a população. Disse que ele entrará para a História como caluniador, e que nem ela nem sua campanha têm envolvimento no caso.
Serra ainda rebateu, voltando a falar da denúncia de tráfico de influência na Casa Civil, e disse que a pasta já esteve no centro de outros escândalos, citando o caso Valdomiro Diniz e o ex-ministro José Dirceu.
quinta-feira, agosto 12, 2010
O cardeal e o ditador
O cardeal e o ditador
JACKSON DIEHL
O papel do cardeal Jaime Ortega - na foto, como promotor dos direitos humanos em Cuba começou com as Damas de Branco. Em abril, o arcebispo de Havana ficou furioso quando, em dois domingos sucessivos, brutamontes do regime castrista sitiaram a marcha semanal das mulheres que protestam contra a prisão de parentes considerados dissidentes políticos. Ortega mandou uma carta ao presidente Raúl Castro dizendo que “seria covardia da Igreja tolerar isto em silêncio”, disse-me ele.
Ortega e outros líderes da igreja cubana enviaram muitas cartas a Raúl Castro e a seu irmão, Fidel, durante anos. O que foi diferente agora, disse o cardeal, é que recebeu resposta. Em uma semana, Raúl comunicou-lhe que as Damas de Branco poderiam continuar com suas marchas. Em um mês, Ortega teve seu primeiro encontro com Raúl, que começou por contar-lhe que planejava libertar todos os prisioneiros políticos de Cuba.
Desde então, o cardeal, de 73 anos, encontrou-se mais três vezes com o presidente cubano, de 79, para falar sobre a libertação dos presos políticos e as possibilidades de mudança no país.
Não “reforma”, muito menos “democracia” — Raúl não gosta dessas palavras.
Mas Ortega se convenceu de que “isto é algo novo”. A libertação dos presos, argumenta, “abre possibilidades”. Até agora, 24 dissidentes foram levados a Espanha, EUA e Chile; o regime se comprometeu a soltar mais 28 dos mais de 100 que ainda amargam a prisão.
O que é possível? Esta se tornou uma importante questão à medida que a não reforma de Raúl avança e o Congresso americano examina um projeto de lei que retalha o que resta do embargo, levantando todas as restrições a viagens a Cuba e liberalizando ainda mais as exportações de alimentos. No dia 1° , Raúl anunciou que o governo autorizaria mais negócios privados, em parte para ocupar os cerca de 1 milhão de cubanos — 20% da força de trabalho — que Havana quer dispensar.
Uma análise é que isto é o replay da estratégia padrão do castrismo para tirar o regime de enrascadas. A situação da economia cubana está ainda pior hoje: a produção de alimentos caiu 7,5% no primeiro semestre e a última safra de cana-de-açúcar foi a pior em um século. Na última vez que a ilha enfrentou uma crise econômica tão severa, no início dos anos 90, Fidel afrouxou os controles sobre a empresa privada.
Tão logo a economia se recuperou, ele fechou muitos dos negócios que autorizara.
Libertação de prisioneiros também não é novidade: Castro o fez em 1969, 1979 e 1998.
Ainda assim, alguns em Cuba e no exterior acham que Raúl está em meio a algo diferente. Ele entende, dizem eles, que o regime stalinista não pode sobreviver na forma atual, e pretende modernizálo e estabilizá-lo antes que ele e seu irmão morram. Raúl enfrenta forte resistência da parte de Fidel, que — depois de quatro anos de ausência —, começou a aparecer em público dias após a primeira libertação de prisioneiros.
Mas Raúl, diz-se, está determinado a levar à frente, metodicamente, um programa de mudanças que se estenderá por anos, não meses.
O cardeal Ortega parece se alinhar com a hipótese mais otimista. Ele estava em Washington na semana passada para receber um prêmio, em sua segunda visita em dois meses — vinha se encontrando com membros do governo Obama e do Congresso. Ele sugere que uma grande parte da agenda é voltada para a melhoria das relações com os EUA, de modo que a economia cubana possa ser revivida com o comércio bilateral e os investimentos americanos.
“Ele tem desejo de uma abertura com o governo americano”, acha Ortega. “Ele repetiu-me várias vezes que está pronto para conversar com os EUA diretamente, sobre todos os assuntos.” Isto inclui as reformas democráticas que o governo Obama exige como condição para melhorar as relações? “Tudo tem de ser passo a passo. Não é realista começar pelo fim. O mais importante é dar os passos no processo.” Não duvido da sinceridade do cardeal.
Mas acho difícil crer que Raúl seja o Gorbatchev cubano. Ele se parece com Yuri Andropov, um dos idosos e frágeis antecessores de Gorbatchev, que sabia que o sistema soviético era insustentável, mas não tinha determinação para transformá-lo. Ortega pode estar certo sobre seu diálogo com Raúl ser algo novo em Cuba. Mas o tempo de mudança real — e de maior engajamento dos EUA — ainda não chegou.
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