domingo, maio 30, 2010

A SAÚDE É VÍTIMA DE MÁ GERÊNCIA

A SAÚDE É VÍTIMA DE MÁ GERÊNCIA

EDITORIAL - O GLOBO - 30/5/2010
Com maior ou menor relevância, a Saúde é tópico presente na agenda de governos em todo o mundo. Em grande medida, Barack Obama atrelou sua campanha à Presidência dos Estados Unidos ao tema. Uma vez eleito, empenhou prestígio pessoal e poder de pressão do cargo para os parlamentares americanos aprovarem uma reforma do sistema público de saúde. No Brasil, a questão também embala preocupações dos candidatos, ganha destaque em programas de governo, mas quase invariavelmente, fechadas as contas das campanhas eleitorais, fica tudo do mesmo jeito. Nesse hiato de ações concretas que separa os palanques das eleições seguintes, quando volta a ser plataforma de candidatos, a Saúde se perde na leniência, ou na incompetência, dos governos, ou vira refém da invariável panaceia para os males do país — mais dinheiro para a Receita, mais invasão ao bolso do contribuinte.
Foi assim com a CPMF. Sua existência, em tese um bem-intencionado instrumento de capitalização do sistema de saúde, perdeu o sentido quando passou a nutrir o apetite tributário e o sorvedouro do caixa único da União. Mesmo assim, o governo Lula não economizou esforços, nem condenáveis ações de pressão sobre o Congresso (inclusive com o empenho de sua então ministra e hoje candidata a sucessora, Dilma Rousseff), para manter o tributo. Derrubado este, o Planalto tentou a cartada de ressuscitá-lo com outro nome — manobra rechaçada pelos parlamentares. De resto, o mantra de que o fim da CPMF representaria um rombo de R$ 40 bilhões no Orçamento não se confirmou, pois a fome arrecadadora foi saciada pelos próprios exageros do sistema tributário e o crescimento da economia.
Com a proximidade das eleições, a questão da capitalização da Saúde volta à mesa. No pano, a ideia de cobrar dos contribuintes a fatura da melhoria do sistema parece temporariamente sucumbir, à vista dos palanques. Não foi outro, por exemplo, o movimento da candidata de Lula, que chegou a pregar a volta de algo semelhante à CPMF. Confrontada com os prejuízos eleitorais da proposta, Dilma voltou atrás. A exemplo de seu adversário José Serra, passou a defender a regulamentação da emenda 29, que dispõe sobre percentuais mínimos de investimento na Saúde previstos em lei de 2004, jamais aplicada. Dessa forma, discute-se a Saúde a partir de cifras. De fora, fica a realidade de um sistema perverso. Dele, por exemplo, são emblemas a existência de 171 mil pessoas na fila do SUS à espera de cirurgia, como mostrou reportagem do GLOBO domingo passado, e a macabra estatística que dá conta de 40 mil amputações realizadas ano passado em hospitais públicos brasileiros, das quais 80% relativas a portadores de diabetes que não receberam tratamento adequado na rede pública.

Tal quadro é retrato de uma evidência: a Saúde brasileira sofre de má gestão, num sentido amplo que abrange a irresponsabilidade na administração de verbas e a insensibilidade com um sistema perverso, que engole vítimas colhidas quase invariavelmente entre os cidadãos de baixa renda. Disso decorre que apenas alimentar tal rede com mais dinheiro, sem melhorar sua estrutura, fomenta uma situação condenável.
O problema primordial é de gerência. Essa é a discussão principal de qualquer agenda que tenha por preocupação o aperfeiçoamento de um serviço essencial para a dignidade humana. Despejar dinheiro numa estrutura arcaica não resolve o problema

Ana Moura / Fado "Preso entre o sono e o Sonho"

Picasso - Reflexão

letras com trevo


Sobre o ano eleitoral - Reflexão de LYA LUFT

"Além das desgraças longe e perto, vindas da natureza ou do homem, estamos num ano eleitoral. Inaugurado o circo de manobras, mentiras e traições escrachadas ou subliminares que conhecemos. Precisamos de claridade nas ideias, coragem nos desafios, informação e vontade, e do alimento dos afetos bons. Num livro interessante (não importa o assunto) alguém verbaliza velhas coisas que a gente só adivinhava; um filme pode nos lembrar a generosidade humana; uma conversa pode nos tirar escamas dos olhos. Estar informado e atento é o melhor jeito de ajudar a construir a sociedade que queremos, ainda que sem ações espetaculares. Mas, se somos desinformados, somos vulneráveis; se continuarmos alienados, bancaremos os tolos; sendo fúteis, cavamos a própria cova; alegremente ignorantes, podemos estar assinando nossa sentença de atraso, vestindo a mordaça, assumindo a camisa de força que, informados, não aceitaríamos.
Alegria, espírito aberto, curiosidade, coisas boas desta vida, todos as merecemos. Mas me poupem do risinho tolo da burrice ou da desinformação: o vazio por trás dele não promete nada de bom."
Lya Luft, em artigo "Alegres e ignorantes" publicado na VEJA - Edição 2154

Coleta de sal, Peru Fotografia por Dordo Brnobic

Moradores do Vale Sagrado do Peru, perto de Cuzco,  nas águas salgadas de um córrego em piscinas de encosta, a recolher o sal depois que a água tenha evaporado.

A ponte entre a Ciência e a Religião transcrição completa da entrevista concedida pelo físico Amit Goswami ao programa "Roda Viva" da TV Cultura.



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Não existe algo chamado ‘multidão do bem’, toda multidão é do mal

Não existe algo chamado ‘multidão do bem’, toda multidão é do mal
por Luiz Felipe Pondé, para a Folha de São Paulo


O filósofo francês Blaise Pascal (século 17) dividia a inteligência em dois tipos de "espíritos". "Espírito", aqui, significa "atividade intelectual" e não alma penada ou um princípio pessoal e imaterial como no kardecismo. Os dois tipos são: o espírito geométrico e o espírito de "finesse".
O primeiro teria como vocação lidar com um grande número de questões ao mesmo tempo, arranjando-as de modo linear e encadeado, a fim de gerar deduções lógicas generalistas e de grande alcance. O segundo teria uma vocação para o detalhe e a sutileza, lidando melhor com um pequeno número de variáveis a cada vez, e fugindo das generalidades apressadas.
O geométrico ama a pressa e os resultados eficazes, o de "finesse" cultua a paciência e o cuidado, mas pode ser de eficácia duvidosa.
Normalmente eu tendo para o espírito de "finesse". O problema é que numa sociedade gigantesca como a nossa, com problemas de dimensões estatísticas, o espírito geométrico tende a devorar a alma. E, por definição, a alma vive mal na geometria. Seu habitat natural é a "finesse" porque a geometria tende ao grosseiro quando envolve seres humanos.
Em nossa complexa sociedade, algumas questões são tratadas de forma grosseira porque nós temos pressa em resolvê-las ou porque queremos fazer mentiras passarem por verdades. E aí, nós caímos num frenesi geométrico.
Leitores perguntam qual é minha posição quanto ao tema das cotas nas universidades. Outros, perguntam-me: "Você é a favor ou contra os direitos gays?".
O frenesi geométrico tende a dar respostas afeitas ao gosto de políticas públicas e movimentos sociais. Respostas geométricas são assim: "sou a favor" ou "sou contra" cotas ou direitos gays. E pronto.
Confesso: tenho alergia a esse negócio de "movimentos sociais" e suspeito muito do caráter de quem vive sempre metido neles. Não existe algo chamado "multidão do bem", toda multidão é do mal.
Recentemente ouvi um comercial no rádio que falava "todos juntos com uma só vontade e um só objetivo" (algo assim). Sinto um frio na espinha quando vejo "vontades unidas", pouco importa para quê.
Perdoe-me se isso parece uma falha de caráter, ou, quem sabe, se não sofri o suficiente na vida até hoje para confiar em multidões do bem, ou se conheço muitas mulheres bonitas e que gostam de tomar vinho antes do sexo. Na vida de um homem, o que decide sua realização é sempre sucesso profissional e sucesso com as mulheres, quem disser o contrário mente. Minha suspeita básica é de que desde os irmãos Caim e Abel (Caim matou Abel por inveja do amor de Deus pelo irmão), detestamos a felicidade no outro.
Mas e as cotas e os direitos gays? Tentemos uma resposta sem pressa.
Sou contra cotas raciais. Não acredito nessa coisa de dívidas históricas. Acho que isso serve para intelectuais fazerem carreiras ideologicamente orientadas (porque as universidades vivem sob repressão ideológica) e para pessoas politicamente articuladas garantirem seu futuro burocrático.
Sim, reinos africanos participavam do mercado de escravos e praticavam escravidão entre eles. Dizer que a escravidão dos africanos no Brasil foi uma mera questão de "europeus contra negros" é mentira. E mais: essa prática de cotas raciais (racismo "do bem") é tão racista quanto qualquer outra.
Dizer que reinos africanos e africanos libertos da escravidão no Brasil participaram do comércio de escravos não é "preconceito contra negros". Aqueles que afirmam isso o fazem por má fé.
Sou a favor de cotas em universidades públicas para estudantes de escolas públicas que se destacam em sua vida estudantil porque eu acredito em recompensar o mérito.
E os direitos gays? Não acho que gays devam ter direitos especiais. Leis que criminalizam gestos e palavras "contra os gays" para mim são mero fascismo.
Cirurgia para troca de sexo pago pelo Estado é um abuso para o contribuinte. Acho uma bobagem essa coisa de "homoafetividade".
É um abuso quando professores de educação sexual dão bananas para meninos colocarem camisinha com a boca, como se ser gay fosse "normalzinho". Deve-se respeitar o mal-estar das pessoas diante disso, e querer "formar" mentes nesse nível não é função da escola.
Entretanto, sendo gays pessoas comuns, acho que, sim, eles devem ter o mesmo direito que os outros: o direito de casar, criar filhos e ser (in)feliz no amor e na vida como todo mundo.


Luis Felipe Pondé é filósofo e psicanalista, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. Atuou como professor convidado nas universidades de Marburg (Alemanha) e de Sevilha (Espanha). Atualmente é professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC-SP, da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e professor convidado da pós-graduação de ensino em ciências da saúde da Universidade Federal de São Paulo e da Casa do Saber. Autor, entre outros títulos, de “O Homem Insuficiente”, “Crítica e Profecia”, “Filosofia da Religião em Dostoievski”, “Conhecimento na Desgraça” e “Ensaios de Filosofia da Religião”. É articulista da Folha de S. Paulo, com coluna semanal às segundas-feiras.

Uma mais 10 melhores sequências de filmes de todos os tempos.

Segundo ELY AZEREDO, crítico de cinema há mais de 50 anos e um dos mais respeitados, essa é uma mais 10 melhores sequências de filmes de todos os tempos. Trata-se de o massacre na escadaria de Odessa em "O Encouraçado Potemkin", de Eisenstein, 1925.
SERGEI M. EISENSTEIN(1898-1948)
Revolucionário, professor, pensador do cinema, realizador, Sergei Mikhailovich Eisenstein é um dos nomes fundamentais na consolidação da linguagem das imagens em movimento. Com 26 anos fez “A greve”, mostrando que arte e política podiam andar juntas. Com 27, deu ao mundo “O Encouraçado Potemkin”, tão (ou mais) importante que “Cidadão Kane” na história do cinema. Filmado em apenas 2 meses e montado com extraordinário apuro técnico, o “Potemkin” tem cenas cujo ritmo supera, com folga, qualquer clip pós-moderno da geração MTV. 

Battleship Potempkin - Odessa Steps scene (Einsenstein 1925)

Poder Público deve custear medicamentos e tratamentos de alto custo a portadores de doenças graves, decide o Plenário do STF

Notícias STF
Quarta-feira, 17 de Março de 2010
Poder Público deve custear medicamentos e tratamentos de alto custo a portadores de doenças graves, decide o Plenário do STF
O Plenário do Supremo Tribunal Federal indeferiu nove recursos interpostos pelo Poder Público contra decisões judiciais que determinaram ao Sistema Único de Saúde (SUS) o fornecimento de remédios de alto custo ou tratamentos não oferecidos pelo sistema a pacientes de doenças graves que recorreram à Justiça. Com esse resultado, essas pessoas ganharam o direito de receber os medicamentos ou tratamentos pedidos pela via judicial.
O ministro Gilmar Mendes foi o relator das Suspensões de Tutela (STA) 175, 211 e 278; das Suspensões de Segurança 3724, 2944, 2361, 3345 e 3355; e da Suspensão de Liminar (SL) 47. No seu voto (leia a íntegra), ele disse que se tem constatado a crescente controvérsia jurídica sobre a possibilidade de decisões judiciais determinarem ao Poder Público o fornecimento de medicamentos e tratamentos – decisões nas quais se discute, inclusive, os critérios para o fornecimento.
Gilmar Mendes afirmou que no âmbito do Supremo é recorrente a tentativa do Poder Público de suspender decisões judiciais nesse sentido. “Na Presidência do Tribunal existem diversos pedidos de suspensão de segurança, de suspensão de tutela antecipada e de suspensão de liminar com vistas a suspender a execução de medidas cautelares que condenam a Fazenda Pública ao fornecimento das mais variadas prestações de saúde – como fornecimento de medicamentos, suplementos alimentares, órteses e próteses, criação de vagas de UTIs e de leitos hospitalares, contratação de servidores da Saúde, realização de cirurgias e exames, custeio de tratamento fora do domicílio e inclusive no exterior, entre outros”, exemplificou.
O ministro contou que ouviu diversos segmentos ligados ao tema na audiência pública sobre a saúde, ocorrida em abril de 2009. “Após ouvir os depoimentos prestados por representantes dos diversos setores envolvidos, ficou constatada a necessidade de se redimensionar a questão da judicialização do direito à saúde no Brasil, isso porque na maioria dos casos a intervenção judicial não ocorre em razão de uma omissão absoluta em matéria de políticas públicas voltadas à produção do direito à saúde, mas tendo em vista uma necessária determinação judicial para o cumprimento de políticas já estabelecidas”, sublinhou.
Leia o texto completo aqui: http://shorttext.com/p5lpmux8mn

Marina Silva, uma mulher lúcida!

Além de si mesmo
MARINA SILVA - Folha de S. Paulo - 15/03/2010

"A liberdade, um dos direitos básicos da vida, é algo tão visceral e tão intrínseco à condição humana que, em determinadas situações, não poder usufruí-la é como tornar-se um morto-vivo, individual e coletivamente. Quando algumas pessoas chegam ao ponto de subtrair aquilo que é essencial ao corpo, que é o próprio alimento, estão usando o que lhes resta para apontar para essa morte social anterior.
A palavra é tão importante quanto o pão. Há outros alimentos que são vitais, a que chamamos de direitos humanos, que incluem a liberdade de expressar opinião, a liberdade de divergir. O direito de não ser tiranizado. Ainda que a greve de fome seja um ato extremo, muitos encontram nela a última forma de protesto. Por meio dela encerraram-se injustiças, salvaram-se vidas e despertaram-se a consciência e a solidariedade. Historicamente ganhou destaque mundial com Gandhi e sua batalha contra a opressão colonial inglesa na Índia.
Embora meus códigos pessoais e religiosos sejam contrários à ideia de dispor da vida, não há como desconsiderar sua semelhança com o sacrifício de tantos mártires da humanidade que, em defesa de seus ideais e causas, chegaram ao extremo de perder a própria vida.
Para G. K. Chesterton, o mártir se preocupa tanto com alguma coisa além de si mesmo que se esquece de sua vida pessoal. Em suas palavras, o mártir é um portador de princípios e atitudes nobres “porque morre para que alguma coisa viva”.
Nesse caso, o sacrifício acaba desencadeando um processo inescapável de interação, de corresponsabilidade, não só pela vida de uma pessoa, mas pela sobrevivência de valores basilares pactuados pela humanidade. É por isso que a política da não ingerência de um país nos assuntos internos de outro não pode significar a relativização de certos valores, mesmo que defendê-los possa nos criar alguns incômodos. Igualmente inaceitável é desqualificar o expediente e quem está expondo a ferida.
Uma forma de ser respeitoso e solidário é, às vezes, mostrar que nem sempre aqueles que são objeto de nossa lealdade estão certos. Nossa opinião sincera é também uma forma de lealdade.
Quando as contradições são empurradas para debaixo do tapete, em nome de quaisquer alinhamentos incondicionais, não existe parceria, e sim uma relação empobrecida de assimilação. Nesse caso, a cumplicidade mata, por inanição, a coragem para mudar e tornar o mundo melhor, onde quer que isso se coloque como desafio."

Divagações metafísicas

"As utopias parecem ser bem mais realizáveis do que se poderia acreditar antigamente. E nós nos encontramos atualmente diante de uma questão angustiante de maneira bastante diversa: como evitar a sua realização definitiva?... As utopias são realizáveis. A vida caminha em direção às utopias. E começa um novo século, talvez um século em que os intelectuais e a classe cultivada sonharão com os meios de evitar as utopias e retornar a um sociedade não-utópica, menos 'perfeita' e mais livre."


Nicolas Berdiaeff (1874-1948) 



Pensador russo, inicialmente associado à revolução comunista, 
porém posteriormente exilado na França.

Nana Caymmi - Razão de Viver


Comentário: Uma das músicas que marcaram minha vida!

Bessinha



Serra, Aécio e patriotismo

Serra, Aécio e patriotismo

FÁBIO WANDERLEY REIS – O Estado de São Paulo – 30/05/2010

As pressões sobre Aécio Neves para que aceite concorrer à Vice-Presidência na chapa "puro sangue" com José Serra assumiram forma patética. Num momento em que a ascensão de Dilma Rousseff e a queda de Serra nas pesquisas resultam em empate entre os dois, a aflição de PSDB e aliados leva empresários a cobrar até "patriotismo" de Aécio.

Aécio evita o risco de um confronto com a popularidade mineira de Lula. Mas deveria ser fácil ver as coisas do ponto de vista do cálculo pessoal de Aécio ao recusar associar-se em posição subalterna ao esforço eleitoral do PSDB e da oposição em geral. Ponha-se de lado o efeito que a sombra do avô Tancredo Neves possa ter sobre a autoimagem do ex-governador e suas ambições em seguida a dois mandatos bem-sucedidos e diante do amplo apoio em Minas.

É claro, de todo modo, que o que lhe é oferecido envolve o risco - tanto mais agora, com o impulso de Dilma - de ter de compartilhar, talvez desproporcionalmente, os danos da eventual derrota eleitoral (ou mesmo, em ótica mais ampla, de um governo comparativamente mal-sucedido em seguida ao do Super-Lula) sem perspectivas de ganho em caso de êxito de Serra e do exercício, por quatro anos, talvez oito, de uma Vice-Presidência por definição desbotada. Sem falar que Aécio se acha agora posto na incômoda posição de salvador de uma empreitada em perigo - e do fato de que uma avaliação realista de seu poder de transferir votos quando confrontado com a popularidade mineira de Lula tende a ressaltar o que pode haver de excessivo na aposta em Aécio como fator capaz de alterar de fato, em Minas, o resultado da disputa para presidente em plano nacional.

Por contraste com falta de patriotismo, falou-se de "generosidade" a propósito de ações recentes de Aécio, em particular a desistência de insistir na candidatura peessedebista. Creio que essa renúncia pode ela mesma explicar-se pelo cálculo. Não obstante termos tido a participação de Aécio no ícone oligárquico em que se transformou, há poucos anos, a imagem de alguns cardeais peessedebistas a deliberar sobre candidatura presidencial em jantar de bons vinhos, dificilmente, depois do ícone, o partido teria podido evitar as prévias que Aécio propunha se ele tivesse batido o pé quanto a elas. O problema é que obter as prévias e eventualmente ser derrotado nelas, além do desgaste imediato que representaria, tornaria muito mais difícil recusar a candidatura a vice apresentada como encargo partidário.

O que seria um bom motivo para que as forças serristas do PSDB se comprometessem com as prévias de forma a segurar Aécio - não fosse o temor de que elas viessem a dar, quem sabe, o resultado "errado", consagrando a candidatura presidencial de Aécio. Já a candidatura ao Senado preservaria, para o ex-governador mineiro, tanto a imagem de uma liderança de peso vitimada por circunstâncias partidárias tisnadas pelo componente oligárquico quanto a possibilidade de atuação significativa e de maior visibilidade, além da expectativa de que o partido viesse a cair-lhe no colo na hipótese de malogro de Serra.

Seja como for, "patriotismo" e "generosidade" remetem a objetivos distintos daqueles envolvidos no cálculo do interesse pessoal. O próprio Aécio recorreu a "generosidade" num contexto em que, além do compromisso com os objetivos supostamente maiores do partido, suas decisões são vinculadas aos interesses de Minas. É difícil enxergar além da retórica enevoada envolvida nisso: são tênues as conexões entre o eventual destino de Aécio como candidato a um cargo ou outro e o que se poderia pretender apresentar como "os interesses de Minas", ainda que seja possível discutir o impacto de suas opções sobre, por exemplo, as chances de eleger Anastasia como sucessor.

O diabo é que o foco realista dessa leitura vale de maneira muito mais ampla. Alguém indagava, a respeito de Brasil e Irã, o que Lula teria ido buscar em Teerã, e respondia "protagonismo". Se tomada amplamente como indicando ambição pessoal, a resposta vale para a pergunta de por que alguém quer ser presidente da República. Em termos de "patriotismo", a candidatura presidencial de Serra podia talvez ser defendida, por um peessedebista ou oposicionista convicto, quando ele liderava com folga as pesquisas. Mas empatado e na defensiva, levado até, de certo modo, a se declarar também ele lulista, as coisas mudam. Se se trata de buscar novidade de impacto, por que não Aécio para presidente, em vez de vice? Afinal, nas condições paulistas de PSDB contra PT, Aécio em São Paulo é boa aposta. O resto é campanha.


* FÁBIO WANDERLEY REIS É PROFESSOR EMÉRITO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG) E AUTOR, ENTRE OUTRAS OBRAS, DE MERCADO E UTOPIA: TEORIA POLÍTICA E SOCIEDADE BRASILEIRA (EDUSP)


J. Bosco para O Liberal


Brasil se torna o principal destino de agrotóxicos banidos no exterior

Brasil se torna o principal destino de agrotóxicos banidos no exterior
Lígia Formenti - O Estado de São Paulo - 30 de maio de 2010 | 0h 00

Campeão mundial de uso de agrotóxicos, o Brasil se tornou nos últimos anos o principal destino de produtos banidos em outros países. Nas lavouras brasileiras são usados pelo menos dez produtos proscritos na União Europeia (UE), Estados Unidos e um deles até no Paraguai.
A informação é da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com base em dados das Nações Unidas (ONU) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
Apesar de prevista na legislação, o governo não leva adiante com rapidez a reavaliação desses produtos, etapa indispensável para restringir o uso ou retirá-los do mercado. Desde que, em 2000, foi criado na Anvisa o sistema de avaliação, quatro substâncias foram banidas. Em 2008, nova lista de reavaliação foi feita, mas, por divergências no governo, pressões políticas e ações na Justiça, pouco se avançou.
Até agora, dos 14 produtos que deveriam ser submetidos à avaliação, só houve uma decisão: a cihexatina, empregada na citrocultura, será banida a partir de 2011. Até lá, seu uso é permitido só no Estado de São Paulo.
Da lista de 2008, três produtos aguardam análise de comissão tripartite - formada pelo Istituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), Ministério da Agricultura (Mapa) e Anvisa - para serem proibidos: acefato, metamidofós e endossulfam. Um item, o triclorfom, teve o pedido de cancelamento feito pelo produtor. Outro produto, o fosmete, terá o registro mantido, mas mediante restrições e cuidados adicionais.
Enquanto as decisões são proteladas, o uso de agrotóxicos sob suspeita de afetar a saúde aumenta. Um exemplo é o endossulfam, associado a problemas endócrinos. Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que o País importou 1,84 mil tonelada do produto em 2008. Ano passado, saltou para 2,37 mil t.
"Estamos consumindo o lixo que outras nações rejeitam", resume a coordenadora do Sistema Nacional de Informação Tóxico-Farmacológicas da Fundação Oswaldo Cruz, Rosany Bochner. Proibido na UE, China, Índia e no Paraguai, o metamidofós segue caminho semelhante.
O pesquisador da Fiocruz Marcelo Firpo lembra que esse padrão não é inédito. "Assistimos a fenômeno semelhante com o amianto. Com a redução do mercado internacional, os produtores aumentaram a pressão para aumentar as vendas no Brasil." As táticas usadas são várias. "Pagamos por isso um preço invisível, que é o aumento do custo na área de saúde", completa.
O coordenador-geral de Agrotóxicos e Afins do Mapa, Luís Rangel, admite que produtos banidos em outros países e candidatos à revisão no Brasil têm aumento anormal de consumo entre produtores daqui. Para tentar contê-lo, deve ser editada uma instrução normativa fixando teto para importação de agrotóxicos sob suspeita. O limite seria criado segundo a média de consumo dos últimos anos. Exceções seriam analisadas caso a caso.
A lentidão na apreciação da lista começou com ações na Justiça, movidas pelas empresas de agrotóxicos e pelo sindicato das indústrias. Em uma delas, foram incluídos documentos em que o próprio Mapa posicionou-se contrariamente à restrição. Só depois que liminares foram suspensas, em 2009, as análises continuaram.
Empresas. Representantes das indústrias criticam o formato da reavaliação. O setor diz não haver critérios para a escolha dos produtos incluídos na lista. E criticam a Anvisa por falta de transparência. Para as indústrias, o material da Anvisa não traz informações técnicas.
A Associação Nacional de Defesa Vegetal critica as listas de riscos ligados ao uso de produtos, muitas vezes baseadas em estudos feitos em laboratório. "Não há como fazer estudos de risco em população expressiva. A cada dia, mais países baseiam suas decisões em estudos feitos em laboratórios", rebate o gerente-geral de Toxicologia da Anvisa, Luiz Cláudio Meireles. 

EUA confirmam viver pior desastre ecológico de sua história

EUA confirmam viver pior desastre ecológico de sua história
Assessora deu a declaração após a companhia responsável pelo derramamento anunciar o fracasso dos planos de bloquear o fluxo de petróleo com uma injeção de lama pesada
O Estado de São Paulo - 30 de maio de 2010 | 11h 15
WASHINGTON - O vazamento de petróleo no Golfo do México é "possivelmente o pior desastre ecológico" da história dos Estados Unidos, afirmou hoje Carol Browner, assessora para meio ambiente e energia da Casa Branca.
Em declarações ao programa "Meet the Press", do canal "NBC", Carol falou depois que a companhia British Petroleum, responsável pelo derramamento, anunciou o fracasso dos planos de bloquear o fluxo de petróleo com uma injeção de lama pesada.
O vazamento de petróleo no Golfo do México é "possivelmente o pior desastre ecológico" da história dos Estados Unidos, afirmou hoje Carol Browner, assessora para meio ambiente e energia da Casa Branca.
Em declarações ao programa "Meet the Press", do canal "NBC", Carol falou depois que a companhia British Petroleum, responsável pelo derramamento, anunciou o fracasso dos planos de bloquear o fluxo de petróleo com uma injeção de lama pesada.
Carol Browner disse que o óleo deve continuar vazando no Golfo do México por meses e que a administração está "preparada para o pior". Ela diz que o governo ordenou que a empresa
perfure dois poços de alívio para o caso de o primeiro não funcionar.
Ontem, a companhia British Petroleum (BP), responsável pelo vazamento de petróleo no Golfo do México, anunciou, que a operação para fechar o poço por meio da injeção de fluidos pesados, como lama, não obteve sucesso, e que passaria a tentar um novo método.
O diretor de operações da BP, Doug Suttles, disse que a decisão da adoção de uma nova medida - a de cobrir o poço com uma cúpula - foi tomada após consultas com as autoridades federais. A operação "top kill" foi iniciada na quarta, mas cerca de 12 mil a 19 mil barris de petróleo continuam a vazar a cada dia no Golfo do México.
A nova estratégia prevê serrar, com submarinos robôs, o encanamento rompido de onde sai o petróleo e cobrir o resto com o que é basicamente um gigantesco funil, através do qual se passaria o óleo a navios na superfície.
Texto atualizado às 12h09.

Democracia sem olhar para trás

Democracia sem olhar para trás

Wilson Figueiredo

JORNAL DO BRASIL DOMINGO, 30 DE MAIO DE 2010
Passou sem ser percebido, talvez à moda mineira, um dado digno da maior consideração às vésperas de se desencadear a campanha presidencial. Não é segredo, e muito menos coisa desprezível, que os dois candidatos à frente nas pesquisas de opinião pública são oriundos da esquerda, na qual se formaram e dela se afastaram o suficiente para não comprometerem a taxa democrática de cada um. É de se supor que Dilma Roussseff e José Serra, em duas gerações de equivalente iniciação política através de períodos históricos com características opostas um sob a Constituição de 1946, outro sob o AI-5 tenham se identificado com a militância política de esquerda e apresentem saldo suficiente em favor da democracia.
A pequena e ocasional convergência entre José Serra e Dilma Rousseff se deve menos à evolução política para a esquerda do que ao esgotamento do exaurido padrão brasileiro de fazer política à moda tradicional, para não dizer pior. Apenas para salvar aparências, a diferença entre os candidatos em cena se reduz ao mínimo. Ganhe quem ganhar, essa diferença custa barato. A questão se situa praticamente na economia, e no que for acessório. Por último, conviria realçar a contribuição histórica do presidente Lula, cuja carta aos brasileiros lhe abriu crédito na classe média, colocada mais embaixo na escala social, e lhe valeu a eleição e a reeleição. A burguesia leu tudo nas entrelinhas, nas quais não está escrito mas subentendido. Nada, porém, com a esquerda, da qual quer distância. A fórmula clássica é eleger-se pela esquerda e governar pela direita. Não falha. Lula já está longe.
A exposição das candidaturas José Serra e Dilma Rousseff deve ter em vista mais cuidado para os dois não perderem a esquiva confiança da classe média, que emergiu do anonimato na onda da democracia que fala por si mesma e pela eleição direta. Chega de citações entre aspas retiradas da teoria e não perfilhadas pela realidade. A sucessão presidencial tem dialeto próprio, e fala por si mesma a circunstância de serem José Serra (pelo PSDB) e Dilma Rousseff (pelo PT) candidatos de mais alta cotação nas pesquisas. Trata-se do Brasil pós-Lula, queira ou não o presidente. Dissipou-se o velho medo de que a esquerda venha cobrar mais do que se dispõe nossa vã democracia a pagar.
Dilma e Serra estão, portanto, dispensados de demonstrar e se desculpar por terem tido iniciação política pela esquerda. A diferença (que não é pequena) entre eles se deve a circunstâncias políticas anteriores às respectivas candidaturas e a condições históricas adversas, pois em 1968 a geração que queria se inserir (vá lá) no processo se recusou a aceitar que a solução tivesse de ser política, e apostou o que não tinha em projetos revolucionários. Ao contrário, a geração já adulta dos jovens que haviam apostado na Constituição de 1946 estava preparada para a prova de paciência política, e se dispôs a desgastar o poder autoritário com paciência, coerência e resignação até a apoteótica derrota do regime e seu candidato na eleição indireta. José Serra aprendeu política com a esquerda que apostou na arte do possível. Na etapa seguinte, a geração de Dilma Rousseff viu no AI-5 a oportunidade de ir mais longe do que ter como prêmio de consolação uma Constituição burguesa. Ficou pelo caminho. De volta do exílio, Serra se apresentou e participou de um jogo que também será eterno enquanto durar.
Depois de cumpridos quatro mandatos de presidentes pelo voto direto, o Brasil se considerou em condições de eleger Lula. E o fez. Nada aconteceu que justificasse o temor tradicional. Os dois candidatos que marcam passo nas pesquisas devem ter aprendido que é perfeitamente possível conciliar esquerda e democracia mediante o uso de ferramentas legais. Cumpre-lhes demonstrar com atos que é contraproducente o medo da democracia. Pelo menos enquanto a vida política brasileira não se distanciar de um ponto, ainda não localizado, em que as imperfeições ponham em risco a estabilidade política. A impressão é que o país acelerou suas possibilidades, e aquele que olhar para trás corre o risco de virar estátua de sal.

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