domingo, julho 11, 2010

Guarulhos retomou intervenções em maio

Guarulhos retomou intervenções em maio
O Globo – 11/07/2010

SÃO PAULO. Segundo a Infraero, desde maio foram retomadas as intervenções no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando firmou Termo de Cooperação com o Exército Brasileiro. A obra prevê revitalização do sistema de pista. O orçamento é de R$ 43,7 milhões, mas não contempla a reforma total (de R$ 232,5 milhões).
Esse restante está sendo discutido na Justiça entre a Infraero e o consórcio, que rescindiu o contrato ao contestar a repactuação de preços proposta pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Outras intervenções estão em estágio de elaboração de projeto ou licitação (e dentro do cronograma, segundo a Infraero).
Os Módulos Operacionais Provisórios, ou MOPs (estruturas pré-fabricadas, apelidadas de puxadinho), serão uma alternativa, já que o terceiro terminal de passageiros de Guarulhos não ficará pronto — está em licitação internacional.

Somente uma fase está prevista para novembro de 2013.
O objetivo é aumentar a capacidade, de 24 milhões de passageiros/ano para 35 milhões até 2014. O investimento total será de R$ 952 milhões.
Depois de Guarulhos, o aeroporto de Campinas terá o maior investimento: R$ 576 milhões. As obras estão em fase de obtenção de licenciamento ambiental (novo terminal) ou em análise de projeto (módulo operacional).
Já para o Aeroporto de Congonhas, a Infraero não programou investimentos visando à Copa. Ainda assim, está construindo uma nova Torre de Controle (prevista para abril de 2011). E o terminal de passageiros será ampliado para atender a cerca de 17,5 milhões passageiros/ ano (o movimento atual é de 17,1 milhões).
Investimento de R$ 1,55 bi Ainda em julho começa o recapeamento da pista principal do aeroporto de São José dos Campos, que será repaginado — entre as mudanças estão a modernização do terminal de cargas e um novo centro de manutenção do aeroporto.

Segundo a Infraero, o investimento em São Paulo até 2014 será de R$ 1,55 bilhão.
— Preocupa, pois o crescimento de passageiros é alto. Este ano, tivemos aumento de 20% no Brasil. E nossa previsão era de 8,5% em 2010 todo. Estamos sempre correndo atrás do prejuízo. Mas, se o cronograma for mantido, não faremos feio na Copa — diz Ronaldo Jenkins, diretor do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias.
O Ministério da Defesa, no entanto, prevê aumento de 6,3% ao ano, entre 2009 e 2014.
E 10% durante a Copa. (C.K.) 

Lembrando, por Manoel Carlos

Crônica
Lembrando
Manoel Carlos na Veja Rio - 14/07/2010
Quem me acompanha por aqui, mesmo eventualmente, já deve ter lido uma ou duas linhas sobre o colégio onde estudei como interno, dos 11 aos 15 anos. A evocação constante desse período escolar não significa, nem de longe, que fui um bom aluno. Jamais, para tristeza dos meus pais, principalmente da minha mãe, professora formada pela Escola Normal de São Paulo, que inicialmente me quis e me sonhou padre, contentando-se, mais tarde, com a minha atividade de coroinha e de congregado mariano. Que depois me incentivou a ser médico, também sem resultado. E que, por fim, me pediu que lhe desse ao menos o diploma do curso ginasial. Mas nem isso, apesar de tão pouco, eu fui capaz de lhe dar.
Pois mesmo assim, com uma vida escolar tão precária, o internato dirigido por padres espanhóis agostinianos, severos e castigadores, permanece na minha memória como uma das quadras mais felizes da minha vida. E o que era um castigo imposto pelo meu pai, que achava que só mesmo um duro internato conseguiria me salvar, revelou-se um prêmio para o menino rebelde, considerado perdido pela vizinhança e por grande parte da família.
Pois bem: dois acontecimentos me levaram a uma nova e acentuada lembrança do internato. O primeiro deles foi ter lido num jornal aqui dos Estados Unidos, onde me encontro de férias, a notícia da morte, num desastre de carro, de uma jovem noiva, de casamento marcado para setembro. Diante da tragédia, o noivo, também muito jovem, deu cabo à própria vida, deixando uma carta na qual dizia estar indo ao encontro da noiva, que o esperava. Isso me fez lembrar de um rapaz que morava na vizinhança do internato. Chamava-se Antonio Bizet, que nós, os alunos, pronunciávamos Bizê, como o compositor francês, mas ele contestava, afirmando que o seu nome era Bizete, dando som ao “t” mudo, o que nos causava grande surpresa, pois já naquele tempo gostávamos de música e um sobrenome assim soava como nobre. Era um rapaz simples e educado. Nas festas, como no aniversário da cidade e na chegada dos expedicionários da II Guerra Mundial, em 1945, Bizet soltava a voz, uma bela voz de tenor, cantando músicas lindas e melancólicas, quase todas falando de amores infelizes, das quais ninguém conhecia a origem. Uma dessas canções contava a história de um suicida que apelava para o extremado gesto por acreditar que sua noiva o esperava entre as nuvens. Me lembro de três versos:
Que não tentem impedir minha passagem,
eu não curvo a cabeça a ninguém.
Minha noiva me espera nas nuvens...
Alguns anos mais tarde fiquei sabendo que Antonio Bizet, depois de perder a noiva, vítima de doença, se afogara deliberadamente no estreito rio que cortava a cidade. Obviamente, ao ler a notícia no jornal americano, a voz de Antonio Bizet ecoou dentro de mim:
Que não tentem impedir minha passagem,
eu não curvo a cabeça a ninguém.
Minha noiva me espera nas nuvens...
O segundo acontecimento que me trouxe de volta o internato foi saber que o fogo devorou boa parte do belo e antigo prédio onde por quatro anos eu fui aprisionado como castigo e do qual saí, repito, para lembrá-lo como um dos períodos mais felizes da minha vida. Tive vontade de voltar à pequena cidade para ver os estragos do incêndio, mas não tive coragem de encarar o que lá ficou de mim, agora chamuscado, dolorosamente.
e-mail: almaviva@uninet.com.br

Manoel de Barros - Deus disse



Deus disse

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.

Manoel de Barros

Simply Red - If You Don't Know Me By Now - Live from Budapest June 27th 2009

Patriarcado da violência

Patriarcado da violência

A brutalidade não é constitutiva da natureza masculina, mas um dispositivo de uma sociedade que reduz as mulheres a objetos de prazer e consumo dos homens

10 de julho de 2010 | 11h 49
Eliza Samudio está morta. Ela foi sequestrada, torturada e assassinada. Seu corpo foi esquartejado para servir de alimento para uma matilha de cães famintos. A polícia ainda procura vestígios de sangue no sítio em que ela foi morta ou pistas do que restou do seu corpo para fechar esse enredo macabro. As investigações policiais indicam que os algozes de Eliza agiram a pedido de seu ex-namorado, o goleiro do Flamengo, Bruno. Ele nega ter encomendado o crime, mas a confissão veio de um adolescente que teria participado do sequestro de Eliza. Desde então, de herói e "patrimônio do Flamengo", nas palavras de seu ex-advogado, Bruno tornou-se um ser abjeto. Ele não é mais aclamado por uma multidão de torcedores gritando em uníssono o seu nome após uma partida de futebol. O urro agora é de "assassino".
O que motiva um homem a matar sua ex-namorada? O crime passional não é um ato de amor, mas de ódio. Em algum momento do encontro afetivo entre duas pessoas, o desejo de posse se converte em um impulso de aniquilamento: só a morte é capaz de silenciar o incômodo pela existência do outro. Não há como sair à procura de razoabilidade para esse desejo de morte entre ex-casais, pois seu sentido não está apenas nos indivíduos e em suas histórias passionais, mas em uma matriz cultural que tolera a desigualdade entre homens e mulheres. Tentar explicar o crime passional por particularidades dos conflitos é simplesmente dar sentido a algo que se recusa à razão. Não foi o aborto não realizado por Eliza, não foi o anúncio de que o filho de Eliza era de Bruno, nem foi o vídeo distribuído no YouTube o que provocou a ira de Bruno. O ódio é latente como um atributo dos homens violentos em seus encontros afetivos e sexuais.
Como em outras histórias de crimes passionais, o final trágico de Eliza estava anunciado como uma profecia autorrealizadora. Em um vídeo disponível na internet, Eliza descreve os comportamentos violentos de Bruno, anuncia seus temores, repete a frase que centenas de mulheres em relacionamentos violentos já pronunciaram: "Eu não sei do que ele é capaz". Elas temem seus companheiros, mas não conseguem escapar desse enredo perverso de sedução. A pergunta óbvia é: por que elas se mantêm nos relacionamentos se temem a violência? Por que, jovem e bonita, Eliza não foi capaz de escapar de suas investidas amorosas? Por que centenas de mulheres anônimas vítimas de violência, antes da Lei Maria da Penha, procuravam as delegacias para retirar a queixa contra seus companheiros? Que compaixão feminina é essa que toleraria viver sob a ameaça de agressão e violência? Haveria mulheres que teriam prazer nesse jogo violento?
Não se trata de compaixão nem de masoquismo das mulheres. A resposta é muito mais complexa do que qualquer estudo de sociologia de gênero ou de psicologia das práticas afetivas poderia demonstrar. Bruno e outros homens violentos são indivíduos comuns, trabalhadores, esportistas, pais de família, bons filhos e cidadãos cumpridores de seus deveres. Esporadicamente, eles agridem suas mulheres. Como Eliza, outras mulheres vítimas de violência lidam com essa complexidade de seus companheiros: homens que ora são amantes, cuidadores e provedores, ora são violentos e aterrorizantes. O difícil para todas elas é discernir que a violência não é parte necessária da complexidade humana, e muito menos dos pactos afetivos e sexuais. É possível haver relacionamentos amorosos sem passionalidade e violência. É possível viver com homens amantes, cuidadores e provedores, porém pacíficos. A violência não é constitutiva da natureza masculina, mas sim um dispositivo cultural de uma sociedade patriarcal que reduz os corpos das mulheres a objetos de prazer e consumo dos homens.
A violência conjugal é muito mais comum do que se imagina. Não foi por acaso que, quando interpelado sobre um caso de violência de outro jogador de seu clube de futebol, Bruno rebateu: "Qual de vocês que é casado não discutiu, que não saiu na mão com a mulher, né cara? Não tem jeito. Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher". Há pelo menos dois equívocos nessa compreensão estreita sobre a ordem social. O primeiro é que nem todos os homens agridem suas companheiras. Embora a violência de gênero seja um fenômeno universal, não é uma prática de todos os homens. O segundo, e mais importante, é que a vida privada não é um espaço sacralizado e distante das regras de civilidade e justiça. O Estado tem o direito e o dever de atuar para garantir a igualdade entre homens e mulheres, seja na casa ou na rua. A Lei Maria da Penha é a resposta mais sistemática e eficiente que o Estado brasileiro já deu para romper com essa complexidade da violência de gênero.
Infelizmente, Eliza Samudio está morta. Morreu torturada e certamente consciente de quem eram seus algozes. O sofrimento de Eliza nos provoca espanto. A surpresa pelo absurdo dessa dor tem que ser capaz de nos mover para a mudança de padrões sociais injustos. O modelo patriarcal é uma das explicações para o fenômeno da violência contra a mulher, pois a reduz a objeto de posse e prazer dos homens. Bruno não é louco, apenas corporifica essa ordem social perversa.
Outra hipótese de compreensão do fenômeno é a persistência da impunidade à violência de gênero. A impunidade facilita o surgimento das redes de proteção aos agressores e enfraquece nossa sensibilidade à dor das vítimas. A aplicação do castigo aos agressores não é suficiente para modificar os padrões culturais de opressão, mas indica que modelo de sociedade queremos para garantir a vida das mulheres.

DEBORA DINIZ É ANTROPÓLOGA E PROFESSORA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

Cuba começa a libertar dissidentes em acordo raro

Cuba começa a libertar dissidentes em acordo raro
BBC Brasil

O governo de Cuba começou a libertar um grupo de dissidentes, de acordo com parentes dos prisioneiros. A medida é parte do acordo anunciado na quarta-feira que prevê a libertação de 52 pessoas.
Os primeiros três libertados teriam sido levados a locais mantidos em sigilo e fariam parte de um grupo de 17 dissidentes dispostos a se exilar na Espanha.
O acordo de libertação de prisioneiros é um fato raro no país e pode se transformar no maior da última década na ilha, o que possivelmente marcaria uma virada nas relações internacionais cubanas.
O governo não informou quantas pessoas foram postas em liberdade no sábado.
'Despedidas'
Um dos dissidentes, José Luís García Paneque, ligou para a família para dizer que seria transferido da prisão da província de Las Tunas para Havana, de acordo com informações do primo Raul Smith divulgadas pela agência de notícias AFP.
As esposas dos dissidentes Pablo Pacheco e Luís Milán receberam ligações de outros presos afirmando que seus maridos teriam sido libertados.
Irene Viera, esposa de Julio Cesar Galvez, disse que ela e o filho, que mora em Havana, foram convocados para exames médicos antes de partir para o México.
"Já estou me despedindo dos amigos", disse Viera à agência de notícias Reuters.
Ainda não se sabe quantas pessoas do grupo buscarão asilo na Espanha.
A Igreja Católica de Cuba, que mediou o acordo de libertação, disse que pelo menos 17 pessoas teriam aceitado ir para o país ibérico.
Greves de fome
Segundo a AFP, uma autoridade católica disse que dez dissidentes seriam libertados e viajariam para a Espanha "em breve", como parte do trato.
Todos os 52 presos faziam parte do grupo de 75 dissidentes preso em 2003 e condenado a sentenças de entre seis e 28 anos de detenção.
Um deles, Guillermo Farinas, encerrou uma greve de fome na sexta-feira, após o anúncio do acordo.
O trato inédito aconteceu após negociações entre o presidente Raul Castro e o cardeal Jaime Ortega.
Farinas, que recusou comida por mais de 130 dias, já estaria perto da morte. Ele começou a greve de fome depois que um colega, Orlando Zapata Tamayo, morreu de inanição, em consequência de uma greve de fome de 85 dias.
'Gesto bem-vindo'
Depois do anúncio do governo cubano na quarta-feira, o ministro do Exterior da Espanha fez um apelo à União Europeia por uma posição menos rígida sobre Cuba.
Em 1996, o bloco europeu decidiu que a situação dos direitos humanos e da democracia em Cuba precisa melhorar, antes de qualquer normalização nas relações.
Miguel Angel Moratinos, que esteve em Cuba para negociar, afirmou que o governo espanhol está disposto a dar asilo aos prisioneiros libertados.
A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, por sua vez, afirmou que o gesto cubano, que classificou de "algo que chegou atrasado, mas mesmo assim muito bem-vindo", foi animador.
Analistas dizem que a medida pode marcar uma mudança nas relações entre Cuba, Estados Unidos e Europa.
FOTO: Casos como o de Fariñas tiveram grande repercussão internacionalO dissidente político cubano Guillermo Fariñas encerrou nesta quinta-feira uma greve de fome de mais de 130 dias depois de o governo de Cuba ter anunciado a libertação de presos políticos.

Bela Fleck & The Flecktones - The Sinister Minister (Part 1)

Momento de repulsa total

Momento de repulsa total

Editorial, Jornal do Brasil
RIO - A cada desdobramento do sequestro e morte da jovem Eliza Samudio, detalhes macabros vão emergindo e dando contornos de uma tragédia ao desaparecimento da ex-amante do goleiro do Flamengo, Bruno. A frieza, a premeditação, a maldade dos supostos assassinos, a torpeza de desmembrar um corpo humano e entregá-lo às feras, nada disso pertence a almas que estão em paz com a própria consciência. Criaturas com tamanho grau de malignidade não possuem amarras morais que as impeçam de se transformarem em verdugos cínicos e impiedosos. O repúdio nacional – e, dada a repercussão do caso, agora internacional – manchou o noticiário que, por exemplo, dava espaço ao lançamento da Copa de 2014 no Brasil, em uma cerimônia na África do Sul. A índole de paz e bondade do povo brasileiro não merecia ser posta à prova por atos tão vis que até o mais calejado policial envolvido na investigação sofreu em seu emocional.
Eliza Samudio pode ter cometido todos os erros na vida. Mas, como mãe de um bebê de apenas quatro meses, parecia amorosa, dedicada e consciente da graça divina que é a gestação de uma nova vida. Paradoxalmente, sua sentença de morte foi dada em função justamente desse fato. Ter a existência abreviada por um ex-policial, criador de cães ferozes, que antes de estrangulá-la teria cheirado as suas mãos, é de uma crueldade sem limites. Muitas preces ainda serão necessárias até que sua alma incrédula com tamanha barbárie possa descansar em paz. O trabalho da Justiça, a partir de agora, deve isso a ela. E ao seu filho.
O caso é emblemático ainda pela combinação de fama, dinheiro e confusões envolvendo o universo do futebol no Rio. Jogadores consagrados, ídolos de crianças e adultos, não podem envolver-se em orgias, ou justificar agressões a mulheres, a tantas Elizas da vida, como se isso fosse o comportamento correto de um homem. Também não podem acreditar que o dinheiro farto e absoluto garante a amoralidade de atos cuja carga de maldade transcendem a compreensão até do mais empedernido dos especialistas. Dizer que a fama pode trazer loucura é simplificar o caso: o que separa o homem do seu convívio sadio com os demais é o caráter. O menino que admirava Bruno como um atleta tecnicamente completo, corajoso e vinculado à imagem de garra do Flamengo, hoje se queda perplexo sem saber no que mais pode acreditar.
Eliza Samudio virou um símbolo da podridão que envolve certos círculos no mundo do futebol. Pagou com a vida por ceder ao brilho mundano de um mundo no qual drogas, violência, corrupção e sexo são elementos mais importantes do que a busca pelo limite, pela superação individual em nome de um ganho coletivo, pela alegria popular. Um mundo no qual quem está fora do campo e se omite em casos assim tem tanta responsabilidade quanto os que matam.
00:48 - 09/07/2010 -  Na foto, a dor da mãe da jovem assassinada covardemente.

Rio Antigo: O Chafariz das Saracuras

Rio Antigo: O Chafariz das Saracuras

Últimos dias do chafariz no convento em foto de Malta de 1911
Em 1911, com a demolição iminente do Convento da Ajuda, foi revelada ao público uma jóia do período colonial, um chafariz interno, que havia sido protegido dos olhos profanos por mais de um século por força do regime de clausura. Batizado alguns anos antes como Chafariz das Saracuras pelo historiador Vieira Fazenda, era composto por agradável combinação de engenho e estética.
De formato circular, tinha quatro escadas na base, e mais acima uma taça de pedra que recebia a água jorrando dos bicos de quatro saracuras de bronze em um obelisco. O líquido desaparecia e ressurgia pela boca de quatro tartarugas, que enchiam quatro pias de pedra, utilizadas pelas freiras para lavagem de roupa e outras necessidades cotidianas.
O chafariz foi uma dádiva do vice-rei Conde de Rezende às religiosas da Ajuda, e, inaugurado em 1799, prestou serviços até o desaparecimento do convento, sendo então doado à municipalidade, que o colocou na Praça General Osório, em Ipanema, bairro que nascia para o mundo. Durante alguns anos a obra foi respeitada, mas, longe do abrigo e exposto à sempre atuante legião de vândalos, já na década de 1930 teve uma das saracuras roubadas, sendo as remanescentes retiradas.
Há quase cem anos as águas não correm mais no belo chafariz, vítima de tempos duros, em que monumentos desse tipo pouca chance têm de sobreviver incólumes e em seu esplendor original, excetuando-se aqueles protegidos em parques de acesso controlado e com vigilância permanente.

Quando a máscara cai

Quando a máscara cai

Perdidos de sua identidade, jogadores se alienam em personalidades forjadas e em um sentimento de ilimitação

10 de julho de 2010   Jorge Forbes

É dessas fotos que ficam no imaginário coletivo: Pelé aos 17 anos, campeão do mundo, chorando no ombro do grande Gilmar, que o ampara, o consola, o anima, o conforta. Passados não mais de 52 anos, a reprodução dessa cena é quase impensável. Se o garoto Neymar tivesse sido campeão do mundo nos seus atuais 18 anos, como muitos queriam, em que ombro choraria de emoção, se é que choraria? No de Dunga, velho e bravo campeão; no de Kaká, veterano de outras copas e acostumado aos aplausos? Não, não parece a ninguém factível a repetição daquela cena protagonizada por Pelé e Gilmar nos campos da Suécia. Meninos de hoje não choram mais nos ombros de seus ancestrais, meninos de hoje não têm ancestrais. A sociedade pós-moderna pulveriza as verticalidades e não provê acolhimento das angústias nas hierarquias verticais, nos mais velhos, nos mais experientes, nos que já passaram por isso. O resultado está aí. A série que deveria ser "descoberta, sucesso, fama, dinheiro, conforto e satisfação" tem sido "descoberta, sucesso, fama, dinheiro, mulheres, drogas, violência, desastres, prisão ou ostracismo".
Podemos pensar em uma explicação paradigmática, além das particularidades de cada caso, o que o mais das vezes só anda tampando o sol com a peneira: foi o pai violento, a mãe alcoólatra, as más companhias, a péssima educação, o irmão psicopata, etc. Ocorre que a saída da pobreza e do anonimato para a riqueza e a fama, subitamente, gera uma forte crise de identidade. Ter sucesso é cair fora; na palavra "sucesso" existe a raiz "ceder, cair". Quem tem sucesso cai fora do seu grupo habitual de pertinência. Tom Jobim não tinha razão quando dizia que o brasileiro não desculpava o sucesso, pois nenhum povo desculpa, só variam as maneiras de demonstrá-lo. A máxima de Ortega y Gasset ainda é válida: "Eu sou eu e a minha circunstância". E quando a minha circunstância muda abruptamente, fica a pergunta profundamente angustiante: "Quem sou eu?", que fundamenta a crise de identidade.
Aí, com frequência, a pessoa se aliena em uma identidade forjada, aquela que fica bem na fotografia, a máscara; surge assim o mascarado. Quantos e quantos jogadores de futebol não se transformaram em mascarados diante dos nossos olhos? E a coisa não para por aí. A máscara não é suficiente para dominar a angústia causada pelo sucesso, vindo, em seguida, um sentimento terrível de ilimitação, de poder tudo. Quer alguma coisa, compra; quer um amor, toma; quer ter razão, impõe. Esse sentimento de quebra de fronteiras pede um basta que não raramente aparece da pior forma: no insulto, no acidente, na morte. Alguns têm a sorte de passar por um desastre controlável e depois conseguem se recuperar, carregando beneficamente a cicatriz de sua desventura, mas muitos e muitos vão e não voltam.
Não pensemos que a solução está no treinamento de ombros amigos, como os do passado, dado em lições risíveis de moral e cívica extraídas dos panfletos de neorreligiões televisivas, ou de jornalistas histriônicos que se querem baluartes da dignidade social. O que entendemos necessário é um trabalho com todos os grupamentos que convivem com esse fenômeno de mudança de status repentina, dos quais as equipes de futebol são um exemplo maior, um trabalho que saiba tratar do problema da perda de identidade como foi aqui referida.
No mundo de hoje, um mundo horizontal sem baluartes fixos, sem Gilmares para as pessoas se apoiarem, é necessário que possamos oferecer novos tratamentos às crises de identidade que se multiplicam. Se o tratamento não reside mais em se mirar no exemplo do ídolo da geração anterior, o que temos a fazer é implicar cada um em seu ponto de vergonha essencial, aquele que a fama não recobre e que o dinheiro não compra, um ponto de vergonha que todo ser humano carrega em si por ter nascido e não saber muito bem o que faz por aqui, por se sentir um acontecimento sem explicação. Pois bem, não deixemos ninguém se acomodar no empobrecedor e perigoso "eu sou o máximo". Fiquemos com a lição do próprio futebol, de que cada partida é uma nova partida, sem piloto automático, sem já ganhou, sem triunfalismo. Fica a recomendação para os técnicos do futuro: mais invenção com responsabilidade e menos repetição com disciplina.
JORGE FORBES É PSICANALISTA. PRESIDE O INSTITUTO DA PSICANÁLISE LACANIANA E DIRIGE A CLÍNICA DE PSICANÁLISE DO CENTRO DO GENOMA HUMANO, DA USP

Preta - cordel do fogo encantado

Nani Humor e o salários dos professores



Leopard Cub, Tanzânia


Fotografia por Kilgour Owen   Um filhote de leopardo explora a grama alta no Parque Nacional Serengeti, na Tanzânia.

Stédile prevê mais invasões de terra com vitória do PT

Stédile prevê mais invasões de terra com vitória do PT
O País verá aumento das ocupações de terra caso Dilma Rousseff (PT) vença as eleições e crescimento da violência no campo se José Serra (PSDB) for o escolhido, acredita João Pedro Stédile, fundador do MST. "Com Dilma, nossa base social perceberá que vale a pena se mobilizar", disse, em entrevista à Reuters. "Se o Serra ganhar, será a hegemonia total do agronegócio".
Líder do MST prevê onda de invasões de terra em eventual governo Dilma
O Estado de São Paulo

O mais influente dirigente do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, previu que Brasil viverá um aumento das ocupações de terra se Dilma Rousseff (PT) vencer as eleições e um crescimento da violência no campo caso José Serra (PSDB) seja o escolhido.
Ele explica que a intensificação de atos num eventual governo do PT ocorre justamente pelas afinidades históricas entre os dois grupos. "Um operário, diante de um patrão reacionário, não se mobiliza. Com Dilma, nossa base social perceberá que vale a pena se mobilizar, que poderemos avançar, fazendo mais ocupações e mais greves", disse Stédile, em entrevista à Agência Reuters.
"Se o Serra ganhar, será a hegemonia total do agronegócio. Será o pior dos mundos. Haverá mais repressão e, por isso, maior tensão no campo. A vitória dele é a derrota dos movimentos sociais", acrescentou.
Por essa razão, a opção "majoritária" do movimento é apoiar a a petista - mesmo que, nos últimos anos, justamente num governo considerado amigo, o MST tenha se enfraquecido e chegado à conclusão de que "o agronegócio venceu".
"Lula não fez reforma agrária, mas uma política de assentamento. Metade dos números do governo é propaganda", afirma Stédile. Segundo dados oficiais, quase 1 milhão de famílias foram instaladas nos últimos sete anos em terras cedidas pela União, ou compradas do setor privado pelo valor de mercado.
Apesar de algumas decepções, Stédile descarta apoiar um candidato de extrema esquerda. "Não temos alternativa", disse. "É como se você percebesse que seu time pode cair para a segunda divisão e faz o que for possível para vencer o campeonato."
O MST vive um período difícil e se queixa de ter sido alvo de criminalização pela imprensa e por "forças de direita" nos dois mandatos do PT. Stédile raramente dá entrevistas. "A imprensa, que antes nos tratava como coitadinhos e até nos elogiava, passou a nos dar um pau nestes oito anos, passou a ser arma da direita para nos estigmatizar", argumentou.
O movimento endossou a candidatura de Lula em 2002 apostando numa administração à esquerda. Frustrou-se com a continuidade do modelo macroeconômico implantado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Voltou a dar um apoio tímido em 2006, momento mais difícil para o PT com a crise do mensalão. Após aquela vitória de Lula, as relações ficaram estremecidas.
Nesse período, a organização enfrentou três CPIs no Congresso e perdeu diversos repasses de convênios federais. PSDB e DEM acusam o governo de patrocinar ocupações de terra com dinheiro público. "Não somos puxa-saco nem pau-mandado de ninguém", enfatizou Stédile.
Pragmatismo. O apoio informal a Dilma - que assegurou que não vai tolerar "atividades ilegais" do movimento -, e não a presidenciáveis ideologicamente mais próximos ao MST, como Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), vem de uma avaliação pragmática de que esses nomes não foram capazes de aglutinar forças populares.

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