sábado, julho 31, 2010
Sinal verde para testar embriões
Sinal verde para testar embriões
EUA aprovam primeira experiência em seres humanos. Meta é terapia para lesão na medula
Roberta Jansen - O Globo
A Administração de Drogas e Alimentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês) deu sinal verde ontem para a realização do primeiro teste com células tronco embrionárias em seres humanos, num ato que promete ser um divisor de águas das terapias celulares.
A experiência pioneira usará células desenvolvidas pela Universidade da Califórnia e a Geron Corporation em pacientes com lesão medular causadora de paralisia.
Cientistas brasileiros consideraram a autorização um marco que abre caminho para, a médio prazo, termos estudos semelhantes no país.
O teste em seres humanos já tinha sido autorizado para o mesmo grupo em janeiro do ano passado.
Antes que o estudo começasse, no entanto, a própria administração o suspendeu porque cientistas constataram o crescimento de cistos em camundongos que haviam recebido células similares. A Geron teve então que desenvolver novas formas de garantir a pureza das células a serem injetadas e realizar um novo teste com roedores. Mediante resultados positivos, a FDA derrubou a suspensão.
Preocupação com a segurança
As células-tronco embrionárias têm a capacidade de originar qualquer outra célula do organismo. O grande objetivo dos cientistas é induzir o desenvolvimento de tecidos para substituir aqueles lesionados ou doentes. A terapia abre caminho para o tratamento de uma ampla gama de problemas, de lesão na medula a mal de Alzheimer.
Até hoje, no entanto, as células só foram testadas em animais. Embora cientistas tenham obtido resultados promissores, um teste em seres humanos nunca foi feito. O grande temor é que as células pluripotentes (com capacidade para se transformar em qualquer tecido) não se comportem exatamente como esperado e acabem gerando tecidos diferentes ou, pior ainda, tumores cancerígenos.
— Eles devem ter conseguido selecionar as células certas para que o teste seja mais seguro — explicou a geneticista Mayana Zatz, especialista em células-tronco do Instituto de Biociências da USP. — Numa população de células, há subpopulações.
Se conseguirmos isolar as que formam cistos e retirá-las do processo, o teste fica mais seguro.
Este primeiro teste em humanos, de fase 1, tem por objetivo principal testar, justamente, a segurança do procedimento. Garantida a segurança do processo, novas fases checarão a sua eficácia. Anos de testes ainda serão necessários para que uma terapia possa ser aprovada e usada em grande escala em seres humanos.
— É importante deixar claro que se trata de um teste, é experimental — frisou Mayana, que estuda a aplicação de células-tronco em doenças neuromusculares.
— Nesta primeira fase, em que se testa a segurança, não há grande expectativa de resultado.
Cientistas da Geron e da Universidade da Califórnia induziram as células embrionárias a se diferenciarem em células chamadas oligodendrócitos.
E as usaram como base de um composto chamado GRNOPC1. Esse composto será injetado na medula espinhal do paciente, no local da lesão.
— Quando há uma lesão medular, o neurônio perde sua capa de mielinização, que permite a transmissão da informação nervosa — explica o coordenador do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (Lance) da UFRJ, Stevens Rehen. — Sem a mielina, é como se o neurônio não tivesse força para passar informações para os músculos nem receber informações sensoriais. Essas células que eles vão injetar, os oligodendrócitos, são responsáveis pela formação dessa capa de mielina. Os resultados em animais são impressionantes.
Serão selecionados em todos os EUA de oito a dez pacientes que tenham sofrido uma lesão entre a terceira e a décima vértebra — mais ou menos na metade superior das costas — há menos de 15 dias. A ideia é que o teste comece até o fim deste ano. A experiência levará dois anos para ser concluida, com cada paciente sendo estudado por 12 meses. Por razões de segurança, os pacientes serão monitorados pelos próximos 15 anos. Embora o objetivo seja testar a segurança, os cientistas estarão atentos a sinais de resultados promissores.
— Eles vão avaliar se houve aumento de sensibilidade e outras coisas, mas, como a lesão é muito recente, será difícil avaliar se alguma melhora detectada seria por causa do tratamento ou um processo natural — pondera Mayana. — Mas se trata de um primeiro passo muito importante. Há um limite com os modelos animais, chega a um ponto em que precisamos passar para testes em seres humanos.
Stevens Rehen se mostra um pouco mais otimista sobre os resultados a serem alcançados.
— Eles devem ter um grupo de controle, pacientes que sofreram lesões parecidas, no mesmo período, e que não vão receber as células — pondera o especialista, que já testou outro tipo de células para recuperar camundongos paralisados. — Se for possível identificar alguma melhora no controle da postura ou tronco, alguma sensação, já vai ser um grande avanço.
Para Rehen, é uma questão de tempo até o mesmo teste poder ser feito no Lance.
— Se tivermos um teste bem-sucedido, o laboratório terá subsídio para começar a trabalhar assim.
PASTOR OU GERENTE? IGREJA OU EMPRESA?
PASTOR OU GERENTE? IGREJA OU EMPRESA?
Isaltino Gomes Coelho Filho - 29 Jul 2010 12:54 PM
A questão não é nova. E me defino logo: a igreja não é empresa e o pastor não é gerente eclesiástico. Sei que um pastor deve ter noções de liderança de grupo e que uma igreja precisa de regras de vivência administrativa. Inclusive, por ser pessoa jurídica, se submeter às leis do país. Mas igreja não é empresa. Igreja é igreja, algo totalmente singular e distinto de qualquer outra organização. E deve ser pastoreada por homens que sejam pastores. Deus deu pastores à igreja (Ef 4.1) e não administradores de empresa. Gerentes devem ficar em empresas, e pastores nas igrejas.
A liderança da igreja não se forma em escolas de administração nem em cursos de liderança. É carismática. Os charismata do Espírito são para fazer a igreja viver. Sem os dons do Espírito a igreja pode ser uma instituição admirável, funcionando bem, como uma máquina azeitada, mas corre o risco de não ser mais igreja. Por charisma não me refiro a curas, línguas, ou sua interpretação. Nas listas de dons do Novo Testamento, estes não são os primeiros alistados. Não discutirei dons, aqui. Posso discuti-los em outra ocasião, mas agora afirmo o seguinte: a igreja e o ministério pastoral têm sido descaracterizados por causa de um enfoque equivocado. Os apóstolos pediram à igreja que escolhesse homens de boa reputação para administrar um problema da igreja, e afirmaram: “Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra” (At 6.4). Esta é a função primordial do pastor: assuntos espirituais. E não me digam que supervisionar colocação de tijolos é negócio espiritual, que não há dicotomia entre vida material e espiritual, que esta separação é platonismo, etc. Posso discutir Platão em outra ocasião, mas ele não tem nada a ver com esta visão. Os apóstolos deixaram claro que tinham algo mais importante a fazer que cuidar de alguns problemas da igreja, que eram relevantes e ameaçavam a unidade, mas que não eram para eles cuidarem. Hoje há uma inversão: os pastores cuidam dos negócios e pedem à igreja que ore por eles. Mas em Atos, os homens da igreja cuidavam dos negócios e os pastores oravam e pregavam.
Ao apresentar o excelente “A vocação espiritual do pastor”, de Eugene Petersen, Ricardo Barbosa faz uma observação muito pertinente. Diz ele que há duas palavras novas, recém incorporadas ao vocabulário atinente à vocação pastoral: líder e terapeuta. Diz ele, textualmente: “Fala-se cada vez menos em formação pastoral e mais em formação de líderes. Curiosamente, ‘líder’ é uma palavra que não aparece na Bíblia para descrever aquele que serve a Deus em sua igreja. Também não aparece na longa história de vinte séculos de vocação pastoral” (p. 7). Continuando o arrazoado, Ricardo diz que quando se fala em pastor, hoje, não nos vem à mente a figura do Salmo 23 ou as responsabilidades sacerdotais de Arão, “mas as imagens do executivo, do administrador, do empresário, imagens de um profissional” (p. 8). Ele faz uma interessante comparação entre pastores e terapeutas seculares. Muitos destes renunciam à ciência, e citam manuais de auto-ajuda. Os pastores deixam de lado a orientação da Palavra, e citam terapeutas incrédulos e almanaques. Sua conclusão é séria: “Nosso chamado é para ser pastores, não líderes ou terapeutas” (p. 11).
Isso se coaduna com a argumentação de Os Guiness, em “Dining with the Devil: the megachurch movement flirts with the modernity” (“Jantando com o Diabo – o movimento mega-igreja flerta com a modernidade”). Para Guiness, o maior desafio do mundo à igreja não é o secularismo, mas a secularização. O secularismo é uma filosofia, e a secularização é um processo. Sendo abertamente hostil, o secularismo, logo é identificado e rejeitado. Mas a secularização vem como um processo, e nos envolve sutilmente, até mesmo porque nós a usamos. Ouvi um líder cristão, nos anos noventas, dizer que “para viver segura, a igreja precisava ter, pelo menos, R$ 10.000,00 em caixa”. A argumentação é mundana, mas me chocou tanto que a comentei aos formandos da Faculdade de Teologia do Amazonas, em 1997, na palavra paraninfal que intitulei de “Quando a igreja troca a teologia pela tecnocracia”, e volto a ela, treze anos depois. Tal líder não entendeu que a maior segurança da igreja está em viver dentro da Palavra, na presença de Deus, e não no seu caixa. Quando há vida espiritual na igreja, o Espírito move os corações das pessoas. Foi assim que o Espírito agiu na vida de José, levando-o a vender seu terreno, sem que houvesse uma campanha para tal, e trouxesse o valor à igreja (At 4.36-37). Onde há espiritualidade há recursos. Mais que marketing, a igreja precisa de santidade. O obreiro cristão secularizado é um tecnocrata. Crê que a salvação e o futuro da igreja não estão em Deus e na oração, mas em táticas humanas. Sua visão é mundana. Assim, muitas igrejas vivem de campanhas e os pastores se esmeram na criatividade para mobilizar o povo. Mas um ambiente espiritual proveria isto. Muito de nossa ação secularizadora poderia ser alvo do pedido de Paulo: “Não extingais o Espírito” (1Ts 5.19). A verdadeira liderança se põe mãos do Espírito, vive em sua presença, e possibilita sua ação na igreja. Não o extingue, trocando-o por técnicas de animação do povo tipo: “Como liderar o povo de Deus em sua caminhada para o sucesso”. A maior característica de liderança da igreja é que ela deve ser carismática, vinda do Espírito, e não de cursinhos, livros e revistas sobre técnicas.
Na obra citada, Os Guiness traz o comentário feito por um negociante japonês a um cristão: “Sempre que encontro um líder budista, encontro um homem santo. Sempre que encontro um líder cristão, encontro um administrador” (p. 97). Isto me foi uma bofetada. A liderança cristã deve ser recrutada entre os mais santos e piedosos, os mais moldados pela Bíblia (cremos mesmo que ela é o manual de Deus à igreja?) e não entre os mais capazes na vida secular, mesmo que de espiritualidade opaca. Priorizamos a competência secular sobre a santidade, e depois descobrimos que não deu certo, porque as regras de vida da igreja diferem das regras de vida de uma empresa. Basta uma diferença para nos fazer refletir sobre isto. A saúde de uma empresa está em maximizar ganhos e minimizar gastos. Quer matar uma igreja? Faça isso! Quer ver uma igreja explodir de vida? Leve-a a investir em missões, em obreiros, em vidas. Os recursos virão. Afinal, Deus disse: “Minha é a prata, e meu é o ouro, diz o Senhor dos exércitos” (Ag 2.8). Está no Salmo 50.12: “Se eu tivesse fome, não to diria pois meu é o mundo e a sua plenitude”. Deus tem os recursos, mas momentaneamente os deixa com seu povo. E não precisam ser extorquidos do povo, que o traz voluntariamente quando Deus age. O problema é que parece que não cremos mais nessas coisas, e tentamos dar um jeito de fazer a igreja funcionar. Aposentamos o Espírito Santo. Estou chocado com a visão secular do reino de Deus entre nós. A proliferação de modelos eclesiásticos é uma prova disso. Damos cada vez mais valor à técnica e aos métodos. Colocamos Deus na periferia e o fazer humano no centro. Não é de admirar que vivamos em uma crise cíclica. Perdemos os alvos espirituais de vista. Eles são numéricos e quantitativos. Mas a igreja é algo muito sério para a tomarmos em nossas mãos!
No seu prefácio, Barbosa faz um interessante comentário sobre como é difícil aos pastores serem pastores. Diz ele que é porque os pastores estão afundados na idolatria: “Onde dois ou três estão reunidos e o nome de Deus é pronunciado, uma comissão está formada para a criação de um ídolo. Queremos deuses que não sejam deuses para que possamos ser ‘como deuses’” (p. 16). A tecnocracia é o grande ídolo, o bezerro de ouro de nossas igrejas e pastores. Assim, pastorado deixou de ser ensinar a Palavra e cuidar das pessoas e se tornou administrar um negócio espiritual. Deixou de ser um sacerdócio (viver na presença de Deus, ministrar a Palavra de Deus e interceder pelo rebanho de Deus) e passou a ser uma carreira religiosa. O pastor virou gerente.
O texto de Petersen, propriamente dito, se baseia em Jonas. Ele quis servir a Deus, não como este queria, mas do seu modo. No final, sua briga com o Senhor não foi por causa do reino de Deus, mas de sua reputação pessoal. Esta é uma das lutas do pastor: preocupar-se mais com sua reputação pessoal que com a vontade de Deus. Não podemos usar a igreja e o reino como degraus para a nossa escalada pessoal rumo ao sucesso. “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30). Mas muita gente está escrevendo sua história pessoal tendo o evangelho como pretexto. O ministério do obreiro é promovido mais que o nome de Jesus. Em alguns lugares, lá estão o nome do obreiro (em letras garrafais) e sua foto-pôster. É um culto à personalidade, vulgar e chocante. Esta pessoa está ambicionando o lugar de Jesus. Na realidade, o obreiro sequer deveria ser promovido.
Sei que pastores estão em baixa, não tem expressão e não movimentam recursos de monta. Gerentes, sim. E muitas igrejas, estruturadas como empresas, querem gerentes, não pastores. Há rebanhos que não querem pastores, mas agem como acionistas de um negócio espiritual: querem um executivo. Não querem ouvir a voz de Deus, até mesmo porque isso é perigoso. Querem ouvir o eco de sua própria voz. E atribuem ao eco o status de voz divina.
Jonas pensou que podia servir a Deus em Társis, ao invés de Nínive. O seu negócio era servir a Deus. Então, ele tentou fazer à sua maneira, não à maneira de Deus. Como comento em meu livro “Jonas, nosso contemporâneo”, segundo os rabinos, a razão principal pela qual Jonas foi para Társis não foi por ser o lado oposto a Nínive, mas ser um lugar onde a Palavra de Deus não se fazia ouvir (com base em exegese de Isaías 66.19). Quando um homem segue seus insights foge da voz de Deus. O profeta ouve a voz de Deus. O homem religioso segue seus insights. Outra grande tentação do pastor é ser um homem religioso, e não um profeta. Porque é possível cuidar de religião sem ouvir a voz de Deus. É menos problemático cuidar de religião. Não é de estranhar a dificuldade de tantos pastores com a Bíblia, a ponto de chamarem quem cita a Bíblia de fundamentalista. Nessa enquadraram Jesus, porque ele gostava muito de dizer “Está escrito”. Gerente tem mais margem de manobra em negócios que pastor. O gerente ouve o mercado e segue as técnicas modernas. O pastor deve se guiar por noções tidas como obsoletas. E parece que o gerente e a igreja-empresa estão mais cotados que o pastor e a igreja-igreja: arrastam mais gente e aparentam mais sucesso aos olhos humanos. Mas perguntemo-nos: isto é mesmo igreja nos moldes bíblicos? O que estamos fazendo com a igreja e com o reino de Deus?
Pastores devem ouvir a Bíblia, submeter-se a ela, reger-se por ela. Gerentes amam e seguem técnicas e soluções como “R$ 10.000,00 em caixa”. Mas gerentes descaracterizam a igreja e a transformam num negócio secular. Precisamos recuperar o sentido bíblico de igreja, bem como os princípios bíblicos para a vida da igreja. Também precisamos recuperar a visão bíblica do ministério, trazendo o pastor de volta ao molde pastoral do Novo Testamento, e não ao figurino do gerente moderno. Caso contrário, nós que já perdemos as duas últimas décadas discutindo métodos para recuperar nossa denominação, perderemos outras, discutindo métodos e técnicas. Estamos patinando e não nos damos conta disso! Estou cansado de modelos, gráficos e desenhos que, na minha limitação gerencial, nunca entendo! Há trinta anos vejo minha denominação, que muito amo, discutir técnicas e modelos. Será que ainda não deu para notar que não é por aí? Não dá para notar que precisamos deixar os bezerros de ouro da técnica, dos modelos, do institucionalismo, e reentronizar o Deus verdadeiro em nossas igrejas? Que os rebanhos precisam de pastores e não de gerentes? Que carecemos de vida mais que de estratégias?
Solução? Não tenho, mas ouso uma sugestão. Por que, ao invés de pedir às igrejas que orem pelo Brasil, no dia 15 de outubro, não pedimos às igrejas e aos batistas da CBB, que separem o dia para orar e jejuar pela denominação? Que tal priorizarmos a oração e a espiritualidade sobre técnica, modelos, planos e gestões? Parece-me que ver a igreja como empresa e tornar o pastor em gerente é o que mais temos feito nos últimos vinte anos e não saímos do lugar. Jejuemos e oremos assim, e quem sabe, voltaremos ao pastor-pastor e à igreja-igreja. Oremos por um avivamento que nos faça retornar à simplicidade que há em Cristo (1Co 11.3). Um avivamento que nos leve a confessar e chorar nossos erros, que afaste da liderança as pessoas erradas, que leve os pastores a amarem mais as igrejas que seus ministérios, que acabe com as carreiras solos e nos reconduza ao trabalho solidário. Um avivamento que acabe com o “eu” e traga o “nós” de volta.
Quanto a mim, quero ser pastor e não gerente. Quero cuidar de um rebanho, não de uma empresa. E reitero meu amor pela igreja de Jesus, pela minha denominação, e minha crença inabalável que precisamos retornar a um caminho abandonado. “Não removas os marcos antigos que teus pais estabeleceram” (Pv 22.28). Temos feito isto. E nos saído mal.
Fonte: http://www.isaltino.com.br/
A faxina do voto limpo
A faxina do voto limpo
30/07/2010 - 23:15 - Por Villas-Bôas Corrêa
A reação custou a dar o ar de sua graça, mas afinal emplacou um faxina em regra para proteger o voto limpo das maracutaias que são uma das pragas de todas as eleições. Entidades de combate à corrupção de Brasília e de São Paulo lançaram sem estardalhaço, mas com a simplicidade de quem é sua essa obrigação, o Portal da Ficha Limpa e que começará a sua atividade com o cadastro em um site de todos os candidatos que passarem sem manchas ou arranhões pelo corredor das novas regras eleitorais. E, para o selo do asseio, se comprometam a prestar contas da arrecadação e das despesas de campanha pela internet e dentro dos prazos da lei.
O site da internet –– já está em funcionamento e recebendo as primeiras prestações de contas dos candidatos.
O site da internet –
E, como não é obrigatória mas uma clara demonstração de respeito ao eleitor e à lei, ao candidato caberá a iniciativa de apresentar os documentos que comprovem as suas credenciais éticas, que são exigidas no ato de inscrição no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Se o procedimento é simples para quem não tem gato escondido com o rabo de fora, o candidato terá de apresentar carta de compromisso e documentos em que comprove não ter condenações no estado em que concorre à eleição, nem nos demais. E, para fechar a lista, a declaração que nunca renunciou a mandato para evitar cassação.
São tão óbvias as cautelas da lei que parecem dispensáveis. Mas cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal aos sadios nem pioraram o estado dos doentes. A iniciativa do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, da Associação Brasileira contra a Corrupção e a Impunidade Eleitoral (Abracci), e do Instituto Ethos, que gerenciará o portal em São Paulo, vai desembolsar R$ 35 mil para manter o site durante a campanha.
A louvável e incomum iniciativa reúne redes de ONGs em todo o país. Cerca de mil entidades compõem essas redes, com a ajuda dos adversários políticos, que são os melhores fiscais dos concorrentes. Para as próximas eleições, o site centralizará a fiscalização nas campanhas dos candidatos a presidente, governador, senador e deputado federal.
Os cuidados não param por aí. Esclarece o gerente de política pública do Instituto Ethos e secretário da Abracci, Caio Magri, que os documentos enviados pelos candidatos serão previamente analisados por uma equipe técnica, com o apoio dos estudantes de direito da PUC-SP. Mas o principal controle será da população. O cadastro é voluntário, mas quem não tem o que esconder não tem o que temer.
Vigilância é vital em torno da Ficha Limpa
Opinião – O Globo
Vigilância é vital em torno da Ficha Limpa
Não surpreende que, nesta primeira fase de aplicação prática da Lei da Ficha Limpa, em que tribunais regionais começam a tomar decisões a partir do encaminhamento de casos pelo Ministério Público eleitoral, haja posições desencontradas, mesmo que já existam balizamentos estabelecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O caso de maior repercussão foi, até agora, o TRE do Maranhão ter contrariado a interpretação do TSE de que a nova lei não faz retroagir penas, pela simples razão de que ela tão-somente estabelece parâmetros para se avaliar o pedido de registro de candidatura com base na situação jurídica da pessoa no momento desta avaliação. Não estabelece qualquer nova punição, apenas enquadra aspirantes a candidato a cargos eletivos.
Os juízes maranhenses preferiram abraçar a tese, já derrotada no TSE, de que a lei só valeria para condenações futuras. Alega o TRE-MA que até hoje o TSE não julgou qualquer recurso deste teor. Pode ser, mas os ministros da mais alta Corte eleitoral já votaram em direção contrária à seguida pelos magistrados maranhenses. Entre os beneficiados pela posição assumida pelo tribunal regional está o deputado Zequinha Sarney (PVMA), um indício forte de influência da política regional no veredicto.
O ocorrido no Maranhão e o registro da candidatura do ex governador Anthony Garotinho, no Rio de Janeiro, por liminar do TSE, outro exemplo de desencontro, reforçam a necessidade de o Supremo Tribunal Federal (STF) deliberar o mais rapidamente possível sobre o alcance da Ficha Limpa. Ministros da Corte já concederam e negaram pedidos de liminar contra a nova lei, indicando divergências no próprio tribunal.
O julgamento do mérito desses casos servirá para estabelecer de uma vez a abrangência da Ficha Limpa. O momento ainda é de advogados de políticos considerados fichas-sujas acumularem arsenal para defender a clientela. Os advogados do deputado Paulo Maluf (PP-SP), procurado no exterior pela Interpol por crime financeiro nos Estados Unidos, não incluíram este processo na documentação enviada à Justiça eleitoral, como se a Ficha Limpa não abrangesse prontuários redigidos em inglês. O MP impugnou Maluf.
Tensões e pressões tendem a aumentar à medida que o tempo passa e outubro se aproxima. É bem-vinda, portanto, a decisão de grupos da sociedade que se mobilizaram pela legislação — entre eles, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) — de lançar o Portal da Ficha Limpa. No site (www.fichalimpaja.org.br), na rede desde ontem, o próprio candidato que se considera aprovado pela Lei da Ficha Limpa se cadastra, com o compromisso de prestação semanal de contas dos gastos em campanha. Há uma extensa rede de entidades que checam as informações dos candidatos, passíveis de ser excluídos do site à primeira comprovação de deslize. A iniciativa é correta porque o movimento pela faxina ética na política não poderia cruzar os braços depois de aprovada a Ficha Limpa. Ao contrário, a vigilância na aplicação da lei e a facilitação do acesso do eleitor a informações sobre os candidatos precisam ser absolutas.
STJ mantém condenação de plano de saúde para indenizar beneficiária por recusa de tratamento
STJ mantém condenação de plano de saúde para indenizar beneficiária por recusa de tratamento
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou provimento a recurso especial interposto pela Hapvida Assistência Médica Ltda., do Ceará, com o objetivo de mudar decisão de primeira instância que condenou a empresa a pagar indenização por danos morais, por ter se recusado a custear o tratamento médico-hospitalar de um beneficiário. A decisão, que foi mantida pelos ministros da Quarta Turma, é referente a ação movida por uma cliente do plano de saúde.
A segurada contratou os serviços do plano de saúde com a Hapvida para o tratamento do filho, em outubro de 2002. Cinco meses depois, em março de 2003, o rapaz foi acometido por uma doença repentina e descobriu-se, no hospital, que ele tinha um tumor na região escrotal.
Apesar da gravidade do quadro, a empresa responsável pelo plano de saúde recusou-se a custear os serviços médicos, alegando que o rapaz não tinha cumprido o período de carência necessário para aquele tipo de procedimento. Em razão disso, a mãe teve de pagar uma caução prévia, no valor de R$ 2.557,97, mais despesas médicas, hospitalares e ambulatoriais, que totalizaram R$ 17.302,06.
Correção
Ao julgar o caso, o juízo de primeiro grau considerou procedente o pedido de indenização por danos morais movido pela mãe do rapaz. Condenou a empresa a ressarcir todas as despesas médicas e hospitalares comprovadas e, ainda, ao pagamento de R$ 40 mil como indenização. O valor das despesas médicas terá de ser acrescido de correção monetária pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) e juros de mora à base de 6% ao ano, a título de danos morais – mais pagamento de custas processuais e honorários advocatícios arbitrados em 20% sobre o total da condenação.
No recurso interposto ao STJ, a Hapvida destacou que a decisão representa violação ao Código de Processo Civil e à Lei n. 9.656/1998 (referente à legislação sobre planos de seguros privados de assistência à saúde), no tocante à fixação do período de carência, bem como sobre a diferença de procedimentos de urgência e emergência. A empresa pediu, também, a revisão do valor da indenização, com a alegação de que o valor seria “exorbitante”.
Exceção
No seu voto, o relator do caso no STJ, o desembargador convocado Honildo de Mello Castro, afirmou que a doença pela qual foi acometido o rapaz, bem como a gravidade e as condições de urgência e emergência do caso, apontam um problema que precisava ser combatido imediatamente, “e jamais precedia à realização do contrato de seguro”. O magistrado destacou que “a necessidade de amparo da previdência privada se fazia absolutamente necessária”, em caso de exceção previsto no artigo 12 da Lei n. 9.656/98. “Cumpria ao plano de saúde honrar o seu compromisso contratual”, destacou o desembargador, no seu voto.
De acordo, ainda, com o relator, a indenização, de R$ 40 mil, é justa, “considerando-se a dor causada pela recusa do plano de saúde em prestar os serviços médicos necessários, diante da gravidade da moléstia que acometeu o recorrido e da urgência que o caso merecia”.
Coordenadoria de Editoria e Imprensa
Inteligência cultural
Inteligência cultural
O que torna o homem um ser social? Roberto Lent comenta um estudo que comparou crianças e símios para descobrir, afinal, com que grau de cognição social nascem os homens. Os resultados indicam que nascemos propensos à cooperação social – como a sociedade nos moldará depois já é outra história.
Por: Roberto Lent - Publicado em 30/07/2010 – Ciência Hoje
Faça você a seguinte brincadeira: deixe cair ‘acidentalmente’ um objeto no chão, e tente alcançá-lo simulando dificuldade. Uma criança de 18 meses que esteja por perto engatinhará até o objeto para pegá-lo e devolvê-lo a você.
Esse é um dos testes simples utilizado pela equipe do antropólogo Michael Tomasello, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, para avaliar uma pergunta antiga que ele mesmo formula da seguinte forma: as pessoas são naturalmente cooperativas e a sociedade as corrompe, ou são naturalmente egoístas e a sociedade as corrige?
Uma criança ajuda a outra a ficar de pé: espírito de solidariedade nato ou aprendido? Testes de cognição social com crianças e símios indicam que as capacidades cognitivas para a cultura e a vida social nascem conosco (foto: Mor Naaman – CC BY-NC 2.0).
As pessoas são naturalmente cooperativas e a sociedade as corrompe, ou o contrário?
Assisti a uma conferência de Tomasello há poucas semanas em Amsterdã, na qual ele relatou seus experimentos sobre a hipótese da ‘inteligência cultural’, que defende para explicar a extraordinária capacidade humana para uma cognição social.
Na ocasião, mostrou alguns vídeos sobre os experimentos com crianças e com chimpanzés, que o leitor pode conferir aqui.
Inteligência e cognição social
Na foto à esquerda, o experimentador deixa cair um objeto, e a criança o devolve. À direita, a experimentadora tem as mãos ocupadas para abrir o armário, e a criança a ajuda. Modificado de Warneken e Tomasello, 2009.
É ponto pacífico que os seres humanos são dotados de capacidades cognitivas superiores em relação aos símios, seus parentes mais próximos na evolução. Basta lembrar a linguagem, o simbolismo matemático e o raciocínio científico, para citar apenas algumas.
Tudo indica que essa superioridade esteja relacionada ao grande cérebro que temos, três vezes maior que o dos chimpanzés, e dotado também de três vezes mais neurônios.
A questão central é saber de que modo a estrutura do cérebro e suas estratégias funcionais adquiriram capacidades cognitivas tão poderosas e únicas entre os seres vivos.
A natureza teria nos dotado especificamente de uma capacidade superior – a cognição social
Uma hipótese bem aceita é a da ‘inteligência geral’. Dizem os seus adeptos que os cérebros maiores permitiram realizarmos operações cognitivas de todo tipo, com maior eficiência que outras espécies.
Teríamos maior memória, aprendizagem mais rápida, percepção mais ágil (inclusive do estado mental de outras pessoas), planejamento de longo prazo. Dotado dessas potencialidades genéricas, o ambiente faria a diferenciação individual, lapidando cada um diferentemente do outro.
Tomasello defende a hipótese da ‘inteligência cultural’, cuja premissa é que a natureza nos dotou especificamente de uma capacidade superior – a cognição social – que nos oferece um grau elevado de cooperação interindividual, e a construção de redes sociais nunca conseguida pelos símios ou qualquer outra espécie, mesmo aquelas que apresentam uma organização populacional que se pode chamar de social. Outras capacidades humanas seriam semelhantes às dos símios, apenas potencializadas pela cultura e a vida em sociedade.
O teste das inteligências
Se a hipótese da ‘inteligência cultural’ for verdadeira, existiria uma idade em humanos, durante o seu desenvolvimento precoce (antes que a cultura os influencie fortemente), em que a cognição física (relações de espaço, quantidade e causalidade entre fenômenos) seria semelhante à dos grandes símios. Nessa mesma idade, porém, a previsão é que a nossa cognição social seja nitidamente superior à dos chimpanzés e orangotangos.
Se for correta a hipótese da ‘inteligência geral’, crianças seriam superiores aos símios nos testes de cognição física também.
A equipe de Tomasello testou 106 chimpanzés, 32 orangotangos e 105 crianças
A equipe de Tomasello elaborou uma bateria de testes que foram aplicados a 106 chimpanzés de idades entre 3 e 21 anos, 32 orangotangos de 3 a 10 anos e 105 crianças de cerca de 2 anos e meio. Em todos os casos, metade dos indivíduos era do sexo masculino, metade do sexo feminino.
Os testes foram divididos em dois grandes grupos. Os de cognição física lidam com objetos inanimados e suas relações de causa e efeito no espaço e no tempo. Por exemplo: localizar um objeto desejado, escondido pelo experimentador; ou diferenciar uma caixa com duas bolinhas de uma caixa idêntica com cinco bolinhas.
Já os testes de cognição social consideram as interações entre indivíduos, suas ações intencionais, percepções e conhecimento. Nesse caso, o sujeito aprende e imita uma ação observando o experimentador realizá-la; ou tenta encontrar um objeto seguindo a direção do olhar do experimentador; ou interage com ele objetivando ajudá-lo.
Da natureza humana
O gráfico à esquerda mostra que as crianças acertaram os testes de cognição física tanto quanto os chimpanzés, e o da direita mostra o contrário para os testes de cognição social: as crianças foram bem melhores! Modificado de Herrmann e cols., 2007.
Os resultados obtidos pela equipe de Tomasello comprovaram a sua hipótese da ‘inteligência cultural’. Nos testes de cognição física, as crianças e os chimpanzés não diferiram estatisticamente, mas ambos tiveram desempenho melhor que os orangotangos. Nos testes de cognição social, entretanto, as crianças mostraram-se muito superiores aos símios, que por sua vez não diferiram entre si.
Nos testes de cognição social, as crianças venceram a parada em todos os quesitos
Dentre os testes de cognição física, não houve diferença entre as três espécies no quesito de avaliação quantitativa: crianças e símios são igualmente capazes de estimar a quantidade de objetos.
Nos quesitos de espaço e de causalidade entre fenômenos, crianças e chimpanzés foram iguais, mas os orangotangos destoaram para pior. Já nos testes de cognição social as crianças venceram a parada em todos os quesitos, e os símios não diferiram entre si.
Tudo indica, então, que a cultura e a vida social representam capacidades cognitivas que nascem conosco, possivelmente derivadas do nosso grande cérebro povoado por quase 90 bilhões de neurônios. Possivelmente, a aquisição dessa capacidade social se deu em algum momento entre um e dois milhões de anos atrás, quando a evolução foi selecionando cérebros dotados de mais que os 40 bilhões estimados para os australopitecos, nossos ancestrais africanos.
O processo seletivo continuou até chegar ao gênero Homo, que gradualmente atingiu os nossos atuais 90 bilhões e adquiriu novas capacidades: a comunicação entre indivíduos por meio da linguagem, a aprendizagem social de regras de conduta coletiva voltadas para a cooperação, a percepção do estado mental dos outros e de suas intenções e emoções (‘teoria da mente’) e o planejamento de ações futuras de longo prazo.
A sociedade nos eleva, ou ela mesma nos corrompe
Assim, nascemos propensos à cooperação social: essa é a nossa força. Provavelmente, os poucos genes que nos diferenciam dos chimpanzés são responsáveis pelos circuitos neurais que coordenam as funções relacionadas à vida social.
Sua expressão, entretanto, deve ser modulada pela sociedade que nós próprios construímos. A sociedade nos eleva, ou ela mesma nos corrompe.
Toda força aos cientistas sociais, para que nos indiquem como construir sociedades melhores...
Roberto Lent
Instituto de Ciências Biomédicas
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Assinar:
Postagens (Atom)

