quarta-feira, agosto 25, 2010

Sarah Chang - Dvorak Concerto para Violino (parte 1)

O País torto

O País torto

Moacyr Góes
Rio – O Brasil é um país torto. Foi o que pensei quando li no jornal que a maioria dos brasileiros ainda não tem acesso à rede de esgoto e que o país superou a marca de 170 milhões de celulares.
Fico imaginando a cena de uma pessoa falando ao celular com os pés enterrados no esgoto. Vivemos no século vinte e um com o século dezenove enterrado até o joelho.
O celular foi um passo importante na democratização da informação e comunicação entre as pessoas. É um legado das privatizações e do governo de Fernando Henrique Cardoso. Isso não se pode apagar.
Um dia ainda vamos ter mais consciência e maior orgulho das transformações introduzidas pelo governo FHC. Hoje essa discussão está na vala.
A falta de saneamento básico, por outro lado, é a tradução da incompetência e, algumas vezes, desfaçatez dos governos.
É notória a ideia de que as obras de infra-estrutura não são feitas porque não aparecem e, por consequência, não rendem votos. Mas é mais do que isso. É a falta de um planejamento estratégico para o país.
Preferimos torrar e desviar dinheiro da saúde a prevenir, vender carros a investirem transporte público sobre trilhos, distribuir computadores a investir em educadores e no ensino, realizar a Copa e as Olimpíadas a resolver a habitação, e por aí vai.
Há muito dinheiro no Brasil, o que falta são planos estratégicos e investimento adequado. E isso se discute quando se enfrenta a questão da política.
Mas quem está interessado nisso? Basta ver os programas eleitorais. Nosso flerte com a incivilidade pode acabar em casamento, é o que me preocupa.
Fonte: Jornal “O Dia” – 21/08/10

Parteiras tradicionais: um retorno à valorização do parto natural

Parteiras tradicionais: um retorno à valorização do parto natural
Entrevista especial com Paula Viana
Expectativa, medo, curiosidade, angústia, planejamentos... toda mulher grávida vive um misto de sentimentos na esperança de que seu bebê esteja e seja saudável, que seja uma pessoa boa, um ser humano de bom coração, que venha ao mundo de forma tranquila, sem sofrimento. Enquanto algumas mulheres, pensando na segurança do filho, escolhem o parto no hospital, algumas vezes através de cesárea, hoje muitas mães querem um parto mais humanizado e natural e algumas têm optado pelo acompanhamento das parteiras tradicionais. Aproveitando o Encontro Nacional Parteiras Tradicionais: Inclusão e melhoria da qualidade da assistência ao Parto Domiciliar no SUS, a IHU On-Line entrevistou, por telefone, a enfermeira e parteira Paula Viana. “Uma vez, no interior do Amazonas, conversei com uma médica e uma parteira. E a médica perguntou: ‘qual é a diferença do meu atendimento para o seu?’. Desta forma, a parteira respondeu: ‘a diferença é que você tem pressa e eu não’”, relatou.
Paula Viana é enfermeira-obstetra em Recife (PE), faz partos domiciliares e coordena o Grupo Curumim, uma organização não governamental feminista que desenvolve projetos de fortalecimento da cidadania das mulheres em todas as fases de suas vidas.
Confira a entrevista.
Em que sentido a parteira é mais humana do que o médico em relação ao parto? Paula Viana – A parteira representa o elo entre a comunidade e o Sistema Único de Saúde (SUS). Elas têm um trabalho de atenção integral à saúde da mulher e da criança, pois acompanham toda a gravidez, conhecem a vida das famílias, chamam-nas pelo nome e representam o mesmo nível social e econômico dos clientes, o que aproxima ainda mais a parteira da mãe. Isso é fundamental para o momento da gravidez, do parto e do pós-parto. O parto não é só um evento médico, é um evento social e familiar que tem a mulher como protagonista. Então a parteira tem essa capacidade de interagir de forma mais humana, no sentido do pensamento mais holístico. Não que não haja médicos que façam assistência desse tipo. Porém há uma distância maior entre médicos e médicas e as mulheres das comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombo, floresta, onde estão as parteiras tradicionais. Elas têm muito o que ensinar para nós. Uma vez, no interior do Amazonas, conversei com uma médica e uma parteira. E a médica perguntou: “qual é a diferença do meu atendimento para o seu?”. Desta forma, a parteira respondeu: “a diferença é que você tem pressa e eu não”. As parteiras não têm pressa mesmo, elas acompanham a mãe e isso torna o parto mais humano.
Você pode descrever o panorama geral da situação das parteiras tradicionais no mundo? Paula Viana – Há um movimento internacional das parteiras, que reúne parteiras de vários países da América do Sul, do Canadá, do México, Europa. Esse movimento busca a valorização dessas trabalhadoras em saúde e também respeito às suas tradições. A tecnologia, quando entrou na sala de parto, veio para ajudar. Nós agradecemos porque existe a possibilidade da cesárea para que possamos salvar vidas. No entanto, essa tecnologia afastou a ideia do parto como um evento antropológico e social. A luta do movimento internacional é para que a parteira seja vista como uma aliada. Ela tem que ensinar ao sistema público de saúde, mas ela também tem que aprender.
Hoje, quando e como uma mulher se torna parteira? Paula Viana – Existem alguns tipos de parteiras: tem a enfermeira-obstetra, que é uma parteira. Eu mesma sou uma enfermeira-obstetra, uma parteira domiciliar. Existe a parteira que faz um curso técnico de três anos que é treinada só para o parto normal e tem formações originais diferentes. Já a parteira tradicional é aquela formada pela experiência. Algumas dizem: “eu aprendi no susto”. Aqui no encontro há 26 parteiras tradicionais e 34 enfermeiras e médicos. Essas 26 trazem relatos muito interessantes quanto a sua formação. Uma disse que começou aos 12 anos de idade. Ela foi chamada numa primeira ocasião, depois é chamada de novo e com isso vão pegando experiência. A teoria é importante, a parte tecnológica da obstetrícia é fundamental, mas o que conta mesmo é o conhecimento empírico. Um dos intuitos desse encontro é dizer o quanto é importante que essas parteiras tradicionais repassem seus conhecimentos às mais novas.
O que acontece quando um parto dá errado? A quem a parteira pode recorrer? Paula Viana – Esse encontro é a finalização de um processo que dura dez anos. Ao longo desse período percebemos que as complicações não acontecem porque a parteira está atendendo. Os problemas ocorrem porque não existe um sistema de saúde apoiando. A parteira que faz parte dos cursos e recebe material sobre cuidados tem a capacidade de acompanhar fatos que podem complicar na hora do parto. Se a mulher faz um pré-natal de qualidade e a parteira está próxima e ocorre algum problema, ela consegue diagnosticar precocemente. Quando o município dá apoio, certamente dispõe de sistema de transporte que possa levar em tempo a mulher e o bebê ao hospital. Hoje, a mortalidade materna e neonatal não tem relação com o trabalho da parteira tradicional,
Qual a sensação quando um parto dá errado? Paula Viana – Ela se sente muito impotente. Muitas vezes as parteiras, como falei antes, têm um nível econômico muito parecido com o da mulher que está atendendo. Quantas e quantas parteiras que conheci colocam dinheiro do próprio bolso para pagar uma gasolina, o aluguel de um carro para levar a mulher a um hospital ou mesmo levá-la até a casa da grávida. Mas a parteira tem limites. E esse encontro que estamos fazendo em Brasília serve, justamente, para que o SUS, o Ministério da Saúde, os governo municipais e estaduais incluam o trabalho da parteira tradicional nas suas políticas.
Como a parteira se prepara para ajudar a mulher no momento do parto? Paula Viana – Há tantas formas. Há uma diversidade enorme de formações no Brasil. Assim, as mulheres se preparam no embate, no dia a dia, a partir do seu conhecimento. Estados como Amazonas, Pernambuco, Paraíba, Acre, Pará têm dado material para as parteiras. Assim, elas têm bolsa para carregar seus materiais, recebem instruções para esterilização do material e acomodação de equipamento. Elas se preparam na vida e aproveitando esses cursos e encontros que estão sendo realizados.
Como foi o processo para tornar responsabilidade do SUS o nascimento domiciliar assistido por parteira?  Paula Viana – Desde 1940 existem políticas que visam tornar a parteira parte do sistema. Em 1991, foi escrito um Programa Nacional de Parteiras Tradicionais e iniciou-se nos estados uma série de ações, capacitações, cursos. Já a partir de 2000, que é o processo que estamos finalizando agora, esse trabalho se voltou muito aos municípios, colocando para eles suas responsabilidades. É preciso saber quem, lá na comunidade, gerencia a saúde da população e o responsável é o município. Está presente aqui no encontro uma representante do Conselho Nacional de Secretários Municipais. Esse processo é lento. As parteiras reivindicam uma remuneração pelo trabalho e até hoje pouquíssimos municípios tornaram isso realidade. Poucos também forneceram material e as vincularam ao sistema de saúde. Isso tudo faz parte da nossa luta. Nós sabemos que aos poucos vamos superando as barreiras, um dos maiores é o corporativismo médico. As parteiras não querem substituir ninguém, mas elas existem e precisam do apoio do SUS que tem que dar conta tanto de UTIs neonatal de alta tecnologia quanto àquele parto feito na beira do rio feito com luz de candeeiro. Esse é um direito básico nosso como cidadãs brasileiras.
Por que está ficando mais forte hoje o retorno às parteiras? Paula Viana – Esse movimento também se deve às parteiras. Elas sempre existiram. Porém, estão ganhando mais repercussão porque algumas organizações do movimento feminista têm dado mais atenção à questão atualmente uma vez que as parteiras representam um retorno ao parto normal e a valorização do parto natural.   Fonte: Unisinos

M. Jacobsen para Charge Online

O novo alvo do 'grande eleitor' EDITORIAL O Estado de S.Paulo

O novo alvo do 'grande eleitor' EDITORIAL O Estado de S.Paulo
25/08/10
Quando começou a montar o tabuleiro eleitoral de 2010, o presidente Lula não teve nenhum escrúpulo de consciência para pisar no pescoço dos companheiros cujas ambições no plano estadual poderiam atrapalhar o seu objetivo absolutamente prioritário de fazer da ainda ministra Dilma Rousseff a sua sucessora. Com olhos fixos na sua meta, decidiu que o PT não teria candidatos próprios em Estados como Minas Gerais e Maranhão, para recompensar o PMDB - e, em particular, o seu principal aliado no coronelato político nacional, José Sarney - pelo apoio a Dilma.
Lula, o arquirrealista, também contrariou a si mesmo na escolha do companheiro de chapa da candidata. Se dependesse dele, seria o neopeemedebista Henrique Meirelles. Mas, como não dependia, submeteu-se à preferência da cúpula do partido pelo deputado Michel Temer, o número um da agremiação. Ainda não está clara a contribuição do PMDB para alçar Dilma à liderança nas pesquisas, com fortes chances de se eleger no primeiro turno. Claro é que ela chegou lá nos ombros da popularidade de Lula, combinada com a expectativa de aprofundamento das ações sociais do governo.
O êxito inconteste da transposição de votos para Dilma e a previsão nos meios lulistas de que ela triunfará em 3 de outubro por maioria arrasadora levam agora o "grande eleitor" a fazer como que o caminho inverso da pré-campanha, para federalizar a disputa pelo governo de Estados-chave como São Paulo e Minas. No primeiro, o tucano Geraldo Alckmin supera o petista Aloizio Mercadante nas pesquisas por 54% a 16%. No segundo, a vantagem do peemedebista (e ex-ministro de Lula) Hélio Costa sobre Antonio Anastasia, do PSDB de Aécio Neves, acaba de cair de 18 para 11 pontos.
No primeiro comício de Mercadante do qual participou, em Osasco, na última sexta-feira, ele repreendeu publicamente a companheirada por dizer que o melhor a que o candidato pode aspirar é chegar ao segundo turno. Lula não duvida disso, mas se irrita com o ar de resignação dos petistas diante da supremacia do tucano. Ele cobrou da campanha a criação de "fatos políticos" para, ao menos, reduzir o favoritismo de Alckmin. Para dar o exemplo, disse que os pedágios das estradas paulistas são "um roubo".
Mas o fato político capaz de fazer diferença é ele usar em favor de Mercadante os poderes mágicos que puseram Dilma a levitar. Com isso, Lula espera igualmente virar o jogo nacional em São Paulo, onde o ex-governador José Serra bate a ex-ministra por 7 pontos. Para ele nenhum sonho político se compara ao de eleger a sua criatura política e ainda exterminar a espécie tucana no Estado onde PT e PSDB mais se guerreiam desde que vieram ao mundo. Não será surpresa se nas próximas semanas Lula se materializar em São Paulo um dia sim, o outro também.
Anteontem ele deu uma amostra da rica agenda paulista que terá à disposição. Como nos velhos bons tempos, amanheceu às portas da Mercedes-Benz, em São Bernardo, com Dilma e Mercadante a tiracolo - mas a peãozada, como gosta de falar, preferiu mesmo achegar-se à sua volta. Na linha do que vem afirmando de uns tempos para cá sobre a sua atuação fora do governo, como uma espécie de "presidente fantasma", prometeu que ajudará os líderes sindicais a pressionar a provável sucessora quando precisarem. Se ela sentiu desconforto, não o demonstrou.
Horas depois, o presidente entrou num estrelado hotel da zona sul paulistana para ser paparicado pelo capital - no caso, os empresários da construção pesada, reunidos na Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). A jornada terminou onde começou, em São Bernardo. Ali, Lula inaugurou a TVT (TV do Trabalhador), do sindicato dos metalúrgicos, primeira emissora outorgada a uma entidade do gênero. A iniciativa, discursou o presidente, visa a evitar que os trabalhadores "continuem impedidos de exercer a liberdade de expressão". Mas quem roubou a noite foi o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, com uma diatribe contra os "aquários", os centros de decisão editorial dos órgãos de mídia, que estariam com os dias contados. "Uma revolução", ameaçou, "está apenas começando."

Miran, para Charge Online

Declínio americano?

Declínio americano?
Luiz Felipe Lampreia - O Estado de S. Paulo - 25/08/10
A retirada das forças de combate americanas do Iraque não é apenas uma tática do presidente Barack Obama para recuperar popularidade. É necessário examiná-la como componente básico de uma revisão ampla da postura estratégica dos Estados Unidos e, sobretudo, dos elementos políticos mais profundos que existem nesse país.

Desde a derrota no Vietnã, a sociedade americana mostra-se cada vez mais adversa a iniciativas militares em terras distantes. O ataque às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001 foi, porém, um caso excepcional na mente do povo americano, pois constituiu um atentado imprevisível e selvagem ao coração de seu território, até então considerado inexpugnável. Assim, a opinião pública mobilizou-se, por um tempo, para um expedição punitiva contra as bases da Al-Qaeda no Afeganistão. Da mesma forma, George W. Bush só conseguiu tornar viável a invasão do Iraque em 2003 com a falsa motivação de eliminar armas de destruição de massa, que também evocava a tragédia de Nova York. Sabe-se hoje que esse enorme equívoco dos serviços de inteligência se deveu a que na primeira Guerra do Golfo, em 1991, foram descobertas instalações nucleares no Iraque muito mais completas do que o esperado e esses serviços não desejavam repetir o engano. Preferiram informar que havia armas atômicas no arsenal de Saddam Hussein.
O Iraque, entretanto, revelou-se um pântano do qual as forças americanas tiveram de acabar saindo, embora sem a humilhação do Vietnã e tendo apenas como principal resultado positivo a derrubada da ditadura de Saddam. Deixam para trás, contudo, um país inseguro e politicamente instável. O Afeganistão já entrou também na agenda de retirada, pois fica cada vez mais claro que a situação militar - a exemplo do que ocorreu com o Império Britânico e com a União Soviética - não permite esperar uma solução vitoriosa. Está em curso em Washington uma discussão sobre o cronograma deste desengajamento.
Qual é o significado profundo destes movimentos americanos? Antes de mais nada, fica claro que não existem mais condições políticas nos Estados Unidos para guerras além-mar. Salvo se houver uma nova tragédia como a do 11 de Setembro, nenhum governante ou parlamentar americano ousará, em futuro previsível, propor operações de combate fora das fronteiras do país. Parece-me inacreditável que esta realidade não seja claramente percebida e que algumas pessoas ainda falem na possibilidade de invasões americanas em diversas partes do mundo, até mesmo na Amazônia!
Em segundo lugar, a dívida pública dos Estados Unidos atingiu níveis estratosféricos - multiplicada pelos enormes resgates de empresas na crise de 2008-2009 -, que ameaçam a estabilidade econômica do país. Para financiá-la os Estados Unidos chegaram a uma grande vulnerabilidade externa, já que dependem das decisões políticas e financeiras de seus credores. Por isso, o orçamento militar americano está sendo reduzido já este ano. É improvável que a superpotência, que parecia tão incontrastável nos anos 1990, possa continuar mantendo suas tropas envolvidas em duas guerras simultâneas, como ainda é o caso.
O Irã representa hoje a maior ameaça à segurança e à paz no mundo. Embora o cronograma iraniano para chegar a uma arma nuclear tenha aparentemente sofrido alguns percalços, não há dúvida de que esse país está bastante avançado nesse rumo. Daí as sanções que as principais potências mundiais fizeram aprovar no Conselho de Segurança da ONU, malgrado o inexplicável voto negativo do Brasil. É importante ressaltar que essas sanções foram longamente negociadas para terem o apoio da China e da Rússia e reforçadas por decisões próprias, ainda mais severas, da União Europeia e dos Estados Unidos. Mas, na hipótese de que tais medidas não evitem o sucesso da corrida nuclear iraniana, será necessário para os Estados Unidos, Israel e a União Europeia decidir que posição tomar. Creio que uma invasão do Irã é impensável e mesmo um ataque aéreo é improvável. No primeiro caso, seria entrar em atoleiro muito maior do que os dois precedentes juntos. No segundo, desencadearia situações de altíssimo risco, como o bloqueio do Golfo Pérsico para o escoamento do petróleo e gás, a difusão de ataques terroristas dos aliados de Teerã, como o Hamas e o Hezbollah, e, sobretudo, atearia fogo às massas islâmicas em todo o mundo. Se o Irã chegar a deter armas nucleares, será necessário encontrar formas políticas de coexistência e contenção de seu radicalismo.
A conclusão principal desta breve análise é a seguinte: existe realmente um declínio relativo do poder americano, se for analisado como capacidade de intervenção para mudar regimes, impor regras e impedir a expansão de organizações inimigas em algumas regiões do mundo. Seria, porém, um sério engano considerar que essa redução de capacidade de utilização de suas enormes forças militares vai diminuir drasticamente o peso específico dos Estados Unidos. O unilateralismo desavisado de George W. Bush é inviável e será substituído por um grande trabalho de ampliar consensos e agir internacionalmente dentro de parâmetros aceitáveis para a opinião pública dos países que contam. Nessas condições, o papel dos Estados Unidos será sempre decisivo, em razão do peso de sua economia, de seus arsenais nucleares e da poderosa Aliança Atlântica, que é basicamente fiel a Washington. Enquanto não surgir uma superpotência com ativos equivalentes aos americanos - e a China, a principal candidata ao posto, não quer brigar tão cedo -, os Estados Unidos continuarão a ser, malgrado seus graves tropeços no Iraque e no Afeganistão, o fator decisivo da política internacional.
FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES(1995-2001)

Tiago Recchia, para Gazeta do Povo

Um dia um adeus (Guilherme Arantes)

Legislar o riso e sacralizar o poder?

Legislar o riso e sacralizar o poder?
Roberto DaMatta O Globo - 25/08/2010
Toda tentativa de tolher a liberdade de expressão engessa e, no fundo, tenta realizar aquilo que é básico numa democracia competitiva e igualitária: a discussão política que marca diferenças e estabelece limites para a multiplicidade de perspectivas vigentes num sistema centrado no cidadão. No Brasil, temos leis para tudo. Tantas, que até existe uma certa desconfiança de que o aparato torna os grandes bandidos "imprendíveis". Temos leis até para regular como as pessoas devem ser presas, porque se forem importantes deve-se evitar a "espetacularização" que, em todos os lugares, algema, numa prova cabal de que a polícia cumpriu o seu papel. Um país com uma etiqueta para aprisionar me preocupa. Estou convencido de que se tivéssemos uma Futebolbrás jamais teríamos sido pentacampeões do mundo, porque a convocação e nosso jogo seriam legislados, algo que muitos sentem falta. Seria proibido perder Copas do Mundo e a prática exclusiva do "futebol-arte" seria estabelecida por lei! 
Como ter confiança na lei se desconfiamos da polícia, e a própria polícia desconfia dela própria, porque, tal como ocorre com as leis (e com a ética), temos muitas polícias para o deleite dos bandidos e advogados? 
Digo isso porque uma interpretação antidemocrática do artigo 45 da Lei das Eleições, em vigência desde 1º de outubro de 1997, que reprime usar o humor com foco em partido ou candidato em período eleitoral, fere a liberdade de expressão e vai abrir um sério combate entre os que estão no poder e não gostam de liberdade e os humoristas que dela vivem. Entre seriíssimos donos do poder e risonhos carnavalizadores profissionais - os humoristas - cuja profissão é promover uma simbólica e galhofeira troca de lugar. A tal troca de lugar capaz de provocar o riso de si mesmo, esse apanágio que Bergson dizia ser exclusivamente humano já que os crocodilos choram, o que não é o caso de nenhuma besta quadrada, sobretudo as que chegam ao poder. No Brasil, um poder perpetuamente onipotente odeia e recusa o erro. Por isso todo-poderoso tem tanto medo do riso que o traz de volta ao plano da cidadania. Se os comuns não suportam politicalha diária, os poderosos detestam o riso. 
Num livro famoso, Mikhail Bakhtin ajuda a desvendar esse assunto que talvez venha ser mais excitante do que o debate eleitoral. Por que o riso não combina com eleições e candidatos, no caso do Brasil, quando em países igualitários e democracias estabelecidas, ele corre solto justamente nesta época? 
Bakhtin - como Freud - enfatiza acima de tudo a capacidade do humor de, pelo riso humano orgulhoso e zombeteiro, enfrentar (e vencer) a dor, as adversidades, o destino e a morte. De fato, nosso pior inimigo fica mais aterrorizado diante de uma gargalhada do que de um revólver. A própria desgraça recua se alguém se atreve a ridicularizá-la. Ainda mais nesta vida que não merece mais do que uma boa anedota. 
A tentativa de reprimir o humor em período eleitoral é coerente com a liturgia que cerca o debate cheio de dedos dos presidenciáveis. Ela põe a nu o quanto o nosso sistema de poder protege, dignifica, hierarquiza e sacraliza o governante. E o quanto somos coniventes com isso. O medo do riso é o medo da igualdade que o momento eleitoral inevitavelmente demanda e revela. Seria possível proibir o riso e o humor neste momento, como fazem os radicais, que se levam tão a sério que não podem rir de si próprios? 
Falamos muito de "realidade" e pouco dos seus símbolos. A mentalidade legisferante é uma clara tentativa de arrolhar o dia a dia. Ela é a responsável por esse universo de leis que promovem o famoso axioma do "é ilegal, e daí?", a prova mais clara de que, entre nós, as leis não acompanham o bom senso. Amordaçado o riso, o poder sacraliza-se porque não há mais a liberdade de desafiá-lo e usá-lo como uma fonte de alegria - um dos modos mais legítimos de mostrar a face humana dos poderosos. 
No nosso universo político, a mentira, um ininteligível economês falado mais com os dedos do que com o coração, as promessas de que, como "pai" e "mãe", se vai cuidar do povo (haja saco e paciência!) são dominantes. Neste palco, sempre reinou o medalhão oportunista, tarado pelo poder; esse farsante soturno que malandramente usa a máscara da igualdade para ampliar seu mandonismo. Hoje, esse papel fica mais duro de ser desempenhado, pois a pressão por transparência e igualdade exige menos hipocrisia (esse apanágio do populismo lulista) e mais coerência (que exige administrar honestamente mais do que "cuidar" como pai ou mãe do povo). É ofensivo rir de um poderoso? Pode-se fazer uma lei impedindo gargalhar de uma besta quadrada que aspira ao poder? Nas ditaduras, o sujeito morre; nas democracias, vive-se disso. Dessa relativização por meio do riso que - como a morte - iguala definitivamente, mostrando que se hoje estamos no poder, amanhã dele sairemos.

Xalberto, para a Charge Online

Obsessão

Obsessão
Merval Pereira - O GLOBO
Os últimos dias foram plenos de informações sobre o que o governo brasileiro pensa sobre os meios de comunicação e seus projetos para implementar o que chama de "controle social" da mídia. Tudo o que se disse sobre o assunto indica uma comunhão de intenções entre o que já acontece em outros países da América do Sul, como a Argentina e a Venezuela, e o projeto de um futuro governo petista.
Na recente reunião do Foro de São Paulo realizada na Argentina, o grupo criado por Lula e Fidel Castro que reúne a esquerda da América Latina regozijou-se porque "setores sociais do Brasil, da Argentina e do Paraguai" conseguiram colocar em questão a credibilidade dos grandes meios de comunicação, provocando redução nos níveis de venda e audiência dos jornais impressos e da TV.
Mesmo que se trate de uma bravata juvenil, a comemoração evidencia o real objetivo desses esquerdistas regionais, entre eles o dirigente petista Valter Pomar: tentar desmoralizar os meios de comunicação independentes, para controlar a opinião pública.
Na mesma resolução, as medidas de diversos países da região para reforçar o controle do Estado no setor de comunicação social foram elogiadas, especialmente a lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, a chamada "Lei da Mídia", aprovada na Argentina em 2009, que foi considerada inconstitucional pela Justiça.
Essa legislação deve ser uma "referência imprescindível" para os demais países, decidiu o Foro de São Paulo.
Ela faz parte de uma ampla campanha do governo de Cristina Kirchner para cercear a atuação dos jornais e televisões de maneira geral, mas muito especificamente do grupo Clarín, o mais importante do país.
A "Lei da Mídia" divide as concessões igualmente entre o Estado, movimentos sociais e o setor privado, levando em consequência o Grupo Clarín a ter que se desfazer de concessões de TV e rádio.
O mais novo lance dessa disputa é a intervenção do governo na fábrica de papel de imprensa do país, cujo maior sócio privado é o grupo Clarín, numa clara tentativa de impor sanções econômicas aos jornais.
Na segunda-feira, o presidente Lula, inaugurando um canal de televisão do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, disse em discurso lido - isto é, preparado por sua assessoria, sem os perigos dos improvisos - que a emissora evitará que os trabalhadores "continuem impedidos de exercer a liberdade de expressão" e que "o brasileiro sabe distinguir o que é informação e o que é distorção dos fatos".
Como se uma emissora que representa um grupo social específico não tenha interesses de classe a defender e discursos políticos a divulgar.
Já o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, repetiu sua obsessiva cantilena contra os órgãos de comunicação independentes, afirmando que a televisão dos metalúrgicos e a internet farão com que os jornais e as emissoras de TV percam o controle do noticiário levado à opinião pública.
Tirar o poder dos "aquários", um jargão jornalístico para as salas das chefias das redações dos jornais, parece ser a fixação de Franklin, um movimento, segundo ele, "irreversível, e que está apenas começando".
Em acordo com as diretrizes emanadas do Foro de São Paulo, o ministro da Comunicação Social do governo Lula pretende que sejam aprovados antes do final do mandato diversos projetos de lei originados na Conferência Nacional das Comunicações (Confecom), convocada por ele.
Com a participação de organizações da sociedade civil, da CUT e de representações de entidades empresariais, a Confecom produziu uma infinidade de propostas que podem se transformar em leis com o objetivo central de implantar o tal "controle social da mídia".
Uma das propostas prevê "mecanismo de fiscalização, com controle social e participação popular", em todos os processos dos meios de comunicação, como financiamento, acompanhamento das obrigações fiscais e trabalhistas das emissoras, conteúdos de promoções de cidadania, inclusão, igualdade e justiça, cumprimento de percentuais educativos, produções nacionais.
Uma repetição de várias outras tentativas já feitas, e derrotadas pela rejeição da sociedade, de controlar o noticiário e de direcionar a produção cultural dentro de critérios fixados pelo próprio governo.
Já relatei aqui na coluna, mas vale a pena repetir, as posições assumidas pelo mesmo Franklin Martins quando exercia a profissão de jornalista.
Num debate com o sociólogo Betinho, em junho de 1996, sobre o papel das ONGs, Franklin afirmava que "qualquer tentativa de contornar o Parlamento, ou de achar que se definem políticas públicas sem passar por ele, não é uma atitude democrática. Isso investiria contra a essência do Estado democrático, que é o voto".
Não é possível, segundo ele, "a pretexto de dar voz a esses interesses fragmentados, se criarem condições para que a vontade de pequenos grupos seja imposta, e o voto, base da democracia, acabe relativizado e deixado de lado".

Franklin achava que, "ao se apresentar como representante da sociedade civil e participar de reuniões com direito a voto, as ONGs negam o sistema representativo".
E concluía seu pensamento: "Não vejo a menor autoridade para que falem em nome da sociedade. Quem fala em nome da sociedade é quem tem voto para isso."
A mesma pessoa que defendia que o Congresso fosse o ator principal das decisões sobre políticas públicas agora quer que esses "interesses fragmentados" tenham suas resoluções homologadas pela base parlamentar do governo.
Seria investir contra a "essência do Estado democrático", no qual quem decide em nome da sociedade é quem tem voto.

Ponte sobre o Rio Ganges


Fotografia por Maciborka abril  Pessoas, cães e aves dividem espaço ao longo do rio Ganges, a maior hidrovia no subcontinente indiano.

Pelicano para o Bom Dia, SP

Estudo usa nanopartículas para levar medicamentos até células cancerígenas

Estudo usa nanopartículas para levar medicamentos até células cancerígenas


Silvia Pacheco – Correio Braziliense - Publicação: 25/08/2010 07:00

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UnB) traz esperança para os pacientes que passam pelo doloroso tratamento do câncer. Experimentos demonstram que a nanobiotecnologia(1) pode reduzir os efeitos colaterais de medicações. Isso por meio de técnicas que permitem a aplicação da dose correta da droga diretamente nos tecidos ou células doentes, sem sobrecarregar o organismo com doses massivas, o que ocorre particularmente com os quimioterápicos para câncer.
O trabalho é desenvolvido em rede nacional pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Nanobiotecnologia. Na UnB, as pesquisas estão concentradas na aplicação biomédica das nanopartículas, fazendo com que elas levem diretamente à célula tumoral a dose de quimioterapia, sem atingir outros órgãos e tecidos. Dessa forma, os efeitos colaterais do tratamento são minimizados. As nanopartículas se transformam em transportadores de remédios com a missão de direcionar o medicamento à fonte do problema. “Muitas vezes, o doente morre por conta do tratamento, não pela doença”, diz Flávia Arruda Portilho, bióloga e uma das pesquisadoras envolvidas no estudo. As aplicações são feitas para o tratamento dos cânceres de mama, intestino, ovário e pulmão.
“Hoje, é bastante plausível o uso de nanossistemas para a veiculação de drogas, como os que se baseiam em nanopartículas. Esses sistemas ficam especialmente interessantes se forem construídos a partir de nanopartículas magnéticas (NPMs)”, revela a coordenadora do estudo na UnB, Zulmira Lacava.
As NPMs podem se apresentar sob diferentes formas. Uma delas é a de fluidos magnéticos: suspensões com um núcleo de ferro envolvido por uma cobertura feita com material biologicamente ativo. É nessa cobertura que o medicamento é colocado. Depois, utilizando um ímã (que atrai o núcleo de ferro), os médicos conseguem direcionar a nanopartícula com o remédio para o órgão a ser tratado (veja arte). As NPMs também devem ser biocompatíveis, sem representar perigo ao organismo. Para chegar aos resultados sobre essas nanopartículas, a equipe de cientistas fez testes com camundongos.
Esse processo, segundo a bióloga Flávia Portilho, além de reduzir os efeitos colaterais dos medicamentos, faz com que o tratamento se torne mais eficaz. Isso porque as NPMs carregam para dentro do tumor a dose correta do quimioterápico, fazendo com que ele não se perca no organismo. “Podemos administrar, por exemplo, 5g de um medicamento na veia do paciente, mas só metade da droga chega ao tumor. O medicamento se perde no organismo, fica em alguns órgãos e tecidos”, explica a bióloga. Em alguns camundongos, a equipe observou uma diminuição do tumor considerada satisfatória.
Outras técnicas
Além do processo com a utilização do ímã no direcionamento das NPMs, a equipe também testa outras duas técnicas que deram resultados satisfatórios. A primeira delas é o processo de carregamento de drogas por meio da cobertura, uma técnica que intriga os pesquisadores. A substância da qual é feita a cobertura tem uma afinidade com certos tipos de tecido que os cientistas ainda não sabem explicar. “Não sabemos o porquê dessa afinidade. Só sabemos que a nanopartícula viaja, por meio do sistema circulatório, até o tecido com o qual ela tem a tal afinidade”, diz a biomédica Luciana Landim Carneiro Estevanato.
Ela relata que NPMs recobertas com a proteína albumina têm uma afinidade com os tecidos do cérebro e, com isso, podem levar a droga diretamente para o órgão. “No cérebro, há uma barreira entre o sangue e o órgão, que seleciona o que vai entrar. NPMs com a albumina conseguem atravessar essa barreira”, explica Luciana. A outra técnica utiliza as NPMs com anticorpos, moléculas capazes de reconhecer o tumor. Assim, os anticorpos levam o medicamento até o tumor. “O melhor é que todas essas técnicas podem ser usadas em conjunto, dependendo do resultado que se quer obter”, comemora a especialista.
Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e o oncologista da clínica Ceon, do Hospital Anchieta, Anderson Silvestrini, o uso dessas nanopartículas pode resultar em um tratamento mais eficiente contra o câncer. “Os remédios hoje são muito tóxicos. Se boa parte dessa toxicidade fosse evitada, poderíamos usar concentrações maiores de drogas-alvo diretamente no tumor.” Todo esse processo, porém, ainda está em âmbito de laboratório, com testes apenas em animais. “Há poucos anos foi reportada uma primeira tentativa clínica de carreamento magnético de droga anticâncer que obteve sucesso em 50% dos pacientes terminais testados”, diz a coordenadora da pesquisa.
1 – Escala
A nanobiotecnologia trabalha com a manipulação de átomos em escala nanométrica, ou seja, em uma escala 1 milhão de vezes menor que o milímetro, espaço suficiente para acomodar no máximo 10 átomos. Como um exemplo comparativo, um fio de cabelo possui um diâmetro que varia de 30 mil a 100 mil nanômetros.

Waldez, no Amazônia Jornal

Skoob

BBC Brasil Atualidades

Visitantes

free counters