terça-feira, agosto 31, 2010
Festa na véspera
Festa na véspera
Miriam Leitão
O GLOBO
Então é isso? Uma eleição cuja campanha começou antes da hora acabou antes que os votos sejam depositados na urna? A vencedora de véspera já estendeu a mão, magnânima, à oposição; seus dois maiores caciques começaram uma briga intestina; cargos são distribuídos entre os partidos da base e os assessores já preparam os planos e projetos. Fala-se do futuro como inexorável.
O quadro está amplamente favorável a Dilma Rousseff, mas é preciso ter respeito pelo processo eleitoral.
Se pesquisa fosse voto, era bem mais simples e barato escolher o governante.
Imagina o tempo e o dinheiro poupado se pesquisas, 30 dias antes do pleito, fossem suficientes para o processo de escolha? A estrutura da Justiça Eleitoral, as urnas distribuídas num país continental, mesários trabalhando o dia inteiro, computadores contando votos; nada disso seria necessário.
Mas como eleição é a democracia num momento supremo, respeitá-la é essencial.
Os que estão em vantagem, e os que estão em desvantagem, não podem considerar o processo terminado porque isso amputa a melhor parte da democracia, encerra prematuramente o precioso tempo do debate e das escolhas.
Dilma já sabe até o que fará depois de ser eleita, como disse na sexta-feira: A gente desarma o palanque e estende a mão para quem for pessoa de boa vontade e quiser partilhar desse processo de transformação do Brasil. Os jornalistas insistiram, ela ficou no mesmo tom: Estendo a mão para quem quiser partilhar. Eu não sei se ele (Serra) quer.
Você pergunta para ele, se ele quiser, perfeitamente. Avisou que se alguém recusasse, não haveria problema: Pode ficar sem estender a mão, como oposição numa boa que vai ter dinheiro. Já está até distribuindo o dinheiro público.
Feio, muito feio. Por mais animador que seja para Dilma os resultados da pesquisa e deve ser difícil segurar a ansiedade ela deveria pensar em algumas coisas antes. Primeiro, que falta o principal para ela ganhar: o voto na urna. Segundo, que o eleitor muda de ideia na hora que quer, porque para isso é livre.
Terceiro, que, novata em eleição, deve seu sucesso a fatores externos a ela: o presidente Lula, o momento econômico e a eficiência dos seus marqueteiros.
Aliás, o marketing de Dilma tem sido tão eficiente em aparar todas as arestas de sua personalidade que criou uma pessoa que nem ela deve conhecer.
O salto alto não é só dela, a bem da verdade. A síndrome das favas contadas se espalha por todo o seu entorno, cada vez mais desenvolto.
Por isso já começaram a brigar os generais de cada uma das bandas: Antonio Palocci e José Dirceu. Da última vez que brigaram, os dois caíram.
A disputa dos partidos da base de apoio pelos cargos públicos, como se fossem os despojos da guerra já vencida, é um espetáculo que informa muito sobre valores, critérios e métodos do grupo.
A desenvoltura do já ganhou é tanta que até o presidente Lula, dono da escolha autocrática de Dilma, parece meio enciumado e reclamou que já falam dele no passado. E avisou: Ainda tenho caneta para fazer muita miséria. A declaração inteira é reveladora: Tem gente que fica falando aqui como se eu já tivesse ido embora, mas ainda tenho quatro meses e alguns dias de governo. Alguns falam como se eu já tivesse ido. Tem gente que se mata para ser presidente por um dia e ainda tenho quatro meses e alguns dias. Ainda tenho a caneta para fazer muita miséria nesse país. O sentimento é um perigo.
O presidente Lula já está fazendo miséria. Atropelou o calendário eleitoral, zombou das multas na Justiça, pôs o governo que dirige para trabalhar pela sua candidata como se a máquina pública fosse um partido político.
Há uma lista enorme de misérias econômicas que o governo Lula tem feito nesse final dos tempos. Os gastos foram inchados, aumentos salariais ao funcionalismo já foram concedidos no próximo orçamento, restos a pagar se aproximam dos R$ 100 bilhões, projetos são precipitados sem análise de risco, o Tesouro vai emitir uma montanha de dívida para capitalizar a principal estatal. Enfim, o governo no finalzinho não lembra em nada o comedido início.
Aliás, a razão da briga entre os generais José Dirceu e Palocci é exatamente esse ponto: se é melhor ter uma cara de austeridade, ou continuar fazendo miséria.
O curioso da insegurança que bateu no presidente Lula é que foi ele mesmo que explicitou o clima de fui na campanha de Dilma Rousseff com aquele filmete do: entrego em suas mãos. Na sexta, Dilma disse mais: Meu projeto político é ficar quatro anos. Na próxima eleição, digo o resto do projeto. Então ela já começou a pensar na eleição de 2014? Mas pelos cálculos petistas, a história brasileira está decidida até 2022. É Dilma, agora. Depois, Lula em dois mandatos. Está tudo decidido para os próximos doze anos. O país teria assim um período de 20 anos de governo petista.
Quando Dilma brigou com Palocci em 2005 e disse que o projeto de zerar o déficit público era rudimentar, ela usou a conhecida expressão de Garrincha: Falta combinar com os russos.
Agora, falta combinar com os brasileiros.
Inépcia ou dolo
Inépcia ou dolo
Dora Kramer
O ESTADO DE S. PAULO
A Polícia Federal não divulga o nome e mantém sob sigilo a profissão, mas localizou em São Paulo um suspeito de comandar esquema que se utiliza de informações da Receita Federal obtidas a partir da delegacia de Mauá, para extorquir dinheiro de gente que tenha algum tipo de problema com o Imposto de Renda.
A pessoa em questão está sendo vigiada e, com autorização da Justiça, tem suas conversas telefônicas gravadas pela PF. De posse dos dados, o homem procuraria os contribuintes que tiveram sigilo violado identificando-se como funcionário da Receita e se ofereceria para "resolver o problema" mediante uma quantia a combinar.
Essa é uma das linhas de investigação do caso descoberto quando informações fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas, foram parar numa papelada que faria parte de um dossiê elaborado por petistas para tentar atingir a campanha presidencial dos tucanos.
O problema dessa versão - que em alguma medida até explicaria o silêncio das pessoas (não políticos) que tiveram seus sigilos violados na delegacia da Receita em Mauá - é que acaba parecendo conveniente demais para o PT, pois tiraria conotação político-eleitoral do episódio e o colocaria exclusivamente no campo criminal.
Tudo certo, caso a Receita tivesse alguma vez nos últimos dois meses aludido à hipótese de as acusações que assombravam o comitê de campanha de Dilma Rousseff nada terem que ver com a disputa eleitoral, pois as investigações da PF apontavam para crime comum.
O PT e a candidata falaram primeiro em inexistência de quebra de sigilo e depois em "factoide" da oposição.
Mas nestes mais de 60 dias de inquérito aberto, só agora, depois de conhecida a violação de mais três pessoas ligadas a José Serra, aparecem versões sobre extorsão. Como quem tem uma boa ideia depois de ver reportagens sobre a venda de informações sigilosas em CDs no centro de São Paulo.Não é impossível que a PF tenha realmente um suspeito em vista, mas está parecendo que foram misturados alhos com bugalhos por conveniência.
Com base no histórico de casos anteriores, se for isso mesmo logo aparecerá o nome de um culpado para ser punido e encerrado o assunto.
Mas desta vez é mais complicado, pois quando um santo é vestido, livrando a campanha da suspeita de espionagem, outro é posto nu ao deixar patente que o Estado ou é inepto ou criminoso: não assegura a privacidade do cidadão e ainda esconde da sociedade os fatos.
Olhar estrangeiro. Enquanto a academia brasileira de um modo geral se abstém de analisar o quadro, de fora de quando em vez aparecem diagnósticos proveitosos.
Em entrevista ao jornal Folha S. Paulo, o diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, Ricardo Hausmann, diz que o Brasil tem ótimo potencial de crescimento, um setor privado muito forte, mas que o governo, apesar de ter administrado bem a crise econômica mundial de 2008, comete equívocos fatais com base em sucessos pontuais interpretados como sinal de êxito total.
Segundo ele, o Brasil é dos países que ficam arrogantes quando as coisas começam a parecer bem encaminhadas. "Parecem acreditar num mundo de fantasia."
Por exemplo: "Só porque o País teve por um trimestre uma taxa de crescimento de 7%, o Brasil é agora a nova China, Lula é o gênio das finanças e nenhum dos problemas anteriores existe mais."
O economista elogia o cuidado de Lula em 2002 de ter transmitido confiança ao setor privado, mas critica a atitude atual, menos cuidadosa e "mais ideológica". Para ele, a administração "macro" é insustentável por um defeito comum ao que conduz também a linha da política externa.
"Agora que o País é grande pode ir para a cama com Ahmadinejad ou hospedar Manuel Zelaya na embaixada em Honduras. É uma atitude de que o Brasil agora é diferente e, portanto, pode confrontar o senso comum. Esse tipo de arrogância tem sido desastrosa na política externa e pode ser desastrosa para a administração macroeconômica."
Disputa por espaço
Disputa por espaço
Merval Pereira
O GLOBO
O presidente Lula está utilizando sua força eleitoral para transferir aos estados a mesma expectativa de poder que conseguiu no plano nacional, no qual, antes mesmo de sua candidata oficial aparecer na frente das pesquisas, já havia uma percepção generalizada entre os eleitores de que ela acabaria sendo a vencedora.
A estratégia eleitoral do presidente Lula, que vem sendo vitoriosa em relação à campanha presidencial com sua candidata se colocando com folga à frente do candidato oposicionista , se desdobra agora na fase regional, onde o objetivo não é fazer a maioria dos governadores, mas, sim, garantir uma maioria sólida no Senado.
Um senador vale por três governadores, avisava bem antes da reta final da eleição o próprio Lula, justificando ter aberto mão de disputar muitos governos estaduais em favor de aliados em melhores condições.
Até o momento, no entanto, as pesquisas indicam que, além de mais governadores, a oposição e os independentes dos partidos aliados estão conseguindo manter um equilíbrio de forças dentro do Senado.
O PSDB hoje aparece com possibilidade de eleger nada menos que dez governadores, sendo que está na liderança das pesquisas do Ibope nos dois maiores colégios eleitorais, São Paulo, com Geraldo Alckmin, e Minas Gerais, com Antonio Anastasia.
Pode vencer ainda em Goiás, com Marconi Perillo; no Paraná, com Beto Richa; no Piauí, com Sílvio Mendes; em Rondônia, com Expedito Júnior.
Além disso, tem boas chances no Amapá, com Jorge Amanajás; no Mato Grosso, com Wilson Santos; em Roraima, com José Anchieta Júnior; e em Tocantins, com Siqueira Campos.
O DEM lidera no Rio Grande do Norte, com Rosalba Ciarlini, e tem chance de vencer em Santa Catarina, com Raimundo Colombo, e em Sergipe, com João Alves. No Distrito Federal, por enquanto, a liderança está com Joaquim Roriz, do PSC.
No Senado, das 27 cadeiras que estão fora da disputa, por seus detentores terem mais quatro anos de mandato, nada menos que 14 são de oposicionistas ou de independentes: Marconi Perillo (Goiás) que pode se eleger governador e colocará seu suplente Ciro Miranda Junior, também do PSDB ; Elizeu Rezende (DEM); Marisa Serrano (PSDB); Jaime Campos (DEM); Mario Couto (PSDB); Cícero Lucena (PSDB); Jarbas Vasconcellos (PMDB); Álvaro Dias (PSDB); Francisco Dornelles (PP) que terá seu caráter independente reforçado pela chegada ao Senado de Aécio Neves; Rosalba Ciarlini, do DEM que deve ser eleita governadora do Rio Grande do Norte e colocará em seu lugar o pai do senador Garibaldi Alves ou Ivonete Alves da Silva; Mozarildo Cavalcanti (PTB); Pedro Simon (PMDB); Raimundo Colombo (DEM) que pode ser eleito governador de Santa Catarina e colocará em seu lugar o suplente Casildo Maldaner, do PMDB independente; Maria do Carmo Alves (PSDB); Katia Abreu (DEM).
Na nova safra de senadores a serem eleitos este ano, são os seguintes os senadores da oposição ou independentes que podem se eleger: Heloisa Helena (PSOL); Arthur Virgílio (PSDB) que disputa a segunda vaga com Vanessa Grazziotin, do PCdoB ; Cesar Borges (PR); Tasso Jereissati (PSDB); Cristovam Buarque (PDT); Maria Abadia (PSDB) que disputa a segunda vaga do Distrito Federal com Rodrigo Rollemberg, do PSB ; Demóstenes Torres (DEM); Lucia Vanbia (PSDB); Aécio Neves (PSDB); Itamar Franco (PPS); Valéria Pires (DEM); Antero Paes e Barros (PSDB).
Outros prováveis futuros senadores são Cassio Cunha Lima (PSDB da Paraíba; é o favorito, mas luta no Supremo para não ser considerado ficha suja), Efraim de Moraes (DEM) que disputa uma vaga com Vital do Rego Filho, do PMDB;Marco Maciel (DEM) que disputa a vaga com Armando Monteiro Filho, do PTB ; Mão Santa (PSC); Cesar Maia (DEM); José Agripino Maia (DEM); Ivo Cassol (PP); Ana Amélia Lemos (PP); Germano Rigotto (PMDB); Luiz Henrique (PMDB); Albano Franco (PSDB); e Orestes Quércia (PMDB) que disputa uma vaga com Netinho, do PCdoB.
Como se vê, o equilíbrio real de forças no Senado continuará sendo grande, com uma pequena vantagem governista, que não garante a aprovação de questões polêmicas, e, muito menos, mudanças constitucionais que exigem quórum de 3/5 dos senadores.
Ao mesmo tempo, a presumível força eleitoral com que o PMDB sairá das urnas deve eleger a maior bancada da Câmara e do Senado e grande número de governadores está fazendo com que tanto governo quanto oposição comecem a negociar alianças para neutralizá-lo.
O PMDB pode eleger até nove governadores, sendo que dois deles André Pucinelli, do Mato Grosso do Sul, e José Fogaça, do Rio Grande do Sul são independentes e não estão envolvidos na campanha de Dilma Rousseff.
O partido deve eleger ainda Roseana Sarney no Maranhão, Sinval Barbosa no Mato Grosso, José Maranhão na Paraíba, Sérgio Cabral no Rio de Janeiro e Carlos Gaguim em Tocantins.
E tem chances também em Minas Gerais, com Hélio Costa, e em Rondônia, com Confúcio Moura.
Esse poder todo está movimentando não apenas a base petista, que sabe que vai ter que dividir realmente o poder, inclusive a distribuição de cargos, com o PMDB, mas também a base governista mais ampla, que teme que não sobrará espaço para mais ninguém com a disputa entre PT e PMDB.
O PSB, que deve eleger pelo menos três governadores Cid Gomes no Ceará, Eduardo Campos em Pernambuco e Renato Casagrande no Espírito Santo , é o mais preocupado em ganhar espaço para negociar e já propõe uma união entre PT, PSDB e PSB para se contrapor ao PMDB.
O ex-governador Aécio Neves que terá sua liderança reforçada se conseguir eleger seu candidato Antonio Anastasia prevê que a polarização com o PT continuará, e pretende fazer uma aliança do PSDB com PDT, PSB, PPS, DEM e mais PP, PTB e parte do PMDB, para disputar com o PMDB oficial e o PT o comando do Senado.
Pode ser que uma onda governista altere esse quadro, mas até o momento isso não aconteceu.
Comando brasileiro mudará foco de missão de paz da ONU no Haiti
Comando brasileiro mudará foco de missão de paz da ONU no Haiti
O perfil das tropas da ONU (Organização das Nações Unidas) no Haiti deve mudar a partir de outubro, quando haverá a renovação do mandato e reedição dos termos da missão no país caribenho.
O general Floriano Peixoto, que comandava a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) quando o terremoto de 12 de janeiro destruiu o país, afirma que as maiores demandas neste momento são a construção de moradias e a remoção de escombros.
Diante das necessidades de reconstrução do país, a ONU deve alterar o foco da missão, hoje direcionado para a estabilização da paz. O comando das tropas, contudo, continuará nas mãos dos brasileiros.
"A continuidade da ajuda internacional deve incorporar elementos de reconstrução da base física e de infraestrutura, coisa que a ONU já vem fazendo. Haverá um momento que esse balanceamento deverá ser refeito. [A missão] Começa forte militar e vai balanceando", disse o general, que na manhã desta terça-feira ganhou uma medalha do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
Segundo Floriano Peixoto, o Haiti hoje "está absolutamente seguro" e crimes como sequestro simplesmente deixaram de existir após o terremoto.
Ontem, ex-comandante brasileiro das tropas da ONU no Haiti ganhou elogios do general Douglas Fraser, do Comando Sul dos EUA, pelo esforço em tentar aliviar a dor dos haitianos.
Questionado se a medalha significava um sinal de reconhecimento norte-americano após eventuais desgastes nas relações militares pós-terremoto, Floriano Peixoto foi categórico em reafirmar que não houve competição entre as tropas. "Talvez no início houve indefinição de papéis", ponderou, dizendo que ao EUA cabia ajuda humanitária e ao Brasil garantir a segurança.
Colômbia
O comandante norte-americano também enfatizou a parceria com o Brasil até para responder sobre os primeiros atos do presidente de outra nação. Ao ser perguntado se os EUA estão preocupados com a aproximação entre o novo presidente colombiano Juan Manuel Santos e países como a Venezuela, o general David Fraser disse estar "muito feliz".
"Ele [o presidente colombiano] está construindo relações boas com outros países Como nós testemunhamos nosso apoio no Haiti, são as relações fortes entre nações e Forças Armadas que fazem diferença. Estou muito feliz", disse.
O grande salto
O grande salto
Drauzio Varella
A ciência evolui aos saltos; a prática da medicina, também. A fase em que os remédios eram descobertos por casualidade ou tinham seu uso transmitido das avós para os netos durou milhares de anos, mas perdeu o sentido diante da natureza dos desafios atuais: evitar os ataques cardíacos, impedir que o sistema nervoso degenere, curar o câncer, retardar o envelhecimento.
Os médicos que assistiram ao aparecimento dos antibióticos contam que, antes da existência deles, não fossem as cirurgias, quase nada podiam receitar além de analgésicos, chazinhos, canja de frango e repouso no leito.
Diarréias, difteria, sarampo e amidalites banais dizimavam a população infantil, da mesma forma que a tuberculose se disseminava entre os adultos indefesos.
Diarréias, difteria, sarampo e amidalites banais dizimavam a população infantil, da mesma forma que a tuberculose se disseminava entre os adultos indefesos.
No início do século 19, a milenar medicina chinesa era incapaz de assegurar ao chinês médio mais do que trinta anos de permanência neste vale de lágrimas. Cem anos mais tarde, a expectativa de vida nos países mais desenvolvidos mal chegava aos quarenta anos.
As vacinas, o saneamento básico e os antibióticos transformaram o mundo num lugar menos inóspito. No século 20, a expectativa de vida duplicou em vários países, fato sem paralelo nos cinco milhões de anos decorridos desde que descemos das árvores nas savanas da África.
Na Segunda Guerra Mundial, durante os testes para uso da mostarda nitrogenada como gás de guerra, os médicos do exército americano perceberam que os técnicos apresentavam quedas bruscas do número de glóbulos brancos no sangue.
A observação levou-os a testar a mostarda no tratamento de doenças que cursam com aumento progressivo e irreversível dos vários tipos de glóbulos brancos: as leucemias e os linfomas. Finalmente, a medicina dispunha de uma droga química para tratar portadores de câncer: estava inaugurada a era da quimioterapia antineoplásica.
Nos cinqüenta anos que se seguiram, aprendemos que a quimioterapia podia curar leucemias, linfomas, câncer de testículo avançado, casos mais iniciais de câncer de mama, intestino e estômago, além da maioria dos tumores malignos que se instalam na infância. Enquanto esses progressos eram documentados em estudos multicêntricos, através dos quais foi possível testar novos esquemas de tratamento em ensaios clínicos conduzidos simultaneamente em milhares de pacientes de diversos países, na segunda metade do século 20 houve investimento de recursos colossais (especialmente nos Estados Unidos) na formação de cientistas e na execução de programas de pesquisa.
Tais programas permitiram, por exemplo, conhecer a estrutura química de todos os genes humanos e entender a cadeia de reações que acontece no interior das células desde o instante em que recebem o sinal para dividir-se, até o momento em que a divisão ocorre de fato, fenômeno biológico que encerra o segredo da gênese do câncer. Decifrar a natureza dos sinais transmitidos de uma molécula para a subseqüente desde a membrana externa da célula, através do citoplasma, até chegar ao núcleo para ordenar aos genes que disparem o gatilho da divisão celular, cria a possibilidade de desenhar moléculas-mísseis.
Estas são capazes de impedir que o sinal para a divisão progrida no interior das células malignas ou dos vasos sangüíneos essenciais para a sua nutrição. Já temos à disposição algumas moléculas-mísseis para tratamento de leucemias, linfomas, certos casos de câncer de mama, de rim e de outros tumores malignos; muitas outras se encontram em fase avançada de estudos clínicos. O grande salto dos próximos anos será dado pelos agentes biológicos.
Na primeira quinzena de junho de 2006, foi realizado o Congresso Americano de Oncologia, em Atlanta. No imenso hall em que a indústria farmacêutica exibe seus produtos, para cada estande montado com a finalidade de divulgar agentes quimioterápicos, havia meia dúzia de outros que anunciavam novas moléculas para tratamento biológico. Lembrei de uma visita a uma loja de discos em Nova York, em meados dos anos 1980. Nas estantes, todos os discos eram de vinil, com exceção de um canto reservado para os CDs, que acabavam de surgir. Seis meses mais tarde, na mesma loja, os CDs ocupavam todo o espaço; no cantinho, estavam os vinis.
A ciência evolui aos saltos; a prática da medicina, também. A fase em que os remédios eram descobertos por casualidade ou tinham seu uso transmitido das avós para os netos durou milhares de anos, mas perdeu o sentido diante da natureza dos desafios atuais: evitar os ataques cardíacos, impedir que o sistema nervoso degenere, curar o câncer, retardar o envelhecimento.
Os médicos que assistiram ao aparecimento dos antibióticos contam que, antes da existência deles, não fossem as cirurgias, quase nada podiam receitar além de analgésicos, chazinhos, canja de frango e repouso no leito.
Diarréias, difteria, sarampo e amidalites banais dizimavam a população infantil, da mesma forma que a tuberculose se disseminava entre os adultos indefesos.No início do século 19, a milenar medicina chinesa era incapaz de assegurar ao chinês médio mais do que trinta anos de permanência neste vale de lágrimas. Cem anos mais tarde, a expectativa de vida nos países mais desenvolvidos mal chegava aos quarenta anos.
As vacinas, o saneamento básico e os antibióticos transformaram o mundo num lugar menos inóspito. No século 20, a expectativa de vida duplicou em vários países, fato sem paralelo nos cinco milhões de anos decorridos desde que descemos das árvores nas savanas da África.
Diarréias, difteria, sarampo e amidalites banais dizimavam a população infantil, da mesma forma que a tuberculose se disseminava entre os adultos indefesos.No início do século 19, a milenar medicina chinesa era incapaz de assegurar ao chinês médio mais do que trinta anos de permanência neste vale de lágrimas. Cem anos mais tarde, a expectativa de vida nos países mais desenvolvidos mal chegava aos quarenta anos.
As vacinas, o saneamento básico e os antibióticos transformaram o mundo num lugar menos inóspito. No século 20, a expectativa de vida duplicou em vários países, fato sem paralelo nos cinco milhões de anos decorridos desde que descemos das árvores nas savanas da África.
Na Segunda Guerra Mundial, durante os testes para uso da mostarda nitrogenada como gás de guerra, os médicos do exército americano perceberam que os técnicos apresentavam quedas bruscas do número de glóbulos brancos no sangue. A observação levou-os a testar a mostarda no tratamento de doenças que cursam com aumento progressivo e irreversível dos vários tipos de glóbulos brancos: as leucemias e os linfomas.
Finalmente, a medicina dispunha de uma droga química para tratar portadores de câncer: estava inaugurada a era da quimioterapia antineoplásica.
Finalmente, a medicina dispunha de uma droga química para tratar portadores de câncer: estava inaugurada a era da quimioterapia antineoplásica.
Nos cinqüenta anos que se seguiram, aprendemos que a quimioterapia podia curar leucemias, linfomas, câncer de testículo avançado, casos mais iniciais de câncer de mama, intestino e estômago, além da maioria dos tumores malignos que se instalam na infância. Enquanto esses progressos eram documentados em estudos multicêntricos, através dos quais foi possível testar novos esquemas de tratamento em ensaios clínicos conduzidos simultaneamente em milhares de pacientes de diversos países, na segunda metade do século 20 houve investimento de recursos colossais (especialmente nos Estados Unidos) na formação de cientistas e na execução de programas de pesquisa.
Tais programas permitiram, por exemplo, conhecer a estrutura química de todos os genes humanos e entender a cadeia de reações que acontece no interior das células desde o instante em que recebem o sinal para dividir-se, até o momento em que a divisão ocorre de fato, fenômeno biológico que encerra o segredo da gênese do câncer.Decifrar a natureza dos sinais transmitidos de uma molécula para a subseqüente desde a membrana externa da célula, através do citoplasma, até chegar ao núcleo para ordenar aos genes que disparem o gatilho da divisão celular, cria a possibilidade de desenhar moléculas-mísseis. Estas são capazes de impedir que o sinal para a divisão progrida no interior das células malignas ou dos vasos sangüíneos essenciais para a sua nutrição.
Já temos à disposição algumas moléculas-mísseis para tratamento de leucemias, linfomas, certos casos de câncer de mama, de rim e de outros tumores malignos; muitas outras se encontram em fase avançada de estudos clínicos. O grande salto dos próximos anos será dado pelos agentes biológicos. Na primeira quinzena de junho de 2006, foi realizado o Congresso Americano de Oncologia, em Atlanta. No imenso hall em que a indústria farmacêutica exibe seus produtos, para cada estande montado com a finalidade de divulgar agentes quimioterápicos, havia meia dúzia de outros que anunciavam novas moléculas para tratamento biológico.
Lembrei de uma visita a uma loja de discos em Nova York, em meados dos anos 1980. Nas estantes, todos os discos eram de vinil, com exceção de um canto reservado para os CDs, que acabavam de surgir. Seis meses mais tarde, na mesma loja, os CDs ocupavam todo o espaço; no cantinho, estavam os vinis.
Lembrei de uma visita a uma loja de discos em Nova York, em meados dos anos 1980. Nas estantes, todos os discos eram de vinil, com exceção de um canto reservado para os CDs, que acabavam de surgir. Seis meses mais tarde, na mesma loja, os CDs ocupavam todo o espaço; no cantinho, estavam os vinis.
http://www.drauziovarella.com.br/
Estudo mostra que mais da metade das famílias brasileiras tem dívidas
Estudo mostra que mais da metade das famílias brasileiras tem dívidas
Valor médio do débito é de R$ 5.426; jovens adultos são os que mais devem
Quase 55% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado nesta terça-feira (31). O instituto ouviu moradores de 3.810 residências brasileiras, localizadas em 214 cidades.
O valor médio do débito, segundo o Ipea, é de R$ 5.426,59. Cerca de 15% das famílias endividadas devem até metade do rendimento mensal da casa.
Na outra ponta, 23% das famílias possuem dívidas equivalentes a cinco vezes a renda mensal. Ou seja, se a renda mensal é de R$ 3.000, a família deve nada menos que R$ 15 mil.
Entre os que disseram dever algum valor, 11,08% afirmaram estar muito endividados, 16,82% disseram estar mais ou menos endividados e 26,25% julgam estar pouco endividados. Mesmo assim, jovens e ricos estão otimistas com o futuro da economia brasileira.
Dívida por idade
Os adultos com idade entre 30 e 39 anos lideram o ranking de endividados, com 15,45%. Na segunda posição do ranking, estão os brasileiros com idade entre 40 e 49 anos, cuja taxa de endividamento está em 12,92%.
Os menos endividados são aqueles que têm mais de 60 anos, sendo que apenas 7,75% dessa camada da população deve algum valor.
Os brasileiros que têm ensino médio incompleto (antigo colegial) lideram a lista dos mais endividados com 13,89%. Na ponta oposta, os menos endividados são os que possuem o ensino médio completo, com 29,33%.
Débitos de acordo com salário
As famílias brasileiras que ganham de um a dois salários mínimos (de R$ 510 a R$ 1.020) encabeçam a lista dos mais endividados – 13,69% dessas famílias reconheceram dever muito.
Ao mesmo tempo, o mesmo recorte lidera o ranking das famílias sem dívidas: 46,33% do total disseram não dever nada a ninguém, ou seja, pagam suas contas em dia.
Os que possuem maior poder aquisitivo - com renda familiar mensal acima de dez mínimos (R$ 5.100) – estão pouco endividados. Entre os que disseram ter débitos, 33,85% afirmaram dever pouco.
Por etnia
Os brasileiros que se declararam negros ou amarelos são os mais endividados do país, segundo o Ipea. Pouco mais de 16% dos negros e quase 18% dos amarelos disseram ter débitos muito grandes.
Fonte: R7 Notícias
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