quarta-feira, setembro 15, 2010
Exame de sangue pode detectar Alzheimer
Exame de sangue pode detectar Alzheimer
Correio do Brasil - 14/9/2010 11:25
Um exame de sangue simples pode ser capaz de diagnosticar o mal de Alzheimer, disseram pesquisadores dos Estados Unidos nesta segunda-feira, numa descoberta que pode ampliar a detecção da doença.
O mal de Alzheimer, a forma de demência mais comum que existe, afeta pelo menos 26 milhões de pessoas no mundo todo. Não há cura, mas o tratamento paliativo apresenta melhores resultados se for iniciado prematuramente.
Outras equipes já haviam descoberto um diagnóstico precoce a partir do fluido vertebral, o que exige uma punção na coluna, procedimento que pode ser doloroso. Além disso, empresas especializadas em diagnóstico por imagem estão concluindo os testes de novos agentes capazes de tornar as placas (lesões) cerebrais visíveis em tomografias, um recurso disponível apenas em centros especializados.
Um exame de sangue tornaria o diagnóstico muito mais simples, segundo Sid O’Bryant, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Texas Tech, em Lubbock.
– Um exame sanguíneo abre acesso a todos. Qualquer clínica pode fazer isso. Até mesmo enfermeiras de cuidados domésticos podem fazer –, disse O’Bryant, cujas conclusões foram publicadas na revista Archives of Neurology.
A doença atualmente é diagnosticada pelos sintomas, e só pode ser confirmada por exames cerebrais após a morte.
Segundo O’Bryant, tentativas anteriores de fazer diagnósticos do mal de Alzheimer pelo sangue se mostraram falhas.
O novo exame busca mais de cem proteínas e combina isso com informações sobre os pacientes, inclusive se eles são portadores de um gene de risco para o Alzheimer, chamado APOE4. Uma análise informatizada então estabelece o grau de risco do paciente.
– Nossa taxa geral de sucesso em detectar portadores do mal de Alzheimer é de%. Mas o acerto total em classificar os que não têm o mal de Alzheimer é de 84% –, disse o cientista.
O próximo passo será ver se o teste pode prever quem irá desenvolver o Alzheimer. O teste do fluido vertebral parece ser capaz de fazer isso.
Um outro estudo na mesma publicação, liderado por David Geldmacher, do Sistema de Saúde da Universidade da Virginia, avaliou se o medicamento pioglitazone, usado contra diabetes, pode combater a inflamação que causa a morte de células cerebrais em pacientes com Alzheimer.
Geldmacher alertou que ainda é preciso aprofundar o estudo, e que pesquisas mais amplas com drogas da mesma classe não confirmaram nenhum benefício na terapia do mal de Alzheimer.
Equador pede ajuda para plano de proteção de região amazônica
Equador pede ajuda para plano de proteção de região amazônica
Por Hugh Bronstein
Negociação entre a Onu e o Equador inclui a área de preservação do Parque Nacional do Yasuní (Divulgação)
YASUNI, Equador (Reuters) - O Equador está lançando uma iniciativa inovadora para proteger uma reserva florestal que contém não apenas uma diversidade enorme de fauna e flora, mas também 20 por cento do petróleo bruto do país.
Em troca de não extrair petróleo de uma área de 200 mil hectares do parque nacional Yasuni, o governo está pedindo que países ricos, fundações e indivíduos lhe doem 3,6 bilhões de dólares.
Isso é metade do que o presidente Rafael Correa diz que o país receberia com a extração de petróleo nessa parte da reserva, ponto de encontro da cordilheira dos Andes com a floresta amazônica.
É uma abordagem nova da conservação e as autoridades reconhecem que talvez não encontrem apoio suficiente para a iniciativa. Mas, se funcionar, o Equador diz que 407 milhões de toneladas de dióxido de carbono deixarão de entrar na atmosfera.
Representantes equatorianos estão percorrendo o mundo este mês -- incluindo viagens ao Japão, Alemanha e sede das Nações Unidas -- para reunir-se com possíveis contribuintes para o plano.
A reserva total de Yasuni cobre uma área de 982 mil hectares e abriga uma diversidade enorme de aves, macacos e outros animais, incluindo onças, tamanduás-bandeira e botos cor-de-rosa.
A iniciativa abrange os três campos de petróleo de Ishpingo, Tambococha e Tiputini, conhecidos coletivamente como o setor ITT.
O petróleo já é extraído em outras partes do parque, onde moradores são a favor da iniciativa do governo.
Muitos indígenas da região têm medo de tomar a água de rios situados nas proximidades de poços de petróleo.
Uma ação judicial pedindo indenização por danos ambientais no valor de 27 bilhões de dólares está sendo julgada numa província vizinha, cujos moradores afirmam que a gigante petrolífera americana Chevron poluiu a selva com suas práticas de extração.
O Equador vai entregar certificados aos contribuintes, prometendo devolver o dinheiro, sem juros, no caso de o país algum dia explorar o petróleo.
O país diz que a primeira onda de contribuições provavelmente virá de países como Alemanha e Espanha. O Chile deve contribuir com 100 mil dólares esta semana, tornando-se o primeiro doador oficial para a iniciativa.
A proposta é que o fundo seja administrado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que está incentivando países ricos em petróleo a não extraí-lo em áreas ambientalmente sensíveis.
Os prejuízos dos desvios éticos
Os prejuízos dos desvios éticos
O Globo - 15/09/2010
O noticiário em torno da denúncia sobre o trânsito de Israel, filho da ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, em vias nada iluminadas, pelos meandros brasilienses da advocacia administrativa, traz à tona, mais uma vez, os Correios, alvo cobiçado nestes tempos de fisiologia, compadrio e outras práticas deletérias.
Impossível não lembrar que a centelha do mensalão, escândalo que quase levou o governo Lula à combustão, saiu dos Correios.
A ligação feita, sob pretensa inspiração de algum poderoso do Planalto, de esquemas de coleta de dinheiro sujo da estatal com o caixa dois do PTB levou o presidente do partido, deputado Roberto Jefferson (RJ), a reagir no melhor estilo dos homens-bomba: implodiu o esquema, levou à cassação o desafeto José Dirceu, e foi junto com ele.
Ali apareceu de maneira nítida como um cargo em estatal ou algum posto na administração direta com acesso a um orçamento podem ser usados de forma espúria. Como sempre, criam-se dificuldades para se vender facilidades.
E a população tem prejuízo dobrado: como contribuinte e como usuária de serviços públicos, cuja qualidade desaba junto com o padrão ético dos administradores nomeados na pura barganha político-eleitoral. Não é coincidência que os serviços dos Correios, empresa que já foi modelo de estatal, depois de recuperada pelos militares, tenham começado a piorar nesta fase em que ela foi transformada em moeda de troca no pregão da fisiologia. O caso Erenice, por exemplo, jogou luz sobre a briga entre peemedebistas pelo controle da ECT: a fração mineira da legenda terminou substituída, na influência sobre a estatal, pelo segmento brasiliense, com a chegada de Erenice ao gabinete que era de Dilma Rousseff.
Outro órgão público citado nesta história é a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), subjugada, como as demais agências. Israel trabalhou na Anac na fase de maior aparelhamento político-ideológico do responsável pela regulação do tráfego aéreo. Era o período de Milton Zuanazzi à frente da agência, quando o desastre com o jato da Gol e o caos aéreo chamaram a atenção para a inoperância da Anac, causada pela despreocupação do governo com a qualificação técnica dos nomeados.
Com a abertura da porteira da fisiologia e do compadrio, nem a Embrapa, grande responsável pela revolução ocorrida na agricultura brasileira, livrou-se, no primeiro mandato de Lula, de ser subjuga poe o mal foi contido a tempo. Pelo menos não destruíram a empresa, como ameaçam fazer com os Correios.
A Petrobras é outro ninho de aparelhos, mas, por ser muito grande, movimentar recursos na unidade mínima do milhão de reais, os danos desse processo de partidarização do Estado ainda não são visíveis com facilidade.
Mesmo assim, o caso do jipe de luxo presenteado ao petista Sílvio Pereira por uma prestadora de serviços da estatal, a GDK, indica que a empresa, de alguma forma, foi jogada na vala comum dos fins que justificam os meios.
Correios, Anac, Receita Federal, Infraero e empresas do setor energético em geral tratam de atividades vitais para a população. Uma missão prioritária dos instrumentos de fiscalização e controle do Estado brasileiro é evitar que governos degradem empresas e outras entidades públicas, por meio do desvio de suas finalidades para serem apenas peças na montagem de arranjos políticos.
Cantinflas não é Tiririca
Cantinflas não é Tiririca
Marco Antonio Villa - O Globo - 14/09/2010
Vez ou outra volta à tona o tema “mexicanização” do Brasil.
Agora vinculado a um provável domínio do Partido dos Trabalhadores da cena política como resultado das eleições de outubro.
O PT seria a versão nacional do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Nada mais falso. O longo período de domínio do PRI esteve vinculado à revolução de 1910, à Constituição de 1917 e seus direitos sociais, à reforma agrária (só a presidência Cárdenas distribuiu 18 milhões de hectares) e às figuras que marcaram o processo revolucionário, especialmente os líderes camponeses Emiliano Zapata e Pancho Villa.
Depois da grande turbulência de 1910-1920 — e das dezenas de milhares de mortos — teve início a primeira tentativa de estabilização com a eleição de Álvaro Obregón para a presidência e, quatro anos depois, de Plutarco Elias Calles. Contudo, as divergências políticas continuaram a ser resolvidas no terreno militar. Basta recordar a guerra dos cristeros, quando houve o confronto aberto entre Estado e a Igreja católica em uma guerra civil com 80 mil mortos. Em 1928, Obregón foi novamente eleito presidente, mas acabou morrendo, vítima de um atentado (na década anterior dois presidentes já tinham sido assassinados: Francisco Madero e Venustiano Carranza).
A fundação do Partido Nacional Revolucionário (PNR), em 1929, teve como mentor o ex-presidente Calles. O objetivo era dificultar a intervenção dos generais nas deliberações governamentais, transferindo as decisões e as divergências do campo militar para o interior do partido. Formado por chefes militares e civis da revolução, o PNR foi um instrumento do Estado para impor a sua vontade: fora dele nenhuma liderança política, por mais expressiva que fosse, poderia sobreviver.
Em 1938, o PNR transformou-se em Partido da Revolução Mexicana, e oito anos depois em Partido Revolucionário Institucional. O PRI funcionou como um verdadeiro partido de Estado, lançando seus tentáculos sobre a sociedade civil, asfixiando a vida política e transformando as eleições em mero ritual confirmatório da imposição partidária.
O caso brasileiro é muito distinto.
Apesar dos pesares, temos uma democracia em funcionamento. Aqui, a sustentação política do governo tem uma base plural. Se os “movimentos sociais” estão sob a tutela do PT, o movimento sindical, assim como os governos estaduais, estão partilhados entre vários partidos. A máquina do Estado, incluindo as empresas estatais, não é monopolizada pelos petistas, mesmo que estes controlem as áreas mais importantes, onde estão alocados os maiores recursos orçamentários, origem de negócios nada republicanos.
Também, diferentemente do México, a mística que vai ser preservada não é a da revolução, mas de Lula. O culto pessoal chegou a um ponto nunca visto no Brasil. E veremos muito mais entre a eleição de outubro e a saída formal de Lula da presidência, a 1 de janeiro de 2011. O queremismo de 1945 vai parecer brincadeira infantil frente ao espetáculo de verdadeira comoção pública.
Lula vai percorrer o país como um verdadeiro Dom Sebastião. Só que, diferentemente do rei português, vai anunciar o seu “desaparecimento” e deixar no ar o “retorno”.
Tudo no melhor estilo Lula: vai encerrar o governo de onde nunca saiu em oito anos — o palanque.
O PT não é o PRI. Não tem como instrumentalizar uma legenda revolucionária.
Não teve líderes históricos, uma história épica, tal qual a Revolução de 1910. Enquanto no México o PRI insistia em dizer que continuava a luta de Emiliano Zapata, para o PT restou ter como referência José Dirceu.
A função do PT é conceder alguma coerência ideológica à ampla base do governo. Produz o discurso que vai ser repetido pelos outros partidos, indo do PP até o MST. O PT solda a ampla aliança governamental, dando organicidade ao saque do Estado.
Ou, na linguagem de Michel Temer, à partilha do pão.
Numa mesa onde aparentemente cabem todos, o governo foi estabelecendo laços de dependência entre figuras tão díspares como Jader Barbalho e José Rainha. Todos tributários do Estado e da boa vontade do presidente para seus múltiplos negócios, desde um ranário milionário até um assentamento improdutivo.
Na eleição de 2000, o esgotamento do modelo econômico e as pressões da sociedade civil mexicana acabaram levando o domínio do PRI à derrocada.
No Brasil o domínio lulista (mais que petista) pretende permanecer longo tempo no poder. Mas, como se alicerça numa base política frágil, tende a ter vida curta.
MARCO ANTONIO VILLA é historiador.
50 anos de integração latino-americana
50 anos de integração latino-americana
Rubens Barbosa - O Estado de S. Paulo - 14/09/10
O Itamaraty celebrou o cinquentenário da criação, em 1960, da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc), pelo Tratado de Montevidéu, com encontro para examinar a evolução do processo de integração latino-americana.
No último meio século, os principais marcos da aproximação comercial entre os países da região foram a substituição da Alalc, em 1980, pela Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), a criação da Comunidade Andina de Nações (CAN), em 1985, o estabelecimento do Programa de Integração e Cooperação Econômica Brasil-Argentina (Pice), em 1988, e o Tratado de Assunção, que criou o Mercosul, em 1991.
Sob forte influência da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), a partir dos anos 50, a substituição de importações constituiu-se no elemento central das políticas econômicas dos países sul-americanos, que, naquela época, em sua maior parte, estavam voltados para o desenvolvimento do seu mercado interno. Os dois Tratados de Montevidéu, de 1960 e 1980, que passaram a regular as relações comerciais entre os países da América do Sul e o México, foram negociados nesse contexto.
Com a introdução dos princípios de maior flexibilidade, bilateralidade e convergência nas negociações comerciais, os governos procuraram dar mais agilidade ao processo de integração e torná-lo mais atrativo para acordos de abertura de mercado, como o Pice, a CAN e o Mercosul. Ao mesmo tempo, germinavam as sementes de uma nova fase do processo integracionista, verdadeiro divisor de águas nas conversações para a integração regional, visto que as condições estruturais existentes em meados de 1980 eram diferentes das que haviam prevalecido nos 25 anos anteriores.
A crise da balança de pagamentos gerada pela alta dos preços do petróleo, pelo problema da dívida externa e pelo esgotamento do modelo de substituição de importações só fez estimular essa tendência. Na medida em que reduziam as restrições quantitativas e os níveis de proteção tarifária e dotavam suas políticas comerciais de instrumentos de aplicação transparente, ágil e não discriminatória, os países da América Latina passaram por uma fase de liberalização progressiva.
Com o restabelecimento dos governos civis, inaugurou-se uma fase de intensos contatos de alto nível, inclusive presidenciais, no âmbito do Mercosul e da CAN, que, em nossos dias, culminaram com a criação de outras instituições, como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), uma das novas marcas do processo de integração regional. Apesar desse avanço nas negociações, até hoje permaneceram, em linhas gerais, as razões estruturais, de política interna e externa, e técnicas que explicam o insucesso do esforço integracionista, com base nas regras e nas negociações no âmbito da Aladi.
Ao longo dos 50 anos de negociações, algumas características marcaram especialmente as ações e os entendimentos da Alalc, da Aladi e, agora, do Mercosul. Nesse encontro do Itamaraty apresentei um decálogo que pode explicar os avanços e as dificuldades vividas pelos negociadores governamentais e pela empresas interessadas na abertura do mercado regional:
O governo brasileiro esteve na raiz de todas as principais iniciativas de integração comercial da região (Alalc, Aladi, Pice e Mercosul), oferecendo forte impulso político no lançamento das negociações e no seu desenvolvimento, sem receber apoio dos demais países.
O apoio ao processo negociador sempre se deu pela ação preponderante das chancelarias e dos interesses de política externa, e não da área econômica.
Por ser conduzido pelos Ministérios do Exterior, até hoje ainda não se conseguiu inocular a cultura da integração no âmbito dos governos como um todo, especialmente na área econômica.
Desde seu início, o processo de integração comercial teve de conviver com a contradição entre os programas econômicos internos e as propostas de aproximação entre os sistemas produtivos.
O protecionismo sempre esteve presente ao longo dos 50 anos: desde a aplicação da política de substituição de importação com a proteção das indústrias nacionais até a existência de listas de exceção para evitar a livre competição em determinados setores.
A relutância do empresariado privado, interessado na preservação das reservas de mercado, em aderir plenamente às negociações foi um fator negativo para a ampliação das áreas de cooperação e de integração do setor produtivo.
Mais do que um saudável impulso visionário de futuro, as negociações demonstram um irrealismo gritante das propostas temporais para a formação da área de livre-comércio e o mercado comum, talvez pela preponderância das chancelarias nas negociações.
Visto sempre como uma iniciativa de política externa, o processo de integração regional sempre se ressentiu da ausência de vontade política dos governos e do setor privado para levar adiante e aprofundar as propostas.
A visão comercialista sempre esteve em contraposição a uma percepção mais ampla, que incluiu considerações de natureza política e social, por influência do Brasil e da Venezuela.
Desde o início até os dias de hoje, sempre existiu uma enorme distância entre a retórica governamental, positiva e favorável à integração, e a dura realidade das dificuldades e dos fracassos do processo integracionista.
Passados 50 anos do início do processo de integração, a região nunca esteve, como agora, tão desintegrada pelos atritos comerciais e pelas rivalidades políticas existentes, sobretudo a partir da criação da venezuelana Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba). O Brasil, pela primeira vez, perdeu a iniciativa de conduzir o movimento, ficando a reboque de uma agenda que não é a nossa, promovida pela Argentina e pela Venezuela.
FOI REPRESENTANTE DO BRASIL JUNTO À ALADI (1987-1990) E COORDENADOR NACIONAL DO MERCOSUL (1990-1993)
Em direção a um ponto móvel
Em direção a um ponto móvel
José Pastore - O Estado de S. Paulo - 14/09/2010
Numa primeira análise, os dados sobre educação trazidos pela última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) são animadores. O Brasil está evoluindo. No período de 2004 a 2009, a proporção de crianças de 4 a 5 anos matriculadas em escolas subiu de 75% para 87%. Entre as demais, praticamente todas estão na escola. No grupo dos adolescentes de 15 a 17 anos, a escolarização saltou de 85% para 91% e na faixa de 18 a 24 anos, de 30% para 38,5%. A proporção dos que concluíram o ensino médio aumentou de 26% para 33%. Os que se diplomaram em universidades subiram de 8% para 10,5%. São boas notícias. A população brasileira está se educando mais.
Numa segunda análise, quando se comparam os resultados alcançados com as crescentes necessidades do mundo do trabalho, o quadro é desanimador. As novas tecnologias e os novos métodos de produzir e vender correm muito mais depressa do que os nossos avanços educacionais, que já são velozes. Isso explica, em grande parte, a falta de pessoal qualificado em quase todos os setores da economia brasileira nos dias atuais.
O quadro torna-se ainda mais desconcertante quando fazemos comparações com nossos competidores. Na média, os brasileiros com 10 anos de idade (ou mais) têm apenas 7,2 anos de escola. Para as necessidades do trabalho moderno isso é irrisório. Nos Estados Unidos, a média é de 13,5 anos; no Japão, 13; na maior parte da União Europeia, 14.
Ou seja, em relação ao que precisamos para crescer internamente e ganhar a competição externa, estamos muito atrasados. As empresas modernas buscam profissionais que tenham bom senso, lógica de raciocínio, capacidade de se comunicar por escrito e oralmente, tino para transformar informações em soluções práticas e capacidade para trabalhar em grupo. Em suma, as empresas de hoje buscam pessoas que saibam pensar e assim continuarão no futuro.
É verdade que, na força de trabalho, 43% dos brasileiros completaram o ensino médio. Ainda assim, é pouco. Afinal, 57% estão abaixo dessa marca. No Chile são apenas 24%; nos EUA, no Japão e no Canadá, 5%; na Alemanha, 3%; na Dinamarca, 1%; na Inglaterra, 0%. É difícil contar com uma massa crítica qualificada nessas condições.
Para o trabalho moderno não basta ser adestrado. É preciso ser educado, e bem educado. O Brasil ainda tem 20% de pessoas que não completaram os primeiros quatro anos de escola (analfabetos funcionais).
Em resumo, estamos avançando - o que é bom -, mas aquém das necessidades - o que é ruim. É uma corrida em relação a um ponto móvel. Quando se chega lá, descobre-se que é pouco. Vejam o caso do ensino superior, em que o Brasil tem cerca de 10% de formados. No Chile são 18%; na Inglaterra, 25%; nos EUA, 40%; na Coreia do Sul, 51%; e no Japão, 53%. São diferenças colossais.
Tudo somado, concluímos que estamos na rabeira. E quando se considera a qualidade do nosso ensino, o quadro é dramático. Em pleno século 21, o Brasil tem ainda 14 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever. E dentre os que entram na escola, muitos a deixam pela metade. Para os que prosseguem a repetência chega a 20%.
Entre os que se formam, o desempenho é baixíssimo. A maioria dos brasileiros que chegam à 8.ª série tem severas dificuldades para calcular e para compreender o que lê. Estamos nos últimos lugares entre os 56 países pesquisados pelo Pisa (Program for International Student Assessment).
Em suma, a Pnad 2009 mostrou que o copo está enchendo. Ótimo. Mas ele continua meio vazio.
Para que possamos chegar ao limite da nossa potencialidade de crescer e para fazer as pessoas progredirem e bem desempenharem a cidadania temos de acelerar a melhoria do nosso sistema educacional. E precisamos queimar etapas. No passado, isso foi feito em outros países com bons resultados (Coreia do Sul) e vem sendo realizado com sucesso nos dias atuais (China). O Brasil não pode dispensar a maratona educacional.
Desafio para o novo governo
Desafio para o novo governo
Yoshiaki Nakano - VALOR ECONÔMICO
As eleições presidenciais no Brasil representam momentos raros na vida política nacional em que a sociedade civil procura expressar as suas aspirações. Daí porque em toda eleição presidencial somos todos levados a refletir sobre os desafios que o novo governo terá que enfrentar. São momentos em que as entidades de classe deixam os seus interesses mais imediatos e específicos, ampliando o horizonte de análise e focam particularmente as questões de natureza mais estrutural.
Nestas eleições não é diferente, mas chamo atenção para o movimento "Brasil Eficiente", apoiado por dezenas de entidades da sociedade civil organizada, englobando, particularmente, as confederações do setor produtivo e federações empresariais.
A proposta fundamental do movimento é uma lei que estabeleça como meta aumentar a taxa de investimento do país dos atuais 19% do PIB para 25% do PIB, com o governo investindo 5% do PIB, para que a economia brasileira possa crescer, em média 6% ao ano na próxima década. Dessa forma, dobraríamos a renda per capita dos brasileiros em 2020. Meta nada ambiciosa se olharmos historicamente para o desempenho da economia brasileira nas primeiras sete décadas do século passado, ou para a média das taxas de investimento e de crescimento dos países emergentes nas últimas décadas.
Como é possível ampliar a taxa de investimento em 6 pontos percentuais do PIB? Se recorrermos à poupança externa dessa magnitude, em poucos anos o nosso passivo externo aumentará de tal forma que assistiremos a uma nova crise de balanço de pagamentos. Se deixarmos de lado a poupança externa, no pressuposto de que no longo prazo não podemos ampliar o nosso passivo externo, que já impõe um elevado encargo em juros e dividendos remetidos para o exterior, não resta outra opção senão a redução do consumo do setor público em relação ao PIB.
O que o movimento "Brasil Eficiente" propõe não é reduzir, em termos absolutos, os gastos de consumo do governo, mas controlar seu crescimento de forma que abra espaço para que a taxa de investimento atinja a meta de 25% do PIB, de forma que o gasto público global, que representa hoje mais do que 40% do PIB, conviria para 30% do PIB em 2020. Com isso, automaticamente, a carga tributária global seria reduzida gradualmente para níveis compatíveis com a nossa renda per capita.
Não há outra opção senão reduzir, relativamente, o consumo do setor público pois, para manter o dinamismo que a economia brasileira adquiriu nos últimos anos, é fundamental manter em expansão pelo menos a mesma taxa de crescimento do PIB, a demanda doméstica de consumo das famílias, que tem sido o nosso grande trunfo e responsável pela aceleração do crescimento nos últimos anos.
É importante lembrar que nenhum país cresceu no longo prazo se endividando, pois endividamento, num período, implica em pagamento dessa mesma dívida num período futuro. Mais do que isso, estudos empíricos apresentam evidências de que quando a dívida pública bruta atinge um certo nível, cerca de 60% do PIB para os países emergentes, ela compromete significativamente a taxa decrescimento da economia. A dívida bruta brasileira já está num patamar elevado e é fundamental lembrar ainda que o Brasil já fez uma enorme dívida pública, não contabilizada, representada pelos futuros déficits da previdência pública.
Outro parâmetro fundamental para a proposta do movimento "Brasil Eficiente" vem de um estudo do Banco Central Europeu (Public Sector Efficiency: Evidence for New EU Member States and Emerging Markets, 2006) que apresenta evidências empíricas de que, para o grupo de países analisados pelo trabalho quando o gasto público ultrapassa 30% do PIB, a taxa média de crescimento declina. Assim, temos, a grosso modo, o "tamanho ótimo" do governo. Infelizmente, pelos dados apresentados, os gastos do governo no Brasil são dos mais elevados desse grupo de países e atingiu no período 1999-2003, a média de 46,6% do PIB, superado apenas pela Grécia (48,6%) e Hungria (50,2%). Da mesma forma, pelos indicadores de desempenho e de eficiência, novamente, o Brasil está entre os piores do grupo, sempre acompanhado de países como Grécia, Hungria e Turquia.
Em suma, o desafio para o novo governo está colocado: como aumentar a eficiência ao gastar e investir do estado brasileiro, abrindo espaço para que caiba no PIB, em crescimento, uma taxa de investimento de 25% do PIB? No atual modelo isso não é possível, pois sempre que a taxa de investimento cresce e quando atinge, como hoje, pouco mais de 18% do PIB, surge a ameaça de inflação ou déficit em transações correntes, o que leva o Banco Central a aumentar a taxa de juros, como fez nos últimos meses. Falar em reduzir a taxa real de juros e ter uma taxa de câmbio mais competitiva, que não destrua a indústria brasileira, sem fazer o ajuste fundamental nas contas públicas, é aritmeticamente impossível. Manter taxas elevadas de crescimento, sem ampliar a taxa de investimento, sem obrigatoriamente uma redução relativa de algum outro componente do PIB, é acreditar no milagre da multiplicação de pães.
Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.
Os braços direitos
Os braços direitos
Eliane Cantanhêde - FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - A reportagem da revista "Veja" sobre o novo escândalo diz que o "consultor" Fábio Baracat era obrigado a deixar do lado de fora o celular, a caneta e o relógio sempre que ia conversar e tomar um vinho fora do Planalto com Erenice Guerra e seu filho lobista, quando ela era secretária-executiva de Dilma Rousseff na Casa Civil. Ou seja: ele não podia entrar com nada que pudesse gravar o encontro.
Isso faz toda a diferença entre a história da Casa Civil de Erenice/ Dilma e a da Casa Civil de Waldomiro Diniz/José Dirceu. Se Waldomiro tivesse evitado filmadoras nos seus encontros com bicheiros, não teria sido exposto ao país pela TV pedindo propina quando era da Loteria do Estado do Rio. E, diante de reportagens a respeito, poderia simplesmente se fazer de vítima de um complô maligno das elites (empresários, imprensa, tucanos...).
Valdomiro era braço direito do braço direito de Lula. Quando caíram os dois, Erenice virou braço direito da nova braço direito de Lula. Ela, porém, nunca foi filmada em situações normais ou comprometedoras com bicheiros, nem com empresários, filhos e lobistas.
Assumiu a Casa Civil e estava pronta para continuar poderosa em caso de vitória de Dilma, não fosse o tal Baracat falastrão. Por ora, porém, é a palavra dele contra a dela. Não há filmes nem gravações.
No debate de domingo Folha/ Rede TV!, José Serra chamou a Casa Civil de "central de maracutaias", e Dilma disse que não poderia responder pelo "filho de uma ex-assessora". Renegou sua sólida parceria com Erenice e reduziu a ministra indicada por ela para o principal cargo do governo a mera "ex-assessora". Uma ingratidão.
É improvável que isso tenha efeito nas eleições, mas é um carimbo para um eventual governo Dilma, ainda mais com dossiês, quebras de sigilo e métodos heterodoxos de sufocar adversários. Eleição passa, mas personagens e histórias ficam, assombrando unanimidades.
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