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terça-feira, outubro 12, 2010
Ciganos graças a Deus
Ciganos graças a Deus
Para fugir da discriminação e da perseguição na Espanha, grupos espalhados pelo país buscam apoio e refúgio em igrejas evangélicas
LUISA BELCHIOR - COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, - DE MADRI
Toda semana, Mhiaela Florina, 30, cigana romena, vai à sede da Igreja Universal do Reino de Deus em Madri com a irmã Ancuta, 19.
Converteram-se há um ano, quando chegaram à Espanha, aderindo a um movimento que já atraiu metade dos cerca de 700 mil ciganos do país -a maior população do grupo na União Europeia.
Segundo o Centro de Investigações Sociológicas da Espanha, 49% deles se converteram a igrejas protestantes. "Sempre acreditamos nas mesmas coisas que as igrejas dizem, só não tínhamos religião formal", conta Noemi Serrano, 48, que conduz um programa de evangelização de ciganos no país.
Mas o movimento é também um recurso que os ciganos adotaram para se proteger da perseguição na Europa, especialmente depois de o presidente do governo espanhol, José Luiz Rodríguez Zapatero, ter dado aval à política de expulsão de ciganos do francês Nicolas Sarkozy.
Embora a Espanha seja considerada pela Comissão Europeia modelo de integração de ciganos, o grupo é ainda o mais discriminado no país, segundo o Centro de Investigações Sociológicas.
"Aqui [na Igreja Universal] não nos sentimos discriminados, e eles ainda nos ajudam", afirma Mhiaela.
"Indo à igreja, eles são vistos como bons cidadãos, que não provocam desordem, e isso evita expulsões como as da França, ligadas a mau- -comportamento", afirma o catedrático do Centro de Migração e Racismo da Universidade Complutense de Madri, Tomas Calvo, ex-membro da Comissão Interministerial para Ciganos.
"Essas igrejas também intervêm em casos de ciganos romenos que não têm documentação nem de seu país".
Isso explica, para ele, o interesse de ciganos que não tinham religião ou frequentavam a Igreja católica, tradicional aliada do grupo na Espanha, pelas evangélicas.
Na paróquia de Santo Domingo de la Calzada, única igreja de Valdemindoguez, a maior concentração de ciganos romenos em Madri, já se nota a baixa. "Agora eles vêm para pedir ajuda, mas vão ao serviço das evangélicas", afirma Paco Pascual, funcionário da paróquia.
"Nas evangélicas, eles se sentem mais próximos, podem até ser pastores", declara Tomás Calvo.
É o caso de Antonio Juanbreva, 68: "Virei pastor e toda minha família já se converteu. Quase todas as famílias fizeram o mesmo".
NOVOS FIÉIS
Atualmente, há nichos de evangelização de ciganos também na França, Portugal, Suécia e Finlândia, mas o mais forte deles é na Espanha, segundo Manuela Cantón, que pesquisa a evangelização de ciganos no país.
A principal representante desse crescente movimento é a Igreja de Filadélfia, ramificação protestante criada na década de 1960 pelos próprios ciganos. "A Igreja de Filadelfia está permitindo a organização política dos ciganos", afirma Cantón, que escreveu o livro "Ciganos Pentecostais: um olhar antropológico sobre a Igreja Filadelfia na Andaluzia".
"Quase todo mundo que conheço está na Filadelfia", conta a cigana Anara Montoya, 42, cuja família foi uma das primeiras na igreja, há cerca de 20 anos.
Mas os templos latino- -americanos também têm angariado fiéis ciganos, caso da Igreja Universal do Reino de Deus de Madri. "Eles vinham nos dias em que distribuíamos comida. Mas agora já frequentam mais", diz à Folha o pastor Roberto Braga.
Os efeitos da evangelização dos ciganos na Espanha ainda dividem opiniões. "O problema é que não são organizações laicas", declara a ministra de Saúde e Políticas Sociais (que concentra as políticas para ciganos), Trinidad Jiménez.
Já o ministro de Educação, Ángel Cabilondo, avalia as igrejas pentecostais como "espaços positivos". Ele revelou à Folha que planeja parcerias com elas.
Os pesquisadores Tomás Calvo e Manuela Cantón veem no movimento uma chance de reinserção dos ciganos na sociedade.
"Para mim, isso marginaliza os ciganos, segrega", afirmou o presidente da Fundação Secretariado Ciganos da Espanha, Pedro Puente.
Após apoiar Sarkozy, Zapatero enfrenta forte pressão e silencia
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, - DE MADRI
O aval do presidente espanhol, José Luis Zapatero, à política de expulsão de ciganos levada a cabo pelo francês Nicolas Sarkozy abriu uma crise entre entidades representantes de ciganos e autoridades no país ibérico.
O espanhol foi um dos que declararam apoio a Sarkozy, em Bruxelas, em setembro. Entidades como a União Cigana da Espanha, que acionou a Corte da União Europeia contra Sarkozy, pedem retificação de Zapatero.
O presidente, porém, vem delegando a seus ministros a tarefa de garantir que a Espanha não tem intenção de fazer uma política similar.
Embora garanta a livre circulação de cidadãos de países membros da União Europeia, a legislação da UE também permite a expulsão em casos específicos, como quando o estrangeiro é um excesso de carga social.
"A diferença entre nós e os franceses é que queremos incorporar as diferenças, não eliminá-las", disse o ministro de Educação espanhol, Ángel Cabilondo. "Não queremos uma sociedade plana, queremos diversidade." (LB)
Grupo é 2º mais discriminado da Espanha
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, - DE MADRI
Originários de regiões orientais como a Índia, os ciganos se espalharam pela Europa ao longo dos séculos. Atualmente, são entre 10 milhões e 12 milhões disseminados pelo continente.
Apesar de conservar a maioria dos ritos, poucos vivem de forma nômade - só 5% deles, segundo a União Romena da Europa.
Na Espanha, onde os primeiros ciganos chegaram em 1425, há cerca de 700 mil deles, a população mais numerosa da União Europeia.
Apesar de hoje ter uma das políticas mais integradoras à população cigana do continente, o país manteve por muito tempo programas de perseguição.
Segundo uma pesquisa do Centro de Investigações Sociológicas da Espanha, os ciganos são o segundo grupo mais discriminado, atrás dos muçulmanos.
De acordo com o Eurobarômetro, principal pesquisa de opinião da UE, um quarto dos europeus se diz incomodado em ter um cigano como vizinho. (LB)
segunda-feira, outubro 11, 2010
Muro para ciganos gerou críticas de ONGs e Igreja Católica contra Portugal
Muro para ciganos gerou críticas de ONGs e Igreja Católica contra Portugal
10/10/2010 - 09:23 | Vitor Sorano | enviado especial a Beja (Portugal)
Por conta do tratamento dado às populações ciganas em relação à habitação, o governo de Portugal está sendo questionado no Comitê Europeu de Direitos Sociais – órgão que zela pelo cumprimento dos direitos humanos no bloco. O mesmo acontece com Grécia, Itália e Bulgária, países com grandes comunidades de ciganos no sul da Europa.
No dia 17/9, o Centro Europeu para Direitos dos Ciganos (ERRC, em inglês), entidade autora da queixa, declarou procedente a reclamação do ERRC e convidou o governo português a se pronunciar até 5 de novembro. Se constatar uma violação de direitos, o comitê enviará um relatório ao Conselho Europeu, que exerce pressão política para que o país corrija a situação. Para a entidade, as políticas de habitação adotadas no país são “infectadas de ânimo racial” e 31% dos ciganos mora em condições abaixo do padrão.
| Inadequadas: as casas dos ciganos a partir do interior do bairro de Pedreira |
“Conheço situações muito piores que as dessa comunidade. Ali há condições de habitalibilidade muito melhores do que em outras”, diz Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural de Portugal.
Para o diretor-executivo da Anistia Internacional em Portugal, Pedro Krupenski, o sentimento anti-cigano no país, assim como no bloco europeu, vem se agravando. A construção do muro é vista por ele como uma migração de atitudes xenófobas da esfera das ações individuais para coletivas – no caso, em nível local, e na França, em nível nacional, com a expulsão de ciganos imigrantes.
“Efetivamente, (o muro) é algo simbólico que materializa a discriminação, a segregação na comunidade local e dificulta o acesso aos direitos cívicos, sociais e culturais”, afirma. “Os ciganos são, de longe, os mais discriminados, em tudo”.
Afastamento
Segundo o ERRC, 13 das 50 unidades têm mais de sete pessoas e 15 abrigam mais de duas famílias em coabitação. Os imóveis, de um ou dois quartos, são considerados pequenos para famílias ciganas, como a do desempregado Alexandre João, 32 anos, que vive com mais sete pessoas. “Dormimos uns em cima dos outros. Antes, eu tinha minha barraca onde moravam dois”, conta.
“Foi mal projetado. Certamente, foi feito por alguém que não conhecia a etnia cigana”, diz Maria Teresa Chaves, presidente da Cáritas Diocesana de Beja, que trabalha com a população carente da cidade.
Os moradores afirmam não terem sido consultados. “Estávamos à espera de casas e não nos deixaram vê-las. Quando vimos, eram muito pequenas”, diz Alexandre João. “Disseram: esta é a tua”, lembra o também desempregado Manuel Reis Manano, de 29 anos, sobre o dia da chegada.
“A única coisa adequada é que as casas são térreas”, afirma a psicóloga Cátia Graça, da Cáritas.
Restrições
Na queixa, o ERRC afirma que as regras das políticas de apoio habitacional são geralmente restritivas à participação dos ciganos, por exigirem a declaração de impostos e emprego formal. No Pedreiras, a maioria da população é desempregada permanentemente e vive de benefícios sociais, como o Rendimento Social de Inserção – espécie de Bolsa-Família português. Segundo Rosário Farmhouse, cerca de 40% da comunidade cigana em Portugal, por real necessidade, recebem o benefício. “Hoje, 60% têm trabalho”, afirma.
| Família cigana ao lado de muro construído em Beja |
Além da falta de verbas, os municípios apontam a existência de uma pressão contra medidas de apoio a membros da etnia no campo habitacional, segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos Territoriais (CET) do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).
Em outros estudos do mesmo órgão, a população cigana aparece “sempre como um fantasma que invade a maioria dos munícipes e que se expressa em assembleias municipais ou através de conversas informais com autarcas ou mesmo através de reclamações pouco fundamentadas”, diz Alexandra Castro, pesquisadora do CET. Ela defende a realização de campanhas de sensibilização da opinião pública. “O principal inimigo é o medo”, diz a Alta-Comissária, Rosário Farmhouse.
“O Bairro das Pedreiras é outra jogada. Não vá lá que te pegam”, avisa um homem de 30 anos quando lhe é pedida a localização. “Temos que evitá-los. Há muitos ciganos em Beja, mas a trabalhar, zero. Temos que aturar, porque dá vontade de”, diz Bruno Martins, de 27 anos, dono de uma pastelaria na região central da cidade, fazendo sinal de esganamento. “Os ciganos não conseguem se integrar em uma sociedade como a nossa”, diz um jornaleiro da mesma área que não quis se identificar.
Participação
Para a presidente da Cáritas Diocesana de Beja, Maria Teresa Chaves, a inflexibilidade na imposição de condutas à etnia cigana colabora para a exclusão. “As minorias tem de participar nas decisões sobre sua vida. Não é dizer: 'não conheço, fazemos à nossa maneira e eles é que agradeçam'. É preciso que envolvê-las”, diz, sobre o modo como as casas do Bairro das Pedreiras foram construídas.
Em relação à educação, a psicóloga da Cáritas, Cátia Graça, diz que estão programados workshops para dar maior formação aos docentes sobre a cultura cigana, de modo a evitar atitudes excludentes e dar a conhecer a cultura. Ela cita o exemplo de uma criança em período de luto por causa do falecimento de um familiar, durante o qual os ciganos não podem ouvir música. “Se calhar, em vez de dar nota negativa (pela não participação em uma aula de música), ela pode fazer outra atividade”, sugere.
Integração
Realojar ciganos em locais longe do centro da cidade ou em áreas rurais – como acontece em Beja – é a regra nas áreas pesquisadas pelo ERRC, diz o órgão. “A maior parte da comunidade tolera, mas não aceita a convivência com a vizinhança (de ciganos)”, diz o bispo de Beja.
“Neste momento não há espaço disponível, não temos condições em termos de recursos. Não há hipótese de mudar”, diz o presidente da Câmara Municipal, Jorge Pulido Valente, sobre uma eventual realocação do bairro de modo a integrá-lo à malha urbana da cidade. A área onde está o Pedreiras, diz, era o único espaço possível para realojar os moradores da ocupação ilegal e ter, ao mesmo tempo, uma área para que famílias nômades pudessem acampar.
A agressividade – que a Cáritas identifica entre as crianças ciganas, às vezes como defesa – é causadora de dificuldades de integração, segundo o presidente da câmara. “Alguns serviços não vão até lá por causa do comportamento. Os motoristas têm receio, pois vandalizam os ônibus, não querem pagar o bilhete. O motorista (do transporte escolar) já foi agredido por uma mãe. Temos tido funcionários que se recusam a ir lá trabalhar”, afirma Valente
Cidade em Portugal constrói muro para isolar comunidade de ciganos
Cidade em Portugal constrói muro para isolar comunidade de ciganos
10/10/2010 - 09h03min | Vitor Sorano | enviado especial a Beja (Portugal)
Com portões e buracos, o muro do bairro das Pedreiras, em Portugal, é inútil tanto para proteger as cerca de 50 famílias ciganas que vivem do lado de dentro quanto para segregá-las do restante da cidade de Beja, na região do Alentejo. Ainda assim, tem funcionado como símbolo de ações que estimulam o distanciamento, voluntário ou não, dos membros da etnia no país. Para membros de organizações nacionais e internacionais, como a Anistia Internacional em Portugal e a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância, os ciganos, embora tenham cidadania portuguesa, são um dos principais alvos de discriminação no país.
O Pedreiras tem seis fileiras de casas de alvenaria geminadas e foi construído em 2006 para abrigar as famílias que ocupavam ilegalmente um terreno público no Bairro da Esperança, área pobre da cidade a 170 km de Lisboa onde vivem ciganos (ou Povo Roma, como preferem ser chamados) e não-ciganos. No local, agora há um empreendimento privado para baixa renda que estagnou por falta de procura.
| Joaquim Estrela Marques e portão do muro ao fundo |
A remoção – forçada, segundo os moradores – criou uma espécie de gueto. “As pessoas têm vergonha de dizer que moram aqui. Quando digo que moro aqui, falam 'Epa, você mora lá com os ciganos'”, diz António Gomes Luz Vultos, de 51 anos, de uma das duas únicas famílias de não-ciganos. A mulher dele é amiga da vizinha, que é cigana. Para o bispo de Beja, dom António Vitalino Fernandes Dantas, a separação étnica é a fonte dos problemas.
“O fato de ser um bairro de ciganos dificulta a integração. Não é boa prática colocar uma etnia em um bairro segregado”, diz.
Pretextos
Oficialmente, o muro de dois metros de altura e mais de 100 de comprimento foi construído para evitar o atropelamentos das crianças, já que ao lado passa uma autoestrada sem qualquer passagem para pedestre – nem previsão de ser feita, segundo o presidente da Câmara Municipal (em Portugal, equivalente à prefeitura), Jorge Pulido Valente.
Segundo Valente, o muro foi construído de comum acordo entre os moradores, empresas do entorno e a administração municipal. Até o fim do ano, diz, será reformulado para perder o aspecto de paredão e facilitar o acesso. “Muros se constroem, mas também se derrubam”, diz, embora não seja essa a obra prevista.
Apesar de contar com serviços de água, luz, coleta de lixo, esgoto e transporte escolar, o bairro não tem transporte público, escola, posto de saúde, comércio, correios nem áreas verdes. A única estrutura, além das casas, é um contêiner - aberto esporadicamente - que serve para o desenvolvimento de atividades infantis. Boa parte do chão é de terra batida.
Cães, insetos e lama
Localizado em área industrial, a cerca de 2 quilômetros do centro de Beja, o bairro foi construído perto de uma empresa de comércio de produtos agropecuários e do canil municipal – a ser desativado pela Câmara, mas depois cedido a uma associação de proteção dos animais.
| A família de José Maria Fonseca enfrenta uma série de dificuldades pela falta de infraestrutura em Beja |
“Estamos mesmo fora da cidade. Estamos junto aos cães. Os excrementos dos cães corriam por aqui. Nós é que fizemos uma vala para que passasse pelo outro lado do muro”, diz José Maria Fonseca, de 37 anos, desempregado, como quase todos do bairro.
Na casa dele, uma das que têm móveis, azulejos e piso, há veneno espalhado pelo chão e pela pia da cozinha, para afastar os insetos que infestam as moradias. “Já encontrei ratos sobre meu bebê enquanto ele dormia”, diz Ana Rita Silva Agostinho, de 15 anos. Já Joaquim Estrela Marques, de 95 anos, afirma ter dormido sobre a bancada da cozinha em dia de chuva.
“O barro entra todo por aqui. Quando vi, não quis ficar, mas as autoridades estavam todas aí”, diz.
Outros usam cordas para manter em pé as portas, que às vezes caem. “É um mapa”, diz António Vultos, sobre as rachaduras nos imóveis. A Câmara promete intervenções estruturais no ano que vem e diz já estar fazendo pequenas obras.
Grades
No Bairro dos Moinhos, de classe média e o mais próximo do Pedreiras, a escolha da Câmara resultou, segundo alguns moradores, na colocação de grades sobre os muros baixos das casas e a aquisição de cães de guarda. “Aqui quase ninguém tinha gradeamento e agora há em quase todas as casas”, afirma José Carvalho, de 36 anos, funcionário municipal, que tapou seu quintal depois de um brinquedo do filho ter sido furtado.
Furtos e roubos são atribuídos aos novos vizinhos. “O único caminho para a cidade é por aqui e, quando passam, roubam e quebram coisas”, diz Jorge Malpão, de 26 anos, trabalhador agrícola. “Que não é boa vizinhança, não é. Se houver algo que interesse (no quintal), eles pulam”, diz um idoso que não quis se identificar.
| Vista do trailer de Maria do Carmo Ramos a partir de buraco (a partir do exterior) |
O presidente da Câmara também liga os ciganos a um aumento de ocorrências leves, sobretudo em grandes superfícies, como supermercados. “As pessoas estão um pouco saturadas de uma predominância da etnia cigana, nos atendimentos nas lojas, no hospital. São algo indisciplinados. Não são todos”.
“Taparam a gente”
Inútil para barrar a criminalidade atribuída genericamente à população do Pedreiras, o muro é condenado por quem se diz vítima dela. Para Malpão, que diz ter sido furtado, “o pessoal não pode desprezar outra etnia. Estão a se sentir como prisioneiros. Talvez se fosse aberto, facilitaria (a integração)”.
“Aquilo não serviu para nada, acho que não faz sentido, aumenta a discriminação”, diz Carvalho.
“Para mim não está bem. Construir 50 casas e colocar um muro em volta parece um curral para porcos ou uma prisão”, diz um não-cigano de cerca de 50 anos que não quis se identificar.
“Atrapalhar não atrapalha, mas envergonha. A gente não consegue ver a cidade, e a cidade não consegue ver a gente”, diz o cigano António Graça, de 34 anos, desempregado, morador do Pedreiras.
“Taparam a gente”, resume Maria do Carmo Ramos, de 75 anos, que mora acampada em um trailer em frente à casa da filha.
Muro invisível
Um portão foi instalado para encurtar o caminho até o centro da cidade. “A gente abria e eles fechavam. Queriam que a gente desse a volta lá por cima”, diz António Vultos, um dos não-ciganos do bairro. Em todos os discursos, porém, a barreira, fica em segundo plano em relação à precariedade das casas e da estrutura urbana do bairro.
Valente também considera esse um problema menor para a integração e aponta para as dificuldades impostas pelos ciganos. A Câmara quer que os moradores assinem contratos de responsabilidade, em que eles se comprometam com o pagamento dos alugueis, a aceitação de propostas de emprego, a manutenção dos filhos na escola e a adoção de “comportamentos cívicos adequados”.
“O muro principal é o invisível. Tem que haver por parte da etnia cigana a assunção dos seus deveres, o que não tem acontecido”.
quinta-feira, setembro 30, 2010
Os excluídos da Europa
Os excluídos da Europa
Com a deportação de milhares de ciganos romenos e búlgaros para seus países de origem por ordem do governo francês nas últimas semanas, mais uma vez a atenção do mundo volta-se para a minoria mais desprivilegiada do continente — a maior parte vivendo no Leste Europeu. Mesmo com o ingresso dos países dessa área na União Europeia (UE), os milhões de ciganos de Romênia, Hungria ou Bulgária continuaram a viver em guetos, como ilhas do Terceiro Mundo na rica UE. Alvos da violência neonazista na Hungria, ameaçados na Romênia, os ciganos tornam-se bodes expiatórios também nos seus países de origem.
— Sempre que a situação fica mais difícil, os ciganos voltam a ser perseguidos, como em tantas vezes na História — lamenta Florian Cioaba, de Sibiu, na Romênia, vice-presidente da Associação Mundial dos Ciganos.
Embora a situação geral tenha melhorado na Europa Oriental com o fim do comunismo há 20 anos e ingresso na UE, para a minoria, as mudanças trouxeram retrocesso.
Na era comunista, eram integrados ao sistema de produção, embora em profissões simples.
Muitos trabalhavam como ajudantes na construção civil. Com a privatização e o fechamento de empresas, foram os primeiros demitidos em consequência da baixa qualificação. E perderam de novo com o ingresso na UE. Com a pressão pelo saneamento das finanças públicas, foram cortadas verbas para minorias pobres, agravando a situação.
Autoproclamado rei dos ciganos, Cioaba, de 57 anos, diz recear o pior. Segundo ele, a ação francesa poderia desencadear “uma reação em cadeia” na Europa. Cioaba teme que mesmo os ciganos da Alemanha ou França, há séculos nesses países, poderiam terminar vítimas de mais discriminação. O medo não é gratuito: uma pesquisa da Comissão Europeia, em 2008, mostrou que 25% dos cidadãos da UE sentiriam desconforto em ter um cigano como vizinho, contra 6% que manifestaram o mesmo em relação a outra minoria. Romani Rose, presidente do Conselho Central dos Ciganos da Alemanha, vê com preocupação o anticiganismo.
Segundo ele, a discriminação atinge um nível nunca visto desde a Segunda Guerra, quando o nazismo assassinou 500 mil ciganos.
Outros países já seguiram trilhas semelhantes à da França. Em 2007, as eleições italianas foram palco de uma inflamada discussão sobre a “ameaça” dos ciganos do leste, que terminou favorecendo a vitória do premier Silvio Berlusconi. Recentemente, acampamentos ciganos têm sido alvo da polícia. Por sua vez, a Alemanha deu inicio à deportação de 12 mil ciganos de Kosovo, que imigraram para o país nos anos 1990 durante a guerra na Iugoslávia.
Em 2009, um acampamento no centro de Berlim foi desmontado sem alarde. Cada um recebeu G 250 para deixar a cidade. Como têm passaporte da UE, eles podem ir para qualquer país sem visto de entrada.
— Aqui acontecem muitas coisas que não despertam a atenção pública como na França — Ines Biesewinkel, da ONG Rom e.V., ressaltando que o governo alemão age na surdina.
Muitos dos deportados pela França vão para Prislop, um gueto cigano a 15 quilômetros de Sibiu, na Romênia, que simboliza a segregação no Leste Europeu. Se em Sibiu 18% da população têm educação superior e quase 100% nível médio, em Prislop a taxa de analfabetismo é grande. Apenas uma minoria termina o Ensino Médio e faz um curso profissionalizante.
A jornalista Ruxandra Stanescu afirma que a minoria foi a que mais perdeu com as transformações dos últimos anos. Eles já eram pobres e foram praticamente abandonados nos guetos, separados e discriminados pelas populações locais.
O retrato disso — e de como a situação pode piorar — está na Hungria, onde o partido Jobbik tornou-se a terceira força no Parlamento com uma campanha contra a “criminalidade cigana”. O deputado Csanad Szegedi apresentou no Parlamento Europeu a proposta de criação de campos de concentração para os ciganos com toque de recolher às 22h. Esse populismo de extrema-direita levou ao aumento de ataques aos ciganos — 20 nos últimos dois anos, com duas mortes. Em Sajokaza, a 200 quilômetros de Budapeste, o gueto cigano pode ser reconhecido pelos casebres de barro. Nas ruas, não há asfalto ou urbanização.
Para Liviya Yaroka, deputada húngara de origem cigana, o problema já existia quando o comunismo acabou, e depois nada foi feito para melhorar seu padrão de vida. Sem emprego, educação nem condições materiais aceitáveis, os ciganos começaram a emigrar para a Europa Ocidental, onde chamam a atenção como pedintes. Segundo a deputada, quase 80% dos europeus julgam que ser cigano é uma desvantagem.
Talvez isto tenha levado Dzoni Sichelschmidt, cigano kosovar de 39 anos, a contar à família da mulher alemã que era albanês. Só mais tarde, o assistente social teve coragem de dizer a verdade.
A deputada Yaroka confirma alguns dos clichês sobre os ciganos, como o de que muitas famílias exploram suas crianças obrigando-as a pedir esmola. Já o nomadismo ela contesta.
Apenas 5% são hoje nômades. As migrações para a Europa Ocidental têm por objetivo o acesso a uma vida melhor. Eles esperam conseguir emprego e uma boa moradia. Mas continuam desempregados e excluídos.
Autor: Graça Magalhães-Ruether Fonte: O Globo e Unisinos
sábado, setembro 18, 2010
UE se rende a Sarkozy
UE se rende a Sarkozy
Após violento bate-boca sobre ciganos, líderes evitam criticar presidente e censuram comissária
O Globo – Agências internacionais
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, conversa com o presidente da Romência, Traian Basescu, em Bruxelas - AP
BRUXELAS - A polêmica sobre a política francesa em relação aos ciganos dominou ontem a reunião de cúpula da União Europeia, em Bruxelas, onde os 27 chefes de Estado dos países-membros do bloco previam inicialmente discutir a crise econômica e a aplicação de uma política externa comum.
A reunião se desenrolou num clima tenso que culminou com um bate-boca violento entre Nicolas Sarkozy e o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, segundo relataram o primeiro-ministro búlgaro, Boyko Borissov, e membros de outras delegações presentes.
Sarkozy e o órgão executivo europeu estão em pé de guerra desde que a comissária europeia de Justiça e de Direitos Humanos, Viviane Reding, ameaçou, no início da semana, processar a França pela forma como os ciganos vêm sendo expulsos do país, evocando as deportações promovidas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial para criticar a política de Sarkozy em relação à minoria.
Apesar das inúmeras declarações contrárias às expulsões dos ciganos proferidas recentemente por órgãos europeus e internacionais, os líderes presentes evitaram criticar Sarkozy, mas não pouparam Reding.
Para o premier Espanhol, José Luiz Rodriguez Zapatero, as declarações de Reding “pareceram fora do lugar”. A chanceler alemã, Angela Merkel, também criticou a postura da comissária.
— Achei o tom e especialmente a comparação histórica inadequados — disse Merkel.
— Espero que possamos encontrar um caminho melhor.
O premier britânico, David Cameron, defendeu o direito de expulsar imigrantes ilegais, mas disse que a etnia não pode ser levada em conta ao fazê-lo.
Durante uma sessão de trabalho, Sarkozy pediu a palavra e tentou explicar a posição do seu governo quanto à circular do Ministério do Interior, datada de 5 de agosto. O documento tratava ciganos como um grupo étnico e os colocava no topo da lista de imigrantes a serem despejados, violando a Convenção Europeia de Direitos Humanos— que proíbe qualquer distinção feita com base na etnia.
— Uma circular assinada por um funcionário em pleno mês de agosto (férias na Europa) comportava elementos passíveis de serem mal interpretados — alegou o presidente.
Sarkozy também lembrou que o documento foi invalidado antes das críticas de Viviane Reding, o que demonstraria, segundo ele, a boa fé do governo francês. Ele se esqueceu, no entanto, de dizer que a primeira circular fora vazada à imprensa e já fazia escândalo antes da comissária se pronunciar a respeito.
— As declarações (de Reding) foram um insulto, uma humilhação, uma afronta. Entendo que (Barroso) se solidarize com a comissária, mas não permitirei que meu país seja insultado — afirmou.
Sarkozy também afirmou que os acampamentos ilegais não podem ser ignorados pela Europa e reiterou que continuará a fechá-los, seja quem forem seus ocupantes.
‘Discussão masculina e viril durante almoço’
Diante das críticas de Sarkozy contra Bruxelas, Durão Barroso defendeu o papel da Comissão e disse que não se distrairia do seu trabalho por conta de querelas, segundo um diplomata.
Em coletiva de imprensa, Sarkozy reconheceu ter abordado a questão com Durão Barroso durante o almoço, mas negou ter levantado a voz contra o presidente da Comissão.
— Se alguém conservou a calma e se absteve de comentários excessivos, esse alguém sou eu - ; afirmou o chefe de Estado francês.
A versão do presidente francês, no entanto, é contestada pelo primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, que descreveu uma discussão “masculina e viril” no almoço. Juncker também não perdeu oportunidade de criticar Sarkozy — que, na véspera, sugeriu que Reding levasse os ciganos para Luxemburgo, país natal da comissária. Para o premier, as palavras do presidente francês foram inconvenientes.
Um diplomata europeu ouvido pelo “Le Monde” conta que “o tom das vozes (de Sarkozy e Durão Barrosos) era tão alto que era possível ouvi-los do outro lado do corredor”.
Já Angela Merkel, descreveu o diálogo dos dois políticos como uma discussão franca.
— Tudo correu bem no almoço, no que diz respeito à qualidade dos pratos — ironizou.
Publicamente, apenas a Itália de Silvio Berlusconi mostrou apoio incondicional à França a respeito do tratamento dado à minoria.
No final do dia, os líderes relataram que nada fora decidido sobre a questão dos ciganos na Europa, informando que tentarão encontrar uma solução numa próxima reunião.
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