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sábado, setembro 18, 2010

UE se rende a Sarkozy

UE se rende a Sarkozy
Após violento bate-boca sobre ciganos, líderes evitam criticar presidente e censuram comissária
O Globo – Agências internacionais
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, conversa com o presidente da Romência, Traian Basescu, em Bruxelas - AP

BRUXELAS - A polêmica sobre a política francesa em relação aos ciganos dominou ontem a reunião de cúpula da União Europeia, em Bruxelas, onde os 27 chefes de Estado dos países-membros do bloco previam inicialmente discutir a crise econômica e a aplicação de uma política externa comum.
A reunião se desenrolou num clima tenso que culminou com um bate-boca violento entre Nicolas Sarkozy e o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, segundo relataram o primeiro-ministro búlgaro, Boyko Borissov, e membros de outras delegações presentes.
Sarkozy e o órgão executivo europeu estão em pé de guerra desde que a comissária europeia de Justiça e de Direitos Humanos, Viviane Reding, ameaçou, no início da semana, processar a França pela forma como os ciganos vêm sendo expulsos do país, evocando as deportações promovidas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial para criticar a política de Sarkozy em relação à minoria.
Apesar das inúmeras declarações contrárias às expulsões dos ciganos proferidas recentemente por órgãos europeus e internacionais, os líderes presentes evitaram criticar Sarkozy, mas não pouparam Reding.
Para o premier Espanhol, José Luiz Rodriguez Zapatero, as declarações de Reding “pareceram fora do lugar”. A chanceler alemã, Angela Merkel, também criticou a postura da comissária.
— Achei o tom e especialmente a comparação histórica inadequados — disse Merkel.
— Espero que possamos encontrar um caminho melhor.
O premier britânico, David Cameron, defendeu o direito de expulsar imigrantes ilegais, mas disse que a etnia não pode ser levada em conta ao fazê-lo.
Durante uma sessão de trabalho, Sarkozy pediu a palavra e tentou explicar a posição do seu governo quanto à circular do Ministério do Interior, datada de 5 de agosto. O documento tratava ciganos como um grupo étnico e os colocava no topo da lista de imigrantes a serem despejados, violando a Convenção Europeia de Direitos Humanos— que proíbe qualquer distinção feita com base na etnia.
— Uma circular assinada por um funcionário em pleno mês de agosto (férias na Europa) comportava elementos passíveis de serem mal interpretados — alegou o presidente.
Sarkozy também lembrou que o documento foi invalidado antes das críticas de Viviane Reding, o que demonstraria, segundo ele, a boa fé do governo francês. Ele se esqueceu, no entanto, de dizer que a primeira circular fora vazada à imprensa e já fazia escândalo antes da comissária se pronunciar a respeito.
— As declarações (de Reding) foram um insulto, uma humilhação, uma afronta. Entendo que (Barroso) se solidarize com a comissária, mas não permitirei que meu país seja insultado — afirmou.
Sarkozy também afirmou que os acampamentos ilegais não podem ser ignorados pela Europa e reiterou que continuará a fechá-los, seja quem forem seus ocupantes.
‘Discussão masculina e viril durante almoço’
Diante das críticas de Sarkozy contra Bruxelas, Durão Barroso defendeu o papel da Comissão e disse que não se distrairia do seu trabalho por conta de querelas, segundo um diplomata.
Em coletiva de imprensa, Sarkozy reconheceu ter abordado a questão com Durão Barroso durante o almoço, mas negou ter levantado a voz contra o presidente da Comissão.
— Se alguém conservou a calma e se absteve de comentários excessivos, esse alguém sou eu - ; afirmou o chefe de Estado francês.
A versão do presidente francês, no entanto, é contestada pelo primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, que descreveu uma discussão “masculina e viril” no almoço. Juncker também não perdeu oportunidade de criticar Sarkozy — que, na véspera, sugeriu que Reding levasse os ciganos para Luxemburgo, país natal da comissária. Para o premier, as palavras do presidente francês foram inconvenientes.
Um diplomata europeu ouvido pelo “Le Monde” conta que “o tom das vozes (de Sarkozy e Durão Barrosos) era tão alto que era possível ouvi-los do outro lado do corredor”.
Já Angela Merkel, descreveu o diálogo dos dois políticos como uma discussão franca.
— Tudo correu bem no almoço, no que diz respeito à qualidade dos pratos — ironizou.
Publicamente, apenas a Itália de Silvio Berlusconi mostrou apoio incondicional à França a respeito do tratamento dado à minoria.
No final do dia, os líderes relataram que nada fora decidido sobre a questão dos ciganos na Europa, informando que tentarão encontrar uma solução numa próxima reunião.

sábado, setembro 11, 2010

Planos para o Alcorão iniciaram um fogo que se espalhou sem ter queimado

Planos para o Alcorão iniciaram um fogo que se espalhou sem ter queimado

Brian Stelter – The New York Times

Estudantes muçulmanas protestam contra o plano do pastor americano Terry Jones de queimar o Alcorão

Um pastor renegado e sua minúscula congregação colocaram fogo em um Alcorão em uma esquina e fizeram questão de registrar o fato em vídeo. Mas foram ignorados.
Isso ocorreu em 2008, envolvendo membros da Igreja Batista de Westboro, em Topeka, Kansas, um grupo quase universalmente condenado de fundamentalistas que também protestam em funerais militares.
Mas os planos para um ato semelhante por outro pastor à margem, Terry Jones, atraiu atenção da mídia mundial neste ano, atenção cujo pico ocorreu na quinta-feira, quando ele anunciou que estava cancelando – e posteriormente de que tinha apenas “suspendido”– o que ele chamou de Dia Internacional de Queima do Alcorão. Ele estava marcado para sábado, o 9º aniversário dos ataques terroristas do 11 de Setembro.
Diferente da queima do Alcorão pelos batistas de Westboro, o evento planejado por Jones em Gainesville, Flórida, coincidiu com a controvérsia em torno da proposta de construção de um centro comunitário muçulmano na Baixa Manhattan, próximo do Ponto Zero, e de um debate acirrado durante todo o verão americano a respeito da liberdade de expressão e religião.
Jones conseguiu se colocar no centro destas questões, ao utilizar a calmaria de notícias de verão e a demanda por um ciclo de notícias de 24 horas para promover sua causa anti-Islã. Ele disse ter concedido mais de 150 entrevistas em julho e agosto, em todas as ocasiões expressando suas visões extremistas a respeito do Islã e da lei Shariah.
No meio desta semana, a queima planejada do Alcorão era a principal história em alguns noticiários de redes de televisão, e o assunto Nº1 nos canais de notícias da TV por assinatura – uma quantidade extraordinária de atenção para uma figura marginal com um número muito pequeno de seguidores. Na manhã de quinta-feira, o presidente Barack Obama condenou o plano de queima do Alcorão, e seu secretário de imprensa, Robert Gibbs, disse que havia “mais pessoas em suas coletivas de imprensa do que ouvindo seus sermões”, em uma espécie de crítica à imprensa.
O plano de Jones, que ele anunciou em julho, ganhou lentamente atenção em agosto, particularmente no exterior. Ele se transformou na principal história nos Estados Unidos após protestos contra Jones no Afeganistão e após o comandante das forças americanas e da Otan no Afeganistão, o general David H. Petraeus, ter alertado que a queima do Alcorão poderia colocar em risco as tropas.
“Antes de ocorrerem protestos e chefes de Estado falarem a respeito dele, a história poderia se resumir a uns dois parágrafos em meio a uma história sobre o aniversário do 11 de Setembro”, disse Kathleen Carroll, editora executiva da agência de notícias “The Associated Press”, na quinta-feira. “Está além disso agora.”
De certa forma, os eventos desta semana foram a culminação de um ano de declarações de ódio e atividades para chamar a atenção por Jones e meia dúzia de membros de sua igreja.
Jones começou a fazer estardalhaço em Gainesville em meados de 2009, quando colocou uma placa do lado de fora de sua igreja que dizia: “O Islã é o diabo”. O “Gainesville Sun” (que é de propriedade da The New York Times Company) escreveu sobre a placa, sob a manchete “Placa de igreja anti-Islã provoca ultraje na comunidade”.
Ele disse ao “Sun” que a placa não seria sua última manifestação.
O jornal logo publicou uma investigação a respeito do que chamou de “abusos financeiros” da igreja, incluindo um negócio de venda de móveis no site eBay com fins lucrativos, atuando na propriedade da igreja.
Os protestos da congregação prosseguiram no final do ano passado, quando algumas das crianças da igreja vestiram camisetas anti-Islã na escola, provocando outro artigo no “Sun”, que foi pego pela “Associated Press” e republicado por veículos como o “USA Today” e a “Al-Arabiya”, uma rede de notícias de língua árabe.
Pessoas com as mesmas camisetas anti-Islã começaram a circular pelo campus da Universidade da Flórida em Gainesville, disse Fiona McLaughlin, uma professora da universidade, provocando um contraprotesto com camisetas que diziam: “A ignorância é o diabo”.
A igreja “não mais descansou desde aquela primeira placa”, disse Jacki Levine, a editora do “Sun”. Ela disse que a direção do jornal discutiu repetidas vezes como ser “responsável” em sua cobertura –“Nós caminhamos com o máximo de cuidado que pudemos”.
O Islã não foi o único alvo de Jones. Membros da igreja também realizaram protestos contra Craig Lowe, um gay assumido que foi eleito prefeito de Gainesville em abril.
O anúncio por Jones da queima do Alcorão inicialmente ganhou pouca atenção, com um único artigo curto publicado por um site chamado “Religion News Service”. Esse artigo foi posteriormente mencionado por sites maiores, como o “Yahoo”, e no final do mês Jones já ocupava espaço na “CNN”, onde o apresentador Rick Sanchez chamou seu plano de “louco”, mas acrescentou: “Ao menos ele tem coragem de promover este show e confronto”.
Alarmado com as menções negativas em artigos em jornais no exterior, Lowe, o prefeito de Gainesville, divulgou uma declaração em 3 de agosto rotulando a igreja de Jones de “um minúsculo grupo marginal e um embaraço para nossa comunidade”.
Os executivos de notícias disseram que a queima proposta ganhou maior relevância após os protestos no Afeganistão e em outros países muçulmanos. Em Cabul, no domingo passado, mais de 500 pessoas participaram de um protesto no qual uma imagem de Jones foi queimada, segundo a “Associated Press”.
Também foi quando chamou a atenção de McLaughlin. Juntamente com 11 outros professores, ela escreveu uma coluna para o “Sun” condenando o plano, intitulada “O mundo está olhando”.
“Nós acompanhamos a escalada de tudo”, ela disse na quinta-feira, citando o “efeito de soma” de toda a cobertura e reações resultantes. (O “New York Times” escreveu um artigo substancial a respeito de Jones em 26 de agosto.)
Antes de Jones ter suspendido seus planos, a “AP” determinou que não distribuiria fotos dos Alcorões sendo queimados, reafirmando uma política de não cobrir eventos “fabricados gratuitamente para provocar e ofender”.
“Há muitas outras imagens igualmente ofensivas que constantemente optamos por não veicular”, disse Carroll. “A maioria das pessoas desconhece isso, é claro, porque não as veiculamos.”
Antes da suspensão, “CNN” e o “Fox News Channel” disseram que não exibiriam nenhuma imagem dos Alcorões sendo queimados.
Bill Keller, o editor-executivo do “New York Times”, disse em uma mensagem por e-mail que o jornal “não tem uma política contra a publicação de coisas que possam ofender alguém –muitas pessoas se sentem ofendidas por muitas coisas– mas tentamos evitar disseminar ofensas, a menos que haja algum propósito jornalístico compensador”.
“A imagem de um livro sendo queimado não contribui com nada substancial para uma história a respeito da queima de livros, de forma que a ofensa parece totalmente gratuita”, prosseguiu Keller. “A liberdade de publicar inclui a liberdade de não publicar.”
O episódio ao menos provocou um pouco de autoanálise dentro das organizações de notícias.
Chris Cuomo, um âncora da “ABC News”, escreveu na tarde de quinta-feira no Twitter: “Eu faço parte da mídia, mas acho que a mídia deu vida a esta queima na Flórida (...) e isso foi incauto”.
Damien Cave contribuiu com reportagem.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Graham Fuller: “O islã não é o problema”

Graham Fuller: “O islã não é o problema”
O ex-agente da CIA e estudioso do radicalismo muçulmano diz que a política externa americana é o maior combustível do fanatismo
Letícia Sorg – Revista época

ÉPOCA – Em seu livro mais recente, A world without islam (Um mundo sem islã), o senhor imagina um mundo hipotético sem o islamismo para argumentar que a religião não é a causa dos conflitos no Oriente Médio. Por quê?  Graham Fuller – Eu me irritava com as tentativas de escrever análises sobre as dificuldades de “reformar o islã”. As análises não deixam de ter razão, mas ninguém questiona se os EUA, potência com quase 1.000 bases militares espalhadas pelo mundo, provocam impacto direto na região. O islamismo é o veículo, a bandeira, o símbolo, não a origem.

ÉPOCA – Qual é, então, a causa do conflito atual?  Fuller –– Há elementos geopolíticos por trás da maioria deles. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial começaram com os europeus, que acabaram arrastando o Oriente Médio. Durante a Guerra Fria, o Oriente Médio foi novamente arrastado ao conflito entre os Estados Unidos e a União Soviética. A região conviveu com a constante intervenção política e militar americana promovendo golpes de Estado. A lista é grande, e nenhum dos conflitos tem a ver com o islã.

ÉPOCA – O senhor trabalhou para a CIA entre 1965 e 1987 e viveu em vários países do Oriente Médio. Poderia imaginar que as relações com os EUA chegariam ao ponto em que estão hoje?  Fuller – Sim e não. Quem trabalhou no Oriente Médio naqueles anos sabia que a situação estava ficando cada vez pior. Nos Estados Unidos, eu via que as pessoas não percebiam nenhuma mudança. De repente, tivemos o 11 de setembro. Foi um choque, mas não uma surpresa. Osama Bin Laden vinha avisando sobre os atentados e falando sobre o ódio no Oriente Médio por causa da presença de tropas americanas na Arábia Saudita.

ÉPOCA – Em um artigo, o senhor diz que a política externa americana é, provavelmente, a maior contribuição para a unidade do mundo muçulmano desde o profeta Maomé. Por quê?  Fuller – Nos dias de Maomé não havia comunicação, mas, agora, com a internet e outros meios, quando os EUA decidem tomar uma atitude como a “guerra contra o terror”, todos ficam sabendo. Os palestinos veem na TV afegãos sendo mortos, por exemplo. A consciência de ser muçulmano é global, e a identidade islâmica é, portanto, consequência da política externa americana – e não a causa.

ÉPOCA – Como o senhor vê essa iniciativa americana de enviar imames americanos a países muçulmanos para falar de pluralismo religioso nos Estados Unidos?  Fuller O papel dos imames é importante, desde que eles não sejam vistos como instrumentos de Washington. Há tantas suspeitas sobre a intenção dos EUA que alguns podem acreditar que é mais uma desculpa para pressão e intervenção.

ÉPOCA – Qual é sua opinião sobre o projeto da mesquita?  Fuller – É, a longo prazo, ótimo, mas o momento para a sugestão é delicado porque a questão seria politizada.
ÉPOCA – Os Estados Unidos estão ficando mais intolerantes?  Fuller – A fúria a respeito da mesquita em Nova York e a tentativa de criar um dia para queimar o Corão em outros Estados americanos ajudam a destruir mais e mais a imagem dos Estados Unidos perante o mundo árabe. É possível encontrar pessoas dispostas a queimar alguma coisa em qualquer país. A vasta maioria dos americanos sabe que isso é estúpido e ignorante. Mas cria uma má imagem e exacerba um problema que não tem melhorado nada, mesmo durante o governo Obama. 

quarta-feira, agosto 04, 2010

Os drones e a Burca

Mundo
Os drones e a Burca
A dramática escalada dos conflitos que opõem muçulmanos a não muçulmanos
Paulo Nogueira, de Londres

Um grupo semissecreto tem chacoalhado a Inglaterra com manifestações em várias partes do país. Seus integrantes não se identificam publicamente. Muitos vestem máscaras quando participam de passeatas. São brancos, nacionalistas e, na maior parte, de classe média. Pertencem à recém-formada EDL (de English Defense League, Liga de Defesa Inglesa). Afirmam não ser racistas, mas, ao sair às ruas das cidades inglesas, gritam palavras de ordem contra uma raça específica – gente de pele escura, vinda de fora, unida em torno da devoção ao profeta Maomé. É a comunidade muçulmana, cerca de 2,5 milhões de pessoas dentro da população de pouco mais de 50 milhões do país. A EDL quer defender seu país dessa comunidade, que para ela está fazendo com que a Inglaterra deixe de ser a Inglaterra. No mundo ideal, para os membros da liga, os emigrantes muçulmanos voltariam a sua terra, a despeito de complicações de ordem prática. A maior parte deles ocupa há décadas posições indesejadas pelos ingleses, por ser encaradas como atividades de segunda ou terceira linha, como guiar táxis, limpar pratos ou cuidar da segurança de residências.
A EDL são três letras a mais num cenário especialmente dramático na Inglaterra, na Europa e no mundo. Nunca foi tão bélica, tão destrutiva e tão desoladora, em termos de perspectivas, a convivência entre muçulmanos e não muçulmanos. Os maiores símbolos de um conflito que parece apenas crescer estão, pelo lado ocidental, nos drones americanos, os aviões teleguiados que despejam mísseis que vêm matando um bom número de militantes de movimentos extremistas – mas também crianças, velhos e mulheres. Pelo lado muçulmano, a simbologia maior da destruição está nos homens bombas – fanáticos que não hesitam em explodir o que quer que seja e quem quer que seja em seu jihad, a “Guerra Santa” movida contra os infiéis. Até a burca, o véu muçulmano que protege a modéstia da mulher, se transformou, mais de 1.000 anos depois de ter aparecido, num ícone dos desentendimentos.
Esse quadro tinha sido previsto nos Estados Unidos, há quase 20 anos, por um pensador político, Samuel Huntington. Encerrada, com o colapso da União Soviética, a Guerra Fria que capitalistas e comunistas mantiveram depois da queda do nazismo, Huntington escreveu um artigo em que antecipou o que definiu como “Choque de Civilizações”. A discórdia, segundo ele, não adviria mais de ideologias opostas, mas de culturas e religiões diferentes. Huntington estava dando uma resposta a um artigo célebre de outro pensador político, Francis Fukuyama, que decretara o “fim da história” quando o comunismo sucumbiu. A história terminara com a hegemonia americana, segundo Fukuyama. Huntington refutou e, goste-se ou não, os fatos acabaram mostrando que a razão estava com ele.
 
O antagonismo de civilizações na Europa chegou a países antes tolerantes, como a Holanda
Desde que Huntington formulou sua tese premonitória, o mundo foi sacudido por episódios como o 11 de setembro, as guerras do Afeganistão e do Iraque e o 7/7 – as cifras com que ficou conhecida a explosão de bombas por suicidas no metrô e num ônibus de Londres em 7 de julho de 2005, em que morreram 52 pessoas. Foi nessas ocasiões funestas que emergiram as figuras e os grupos centrais do conflito. Por exemplo, Osama Bin Laden, o líder da Al-Qaeda, o grupo que derrubou as torres gêmeas de Manhattan espetacularmente, com os aviões sequestrados e guiados por terroristas em setembro de 2001. Ou George W. Bush, o presidente dos Estados Unidos que respondeu com bombas e mísseis à emergência de suicidas dispostos a matar e a morrer por Alá.
Um papel de destaque também foi jogado por Tony Blair, o primeiro-ministro britânico que se alinhou automaticamente com Bush na Guerra do Iraque. Hoje, longe da política, Blair tem sido instado a dar explicações sobre uma decisão que, para a Grã-Bretanha, foi simplesmente catastrófica. Para convencer o Parlamento a apoiar a guerra, Blair afirmou que o ditador iraquiano Saddam Hussein possuía armas de alto poder de destruição. Derrubado Saddam, verificou-se que não era verdade.
Num depoimento dado há poucos dias num doído inquérito sobre a participação da Grã-Bretanha na Guerra do Iraque, a chefe do serviço de inteligência (MI 5) naqueles dias, a baronesa Manningham-Bulle, disse que não se surpreendeu quando soube que entre os terroristas do 7/7 estavam britânicos. “A Guerra do Iraque radicalizou uma geração de islâmicos”, disse ela. Não havia “inteligência suficiente”, afirmou ela, para a tomada da decisão de mandar tropas para o Iraque. O que existia, isso sim, era um cálculo equivocado, segundo o qual, derrubado Saddam, as coisas estariam resolvidas. Os insurgentes – como são designados os iraquianos que combatem os americanos e aliados estacionados em solo iraquiano – foram uma surpresa imensamente desagradável para as forças ocidentais.
A baronesa também disse outra coisa que todos sabem: a presença no Iraque aumentou substancialmente o risco de terror no Reino Unido, por atrair ódio vindicativo islâmico. Recentemente, o governo britânico ampliou o grau de alarme e precaução contra o terrorismo. Hoje, simplesmente elogiar o “martírio”, como os islâmicos chamam a morte pela causa, é motivo para você ser preso na Inglaterra. Não surpreende que Blair esteja sendo definido, por pacifistas, como “criminoso de guerra”. No mesmo inquérito, há poucos meses, ele afirmou ter feito o que tinha de fazer, mas provavelmente terá de encontrar argumentos melhores para escapar de consequências da adesão a Bush.
Nestes dias, a mãe de um soldado britânico morto no Oriente Médio disse uma frase que ecoou pela mídia. “Meu filho morreu numa guerra que não é nossa”, afirmou ela. Um derradeiro ponto irônico na Guerra do Iraque é que, com a remoção de Saddam, o país, que era fechado a Bin Laden, se abriu para ele. O desconforto com a ação militar no Oriente Médio recrudesceu nos últimos dias no Reino Unido, com a divulgação de mais de 90 mil documentos secretos dos Estados Unidos sobre a Guerra do Afeganistão pelo site Wikileaks (leia a reportagem na pág. 82).
O clima de antagonismo ríspido entre as diferentes civilizações alcançou até países habitualmente pacatos e tolerantes com imigrantes. É o caso da Holanda. Hoje, uma das lideranças proeminentes holandesas é um político de extrema direita, Geert Wilders. Ele está coordenando a criação de uma frente anti-islã que congregará alguns países a partir de 2011. Cabelos loiros e um palavreado veemente, Wilders compara o Corão, o livro sagrado muçulmano, a Mein Kampf, a autobiografia em que Hitler avisou nos anos de 1920 que faria tudo o que realmente fez. Num curta-metragem, Wilders reuniu passagens do Corão com mensagens agressivas contra os infiéis. Não foi um golpe exatamente limpo: você também encontra no Velho Testamento passagens em que Deus parece tomado de um ódio sem limites.
Wilders, desde que fez o vídeo, recebe proteção especial da polícia. Está viva na lembrança dos holandeses a tragédia de Theo Van Gogh, homônimo e descendente do irmão do grande pintor. Theo, em 2005, fez um documentário de dez minutos sobre a mulher islâmica chamado Submissão. Foi parceiro, no projeto, de uma emigrante da Somália, Ayaan Hirsi Ali, que deixara o islamismo ao se instalar na Holanda. Pouco depois de lançado o vídeo, Theo foi morto quando andava em sua bicicleta preta pelas ruas de Amsterdã. O assassino, um extremista islâmico, cravou um bilhete no peito de Theo em que avisava que a próxima da lista era Ayaan. O episódio está contado no livro Infiel, a autobiografia de Ayaan. Ela acabou deixando a Holanda e hoje vive nos Estados Unidos, onde recebe tratamento especial por suas posições contra o islã, estrategicamente interessantes para o governo americano.

sábado, junho 19, 2010

Por que a PAZ é tão difícil? EUA: suspensão de muçulmanos aumenta tensão em Universidade

EUA: suspensão de muçulmanos aumenta tensão em Universidade


Portal Terra
DA REDAÇÃO - A suspensão de um grupo de estudantes muçulmanos aumentou as tensões entre judeus e muçulmanos na Universidade da Califórnia. Estudantes dizem que judeus e muçulmanos acusaram-se mutuamente de discriminação. A escola revelou esta semana que recomendou a suspensão do grupo de muçulmanos depois que 11 estudantes foram presos em fevereiro por interromper um discurso do embaixador israelense Michael Oren, que foi chamado de "assassino" e "criminoso de guerra" pelos estudantes, enquanto ministrava uma palestra sobre o processo de paz no Médio Oriente.
O grupo muçulmano está apelando da decisão, um processo que deverá ser concluído antes do início do próximo ano letivo. "Nós estamos profundamente perturbados. Essas atitudes fomentam o ódio contra os judeus e israelenses", dizia a carta, citando incidentes sobre os últimos anos, que incluía "a pintura de suásticas nos prédios da universidade e da Estrela de Davi, descrita como semelhante a uma suástica".
No entanto, a advogada da União dos Estudantes Muçulmanos, Reem Salahi disse que as tensões no campus derivam de uma organização judaica que não está ligada à faculdade. Segundo ela, os estudantes estão "indignados¿ e decepcionados¿ com a decisão da universidade.
A Federação Judaica elogiou a decisão da escola. Shalom Elcott, presidente da Federação, disse o grupo Muçulmano tem sido amplamente responsável pela criação de uma atmosfera de tensão no campus.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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