Mostrando postagens com marcador Condenação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Condenação. Mostrar todas as postagens

terça-feira, junho 01, 2010

Dificilmente o governo israelense sairá ileso de episódio

Dificilmente o governo israelense sairá ileso de episódio
Ian Black - O Estado de S. Paulo - 01/06/2010

 A sangrenta interceptação da flotilha humanitária para Gaza rapidamente provocou apelos pela suspensão do bloqueio ao território palestino e deve aumentar a pressão para que se chegue a um acordo com o Hamas, considerado um grupo terrorista por Israel, EUA, Grã-Bretanha e União Europeia.
O Hamas e o Fatah, como era previsível, imediatamente condenaram Israel, acusando-o de cometer crimes de guerra e de usar força desproporcional - as mesmas acusações feitas contra o país depois da ofensiva em Gaza, que terminou no início do ano passado. Mas muito mais surpreendente foi a onda de declarações críticas vinda de países que em geral são amigos, como as do chanceler da Grã-Bretanha, William Hague, exigindo o fim do bloqueio a Gaza. França, Suécia, Dinamarca e Grécia convocaram os embaixadores de Israel, exigindo explicações.
Esse drama grotesco e a repercussão global levarão a uma reanálise da situação mais fundamental? Como as imagens que documentaram o assassinato da autoridade do Hamas Mahmoud al-Mabhouin, em Dubai, em janeiro, as imagens gráficas deste espetáculo no Mar Mediterrâneo mostram Israel usando sua superioridade militar esmagadora a serviço do que parece cada vez mais uma meta política insustentável.
Desta vez foram os comandantes da Marinha, e não agentes do Mossad, que se mobilizaram. Mas o "inimigo" era um grupo fortemente motivado de pessoas comprometidas com a justiça para os palestinos, impacientes com a ineficaz "pressão diplomática" e o quase moribundo processo de paz, confiantes de que esta seria mais uma luta assimétrica que conseguiriam vencer sem esforço - embora poucos imaginassem que haveria provavelmente um custo humano.
A posição de Israel provavelmente não vai mudar. O Hamas recusa-se formalmente a renunciar à violência, reconhecer o Estado judeu ou aceitar algum acordo firmado pela Organização de Libertação da Palestina (OLP). Israel, apoiado pelo Egito, utilizou o cerco de Gaza deliberadamente, mas sem sucesso, para corroer o Hamas, que venceu as eleições palestinas em 2007 e desfruta do apoio do Irã e da Síria.
O ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, insistiu novamente que não existe fome nem crise humana em Gaza, reiterando que Israel permite a entrada de uma quantidade limitada de ajuda. É óbvio que a polêmica em torno dessa frota atrairá muita atenção internacional e criará uma condenação veemente de Israel. Mesmo defensores irredutíveis de Israel admitem que será difícil para o país sair ileso dessa história. Mas a questão que de fato importa é se, politicamente, alguma coisa vai mudar realmente depois do que ocorreu.

segunda-feira, maio 31, 2010

Além do limite da selvageria

Além do limite da selvageria
Marcelo Ambrosio – Jornal do Brasil - 31/05/2010
Não há justificativa para o ato de selvageria cometido por militares israelenses contra o comboio marinho de ajuda humanitária que estava seguindo para a Faixa de Gaza. A ação foi um ato de corsários - piratas a serviço de um governo, em uma definição simplista do termo - não interessados em moedas de ouro, mas em impor, pela força, um estado cada vez mais isolado em seu próprio rancor. Israel foi uma criação da ONU para encerrar a diáspora judaica em um momento em que o mundo se descobria diante do horror dos seis milhões de executados em câmaras de gás nazistas pela Shoah (o Holocausto). A culpa pela omissão da Europa diante dos horrores ajudou a consolidar a ideia de que era importante libertar o povo judeu dando-lhes um país para morar. Um pleito justíssimo que o Brasil, com Oswaldo Aranha, ajudou a tornar realidade.
Hoje, ao ver as imagens gravadas pela rede Al Jazeera do ataque não pude conter o espanto e a indignação. A impunidade absoluta e o cinismo hipócrita que percorrem a espinha dorsal do estado israelense hoje firmaram o pacto de consciência que transformou todo soldado israelense em um assassino em potencial. Não pela índole, o que seria uma generalização injusta com os muitos cidadãos daquele país que reprovam esse comportamento paranóico e agressivo, mas pela doutrina. Os comandos que invadiram um navio turco em águas internacionais são a síntese do brand que Israel - e isso vem da progressiva depuração do ideal de Teodor Herzl - faz força para passar ao mundo, como uma mensagem permanente. Em um noticiário que andou ocupado pelo acordo entre Brasil, Turquia e Irã, claramente reprovado pela aliança EUA-Israel, o ataque dessa segunda-feira é uma espécie de resposta ao mundo. Mais que isso, foi uma cusparada. A justificativa que recebi em um comunicado pela internet é a de que os soldados reagiram a um ataque com "facas e revólveres". Ainda que fosse, não seria o caso? O navio turco foi invadido por tropas que não tinham qualquer mandato para tal. Eu teria reagido da mesma forma. 
É curioso acompanhar as repercussões do ataque. Principalmente dos Estados Unidos: duas vezes humilhado pelo governo de Benjamin Netaniyahu, o presidente Barack Obama não pode correr o risco de ver, pela terceira vez, seu único aliado incondicional no Oriente Médio o ridicularizar. Assim, a primeira observação de um porta-voz da Casa Branca foi a de lamentar o ocorrido, porém, em vez da habitual condescendência dada a permanente ameaça dos vizinhos que consta invariavelmente de qualquer comunicado sobre incidentes na região, desta vez o porta-voz disse que "os EUA estavam tentando compreender o ocorrido". Quando se fala compreender entende-se montar uma estratégia de relações públicas que possa reverter o repúdio mundial e, ao mesmo tempo, conter qualquer tentativa de apuração do ocorrido no âmbito da ONU. Mas a batalha será pesada.
O maior erro desse ataque, além da operação em si, com dez mortos, é o fato de que Israel atirou no próprio pé. A Turquia está no Conselho de Segurança como membro temporário e é um importante aliado que o governo de Tel Aviv possui na região. O comércio entre os dois países é intenso apesar de a população turca, majoritariamente muçulmana, não ser muito simpática aos atos israelenses. Hoje, o embaixador israelense em Ancara foi chamado a dar explicações e o governo turco emitiu comunicados com termos duríssimos. Se há um país hoje que pode ser classificado como "rogue nation", é Israel. 

Skoob

BBC Brasil Atualidades

Visitantes

free counters