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quinta-feira, outubro 14, 2010
Israel como solução - Opinião
Israel como solução
ORLANDO LIMA – O Globo
Acabo de chegar de Israel e em função do impacto que me causou essa experiência, quero dividir o que vi com outros brasileiros, principalmente não judeus, que pouco conhecem sobre a realidade desse país.
Nação pujante, com infraestrutura de Primeiro Mundo, onde se respira dinamismo econômico por toda parte, e não apenas em Tel Aviv, capital high tech do Oriente Médio, onde se situam laboratórios avançados das maiores empresas de tecnologia mundial. Ao dirigir pelo interior do país, de Norte a Sul, é impressionante verificar a fervilhante atividade agrícola, industrial, de comércio e turismo, num território muitas vezes desértico, observando-se o máximo aproveitamento de tudo o que existe. Nos dias de hoje soa como uma nova onda de desenvolvimento a partir da evolução do idealismo dos primeiros kibbutzim, agora com estruturas mais profissionalizadas de atividade empresarial.
Críticos tendem a argumentar que Israel só chegou a esse patamar devido à ajuda internacional da diáspora judaica, em especial a americana. No entanto, o que vi é real, muito expressivo, e indago se os investimentos privados teriam ocorrido e prosperado se não houvesse um grande espírito empreendedor, gestão eficiente e segurança jurídica no país.
Submetido ao constante escrutínio da mídia em geral, Israel é um país democrático sofisticado, com instituições que funcionam na plenitude, onde convivem diferentes povos de todos os matizes, judeus de todas as origens, grande população árabe com cidadania, que aufere todos os benefícios sociais e econômicos, e mais recentemente de imigrantes de outros países, principalmente da África e Ásia. Apesar do que se fala, Israel é um país tolerante com as diferentes manifestações culturais e religiosas (incluindo a muçulmana), que podem ser praticadas com total liberdade e cujas diferentes igrejas atuam no país na gestão dos inúmeros sítios religiosos, como se pode observar em Jerusalém.
Tive a oportunidade de conhecer o Museu do Palmach, em Tel Aviv, que apresenta de forma instigante a história dos primeiros movimentos armados que atuaram na formação do Estado de Israel, vitais na Guerra da Independência de 1948, vencida pelo país em resposta a seus vizinhos que o atacaram à época da aprovação da resolução da ONU que criou o Estado de Israel. Esses grupos formaram a origem das forças armadas do Estado de Israel contemporâneo.
Em nenhum momento me senti inseguro em Israel. No entanto, respiram-se fatos dramáticos que afetam o cotidiano da população israelense. Não bastassem os constantes foguetes lançados de Gaza sobre populações civis em Israel, um desses casos é a situação do jovem soldado israelense Gilad Shallit. Sequestrado pelo Hamas há mais de quatro anos, permanece preso até os dias de hoje e, apesar de todos os apelos humanitários, as negociações para sua libertação se arrastam com condições e exigências cada dia mais extremadas (troca por centenas de presos, incluindo terroristas).
Por outro lado, acho incompreensível o double standard dado pela cobertura da mídia internacional a Israel, com pouquíssima repercussão das ações agressivas de grupos árabes radicais (como o uso de escudos humanos com civis palestinos) e, por outro lado, a “comoção internacional” gerada com a questão da flotilha (com consequências trágicas, é verdade) mas que tentou chegar a Gaza numa ação de clara provocação ao poder constituído, e cujos integrantes estavam plenamente conscientes dos riscos que corriam.
Considerando-se que sua existência tem apenas 60 anos, Israel é um verdadeiro milagre sob qualquer perspectiva. Apesar de sua legitimidade, criada a partir de resolução da ONU, o sentimento israelense t r a n s m i t e a l g u m a i n s e g u r a n ç a quanto à necessidade de maior reconhecimento internacional e sensibilidade à crítica de que “deve” alguma coisa aos seus vizinhos palestinos, apesar dos esforços que têm sido empenhados. Legado de uma das maiores tragédias da humanidade como foi o Holocausto, fruto do esforço incansável de judeus de todo o mundo, à custa do sangue de muitos pioneiros, desde seus primeiros dias de criação Israel é uma realidade de fato e de direito, que deveria servir de exemplo de superação e como parceiro estratégico para outros países que queiram construir o futuro no caminho do desenvolvimento na região.
Nesse sentido, tenho minhas dúvidas sobre as reais perspectivas de um estado palestino independente que não passem por uma estreita parceria econômica e social com Israel.
Se, algum dia, um novo paradigma político for possível na região, Israel tem todas as condições para contribuir com seus vizinhos como um vetor alavancador de desenvolvimento e prosperidade econômica e social de um novo Oriente Médio.
ORLANDO LIMA é consultor empresarial.
quinta-feira, setembro 23, 2010
Brasil e emergentes querem que ONU condene sanções unilaterais ao Irã
Brasil e emergentes querem que ONU condene sanções unilaterais ao Irã
Jogo diplomático. Chanceler brasileiro afirma que ideia de proteger Teerã partiu da Rússia, que tem boa relação com os iranianos; até o momento, apenas EUA e União Europeia aprovaram punições mais duras do que as ações autorizadas pelas Nações Unidas
Gustavo Chacra CORRESPONDENTE / NOVA YORK, Denise Chrispim Marin ENVIADA ESPECIAL / NOVA YORK – O Globo
O chanceler brasileiro Celso Amorim disse ontem, em Nova York, que o Brasil apoia uma iniciativa de Rússia, Índia e China para extrair das Nações Unidas uma condenação a qualquer sanção unilateral ao Irã. Amorim salientou, entretanto, que a ideia de proteger os iranianos de medidas que não sejam as aprovadas pela ONU - prática dos EUA e da Europa - não partiu do Brasil.
A agência de notícias Reuters publicou na terça-feira à noite uma entrevista com Amorim, na qual o chanceler afirmou que os Brics - Brasil, Rússia, Índia e China -, em reunião naquela manhã, haviam decidido propor à Assembleia-Geral da ONU um projeto de resolução proibindo sanções unilaterais contra países cujos casos estão sendo discutidos no Conselho de Segurança.
A proposta teria o objetivo de deslegitimar as penalidades aplicadas individualmente por EUA e Europa contra o Irã no futuro. Amorim creditou o plano de condenação à Rússia, com quem os iranianos têm estreitas relações comerciais. "Começamos a ter alguma coordenação sobre resoluções da Assembleia-Geral. Em alguns casos, estamos até mesmo contra sanções multilaterais", afirmou Amorim à Reuters.
Ontem, o discurso do chanceler ganhou tons mais suaves. "Esta resolução vai levar um mês ou dois meses sendo discutida. Os termos exatos eu não posso dizer. As sanções unilaterais, em geral, e no Conselho não nos agradam. Mas não estamos tomando nenhuma iniciativa."
Depois de dizer que as relações com os EUA não ficariam comprometidas pelo apoio a uma iniciativa contrária aos interesses americanos, Amorim disse a questão não poderia ferir a soberania americana. "Eles (os que aplicam as punições) é que estão ferindo a soberania dos outros. Se nós queremos vender frango ao Irã, que é uma coisa absolutamente normal e serve para a alimentação das pessoas, encontramos dificuldades por causa das transações bancárias. Isso é uma coisa que não é correta", afirmou. Questionado sobre o veto das potências à participação do Brasil e da Turquia nas negociações com o Irã, o chanceler Celso Amorim retrucou: "Nós nunca pedimos para mediar nada."
A nova iniciativa foi captada como uma nova investida do Brasil e seus aliados no Bric contra medidas adicionais que a Casa Branca venha a adotar contra interesses iranianos. Rússia e China, embora tenham dado seu aval no Conselho de Segurança às sanções adotadas contra o Irã, em junho, resistiram o quanto puderam à pressão americana.
Moscou, particularmente, teme que novas medidas unilaterais dos EUA venham a prejudicar negócios em andamento com Teerã. Por causa das ameaças de retaliações, a Rússia foi obrigada a recuar em seu contrato de venda de mísseis ao Irã (mais informações nesta página).
Um julho, o presidente americano, Barack Obama, assinou uma lei que impôs sanções ao setor energético iraniano. Antes mesmo disso, as companhias americanas já estavam proibidas de negociar ou investir no Irã. A legislação dos EUA também obriga os bancos estrangeiros a decidir se preferem investir nos EUA ou no Irã. As sanções americanas contra o regime iraniano tiveram início em 1979, depois da invasão da Embaixada Americana em Teerã. Na época, Washington proibiu a venda de insumos para a indústria aeronáutica iraniana.
PARA ENTENDER
As resoluções aprovadas pela Assembleia-Geral da ONU têm apenas caráter de recomendação. Conforme afirmou o próprio chanceler brasileiro, Celso Amorim, elas não possuem o mesmo peso das decisões tomadas pelo Conselho de Segurança. Dessa forma, a iniciativa de Brasil, Índia, Rússia e China não precisaria ser adotada por nenhum dos países-membros das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, esse seria um sinal de que brasileiros e russos, principalmente, estariam insatisfeitos com as medidas unilaterais aprovadas pelo Congresso dos Estados Unidos e pela União Europeia, que afetam diretamente os negócios de empresas de seus países.
sexta-feira, agosto 13, 2010
China perto de destronar o Japão como 2ª economia mundial
China perto de destronar o Japão como 2ª economia mundial
A China está a ponto de destronar o Japão como segunda economia mundial, o que demonstra sua ascensão contínua ao longo dos últimos anos, e também a necessidade de reorientar seu crescimento para depender menos das exportações.
O esperado acontecimento ocorre depois das recentes conquistas por parte do país mais povoado do planeta dos títulos de primeiro exportador, primeiro mercado automobilístico e primeiro produtor siderúrgico mundial.
Em 2009, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês encostou no do Japão - 10 vezes menos povoado e, portanto, 10 vezes mais rico por habitante-, com 4,980 trilhões de dólares contra 5,007 trilhões.
O Japão tem previsto divulgar na segunda-feira o total de seu PIB para o primeiro semestre de 2010, mas a China já está convencida de que sua cifra será superior à japonesa.
"A China já é a segunda economia mundial", declarou recentemente Yi Gang, vice-presidente do banco central chinês.
De qualquer maneira, alguns analistas acham que a China poderá equivocar-se a recente valorização do iene em relação ao dólar permitirá ao Japão conservar seu segundo lugar, atrás dos Estados Unidos.
Takahide Kiuchi, da Nomura Securities, acredita num PIB japonês de 2,647 trilhões de dólares para o período de janeiro a junho, contra 2,53 trilhões para o PIB chinês publicado em julho.
No entanto, a chegada da China à segunda posição parece inevitável, enfatiza Arthur Kroeber, diretor de gabinete da consultoria Dragonomics, com sede em Pequim, apesar de pairar dúvidas sobre a qualidade de seu crescimento.
Segundo Kroeber, os dirigentes políticos chineses devem romper com a mentalidade que privilegia o crescimento a qualquer preço, um pensamento que "ainda está muito presente em sua burocracia".
"Insistir numa taxa de crescimento elevada pode introduzir mais distorções na economia. Na realidade, devemos nos concentrar nos meios de melhorar a qualidade do crescimento", afirma Kroeber.
"A China se encontra numa encruzilhada", concorda Patrick Chovanec, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade de Tsinghua em Pequim.
"A China se acha diante a mesma problemática que o Japão nos anos 1980: adaptar-se ou persistir no caminho de uma economia empurrada pelas exportações", explica Chovanec.
Desde o lançamento da política de reforma e abertura no final dos anos 70 por parte de Deng Xiaoping, a China superou a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha em termos de PIB e Banco Mundial (Bird) e no Fundo Monetário Mundial (FMI).
Mas este crescimento excepcional também teve como corolário o aumento das desigualdades entre uma classe média urbana, que tem agora moradia e automóveis, e centenas de milhões de pobres, alguns dos quais vivem com menos de 0,50 centavo de dólar por dia.
quinta-feira, julho 29, 2010
Antártica? Ali ao lado.
Antártica? Ali ao lado.
Mudanças no ambiente antártico influenciam o Brasil muito mais do que imaginamos. Estudos recentes mostram que fenômenos que ocorrem no continente gelado afetam processos de desertificação e formação de ciclones na América do Sul.
Por: Isabela Fraga - Publicado em 29/07/2010 – Ciência Hoje
Região da península antártica, onde mais tem se registrado aumento de temperatura nos últimos anos (foto: flickr.com/mschutt - CC BY-NC-SA 2.0)
Sim, o Brasil é um país tropical e bonito por natureza. Mas não é só porque temos um longo verão na maior parte de nosso território que devemos esquecer o frio que vem lá de baixo.
Os processos ambientais na Antártica têm grande influência no clima e na biodiversidade dos oceanos brasileiros, lembram um glaciólogo, uma oceanógrafa e um geofísico em simpósio da reunião anual da SBPC, que acontece esta semana em Natal. O objetivo das apresentações era desmistificar a ideia de que a Antártica está longe e não tem relações diretas com o Brasil.
Algumas cidades do Sul ficam mais perto da Antártica do que da Amazônia
Não por acaso: parte do Sul do país fica mais perto do continente gelado do que da própria Amazônia. “A distância da estação brasileira na Antártica até Chuíé de 3.172 km”, explica Jefferson Simões, o primeiro glaciólogo brasileiro, à CH On-line. “De Chuí a Porto Velho, em Roraima, são 4.177 km!”
Simões relata ainda outro fato curioso para comprovar como a Antártica é nossa vizinha. Cerca de três vezes ao ano, uma massa de ar frio vinda desse continente adentra o território brasileiro e causa uma queda brusca de temperatura no Acre, a mais de seis mil quilômetros de distância do seu ponto de origem.
Mudanças lá, reflexos aqui
O geofísico Heitor Evangelista, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), apresentou resultados de estudos que comprovam a influência das variabilidades climáticas e glaciais da Antártica na América do Sul.
Um desses estudos analisou a concentração de metais nos últimos séculos da península antártica.
Descobriu-se que a concentração de alumínio nessa região mais que dobrou durante o século 20. Esse dado coincide, segundo os cientistas, com o aumento de um grau na temperatura média do hemisfério sul: um padrão que tem paralelo com a desertificação na Patagônia e no norte da Argentina.
NO MAPA: Embora não pareça, o município de Chuí (em lilás) fica mais perto da base brasileira na Antártica (em vermelho) do que de Porto Velho, em Roraima (reprodução/Google Maps).
Já outro estudo aponta que a quantidade de gelo na Antártica está ligada à formação de ciclones na América do Sul. No verão, quando há menos gelo, a formação de ciclones no continente americano é menor, e vice-versa.
Os motivos por trás dessas ligações, no entanto, ainda são desconhecidos. “De que forma acontecem essas correlações ainda é uma questão em aberto”, explica Evangelista.
Já oceanógrafa Lúcia de Siqueira Campos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Comitê Nacional de Pesquisas Antárticas, apresentou o intercâmbio entre a incrível biodiversidade dos oceanos antárticos e o ecossistema marinho da América do Sul.
Essas trocas, segundo ela, podem estar ameaçadas por causa do aquecimento acelerado da península antártica. Cabe aos cientistas investigar de que forma essa mudança de temperatura no continente pode transformar os mares dali – e, quiçá, também os brasileiros. Isabela Fraga - Ciência Hoje / RJ
quinta-feira, julho 01, 2010
Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história
Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. A escritora Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou sua autêntica voz cultural - e adverte-nos que se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos.
sexta-feira, junho 04, 2010
Nossa esquerda direitista
Nossa esquerda direitista
Nelson Motta - O Globo - 04/06/2010
Ainda estou chocado com a pesquisa do Datafolha sobre a ideologia dos brasileiros: 35% dos entrevistados que se disseram petistas, por livre vontade e protegidos pelo anonimato, se declararam de direita. Como? Vamos tentar investigar esta peculiaridade política brasileira. Sim, as pessoas sabiam o que estavam falando, tanto que 25% responderam que não sabiam ou não queriam responder. As demais estavam seguras de suas opções e se dividiram entre esquerda, direita e centro, inclusive os petistas.
O lulismo não foi oferecido como opção, mas certamente teria muitos eleitores de todos os partidos, e nós, um peronismo tropical. Zé Dirceu, que diz que tudo que não é de esquerda, de direita é, tem um dilema: como culpar a direita por tudo sem ofender tantos companheiros? Com alguma fantasia e ironia, é possível imaginar que os entrevistados petistas fossem tão politizados que tenham se posicionado ideologicamente — mas em relação às correntes do partido, umas mais à esquerda e, por consequência, outras mais à direita, como a de Zé Dirceu.
Ou seria uma parte autoritária e impetuosa do PT, que se identifica com os métodos do stalinismo e do fascismo? Se acham de esquerda, mas adotam o comportamento totalitário que atribuem à direita. São aloprados ideológicos.
Ou seria uma parte autoritária e impetuosa do PT, que se identifica com os métodos do stalinismo e do fascismo? Se acham de esquerda, mas adotam o comportamento totalitário que atribuem à direita. São aloprados ideológicos.
Outra interpretação, tola, seria que os entrevistados se disseram de direita porque confundiram com direito, como oposto de errado. Ou a teoria de Tim Maia, politizando a clássica frase “No Brasil, prostituta goza, traficante cheira, cafetão tem ciúmes … e pobre é de direita.” Como dizia Zé Dirceu nos anos 60, “é preciso conscientizar as massas”. Deve ser devastador aceitar que 2/3 dos brasileiros não querem saber da esquerda, por mais nobres e generosas que sejam as suas intenções. O pior é que alguns ainda vivem na ilusão de que todo mundo que se opunha à ditadura era de esquerda. Mas talvez Leonel Brizola possa explicar. Na campanha presidencial de 1994, num comício no Paraná, com 4% das intenções de voto e a três dias da eleição, bradou do palanque: “Não acreditem nas pesquisas. O povo está só despistando...”
domingo, maio 16, 2010
A punição indigno Garzón à mídia internacional
A punição indigno Garzón à mídia internacional
Grandes jornais acreditam que a decisão do Judiciário mostra que a justiça espanhola não soube superar os fantasmas do passado
Iñigo Aduriz Textos Ana Delicado, Antonio Lafuente, Iñigo Sáenz de Ugarte e Schäfer Thilo
A decisão do Conselho Superior da Magistratura (CGPJ) para suspender Baltasar Garzón desencadeou fortes reações em todo o mundo. Sua imagem na sexta-feira no Tribunal de Justiça Nacional entre os aplausos de seus pares e da indignação das vítimas de Franco que muitos esperaram na rua, já circulou o mundo e os meios de comunicação de maior prestígio internacional levantaram e tentaram a mesma resposta Pergunta: Como é possível que um juiz que tenha desenvolvido justiça universal sentar no banco dos réus por investigar Franco?
domingo, maio 02, 2010
Onde o luxo é vizinho das páginas policiais
Onde o luxo é vizinho das páginas policiais
Jornal O Dia – 02/05/2010
Condomínio Golden Green, na Barra da Tijuca, é palco de suntuosidades e prisões
Rio - A tradução ao pé da letra de Golden Green é Verde Dourado, mas quem conhece o condomínio de luxo que leva esse nome na Avenida Sernambetiba, na Barra da Tijuca, sabe que o significado poderia ser dólar e ouro. Com 512 apartamentos que podem custar mais de R$ 10 milhões (cada um), o lugar é famoso por alguns de seus ilustres moradores, presentes tanto em colunas sociais quanto em noticiários policiais. Em 12 anos, pelo menos 10 tiveram problemas com a polícia e chegaram a ser presos. Fraudadores da Previdência e da Saúde já foram detidos e milionários célebres, despejados. Por dívida, seus imóveis acabaram leiloados.
O mais recente episódio foi protagonizado pelo proprietário de mega-apartamento de R$ 2 milhões. No último dia 15, o empresário Jorge Figueiredo foi preso no condomínio, acusado de participação no esquema de desvio de verba no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Segundo a Delegacia de Crimes Contra a Saúde Pública, ele faz parte de quadrilha de médicos e empresários que forjava documentos para justificar a compra de materiais e cirurgias fantasmas. A empresa de Jorge, a Extencion, recebeu, desde 2007, mais de R$ 6 milhões só da Prefeitura do Rio.
O MAIS LUXUOSO FOI APELIDADO DE BANGU 4
A ligação com o noticiário policial fez até o edifício mais luxuoso dos 14 prédios ser apelidado por alguns moradores de Bangu 4 — em referência ao complexo penitenciário. Os banqueiros Daniel Dantas e Salvatore Cacciola — que já foram presos — moravam respectivamente no primeiro e no segundo andar. Dantas responde em liberdade a processo por lavagem de dinheiro. Cacciola foi condenado por crime contra o sistema financeiro e reside, desde 2007, em Bangu 8. No passado, quando ainda viviam no Golden Green, os vizinhos tinham muito em comum: apartamentos com cerca de 800 m² cada, sendo 120 m² só de varanda, quatro suítes e seis vagas de garagem.
Há casos outros casos que dão o que falar. No prédio de Cacciola e Dantas, segundo moradores, barraco familiar envolvendo um grande empresário terminou na compra de uma cobertura igual no edifício ao lado: foi a exigência da ex-mulher para aceitar a separação.
Ficou famosa também a disputa entre a moradora Sandra Bulhosa Fernandes com sua empregada doméstica, Rogenas da Silva, por um Mercedes-Benz Classe A, em 2000. O carro foi sorteado pelo supermercado onde Rogenas fez compras para a família de Sandra, que na época tinha quatro veículos. A Justiça deu ganho de causa a Rogenas.
Apesar da proximidade, quem mora no Golden Green consegue manter a privacidade. Os edifícios são planejados para que não seja possível observar a vida alheia. Mas, enquanto uns buscam discrição, outros querem o convívio social. Para celebrar sua chegada ao condomínio mais exclusivo da cidade, um morador promoveu festança para todos os vizinhos, que receberam uma orquídea como convite.
A extravagância também é coletiva. De frente para a orla da Barra, com seus 18 km de extensão, os moradores têm ainda 2,5 km de ciclovia particular, margeando amplo campo de golfe. Para se deslocar pelo Golden Green — que tem salão de beleza, restaurante, quadras de tênis, futebol e squash —, é possível usar carrinho de golfe. Cada bloco tem sua própria piscina, academia, jacuzzi e sauna. Conforto que tem o seu preço. “Volta e meia acordo e vejo movimentação de policiais federais e jornalistas. Aí já sei que algum vizinho está com problemas”, contou um morador.
A extravagância também é coletiva. De frente para a orla da Barra, com seus 18 km de extensão, os moradores têm ainda 2,5 km de ciclovia particular, margeando amplo campo de golfe. Para se deslocar pelo Golden Green — que tem salão de beleza, restaurante, quadras de tênis, futebol e squash —, é possível usar carrinho de golfe. Cada bloco tem sua própria piscina, academia, jacuzzi e sauna. Conforto que tem o seu preço. “Volta e meia acordo e vejo movimentação de policiais federais e jornalistas. Aí já sei que algum vizinho está com problemas”, contou um morador.
Mas nem só de polícia — em busca de moradores encrencados — é feita a segurança do condomínio. Além das cabines espalhadas pelo interior, há vigilantes armados e câmeras por toda parte. Os moradores, como uma famosa atriz da novela das oito e prefeitos de municípios da Baixada, dispõem até de um sistema antissequestro.
Pagamento à vista por heliporto e bicas de ouro
Os apartamentos variam entre 300m² e 950 m² e podem ter de três a nove vagas de garagem. O heliporto é item que atrai empresários e políticos. Alguns são vistos pousando às sextas-feiras para passar o fim de semana. Segundo um corretor, 90% dos apartamentos têm ar central e bicas banhadas a ouro.
Para desfrutar de tudo isso, é necessário desembolsar até R$ 10 mil mensais de condomínio. Segundo o vice-presidente da Secovi-RJ (Sindicato da Habitação), Leonardo Schnider, que administra dois dos prédios, viver lá é status. “O Golden Green é grife. Quem quer morar lá paga mais que o valor de mercado”, explica, acrescentando que dinheiro não é problema para os moradores do condomínio: “A maioria paga à vista”.
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