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sexta-feira, setembro 17, 2010
A valorização do real será um problema?
A valorização do real será um problema?
Paul Krugman - O Estado de S. Paulo - 16/09/2010
Um acompanhamento deste post* poderia ser o seguinte: países como o Brasil deveriam se preocupar com a valorização real que está ocorrendo neste momento?
O pano de fundo são as dificuldades das economias avançadas, que vêm sofrendo um enorme choque negativo de demanda, provavelmente persistente, que as levou para o território da armadilha da liquidez. O que significa juros baixos e baixos retornos sobre os investimentos, daí os grandes fluxos de capital desejados para os países em desenvolvimento que não sofreram este tipo de choque. E na medida em que estes países adotam um câmbio flutuante, o resultado é uma valorização real. Então isso será um problema?
Há dois aspectos da questão.
Em primeiro lugar, tudo o mais permanecendo constante, a valorização real conduzirá a um déficit maior da conta corrente, e consequentemente a uma contração da demanda. Até certo ponto, isto poderá ser contrabalançado pelo corte dos juros internos. Mas se for significativa, poderá empurrar os mercados emergentes para sua própria armadilha da liquidez. De fato, a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) pode exportar sua armadilha da liquidez para o mundo em desenvolvimento através dos fluxos de capital. Aparentemente, não é o que está acontecendo agora, mas é algo em que temos de prestar atenção.
Em segundo lugar, poderemos ter uma repetição do excesso de poupança global: a vingança do Norte. Robin Wells e eu discutimos que o excesso de poupança global original, impulsionado em grande parte pelos superávits dos países em desenvolvimento, foi provavelmente o principal fator da bolha da habitação no Atlântico Norte; será que a nova versão, dessa vez acelerada pela redução da demanda no Norte, produzirá problemas da mesma magnitude nos países emergentes?
Assunto interessante - e mais agradável para refletir do que a política dos EUA...
segunda-feira, julho 26, 2010
Estrutura 'top secret' é ameaça aos EUA
Estrutura 'top secret' é ameaça aos EUA
O Globo
Num admirável trabalho de jornalismo investigativo que consumiu dois anos, o jornal “The Washington Post” fez uma radiografia do supersistema de segurança dos Estados Unidos, que adquiriu proporções imensas depois do 11 de Setembro. O diagnóstico é assustador.
A pesquisa identificou 1.931 empresas privadas e 1.271 agências governamentais envolvidas na luta contra o terror. Elas estão espalhadas em cerca de dez mil locais nos EUA, empregam 854 mil pessoas e seu orçamento no ano passado foi de US$ 75 bilhões, 21,5 vezes maior do que em 11 de setembro de 2001.
E o presidente Obama já disse que não congelará os gastos.
Este monstro burocrático intercepta 1,7 bilhão de comunicações (e-mails, telefonemas e outros) por dia e produz nada menos que 50 mil relatórios por ano. O resultado é que muitos deles não chegam a ser lidos ou considerados simplesmente por falta de tempo. Muitos órgãos fazem trabalho duplicado. Há, por exemplo, 51 agências e comandos militares em 15 cidades rastreando o dinheiro de supostas organizações terroristas. Apesar dos números levantados nas reportagens, que se basearam em documentos oficiais e centenas de entrevistas, o “Washington Post” admite que essa estrutura se tornou tão grande, secreta e pouco coordenada que ninguém sabe ao certo quanto custa, quantas pessoas envolve, quantos programas executa e quantas agências fazem o mesmo trabalho.
O mais alarmante é que todo esse aparato não foi capaz de detectar ou agir efetivamente em três casos em que a segurança nacional foi ameaçada. Em novembro de 2009, o psiquiatra do Exército Nidal Makik Hasan abriu fogo contra colegas dentro do Fort Hood, matando 13 e ferindo 30 pessoas. Depois se soube que ele tinha ligações com um extremista islâmico monitorado pelos EUA, mas isso não chegou ao conhecimento dos serviços de inteligência.
No Natal de 2009, o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab tentou explodir um avião que ia de Amsterdã para Detroit, e só não o fez porque o passageiro ao lado o impediu. O pai do rapaz já alertara as autoridades americanas sobre as tendências extremistas do filho, mas mesmo assim ele embarcou. Em maio passado, o paquistanês Faisal Shahzad estacionou um carro-bomba em Times Square, no coração de Manhattan. Mas quem frustrou o atentado foram camelôs que viram fumaça saindo do veículo e chamaram a polícia.
Um dos aspectos mais preocupantes é a privatização, no mau sentido, de muitos programas e operações, o que coloca em mão de empresas aspectos da segurança nacional, o que é inconstitucional. Os gastos galopantes são assustadores. O próprio diretor da CIA, Leon Panetta, disse ao “Post” que os gastos com a defesa, depois do 11/9, ficaram insustentáveis.
Mas há perigos maiores que a ineficiência e a elefantíase. Estruturas estatais como essas criam suas próprias necessidades e tendem não só a se perpetuar como a crescer cada vez mais. Como são secretas, com códigos e agentes especiais próprios, acabam se tornando uma ameaça à admirável democracia americana. Em nome dela, os homens que governam o país precisam achar meios de controlar e podar esta superestrutura, tornando-a eficiente.
sábado, junho 19, 2010
Metade dos municípios brasileiros ainda não tem plano de educação
Metade dos municípios brasileiros ainda não tem plano de educação
Ensino. Capital paulista é uma das cidades que não possuem o planejamento formalizado. Metas de médio e longo prazo para o setor são importantes para garantir que prioridades sejam política de Estado e não mudem a cada novo governo, afirmam especialistas
19 de junho de 2010 | 0h 00 - Mariana Mandelli - O Estado de S.Paulo
Quase metade dos municípios brasileiros não tem plano municipal de educação. Das 5.565 localidades, 2.427 - ou 44% - não apresentam um conjunto de metas educacionais a serem cumpridas pelo poder público. Os dados são da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada neste ano.
Somente no Estado de São Paulo, 284 dos 645 municípios não têm plano - incluindo a capital, que começa a consolidar o seu agora (mais informações nesta página), e outras grandes cidades como Araçatuba, Bauru, Campinas, Diadema, Ribeirão Preto, Rio Claro, Santos, São José dos Campos e Sorocaba.
Os planos municipais, estaduais e federal são considerados essenciais para efetivar e acompanhar políticas em todas as áreas da administração pública. Eles podem ser elaborados por consultorias, pelas secretarias ou com a colaboração da sociedade. "Esse número pode ser ainda menor porque existem muitos planos que foram aprovados mas não se traduziram em lei", afirma o presidente-executivo do movimento Todos Pela Educação, Mozart Neves Ramos.
Segundo especialistas em gestão da educação, o maior entrave causado pela ausência do plano municipal é a descontinuidade dos projetos a médio e longo prazo, já que, sem metas bem definidas, cada troca de governo rompe com o projeto do mandato anterior.
"Políticas educacionais devem deixar de ser de governo para ser de Estado. Educação não pode ser objeto de disputa, de eleição. Isso é criminoso", afirma Branca Jurema Ponce, vice-coordenadora da pós-graduação em Educação da PUC-SP.
A municipalização do ensino infantil, fundamental e médio, prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, também é prejudicada pela falta de planejamento, que pode dificultar a concretização de investimentos.
"Além disso, não ter um plano significa evitar parcerias entre a rede municipal e estadual e impedir que a sociedade participe da discussão", afirma Samantha Neves, representante do Movimento Nossa São Paulo, que participou da discussão em São Paulo.
Acompanhamento. O Ministério da Educação tem um Programa Nacional de Capacitação de Conselheiros Municipais de Educação (Pró-Conselho) que estimula a criação de novos planos por meio de conselheiros e qualifica os gestores da educação. Os conselheiros são representantes da sociedade que fiscalizam o desempenho da secretarias de educação.
Maria Luiza Alessio, diretora de Fortalecimento Institucional e Gestão Educacional do MEC, afirma que muitos municípios não têm planos e seguem orientações dos governos estaduais por serem pequenos em termos populacionais. "Alguns preferem porque é inviável uma cidade com duas escolas desenvolver um plano." Mesmo assim, segundo ela, a necessidade de um plano municipal ainda existe. "O Brasil vive um momento propício para essa discussão", afirma Maria Luiza. "As conferências locais que discutiram o novo Plano Nacional de Educação foram essenciais para isso."
O Plano Nacional de Educação, que tem as metas a serem seguidas pela União, Estados e municípios, foi discutido neste ano na Conferência Nacional de Educação (Conae). O texto final, que deve valer para os próximos dez anos, está sendo elaborado e, segundo o MEC, deve ser encaminhado para votação na Câmara dos Deputados até o fim de julho. O atual PNE vence neste ano.
Segundo Carlos Eduardo Sanches, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), a elaboração do PNE é essencial para dar diretrizes aos planos municipais. "Eles se complementam. Muitas das metas do plano nacional não foram atingidas pela ausência de planos municipais e estaduais", explica. "O novo PNE pode impulsionar o debate."
segunda-feira, maio 31, 2010
O que atrasa o progresso da África?
O que atrasa o progresso da África?
KOFI ANNAN
O continente é muito diverso, mas suas nações estão ligadas pelos mesmos desafios, que dificultam o crescimento econômico
Este é um ano importante para a África, uma vez que a Copa do Mundo colocou o continente no centro da atenção mundial. Agora, os seus pontos fortes e as suas fragilidades estarão mais do que nunca sob o escrutínio internacional. Que história será relatada? As nossas economias estão dando provas da sua capacidade de resistência. Após um período de enormes dificuldades na sequência da crise mundial, a recuperação econômica está em curso, em forte contraste com a falta de esperança presente no resto do mundo.
O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) preveem taxas de crescimento de cerca de 5% do PIB até o final do ano. Conforme salienta o Relatório do Progresso Africano de 2010, publicado em 25 de maio, a cotação da África está subindo. Mas esse relatório coloca igualmente algumas perguntas difíceis. Considerando a riqueza do nosso continente, como é que tantas pessoas continuam ainda presas na pobreza? Por que o progresso para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) é tão lento e desigual? Por que tantas mulheres são marginalizadas e privadas de direitos? A que se deve o aumento da desigualdade?
Ao tentar responder a essas perguntas, temos de ter cuidado com generalizações. O continente africano é profundamente diverso. As suas nações encontram-se ligadas por desafios comuns, que dificultam o desenvolvimento humano e o crescimento equitativo, tais como fraca governança e investimento insuficiente em mercadorias e também em serviços públicos. Aprendemos muito ao longo da última década sobre as nossas necessidades. Entre os vários ingredientes necessários, um Estado de Direito e sistemas de responsabilização são essenciais para assegurar que os recursos sejam utilizados eficaz e eficientemente.
O que, então, atrasa o progresso? A falta de conhecimento e de planos não são o cerne da questão. Agendas boas, até visionárias, foram formuladas por líderes africanos e formuladores de políticas em todas as áreas, da integração regional até a capacitação das mulheres. A falta de fundos também não é a barreira insuperável, considerando os vastos recursos naturais e humanos do continente e o fluxo de saída da riqueza em curso, frequentemente ilícito, mesmo que sejam necessários ainda mais recursos. O problema é a vontade política, tanto internacional como na África.
O que, então, atrasa o progresso? A falta de conhecimento e de planos não são o cerne da questão. Agendas boas, até visionárias, foram formuladas por líderes africanos e formuladores de políticas em todas as áreas, da integração regional até a capacitação das mulheres. A falta de fundos também não é a barreira insuperável, considerando os vastos recursos naturais e humanos do continente e o fluxo de saída da riqueza em curso, frequentemente ilícito, mesmo que sejam necessários ainda mais recursos. O problema é a vontade política, tanto internacional como na África.
No plano internacional, isso é mais uma consequência da incapacidade de transmitir a importância de colocar as necessidades dos países subdesenvolvidos e africanos no centro das políticas globais. É necessário intensificar e reforçar os esforços para explicar o modo como esses benefícios, quer se trate de disponibilizar políticas de comércio mais justas, quer se trate de combater a corrupção, não são apenas altruístas ou éticos, mas igualmente práticos e no melhor interesse dos países mais ricos. Os líderes africanos são os principais responsáveis por impulsionar o crescimento equitativo e fazer os investimentos necessários para alcançar os ODM. O continente tem, hoje, líderes defensores do desenvolvimento. Precisamos de mais. Infelizmente, seus esforços ainda são ofuscados na mídia internacional pelo comportamento autoritário e autoenriquecedor dos outros líderes. A África é uma nova fronteira econômica. A abordagem e as ações do setor privado e dos tradicionais e novos parceiros internacionais da região são cruciais para ajudar o continente a ultrapassar esses desafios. A comunidade internacional pode desempenhar um papel decisivo, assegurando que a África se encontre em campo justo e imparcial. Mas o destino da África está, mais que tudo, nas suas próprias mãos.
KOFI ANNAN, economista ganês, é presidente do Painel para o Progresso da África. Foi secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 2001.
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