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segunda-feira, março 21, 2011

Fim da era nuclear?

Fim da era nuclear?
RICARDO YOUNG - FOLHA DE SÃO PAULO - 21/03/11
A história tem muitas ironias. A mais recente?
A era nuclear poderá terminar em Fukushima, não muito distante de onde começou: Hiroshima e Nagasaki. Centenas de milhares de civis pereceram e confrontaram a humanidade com a possibilidade de sua extinção diante de algum conflito bélico.
No entanto, desde o início, as ameaças reais à vida no planeta decorreram da energia nuclear usada para fins pacíficos, de usinas elétricas ou térmicas a equipamentos e artefatos de variados usos.
Impressiona-me ainda que, a cada novo evento, a gravidade da ocorrência é maior que a anterior, como se o ser humano duvidasse da sua própria possibilidade de extinção.
Outra constatação: as falhas em cada acidente ocorrem mais em função da irresponsabilidade no manejo, no monitoramento técnico e na transparência das informações para a sociedade, do que, propriamente pelo uso do material radiativo.
Em Tchernobil, em 1986, problemas técnicos aliados à imprudência dos engenheiros resultaram no vazamento do vapor de um reator que produziu uma explosão seguida de incêndios e, finalmente, do derretimento nuclear. A Europa jamais esquecerá as consequências sofridas.
O acidente com o césio 137, ocorrido em Goiânia em 1987, recebeu classificação de gravidade 5 pela escala internacional de acidentes nucleares, a mesma nota dada ao vazamento em Fukushima.
De novo, a irresponsabilidade. Catadores da cidade entraram nas ruínas de um hospital abandonado e encontraram um cilindro de aço. Ele foi recolhido como sucata e, na oficina de um deles, desmontado, espalhando o cloreto de césio que estava dentro da cápsula.
Em poucas horas, algumas já estavam mortas e 863 apresentam sequelas até hoje. O bairro precisou ser isolado por vários anos e milhares de pessoas em Goiânia tiveram que ser examinadas regularmente.
Neste acidente do Japão, a usina foi fortemente abalada pelo terremoto e pelo tsunami. No entanto o reator 4 já vinha apresentando problemas sérios, não relatados pela concessionária à agência reguladora japonesa. Esse comportamento criou as condições adequadas para a tragédia.
Os fatos em Fukushima nos obrigam a refletir não apenas sobre o uso da energia nuclear, mas também sobre as concessões privadas explorá-la.
Nesse caso, há um conflito de interesses entre o objetivo do negócio -o lucro- e o da sociedade -o bem-estar.
Será possível ter qualidade de vida quando a energia vem de uma usina nuclear operada por uma empresa que não segue, rigorosamente, os princípios da gestão socialmente responsável?

segunda-feira, dezembro 27, 2010

O fim de uma era

O fim de uma era
Ricardo Young
Nesta última semana de 2010, muitas coisas chegam ao fim. Não apenas um ano de intensa discussão sobre os destinos do Brasil, não só o fim da era Lula. Chega ao fim também uma etapa que marcou a transição do Brasil para a maioridade institucional.
Desde os danos deixados pela democracia incipiente da era Collor/Itamar, a era FHC começou a colocar a casa em ordem. A Constituinte de 1988 arquitetou o que o melhor da depuração política pós-ditadura poderia sonhar para nós.
Um país institucionalmente forte, politicamente diverso, socialmente justo e economicamente próspero. A era FHC procurou pavimentar o leito sobre o qual o país pudesse construir esse novo destino.
A era Lula,não só deu continuidade a esse trabalho como aprofundou o sentido da justiça social e levou o combate a pobreza a políticas de Estado. São inequívocas as conquistas "sociais" dos últimos anos se considerarmos inserção econômica, aumento de renda, emprego e poder de consumo.
No entanto, a obsessão por estabilidade econômica, crescimento do PIB e aumento real de renda não prepararam o Brasil para o futuro.
Gradativamente descobrimos que o tíquete de entrada para o jogo dos países que têm importância no mundo não garante um lugar nas numeradas. A tarefa é mais ampla se olharmos pelo retrovisor e gigantesca se olharmos para os próximos dez anos.
Pelo retrovisor veremos que PIB é só indicador econômico. Educação, saúde, segurança e qualidade das cidades foram deixados para trás.
Nas "n" listas que exibem o avanço das sociedades mundo afora, é raro ver o Brasil entre as 20 melhores. E mesmo as conquistas sociais empalidecem quando consideramos indicadores como Pisa, IDH e índice de Gini. Portanto, além do progresso econômico, temos pouco a exibir.
Assim, a era que se inicia é decisiva para o Brasil se tornar um país relevante. A começar por entender o que a economia de baixo carbono representará em geopolítica e oportunidades na próxima década.
Seguido pelo entendimento de que a prosperidade de um pais não pode ser considerada só pelo seu viés econômico.
Desenvolvimento deve ser pensado como uma equação que agrega desempenho econômico, qualidade de vida e sustentabilidade. Não é por acaso que o pensamento econômico contemporâneo busca alternativas para o PIB como medida de desenvolvimento.
O fim deste ciclo de preparação do Brasil para o futuro nos convoca para uma década de profunda coragem, determinação, competência, ousadia e desprendimento, para completarmos em 2020 a fase mais brilhante de nossa jornada. Aquela que marcará definitivamente o papel histórico do pais, sua responsabilidade no mundo e neste século.
Bom ano a todos.
Ricardo Young escreve às segundas-feiras nesta coluna.

segunda-feira, novembro 15, 2010

G20, câmbio e sustentabilidade

G20, câmbio e sustentabilidade
RICARDO YOUNG – Folha de São Paulo
Mais uma reunião multilateral, nenhum acordo razoável. Desta vez, a crise cambial, se não contida, ameaça literalmente "derreter" os ativos de países, empresas e pessoas.
Na semana passada, o G20 reuniu-se em Seul, na Coreia, com o objetivo de tentar estabelecer controles mínimos sobre o sistema financeiro internacional, para evitar, mais uma vez, a bancarrota. Novamente, os aparentes esforços foram quase inúteis.
Os chefes de Estado ali presentes concordaram em assinar um documento com "recomendações" -como se recomendações bastassem! O sistema financeiro global doente, e a "junta médica" faz recomendações... Dentre elas, o G20 legitimou os controles dos países para conter o fluxo de dólares e a desvalorização das moedas locais; ampliou a representação dos emergentes no FMI; e reconheceu que os países desenvolvidos terão de ser mais vigilantes em relação aos efeitos negativos de suas políticas cambiais.
Decisões mesmo só em 2011, em uma prática cada vez mais comum de "empurrar com a barriga" tudo que exige coragem e determinação. Enquanto isso, mais de 160 países que não fazem parte do G20 -e não têm voz em nenhum organismo multilateral- precisam "se virar" para fazer frente à queda de braço entre EUA e China, que não parecem dispostos a abandonar as desvalorizações constantes das suas moedas, como forma de exportar mais e desafogar os seus déficits públicos.
Faltou vontade política ao G20 para dar um basta nesta farra cambial. A continuidade destas políticas de desvalorização artificial vai aprofundar a crise financeira e econômica no mundo, ameaçando ainda mais os cidadãos com desemprego e inflação, bem como destruindo o comércio internacional. A indecisão do G20 em assumir atitudes mais contundentes para segurar a especulação financeira pode acelerar os efeitos de outra crise que está apenas anunciada e cujos efeitos mal conseguimos imaginar: a crise do modelo de civilização que adotamos -baseado no uso intensivo e perdulário dos recursos naturais-, cuja decorrência mais comentada, o aquecimento global, é apenas a ponta do iceberg. Como avestruzes, creem que a solução para a economia global se limita a fluxos financeiros e a consumo.
Sim, vivemos duas crises que correm em paralelo e que vão se cruzar em algum momento. Poucos entenderam que não haverá solução para a crise financeira se não encontrarmos a saída para o modo de produzir e consumir que vigora desde o início da era industrial. Controlar e induzir o capital para a inovação, para a emergência de uma economia verde, inclusiva e responsável. Este é o caminho para a superação das ameaças.
Quanto tempo ainda para nos convencermos?
RICARDO YOUNG escreve às segundas-feiras nesta coluna.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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