terça-feira, junho 01, 2010
Síndrome de pedinte rico
Diplomacia
Síndrome de pedinte rico
O Paraguai mente sobre o seu PIB para conseguir esmolas externas, como o aumento do valor que recebe pela energia de Itaipu, a ser votado pelo Congresso brasileiro
Duda Teixeira - Veja
O pedinte rico é um personagem raro, mas não totalmente estranho aos moradores das grandes cidades. Quando termina o expediente, ele desveste a fatiota, joga uns trapos sujos sobre o corpo, exibe um rosto macilento e sai às ruas pedindo esmolas. Funciona. Na diplomacia latino-americana, esse papel vem sendo desempenhado pelo Paraguai. De acordo com os números oficiais divulgados pelo banco central paraguaio, o país é o segundo mais pobre da América do Sul. Um levantamento do economista Wagner Enis Weber, diretor do Instituto de Estudos Econômicos e Sociais do Paraná-Paraguai (Ineespar), no entanto, mostra que os dados do produto interno bruto (PIB, o total de mercadorias e serviços produzidos) são tão falsos quanto os cigarros contrabandeados para o Brasil. Oficialmente, o PIB per capita é de 2 300 dólares. O valor correto, dependendo do cálculo, pode chegar a 6 160 dólares, o suficiente para fazer o país subir quatro posições no ranking regional da riqueza, à frente de Colômbia e Peru. O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, elegeu-se em 2008 com a promessa de arrancar alguns trocados do Brasil, mas a prática de subestimar o PIB não é uma invenção dele: existe há pelo menos trinta anos.
Um exemplo de como a falsificação das estatísticas oficiais é usada para atrair a caridade internacional é o Focem, um fundo do Mercosul cuja finalidade é ajudar seus membros a fazer obras de infraestrutura. O Paraguai contribui com apenas 1% do fundo, mas tem direito a metade do dinheiro, quase 50 milhões de dólares por ano. O tamanho da economia e o grau de desenvolvimento do país beneficiado são um dos principais critérios para a distribuição do recurso. Ao se fazer passar por pobre, o Paraguai também consegue adiar a adesão à tarifa externa comum do Mercosul. Com isso, os produtos importados da China, por exemplo, são mais baratos no Paraguai do que no Brasil. A adoção da tarifa comum levaria ao fim do comércio de sacoleiros em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu.
O argumento do vizinho pobre foi usado por Fernando Lugo para convencer o presidente Lula a dar uma nova esmolinha: o aumento do valor pago pela energia da hidrelétrica de Itaipu. O projeto de lei que triplica o preço da eletricidade a que o Paraguai tem direito, não consome e por isso exporta para o Brasil já está sendo analisado por três comissões do Congresso Nacional e pode ser votado ainda neste ano. A nova lei brasileira aumentaria de 120 milhões para 360 milhões de dólares anuais o valor pago pelo Brasil ao Paraguai. O autor do projeto, o deputado Doutor Rosinha (PT-PR), não encontrou explicação técnica para aumentar o preço da energia de Itaipu, mas confirmou o caráter filantrópico da medida: "Esses 240 milhões de dólares adicionais podem fazer grande diferença num país ainda muito pobre como é o Paraguai", diz o texto de justificativa da lei. Muito pobre? Não é o que diz a Pesquisa Permanente de Lares, feita pe--
lo governo paraguaio em 2008. O levantamento revelou que a renda das famílias paraguaias é de 17,9 bilhões de dólares. O dado é confiável porque se baseia em entrevistas com chefes de família. O fato de os rendimentos familiares serem superiores ao PIB oficial comprova que o tamanho da economia paraguaia é subestimado. Caso contrário, os salários pagos no país teriam de ser mais altos do que o valor de todos os bens produzidos e serviços prestados pelos trabalhadores. Trata-se, portanto, de uma aberração estatística.
Há diversas maneiras de estimar o verdadeiro PIB paraguaio. Tomando-se como base apenas o consumo de eletricidade do país, o valor seria de 37 bilhões de dólares (veja o quadro na pág. 201). Se for incluído na conta um conjunto de critérios como a posse de bens duráveis e a renda das famílias, o PIB pode chegar a 38,4 bilhões de dólares, segundo Weber. "Este não é um país subdesenvolvido, e é evidente que nossas estatísticas oficiais estão incorretas", diz o economista paraguaio Federico Ortega, da Universidade Autônoma de Luque. O Paraguai é o único país no continente americano que não possui um instituto nacional de estatísticas, como o IBGE brasileiro. O PIB é calculado pelo banco central com base em critérios diferentes dos aceitos internacionalmente. Um exemplo: a produção de energia das hidrelétricas de Yacyretá, na fronteira com a Argentina, e Itaipu não é contabilizada. As usinas são classificadas pelo banco central como organismos internacionais, e não como empresas públicas. Só esse truque reduz em 2 bilhões de dólares o cálculo do PIB. A maquiagem é ruim para o país porque, sem estatísticas confiáveis, é impossível fazer previsões econômicas e acertar nos investimentos.
O Paraguai começou a enriquecer em 1984, quando a hidrelétrica de Itaipu passou a fornecer energia abundante para os dois lados do Rio Paraná (o Paraguai não precisou desembolsar um tostão na construção). No início dos anos 80, havia cerca de 1 500 indústrias no país. Hoje, são nove vezes mais. A agropecuária é uma das mais produtivas do mundo, com mais cabeças de gado por habitante do que no Brasil. No leste do país, próximo ao Paraná, a paisagem é dominada por plantações de soja e girassol. O Paraguai é o quarto maior exportador de soja do mundo. Assunção é uma cidade arborizada, com shopping centers, bares, churrascarias e franquias estrangeiras. Por que, com toda essa riqueza, os governantes paraguaios insistem em pedir esmolas? Por incompetência administrativa. Enquanto o Brasil sofre com um estado paquidérmico, o Paraguai peca pela quase inexistência estatal. Não há imposto de renda, somente uma taxa de 10% que incide sobre produtos e serviços. "A carga tributária excessivamente baixa pode ser um inibidor do desenvolvimento, pois impede o estado de prestar serviços fundamentais como saúde e educação", diz o economista Maílson da Nóbrega. Para piorar, o pouco que se arrecada é desviado. O Paraguai é um dos países mais corruptos do mundo. Na América Latina, só perde para a Venezuela no ranking dos larápios. E depois vem pedir dinheiro aos vizinhos.
Pesquisas complicadas
Pesquisas complicadas
Por Alon Feuerwerker
O vexame do primeiro turno nas eleições colombianas ficou reservado para dois personagens. Antanas Mockus, candidato do Partido Verde, e os institutos de pesquisa. Estes davam Mockus empatado com Juan Manuel Santos, o nome do governo, num patamar de 40%.
Abertas as urnas, Santos confirmou seus votos com sobra (ficou a menos de quatro pontos da maioria absoluta e da vitória já no primeiro turno), mas Mockus teve apenas metade do que lhe previam as sondagens.
Uma hipótese seria a fraude, mas não parece provável. Outra seria a súbita mudança do eleitorado na véspera da eleição, possibilidade não comprovável. Uma terceira seria a subestimação do voto rural, como sugeriu ontem um perplexo Mockus.
São todas variáveis a considerar na busca da explicação, mas politicamente importam pouco. Santos e Mockus vão ao segundo turno, o que era esperado, mas com o candidato da oposição em circunstâncias dificílimas, como ele mesmo admite.
Para nós, além de aguardar pelo desfecho eleitoral no complicado vizinho, talvez valha a pena refletir sobre a importância dada também aqui às pesquisas e aos institutos que as produzem. Já faz algum tempo que acompanhar eleição no Brasil resume-se a um tripé: colecionar aspas dos candidatos, aguardar pelo próximos escândalos e roer as unhas à espera dos novos levantamentos de intenção de voto.
É preciso porém fazer justiça. Até que os agora protagonistas do espetáculo andam fazendo esforço para introduzir assuntos programáticos na agenda. A falta de hábito leva a coisa a estar ainda mambembe, mas bem ou mal já compareceram ao palco itens como a autonomia do Banco Central, o papel do Mercosul, o tráfico de drogas nas fronteiras, o financiamento da saúde, as linhas gerais da política externa.
Não que nas eleições anteriores os assuntos programáticos tenham sido simplesmente excluídos. A eles costuma se reservar um acompanhamento quase cartorial, protocolar. Os candidatos produzem por meio de suas assessorias alentados calhamaços, que os jornais registram e até publicam, mas pouca ou nenhuma influência real têm no processo.
Gosto mesmo, quem desperta são as pesquisas. Elas reinam onipotentes, onipresentes e oniscientes, inclusive nos detalhes. Mesmo quando as margens de erro são absurdamente grandes. Uma coisa é a pesquisa nacional ter 2% ou 3% de erro, outra é não esclarecer ao eleitor (ou leitor) que a margem se multiplica na análise segmentada (por região, sexo, escolaridade etc.), pois a amostra fica pequena em relação ao universo pesquisado.
De positivo, apenas um detalhe comprovado pela enésima vez agora na Colômbia: as pesquisas podem até influenciar os analistas, mas o eleitor comum dá pouquíssima bola para elas. Muita saliva, papel, tinta, bit e bytes por nada. Ou por muito pouco.
Na Colômbia, como aqui, o eleitor decide em função de seus desejos, necessidades, escolhendo o líder que considera mais capaz de conduzir o país num rumo que traga benefícios reais a ele, eleitor.
Conclat
As entidades sindicais realizam sua conferência (Conclat) em ambiente eleitoral. Mas isso não deve ser usado para desqualificar o evento. Importante é que os sindicatos, federações, confederações e centrais amarrem suas reivindicações e propostas.
Seria desejável também que as entregassem a todos os candidatos, ainda que a preferência dos organizadores esteja clara, por Dilma Rousseff (PT). Isso não deveria impedir que buscassem um diálogo com pelo menos os outros três nomes mais expressivos.
A União Nacional dos Estudantes, liderada pelo PCdoB, optou por esse caminho e preservou sua unidade. O movimento sindical, diferentemente do estudantil, é pulverizado em diversas centrais, mas a Conclat reúne a esmagadora maioria.
Explosões
O trágico desfecho da tentativa de furar por via marítima o bloqueio a Gaza reforça a necessidade de negociações por uma saída definitiva para o impasse regional no Oriente Médio.
Negociações que só caminharão a partir de uma premissa: todos os povos dali têm direito a seu Estado nacional, em segurança. A paz será consequência disso.
Ou serão sempre explosões, periódicas, de violência e ódio. Como a de agora.
Justiça é consciência de toda a humanidade
Justiça é consciência, não uma consciência pessoal, mas a consciência de toda a humanidade. Aqueles que reconhecem claramente a voz de suas próprias consciências normalmente reconhecem também a voz da justiça.
Alexander Solzhenitsyn
O escritor russo Alexander Solzhenitsyn, dissidente soviético e Prêmio Nobel de Literatura, morreu aos 89 anos, em 2008. Preso pela primeira vez em aos 20 anos sob alegação de crimes anti-soviéticos, Solzhenitsyn tornou-se mundialmente conhecido por suas críticas ao regime comunista, em especial às prisões de dissidentes. O escritor atingiu a fama mundial em 1962 com Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, um curto romance que conta a história de um companheiro no campo de trabalhos forçados da Sibéria. Na época, a obra foi considerada um ataque ao regime soviético. Solzhenitsyn nasceu em 11 de dezembro de 1918 em Kislovodsk, na região do Cáucaso na então União Soviética, onde estudou Matemática e Física na Universidade de Rostov, em 1941. Depois, ele entrou para o Exército russo na Segunda Guerra Mundial (1939-45). Por suas críticas ao ditador Stalin, foi condenado em 1945 a oito anos de prisão em um campo de trabalho na Sibéria. Em 1974, durante o regime de Leonid Brézhnev, o escritor foi privado da nacionalidade soviética e expulso da URSS, acusado de traição à pátria após escrever Arquipélago Gulag, um relato sobre as prisões para onde eram levados os dissidentes do regime comunista, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1970. Com a mesma temática, ele escreveu ainda Pavilhão de Cancerosos. Solzhenitsyn passou duas décadas no exílio nos Estados Unidos, e retornou a seu país natal em 1994, após o fim do comunismo. Nunca abandonou a veia rebelde: era um impiedoso crítico da forma como a Rússia fez a transição para o capitalismo.
O QUE É MICROCONTO? de www.twitter.com/neiduclos
O microconto é a literatura da era da nanotecnologia.
A palavra microconto já é a metade de um microconto.
Acordou cedo e deu de comer aos microcontos.
Toda vez que ouço falar em microcontos eu puxo a minha garrucha.
Cuidou de queimar os rascunhos pois desconfiava que seriam confundidos futuramente como ninho de microcontos.
Os autógrafos dos livros de microcontos ganham dimensões de verbetes de enciclopédias.
Microconto mentiroso tem perna muito curta.
MicrocontoSoft cobra royalties pelo uso de suas ferramentas.
Tinha potencial, mas não fez carreira literária. Tropeçou num microconto.
O prefácio do microconto só suporta uma vírgula.
O microconto não parou no ponto. Estava lotado.
No microconto de fadas a Sininho só dá meia badalada.
No microconto infantil os monstros são os percevejos.
O microconto pode ser feito dormindo. Mas é tão enxuto que não provoca sono.
Quem conta um microconto aumenta um microponto.
O pequeno vigarista aplicou um microconto do vigário.
No microconto policial o BO tem uma linha e meia.
Levou pela coleira os microcontos para passear. Esbarrou num crítico, que tossiu uma microresenha alérgica.
Não sou microcontista. Não tenho estatura para isso.
Uma caixa de fósforos é a única estante de uma biblioteca de microcontos.
Com a inflação, um cafezinho vai custar um micrconto de réis.
Por comparação, Guerra e Paz deve ser um macroconto.
Antigamente, microconto chamava-se título.
A vantagem de uma antologia de microcontos é que entram todos.
Colocou o microconto no microondas. Em um minuto estava pronto.
RETORNO – O surto acima sobre um gênero literário que não exerço foi desenvolvido no Twitter.
Extraído do Blog Outubro, http://outubro.blogspot.com/
GALERIA: O MUNDO DOS PLÂNCTONS
A larva de uma estrela do mar é um tipo de plâncton. Essa é uma das fotos a serem expostas no Zoológico de Londres. (Fotos: Richard R. Kirby, da Royal Society)
A palavra “plâncton” vem do grego “plagktós”, que significa "errante". Essa é, de certa forma, uma das características dos plânctons, visto que esses seres têm pouco poder de locomoção e são deslocados passivamente de um lado para o outro através do movimento da água. Os plânctons foram descobertos por volta do século XVIII, no entanto só foram pesquisados quando o biólogo alemão Johannes Muller resolveu passar uma fina rede pelas águas oceânicas.
A maioria dos plânctons é invisível a olho nu, medindo na maioria das vezes, menos que 1 milímetro. São esses seres uni ou pluricelulares que formam a base da cadeia alimentar em um ecossistema aquático. Outro fator que mostra a extrema importância dos plânctons para todos os seres vivos é que são eles que produzem a maior parte de todo o oxigênio existente na atmosfera.
A maioria dos plânctons é invisível a olho nu, medindo na maioria das vezes, menos que 1 milímetro. São esses seres uni ou pluricelulares que formam a base da cadeia alimentar em um ecossistema aquático. Outro fator que mostra a extrema importância dos plânctons para todos os seres vivos é que são eles que produzem a maior parte de todo o oxigênio existente na atmosfera.
Educação é pasta mais afetada em corte no Orçamento
Educação é pasta mais afetada em corte no Orçamento
O ministério da Educação foi o mais afetado e terá R$ 1,28 bilhão a menos para gastar em 2010
31 de maio de 2010 | 20h 08
RENATA VERÍSSIMO e EDNA SIMÃO, da Agência Estado
O governo definiu nesta segunda-feira, 31, os ministérios e órgãos da União que terão uma nova redução de orçamento este ano. O ministério da Educação foi o mais afetado e terá R$ 1,28 bilhão a menos para gastar em 2010. Com este novo corte, o orçamento da Educação encolheu R$ 2,34 bilhões em relação aos valores aprovados pelo Congresso. No total, o Executivo está reduzindo despesas no valor de R$ 7,5 bilhões para tentar conter o consumo do governo e, por consequência, o crescimento da economia e da inflação.
A área econômica anunciou no mês passado uma redução de R$ 10 bilhões nas despesas primárias do governo como mais uma arma contra a inflação. Com o corte, o governo quer evitar uma escalada mais forte da taxa de juros básica (Selic) pelo Banco Central, órgão responsável por manter a inflação dentro da meta de 4,5%, com variação de dois pontos para cima ou para baixo.
O Legislativo e o Judiciário terão uma redução nas despesas de R$ 125 milhões. Para alcançar o valor anunciado de R$ 10 bilhões, o governo reviu as estimativas de gastos obrigatórios (principalmente com pessoal e subsídios) reduzindo-as em cerca de R$ 2,4 bilhões. Este ano foi a primeira vez que o governo teve que fazer um corte adicional além do contingenciamento, que é realizado todo início de ano, após a aprovação da Lei Orçamentária pelo Congresso. O corte total em 2010 já soma R$ 28,95 bilhões.
Além da Educação, os maiores cortes ocorreram no ministério do Planejamento (R$ 1,24 bilhão), nos Transportes (R$ 906,4 milhões) e Fazenda (R$ 757,7 milhões). O ministério da Saúde terá R$ 344 milhões a menos. O ministério do Desenvolvimento Social - responsável por programas sociais como o Bolsa-Família - terá que reduzir as despesas em R$ 205,3 milhões.
Por outro lado, dez ministérios tiveram parte do orçamento recomposto em relação à previsão de março. Os ministérios beneficiados foram Agricultura; Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Justiça; Previdência Social; Trabalho; Desenvolvimento Agrário; Esporte; Defesa; Integração Nacional e Turismo.
Segundo o decreto publicado nesta segunda-feira, 31, no Diário Oficial da União, os únicos órgãos que não tiveram alteração na previsão de orçamento em relação à última estimativa divulgada em março foram o ministério das Relações Exteriores e a vice-presidência da República. O governo também fixou R$ 1,5 bilhão como reserva. Estes recursos podem ser distribuídos, à medida da necessidade, aos ministérios.
Na direção oposta
Na direção oposta
Marina Silva
Enquanto a sociedade brasileira está cada vez mais consciente na busca de um desenvolvimento sustentável, parte dos políticos vai na direção oposta. É uma triste viagem no tempo, de volta aos anos 70 do século passado, quando florestas eram derrubadas como se fossem um entrave ao que se imaginava ser o progresso, mas que se mostrou apenas um projeto autoritário e desastroso de ocupação da Amazônia. Pois há os que não aprenderam nada com aqueles erros. Querem mais terra arrasada.
Duas investigações recentes, da Polícia Federal e da imprensa, alertam para esse perigo. A primeira -Operação Jurupari, em Mato Grosso- desmontou mais um esquema criminoso de exploração e venda ilegal de madeira, envolvendo membros do governo estadual, políticos, madeireiros e fazendeiros. A outra é a reportagem de Marta Salomon denunciando a "venda", pelo governo federal, de terras na Amazônia pela bagatela de R$ 2,99 a cada dez mil metros quadrados, com 20 anos para pagar. O que comprova o alerta que fizemos no ano passado, sobre a equivocada legalização fundiária, sem os devidos critérios.
Estamos agora às vésperas da apresentação e votação na Câmara do relatório do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), que poderá propor, segundo o que vem sendo divulgado, mudanças profundas que podem desconstituir a legislação ambiental. Precisamos atentar para a posição do relator sobre a pulverização da legislação ambiental em normas estaduais, proposta pelos ruralistas, e a redução das áreas de proteção ambiental, permitindo mais desmatamento. O exemplo de Mato Grosso ilustra bem o que pode acontecer. Ademais, o uso sustentável dos recursos naturais é questão estratégica para o país. Não é razoável que fique ao sabor do jogo de pressões locais, de consequências imprevisíveis.
As mudanças pretendidas, principalmente no Código Florestal, longe de serem uma "atualização", como andam dizendo, representam o retrocesso, o comprometimento de um patrimônio de todos os brasileiros em nome da insistência de alguns setores em permanecer na produção predatória. Estamos diante de uma escolha que determinará se queremos desenvolvimento de fato ou exploração irracional da natureza em benefício de poucos, sobrando o desastre para milhões.
Muitos produtores já se organizam, com excelentes resultados, para praticar a agricultura e a pecuária sustentável do futuro. Ela não só é possível como rentável. É fundamental, portanto, que os legisladores pensem no peso de sua responsabilidade. É fundamental também que a sociedade mostre ao Congresso que está atenta e sabe se defender.
MARINA SILVA escreve às segundas-feiras nesta coluna.
Presente obrigatório
Presente obrigatório
Blog da Rosely Sayão - 11/03/2010
A mãe de uma garota de cinco anos narrou uma situação que a deixou muito constrangida. Ela levou a filha à festa de aniversário de uma colega de escola. Ao saírem, a mãe da colega deu uma lembrancinha -essa moda pegou mesmo- para a menina como agradecimento por ela ter comparecido à comemoração. A filha olhou para o que recebeu e, rapidamente, disse: "Só isso?!".
Outra mãe, cujo filho tem quatro anos, contou uma história parecida: no Natal, uma amiga dela levou um presente para seu filho que, ao recebê-lo, jogou longe e começou a chorar dizendo que não era isso o que queria ganhar.
Para complementar, um caso que considerei absurdo. Um casal processou uma loja de presentes porque ela não apresentou aos convidados todos os itens que eles haviam escolhido para sua lista e, por causa disso, eles ficaram sem alguns objetos que queriam ganhar.
Os presentes de casamento, aniversário, Natal e outras comemorações em que temos o hábito de presentear tornaram-se mais importantes do que a data, do que as pessoas e seus vínculos, do que a vontade de mimar alguém e manifestar seu carinho e tudo o mais que envolvia o ato.
Presentes, como bem ilustram os casos citados, transformaram-se em obrigação, encomenda, em expectativa que não pode ser frustrada. Abdicamos da surpresa de receber ou de dar um presente, da sensação gostosa ou do desagrado que se tem ao descobrir o que ganhamos em nome da praticidade.
Afinal, dá trabalho, custa tempo procurar um presente que tenha algum significado para a pessoa que iremos presentear, não é mesmo? E, depois de tudo, ainda correr o risco de não agradar? Não queremos riscos nem tampouco compromisso.
Por isso surgiram as listas: de Natal, de casamento, de aniversário, de chá de bebê... E quem faz a festa, afinal, é o comércio, que inventou até o vale-presente. Por que alguém iria se preocupar com o que dar de presente se a própria pessoa pode escolher o que quer?
Do jeito que a coisa está, acho que ganhar presentes pode até se transformar em um meio de sobrevivência. Assisti a um filme, que nem era muito bom, mas cujo roteiro era exatamente esse: dois jovens que se conhecem decidem simular um casamento somente para ganhar presentes e ter, com isso, uma renda extra.
Os mais novos talvez nem conheçam o sentido original do presente. E, já que temos reclamado tanto do consumismo exagerado que ensinamos a eles e também da nossa falta de tempo para tudo -inclusive e principalmente para o convívio familiar e com os amigos-, pode ser essa a hora de começar a retirar o caráter utilitarista e impessoal do presente e dar a ele o valor afetivo que merece.
Uma atitude desse tipo gera consequências, é bom saber: dedicação, tempo e, acima de tudo, compromisso com as pessoas com quem temos e cultivamos um vínculo amoroso. E, ao contrário do que aprendemos a pensar, viver bem tem tudo a ver com esse tipo de presença, não é verdade?
A incrível jornada humana
by massacritica
A série de cinco episódios - The Incredible Human Journey - relata a gigantesca saga da migração dos humanos, vindos da África, rumo a uma colonização de todo o planeta.
Por ser uma série recente, finalizada em 2009, os dados são atualizados e bem estruturados, procurando mostrar os locais exatos onde foram achadas as evidências que comportam a explicação mais adequada para o grande quebra-cabeças que é a povoação dos diversos continentes. O forte da série é que os dados não foram apresentados como verdades acabadas, mas como evidências que sempre precisam de mais e mais fontes para certificação. E um dos pontos de maior apoio científico foi o uso da genética como uma ferramenta no traçado da trilha da incrível jornada humana.
Os episódios foram organizados de forma a cobrir a migração pelos continentes e aproximar a narrativa de uma sequência histórica.
Episódios
1- Out of Africa
1- Out of Africa
2- Asia
3- Europe
4- Australia
5- The Americas
Trecho do episódio sobre a Ásia. Neste a Dra. Alice Roberts viaja até uma remota região da Sibéria para acompanhar como os humanos poderiam ter sobrevivido em uma região tão remota e fria.
O episódio sobre as Américas contém inclusive algumas visitas ao Brasil; com explicações sobre as possíveis origens de Luzia e primeiras colonizações existentes na região Amazônica.
A série foi lançada em conjunto com um livro homônimo, que pode ser importado pela Livraria Cultura por 63 reais (14/03/2010)!
Dra. Alice Roberts encerra a série dizendo:
"As diferenças entre nós são realmente apenas superficiais. Somos todos membros de uma espécie jovem que retrocede menos de 200.000 anos e todos somos parentes surpreendentemente próximos. Essa é a história que surgiu do estudo de pedras, ossos e de nossos genes. Seja onde for que terminemos mundo afora, somos africanos sob a pele. E revelando essa história, refazendo os passos de nossos ancestrais, me foi dado um senso profundo da nossa humanidade comum, do nosso passado compartilhado e nosso futuro juntos."
Fascinante!
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