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domingo, outubro 03, 2010

Weslian Roriz: A mulher laranja

Weslian Roriz: A mulher laranja
Os adversários foram pegos de surpresa por sua candidatura ao governo do Distrito Federal, no lugar do marido. Ela também
Isabel Clemente – Revista ÉPOCA
FICHA EM BRANCO Weslian no debate na semana passada. Ela não sabia responder, mas manteve a pose
Brasília foi criada para apontar um novo rumo político para o Brasil – e ninguém pode reclamar da falta de inovações que a cidade é capaz de gerar. Infelizmente, não são o tipo de inovação que se esperava. Tome, por exemplo, a candidatura de Weslian Roriz. Na semana passada, a dona de casa de 67 anos estreou como candidata ao governo do Distrito Federal pelo PSC em um debate promovido pela TV Globo. Visivelmente despreparada, Weslian teve de ler respostas e chegou a dizer, numa gafe, que queria “defender toda aquela corrupção”. Weslian se tornou um hit em vídeos no YouTube e campeã de comentários no Twitter.
Weslian virou candidata um dia antes do debate. Ela é casada há 50 anos com Joaquim Domingos Roriz, quatro vezes governador do DF. Ameaçado pela Lei Ficha Limpa por ter renunciado ao Senado, em 2007, para escapar da cassação num processo por corrupção, Roriz lançou Weslian. Apostou que transferiria para ela os votos de seu fiel eleitorado, cultivado durante anos com a distribuição gratuita de lotes em áreas no Distrito Federal.
Não poderia haver alguém mais confiável para Roriz. De acordo com a biografia de Weslian, publicada assim que se tornou candidata, os dois se conheceram no casamento de uma prima de Roriz, quando tinham 23 anos (ele) e 17 (ela). Goianiense, Weslian havia acabado de se mudar com a família para Luziânia. Seu pai, criador de gado, foi o responsável por fazer o jardim do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República. Roriz e Weslian se casaram menos de um ano depois de se conhecerem, em 1960, e tiveram três filhas: Wesliane, Liliane e Jaqueline.
No debate, era possível notar que os adversários de Roriz foram pegos de surpresa. Preparados para enfrentá-lo duramente, Agnelo Queiroz (PT), Toninho (PSOL) e Eduardo Brandão (PV) não tiveram coragem de fazer o mesmo com Weslian. Empertigada, com voz trêmula e gaguejando, Weslian teve de enfrentar a si própria.
“Eu quero defender toda aquela corrupção”
WESLIAN RORIZ, candidata ao governo do Distrito Federal
“É violenta a forma como a família expôs essa mulher”, diz a cientista política Flávia Biroli, professora da Universidade de Brasília (UnB). “É desconcertante ter uma candidata incapaz de sustentar posições sobre qualquer tema.”
Os adversários não a pouparam por delicadeza. Ficaram com medo de que ela chorasse diante de perguntas duras e que a vitimização lhe rendesse votos. Foram tão cautelosos que quase se desculpavam por ter de questioná-la sobre corrupção. Nos bastidores do debate, reinava o constrangimento. O principal sentimento era de vergonha alheia. “Não dava nem para comemorar um gol em cima dela”, disse o assessor de um dos candidatos. “A performance dela foi triste, lamentável”, afirma o cientista político David Fleischer. “Virou a mulher laranja.”
Assessores de Roriz avaliaram que, para alguém tão inexperiente, Weslian não se saiu tão mal. Sobretudo porque abordou de supetão Agnelo Queiroz sobre um tema que vem dando dor de cabeça ao PT: o aborto. Católica praticante, Weslian perguntou se Agnelo era a favor do aborto – e fez isso quando deveria ter respondido a uma pergunta sobre transporte público. Surpreso, Agnelo só respondeu no bloco seguinte. Afirmou ser contra o aborto. Em outro momento, Weslian deveria fazer uma pergunta sobre gestão pública a Toninho (PSOL). Procurou a pergunta em meio a seus papéis, separados por marcadores coloridos. Quando achou que tinha a folha certa, fez a pergunta... sobre emprego.
BODAS DE OURO
Weslian e Roriz em campanha. Os dois são casados há 50 anos. Mas ela é novata em política
Weslian não é a primeira mulher usada pelo marido em disputas eleitorais. Para ficar apenas num exemplo recente, na Argentina, o presidente Néstor Kirchner lançou a candidatura da mulher, Cristina, para suceder-lhe – mas ela em pouco tempo provou que não é títere do marido. Com Weslian, Roriz corre pouco risco. Por isso procuradores do Ministério Público Eleitoral temem a proliferação de “laranjas eleitorais”.
Até a semana passada, Weslian só era conhecida pelos trabalhos sociais nos governos do marido. Um dos programas de maior visibilidade com que se envolveu foi o treinamento de cães-guia para cegos. Em 2005, um labrador treinado em Brasília foi usado na novela América, da TV Globo, para guiar o ator Marcos Frota, que fazia o papel de um cego. De certa forma, com sua candidatura, Weslian – e, por trás dela, Roriz – está agora apostando em outro tipo de cegueira.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Ahmadinejad acusa os EUA de fabricarem o 11/9

Ahmadinejad acusa os EUA de fabricarem o 11/9
Diplomatas deixam sessão da ONU em protesto a teorias conspiratórias; Obama diz que porta do diálogo ainda está aberta
Fernanda Godoy Correspondente
 NOVA YORK. Cumprindo com o que já parece uma tradição — a de levantar polêmicas e protest o sem todas as suas aparições na tribuna das Nações Unidas — o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, irritou mais uma vez a diplomacia internacional ao usar boa parte dos seus 15 minutos de apresentação na Assembleia Geral da ONU para propagar teorias conspiratórias. Para Ahmadinejad, os atentados de 11 de setembro foram orquestrados pelos próprios Estados Unidos como “uma campanha de propaganda para reverter a combalida economia americana e salvar o regime sionista (Israel). As palavras — pronunciadas em Nova York, a poucos metros do Marco Zero — fizeram com que diplomatas americanos e de 27 delegações europeias deixassem a audiência em protesto.
— A maioria do povo americano, assim como a maioria das nações e dos políticos de todo o mundo, concorda com essa visão — justificou Ahmadinejad diante da plateia.
Ele apresentou ainda uma outra teoria, segundo a qual os atentados poderiam ter sido perpetrados por um grupo terrorista com o apoio dos EUA — que teriam obtido vantagens com a tragédia. Exibindo dois exemplares do Alcorão, o líder iraniano criticou a ameaça da queima do livro sagrado, a ocupação israelense dos territórios palestinos, e não poupou críticas à decisão da ONU de impor novas sanções a seu país.
Do lado de fora, protesto contra líder do Irã Num comunicado, a missão americana na ONU condenou Ahmadinejad, afirmando que “em vez de representar a boa vontade do povo iraniano, ele optou por destilar teorias conspiratórias e insultos antissemitas abomináveis”. O porta-voz da Casa Branca, Phillip Crowley, classificou a retórica do líder iraniano como um ultraje: — Nós sabemos quem fez (os ataques) e eles mesmo admitiram isso. A ideia de que nove anos depois ainda haja qualquer debate sobre quem fez e por quê são ultrajantes.
O tom furioso da diplomacia americana e europeia após o discurso era predominante fora do prédio da ONU. Pelo menos 800 pessoas — entre elas iranianos e americanos de origem iraniana — protestaram contra a presença de Ahmadinejad em Nova York. O grupo foi reforçado ainda pela presença do exprefeito da cidade à época do 11 de setembro, Rudy Giuliani.
O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, contornou o clima de atrito: — Tive uma conversa franca com ele. Em geral, as coisas que nos tem prometido tem ocorrido, as coisas que ele indica que vai fazer, faz. Sobretudo na declaração de Teerã isso ocorreu.
 Em outros aspectos também.
Vocês assistiram: a moça que foi libertada e a mãe dela foram agradecer. Se elas foram lá agradecer é porque acham que tem algum sentido, não é? Mais cedo, o presidente dos EUA, Barack Obama, focou seu discurso no Oriente Médio. Defendendo a criação do Estado Palestino diante das cadeiras vazias da delegação israelense — ausente devido ao feriado judaico de Sucot — Obama foi aplaudido ao pedir que o novo país já exista na próxima assembleia, em um ano. Ele reiterou que as portas da diplomacia continuam abertas ao Irã — se o país optar por esse caminho.
— Mas o governo iraniano precisa mostrar compromisso confiável e confirmar ao mundo as intenções pacíficas de seu programa nuclear — advertiu.
Obama quebra protocolo e estoura tempo no púlpito Obama estendeu seu discurso por mais de 30 minutos — contrariando a regra que estipula 15 minutos para cada líder no púlpito. Ele abordou quase todos os temas da extensa agenda de sua política externa — como a retirada das tropas americanas do Iraque e os rumos da guerra no Afeganistão —, mas ateve-se ao processo de paz entre israelenses e palestinos, ameaçado pelo fim do congelamento da construção de colônias na Cisjordânia, previsto para domingo. O presidente frisou que a existência de Israel não pode ser motivo de questionamento e elogiou o presidente palestino, Mahmoud Abbas.
— Não se enganem: a coragem de um homem como o presidente Abbas, que defende seu povo diante do mundo, é muito maior do que a daqueles que lançam foguetes contra mulheres e crianças — afirmou Obama, numa referência velada ao grupo Hamas, na Faixa de Gaza.
O presidente foi veemente na defesa da Palestina como única forma de garantir a paz para os povos do Oriente Médio: — Se um acordo não for alcançado, os palestinos nunca conhecerão o orgulho e a dignidade que vêm com seu próprio Estado. E os israelenses nunca terão a segurança que vem com vizinhos soberanos e estáveis, comprometidos com a coexistência.
 Mais sangue será derramado.
A Terra Santa ficará como símbolo de nossas diferenças, em vez de um símbolo de uma humanidade compartilhada.

sexta-feira, setembro 10, 2010

O real forte

O real forte
Celso Ming - O Estado de S. Paulo - 09/09/2010
 A queda das cotações do dólar no câmbio interno (valorização do real) voltou a ser foco de críticas à maneira como o governo vem conduzindo a política cambial.
Às vezes, atacam até mesmo o sistema de livre flutuação, como parece ter sido o centro das acusações feitas pelo candidato do PSDB à Presidência, José Serra: "O câmbio no Brasil é flutuante só para baixo", disse ele durante a sabatina promovida pelo Estado, na última segunda-feira.
O conjunto de críticas de várias procedências não chega a ser coerente. Os mesmos que avisam que o câmbio baixo provoca desindustrialização, também fustigam a forte disparada das importações, como se isso não provocasse o efeito por eles pretendido, que é o aumento da procura de moeda estrangeira. Outras vezes, entendem que a compra de dólares pelo Banco Central, que já acumula reservas de US$ 262 bilhões, é insatisfatória diante das necessidades de criação de demanda para o dólar. Não lhes ocorre que o cacife em reservas é, por si só, fator de atração de dólares, uma vez que blinda a economia contra crises.
Desde dezembro de 2008, o real valorizou-se 35% diante do dólar (veja o gráfico). Não há apenas uma única explicação para isso. Em boa parte, foi o dólar que se enfraqueceu em relação às demais moedas, em consequência da deterioração das finanças públicas nos Estados Unidos. Em parte, deveu-se à manutenção de nível elevado dos juros, que atrai capitais para ganhar com a diferença do custo de dinheiro. E também é reflexo do fortalecimento da economia brasileira numa paisagem de crise internacional. Na semana passada, o Bank for International Settlements (BIS) publicou relatório que indicou o real como nova atração do mercado financeiro.
Outros críticos apontam como decisiva a existência de doença holandesa, ou seja, a crescente receita com exportação de commodities. Mas este não é fator relevante para entender a valorização do real, porque as importações avançam quase duas vezes mais do que as exportações.
O novo surto de valorização das últimas seis semanas tem a ver com a perspectiva de forte entrada de moeda estrangeira para a subscrição de capital da Petrobrás e não com a arbitragem com juros.
A proposta de volta ao câmbio fixo não faz sentido. Além de desarrumar a economia, exigiria enorme arsenal em reais que permitisse compras de moeda estrangeira pelo Banco Central, ou até mesmo pelo Tesouro, sem provocar inflação.
Mas há, sim, o que fazer dentro do atual regime de câmbio flutuante e sistema de metas de inflação para corrigir a excessiva valorização do real. Os juros precisam cair mais, não para estancar o afluxo de moeda estrangeira, e sim para ajustar o valor do real em relação a ele mesmo. Mas para que os juros caiam sem provocar inflação, será preciso conter o consumo interno causado pela disparada das despesas públicas. A queda do dólar também tem a ver com o desarranjo fiscal do País.
Em situação de normalidade não dá para esperar demais por uma virada na tendência do câmbio. Este é um país cuja dívida externa tem grau de investimento e os capitais estão agora prontos para aportar por aqui. Afora isso, é enorme a necessidade de recursos para infraestrutura, o pré-sal e a capitalização das empresas brasileiras. E isso puxa o real para cima.
CONFIRA
O segundo melhor mês A produção de veículos em agosto foi a segunda maior de todos os tempos. Foi menor apenas do que a de março deste ano, em que ainda vigorava a isenção de IPI para o setor.
Sem desindustrialização Nos 12 meses terminados em agosto, a produção cresceu 19,3%, e na acumulada do ano, 17,5%, números de produzir inveja nos países ricos onde a paradeira continua. Essa é também indicação de que não há o processo de desindustrialização tão denunciado nas últimas semanas pela liderança da Fiesp.

segunda-feira, julho 26, 2010

Uma luta ainda sem resultados seguros

Uma luta ainda sem resultados seguros
Para especialistas, investimentos e gestão de verbas públicas para combate à violência urbana estão longe do ideal
Roberto Maltchik

BRASÍLIA. Confrontados com o número alarmante de mais de 45 mil homicídios por ano no país, os candidatos à Presidência e aos governos estaduais têm pela frente um debate áspero: vencer a luta contra a violência urbana.
Investimentos e gestão das verbas públicas estão bem aquém do adequado, dizem autoridades e especialistas ouvidos pelo GLOBO. Só no caso da União, que deve complementar o investimento estadual, o orçamento previsto para 2010 em segurança pública é de R$ 3,3 bilhões, 252% a mais em relação a 2003. Mas o valor é só a metade do que o próprio governo considera ideal para combater a insegurança.
Além do reforço de caixa, o sociólogo Luis Flávio Sapori, da PUC-MG, diz que chegou a hora de o país tratar os principais gargalos do sistema: gestão amadora, precariedade da inteligência e falta de dados confiáveis para programas de longo prazo. Em 2008, segundo o Anuário 2009 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, União e estados investiram R$ 13,7 bilhões em policiamento, mas o gasto com informação e inteligência foi só de R$ 336 milhões (2,45% do valor).
— O investimento já é baixo na comparação com o ideal. E a maioria dos estados depende da verba federal para segurança pública, mas a burocracia para liberar o dinheiro é infernal — diz Sapori, coordenador de um estudo da PUC-MG que indica o alto índice de homicídios ligados ao consumo e tráfico de crack.
Um dos desafios é permitir a integração operacional das polícias Militar e Civil. Outra praga é a politicagem. Para o diretor do Instituto de Criminalística do Distrito Federal, Celso Nenevê, ela estimula a consolidação de uma polícia burra: — Dois equipamentos básicos de perícia custam quase R$ 1 milhão. Às vezes, investimento em perícia leva mais de quatro anos para aparecer, e, por isso, o governante acaba comprando sem necessidade até viaturas, que têm mais visibilidade.
O sociólogo Marcos Rolim diz que ficarão para o próximo governo a expansão e o aprimoramento do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), lançado pelo Ministério da Justiça em 2007 para unir prevenção ao crime e recuperação social de jovens em áreas de extrema violência.
Com atuação do crime organizado, o Rio tornou-se laboratório do Pronasci. O estado recebeu, de 2008 a 2009, R$ 307,8 milhões — maior volume de verba repassado pelo programa a um estado.
Como resultado, o governo fluminense pôde implementar dez Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em áreas antes dominadas pelo tráfico. O coordenador do Viva Rio, Rubem César Fernandes, crê que o sistema vem sendo bem aplicado, mas longe de atingir as metas: — Para ter escala, o Pronasci deveria ter integração maior com saúde e educação. Hoje, ele atende a centenas de jovens em risco, mas para ser efetivo deveria chegar a milhares.
Já a recuperação de jovens infratores, outra prioridade do programa, ainda patina. Nenhuma das 40 mil vagas que o Pronasci pretendia criar em presídios especiais para jovens de 18 a 24 anos saiu do papel.
O ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, informou que está em curso a negociação com os estados para definir o valor do piso nacional dos policiais. A Proposta de Emenda Constitucional nº300 foi aprovada em primeiro turno na Câmara. Mas ainda não há consenso sobre o valor do piso, embora prospere a ideia de piso de R$ 3.500 a policiais e R$ 7 mil a delegados.
Barreto admite que, no patamar atual, a polícia brasileira não está pronta para assegurar tranquilidade na Copa de 2014: — Até por uma razão prática, o Mundial, precisamos da nossa polícia em outro patamar.

sábado, julho 24, 2010

Desigualdade latina, a maior do mundo -mas em queda

https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2955776538147348653-234283214105044287?l=noracebr.blogspot.comDesigualdade latina, a maior do mundo -mas em queda
MARCELO NERI
ESPECIAL PARA A FOLHA

Se no futuro um historiador fosse nomear as principais mudanças ocorridas na sociedade brasileira e latino-americana na primeira década do terceiro milênio, poderia chamá-la de década da redução da desigualdade de renda. Da mesma forma que a de 90 foi a da estabilidade para nós (depois dos vizinhos) e a de 80 a da redemocratização.
De 2001 até 2008 a renda real per capita dos 10% mais ricos cresceu 11,2% e a dos 10% mais pobres 72% puxados como o crescimento e os olhos dos chineses. Existe paralelo entre a fotografia e os movimentos do Brasil e da América Latina. Em ambos, o nível da desigualdade é dos mais altos do mundo, mas está em queda.
A má notícia é que ainda somos muito desiguais, a boa notícia prospectiva é que há crescimento a ser gerado na base da pirâmide social. Há três contribuições centrais do relatório do Pnud: 1) Incorporar o efeito da desigualdade em todas as dimensões centrais do desenvolvimento humano -leia-se educação e saúde para além da renda.
Não estamos apenas olhando para médias, mas para a distribuição desses elementos ao longo de nossas desiguais sociedades. 2) Alongar o horizonte de tempo para além dos anos correntes, ou mesmo do ciclo de vida das pessoas, o que já seria um formidável avanço. O relatório vai além, olhando a transmissão da desigualdade entre gerações pelas vias da educação.
3) Olhar as aspirações e as atitudes subjetivas através da investigação sistemática e objetiva de aspectos subjetivos. Não há mudança real, sem a visão e ação daqueles que as protagonizam.
Apesar de todas as dificuldades e os riscos associados à empreitada, podemos agora começar a tentar entender as mentes inspiradoras do realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez ou dos bares lúgubres de Mário Vargas Llosa.
MARCELO NERI, economista, é chefe do Centro de Políticas Sociais vinculado à Fundação Getulio Vargas.

sábado, junho 19, 2010

A hipocrisia da Fifa e a mente colonizada do brasileiro

A hipocrisia da Fifa e a mente colonizada do brasileiro

Que a Copa do Mundo é um circo montado para movimentar milhões ninguém mais tem dúvida.
Mas, pelo menos, a entidade que dirige o futebol mundial deveria ter um pingo de coerência, pelo menos para disfarçar. Isso não é nem o pior lado da questão. Pior ainda é a postura de colonizado, de subdesenvolvido querendo parecer civilizado, adotada pelos governantes brasileiros em relação à Fifa. Parece que Joseph Blatter, o presidente e dono da bola no planeta, está nos fazendo um grande favor em deixar o Brasil sediar a próxima Copa.

Vejam quanta hipocrisia. Há alguns meses, nosso prefeito e nosso governador proibiram a venda de bebidas alcoólicas dentro do Maracanã e num raio de dois quilômetros do estádio. A justificativa (a prefeitura adora ter uma justificativa para proibir alguma coisa) foi de que, em competições da Fifa, como a Copa, é proibido ingerir bebida embriagante.
- Temos que nos adequar as determinações da Fifa - alguém encheu a boca para falar.
Ok, ótimo, olha nós aí entrando no primeiro mundo.
Como efeito colateral, muitos bares na área do Maracanã perderam sua maior fonte de faturamento. Vão falir, mas o Brasil cumpre suas obrigações para sediar o maior evento de futebol do planeta.
Aí eu ligo a TV para assistir à Copa da África do Sul e levo um susto: na platéia, todo mundo com sua garrafinha de cerveja na mão!
Ah, lá pode?
A Budweiser é patrocinadora, me avisa o colega aqui do JB Fábio Grijó.
Ué, mas e a proibição aqui no Brasil?
Coisa de quem quer ser mais realista que o rei...

terça-feira, junho 01, 2010

Pesquisas complicadas

Pesquisas complicadas
Por Alon Feuerwerker

O vexame do primeiro turno nas eleições colombianas ficou reservado para dois personagens. Antanas Mockus, candidato do Partido Verde, e os institutos de pesquisa. Estes davam Mockus empatado com Juan Manuel Santos, o nome do governo, num patamar de 40%.
Abertas as urnas, Santos confirmou seus votos com sobra (ficou a menos de quatro pontos da maioria absoluta e da vitória já no primeiro turno), mas Mockus teve apenas metade do que lhe previam as sondagens.
Uma hipótese seria a fraude, mas não parece provável. Outra seria a súbita mudança do eleitorado na véspera da eleição, possibilidade não comprovável. Uma terceira seria a subestimação do voto rural, como sugeriu ontem um perplexo Mockus.
São todas variáveis a considerar na busca da explicação, mas politicamente importam pouco. Santos e Mockus vão ao segundo turno, o que era esperado, mas com o candidato da oposição em circunstâncias dificílimas, como ele mesmo admite.
Para nós, além de aguardar pelo desfecho eleitoral no complicado vizinho, talvez valha a pena refletir sobre a importância dada também aqui às pesquisas e aos institutos que as produzem. Já faz algum tempo que acompanhar eleição no Brasil resume-se a um tripé: colecionar aspas dos candidatos, aguardar pelo próximos escândalos e roer as unhas à espera dos novos levantamentos de intenção de voto.
É preciso porém fazer justiça. Até que os agora protagonistas do espetáculo andam fazendo esforço para introduzir assuntos programáticos na agenda. A falta de hábito leva a coisa a estar ainda mambembe, mas bem ou mal já compareceram ao palco itens como a autonomia do Banco Central, o papel do Mercosul, o tráfico de drogas nas fronteiras, o financiamento da saúde, as linhas gerais da política externa.
Não que nas eleições anteriores os assuntos programáticos tenham sido simplesmente excluídos. A eles costuma se reservar um acompanhamento quase cartorial, protocolar. Os candidatos produzem por meio de suas assessorias alentados calhamaços, que os jornais registram e até publicam, mas pouca ou nenhuma influência real têm no processo.
Gosto mesmo, quem desperta são as pesquisas. Elas reinam onipotentes, onipresentes e oniscientes, inclusive nos detalhes. Mesmo quando as margens de erro são absurdamente grandes. Uma coisa é a pesquisa nacional ter 2% ou 3% de erro, outra é não esclarecer ao eleitor (ou leitor) que a margem se multiplica na análise segmentada (por região, sexo, escolaridade etc.), pois a amostra fica pequena em relação ao universo pesquisado.
De positivo, apenas um detalhe comprovado pela enésima vez agora na Colômbia: as pesquisas podem até influenciar os analistas, mas o eleitor comum dá pouquíssima bola para elas. Muita saliva, papel, tinta, bit e bytes por nada. Ou por muito pouco.
Na Colômbia, como aqui, o eleitor decide em função de seus desejos, necessidades, escolhendo o líder que considera mais capaz de conduzir o país num rumo que traga benefícios reais a ele, eleitor.

Conclat
As entidades sindicais realizam sua conferência (Conclat) em ambiente eleitoral. Mas isso não deve ser usado para desqualificar o evento. Importante é que os sindicatos, federações, confederações e centrais amarrem suas reivindicações e propostas.
Seria desejável também que as entregassem a todos os candidatos, ainda que a preferência dos organizadores esteja clara, por Dilma Rousseff (PT). Isso não deveria impedir que buscassem um diálogo com pelo menos os outros três nomes mais expressivos.
A União Nacional dos Estudantes, liderada pelo PCdoB, optou por esse caminho e preservou sua unidade. O movimento sindical, diferentemente do estudantil, é pulverizado em diversas centrais, mas a Conclat reúne a esmagadora maioria.

Explosões
O trágico desfecho da tentativa de furar por via marítima o bloqueio a Gaza reforça a necessidade de negociações por uma saída definitiva para o impasse regional no Oriente Médio.
Negociações que só caminharão a partir de uma premissa: todos os povos dali têm direito a seu Estado nacional, em segurança. A paz será consequência disso.
Ou serão sempre explosões, periódicas, de violência e ódio. Como a de agora.

Skoob

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