quarta-feira, junho 09, 2010
Pinturas pré-históricas abertas de novo ao público na Espanha
Pinturas pré-históricas abertas de novo ao público na Espanha
Jornal do Brasil
DA REDAÇÃO - As cavernas de Altamira, no norte da Espanha, que abrigam importantes pinturas pré-históricas declaradas Patrimônio da Humanidade pela Unesco, voltarão a ser abertas ao público no fim do ano, mas de forma limitada, informou o governo espanhol.
As cavernas de Altamira foram achadas em 1879, um feito que significou a descoberta da arte rupestre paleolítica, cujas principais representantes são Altamira e as cavernas de Lascaux, no sudoeste da França. Em 1985, foram declaradas Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
As pinturas em rocha, que datam do Paleolítico Superior, há 15 mil anos, representam bisões, cavalos, cervos, além de mãos e outros signos, e são uma amostra do apogeu da arte rupestre paleolítica que se desenvolveu em toda a Europa, dos Montes Urais à Península Ibérica, entre os anos 35 mil e 11 mil a.C., segundo a Unesco. Em setembro de 2002, elas foram fechadas pela segunda vez, depois de uma primeira interdição entre 1977 e 1982.Segundo relatório o Conselho Superior de Pesquisas Científicas, “a entrada continuada de visitantes provocaria uma nova mudança microambiental e novos aportes de nutrientes que poderiam levar a uma fase de proliferação” de microorganismos que podem danificar as pinturas. Mas o governo espanhol garante que as cavernas abrirão com todas as garantias para não provocar danos nas pinturas. Haverá restrições, para permitir acesso aos visitantes, ajudando assim a captar parte dos custos de manutenção do sítio arqueológico, além de garantir a preservação das pinturas.
As lições, depois da tempestade
As lições, depois da tempestade
Editorial, Jornal do Brasil
RIO - As chuvas de abril provocaram um rastro de destruição que até hoje, dois meses depois, o Rio de Janeiro não esqueceu. E, provavelmente, nem esquecerá. As águas, a lama, a nuvem de poeira em seguida já passaram. Mas os episódios trágicos deixaram um saldo de 262 mortes, milhares de desabrigados, prejuízos e clareiras abertas nos morros como se fossem feridas que levarão tempo para cicatrizar. Acima de tudo, os temporais de abril precisam deixar lições.
Nem tudo, talvez muito pouco, se deveu à força da natureza. Quais foram as principais causas, o que poderia ter sido evitado, o que deve ser feito para que a história não se repita? Esse foi o tema do seminário Chuvas de abril, lições e soluções, promovido anteontem pelo Jornal do Brasil e pelo Clube de Engenharia, que reuniu especialistas e autoridades como o ministro das Cidades, Marcio Fortes.
Falta de planejamento urbano; ausência de uma política habitacional; descaso, quando não incentivo, do poder público em relação à ocupação irregular das encostas – vários são os fatores que contribuíram para potencializar a tragédia anunciada.
Algumas razões, as mais óbvias, são conhecidas e foram amplamente discutidas no auge dos acontecimentos. Outras, no entanto, representam ações preventivas menos consideradas. Marcio Fortes, por exemplo, ressaltou que, quando se trata de saneamento básico, a intervenção não deve ficar restrita ao fornecimento de água e rede de esgoto. É preciso observar também a macro e a microdrenagem, lembrou o ministro das Cidades.
O presidente do núcleo Rio de Janeiro da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos, Ian Shuman, sugeriu a criação de um órgão estadual de monitoramento de encostas.
O investimento em pesquisas geotécnicas é ainda mais importante quando se tem em vista que os deslizamentos ocorreram mesmo em locais onde não havia ocupação irregular. Até em áreas sem moradias houve deslocamento de terras.
A responsabilidade pela fiscalização das encostas, hoje municipal, foi criticada pela secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos. O vice-prefeito, e seu colega de pasta no município do Rio, Carlos Alberto Muniz, anunciou que a cidade terá um “exército” para enfrentar próximos desastres e calamidades, com uma reestruturação e integração da Defesa Civil com outros órgãos da prefeitura.
Que seja assim. E que todas as autoridades responsáveis pela prevenção façam a sua parte, de preferência de modo planejado e que reúna os esforços das três esferas de governo, pois algumas tarefas são desafiadoras, como a desocupação das áreas de risco. Isso requer investimentos habitacionais de relevo associados a uma relação confiável com as comunidades. Afinal, a inoperância e a demagogia não podem dar lugar, no extremo oposto, ao desrespeito e à coação às populações vulneráveis.
FOTO: O gramado do Maracanã inundado depois das chuvas de abril de 2010.
Novas derrotas
Novas derrotas
Merval Pereira
A política externa brasileira sofreu ontem duas novas derrotas no seu confronto com os Estados Unidos. O Conselho de Segurança da ONU se reúne hoje para definir as sanções contra o Irã devido ao seu programa nuclear, e a Organização dos Estados Americanos (OEA), por pressão da secretária de Estado Hillary Clinton, formou uma comissão especial para preparar o retorno de Honduras ao órgão.
Nos dois casos, o Brasil está em posição oposta à dos Estados Unidos e tentou, sem sucesso, inviabilizar a solução defendida pelos americanos.
No caso de Honduras, o Brasil insiste na tecla de que a situação só se normalizará com o retorno do ex-presidente Manuel Zelaya ao país sem ter que responder pelos crimes de que é acusado - tentativa de golpe e corrupção.
O presidente eleito Porfírio Lobo, não reconhecido pelo governo brasileiro, mas considerado pelos Estados Unidos eleito normalmente e democrático, não aceita essa "anistia" defendida pelo Brasil e alguns outros países da região, com o apoio do secretário-geral da OEA Manuel Insulza.
O fato de que uma comissão analisará a situação democrática em Honduras para definir seu regresso à OEA deixa a questão um passo adiante da picuinha dos aliados do ex-presidente, que condicionam o retorno a uma espécie de satisfação a Zelaya.
O Brasil participou de uma manobra chavista para criar um fato consumado, abrigando o presidente deposto na nossa embaixada em Tegucigalpa, de onde atuava politicamente para recuperar o poder.
Com a eleição realizada normalmente, Zelaya teve que sair da embaixada com um salvo-conduto do novo governo eleito democraticamente, sem condições políticas de permanecer no país.
Agora, tenta regressar com o apoio dos mesmos países na OEA, mas tudo indica que o retorno de Honduras ao organismo regional está sendo analisado com prioridade sobre uma eventual anistia.
Já o Conselho de Segurança da ONU chegou a um consenso sobre as sanções contra o Irã, apesar das tentativas de Brasil e Turquia de convencer seus membros de que o acordo nuclear que intermediaram seria uma solução mais adequada.
Como as sanções tendem a ser mais duras do que estava previsto, a derrota da diplomacia brasileira será proporcionalmente maior, numa demonstração de que os países que controlam as decisões do Conselho de Segurança da ONU, inclusive China e Rússia, rejeitam o ponto de vista brasileiro.
Na resolução do Conselho há uma referência aos esforços de Brasil e Turquia, afirmando que o acordo que patrocinaram poderia ser o início de um diálogo se o Irã demonstrasse estar de boa-fé, mas nas sugestões para a retomada do diálogo, que encerram a resolução, não há nenhuma referência ao acordo.
A lista negra de cerca de 40 empresas que ficarão impedidas de fazer negócios no exterior, para estrangular o financiamento do programa nuclear iraniano, deve abranger a empreiteira Khatam Al-Anbiya, que já foi banida dos negócios internacionais em 2007 pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e em 2008 pela União Europeia, por suas ligações com programa nuclear clandestino do Irã.
Várias de suas subsidiárias também devem estar na lista. Essas empresas são ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica e servem para financiar o programa nuclear. Empreiteiras brasileiras que porventura tenham acordos com elas sofrerão as consequências das sanções.
Como era de se esperar, e é natural que assim fosse, o presidente Lula soltou rojões verbais para comemorar o crescimento do PIB brasileiro no primeiro trimestre.
Mas, como sempre faz, exagerou na dose e extrapolou nos comentários, afirmando que este crescimento "extraordinário" é uma resposta àqueles que o "esculhambaram" quando disse que a crise internacional seria uma marolinha por aqui.
Ora, não apenas a crise não foi realmente uma "marolinha", pois o crescimento do país foi negativo em 2009, como foi a comparação com esse resultado muito ruim que permitiu que o PIB crescesse a ritmo chinês nesse primeiro trimestre. Crescimento, aliás, insustentável nas atuais condições do país, sem reformas e sem infraestrutura.
Os senadores das bancadas dos estados produtores de petróleo, especialmente os do Rio de Janeiro, estão passando por momentos dramáticos para tentar impedir que a nova legislação da distribuição dos royalties seja votada.
O problema é que a Confederação dos Municípios fez cálculos baseados na emenda Ibsen Pinheiro aprovada pela Câmara sobre quanto cada município ganha com a nova legislação dos royalties, como se já estivessem ganhando, e os senadores estão sendo pressionados para aprovar logo as mudanças.
O senador Pedro Simon, por sua vez, apresentou uma emenda dizendo que a União ressarcirá os estados produtores do que eles perderem com os novos critérios.
Os senadores dos estados produtores estão em uma queda de braço para ver se não votam a lei dos royalties agora, para evitar o clima emocional em época de eleição.
O líder do governo Romero Jucá fez uma emenda unindo o Fundo Social com a partilha, sem os royalties. Os senadores que são contra a mudança do sistema de concessão para partilha temem que, se derrotarem essa emenda, o governo tente retornar com a emenda original para uma espécie de segunda época da partilha, mas aí ela viria a debate juntamente com os royalties.
Tudo caminha para um acordo que aprovará a partilha e o Fundo Social, e deixará para novembro a discussão dos royalties.
Mas a pressão dos municípios está grande, e a emenda de Pedro Simon parece ser uma falsa solução, perigosa para os estados produtores, que dificilmente receberiam essa diferença da União.
O sagrado no mistério do namoro
O sagrado no mistério do namoro
Marcelo Barros
Nos meios de comunicação e na vida de muitos jovens, esta semana é dominada pelas comemorações do dia dos namorados. O comércio promove tudo o que pode para lucrar mais. Talvez, por causa disso, muitos eventos em torno desta data recorrem a certo romantismo, com tal apelo emocional que, dificilmente, escapam ao que, popularmente, se classificaria como brega. Entretanto, no mundo da internet rápida, no qual as pessoas namoram virtualmente e há até quem combine casamento sem nunca ter encontrado realmente a pessoa em questão, o namoro clássico pode ser excelente instrumento para uma aproximação gradual da outra pessoa e um útil aprendizado da bela, mas exigente arte de amar. Nos anos 60, a “arte de amar” foi título e tema de um livro do psicólogo norte-americano Erick Fromm. Ele nos ensinava que, embora o amor corresponda a um desejo natural e a um impulso instintivo de todo ser humano, na realidade, amar é mais do que isso. Mesmo se, nas pessoas, o amor parece ser algo espontâneo, supõe um aprendizado, na maioria das vezes, lento e progressivo. Tanto na cultura urbana, como nos ambientes mais rurais, quem namora aprende a lidar com o outro como alguém que é íntimo e, ao mesmo tempo, sempre um mistério sagrado a ser contemplado e assumido como tal, mas nunca totalmente decifrado.
Aparentemente, o namoro nada teria a ver com a fé e a espiritualidade. Entretanto, em várias tradições religiosas, a aproximação amorosa de duas pessoas é vista como sinal e profecia da intimidade de Deus. Na Bíblia, o profeta Jeremias lembra ao povo de Israel a travessia do deserto, como tempo do namoro com o Senhor (Jr 2). Oséias diz que Deus promete ao povo cativo: “Vou de novo conduzi-la ao deserto e falar ao seu coração” (Os 2, 16 ss). No tempo das primeiras comunidades cristãs, o livro do Apocalipse contém uma carta à Igreja de Éfeso, na qual o Cristo apela: “Volta ao primeiro amor da tua juventude”.
Na Bíblia, o deserto é um lugar geográfico que para o povo dos hebreus representou o tempo do aprendizado do amor solidário, da experiência de ser livre e de descobrir mais profundamente a intimidade de Deus. Com a evolução da revelação divina, o termo “deserto” se tornou símbolo de todo caminho para a interioridade. Ninguém precisa de Bíblia para compreender porque quem namora gosta de lugares mais retirados e discretos. O amor precisa de momentos e de espaços assim, não apenas para experimentar a relação sensual. Esta pode ser profundamente espiritual e sagrada, mas a intimidade da relação amorosa serve também para que as pessoas se encontrem de coração a coração. Então, cada um/uma pode estimular a outra pessoa a uma viagem mística até o mais íntimo de si. Ali, como em um jardim secreto, no qual só quem é iniciado penetra, Alguém mais íntimo a nós do que nós mesmos nos espera e nos renova na inefável arte de amar.
Esta arte precisa ser desenvolvida por toda a vida, independentemente de idade e condição social. Há poucos meses, na Itália, partiu para a outra dimensão da vida, uma poetisa que, durante anos, foi candidata a prêmio Nobel de literatura. Através de um amigo comum, conheci e me tornei amigo de Alda Merini. Era uma mulher muito original. Viveu em Milão, quase sempre sozinha, mas, até seus quase 80 anos, era sempre possuída por uma intensa busca do amor apaixonado e romântico. Uma vez, me mostrou vários de seus poemas. Mesmo sem ter a necessária veia poética, traduzi alguns e ouso partilhar com vocês um deles, transcrito como prosa. Faço-o, em memória da querida Alda Merini e o dedico a toda pessoa apaixonada. Chama-se: “O namorado”.
“Todos perguntam quem é meu namorado. Querem saber com quem gosto tanto de, durante o dia, falar e por noites inteiras tagarelar.
Descobriram que não falo com ninguém e com este ninguém intimamente converso. Chamaram-me louca porque eu falava com tua sombra e porque sempre te via, presente no meu aconchego. Eu te via e ainda vejo sobre as paredes, a te mover. Contigo caminho no lento vagar das horas e em meu corpo imprimes o teu sabor. Deitamo-nos como no ar e tu teces em minha alma arabescas posições de amor.
Não vais à Igreja, à devoção, simplesmente para ficares perto de mim, porque eu mesma sou tua prece, tua canção. Eu te vislumbro até na escuridão e de ti não me separo, nem na mais cruel solidão.
Sei que me procuras no umbral da janela, esperando o xeque-mate da minha vida, qual cavaleiro do rei e do bem. Estás presente na casuarina que geme, como na espiral da morte que se pressente e vem.
As vezes, dá-me a sensação de te seguir até o além, quando me levam de novo a um hospital psiquiátrico, somente porque te quero bem”.
Revelar segredo a quem já sabe não é crime
INQUÉRITO TRANCADO
Revelar segredo a quem já sabe não é crime
POR GEIZA MARTINS
Segredo é o que deve ser mantido em sigilo, sem qualquer divulgação. Se o funcionário conta o fato sigiloso a quem dele já possui conhecimento, não se consuma a infração penal. Com esse entendimento, a desembargadora federal Assusete Magalhães determinou o trancamento em definitivo do inquérito da Polícia Federal aberto para investigar suposto tráfico de influência do ex-deputado federal pelo PT de São Paulo e advogado Luiz Eduardo Greenhalgh dentro do Palácio do Planalto.
A decisão, por unanimidade, foi tomada pela 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que confirmou ordem da juíza Maria de Fátima Paula Pessoa Costa, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal. Em junho de 2009, a juíza ordenou o arquivamento do inquérito. O Ministério Público Federal recorreu e o caso chegou ao TRF-1.
Durante as investigações da Operação Satiagraha, a Polícia Federal interceptou telefonemas de Greenhalgh para Gilberto Carvalho, chefe de gabinete da Presidência da República. Nas ligações, efetuadas em 2008, o ex-deputado pediu a Carvalho que verificasse se a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) estava vigiando Humberto Braz, executivo do banco Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, alvo da operação. Greenhalgh é advogado de Daniel Dantas.
Assusete baseou-se em jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça que determina o trancamento quando é configurada “hipótese extraordinária”. A desembargadora destacou que diálogo e os depoimentos transcritos de Gilberto Carvalho e Greenhalgh “demonstram que, naquela ocasião, o próprio policial militar já havia revelado, à Polícia Civil do Rio de Janeiro, a sua identidade e o fato de estar a serviço da Presidência da República”.
A relatora ainda ressaltou que, embora Carvalho tenha afirmado a Greenhalgh que a Abin não estava investigando Humberto Braz, “nada foi revelado quanto ao conteúdo ou à natureza do serviço executado”. Assusete citou a própria decisão de primeira instância que diz: “É importante lembrar que nem mesmo sigilosa era a condição funcional de tal ‘araponga’, pois foi ele mesmo – segundo se depreende dos autos – quem se apresentou em público como tal. Portanto, não havia mais como se considerar como sigilosa qualquer informação a respeito”.
Leia a decisão.
Noodle Chef, Tailândia Fotografia por Dean McCartney
Uma peneira de massa de macarrão integral fresco, fora de um fogo aberto, comanda a concentração total de um cozinheiro na Chinatown de Bangkok. A habilidade dos chefs de rua e o aroma das suas criações são irresistíveis para muitos transeuntes.
Um espião em seu computador
Um espião em seu computador
A operadora Oi adotou um programa que rastreia tudo o que seus clientes de banda larga fazem na internet. Por que isso é uma ameaça para nós
Bruno Ferrari e Camila Guimarães - Época
Existe um programa de computador que registra tudo o que você faz na internet. Acionado, ele sabe que você entrou no Orkut, digitou o nome de uma ex-namorada no campo de busca, depois visitou o perfil dos amigos dela. Também viu que entrou num site de vendas e procurou uma nova torradeira. Anotou as opções que você comparou. Acompanhou sua visita ao site do banco para consultar o saldo. Seguiu seus passos no site de e-mail enquanto você abria cada mensagem. Viu que você entrou no Facebook. E quando você clicou num vídeo divertido que alguém recomendou. Esse programa anota quanto tempo você gastou em cada uma dessas atividades. E transmite toda essa informação a uma empresa que analisa seu comportamento e o classifica de acordo com algum rótulo. Soa amedrontador? Pois é real. Esse tipo de invasão de privacidade ameaça os internautas brasileiros.
A sequência acima, de rastreamento da navegação na internet, descreve o serviço oferecido pela empresa inglesa Phorm. Ela está chegando ao Brasil. Seu principal cliente aqui é o provedor de internet Velox, serviço oferecido no Rio de Janeiro pela operadora de telecomunicações Oi. A Oi está testando aqui uma versão do programa da Phorm chamada Navegador. É uma tecnologia que está longe de ser aceita no mundo. Desde 2002, quando foi criada pela Phorm, ela tem gerado controvérsia internacional e levantado preocupações em grupos ligados à defesa dos direitos civis na internet. Essas resistências dificultaram sua adoção nos Estados Unidos e na Europa. Há o temor de que as informações pessoais sejam usadas de forma indevida. É evidente que uma empresa telefônica não pode grampear suas linhas. Por que, afinal, seu provedor de internet teria direito de saber o que você faz na rede? Um programa espião ameaça nossa liberdade?
Sua chegada foi discreta no Brasil. A primeira rodada de testes com o Navegador foi anunciada em março pela Oi, dona do provedor de banda larga Velox e do portal iG. De acordo com a Oi, ele começou a ser oferecido a internautas do Rio de Janeiro. A intenção da Oi é expandir aos usuários de todo o Estado até o final de 2010. O Navegador é um rastreador remoto (não fica instalado na máquina do usuário) dos passos que um internauta dá na rede. No início dos testes, Oi e Phorm anunciaram uma parceria com os portais Terra, UOL e Estadão. Procurada por ÉPOCA, a assessoria do Grupo Estado afirmou que “a parceria nunca existiu e o nome da empresa foi usado à revelia”. A Oi confirmou a parceria com UOL e Terra.
O objetivo do Navegador é detectar as preferências de quem navega na rede. A promessa da Oi é oferecer ao usuário uma navegação personalizada. Quem é torcedor do Flamengo passaria a ter automaticamente na tela do computador mais informações sobre o time. “Uma página será apresentada aos clientes para que decidam se desejam ativar a ferramenta”, diz a Oi. “A escolha e decisão é do cliente.” Oi e Phorm também afirmam que a tecnologia do rastreador traça o perfil dos usuários sem identificá-los. Isso seria possível graças a um recurso técnico. Assim que um internauta se conecta à web, imediatamente o Navegador associa a ele um número aleatório. É esse número interno – e não um nome público ou um endereço fixo na internet (conhecido tecnicamente como IP) – que a Phorm usa no rastreamento. “Nenhum dado pessoal, histórico de navegação ou endereço IP é armazenado pela ferramenta”, informou a Oi. “O sistema não rastreia e-mails, salas de bate-papo e páginas seguras, como sites de banco.”
O programa da Phorm também permite que o provedor de acesso mostre, a cada usuário, anúncios específicos, de acordo com seus interesses pessoais. Sites que tenham acordo com o provedor poderiam vender anúncios prometendo veiculá-los a internautas cujo perfil fosse mais interessante ao anunciante. Tal sistema é apresentado como um modo de aumentar a receita de provedores e sites de conteúdo. Só que, além de invasivo, ele pode representar uma concentração de poder nas mãos de uma empresa cuja missão deveria ser prover acesso de forma indistinta – sem discriminar o conteúdo ou publicidade que trafega em sua rede. Numa comparação com outro setor, a situação seria equivalente a uma empresa de eletricidade receber dinheiro cada vez que você ligasse uma determinada marca de eletrodoméstico na tomada.
Tamanho poder nas mãos da Phorm e da Oi pode representar uma ameaça à concorrência no mercado de publicidade on-line. A Oi argumenta que, como o iG detém em torno de 5% desse mercado, essa ameaça inexiste. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deverá julgar nas próximas semanas a parceria entre Oi e Phorm. Até agora, a Secretaria de Direito Econômico (SDE) e a Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE) deram parecer favorável à Oi. O caso estava na pauta do dia 5 de maio, mas o Cade decidiu pedir mais informações à Oi. Um novo julgamento ainda não foi marcado.
Além das questões comerciais, o maior estigma em torno dos programas de rastreamento da Phorm é a ameaça à privacidade. O Brasil está recebendo um programa espião rejeitado em outros países. O histórico da Phorm é sombrio. Ela foi fundada em 2002, com o nome de 121Media. Especializou-se na criação de programas para publicidade on-line. Seu primeiro produto foi classificado como um spyware, nome técnico dos programas espiões que se instalam na máquina do usuário sem consentimento e enviam informações a terceiros. No início da década passada, esses programas eram tão populares quanto difíceis de apagar. A Phorm recebeu notificações de órgãos de segurança de países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra pedindo que interrompesse as vendas por ferir a segurança e a privacidade do internauta.
A Phorm então desenvolveu o Webwise, programa que diz tratar o internauta de forma anônima. Sites como Google, Amazon e Wikipédia bloquearam o Webwise em suas páginas por desconfiança. Personalidades como Tim Berners-Lee, criador da web, criticaram a falta de transparência (leia mais no quadro ao lado). O caso mais delicado envolveu a British Telecom (BT), operadora estatal de banda larga da Inglaterra, acusada de infringir as leis de privacidade da União Europeia por fazer, entre 2006 e 2007, testes do programa com 18 mil clientes – sem consultá-los. O mal-estar foi tamanho que a BT teve de abandonar o projeto em 2008. “A ferramenta da Oi tem uma proposta de valor e modelo de implementação totalmente diferente do Reino Unido”, informou a Oi.
A Phorm não é a única empresa que rastreia hábitos do internauta para alocar publicidade. Grandes sites, como o Google, tentam adivinhar o gosto do usuário a partir do que ele busca ou digita. O Facebook também enfrenta questionamentos sobre sua política de privacidade. Vários internautas têm abandonado o Facebook por causa disso. Mas o rastreamento da Phorm dá um passo além. Por dois motivos. Primeiro, os outros sites avaliam seu perfil, mas sua vida digital não fica toda guardada neles. Quando a Phorm espiona, ela rastreia tudo o que você faz. Segundo motivo, as empresas de busca e redes sociais precisam do retorno publicitário para manter seus serviços gratuitos. Os provedores que usam o programa da Phorm já são pagos por você – e pelo acesso, não por conteúdo.
O grupo AntiPhorm, uma ONG de defesa de direitos civis na internet, lançou programas para bloquear o rastreador. Um deles, o Dephormation, funciona simulando atividade na internet de seu computador. Com isso, os dados que a Phorm rastreia ficam poluídos com informação falsa e perdem valor. O navegador Firefox oferece uma ferramenta chamada Firephorm, que impede a Phorm de anotar os sites que você visita. As próprias empresas que anunciam podem se recusar a adotar o sistema da Phorm por julgar importante manter a privacidade de seus clientes e por desconfiar que esses dados possam ser usados por concorrentes. “Alguns podem avaliar que explorá-los configura espionagem industrial”, diz Jim Killock, da Open Rights Group. Isso explica, em parte, a reação negativa da Amazon.
O Brasil pode criar barreiras contra esse tipo de insegurança digital com o novo marco regulatório da internet, lei que esteve em consulta pública nos últimos meses e deverá seguir para o Congresso no final do semestre. Até agora, o texto não aborda especificamente programas de rastreamento, como o Webwise ou o Navegador, da Phorm. Mas dá uma indicação de que isso pode ser considerado ilegal. Num dos parágrafos, afirma que o provedor “fica impedido de monitorar, filtrar, analisar ou fiscalizar os conteúdos dos pacotes de dados, salvo para administração técnica de tráfego”. Se essa norma for aperfeiçoada, os brasileiros podem ficar mais protegidos contra as tentativas de espionagem de sua vida privada.
Inteligência militar dos EUA usa habilidades das redes sociais
Inteligência militar dos EUA usa habilidades das redes sociais
Analistas da Força Aérea mostram como talentos da geração Facebook são explorados - e dão resultado - nas guerras americanas
Portal IG
Quando adolescente, Jamie Christopher usava mensagens instantâneas para fazer planos com os amigos. Mais tarde ela se tornou usuária frequente do Facebook. Agora essa oficial sardenta de 25 anos usa seus conhecimentos em redes sociais para caçar militantes e salvar vidas americanas no Afeganistão.
Debruçados sobre monitores que transmitem um vídeo capturado ao vivo por uma aeronave de combate, a tenente Jamie e uma equipe de analistas recentemente entraram e saíram de salas de bate-papo militar, levando informações a mais de 12 mil quilômetros de distância para alertar marines (fuzileiros navais) sobre bombas nas estradas e militantes Taleban.
"Duas crianças na área", a equipe alertou os marines que aguardavam em campo a cobertura de um ataque aéreo, usando linguagem típica da internet para avisar sobre a presença de civis inocentes na mira da aeronave. O ataque foi abortado.
"Fogo disparado dos prédios", alertava outra mensagem relativa a um conjunto de edifícios do Taleban. Os marines responderam ao ataque matando nove militantes. Jamie e sua equipe podem estar combatendo em teclados distantes em vez de desviar de balas, mas entram na batalha todos os dias. Eles e outros milhares de jovens analistas da Força Aérea mostram como os conhecimentos da geração Facebook podem ser bem utilizados nas guerras dos EUA.
Os marines dizem que os analistas, que em sua maioria estão na casa dos 20 anos, abriram caminho para uma ofensiva em Marjah, no sul do Afeganistão, neste ano com um mínimo de vítimas. Enquanto os analistam transmitem rapidamente as últimas informações coletadas pelas aeronaves, criam as conexões fluidas necessárias para caçar pequenos grupos de militantes ou outros alvos em fuga, explicam os militares.
Mas existem dificuldades na tarefa à distância. No final do mês passado, autoridades militares no Afeganistão divulgaram um relatório que culpava a equipe de uma aeronave Predator por um incidente envolvendo um helicóptero de ataque que matou 23 civis em fevereiro.
Autoridades militares afirmam que analistas na Flórida, que monitoravam o vídeo da aeronave, alertaram duas ou três vezes em uma sala de bate-papo sobre a presença de crianças no grupo, mas o piloto do avião não passou os alertas ao comandante da equipe terrestre.
No entanto, a experiência social tem sido geralmente tão produtiva que comandantes graduados têm abandonado a tradicional hierarquia militar e dado aos analistas mais espaço para que decidam como usar os aviões de espionagem.
"Se você quiser agir rapidamente, é preciso achatar as coisas e engajar nos níveis mais baixos possíveis", disse o tenente coronel Jason M. Brown, que coordena o esquadrão de inteligência na Base da Força Aérea Beale, perto de Sacramento, na Califórnia.
Vale a pena Obama ser “durão” na política externa?
Vale a pena Obama ser “durão” na política externa?
FAREED ZAKARIA
é colunista e editor-chefe da edição internacional da revista Newsweek e escreve quinzenalmente em ÉPOCA
é colunista e editor-chefe da edição internacional da revista Newsweek e escreve quinzenalmente em ÉPOCA
Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Mas a imagem recente do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, abraçando Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, gerou milhares de comentários. Raramente uma fotografia irritou tanta gente. O alvo da maior parte das críticas, no entanto, foi um homem que nem sequer estava na foto. “O crédito por essa catástrofe é todo do governo Obama”, escreveu o The Wall Street Journal.
O colunista conservador Charles Krauthammer, do The Washington Post, foi menos contido. Para ele, “aquela foto – um desafiador e triunfante ‘toma esta, Tio Sam’ – é um veredicto acachapante sobre a política externa de Obama”. Diz Krauthammer: “Ela demonstra como potências em ascensão, aliadas tradicionais dos Estados Unidos, decidiram que não há nada a perder ao se alinhar a inimigos dos americanos e nada a ganhar ao se unir a um presidente dado a desculpas e apaziguamento”.
Essa é agora a linha de ataque estabelecida contra a política externa de Barack Obama. Ele é muito mole, e outros países estão se aproveitando dele. Primeiro, foram os russos, os chineses e os iranianos. Depois, brasileiros e turcos.
Isso reflete em parte um padrão familiar de crítica contra o presidente americano. Coisas ruins acontecem no mundo, e os americanos se viram para a Casa Branca: “Como você pôde deixar isso acontecer?”. Os críticos estão bravos, por exemplo, porque Obama não fez a Revolução Verde triunfar no Irã. Mas o regime tem uma repressão eficiente porque possui recursos, usando armas e dinheiro para se manter no poder. Também tem um apoio significativo entre os pobres, os velhos e os que estão nas áreas rurais. Não é um regime como o da Coreia do Norte, que sobrevive apenas por sua brutalidade. Os 118 países que compõem o bloco não alinhado aprovam rotineiramente soluções que apoiam Teerã na batalha sobre o programa nuclear. Um discurso mais belicoso de Obama não faria o regime ruir.
Não será sob ameaças dos EUA que o Brasil e a Turquia vão cooperar na questão nuclear do Irã
Os conservadores acreditam que Obama deva ser mais durão e mostrar a esses outros países que os EUA não estão brincando. Há só um problema: essa política já foi muito testada e falhou completamente. O governo de George W. Bush definiu sua política externa como agressiva. “É melhor ser temido do que amado”, costumava dizer Dick Cheney, o vice de Bush, citando Nicolau Maquiavel (1469-1527). O ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld escolheu uma fonte menos “cabeça”. Cita frequentemente uma frase atribuída ao gângster Al Capone (1899-1947): “Você vai mais longe com uma palavra amável e uma arma do que só com uma palavra amável”.
Nós esquecemos os resultados dessa política externa viril? Os aliados mais antigos dos EUA na Europa se viraram contra os americanos. A Turquia é um bom exemplo aos Estados Unidos de como não lidar com um aliado. O governo Bush tratou o país com uma mistura de mão pesada e arrogância, fazendo ameaças caso os turcos não permitissem que soldados americanos atacassem o Iraque a partir da Turquia. Aparentemente ignorando o fato de que esse país se tornara uma democracia próspera e que 95% da população se opunha à guerra contra o Iraque, Bush foi surpreendido quando o parlamento turco votou “não”.
Há uma tendência que os críticos de Obama não perceberam ainda. Países como a Turquia e o Brasil (e a China e a Índia) têm crescido economicamente nos últimos 20 anos. Em 1995, os países emergentes somavam um terço da economia global. Neste ano, responderão pela metade. São politicamente estáveis e cada vez mais decididos a desempenhar um papel maior no palco mundial. Sob essas circunstâncias, a ideia de que Obama só precisa usar mais o peso dos EUA é tola e perigosa. O Brasil e a Turquia não se tornarão mais cooperativos se Washington os ameaçar mais. A tarefa dos EUA é achar meios de fazer parcerias e convencê-los de que há um interesse comum por um mundo mais estável. E Al Capone não é exatamente um modelo de como fazer isso.
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