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quarta-feira, julho 28, 2010

Irã propõe termos para parar de enriquecer urânio, diz Turquia

Irã propõe termos para parar de enriquecer urânio, diz Turquia
País promete deixar de enriquecer urânio a 20% se acordo for aceito.
Teerã promete voltar às negociações da questão nuclear em setembro.
Da Reuters

O Irã prometeu que deixará de enriquecer urânio até os 20% de pureza se as potências mundiais concordarem com uma troca proposta de combustível nuclear, disse nesta quarta-feira (28) o ministro turco das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu - na foto.
Transmitida ao ministro turco no domingo, a oferta pode representar um presságio positivo para a retomada prevista das negociações em setembro entre o Irã e seis grandes potências mundiais, sobre o programa nuclear da República Islâmica.
A última vez em que o Irã negociou com as potências - Estados Unidos, Grã-Bretanha, China, França, Alemanha e Rússia - foi em outubro de 2009. Os seis países temem que o Irã esteja construindo armas nucleares em segredo. Teerã nega ter quaisquer planos nesse sentido.
Em fevereiro o Irã anunciou que começara a enriquecer urânio até um grau de 20% de pureza, contra cerca de 3,5% de pureza anteriormente, com isso suscitando receios de que possa estar planejando enriquecer urânio em graus ainda maiores e produzir material próprio para a fabricação de armas nucleares.
Desde junho, novas sanções foram impostas ao Irã pelas Nações Unidas, os Estados Unidos e, na segunda-feira, a União Europeia, reforçando as pressões sobre Teerã.
Uma das exigências formuladas nas resoluções do Conselho de Segurança da ONU é que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio em todos os níveis.
Em maio a Turquia e o Brasil mediaram em Teerã um acordo de troca de combustível nuclear iraniano, esperando que isso atrairia o Irã e as grandes potências de volta à mesa de negociações, mas as seis potências reagiram ao plano com frieza.
Davutoglu, que no domingo se reuniu com seus colegas iraniano, Manouchehr Mottaki, e brasileiro, Celso Amorim, disse que o Irã está disposto a dissipar as preocupações com relação a seu programa de enriquecimento, desde que a troca proposta de combustível nuclear siga adiante.
"Outra mensagem importante transmitida por Mottaki durante sua visita à Turquia foi que, se o acordo de Teerã for assinado e o Irã for suprido do combustível necessário para suas atividades de pesquisa, o Irã não continuará a enriquecer urânio a 20 por cento", disse Davutoglu em coletiva de imprensa concedida com o ministro do Exterior alemão Guido Westerwelle, que visitava o país.
Na segunda-feira o Irã enviou uma carta à Agência Internacional de Energia Atômica, em Viena, dizendo estar pronto a negociar os detalhes da troca de 1.200 quilos de seu próprio urânio enriquecido a 3% por 120 quilos de urânio enriquecido a 20%. Davutoglu pediu que sejam iniciadas no menor prazo possível as discussões sobre o assunto com o Grupo de Viena, composto pela Rússia, França, Estados Unidos e a Agência Internacional de Energia Atômica.
"As desavenças devem ser deixadas de lado, e as negociações entre o Grupo de Viena e o Irã devem ser iniciadas já", disse ele. "À medida que forem feitos avanços nessas negociações técnicas, os dois lados passarão a confiar mais um no outro."

domingo, junho 13, 2010

''Brasil e Turquia abrem nova era na diplomacia''

''Brasil e Turquia abrem nova era na diplomacia''
Patrícia Campos Mello - Estadão

O acordo de troca de combustível mediado pelo Brasil e pela Turquia no Irã era ingênuo e não resolvia a questão nuclear. Mas a iniciativa brasileira e a oposição dos dois países às sanções contra o Irã inauguram uma nova era nas relações internacionais, um "plano B" ou "segundo trilho" na diplomacia global. Essa é a opinião de David Rothkopf, analista do Carnegie Endowment for International Peace e colunista da revista Foreign Policy. "O Brasil entrou no palco das grandes potências e esse foi o primeiro exercício do País em uma questão central", diz Rothkopf. "Eu não concordo com a política brasileira para o Irã, mas acho que os EUA precisam se acostumar a ter grandes potências que não assinam embaixo de todas as iniciativas de Washington ou da Otan." Abaixo, trechos da entrevista que ele concedeu ao Estado.

Qual é o impacto do voto do Brasil contra as sanções ao Irã para as relações bilaterais com os EUA?
A tentação é exagerar a importância do voto negativo. Certamente alguns no governo americano estão dizendo que é um problema sério, mas a realidade é que os EUA e o Brasil têm uma relação estratégica que vai continuar sendo importante, mesmo quando há divergências. Na realidade, acho que o voto traz até benefícios para o Brasil e a Turquia, porque envia um recado que os dois não vão concordar sempre com os EUA, que eles têm visões independentes e, se suas posições não forem ouvidas, isso vai enfraquecer a posição internacional em qualquer questão.

O sr. concorda com a interpretação de que o Brasil e a Turquia ficaram isolados?
De jeito nenhum. Em primeiro lugar, se olharmos para as sanções que foram aprovadas, todas as coisas que seriam realmente difíceis para Rússia e China foram cortadas. Portanto, há dois tipos de resistência. Há a resistência aberta da Turquia e Brasil, que apresentaram um plano alternativo às sanções. E há a resistência de bastidores de Rússia e China, que diluíram as sanções e depois anunciaram iniciativas conjuntas com o Irã, dando a entender que continuam mantendo uma relação com os iranianos. As sanções não foram uma vitória para os EUA.

E se os EUA e a Europa adotarem agora sanções unilaterais, mais duras?
Na economia em que vivemos hoje, isso não faz muita diferença. Pois os iranianos podem simplesmente burlar as sanções, muitas grandes economias podem continuar fazendo negócios com eles. Muitas empresas operam em diferentes países.

Se as sanções da ONU não fizerem efeito, as sanções unilaterais dos EUA e da UE também não, o que vem depois?
Provavelmente esforços diplomáticos, dos russos, turcos, brasileiros, e algumas ameaças. Mas a aposta é que entre 12 e 18 meses os iranianos testam uma arma nuclear ou anunciam que já têm ogivas. Todo mundo vai ficar muito preocupado e os EUA afirmarão que, caso os iranianos usem as armas, eles atacarão.

Então parte-se para dissuasão?
Sim, só que não se sabe se dissuasão funciona nesse caso. A dissuasão (deterrence) foi criada para um conflito entre dois Estados, EUA e União Soviética, e a perspectiva de destruição mútua detinha os dois porque eram atores racionais. Já com os iranianos, há grande chance de uma ogiva cair nas mãos de um grupo terrorista. Dissuasão nuclear não funciona com terroristas.

Voltando à questão geopolítica, o fato de Brasil e Turquia terem se descolado dos EUA na questão iraniana aponta para uma nova ordem?
De um lado, pode-se questionar o valor do acordo que a Turquia e o Brasil intermediaram com o Irã. Não foi significativo para resolver o problema iraniano. Mas em outro nível, podemos dizer que esse acordo indica um segundo trilho na diplomacia global. Em vez de ter de estar com os EUA, Europa ou Japão, a tradicional aliança, pode-se lidar com os Brics (acrônimo para Brasil, Rússia, Índia e China) ou poderes emergentes. Entramos em uma dinâmica de equilíbrio de poder em que há quatro ou cinco poderes no mundo. O Brasil entrou no palco das grandes potências. E esse foi o primeiro exercício do País em uma questão central. Provavelmente, não foi muito bem-sucedido. Eu não concordo com a política brasileira para o Irã, mas eu acho que os EUA precisam se acostumar a ter grandes potências emergentes desempenhando um papel que não é de simplesmente assinar embaixo de todas as iniciativas dos EUA ou da Otan.

E qual é essa nova ordem que está surgindo?
Nós tivemos por muito tempo um mundo bipolar, EUA e União Soviética, comigo ou contra mim, Guerra Fria. A União Soviética caiu e houve muita discussão sobre o novo mundo unipolar, unilateral, com os EUA como a única superpotência. Isso culminou com a invasão do Iraque, e o mundo não gostou, era preciso ter um contraponto aos EUA. Mas o problema é que os contrapontos tradicionais, Europa, Japão e Rússia, estavam muito fracos. Ent"o vemos surgindo novas potências, China, Índia e Brasil como as principais. É um mundo menos G-8 e mais G-20.
Isso apesar de o acordo não ter sido aceito?
O acordo mediado pelo Brasil e pela Turquia era ingênuo e não era eficiente. Os iranianos usaram os brasileiros e turcos para ganhar tempo, mas a quantidade de urânio que permaneceria no Irã era suficiente para fazer armas nucleares. Agora, isso é o começo de alguma coisa. Nós vamos ver cada vez mais essa diplomacia "plano B".

Os EUA vão se acostumar a essa diplomacia "segundo trilho"?
Vai demorar muito. Os EUA são grandes, poderoso e arrogantes. Mas estamos entrando em uma era em que a diplomacia americana vai ser muito mais difícil, não apenas por causa da emergência dessas potências, mas porque os EUA vão ter menos dinheiro e mais preocupações em casa. Os EUA vão poder fazer menos e, portanto, terão de deixar outras nações liderarem também.

sexta-feira, junho 11, 2010

Turquia diz que voto a favor do Irã era questão de honra

Turquia diz que voto a favor do Irã era questão de honra
10 de junho de 2010 | 19h 23
AE-AP, COM DOW JONES - Agência Estado

O voto turco contra a quarta rodada de sanções na Organização das Nações Unidas (ONU) ao Irã, por causa do programa nuclear de Teerã, era uma questão de honra para o país, após o acordo fechado entre Turquia, Irã e Brasil, afirmou hoje o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. O premiê insistiu que ainda há espaço para uma saída diplomática para a crise. Erdogan deu as declarações em uma cúpula de um dia em Istambul, entre a Turquia e 20 países árabes.
Erdogan fortaleceu no evento seu papel de líder no mundo islâmico, recebendo o aplauso de governantes e políticos árabes, enquanto criticava Israel e questionava o poder de Washington no cenário mundial, numa cúpula que ocorreu na cidade que foi no passado a sede do Império Otomano.
"Se nós não tivéssemos dito ''não'', seria contraditório...seria uma falta de respeito próprio", avaliou Erdogan. O Brasil também votou contra as sanções e o Líbano se absteve. As outras 12 nações do Conselho de Segurança da ONU, incluindo as cinco permanentes e com poder de veto, apoiaram a medida.
No mês passado, o Irã firmou um acordo com Turquia e Brasil se comprometendo a enviar 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido ao território turco. Em troca, receberia combustível para seu reator em Teerã. O acordo foi visto com ressalvas por Washington, que pressionava por uma resolução com sanções.
"Nós insistimos que todos os problemas devem ser resolvidos na mesa de negociações. Nada é alcançado com armas ou através de embargos e isolamento", disse Erdogan. "Junto com o Brasil, nós manteremos os nossos esforços por uma solução negociada."
Ontem, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, disse que o acordo Irã-Turquia-Brasil não estava "morto" e que seu país votou contra as sanções para manter aberto o canal de negociações. No mesmo dia, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, criticou as sanções e disse concordar com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, sobre a falta de valor da punição. "Bem dito, homem. Não vale um centavo", disse Chávez. A Venezuela e o Irã têm estreitado laços nos últimos anos.
A sanção ao Irã inclui aspectos militares e financeiros. Ela expande um embargo de armas e impede o país de realizar atividades como a mineração de urânio. Potências lideradas pelos EUA temem que o Irã busque secretamente armas nucleares, mas Teerã garante ter apenas fins pacíficos. Ahmadinejad disse que "as resoluções não valem nada para a nação iraniana". 

quarta-feira, junho 09, 2010

Vale a pena Obama ser “durão” na política externa?

 Vale a pena Obama ser “durão” na política externa?
FAREED ZAKARIA
é colunista e editor-chefe da edição internacional da revista Newsweek e escreve quinzenalmente em ÉPOCA

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Mas a imagem recente do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, abraçando Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, gerou milhares de comentários. Raramente uma fotografia irritou tanta gente. O alvo da maior parte das críticas, no entanto, foi um homem que nem sequer estava na foto. “O crédito por essa catástrofe é todo do governo Obama”, escreveu o The Wall Street Journal.
O colunista conservador Charles Krauthammer, do The Washington Post, foi menos contido. Para ele, “aquela foto – um desafiador e triunfante ‘toma esta, Tio Sam’ – é um veredicto acachapante sobre a política externa de Obama”. Diz Krauthammer: “Ela demonstra como potências em ascensão, aliadas tradicionais dos Estados Unidos, decidiram que não há nada a perder ao se alinhar a inimigos dos americanos e nada a ganhar ao se unir a um presidente dado a desculpas e apaziguamento”.
Essa é agora a linha de ataque estabelecida contra a política externa de Barack Obama. Ele é muito mole, e outros países estão se aproveitando dele. Primeiro, foram os russos, os chineses e os iranianos. Depois, brasileiros e turcos.
Isso reflete em parte um padrão familiar de crítica contra o presidente americano. Coisas ruins acontecem no mundo, e os americanos se viram para a Casa Branca: “Como você pôde deixar isso acontecer?”. Os críticos estão bravos, por exemplo, porque Obama não fez a Revolução Verde triunfar no Irã. Mas o regime tem uma repressão eficiente porque possui recursos, usando armas e dinheiro para se manter no poder. Também tem um apoio significativo entre os pobres, os velhos e os que estão nas áreas rurais. Não é um regime como o da Coreia do Norte, que sobrevive apenas por sua brutalidade. Os 118 países que compõem o bloco não alinhado aprovam rotineiramente soluções que apoiam Teerã na batalha sobre o programa nuclear. Um discurso mais belicoso de Obama não faria o regime ruir.
Não será sob ameaças dos EUA que o Brasil e a Turquia vão cooperar na questão nuclear do Irã
Os conservadores acreditam que Obama deva ser mais durão e mostrar a esses outros países que os EUA não estão brincando. Há só um problema: essa política já foi muito testada e falhou completamente. O governo de George W. Bush definiu sua política externa como agressiva. “É melhor ser temido do que amado”, costumava dizer Dick Cheney, o vice de Bush, citando Nicolau Maquiavel (1469-1527). O ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld escolheu uma fonte menos “cabeça”. Cita frequentemente uma frase atribuída ao gângster Al Capone (1899-1947): “Você vai mais longe com uma palavra amável e uma arma do que só com uma palavra amável”.
Nós esquecemos os resultados dessa política externa viril? Os aliados mais antigos dos EUA na Europa se viraram contra os americanos. A Turquia é um bom exemplo aos Estados Unidos de como não lidar com um aliado. O governo Bush tratou o país com uma mistura de mão pesada e arrogância, fazendo ameaças caso os turcos não permitissem que soldados americanos atacassem o Iraque a partir da Turquia. Aparentemente ignorando o fato de que esse país se tornara uma democracia próspera e que 95% da população se opunha à guerra contra o Iraque, Bush foi surpreendido quando o parlamento turco votou “não”.
Há uma tendência que os críticos de Obama não perceberam ainda. Países como a Turquia e o Brasil (e a China e a Índia) têm crescido economicamente nos últimos 20 anos. Em 1995, os países emergentes somavam um terço da economia global. Neste ano, responderão pela metade. São politicamente estáveis e cada vez mais decididos a desempenhar um papel maior no palco mundial. Sob essas circunstâncias, a ideia de que Obama só precisa usar mais o peso dos EUA é tola e perigosa. O Brasil e a Turquia não se tornarão mais cooperativos se Washington os ameaçar mais. A tarefa dos EUA é achar meios de fazer parcerias e convencê-los de que há um interesse comum por um mundo mais estável. E Al Capone não é exatamente um modelo de como fazer isso. 

Skoob

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