segunda-feira, agosto 16, 2010
O Estado privatizado na eleição
O Estado privatizado na eleição
Suely Caldas - O ESTADO DE S. PAULO
"Ministro tem que ser ministro. Se alguém quiser fazer campanha política depois do expediente, faça, em carro particular. Façam o que quiser, mas quero eles trabalhando", avisou o presidente Lula aos seus ministros e à imprensa na segunda-feira. Aí eles obedeceram, não foram às ruas nem a comícios e trabalharam trancados em seus gabinetes... para ajudar na campanha de Dilma Rousseff, em escancarado uso eleitoral da estrutura do Estado e da máquina pública - que pertence aos brasileiros, não a partidos políticos - em defesa de um candidato.
Na terça-feira o ministro Guido Mantega dispensou seu secretário de Política Econômica e decidiu ele próprio divulgar para a imprensa o rotineiro boletim Economia Brasileira em Perspectiva, que desta vez trazia uma empolgante novidade: comparava os desempenhos dos governos FHC e Lula com números (alguns errados) cuidadosamente fisgados para mostrar fracasso e sucesso de um e de outro. Assim, sem sair do gabinete, o militante Mantega socorria Dilma que, em entrevista à TV Globo na noite anterior, culpou o governo FHC pelas baixas taxas de crescimento nos sete anos do governo Lula. Horas depois os números viraram manchete no site da campanha da candidata.
Não foi só Mantega. Atento à entrevista do oposicionista José Serra à TV Globo, na quarta-feira à noite, seu colega José Gomes Temporão ordenou aos funcionários imediata e urgente resposta às críticas feitas pelo tucano na entrevista. Agiu rápido: às 22h30 o Ministério da Saúde disparava e-mails para a imprensa contestando os dados apresentados por Serra e glorificando a atual administração na Saúde. Grudada e dependente de Lula nesta eleição, o maior trunfo de Dilma é a gestão do padrinho. Por isso mesmo Lula orientou os ministros a reagirem imediatamente, menos para exercer o direito de defender seu governo e mais para impedir que críticas da oposição prejudiquem sua candidata. Novamente, a versão do Ministério da Saúde foi parar no site de Dilma.
O ministro dos Transportes, Paulo Sergio Passos, não foi tão rápido. Só no dia seguinte divulgou nota explicando a falta de investimento em estradas e as falhas denunciadas pelo tucano nas rodovias paulistas. Já o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que traiu sua tradição histórica de órgão técnico para se transformar num apêndice político a serviço do governo Lula, não poderia ficar de fora da campanha eleitoral. Na quinta-feira divulgou estudo sobre a influência dos municípios no PIB, defendendo a ampliação de programas do governo Lula, incluídos nas propostas de Dilma, para reduzir desigualdades regionais. Sob o comando do petista Marcio Pochmann, seus economistas não precisam ir às ruas gritar pelo nome de Dilma. É mais eficaz usar suas horas de trabalho, funcionários de apoio, estrutura e computadores do Ipea.
Com Lula à frente, seguido pelos petistas trazidos para ajudá-lo a governar, há quase oito anos o País passou a ser administrado com o bastão do interesse político-partidário-eleitoral comandando ações e decisões do governo. O PT passou 20 anos na oposição contestando todos os governantes que o antecederam, com o único e obsessivo propósito de derrotá-los. No Congresso não avaliava as propostas pelo interesse da população e do progresso do País. Era contra por pura selvageria, pela oposição "a tudo o que está aí", sem definir o quê. E pronto. Foi contra a política econômica de FHC, que depois adotou; contra o Bolsa-Escola, que preservou e rebatizou de Bolsa-Família; contra até o Plano Real, que derrubou a inflação.
E, quando finalmente chegou ao poder, trouxe para o governo sua prática de 20 anos: o interesse político-partidário-eleitoral passou a comandar as decisões do governo. Para isso aparelhou o Estado com seus militantes e os de partidos aliados loteando milhares de cargos públicos. Nesse jogo de poder, e ainda mais nesta eleição, Lula e o PT misturam público e privado, abusam do uso do Estado, ofendem e desrespeitam os brasileiros. Como já disse o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga: "É preciso reestatizar o Estado."
Jornalista, é professora da PUC-RIO
Imperial ou imperialista?
Imperial ou imperialista?
Luiz Carlos Bresser-Pereira - FOLHA DE S. PAULO
A nação é imperial, e não imperialista, quando sabe que o nacionalismo do país mais fraco é necessário
Todo país rico e poderoso é "imperial" em relação aos países pobres e fracos que o cercam; os EUA são necessariamente imperiais em relação aos demais países do mundo; o Brasil o é em relação aos países sul-americanos menos desenvolvidos. Ninguém escapa da influência da sociedade mais desenvolvida.
Mas isso não significa que os Estados-nação sejam sempre "imperialistas". Um país é imperialista quando supõe que os interesses do país pobre são idênticos aos seus, rejeita o nacionalismo através do qual esse país busca formar um verdadeiro Estado-nação e se desenvolver e tenta impor-lhe sua verdade superior.
É imperial ao invés de imperialista quando, não obstante seu poderio, compreende que o nacionalismo do país mais fraco é necessário para que ele realize sua revolução nacional e capitalista e, por isso, aceita que alguns interesses de curto prazo de suas empresas sejam contrariados, porque acredita que o desenvolvimento do país vizinho será a médio prazo benéfico para seu próprio desenvolvimento.
Os EUA foram imperiais ao invés de imperialistas logo após a Segunda Guerra Mundial, mas esse foi um breve instante. Já o Brasil, desde os anos 1990, aprendeu a pensar em termos do médio prazo em relação a seus vizinhos.
Isso ficou claro em sua relação com a Bolívia, o Paraguai e a Venezuela: ao primeiro reconheceu a necessidade de o país nacionalizar sua indústria do petróleo e rever alguns contratos leoninos que dirigentes anteriores do país haviam firmado; ao Paraguai fez concessões razoáveis no caso de Itaipu. Em relação à Venezuela, mantém relações amigáveis com Chávez desde que este foi eleito.
Entretanto, setores das elites brasileiras não compreendem esse fato. De repente ficam nacionalistas e querem que o governo brasileiro "defenda os interesses brasileiros" com mais determinação.
Esquecem, assim, que quem rejeitou a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e começou a política sul-americana do Brasil e quem primeiro soube compreender as dificuldades e as contradições que enfrenta um governante de um país pobre e dominado por séculos, como é a Venezuela, foi o presidente Fernando Henrique Cardoso. Nessa política, o presidente Lula não inovou; apenas deu um passo adiante.
O tempo do imperialismo já passou. Quase todos os países pobres sabem que para se desenvolver precisam livrar-se da dependência externa e promover sua industrialização para, assim, realizar sua revolução capitalista.
E sabem também que essa é uma tarefa nacional muito difícil, porque, além de enfrentar os grandes países e seus interesses de curto prazo, enfrentam imensos problemas internos: baixo nível de educação, elites locais alienadas que preferem se aliar às elites externas do que a seu povo, um Estado mal organizado e permanente vítima da corrupção de capitalistas, políticos e burocratas.
O Brasil, que já realizou sua revolução capitalista, compreende esse fato. Compreende que é muito mais interessante para ele que seus vizinhos sejam nacionalistas e construam sua nação, logrando, assim, ter uma competente classe empresarial, uma ampla classe média e uma classe trabalhadora organizada. Por isso o Brasil é imperial, não é imperialista.
Ecologia, jornalismo, elegância
Ecologia, jornalismo, elegância
DANUZA LEÃO FOLHA DE SÃO PAULO - 15/08/10
Até quem não é radical procura onde jogar aquela notinha perversa que vem junto com o troco
A ECOLOGIA ENTROU devagar na mente das pessoas. Quando ouvi falar pela primeira vez do assunto, nem prestei muita atenção; achei estranho pensar em mudar hábitos que praticava desde a infância e que naquela época eram normais.
Tenho em mente, como se fosse hoje, Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, onde morava minha avó. Um rio separava a cidade, e havia os que moravam do lado de cá e os que moravam do lado de lá; todas as casas davam frente para a rua e as cozinhas para o rio. As cozinheiras faziam o que era de praxe: jogavam os restos de comida pela janela, no que era a lata de lixo da cidade, e ninguém se dava conta de que morar de frente para o rio seria o maior dos luxos.
As pessoas largavam nas calçadas saquinhos vazios, maços de cigarro amassados, cascas de banana, latinhas vazias de refrigerante, e todos achavam que isso era o certo. O tempo foi passando, os jornais começaram a falar de ecologia, e latas de lixo foram aparecendo. Até quem não é radical hoje procura onde jogar aquela notinha perversa que vem junto com o troco, apenas uma questão de educação: se não fazemos isso em nossa casa, por que fazer na cidade, que também é nossa?
Mesmo os mais desligados veem hoje, claramente, o que está acontecendo: geleiras desaparecendo, tsunamis matando milhares de pessoas, deslizamentos de terra diários, pequenas ilhas da Indonésia ameaçadas de desaparecer, ondas de calor na Rússia, enchentes no Paquistão, e, há dias, um imenso iceberg, quatro vezes maior do que a ilha de Manhattan, se soltou na Groenlândia. Como o planeta não tem assessor de imprensa, não dá entrevistas nos jornais nem na TV, é a sua única maneira de reclamar dos abusos que estão cometendo, e as catástrofes chegam cada vez mais perto: na semana passada, uma linda praia em Arraial do Cabo amanheceu com um óleo grosso em toda sua extensão, que ninguém sabe de onde veio, e só daqui a 20 dias vai se ter ideia do que se trata. Com tudo isso, ainda tem gente querendo até mudar o curso dos rios; isso não pode dar certo.
Agora um pouquinho de política: parabéns ao "Jornal das 10", da Globonews, que conseguiu entrevistar os candidatos sem o engessamento tradicional dos debates, com perguntas curtas e objetivas, e ainda com direito a comentários no bloco seguinte sobre a atuação dos candidatos. Foi uma conversa civilizada, cordial e sem estresse, nem da parte dos entrevistadores - André Trigueiro e Carlos Monforte -, nem dos entrevistados, que tinham que raciocinar para responder, e não chegar com o discurso já decorado; nem todos conseguiram, pois isso não se aprende, mas o formato foi encontrado, e é o ideal. Uma ideia elementar: colocar um relógio em frente ao candidato, para que ele acompanhe o tempo que lhe resta e não seja surpreendido com um corte no meio do raciocínio.
Agora um pouquinho de política: parabéns ao "Jornal das 10", da Globonews, que conseguiu entrevistar os candidatos sem o engessamento tradicional dos debates, com perguntas curtas e objetivas, e ainda com direito a comentários no bloco seguinte sobre a atuação dos candidatos. Foi uma conversa civilizada, cordial e sem estresse, nem da parte dos entrevistadores - André Trigueiro e Carlos Monforte -, nem dos entrevistados, que tinham que raciocinar para responder, e não chegar com o discurso já decorado; nem todos conseguiram, pois isso não se aprende, mas o formato foi encontrado, e é o ideal. Uma ideia elementar: colocar um relógio em frente ao candidato, para que ele acompanhe o tempo que lhe resta e não seja surpreendido com um corte no meio do raciocínio.
Outro comentário - e esse não tem nada a ver com política: preste atenção à elegância de Marina Silva. Suas roupas são discretas, a combinação de cores, perfeita. Seu porte, com o xale nos ombros, faria inveja a Gisele Bündchen, e ponto para as bijuterias feitas de contas e sementes da Amazônia que, segundo consta, são feitas por ela mesma; isso é que é ter estilo. Além disso, a candidata é serena, bem educada e não grita, coisa rara na política; suas aparições são uma lição de bom gosto a ser imitada pela peruagem nacional.
Chiquérrima, Marina.
Continuidade e alternância
Continuidade e alternância
Ferreira Gullar FOLHA DE S. PAULO
Qual dos candidatos está mais preparado para manter com êxito a continuidade administrativa?
Qual dos candidatos está mais preparado para manter com êxito a continuidade administrativa?
Até o momento em que escrevo esta crônica, a situação dos dois principais candidatos à Presidência da República continua indefinida. A menos que haja uma súbita mudança na avaliação deles pelo eleitorado, a disputa deve se manter acirrada até o último momento.
Na opinião de Lula e do PT, Dilma Roussef vencerá o pleito e até, dizem eles, no primeiro turno. É natural que o digam, ainda que da boca para fora, porque se deixarem transparecer a mínima dúvida quanto à vitória, sua candidatura se desfará como um castelo de cartas.
E a razão disso é que essa candidatura se apoia única e exclusivamente na possibilidade de transferência da popularidade de Lula para a candidata que ele inventou.
Ela mesma, Dilma, nunca pretendeu candidatar-se a nenhum cargo eletivo, muito menos ao posto supremo da nação. Lula a inventou candidata apesar disso, mesmo porque não havia muito o que escolher dentro de seu partido.
A hipótese de Lula é que, apresentando Dilma como a continuadora de seu governo, que conta com mais de 70% de aprovação, ela seria eleita. Parece lógico, mas talvez não seja tão simples quanto parece.
Tudo depende de como o eleitor receberá a proposta de Lula, e depende também de como o candidato do PSDB se comportará em face dela. Se José Serra, de fato, não confrontar a tese de Lula, ela prevalecerá e Dilma terá grande chance de vencer as eleições. Mas e se, ao contrário, ele achar que a história não é bem assim, se entender que a continuidade administrativa é uma norma a ser seguida pelo futuro ocupante do Palácio do Planalto, seja ele quem for?
Aí a coisa muda de figura, pois retira da candidatura de Dilma o único argumento que efetivamente a sustenta, uma vez que ela não tem como provar que é capaz de governar o país, mesmo porque nunca governou sequer um Estado e nem mesmo um pequeno município.
Já Serra, se adotasse tal postura, teria um argumento decisivo no fato de que o governo Lula continuou o governo FHC e foi graças a isso que obteve o êxito que obteve.
Já imaginou se ele tivesse acabado com o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o superavit primário, o Proer e a política de juros do Banco Central, que viabiliza a luta contra a inflação? Foi o temor de que Lula não desse continuidade ao governo anterior que provocou a crise de 2002; continuidade que, na verdade, vem desde o governo Itamar Franco, e que permitiu ao Brasil enfrentar com êxito a crise de 2008.
Logo, se Lula, adversário feroz do governo FHC, o continuou, não há por que Serra não faça o mesmo com respeito ao governo Lula, que deu continuação às políticas implantadas pelo governo do PSDB.
Pois bem, se José Serra assumir claramente esse opção, como ficará a candidatura de Dilma? O fato de Lula afirmar que ela é a continuação de seu governo não é garantia de que ela será capaz de fazê-lo e com a inventividade necessária. O eleitor certamente perguntará: qual dos dois candidatos está mais preparado para manter com êxito a continuidade administrativa?
Se levar em conta a história de um e de outro candidato, a folha de serviços de cada um deles, poderá optar por Serra, cuja competência como gestor público está comprovada, no exercício destacado das funções de ministro da Saúde, prefeito e governador de São Paulo, além da atuação parlamentar de indiscutível eficiência.
Por outro lado, como pode Dilma convencer o eleitor de que é mais capaz que Serra de exercer as funções de presidente da República? Só a palavra de Lula não basta, já que tem interesse em manter o poder nas mãos de seu partido. Durante a campanha na TV, poderá o PSDB demonstrar que Dilma nunca desempenhou o papel que Lula lhe atribui (mãe do PAC etc.), porque a Casa Civil, que ela chefiou, tem funções de mera assessoria do presidente. Não realiza nada.
Isso sem lançar mão de outro argumento, de grande importância para o país, que é a alternância dos partidos no poder, que a vitória de Serra implicaria. Esse é um fator decisivo para a saúde do regime democrático, porque viabiliza o desmonte do aparelhamento da máquina estatal pelo partido (ou pelos partidos) que fique no poder por longo tempo.
Lula de volta ao papel principal
Lula de volta ao papel principal
Wilson Figueiredo - JORNAL DO BRASIL
Mesmo depois que as pesquisas de opinião vacinaram os cidadãos com verdades relativas, o Brasil continua brasileiro, mas com alguns retoques. Um levantamento sobre a maneira brasileira de lidar com a esquerda ao estilo da casa foi uma decepção para quem esperava um salto de qualidade política e melhor expectativa em ano eleitoral. Além de Dilma Rousseff e de José Serra, já estão em cena mais dois pretendentes. Mais atrás (nas pesquisas), Marina Silva, sensível e delicada, esquerda soft, e Plínio de Arruda Sampaio, cabeça atualizada, esquerda hard. O Brasil adernou de vez.
O nível de informação do brasileiro, a respeito da esquerda, revelado pela pesquisa foi deplorável para um país que conta com quatro candidatos por esse lado, enquanto na contrapartida a direita fica no ora, veja! Nas pesquisas, o dito por não dito. Tudo mais se passa fora do espaço eleitoral, e o buraco negro se localiza mais embaixo.
O presidente já transitou em julgado quando vinha pela esquerda e, reparando melhor, notou que estava à direita. Aguentou sem se contradizer. De qualquer forma, foi melhor do que bater de frente num desastre de proporções ferroviárias. As pesquisas não tiraram a inocência política dos brasileiros, que perderam apenas os óculos de ver em terceira dimensão a democracia que, nos últimos 25 anos, confiou à direita e à esquerda (com o liberalismo em maré baixa) a missão de aperfeiçoar e levar adiante o regime, sem aqueles trambolhões e empurrões inaceitáveis. Lula chegou à Presidência da República, como a todos pareceu, pela esquerda, mas sem perder de vista a direita, por motivos óbvios e não por falta de originalidade. Fez bem. Não teve dificuldade para se eleger por um lado e governar por outro. Versatilidade não mata. Na América Latina a esquerda já aprendeu a chegar ao poder pelo voto, mas não sabe o resto. Lula não tem mais nada a ver com o passado e, embora não admita, também não tem com o futuro, que começa quando o mandato acaba. No dia seguinte à eleição, começará a sofrer dos achaques de ex-presidentes.
Avalizado moralmente pela recusa do terceiro mandato, e como se chegasse de um ponto no infinito eleitoral, a figura inarredável do presidente Luiz Inácio Lula da Silva retoma a sucessão presidencial para o grand finale. Encontrou a porta de entrada quando devia ser a de saída, e foi em frente sem tocar a campainha. Depois de uma volta no exterior, semeando para não colher, fez declarações e provocações para medir o efeito, disse e se desdisse com a falta de convicção que o move, assumiu a candidatura de Dilma Rousseff e invadiu o espaço reservado à sucessão. Não sobrou para ninguém do PT, e para o PMDB sobrou o vice.
E, quando dava a impressão de que iria se retirar para voltar a simples cidadão já no primeiro dia do ano, Lula não se segurou e assumiu o papel de personagem principal oculto na própria sucessão.
Um kadish para Tony Judt
Um kadish para Tony Judt
Sergio Augusto O ESTADO DE S. PAULO /SABÁTICO
Como traduzir "contrarian"? Contrariante tem ranço forense; dissidente é melhor e, no fundo, exprime a mesma coisa, mas era de "contrarian", não de "dissident", que Tony Judt costumava ser qualificado pela frequência e pelo arrojo com que discordava das opiniões correntes. Não era do contra por pirraça, nem para fazer gênero e chamar atenção, pois se dizia insensível à notoriedade e avesso a badalações. Apenas tinha um olhar mais arguto e um cérebro mais bem dotado que a maioria dos mortais. Por isso, via ou farejava o que a outros passava despercebido ou era recalcado por algum parti pris ideológico.
Sua morte, no dia 6, aos 62 anos, deu novo alento semântico à expressão "perda irreparável", quase sempre inapropriadamente invocada para folhear de ouro defuntos de latão. Judt fará muita falta no circuito de ideias e questionamentos incômodos. Ninguém usava a História para refletir sobre o presente com a sua acuidade e a sua nonchalance expositiva. Oficialmente historiador, transformou-se, malgré lui, num intelectual público, mas por vocação vigoroso, sem rebuços e em permanente estado de alerta. Jamais permitiu que o conformismo e a complacência debilitassem sua argumentação. Nem que suas convicções políticas e morais lhe envenenassem o raciocínio.
Apesar de ter sido militante sionista na juventude, quando trocou Londres por um kibutz em Israel, revelou-se, nas últimas décadas, um dos mais pertinazes críticos da política externa israelense. Por combater as ocupações do território palestino por tropas israelenses e defender a criação de um estado binacional como a única solução para buscar a pacificação do Oriente Médio, foi tachado de "antissionista" e coisas piores, expulso do expediente da revista The New Republic e proibido de fazer uma palestra no consulado da Polônia, em Nova York, por pressão do American Jewish Committee.
A despeito de sua ancestral simpatia pela utopia socialista, combateu os desvios e atrocidades do comunismo e as escorregadelas das esquerdas com a mesma implacabilidade de suas estocadas na direita, no neoliberalismo e nos desvarios do pós-modernismo. Espinafrou os intelectuais que apoiaram o catastrófico unilateralismo bushista, os historiadores chapa-branca da Guerra Fria e o ideário prêt-à-porter de Thomas Friedman com o mesmo rigor aplicado à "recusa" do marxista Eric Hobsbawm "a encarar o mal de frente e chamá-lo pelo nome". O mal era o comunismo stalinista.
Volta e meia comparado a George Orwell, por sinal patrono de um prêmio que lhe foi conferido em 2009, Judt só assumiu, de fato, dois mestres, ambos também historiadores: a francesa Annie Kriegel, heroína da Resistência ao nazismo e défroquée do comunismo, cuja metodologia analítica, misto de história e ciência política, o encantava, e o alemão George Lichtheim, "um dos mais brilhantes estudiosos do pensamento marxista". Aos dois dedicou uma de suas obras de maior impacto: Reflexões Sobre Um Século Esquecido (tradução de Celso Nogueira), a alentada coda que acrescentou à sua história da Europa do pós-guerra, também traduzida pela Objetiva (José Roberto O"Shea).
Li o que pude do polêmico professor da Universidade de Nova York (formado em Cambridge, com passagem por Oxford, pela École Normal Supérieure de Paris e por Berkeley) e timoneiro do Remarque Institute, think tank bancado pelos milhões doados pela viúva do escritor alemão Erich Maria Remarque, a atriz Paulette Goddard. Seus inventários da evolução, reconstrução e malversação do socialismo na França, com destaque para aqueles dois estudos sobre "o passado imperfeito" da intelectualidade francesa, de que só o primeiro volume foi aqui publicado, pela Nova Fronteira, são uma lição de história, ciência política, narratividade e lucidez.
Sua última publicação em vida, os curtos ensaios de Ill Fares the Land, lançada em março pela Penguin, sairá daqui a sete meses pela Objetiva. Com epígrafes do irlandês oitocentista Oliver Goldsmith (de cujo lamento sobre as desgraças que o acúmulo de riquezas pode causar a uma comunidade e seus habitantes extraiu o título do livro), Orwell, Tolstoi, De Tocqueville, Keynes, Zweig, Proust, e até Camille Paglia, já diz ao que veio nas primeiras linhas.
Depois de notar a existência de "algo de profundamente errado em nosso atual modo de vida", há 30 anos sendo deformado por um egocêntrico sibaritismo, Judt investe rijo contra o culto à eficiência, ao enriquecimento, à livre iniciativa, às privatizações e ao consumismo desvairado vigente nas "sociedades presas ao capitalismo desregulamentado e seus excessos", nos dois lados do Atlântico. Sociedades moldadas, segundo ele, por uma geração de pensadores e economistas austríacos - Peter Drucker, Karl Popper, Hayek, Mises, Schumpeter - fanáticos defensores do estado mínimo; melhor dito, do estado a distância.
Mas não muito distante para que possa ser acionado sempre que der chabu no vai-da-valsa liberalista.
Judt simpatizava com a social democracia, sem um pingo de ilusão: "das opções disponíveis no momento, ainda é a melhor". Abandonar seus ganhos históricos - o New Deal, a Grande Sociedade e o estado de bem-estar social da Europa -, ou até satanizá-los como à esquerda e à direita se fez e faz, configurava, para ele, uma traição àqueles que nos precederam e às gerações ainda por vir.
Amiúde se queixava de que "vivemos a era do esquecimento". Até o fim lutou para que nos lembrássemos de tudo. Para não repetirmos os erros do passado.
domingo, agosto 15, 2010
William Bonner para presidente?
William Bonner para presidente?
Num tempo que celebra a internet como realização das utopias democráticas, a TV ainda é o centro do espaço público nacional
Eugênio Bucci - 14 de agosto de 2010 | 16h 00 - Estadão
Crivo. Bonner e Fátima tinham a tarefa de ‘apertar’ os entrevistados, sem parecer bajular e nem desrespeitar os que lá foram
A sequência de entrevistas com os candidatos à Presidência da República no Jornal Nacional, ao longo da semana que passou, revelou pouco sobre os meandros das negociatas políticas que cimentam com barro débil as alianças eleitorais e corroem com ácido mortal a credibilidade dos que ainda têm alguma. Dilma, Marina, Serra e Plínio saíram das entrevistas mais ou menos como entraram. Sangraram pouco, sorriram outro tanto, fingiram estar à vontade. Já William Bonner, o condutor do programa, este sim se saiu bem. Não porque tenha sido elogiado pelas multidões; ele ouviu reclamações, isto sim, dos cabos eleitorais de uns e outros. Mas saiu reforçado, legitimado, pela aquiescência quase reverente dos seus entrevistados, que foram ao JN como quem rende homenagens à instância máxima da opinião pública no Brasil.
Nisso, não estavam de todo errados. Se não mostraram nenhum fato inédito e bombástico sobre a biografia dos concorrentes, as entrevistas explicitaram, uma vez mais, a centralidade que o mais antigo telejornal em exibição no Brasil ainda ocupa no debate político que a nação é capaz de entabular.
Num tempo que festeja o livro digital, celebra as redes sociais e reverencia o celular como prodígios tecnológicos e como realização de todas as utopias democráticas, a televisão, a velha, a manjada, a previsível televisão de todo santo dia ainda é o centro do espaço público nacional. Não tem jeito. E se a televisão é o centro de gravidade, a Rede Globo ainda é o centro do centro. Quanto ao JN, ele é o centro do centro do centro. Gostem ou desgostem, é assim.
Há muitos anos, uma marca de cigarro fazia sua propaganda evocando paisagens que seriam o retrato de sua "terra natal". Pois então: o torrão em que nascera aquele cigarro era um ambiente de descampados míticos e selvagens, com jeito de Velho Oeste americano, mas tinha a particularidade conveniente de não ter localização definida. "É lá que os homens se encontram", entoava o locutor dos comerciais. Os jornalistas faziam piada: "Mas ninguém sabe onde fica". Hoje, o estúdio do JN, com seu cenário de torre de comando da nave Enterprise, de Jornada nas Estrelas, numa estética de ficção científica dos anos 70, de um futurismo retrô, lembra um pouco a Terra de Marlboro.
A ambientação, sem janelas nem plantas, situa-se num lugar fora dos lugares geográficos. Assim como o sotaque dos apresentadores, que soa como um híbrido sem origem. O estúdio do JN pode muito bem ter seu endereço no Rio, na Mooca ou em São Joaquim da Barra que não faz diferença. Ele não tem raízes no chão. Paira como um zepelim prateado no céu da Pátria. Mas - atenção para isso - é lá que os homens se encontram. Melhor: é lá que os candidatos à Presidência se revezam e dão explicações para William Bonner, o porta-voz do eleitorado.
A TV. Ainda a TV. Nada como a TV. E, no meio dela, William Bonner e Fátima Bernardes. Em junho passado, a Secom divulgou os resultados de uma pesquisa - que encomendou ao Instituto de Pesquisa Meta - sobre os hábitos de informação dos brasileiros. Foi uma enquete ambiciosa, que entrevistou 12 mil pessoas em 924 pontos do País, que, entre outras coisas, revelou que para nada menos de 73,6% dos entrevistados, os telejornais são o principal veículo informativo sobre atos do governo federal. Para 33,7%, Bonner é o apresentador mais confiável. Depois dele, vêm Fátima Bernardes, com 18,15, e Boris Casoy, da Bandeirantes, com 4%.
Os ressentidos resmungam, dizendo que essa liderança é produto da alienação do povo ou dos "monopólios da mídia". Estão errados. Sem dúvida, existe concentração de propriedade na radiodifusão brasileira. No entanto, a razão do sucesso do JN não tem mais a ver com isso. Esse programa, que atingiu o ápice do chapa-branquismo durante a ditadura militar e se manteve assim na segunda metade dos anos 80, conseguiu descrever uma impressionante trajetória de reposicionamento de imagem (e de atitude). Para a largada da travessia, o conforto do monopólio contribuiu. Para o resto do percurso, não. Ao longo do caminho, o JN ganhou objetividade e credibilidade. Conquistou a percepção do público de que sabe ser informativo e equilibrado. Tropeçou - e tropeça - em pedregulhos e ribanceiras, mas caminhou na direção de um distanciamento crítico que jamais teve em relação ao poder. Hoje, apresenta ao País um jornalismo laico - precioso num período em que a TV se entrega cada vez mais ao fanatismo religioso e partidário.
Uma das provas desses méritos veio nessa semana, com o reconhecimento que Bonner recebeu dos três principais candidatos. A deferência com que todos responderam ao que lhes era perguntado atestou a legitimidade do telejornal. Apenas Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) criticou o programa. Não foi subserviente nem cínico, mas criticou sem razão. Disse que seu tempo de entrevista (3 minutos) era exíguo, enquanto Marina, Dilma e Serra tiveram, cada um, 12 minutos. Na opinião dele, foi uma discriminação. O programa reagiu corretamente: não apenas exibiu o protesto como explicou ao telespectador seu critério: os candidatos teriam tempo proporcional à pontuação de cada um nas pesquisas eleitorais. Plínio, com cerca de 1%, não poderia receber o mesmo tempo que um candidato com 30%. O critério é justo.
Na semana que passou, os entrevistadores do JN (William Bonner e Fátima Bernardes) souberam apertar Dilma Rousseff sobre o apoio do PT ao PMDB dos Sarneys no Maranhão, e souberam exigir esclarecimentos de Serra sobre sua aliança com o PTB, cujo presidente foi cassado no escândalo do mensalão. Não militaram para proteger um lado ou outro. Não bajularam, mas também não desrespeitaram ninguém.
Até agora, o momento alto da campanha aconteceu no Jornal Nacional - mais do que no debate na Bandeirantes. Só na Grande São Paulo, 5,9 milhões de telespectadores viram o que Dilma e Serra falaram. O JN se saiu bem e isso é bom para a democracia. Que ele tenha sido tão adulado pelos candidatos - à exceção de Plínio - talvez não seja tão bom. Às vezes, os entrevistados respondiam a William Bonner como se fossem alienígenas de um planeta em apuros mendigando pela simpatia do Capitão Kirk, da Enterprise. Ao menos por enquanto, o nome de William Bonner não está na cédula eleitoral.
*Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP e autor de 'Videologias' (Boitempo)
sábado, agosto 14, 2010
Mobilização geral por Dilma - Editorial / O Estado de S. Paulo
Mobilização geral por Dilma - Editorial / O Estado de S. Paulo
O País seria outro em muitos aspectos se o presidente Lula tivesse convocado a administração federal a fazer o que dela a sociedade cobra com a mesma determinação empregada para fazê-la trabalhar cada vez mais pela candidatura Dilma Rousseff. E a máquina pública faria jus aos volumosos impostos recolhidos da população se os devolvesse sob a forma de serviços de boa qualidade no ritmo requerido, com o mesmo empenho e assiduidade com que se engajou na campanha sucessória, a fim de suprir as notórias deficiências da ex-ministra no embate eleitoral.
Fiel à sua proclamada prioridade "como presidente" este ano, não bastou a Lula carregar a sua afilhada pelo Brasil afora em eventos ditos administrativos, pelo que já recebeu uma penca de multas aplicadas pela Justiça Eleitoral. Tampouco deve ter considerado suficiente sincronizar o anúncio de medidas na área de políticas públicas com as promessas da candidata na montagem de uma assim chamada "agenda positiva". Foi só ela defender a intensificação do combate ao crack, por exemplo, e eis que, num primário jogo de cartas marcadas, o Planalto apresentou o que seria um programa nacional nesse sentido.
Com igual despudor, apostando na falta de informação e senso crítico da parcela do eleitorado com que conta para eleger a ex-ministra, Lula resolveu colocar o Ministério em regime de prontidão para fazer por Dilma o que ela não conseguiria por conta própria. Na terça-feira, ele reuniu o Gabinete para exigir de seus integrantes dedicação plena à campanha eleitoral. "O povo brasileiro", avisou na véspera, "merece que nós possamos concluir o trabalho que começamos." Naturalmente, nenhum dos mobilizados há de ter tido dúvidas sobre a natureza desse trabalho.
Coincidência ou não, no mesmo dia do comando de ordem unida dado por Lula, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, divulgou pessoalmente um boletim estatístico eivado de falsidades.
A julgar pelos números manipulados, o governo Lula é ainda melhor do que o seu titular diz ser e o governo Fernando Henrique ainda pior do que o lulismo apregoa. Dados referentes ao primeiro ano da gestão FHC, por exemplo, foram omitidos para aumentar a diferença da variação da renda nacional per capita nos dois governos.
As verdades distorcidas foram parar sem demora no site da candidatura Dilma e ela mesma se valeu de uma delas (sobre a evolução do salário mínimo) na sua vez de ser sabatinada pelo Jornal Nacional. A operação casada prosseguiu nos dias seguintes, quando os Ministérios da Saúde e dos Transportes contestaram fatos e números apresentados pelo candidato oposicionista José Serra no mesmo programa. Menos de 2 horas depois, com incomum agilidade, a Saúde divulgou nota oficial respondendo à crítica do tucano à extinção dos mutirões criados quando chefiou a Pasta.
"Os mutirões foram incluídos na Política Nacional de Cirurgias Eletivas, criada em 2004", diz a nota.
Com isso, segundo o governo, o número desses procedimentos programados subiu de 1,5 milhão para 2 milhões. O texto parece ignorar relatório oficial de março passado atestando o contrário. Em 2002, último ano da gestão Serra, foram 484 mil cirurgias de 17 modalidades.
Em 2009, esse total caiu para 457 mil. O governo se vangloria das 319 mil operações de catarata no ano passado, ante 309 mil há 8 anos. Mas finge desconhecer a fila de mais de 170 mil candidatos a cirurgias nas 7 maiores cidades do País, conforme revelou O Globo. Nada disso, evidentemente, impediu o PT de anunciar no seu site que a Saúde rebatera as "mentiras de Serra".
Já o Ministério dos Transportes negou a informação do candidato de que, a contar de 2003, foram aplicados em estradas apenas R$ 25 bilhões dos R$ 65 bilhões arrecadados com o imposto para obras de infraestrutura (Cide), entre outras. A Pasta desmentiu também que a Rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte, estivesse "fechada", como afirmou Serra. O ponto não é o direito (ou o dever) dos governos de contestar com fatos objetivos as acusações que lhe são dirigidas. Mas o governo Lula, a pretexto de se defender, se mobiliza para fazer propaganda enganosa com fins eleitorais.
Fly Geyser, Nevada
Fotografia por Stephen Oachs
O sol nascente ilumina deserto de Black Rock e o Fly Geyser, que envia um fluxo contínuo de minerais carregados de água muito alto.
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