terça-feira, agosto 31, 2010

O grande salto

O grande salto

Drauzio Varella
A ciência evolui aos saltos; a prática da medicina, também. A fase em que os remédios eram descobertos por casualidade ou tinham seu uso transmitido das avós para os netos durou milhares de anos, mas perdeu o sentido diante da natureza dos desafios atuais: evitar os ataques cardíacos, impedir que o sistema nervoso degenere, curar o câncer, retardar o envelhecimento.
Os médicos que assistiram ao aparecimento dos antibióticos contam que, antes da existência deles, não fossem as cirurgias, quase nada podiam receitar além de analgésicos, chazinhos, canja de frango e repouso no leito.
Diarréias, difteria, sarampo e amidalites banais dizimavam a população infantil, da mesma forma que a tuberculose se disseminava entre os adultos indefesos.
No início do século 19, a milenar medicina chinesa era incapaz de assegurar ao chinês médio mais do que trinta anos de permanência neste vale de lágrimas. Cem anos mais tarde, a expectativa de vida nos países mais desenvolvidos mal chegava aos quarenta anos.
As vacinas, o saneamento básico e os antibióticos transformaram o mundo num lugar menos inóspito. No século 20, a expectativa de vida duplicou em vários países, fato sem paralelo nos cinco milhões de anos decorridos desde que descemos das árvores nas savanas da África.
Na Segunda Guerra Mundial, durante os testes para uso da mostarda nitrogenada como gás de guerra, os médicos do exército americano perceberam que os técnicos apresentavam quedas bruscas do número de glóbulos brancos no sangue.
A observação levou-os a testar a mostarda no tratamento de doenças que cursam com aumento progressivo e irreversível dos vários tipos de glóbulos brancos: as leucemias e os linfomas. Finalmente, a medicina dispunha de uma droga química para tratar portadores de câncer: estava inaugurada a era da quimioterapia antineoplásica.
Nos cinqüenta anos que se seguiram, aprendemos que a quimioterapia podia curar leucemias, linfomas, câncer de testículo avançado, casos mais iniciais de câncer de mama, intestino e estômago, além da maioria dos tumores malignos que se instalam na infância. Enquanto esses progressos eram documentados em estudos multicêntricos, através dos quais foi possível testar novos esquemas de tratamento em ensaios clínicos conduzidos simultaneamente em milhares de pacientes de diversos países, na segunda metade do século 20 houve investimento de recursos colossais (especialmente nos Estados Unidos) na formação de cientistas e na execução de programas de pesquisa.
Tais programas permitiram, por exemplo, conhecer a estrutura química de todos os genes humanos e entender a cadeia de reações que acontece no interior das células desde o instante em que recebem o sinal para dividir-se, até o momento em que a divisão ocorre de fato, fenômeno biológico que encerra o segredo da gênese do câncer. Decifrar a natureza dos sinais transmitidos de uma molécula para a subseqüente desde a membrana externa da célula, através do citoplasma, até chegar ao núcleo para ordenar aos genes que disparem o gatilho da divisão celular, cria a possibilidade de desenhar moléculas-mísseis.
Estas são capazes de impedir que o sinal para a divisão progrida no interior das células malignas ou dos vasos sangüíneos essenciais para a sua nutrição. Já temos à disposição algumas moléculas-mísseis para tratamento de leucemias, linfomas, certos casos de câncer de mama, de rim e de outros tumores malignos; muitas outras se encontram em fase avançada de estudos clínicos. O grande salto dos próximos anos será dado pelos agentes biológicos.
Na primeira quinzena de junho de 2006, foi realizado o Congresso Americano de Oncologia, em Atlanta. No imenso hall em que a indústria farmacêutica exibe seus produtos, para cada estande montado com a finalidade de divulgar agentes quimioterápicos, havia meia dúzia de outros que anunciavam novas moléculas para tratamento biológico. Lembrei de uma visita a uma loja de discos em Nova York, em meados dos anos 1980. Nas estantes, todos os discos eram de vinil, com exceção de um canto reservado para os CDs, que acabavam de surgir. Seis meses mais tarde, na mesma loja, os CDs ocupavam todo o espaço; no cantinho, estavam os vinis.
A ciência evolui aos saltos; a prática da medicina, também. A fase em que os remédios eram descobertos por casualidade ou tinham seu uso transmitido das avós para os netos durou milhares de anos, mas perdeu o sentido diante da natureza dos desafios atuais: evitar os ataques cardíacos, impedir que o sistema nervoso degenere, curar o câncer, retardar o envelhecimento.
Os médicos que assistiram ao aparecimento dos antibióticos contam que, antes da existência deles, não fossem as cirurgias, quase nada podiam receitar além de analgésicos, chazinhos, canja de frango e repouso no leito.
Diarréias, difteria, sarampo e amidalites banais dizimavam a população infantil, da mesma forma que a tuberculose se disseminava entre os adultos indefesos.No início do século 19, a milenar medicina chinesa era incapaz de assegurar ao chinês médio mais do que trinta anos de permanência neste vale de lágrimas. Cem anos mais tarde, a expectativa de vida nos países mais desenvolvidos mal chegava aos quarenta anos.
As vacinas, o saneamento básico e os antibióticos transformaram o mundo num lugar menos inóspito. No século 20, a expectativa de vida duplicou em vários países, fato sem paralelo nos cinco milhões de anos decorridos desde que descemos das árvores nas savanas da África.
Na Segunda Guerra Mundial, durante os testes para uso da mostarda nitrogenada como gás de guerra, os médicos do exército americano perceberam que os técnicos apresentavam quedas bruscas do número de glóbulos brancos no sangue. A observação levou-os a testar a mostarda no tratamento de doenças que cursam com aumento progressivo e irreversível dos vários tipos de glóbulos brancos: as leucemias e os linfomas.
Finalmente, a medicina dispunha de uma droga química para tratar portadores de câncer: estava inaugurada a era da quimioterapia antineoplásica.
Nos cinqüenta anos que se seguiram, aprendemos que a quimioterapia podia curar leucemias, linfomas, câncer de testículo avançado, casos mais iniciais de câncer de mama, intestino e estômago, além da maioria dos tumores malignos que se instalam na infância. Enquanto esses progressos eram documentados em estudos multicêntricos, através dos quais foi possível testar novos esquemas de tratamento em ensaios clínicos conduzidos simultaneamente em milhares de pacientes de diversos países, na segunda metade do século 20 houve investimento de recursos colossais (especialmente nos Estados Unidos) na formação de cientistas e na execução de programas de pesquisa.
Tais programas permitiram, por exemplo, conhecer a estrutura química de todos os genes humanos e entender a cadeia de reações que acontece no interior das células desde o instante em que recebem o sinal para dividir-se, até o momento em que a divisão ocorre de fato, fenômeno biológico que encerra o segredo da gênese do câncer.Decifrar a natureza dos sinais transmitidos de uma molécula para a subseqüente desde a membrana externa da célula, através do citoplasma, até chegar ao núcleo para ordenar aos genes que disparem o gatilho da divisão celular, cria a possibilidade de desenhar moléculas-mísseis. Estas são capazes de impedir que o sinal para a divisão progrida no interior das células malignas ou dos vasos sangüíneos essenciais para a sua nutrição.
Já temos à disposição algumas moléculas-mísseis para tratamento de leucemias, linfomas, certos casos de câncer de mama, de rim e de outros tumores malignos; muitas outras se encontram em fase avançada de estudos clínicos. O grande salto dos próximos anos será dado pelos agentes biológicos. Na primeira quinzena de junho de 2006, foi realizado o Congresso Americano de Oncologia, em Atlanta. No imenso hall em que a indústria farmacêutica exibe seus produtos, para cada estande montado com a finalidade de divulgar agentes quimioterápicos, havia meia dúzia de outros que anunciavam novas moléculas para tratamento biológico.
Lembrei de uma visita a uma loja de discos em Nova York, em meados dos anos 1980. Nas estantes, todos os discos eram de vinil, com exceção de um canto reservado para os CDs, que acabavam de surgir. Seis meses mais tarde, na mesma loja, os CDs ocupavam todo o espaço; no cantinho, estavam os vinis.
http://www.drauziovarella.com.br/

Vendilhões do Templo

Estudo mostra que mais da metade das famílias brasileiras tem dívidas

Estudo mostra que mais da metade das famílias brasileiras tem dívidas
Valor médio do débito é de R$ 5.426; jovens adultos são os que mais devem

Quase 55% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado nesta terça-feira (31). O instituto ouviu moradores de 3.810 residências brasileiras, localizadas em 214 cidades. 
O valor médio do débito, segundo o Ipea, é de R$ 5.426,59. Cerca de 15% das famílias endividadas devem até metade do rendimento mensal da casa. 
Na outra ponta, 23% das famílias possuem dívidas equivalentes a cinco vezes a renda mensal. Ou seja, se a renda mensal é de R$ 3.000, a família deve nada menos que R$ 15 mil.
Entre os que disseram dever algum valor, 11,08% afirmaram estar muito endividados, 16,82% disseram estar mais ou menos endividados e 26,25% julgam estar pouco endividados. Mesmo assim, jovens e ricos estão otimistas com o futuro da economia brasileira.

Dívida por idade
Os adultos com idade entre 30 e 39 anos lideram o ranking de endividados, com 15,45%. Na segunda posição do ranking, estão os brasileiros com idade entre 40 e 49 anos, cuja taxa de endividamento está em 12,92%. 
Os menos endividados são aqueles que têm mais de 60 anos, sendo que apenas 7,75% dessa camada da população deve algum valor.
Os brasileiros que têm ensino médio incompleto (antigo colegial) lideram a lista dos mais endividados com 13,89%. Na ponta oposta, os menos endividados são os que possuem o ensino médio completo, com 29,33%.

Débitos de acordo com salário 
As famílias brasileiras que ganham de um a dois salários mínimos (de R$ 510 a R$ 1.020) encabeçam a lista dos mais endividados – 13,69% dessas famílias reconheceram dever muito. 
Ao mesmo tempo, o mesmo recorte lidera o ranking das famílias sem dívidas: 46,33% do total disseram não dever nada a ninguém, ou seja, pagam suas contas em dia. 
Os que possuem maior poder aquisitivo - com renda familiar mensal acima de dez mínimos (R$ 5.100) – estão pouco endividados. Entre os que disseram ter débitos, 33,85% afirmaram dever pouco.

Por etnia
Os brasileiros que se declararam negros ou amarelos são os mais endividados do país, segundo o Ipea. Pouco mais de 16% dos negros e quase 18% dos amarelos disseram ter débitos muito grandes. 
Fonte: R7 Notícias

Erasmo, para o Jornal de Piracicaba

‘Ninguém se importa com histórias de soldados’, diz veterano do Iraque

‘Ninguém se importa com histórias de soldados’, diz veterano do Iraque
Fred Minnick foi soldado e fotógrafo do Exército americano em 2004.
Volta para casa, segundo ele, foi mais difícil que a guerra.

“Enfrentei um inimigo muito mais mortal que a granada que quase me matou, as balas ou os morteiros”, contou ele ao G1. “Fui diagnosticado com uma forma severa de transtorno de estresse pós-traumático. (...) Eu odiava que a sociedade se importasse mais com os problemas legais de Martha Stewart [uma apresentadora de TV americana] do que com os soldados”, afirma.
G1 publica uma série de reportagens sobre os sete anos de ocupação norte-americana no Iraque. Leia também o raio-X da guerra e indicações de livros e filmes para entender o conflito.
Meu trabalho permitiu que eu observasse a guerra de todos os ângulos"
Fred  Minnick
Minnick chegou ao Iraque com 27 anos, em janeiro de 2004, e uma tarefa diferente da maioria de seus colegas: era fotógrafo. Sua missão era acompanhar as tropas de infantaria e registrar as operações de combate, antes, durante e depois. Embora estivesse armado e de farda, seu principal instrumento de trabalho era a câmera.
“Meu trabalho permitiu que eu observasse a guerra de todos os ângulos e me deu a oportunidade de contar a história de nossos heróis”, afirma.
Na volta aos Estados Unidos, no entanto, Minnick descobriu que os americanos não queriam ouvir essa história. “Quase que imediatamente ao voltar para casa, em janeiro de 2005, meus problemas começaram”, conta, sobre o estresse pós-traumático.
Em um dos pesadelos que teve com o Iraque, ele conta que acordou do lado de fora da casa dos pais, abraçado a uma árvore gritando que “eles estavam por toda a parte”.
“Eu queria poder dizer que os pesadelos eram a única coisa me impedindo de dormir ou de me reajustar. Mas eu bebia o máximo que podia e evitava encontrar meus amigos”, conta. “Quando as pessoas se interessavam [pelo Iraque], perguntavam apenas coisas como ‘você matou alguém?’, ‘você acha que nós devíamos estar lá?’”, lembra Minnick.
“Uma vez, depois que o meu time de basquete perdeu o campeonato, bebi várias garrafas de cerveja. Comecei a chorar no bar porque eu não conseguia nem mesmo lidar com a derrota em um jogo de basquete,” conta.
Para superar o trauma, um de seus terapeutas (“demorei para escolher um de quem eu gostasse”, conta Minnick) sugeriu que ele “contasse sua história”.
Ele se demitiu de seu emprego e se mudou para uma cidade do interior, onde escreveu o livro “Camera Boy”, com as suas memórias da guerra.
“Colocar minhas experiências no papel fez eu me sentir melhor. Eu pensava que o mundo iria ouvir minha história e a história dos meus amigos que morreram. Eles iriam conhecer Samir, nosso intérprete iraquiano que foi assassinado e ele não seria esquecido. Nunca acreditei que minha história era mais especial do que a de qualquer outro soldado, mas ela é minha e eu tenho orgulho do que fiz. Tenho orgulho de preservar a memória dos meus amigos caídos”, conta.
“Mas logo descobri que as editoras eram a mesma coisa que o resto da América: ninguém se importava com o Iraque ou, mais precisamente, com as histórias dos soldados”, conta.
Minnick levou “Camera Boy” a centenas de editoras, segundo ele, incluindo uma das maiores de Nova York, onde um agente teria dito que gostava do livro, mas que não conseguiria vendê-lo.
“’As editoras estão perdendo dinheiro com livros sobre o Iraque e você é um ninguém’, ele me disse, indicando que eu não era um general, um político ou um jornalista do "New York Times". Ele disse que poderia haver algum interesse se eu tornasse ‘Camera Boy’ ‘anti-Bush’ ou crítico da mídia. Demiti o cara”, conta.
Foram mais de cem rejeições ao longo de um ano, segundo ele. “Passei muitas noites acordado pensando porque ninguém se importava com o Iraque. Meus amigos morreram por nada? Meu tempo ali não significou nada?”, diz Minnick.
Somente após três anos, uma pequena editora militar entrou em contato com Minnick sobre a possibilidade de publicar seu livro. “Nunca tive fantasias de que ‘Camera Boy’ fosse me tornar rico ou famoso ou importante. (...) Quando fiz as contas entre o tempo que eu gastei escrevendo e o quanto eu ganharia, percebi que provavelmente terei cerca de dez centavos por hora”, afirma.
Mas o livro nunca foi sobre o dinheiro. Eu queria apenas preservar as histórias dos meus amigos para que talvez as pessoas apreciassem um pouco mais o sacrifício dos soldados. Nós, veteranos, demos tanto por nosso país. O mínimo que as pessoas podem fazer é ouvir nossa história”, conta.

Debate: A Nova Classe Média Brasileira - Bolívar Lamounier

AROEIRA

Marina diz que vai lutar mesmo com traço nas pesquisas eleitorais

Marina diz que vai lutar mesmo com traço nas pesquisas eleitorais
Sérgio Roxo – O Globo
Publicada em 31/08/2010 às 13h15m

SÃO PAULO - A candidata do PV à Presidência, Marina Silva, afirmou nesta terça-feira que tem disposição para lutar mesmo que apresente traço nas pesquisas de intenção de voto. Durante encontro com mulheres no apartamento da educadora Neca Setubal, da família sócia do Banco Itaú, no Itaim Bibi, na Zona Oeste da capital paulista, a presidenciável verde disse que não se preocupa com os índices que aparece nos levantamentos. Na semana passada, Marina apareceu com 7% no Ibope e 9% no Datafolha.
" Se aparecer com traço, vou continuar defendendo educação de qualidade, segurança como valor que defende a vida "
- Se aparecer com traço, vou continuar defendendo educação de qualidade, segurança como valor que defende a vida, planejamento para infraestrutura e desenvolvimento sustentável.
Mais tarde em entrevista, ao ser perguntada sobre a fala, Marina afirmou que "se tem disposição de lutar até com traço, com 8% a 10%, você vai para o segundo turno".
A candidata voltou a defender a necessidade de levar a eleição para segundo turno para o "aperfeiçoamento da democracia". 

Estrada do Sol Nana Caymmi & Dori Caymmi

Humberto, para o Jornal do Commercio

Marco oculto sob a passagem de nível

Marco oculto sob a passagem de nível
30/08/2010 - 21:02
Por Wilson Figueiredo – Jornal do Brasil
Está no Caldas Aulete que “oposição é a ação de opor ou opor-se” e, como não poderia deixar de ser, o verbete vai direto ao ponto com a variante segundo a qual também vale para “esforços que se opõem a um governo para o estorvar nos seus atos, para a paralisação na sua ação ou para expulsá-lo do poder”. A última hipótese teve seu tempo no Brasil, mas a moda passou. E deixou sequelas. Pode ter sido por mais de uma razão, mas o fato – histórico – foi que o PSDB teve ao seu alcance, num determinado momento do mensalão, o primeiro mandato de Lula, em situação de tirar o fôlego. O episódio foi discreto, e o pessoal da social-democracia parou à beira do precipício. E perdeu a oportunidade de optar pela solução negociada, no melhor sentido, e garantir à democracia saldo qualificado no quinto mandato presidencial depois dos governo militares.
O episódio circulou em âmbito restrito, em forma de versões pessoais, como se fosse degradante ou envolvesse conivência para desativar o escândalo. É fato, ainda não processado de público, que o comando social-democrata resolveu esperar que a situação se resolvesse por si mesma. Não se resolveu, e o governo apenas chegou a examinar a renúncia ou a alternativa de apelar para os grotões ideológicos. A oposição tomou consciência de que a democracia confirma ter vindo para ficar. Pode ter sido também o temor do opróbrio histórico que levou o PSDB à reflexão. O tempo trará à tona a verdade sobre o único perigo de retrocesso vivido desde a última eleição indireta, que foi também o primeiro passo rumo a uma democracia estável. Naquele momento tenso, o acordo poderia poupar a História, para sempre, da farsa de repetir-se em círculos de autoritarismo estéril e recomeçar em vão. 
Ao deter-se diante do desfecho do que se entende (em regime parlamentar de governo) por ultima ratio do direito de fazer oposição, o PSDB não pleiteou solução de algibeira. No confronto de conceitos socialistas de governo democrático e resíduos de natureza revolucionária, falta aos dois lados da questão derrubar o muro de prevenções fomentadas por baixo nível ideológico. A desconfiança recíproca ficou mais nítida na campanha eleitoral perante a qual se nivelam igualmente pela intolerância. A atual oportunidade não será a última, mas o tempo desperdiçado na disputa de votos abre espaço para a reflexão isenta, objetiva, ponderada, sem pressa em relação ao futuro que está atrasado mas recomeça todos os dias. O único símbolo de progresso, a despeito das aparências e sombras (se é que não apenas esconde o que não pode ser mostrado), é a apresentação de quatro candidatos com matizes variados de esquerda, pelo que se subentende como centro, sujeito a suspeitas mas sem a tentação de voltar atrás à procura do que passou. Passou e não tem volta.

Lila, para o Jornal da Paraíba

Compra de bens ou serviços para incrementar negócios da empresa não configura relação de consumo

STJ – SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA - 30/08/2010 - 12h15
Compra de bens ou serviços para incrementar negócios da empresa não configura relação de consumo
A atual jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconhece a existência da relação de consumo apenas quando ocorre destinação final do produto ou serviço, e não nos casos em que o bem comprado seja utilizado para outra atividade produtiva. Para que o consumidor seja considerado destinatário econômico final, o produto, serviço adquirido ou utilizado não pode ter qualquer conexão, direita ou indireta, com a atividade econômica exercida pela empresa compradora. A destinação final só ocorre quando o produto ou serviço é adquirido para o atendimento de uma necessidade própria, pessoal do consumidor. Assim entendeu a Terceira Tuma do STJ, ao negar provimento ao recurso especial da Intermaq Interamericana de Máquinas Ltda. contra a Viação São Cristóvão Ltda. 
A Intermaq, empresa revendedora, importadora e exportadora de maquinários sediada no Paraná, entrou na Justiça com um pedido de indenização contra a Viação São Cristóvão, devido a um contrato firmado com a transportadora para levar um gerador de energia da sede da fábrica, em Cravinhos (SP), para Belo Horizonte (MG). De acordo com a empresa compradora, o produto teria sofrido avarias devido às más condições no deslocamento. A Intermaq pretendia que a empresa de transporte pagasse cerca de R$ 12 mil, corrigidos desde a data da celebração do serviço com a São Cristóvão (2002). 
O juiz de primeiro grau entendeu que o processo discutia uma relação de consumo e aplicou o artigo 101 do Código de Defesa do Consumidor (CDC), o qual prescreve: “Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e serviços, sem prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste Título, serão observadas as seguintes normas: I – a ação pode ser proposta no domicílio do autor (no caso, da Intermaq)”. 
Inconformada, a Viação São Cristóvão recorreu à segunda instância, alegando não se tratar a questão de relação de consumo, uma vez que a empresa não era consumidora nem hipossuficiente, sendo aplicável, portanto, o artigo 100 do Código de Processo Civil, que estabelece como foro competente para julgar a ação o da sede da pessoa jurídica demandada (no caso, Divinópolis (MG)). 
O Tribunal de Alçada do Paraná deu provimento ao recurso da Viação São Cristóvão, alegando não ser possível aplicar o CDC, “por se tratar de relação de insumo, visto o tipo de atividade contratado: transporte para entrega de produto vendido. Competência do foro da sede da demandada”. Com a decisão desfavorável, a Intermaq apelou ao STJ, sustentando violação ao CDC. A defesa da empresa argumentou que, para a definição de destinatário final, não importa o que será feito com o produto transportado ou por quem será utilizado, mas sim quem é o consumidor do serviço de transporte. Desse modo, a relação estabelecida entre a empresa e a Viação São Cristóvão seria de consumo, razão por que a ação indenizatória poderia ser ajuizada no foro do domicílio da própria Intermaq. 
O relator do processo, ministro Sidnei Beneti, não acolheu os argumentos em favor da Intermaq. Para ele, está correto o entendimento do Tribunal de Alçada do Paraná, que entendeu não haver relação de consumo, mas apenas um contrato de transporte com a finalidade de atender a uma solicitação de compra de um dos clientes da empresa revendedora. “Resta evidente que a atividade de revenda da agravante (Intermaq) inclui, normalmente, o transporte das máquinas e equipamentos até o domicílio ou sede do cliente – comprador; este sim, consumidor ou destinatário final, tanto do produto, como do transporte deste”, destacou. 
Benetti esclareceu que a aquisição de bens ou a utilização de serviços, por pessoa natural ou jurídica, com o objetivo de implementar ou incrementar os negócios, não podem ser vistos como relação de consumo, e sim como uma atividade de consumo intermediária. “Se assim não fosse, o microssistema do Código de Defesa do Consumidor deixaria de ser especial, sua tutela jurídica deixaria de ser diferenciada e, portanto, a generalização faria desaparecer o próprio fundamento dessa lei de proteção especial, passando a ser o conjunto de normas a regular todos os contratos”, concluiu. 
O ministro negou provimento ao recurso especial, sendo acompanhado pelos demais ministros da Terceira Turma.

Coordenadoria de Editoria e Imprensa

Mary Cassatt - Margot in Blue - 1902

Nani Humor

Marina cobra Mantega por vazamentos

Marina cobra Mantega por vazamentos
O ESTADO DE S. PAULO
Gustavo Uribe
Em café da manhã com colaboradores de campanha, ontem na capital paulista, a candidata do PV à sucessão presidencial, Marina Silva, classificou o episódio do vazamento de dados sigilosos da Receita Federal de "situação de descontrole" e alertou quanto à vulnerabilidade da instituição.
"Onde já se viu mais de 40 pessoas estarem envolvidas na quebra de informações sigilosas que devem ser respeitadas pela legislação brasileira?", questionou. "Os brasileiros todos estão vendo uma situação de vulnerabilidade num sistema que tem a obrigação legal de proteger o cidadão", emendou, cobrando do ministro da Fazenda, Guido Mantega, uma posição sobre o caso.
Ao defender a apuração rigorosa do episódio, ela ironizou o discurso dos adversários sobre a eficiência administrativa: "Nós temos de ter gestão. Em um mundo em que as pessoas se vangloriam tanto da gestão e da gerência, que gerência é essa?"
Durante o encontro, a candidata do PV voltou a falar da preocupação com o clima de "já ganhou" que vem crescendo desde a ampliação da vantagem da candidata petista, Dilma Rousseff, nas pesquisas eleitorais.
Ainda nas críticas aos adversários, Marina falou sobre a suposta tentativa de se criar na campanha um "mundo mirabolante". "Não existe essa história de um mundo cor-de-rosa e um mundo azulzinho, em que se resolvem as coisas com um passe de mágica", disse. "Esses problemas não foram resolvidos nos últimos 16 anos", emendou, numa referência às gestões do PT e do PSDB à frente do Palácio do Planalto.
Prestação de contas. Após o café da manhã, o coordenador do comitê financeiro da campanha de Marina, Álvaro de Souza, informou que amanhã já terá em mãos o total arrecadado pelo PV no segundo mês de campanha. A expectativa é de que o montante de R$ 4,6 milhões, coletado no primeiro mês, dobre.
Souza disse que a campanha na internet já coletou cerca de R$ 75 mil em doações. Por fim, reconheceu que esperava um resultado melhor. "Não existe no Brasil uma tradição de doação política."

SPONHOLZ

A crueldade do apedrejamento

A crueldade do apedrejamento

Folha de São Paulo - 30/08/2010
Antiga pena capital islâmica provoca amplos protestos no mundo
MARKUS SCHREIBER/ASSOCIATED PRESS
O apedrejamento pode ser uma das mais antigas formas de execução no mundo, e certamente está entre as mais bárbaras.
Dois casos recentes atraíram a atenção mundial. Em meados de agosto, um jovem casal foi apedrejado até a morte no Afeganistão por tentar fugir, em um grave sinal do ressurgimento do Taleban. 
Em julho, criou-se uma campanha internacional para defender Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma iraniana que foi condenada à morte por lapidação, acusada de adultério.
Grande parte da indignação que esses casos provocaram -além do simples anacronismo do apedrejamento no século 21- parece derivar do abismo entre as atitudes no Ocidente e em partes do mundo islâmico, onde alguns movimentos recorrem a punições draconianas, e uma visão de restaurar um passado longínquo na busca pela autenticidade religiosa.
O apedrejamento de adúlteros destinava-se antigamente a evitar os nascimentos ilegítimos, que poderiam manchar as linhagens tribais masculinas da Arábia medieval. Mas hoje está ocorrendo em um mundo onde as mulheres pedem liberdades reprodutivas, salários igualitários e a mesma posição social que os homens, inclusive em partes do mundo islâmico.
Essas perspectivas contraditórias ficaram claras em julho, quando o Brasil se ofereceu para dar asilo à mulher iraniana condenada por adultério. O caso tornou-se um embaraço para o governo de Teerã, que valoriza seus laços diplomáticos com Brasília. 
As autoridades iranianas rapidamente redefiniram o crime de Ashtiani como assassinato, em uma aparente tentativa de legitimar seu caso. Ela ainda poderá ser apedrejada ou enforcada.
O Taleban se definiu na década de 1990 com sua versão incrivelmente dura e amplamente contestada da lei islâmica, pela qual as lapidações por adultério tornaram-se comuns. 
Uma lapidação praticada neste mês por centenas de aldeões na Província de Kunduz indicou para onde o Afeganistão parece rumar.
"Não há como dizer quantas lapidações ocorreram, mas foram generalizadas" quando o Taleban governou, disse Nader Nadery, alto comissário da Comissão Independente de direitos humanosdo Afeganistão. "Muitas vezes o homem escapava e só a mulher era castigada, especialmente se ele tivesse conexões ou fosse um membro do Taleban."

A lapidação não é praticada apenas entre os muçulmanos, nem começou com o islã. Grupos dedireitos humanos dizem que uma jovem foi apedrejada até a morte em 2007 na comunidade Yazidi do Curdistão iraquiano, que pratica uma antiga religião curda. 
O Antigo Testamento inclui um episódio em que Moisés ordena que um homem que violara o Shabat fosse apedrejado, e esse ato provavelmente ocorreu entre comunidades judias no antigo Oriente Médio. A lei rabínica, que foi composta a partir do século 1° A.C., especifica a lapidação como uma pena para diversos crimes.
Alguns muçulmanos queixam-se de que o apedrejamento é transformado em escândalo no Ocidente para prejudicar a reputação do islã em geral. 
A maioria dessas punições severas é realizada pelo Taleban e outros grupos radicais que, segundo muitos estudiosos, têm pouco conhecimento real da lei islâmica. A lapidação é uma punição legal somente em alguns países muçulmanos -Irã, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Paquistão e Nigéria-, mas raramente é usada.
A lapidação não é prescrita pelo Corão. Essa punição tem origem nas tradições legais islâmicas que a designam como pena para o adultério. Embora o castigo possa parecer selvagem para o Ocidente, estudiosos dizem que é coerente com os valores da sociedade árabe na época de Maomé, o profeta fundador do islamismo.
O adultério "era considerado uma ofensa a alguns dos propósitos fundamentais da lei islâmica: proteger a linhagem, a família, a honra e a propriedade", disse Kristen Stilt, professora da Universidade Northwestern, que escreveu sobre a lei islâmica. 
Isso pode ajudar a explicar a ligação entre crimes sexuais e apedrejamento, em oposição a outras formas de execução. Um crime que parecia violar a identidade da comunidade exigia uma reação comunitária.
Os líderes iranianos são claramente indecisos quanto à lapidação, que ajudou a obscurecer a reputação de seu país. Advogados iranianos que estiveram envolvidos nesses casos dizem que até cem lapidações foram efetuadas desde a revolução, mas que a prática está se tornando menos comum.
Atualmente, há pelo menos dez pessoas nas cadeias do Irã condenadas à lapidação, setemulheres e três homens, eles acrescentaram.
Existe uma vigorosa campanha interna contra o apedrejamento no Irã, conduzida principalmente por mulheres. No Afeganistão, essa pena parece estar em ascensão, apesar de ser impopular.
"Vemos um aumento nessas chamadas aplicações da justiça pelo Taleban em casos de moral", disse Nadery. "Nos últimos sete meses, 200 pessoas foram mortas por demonstrar reprovação ou criticar os atos do Taleban."

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