sábado, setembro 04, 2010

"Que Estado é esse?", pergunta o juiz

"Que Estado é esse?", pergunta o juiz

Claudia Safatle
Valor Econômico - 03/09/2010
O despacho do juiz que permitiu a Eduardo Jorge ter acesso ao processo que investiga a quebra do seu sigilo fiscal mostra a gravidade dos desvios de função da Receita
O despacho do juiz federal Antonio Claudio Macedo, que concedeu liminar ao vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, determinando que a Receita Federal lhe desse acesso imediato ao processo que investiga a quebra do seu sigilo fiscal, é o único ato, até o momento, que dá a dimensão da gravidade dos desvios de função da Receita. As autoridades responsáveis há dois meses se omitem e as providências anunciadas são desproporcionais à ruptura do Estado de direito que o fato representa.
"Não se pode admitir um Estado Leviatã, no qual tudo que é sigiloso vaza para a imprensa, a exemplo de processos e investigações criminais, bem como dados derivados de quebra judicial de sigilos fiscal, bancário, telefônico e telemático, os quais têm sido veiculados indevidamente, ainda que legalmente protegidos por hipótese de sigilo", escreve o magistrado. "Penso que o Brasil convive há muito tempo com janelas quebradas na vizinhança da proteção ao sigilo, havendo uma relação promíscua entre setores da administração pública e setores da imprensa", completa.
Ao colocar-se no lugar da vítima, ele diz que se sentiria "desnudado e ultrajado" se, ao folhear os jornais, descobrisse que seu sigilo fiscal foi quebrado. "A primeira pergunta seria: que Estado é esse?", conclui o juiz, citando a obra "Leviatã", do filósofo inglês Thomas Hobbes e trechos de "O processo", de Franz Kafka, cujo personagem Joseh K. é acusado de um crime que não cometeu.
A quebra do sigilo fiscal de Eduardo Jorge em 2009, noticiada pela imprensa em junho deste ano, puxou o fio do novelo de outros delitos praticados supostamente por funcionários da Receita no ano passado. Entre as vítimas está a filha de José Serra, candidato do PSDB à Presidência da República, Verônica Serra, cujo sigilo fiscal teria sido violado com base em falsa procuração.
O sigilo fiscal (assim como o bancário e o telefônico) consta dos direitos fundamentais da Constituição de 88, mas a vulgarização da violação desse preceito começa logo depois, já em 1992 e 1993, com as comissões parlamentares de inquérito (CPIs) de PC Farias e dos Anões do Orçamento. A prática logo se difundiu entre as bancadas congressuais e teve como seu principal artífice parlamentares do PT.
Para estabelecer regras ao manuseio de dados confidenciais por funcionários do Fisco, antes totalmente liberado, em 1998 a instituição criou uma norma chamada "motivação de acesso". Por ela, para acessar os dados de um contribuinte o funcionário tem que ter um motivo profissional declarável. Por exemplo, estar em curso uma autuação do contribuinte. Caso o acesso seja imotivado, há uma graduação de penalidades.
Não é só a Receita que tem acesso às declarações de renda dos contribuintes. O Ministério Público pode solicitar essas informações a qualquer momento, sob alegação de que detém poderes de investigação, sem dar muitas explicações. Basta fazer uma requisição à Receita.
Eduardo Jorge, secretário-geral da Presidência da República no governo Fernando Henrique Cardoso, teve seu sigilo fiscal quebrado também em 2001, em meio a uma investigação sobre a evolução do seu patrimônio. Os dados da declaração de renda do ex-secretário foram divulgados na imprensa. O rumoroso processo culminou com o Conselho Nacional do Ministério Público punindo os procuradores Luiz Francisco de Souza e Guilherme Shelb. O CNMP entendeu que ambos perseguiram Eduardo Jorge por motivações político partidárias.
Desta vez a violação ocorreu na própria Receita, instituição que desde 2003 tem passado por várias crises. A primeira começou com a indicação de Jorge Rachid para conduzir a secretaria durante a gestão do ministro Antônio Palocci na Fazenda. A escolha de Rachid provocou fortes resistências do sindicato, Unafisco, que apoiava o nome de Deomar de Moraes, com a aprovação de integrantes do PT do Rio e de São Paulo. O conflito só terminou com a demissão de Moraes do comando do serviço de inteligência do Fisco.
Lina Maria Vieira assumiu a Receita Federal em julho de 2008, substituindo Rachid, exonerado pelo ministro Guido Mantega. Após notícias de que a Petrobras teria feito "manobra contábil" para pagar menos impostos, Lina foi demitida em julho de 2009, a despeito de ter apoio integral do sindicato. Logo em seguida, ela abriu uma crise com a então ministra da Casa Civil e hoje candidata à presidência, Dilma Rousseff.
"É a política", resume um especialista em assuntos do fisco. Como antídoto para crimes dessa natureza, e diante da realidade de que qualquer queixa por abuso de autoridade do Ministério Público só pode ser feita junto ao MP, o Comitê Gestor do Pacto Republicano elaborou e tramita no Congresso Nacional projeto de lei sobre Crime do Abuso da Autoridade. Tal iniciativa não é suficiente para repor o sigilo fiscal como direito fundamental do cidadão, mas é um passo.
O vazamento de informações protegidas pelo sigilo é muito grave. No caso do caseiro Francenildo resultou na demissão do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e do presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso.
É oportuno, neste momento, lembrar do conto do escritor francês François Andrieux "O Moleiro de Sans-Souci". Sob ameaça do rei Frederico II, da Prússia, de derrubar o moinho de sua propriedade que atrapalhava a vista do castelo, o moleiro respondeu ao soberano a célebre frase: "Ainda há juízes em Berlim."

Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras

Samuca, hoje no Diário de Pernambuco

Erro estratégico

Erro estratégico
Merval Pereira

O comando da campanha presidencial tucana cometeu um erro estratégico ao tentar impugnar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a candidatura situacionista de Dilma Rousseff, dando margem a que seus adversários aleguem que toda gritaria em torno da quebra dos sigilos fiscais tem o objetivo único de “melar” a eleição que, segundo as pesquisas, a candidata de Lula vence com larga margem sobre José Serra, o candidato do PSDB.
A mesma reação teve o presidente Lula quando disputava a reeleição em 2006 e aconteceu o episódio dos “aloprados”. Lula partiu para o ataque dizendo que a oposição estava querendo “melar o jogo” ou “ganhar no tapetão”, o que na gíria futebolística tanto ao gosto do presidente significa querer ganhar nos tribunais os pontos perdidos em campo.
Usaram a tática de atacar para se defender mesmo que todas as evidências chegassem, como hoje, bem próximas ao Palácio do Planalto e à campanha de reeleição de Lula, com assessores pessoais envolvidos na tramoia, como Freud Godoy, ex-segurança transformado em assessor especial.
Acusado de ser o planejador da compra do dossiê contra os candidatos tucanos Geraldo Alckmin e José Serra, Freud desapareceu de cena e ressurgiu no início deste ano, sempre envolvido em espionagem e contrainformação, presidindo a Caso Sistemas de Segurança.
Hoje, quando se repete a revelação do uso de métodos ilegais na campanha petista, a alegação é a mesma: por que interessaria ao governo perturbar uma eleição que parece tão tranquila, com Dilma mais de 20 pontos à frente de Serra? Acontece que, quando o sigilo de Verônica Serra foi quebrado, em setembro do ano passado — fato que só foi revelado agora, na esteira da investigação dos demais sigilos quebrados — quem estava na frente das pesquisas era José Serra.
O mais grave é que o jornal “Estado de S. Paulo” teve acesso a documentos que provam que a Receita Federal descobriu que o sigilo da filha de Serra fora quebrado há mais tempo, mas escondeu o fato.
Mesmo que a direção da Receita nada tenha a ver diretamente com a espionagem de pessoas ligadas ao candidato do PSDB, não tendo controle sobre os “aloprados” que atuam nas agências a serviço do partido, estaríamos diante de uma clara utilização de órgão do governo para pelo menos proteger a campanha da candidata oficial de notícias potencialmente prejudiciais.
Mas era previsível que a Justiça Eleitoral não aceitaria as evidências para iniciar um processo, assim como não tomou providências quando laços muito mais explícitos ligavam os “aloprados” de 2006 à campanha de reeleição de Lula.
A não aceitação da denúncia, no entanto, não transforma o malfeito — na definição de Dilma Rousseff — em bem-feito, nem reduz a gravidade da situação.
Embora sem chances de eleger seu candidato à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio, nem de fazer uma bancada que tenha expressão numérica, o PSOL pretende continuar pautando sua atuação no Congresso pela prática da política independente. Deve eleger Heloísa Helena para o Senado, o que será garantia de protagonismo político naquela Casa.
Dentro dessa estratégia, a eleição mais importante, a essa altura, é a dos Legislativos.
Segundo o deputado federal Chico Alencar, candidato à reeleição, o PSOL não aceita “ficar no ‘gueto’ dos ‘nanicos ideológicos’: valorizamos os espaços institucionais, defendemos uma radicalização da democracia, combinando a representativa (tão débil hoje) com a participativa”.
Para Alencar, uma hegemonia completa dos setores fisiológicos, de mandatos de clientela —a maior parte hoje vinculada à hegemonia lulista, como antes gravitavam em torno de FHC — será um desastre para o país, e o balcão de negócios, isto é, a corrupção política, aumentará, junto com a degradação total do próprio Parlamento, que já é pouco relevante em termos de projetos estratégicos e fiscalização efetiva dos governos.
A visão de Alencar é pessimista caso essa hegemonia clientelista se confirme: “A reforma política ficará enterrada, definitivamente, até que o desencanto total com o atual sistema produza turbulências sociais (como aconteceu em muitos dos nossos vizinhos latino-americanos)”.
O PSOL também repudia, segundo Alencar, “a cooptação dos movimentos populares, sindicais — e até estudantis — que partidos ditos de esquerda, da base do governo, praticam, contínua e exitosamente”.
Ele admite que a bancada do partido, nos estados e no Congresso Nacional, será “bem pequena”, mas garante que terá independência crítica frente ao provável governo Dilma e aos governos estaduais: “com autonomia para cobrar, criticar, exigir, denunciar.
Mas não na linha conservadora e incoerente da oposição demo-tucana, que, ao que tudo indica, ficará menor do que hoje”.
Chico Alencar prevê, no entanto, que o PSOL terá “autoridade moral e política para questionar”, enquanto parte da oposição de direita “irá aderir: não terá contradições fundamentais com os possíveis futuros governos e não consegue viver tanto tempo longe de seus benefícios, inclusive para a reprodução de mandatos”.
No balanço que publiquei em recente coluna sobre os governos estaduais e a campanha para senador, não citei dois prováveis vencedores das eleições de 3 de outubro: Simão Jatene (PSDB), no Pará, e Omar Aziz (PMN), no Amazonas.
No Pará, coloquei Valéria Pires (DEM) como provável senadora eleita, quando ela não é nem candidata.
No estado, o líder das pesquisas é Jader Barbalho, que tem agora uma difícil luta no Supremo para manter o provável mandato, já que foi considerado “ficha-suja” pelo TRE e pelo TSE.
Os outros dois candidatos mais votados são: Paulo Rocha (PT) e Flexa Ribeiro (PSDB).

“SOU CRISTÃO APESAR DA IGREJA” OU “A IGREJA SOBREVIVE, APESAR DE MIM”?

“SOU CRISTÃO APESAR DA IGREJA” OU “A IGREJA SOBREVIVE, APESAR DE MIM”?
Isaltino Gomes Coelho Filho
Uma ovelha que aprendi a amar e respeitar como bom crente em Jesus comentou comigo sobre o livro “Alma sobrevivente”, de Philip Yancey, cujo subtítulo é “Sou cristão, apesar da igreja”. Yancey mostra os pecados de alguns crentes do passado. A pessoa falou sobre isso e citou Martin Luther King Jr. e seu pecado rotineiro. Mas esta ovelha, crente firme e fiel, não comentou como fofoca ou para denegrir a imagem dos alistados na obra. Foi conversa de amantes de livros.
Tenho esta obra e outras mais de Yancey, como “O Jesus que eu nunca conheci”, que muito me edificou, e “O Deus (In) visível” e “Maravilhosa graça”, que eu lera antes, em inglês (“What’s so amazing about grace?”), emprestado por uma ex-ovelha. Gostei tanto que o adquiri em português, que é meu idioma. Yancey é um homem de Deus e não quero contestar suas obras, embora discorde da expressão “sou cristão apesar da igreja”.
Explico-me e espero ser entendido antes que me escalpelem. Eu amo a igreja. De todo coração. Nela encontrei Jesus. Nela Deus me vocacionou, aos 15 anos, para o ministério, que abracei há 39 anos. Nela encontrei minha esposa, dediquei meus filhos e tive a glória de batizá-los. Nela meus filhos encontraram seus cônjuges. Nela meu neto foi dedicado a Deus. Como pastor há anos, e procurando ser um homem sério, sei das falhas da igreja. Mas aqui reside a questão: as falhas são dela, como igreja, defeitos de formação, ou são pecados de pessoas, como eu e como seus críticos?
Tenho apontado desvios de conduta teológica e ética de segmentos da igreja. Mas sei distinguir entre a igreja de Jesus, como um todo, e pessoas que formam a igreja de Jesus. Os defeitos dos líderes que Yancey aponta não são, porventura, defeitos de muitos de nós? É a igreja, como instituição, ou somos nós, que a compomos?
Martin Luther King Jr. cometeu certo tipo de pecado que a maioria de nós não comete. Mas olhemo-nos: e a fofoca? E a amargura? E a omissão? E a crítica desapiedada? E a ganância? E a violência camuflada de zelo? E o ódio contra discordantes de nossas posições? Recebo alguns e-mails que parecem mais de jagunços que de crentes em Jesus. E a busca de domínio nos bastidores? É moda jogar pedra na igreja, como se ela fosse a Geni, do Chico Buarque, mas quem tem autoridade moral para fazer isso, o Senhor Jesus, não faz. Ele continua a amá-la e a se manifestar ao mundo através dela. Quanto aos demais, lembro as palavras de Jesus: “Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra” (Jo 8.7). Que membro da igreja pode acusá-la? Quem é o pecador que pode apontar o dedo contra o corpo de Cristo? Porque a igreja local é corpo de Cristo, sim, senhores (1Co 12.27).
A ótica está equivocada. Não é “Sou cristão apesar da igreja”. Por que, quem sou? Que diferença faço? O que importa o que sinto sobre a igreja, diante do propósito eterno de Deus para ela? Mas eu sou igreja! Fui salvo por Jesus e agregado à sua igreja. A ótica correta é “A igreja sobrevive apesar de mim”. Porque ela é tão boa ou tão ruim quanto eu e você formos. Ela somos nós.  Ela é a soma de nós todos.
Recebi um e-mail de uma pessoa me pedindo ajuda. É filho de pastor e foi crente fiel, mas agora estava com problemas espirituais. As obras de três pastores brasileiros, especialistas em desconstruir a igreja e hábeis em combatê-la, contribuíram para isso. Citou-os nominalmente. Que triste! Uma ovelha do Senhor está se afastando do redil porque três pastores ajudaram o inimigo! Cabem aqui as palavras de Jesus: “É impossível que não venham tropeços, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequeninos” (Lc 17.1-2). Nenhum desses pastores tem conduta imoral. Sem falsa modéstia, são até mesmo melhores crentes que eu, pelo que os conheço. Mas, se não têm os pecados dos personagens de Yancey e se gostam de dizer que apesar dos defeitos da igreja ainda estão nela, prejudicaram um irmãozinho. Afastaram-no da igreja e o levaram ao esfriamento espiritual. Serviram de tropeço para alguém por quem Cristo morreu. Apesar deles, e apesar de mim, no entanto, a igreja sobrevive. Os erros que nós, pastores, cometemos e os erros que muitos crentes cometem, não impedem a marcha da igreja. Nós, pastores, precisamos pedir muito pedir a Deus que não machuquemos a igreja, mesmo que alguns dentro dela nos machuquem. E que não falemos mal dela, mesmo que alguns dentro dela nos caluniem. Fomos chamados para amar e servir a igreja, não para espancá-la!
Na sua visão de Deus, Isaías não apostrofou o povo, mas primeiro chorou pelo seu pecado. Quando Esdras soube dos pecados dos líderes de Judá não orou dizendo “Eles pecaram!”, mas disse “Nós pecamos!”. Isaías viu primeiro seu pecado. Esdras não foi conivente com o pecado alheio, mas solidário e assumiu as falhas do grupo como suas.
O fantástico com a igreja é que ela sobrevive apesar de nós. Nós, que pecamos e escandalizamos o mundo. Nós, que ferimos nossos irmãos. Nós, que apontamos, com sadismo espiritual, os pecados dos outros, e esquecemos os nossos. Numa festa, na casa de uma pessoa crente, eu conversava com um empresário que batizei. Ele estava com dificuldades em permanecer na igreja, após minha saída, porque ela tomara outra direção. O dono da casa chegou e, ouvindo trecho da conversa, desfechou críticas sarcásticas contra a igreja. O empresário, crente novo, não conhecendo bem nosso anfitrião, perguntou: “Ele é crente mesmo?”. Quando confirmei, ele apenas disse: “Meu Deus, quanto ódio!”.
Não me ponho como juiz nem quero fazer um artigo como o livro de Yancey, “Sou crente apesar dos outros”. Confesso que falhei muito como pastor, e que não sou digno de ser pastor. Mas faço um apelo: cuidado com as críticas ao rebanho de Jesus. Disse Jesus: “O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir” (Jo 10.10). Há muito membro de igreja fazendo o papel do ladrão, roubando a honra da igreja, matando a fé de irmãos mais fracos e destruindo a obra do Senhor.
O correto não é “Sou cristão apesar da igreja”. O correto é “Apesar de minhas falhas, de meus pecados, de minhas críticas destrutivas e de minha falta de colaboração, a igreja de Jesus continua sua marcha”. E continuará até o dia em que ele acertará as contas conosco: “Digo-vos, pois, que de toda palavra fútil que os homens disserem, hão de dar conta no dia do juízo. Porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado” (Mt 12.36). Que esta advertência do Senhor modere nosso falar.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Contador diz que recebia até pedidos de Brasília e Minas

Contador diz que recebia até pedidos de Brasília e Minas
Homem que levou procuração falsa de filha de Serra diz quem pediu
Tatiana Farah – O Globo

SÃO PAULO e RIBEIRÃO PIRES (SP). O suposto contador Antônio Carlos Atella Ferreira envolveu ontem o nome de mais uma pessoa no caso do vazamento de dados sigilosos de tucanos na Receita Federal e contou que fazia serviços para “Brasília e Minas”, entre outros estados.
Ademir Estevam Cabral, segundo Atella disse ao “Jornal Nacional”, da TV Globo, é a pessoa que contratou seus serviços para entregar e buscar na Delegacia da Receita no ABC Paulista os dados fiscais de Verônica Serra, filha de José Serra. Atella alegou que não sabia que a procuração em nome de Verônica era falsa.
— Eu não sabia que ela era filha de uma pessoa que eu admiro e respeito — disse Atella, referindose ao candidato Serra.
Atella disse que atende a pedidos de serviço contábil feitos por Brasília, Minas e outros estados.
Sobre Cabral, afirmou: — Ele tem muito contato com os advogados pelos anos de trabalho que ele tem e a reputação profissional de fazer trabalhos rápido, ser uma pessoa que agiliza os documentos dos órgãos. Então, ele é uma pessoa muito conhecida de todos nós. Se for à Receita e perguntar sobre o Ademir, qualquer pessoa vai informar.
“Não sabe nem escrever direito, como vai falsificar alguma coisa?” Segundo Atella, a falsa procuração de Verônica estava em um lote de documentos pelos quais Cabral teria pedido pressa.
— Todos os meus clientes utilizam meu serviço porque sabem que eu faço para ontem. Agora esse serviço não veio isoladamente, a pedido de uma única pessoa. Porque ele não seria aceito nem por mim nem por ninguém. A moça da Receita, com certeza, pegou um lote (de procurações).
Cabral trabalha em um escritório de contabilidade no Centro de São Paulo, onde sua colega de trabalho Helena Barbosa afirmou que ele não teria como falsificar a assinatura de Verônica: — Ademir não sabe nem escrever direito, como ele vai falsificar alguma coisa? Ele é um tipo de boy.
Vai, pega os documentos dos advogados e vai protocolar.
Acusado por Atella, Cabral negou ter participado da fraude.
— Isso aí eu desconheço completamente — disse Cabral, por telefone, ao “Jornal Nacional”.
Ele aparece como filiado ao Partido Verde, no município de Francisco Morato (SP). No sistema de consulta a filiados a partidos disponível no site do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, consta que ele se filiou em setembro de 2007.
Até anteontem, Atella dizia que não se lembrava de quem havia encomendado o trabalho que envolveu Verônica Serra. Ontem, ele alegou que tinha se lembrado.
Sede do PT em Mauá, no ABC, é assaltada Seis homens armados assaltaram no fim da manhã de quarta-feira o comitê eleitoral do PT em Mauá, na grande São Paulo, município onde aconteceu, na agência local da Receita Federal, a violação de declarações do Imposto de Renda de filiados ao PSDB, entre eles o vice-presidente do partido, Eduardo Jorge.
O presidente do PT municipal, Leandro Dias, filho do prefeito de Mauá, Oswaldo Dias (PT), estava no comitê no momento do assalto.
Ele não foi agredido, mas teve o telefone celular roubado. Nenhum dos dois quis dar entrevistas. O presidente da Câmara de Vereadores de Mauá, Rogério Santana (PT), disse não acreditar que o assalto tenha conotação política.
— Parece que é um assalto comum.
Isso já aconteceu em outros comitês. Em outras cidades também — disse.
De acordo com Rogério, que afirmou ter pouca informação sobre o caso, os assaltantes estavam procurando dinheiro, imaginando que, por ser começo de mês, haveria algum tipo de pagamento no comitê.
Segundo a polícia, como os bandidos não encontraram o que procuravam, roubaram os dois seguranças do partido e fugiram levando duas armas e aparelhos de celular. Eles fugiram em dois carros, e ninguém foi preso.
Segundo a Polícia Civil, que registrou a ocorrência no 1º Distrito Policial de Mauá, pelo menos cinco dos seis bandidos usavam coletes da Polícia Federal.

BB também sob suspeita

BB também sob suspeita
Além das violações contra tucanos na Receita, conta de Eduardo Jorge teria sido acessada
Gerson Camarotti e Jailton de Carvalho – BRASÍLIA – O Globo

Além da quebra ilegal do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha do candidato do PSDB à Presidência, e de outros políticos tucanos, a Polícia Federal passou a investigar uma suposta ação ilegal no Banco do Brasil para violar as contas bancárias do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge. A exemplo do que foi feito na Receita, onde os registros no sistema apontaram as senhas de quem devassou os dados fiscais de tucanos, a PF quer saber a identidade dos servidores do BB que podem ter extraído informações das contas de Eduardo Jorge. A PF já encaminhou à Justiça um pedido para que o banco seja obrigado a fornecer os dados do sistema de controle.
A denúncia foi feita por Eduardo Jorge em depoimento prestado à PF, em 5 de agosto. Ele atribui o vazamento ao comitê da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Apesar da denúncia ter sido levada à PF há quase um mês, o BB informou ontem que “não há fato concreto” e, por isso, não determinou qualquer medida para apurar a denúncia. Segundo o banco, o caso só será apurado internamente se houver “fato concreto”.
A PF decidiu apressar a apuração da quebra do sigilo fiscal de Verônica Serra e de Eduardo Jorge e intimar para depor o técnico contábil Antônio Carlos Atella Ferreira, acusado de usar uma procuração falsa para violar o sigilo fiscal de Verônica. A polícia tentaria interrogá-lo ainda ontem.
A polícia também quer ouvir Verônica.
Ela já declarou que não assinou a procuração usada por Atella.

Peritos vão analisar procuração
Com autorização judicial, a PF também já teve acesso e está analisando o disco rígido do computador de Adeildda Ferreira Leão Santos, servidora da Receita acusada de vasculhar indevidamente às declarações de Eduardo Jorge. O Ministério Público pediu e a juíza Pollyana Alves, da 12ª Vara, autorizou que a polícia abra e confira as informações registradas no computador da servidora.
A PF também pediu a quebra do sigilo bancário e telefônico de Adeildda.
Quer saber com quem a servidora manteve contato no período das quebras de sigilo.
Peritos do Instituto Nacional de Criminalística (INC) vão analisar também a procuração usada por Attella para obter uma cópia da declaração de renda de Verônica Serra.
Confirmada a irregularidade, Attela será indiciado por uso de documento falso.
Falta a parte mais importante: identificar os mandantes da quebra de sigilo. A PF interrogou o jornalista Luiz Lanzetta, dono da Lanza Comunicações, empresa encarregada de contratar repórteres na fase da pré-campanha de Dilma.
Lanzetta foi acusado por Onésimo Souza de pedir um levantamento sobre Serra e o deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ).

Lula pede pressa nas investigações
Lanzetta diz que foi o ex-delegado quem se ofereceu para investigar o suposto grupo de Itagiba, que produziria dossiês contra aliados de Dilma. Também foi interrogado o sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Mathias, o Dadá.
Onésimo, Dadá e o jornalista Amaury Ribeiro seriam contratados por Lanzetta.
O presidente Lula determinou ontem que a PF apresse as investigações sobre a quebra de sigilo. Segundo o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, Lula espera que os culpados sejam devidamente punidos.

Dois meses após enchente, Palmares, em PE, ainda retira lodo das ruas

Dois meses após enchente, Palmares, em PE, ainda retira lodo das ruas

Batizado pelos especialistas de “Onda de Leste”, o fenômeno climático que atingiu 68 municípios em Pernambuco revelou sua pior face em Palmares, município de 58 mil habitantes localizado a 128 quilômetros da capital, Recife, onde praticamente tudo ficou debaixo d’água. Ainda hoje, dois meses após a tragédia, equipes do governo pernambucano trabalham para retirar da cidade a mistura de entulho e lodo que a enxurrada deixou.
No quinto dia da série sobre as eleições nas cidades devastadas por catástrofes climáticas, o G1 continua no Nordeste para mostrar como as famílias enfrentam a dura rotina da reconstrução no interior pernambucano. Dados do gabinete de reconstrução montado pelo governo e atualizados em 20 de agosto mostram que as chuvas atingiram quase 100 mil habitantes no estado. A tragédia provocou 20 mortes e o valor calculado pelo governo estadual para socorrer as vítimas e reconstruir as áreas atingidas chega a R$ 586 milhões.
Palmares foi uma das cidades pernambucanas mais atingidas pelas chuvas. A maioria dos habitantes foi expulsa de suas casas por causa da força das águas. Em menos de 24 horas, choveu 180 milímetros, o equivalente a 70% do esperado para todo o mês de junho na região. As águas do Rio Una, que banham a cidade, subiram rapidamente, tragando casas e formando ondas que surpreenderam a população.
Nos dias que sucederam a tragédia, a rotina de pânico com a chuva constante fez muitos moradores se arriscarem em carrocerias de caminhões para chegar até a parte mais alta da cidade. Pedestres se penduraram nos veículos, ainda em movimento, para conseguir subir as ladeiras até sair das áreas de risco de enchente.
A correnteza não poupou nem o muro do presídio da cidade, que acabou ruindo. Sem segurança, todos os detentos escaparam sem dificuldades. Nas ruas, foi preciso substituir 589 postes.
O hospital público estadual que ficava na cidade também sofreu com a enxurrada e terá de ser reconstruído. A estimativa do governo é de que a chuva tenha destruído mais de 14 mil casas e provocado estragos em mais de quatro mil quilômetros de estradas. Pelo menos 140 pontes desabaram e há 82 mil desabrigados e desalojados pela enchente.
O trabalho de reconstrução das áreas urbanas, iniciado logo nos primeiros dias após a catástrofe, ainda está na fase de cadastramento das vítimas. Atendimento a necessidades básicas, como a expedição de documentos, distribuição de vacinas e medicamentos, é feito pelas equipes de voluntários e servidores dos governos presentes na área.
Segundo o gabinete de reconstrução, desde junho, foram emitidas 6.263 carteiras de identidade, 2.782 carteiras de trabalho e 4.801 certidões de nascimento. Em Palmares, 280 moradores foram abrigados em 122 barracas fornecidas pelo governo federal.
Na área da saúde, o hospital de Barreiros, município próximo a Palmares, foi danificado. O governo estima que 66 postos de saúde foram avariados, e 19, destruídos.
Escolas estaduais ou municipais que precisarão ser reconstruídas ou reformadas totalizam 403. Serão gastos R$ 91 milhões na construção, reforma e manutenção das unidades escolares estaduais e municipais.
O governo também identificou danos em 44 cistemas de abastecimento de água nos municípios atingidos. Atualmente, ainda existem problemas pontuais em três municípios: Cortês, Palmares e Ribeirão.
Governo Federal
A destruição causada pela força das águas nos 68 municípios pernambucanos levou o  presidente Luiz Inácio Lula da Silva a visitar a região no dia 24 de junho, seis dias após o começo da catástrofe.
Dados do Ministério da Integração Nacional mostram que o governo liberou R$ 25 milhões para Pernambuco logo nos primeiros dias da tragédia e outros R$ 50 milhões foram repassados ao governo estadual para a reconstrução e socorro de vítimas.
Outros R$ 200 milhões foram destinados pelo governo federal para investimentos nas obras de reconstrução de pontes, estradas e para a desapropriação de terrenos destinados à construção de novas casas. Fonte: G1

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