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sexta-feira, setembro 03, 2010

Dois meses após enchente, Palmares, em PE, ainda retira lodo das ruas

Dois meses após enchente, Palmares, em PE, ainda retira lodo das ruas

Batizado pelos especialistas de “Onda de Leste”, o fenômeno climático que atingiu 68 municípios em Pernambuco revelou sua pior face em Palmares, município de 58 mil habitantes localizado a 128 quilômetros da capital, Recife, onde praticamente tudo ficou debaixo d’água. Ainda hoje, dois meses após a tragédia, equipes do governo pernambucano trabalham para retirar da cidade a mistura de entulho e lodo que a enxurrada deixou.
No quinto dia da série sobre as eleições nas cidades devastadas por catástrofes climáticas, o G1 continua no Nordeste para mostrar como as famílias enfrentam a dura rotina da reconstrução no interior pernambucano. Dados do gabinete de reconstrução montado pelo governo e atualizados em 20 de agosto mostram que as chuvas atingiram quase 100 mil habitantes no estado. A tragédia provocou 20 mortes e o valor calculado pelo governo estadual para socorrer as vítimas e reconstruir as áreas atingidas chega a R$ 586 milhões.
Palmares foi uma das cidades pernambucanas mais atingidas pelas chuvas. A maioria dos habitantes foi expulsa de suas casas por causa da força das águas. Em menos de 24 horas, choveu 180 milímetros, o equivalente a 70% do esperado para todo o mês de junho na região. As águas do Rio Una, que banham a cidade, subiram rapidamente, tragando casas e formando ondas que surpreenderam a população.
Nos dias que sucederam a tragédia, a rotina de pânico com a chuva constante fez muitos moradores se arriscarem em carrocerias de caminhões para chegar até a parte mais alta da cidade. Pedestres se penduraram nos veículos, ainda em movimento, para conseguir subir as ladeiras até sair das áreas de risco de enchente.
A correnteza não poupou nem o muro do presídio da cidade, que acabou ruindo. Sem segurança, todos os detentos escaparam sem dificuldades. Nas ruas, foi preciso substituir 589 postes.
O hospital público estadual que ficava na cidade também sofreu com a enxurrada e terá de ser reconstruído. A estimativa do governo é de que a chuva tenha destruído mais de 14 mil casas e provocado estragos em mais de quatro mil quilômetros de estradas. Pelo menos 140 pontes desabaram e há 82 mil desabrigados e desalojados pela enchente.
O trabalho de reconstrução das áreas urbanas, iniciado logo nos primeiros dias após a catástrofe, ainda está na fase de cadastramento das vítimas. Atendimento a necessidades básicas, como a expedição de documentos, distribuição de vacinas e medicamentos, é feito pelas equipes de voluntários e servidores dos governos presentes na área.
Segundo o gabinete de reconstrução, desde junho, foram emitidas 6.263 carteiras de identidade, 2.782 carteiras de trabalho e 4.801 certidões de nascimento. Em Palmares, 280 moradores foram abrigados em 122 barracas fornecidas pelo governo federal.
Na área da saúde, o hospital de Barreiros, município próximo a Palmares, foi danificado. O governo estima que 66 postos de saúde foram avariados, e 19, destruídos.
Escolas estaduais ou municipais que precisarão ser reconstruídas ou reformadas totalizam 403. Serão gastos R$ 91 milhões na construção, reforma e manutenção das unidades escolares estaduais e municipais.
O governo também identificou danos em 44 cistemas de abastecimento de água nos municípios atingidos. Atualmente, ainda existem problemas pontuais em três municípios: Cortês, Palmares e Ribeirão.
Governo Federal
A destruição causada pela força das águas nos 68 municípios pernambucanos levou o  presidente Luiz Inácio Lula da Silva a visitar a região no dia 24 de junho, seis dias após o começo da catástrofe.
Dados do Ministério da Integração Nacional mostram que o governo liberou R$ 25 milhões para Pernambuco logo nos primeiros dias da tragédia e outros R$ 50 milhões foram repassados ao governo estadual para a reconstrução e socorro de vítimas.
Outros R$ 200 milhões foram destinados pelo governo federal para investimentos nas obras de reconstrução de pontes, estradas e para a desapropriação de terrenos destinados à construção de novas casas. Fonte: G1

segunda-feira, julho 05, 2010

Ajuda chega sobre duas rodas

JOSÉ ACCIOLY
A solidariedade às vítimas das enchentes que castigaram municípios pernambucanos nos últimos dias estão chegando de todos os modos, inclusive sobre duas rodas. Na manhã de ontem, mais de 50 motociclistas, de pelo menos dez motoclubes de Pernambuco, se reuniram para arrecadar donativos para aqueles que necessitam de um pouco de ajuda. A “frente de trabalho” se dividiu em três equipes, que circularam pelos bairros de Bom Pastor, Cordeiro, Bongi, San Martin, Engenho do Meio e Torrões, no Recife. Mais de três toneladas de material foi encaminhado para a sede do 4º Batalhão de Polícia do Exército, no Curado, que, a partir de agora, cuidará da logística de entrega dos mantimentos.
O objetivo da ação, segundo explicou o coordenador da campanha Motociclista Solidário, Leomar Toscano, era fazer com que os motociclistas passassem nas casas das pessoas que querem ajudar. “A gente sabe que a vida das pessoas é corrida e, às vezes, não dá para sairmos e entregarmos os donativos nos locais, como no Quartel do Derby e outros que estão recebendo. Por isso, resolvemos juntar os motoclubes e fazer com que eles vão até esses moradores para pegar os materiais e, assim, ajudar as pessoas de alguma forma”, detalhou.
O tenente coronel José Antônio de Sá Júnior informou que os donativos serão triados e entregues pelos soldados do Exércitos a 20 municípios pernambucanos e de Alagoas, que foram afetados pelas chuvas. “Nosso trabalho agora é montar uma logística para que essa ajuda chegue às pessoas”, garantiu. Dez batedores da polícia do Exército escoltaram os três caminhões militares, além do contigente de voluntários que participaram da ação. A campanha teve ajuda ainda da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (Aspa), que enviou um caminhão repleto de alimentos, da Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) e do Sindicato dos Trabalhadores de Moto de Pernambuco (Sindimoto) .

SOS Pernambuco // Além de produtos, doe também seu trabalho

SOS Pernambuco // Além de produtos, doe também seu trabalho

Ontem, motociclistas se uniram ao Exército e recolheram alimentos Seja apenas por uma hora, e se você puder, atue como voluntário no recebimento e triagem das doações no Quartel do Derby

Alimentos não-perecíveis, água mineral, colchões, materiais de higiene e limpeza, roupas. Da lista de donativos para as vítimas das enchentes em Pernambuco, existe um item que está em falta e que é imprescindível para que essa corrente de solidariedade não se quebre: o seu tempo. No Quartel da Polícia Militar, no Derby, no Recife, há carência de voluntários para trabalhar no recebimento e na triagem do material e no carregamento dos caminhões que estão indo levar ajuda às cidades do interior.
De acordo com a assistente social da Coordenadoria de Defesa Civil do estado (Codecipe), Maria Emília Rodrigues, para integrar a rede de voluntários do Quartel do Derby não é preciso sequer um cadastro prévio. Basta comparecer ao local, mesmo que sua disponibilidade de tempo seja de poucas horas. "Não tem problema em relação a quanto tempo a pessoa pode passar lá. O importante é que ela compareça, porque o volume de trabalho é grande", ressaltou. Ao chegar ao quartel, o voluntário pode procurar o oficial de plantão parase apresentar e iniciar a atividade para a qual for designado. O horário é das 7h às 17h, de domingo a domingo. "A pessoa não precisa ficar indo sempre. Se ela tiver só um dia de folga e quiser doar esse tempo para o trabalho voluntário, será bem-vinda", completou Rodrigues.
A Codecipe também está realizando um cadastro de voluntários que queiram atuar nos próprios municípios atingidos pelas enchentes. Segundo a assistente social, até ontem, a lista contava com 175 pessoas. Para esse cadastro, não é preciso oferecer uma ajuda especializada. O governo do estado deve recrutar as pessoas à medida que a demanda for surgindo.
Donativos - Quem não pode prestar serviço voluntário ou mesmo não tem como sair de casa para levar donativos a pontos de arrecadação conseguiu, ontem, fazer seu gesto de solidariedade. Três grupos de motociclistas acompanhados de policiais do 4ª Batalhão do Exército se dividiram e saíram de porta em porta recolhendo as doações dos moradores dos bairros Iputinga, Engenho do Meio, Madalena, San Martin, Torrões e Avenida Canxagá, no Recife. A ação fez parte da campanha Motociclista Solidário, promovida pela Shineray do Brasil, Sindicato dos Motoqueiros de Pernambuco, Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores e o Exército Brasileiro. No final, eles conseguiram arrecadar mais de uma tonelada de alimentos, material de limpeza, roupas e eletrodomésticos. Os donativos foram entregues ao Exército, que ficará encarregado de distribuir o material com os 39 municípios atingidos pelas chuvas.
Os motociclistas se encontraram logo cedo na sede da Shineray, na Avenida Caxangá, de onde saíram por volta das 10h em direção aos bairros. A dona de casa Maria das Graças Freitas de Oliveira, 62 anos, entregou roupas e sapatos usados. "Já havia deixado tudo separado, mas não tive tempo de sair para entregar. A ideia deles virem buscar as doações foi maravilhosa", comentou a senhora, que reside na Rua Souza Bandeira, na Caxangá. Morador da Rua Corte Real, em San Martin, Alfeu Marques de Andrade, 48, fezquestão de fazer sua doação em material de limpeza. "Soube que as pessoas estão tendo dificuldades para limpar as casas porque não têm água sanitária, sabão, detergentes e desinfetantes", falou. Segundo o governo do estado, já foram enviadas mais de 990 toneladas de donativos, dos quais mais da metade foram resultado da solidariedade da população.

sábado, julho 03, 2010

Para ONGs, enchente foi causada pelo descaso

Para ONGs, enchente foi causada pelo descaso
Letícia Lins – RECIFE – O Globo

A enchente que atingiu 67 municípios pernambucanos e deixou desabrigadas ou desalojadas mais de 80 mil pessoas não é uma tragédia natural, mas uma catástrofe social, política, econômica e ambiental, de acordo com nota divulgada ontem em Recife por 17 organizações não-governamentais que atuam na defesa dos Direitos Humanos ou de preservação do meio ambiente. No documento, as ONGs lembram que a inundação foi a repetição, mais grave, de um fenômeno já registrado há uma década.
“Dez anos atrás, as populações da Zona da Mata de Pernambuco (onde se concentra a agroindústria açucareira) sofreram com enchentes que destruíram casas, comércio, plantações, prédios públicos, ruas, caminhos. Ações emergenciais e de reconstrução foram feitas. Assim, tudo voltou ao seu lugar. Dez anos depois, as chuvas do inverno nordestino provocaram enchentes em proporções infinitivamente mais devastadoras do que em 2000", lembram as ONGs.
Para as ONGs, a tragédia foi causada pela ausência de políticas como planos de habitação e regularização fundiária para áreas urbanas e rurais . As entidades lembram que locais atingidos ainda estão sem eletricidade e que a limpeza dos entulhos vem sendo feita lentamente.
As ONGs acrescentaram no documento que a maior parte das vítimas vive de comércio informal, e a população analfabeta sobrevive do corte de cana ou da agricultura familiar, o que torna inócuas a liberação de recursos de benefícios sociais como o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

quarta-feira, junho 30, 2010

Sargento que atuou no Haiti oferece água para desabrigados em Palmares

Sargento que atuou no Haiti oferece água para desabrigados em Palmares
Ele tem mina de água no quintal de casa e deixa torneira aberta 24 horas.
Mulher fez a perfuração quando ele estava em missão, no ano passado.
Glauco Araújo Do G1, em Palmares (PE)

Uma bica de água potável está ligada, durante 24 horas, em Palmares (PE), desde sexta-feira (18), quando a enchente começou a atingir a cidade e deixar os moradores ilhados. Muitos ficaram sem abastecimento de água em suas casas. A medida foi adotada por solidariedade do sargento Sílvio Severino Carvalho de Oliveira, 45 anos. Ele  faz parte do pelotão do Exército Brasileiro, no Recife, e atuou na missão de Paz, no Haiti, de novembro de 2008 a julho de 2009.
Sílvio mora na parte baixa de Palmares, uma das regiões mais afetadas pela enchente. "Quando tive a ideia de fazer a perfuração, nunca imaginei que a mina poderia ter essa utilidade. Foi uma graça de Deus. Estava no Haiti quando comecei a obra e pedi para minha mulher coordenar a abertura do poço de água", disse o militar.
A água oferecida para a comunidade local é a única fonte natural e gratuita na cidade. "Essa água é limpa e abasteceu a gente desde sexta-feira. Ninguém paga nada aqui. Não tem exigência e é só trazer a garrafa ou o balde", disse um dos moradores, que se servia da água nesta segunda-feira (28), após a nova enchente que atingiu o município.
Sílvio voltou do Haiti em 5 de julho de 2009 e se prepara para participar de um novo treinamento de reciclagem para retornar ao trabalho na missão de paz naquele país. "É como se eu estivesse lá [Haiti]. A sensação é essa. Essa catástrofe nos fez pensar em deixar a fonte aberta, tendo em vista a gravidade da situação. A água é vida é o que a gente poderia oferecer. Não imaginava que a vazão da água seria tão grande. Essa é uma experiência nova na minha vida."
Ele se mostrou surpreso após a nova enchente que atingiu a cidade na manhã desta segunda-feira. "Estamos preocupados que a água possa atingir o mesmo nível da primeira enchente. O que as pessoas tinham para perder não há como recuperar. Agora, temos de preservar as vidas. Temos de recuperar a saúde dos moradores e nos precaver de doenças que possam surgir por causa da água contaminada."
Sílvio está no Exército há 28 anos. Ele conta que a experiência que adquiriu no treinamento militar e na atuação no Haiti servem de inspiração para que mais voluntários apareçam para ajudar na reconstrução da cidade. "O bom daqui é que as pessoas estão vivas. Em Palmares, as pessoas jogam lixo. No Haiti, as pessoas jogavam corpos no rio. Essa é a diferença", disse o militar.

segunda-feira, junho 28, 2010

Experiência que ajuda

Experiência que ajuda
Equipe já trabalhou no Haiti e no Bumba

SANTANA DO MANDAÚ (AL). O major médico Edson Gonçalves, do Corpo de Bombeiros do Rio, comemora: tem 95% de resolução dos casos que recebe no hospital de campanha montado na cidade alagoana de Santana do Mandaú. Em três dias completados ontem, a estrutura — que já passou neste ano até pelo Haiti — teve 345 atendimentos, e só oito casos tiveram de ser transferidos para Maceió.
— Nosso hospital de campanha é muito bem equipado. Esperamos os casos mais graves para o início desta semana.
Pela nossa experiência, sabemos que muitas doenças aparecem de oito a dez dias após eventos assim — diz o médico.
O gaúcho Romeu Rodrigues da Cruz Neto, de 39 anos, também se lembra do Rio, mas por outro motivo: ele integrou a equipe da Força Nacional que atuou no deslizamento de terra do Morro do Bumba, em Niterói. Coordenando profissionais de 15 estados, diz aproveitar todas as lições das missões que já viveu.
— Aqui foi uma enchente diferente, que não deixou tantos desaparecidos, como no Bumba, pois ocorreu de dia. Um dos problemas é a precariedade das condições da cidade, algo que já existia antes das chuvas. (Henrique Gomes Batista)
 As informações citadas no Portal são da Secretaria Nacional de Defesa Civil , que teve sua atuação criticada na avaliação dos técnicos, pela falta de planejamento e adoção de medidas para evitar catástrofes.


52 mortos em PE e AL
Pelo menos 157 mil pessoas estão sem casa

RECIFE e SÃO PAULO. O número de municípios pernambucanos com decreto de calamidade pública já chega a 12, segundo informou ontem o governo de Pernambuco, que incluiu na relação as cidades de Catende, Primavera e Maraial.
No estado, 67 municípios foram prejudicados pela tragédia e 30 encontram-se em situação de emergência. O número de óbitos aumentou para 18.
A quantidade de desalojados e desabrigados no estado está caindo lentamente. Eram 83,5 mil na sexta-feira. Ontem, segundo a Comissão de Defesa Civil de Pernambuco, o número diminuiu para 82,6 mil. São 26,9 mil desabrigados e 55,6 mil desalojados.
Em Alagoas, 76 pessoas continuam desaparecidas, e os mortos somam 34. Segundo a Defesa Civil, 15 cidades decretaram estado de calamidade pública. No estado, são 26,6 mil pessoas morando em escolas, galpões e pátios de igreja, sem contar as 47,8 mil que buscam refúgio na casa de parentes.

Donativos começam a chegar a Pernambuco

Donativos começam a chegar a Pernambuco
Desabrigados buscam refúgio em locais que estão comprometidos por rachaduras
Letícia Lins

ÁGUA PRETA, PALMARES e BARREIROS (PE). Os donativos começam a chegar aos 69 municípios de Pernambuco atingidos pela cheia. A ajuda vem pela Comissão de Defesa Civil do estado, pelas Forças Armadas, por voluntários e por governos estrangeiros. Ontem, aterrissou em Recife um C-130 da Venezuela, com 12 toneladas de mantimentos, roupas e até papel higiênico. A Associação de Panificadores de Pernambuco embarcou 32 mil pães para Água Preta.
No bairro da Liberdade, em Água Preta, Maria Rosineide da Silva advertiu a equipe do GLOBO que não ingressasse na sede da Associação de Deficientes Físicos, porque, após ser coberta pelas águas, a casa ameaça ruir.
Com um detalhe: é o único lugar que ela tem para ficar. Ontem, a entidade ainda abrigava seis famílias.
Rosineide relatou como mais dramática a experiência de uma vítima de acidente vascular cerebral que teria se afogado se não tivesse sido salva por um deficiente mental.
Ontem, em Palmares, crianças e adultos removiam entulhos, em busca de fios de cobre, vasilhames e outros materiais que rendessem alguns trocados. Em Barreiros, o hospital de campanha montado pela Aeronáutica já começou a funcionar, mas o acesso é difícil a quem se encontra na parte baixa da cidade. Por isso, estão mobilizados helicópteros das Forças Armadas e um helicóptero esquilo enviado pelo Corpo de Bombeiros do DF.
Luiz Carlos Bezerra, com um pequeno comércio na rodoviária de Palmares, conta que, na hora da cheia, saiu do terminal com amigos por um buraco que fizeram no telhado, e passaram a um prédio vizinho pendurados “como macacos” numa viga que puseram entre os dois edifícios.
Na cidade, o acesso à BR101/Sul com destino a Maceió continua interrompido.
Já em Água Preta, as duas pontes instaladas pelo 7oBatalhão de Engenharia de Combate começaram a funcionar. No bairro de Jequiá — que já havia sido “lavado” em outra enchente —, Admilson José de Moura colhia telhas da casa que achava nos escombros e refazia o telhado do único cômodo que sobrou: — As outras paredes caíram.

sábado, junho 26, 2010

Rotina do desastre

Rotina do desastre
Folha de São Paulo - Editorial
Nas enchentes do Nordeste, o que há de imprevisto em toda catástrofe natural não esconde as conhecidas omissões do poder público
Cenas dramáticas, que sem grande exagero poderiam ter-se verificado na recente catástrofe do Haiti, ocorrem em Pernambuco e Alagoas, depois das chuvas das últimas semanas. Em Palmares, a 129 km de Recife, dezenas de pessoas reviram o lodo em busca de comida. A cidade, de 59 mil habitantes, só conta com um ponto de abastecimento de água potável.
Em União dos Palmares, a 80 km de Maceió, as ruínas são saqueadas durante a noite; disputa-se fisicamente a posse de coisas como um simples botijão de gás.
Totalmente destruída, a cidade de Branquinha (AL) haverá de simplesmente ser refundada em lugar mais alto, se vingarem os planos da prefeitura local. Pertences dos desabrigados de Pernambuco e Alagoas, de computadores a álbuns de família, são encontrados nas praias da Paraíba. Há 154 mil desabrigados.
Catástrofes naturais ocorrem em toda parte, e não há como prever de modo absolutamente confiável o seu grau de violência.
Nem tudo era imprevisível, todavia, na tragédia nordestina. Quebrangulo, Moreno, Escada, Primavera: desde 2003, essas cidades sofrem pela terceira vez com as enchentes do inverno. Trinta por cento das cidades agora afetadas já enfrentaram o mesmo problema nos últimos sete anos.
Mesmo assim, pelo menos 15 das cidades alagoanas atingidas pelas chuvas não contavam com órgãos de defesa civil. O Estado de Pernambuco não dispõe de radar meteorológico, tornando-se impossível identificar com antecedência o local preciso de uma tempestade. Foi, em todo caso, pelo aviso dos sinos de uma igreja que os habitantes de Barreiros (PE) puderam refugiar-se, horas antes do desastre.
Seria excessivo acusar de demagogia eleitoral a visita feita pelo presidente Lula aos municípios atingidos. Liberam-se verbas, agora, com máxima urgência para os Estados de Pernambuco e Alagoas; não poderia ser outro o comportamento das autoridades. Poderia ter sido outra, contudo, a atitude do governo federal quando decidiu alocar em um único Estado, a Bahia, quase metade das verbas destinadas a prevenir catástrofes desse tipo.
À frente do ministério responsável pela decisão estava o peemedebista Geddel Vieira Lima, candidato ao governo baiano nas próximas eleições. De 2003 a 2009, a Bahia registrou 431 casos de emergência devidos a circunstâncias climáticas. Foram 542 em Pernambuco -que recebeu, em 2009, menos de 4% dos recursos federais de prevenção, contra os mais de 48% destinados à Bahia. Alagoas nada recebeu. Já não era muito, em todo caso: R$ 70 milhões estavam reservados para situações desse tipo no orçamento.
Entre lágrimas e vivas, o presidente Lula agora anuncia R$ 550 milhões para a recuperação das cidades devastadas. De normas para a preservação ambiental a planos racionais de ocupação urbana, é entretanto incalculável o quanto há a ser feito, em qualquer Estado do país, para que o imprevisível não faça parte, como hoje, da mais cruel rotina.

quinta-feira, junho 24, 2010

Nos abrigos para vítimas da enchente, impera a lei do mais forte

Chuvas no Nordeste
Nos abrigos para vítimas da enchente, impera a lei do mais forte

VEJA Online - 24 de junho de 2010 - Por Fernando Mello, de União dos Palmares

Quando as circunstâncias reúnem sob o mesmo teto estranho e sem conforto centenas de pessoas que têm, no mínimo, apenas a roupa do corpo e, no máximo, documentos e objetos pessoais como brincos e saias, a atmosfera que emerge desse encontro é uma mistura - inconstante - de desilusão, revolta, apatia, raiva e medo.
Essa mistura incômoda estava no ar na última terça-feira, quando centenas de famílias atingidas pelas chuvas em Alagoas foram deslocadas para a escola estadual Carlos Gomes, em União dos Palmares. Situada no alto de um morro, a escola tem largos portões de ferro, que se abrem para um caminho de pedra até que se chega a uma estreita entrada que leva a 18 salas de aulas, ocupadas por 287 pessoas, de 49 famílias diferentes. Uma chuva fina caía e o céu nublado deixava a noite mais escura.
A única luz do local era gerada por um caminhão, que iluminava a entrada da escola. Cedido por um comerciante local, dono de uma revendedora de telefones celulares que levou como voluntárias quatro funcionárias com camisetas da bandeira da marca que representa, o veículo permaneceu como luz por quase uma hora. Momento em que a porta da escola se tornou um ponto de distribuição de roupas e sanduíches.
Um grupo de cinco jovens se reuniu por ali, comandado por um adolescente apelidado de Bolinha. Os goles da cachaça destravaram qualquer inibição. Um senhor que escolheu um paletó foi chamado de pastor de igreja, enquanto Maria Madalena da Silva, 31 anos, procurava sem grande entusiasmo roupas para os dois filhos, Vitória (3 anos) e Alex (9).Grávida de sete meses, também queria algo para o próximo bebê, que ainda não tem nome. Maria Madalena saiu de casa no dia em que as chuvas castigaram sua cidade para fazer exame pré-natal. Como o marido a deixou faz três meses, resolveu levar os dois filhos. Não viu mais sua casa.
Em meio a pedidos de fraldas, ela afirma que quase deixou o filho mais velho em casa, "porque ele sabe se virar". O tom de voz melancólico só mudou quando resolveu aconselhar uma adolescente a sair dali, por conta dos gracejos de Bolinha e sua turma. Outra mãe emerge da escuridão da escola para a luz do caminhão e reclama com os voluntários da loja de telefones porque conseguiu apenas dois sanduíches para sete pessoas da família. Acusa ainda os mais jovens de pegar muito mais do que o necessário.
Os voluntários escutam, dizem que todos precisam cooperar, mas é hora de partir. As quatro funcionárias sobem na boléia do caminhão, que vai embora levando junto a única luz do local. Agora, o grupo de Bolinha fala mais alto. Na manhã seguinte, Maria Madalena reclamará da dor nas costas por dormir no chão, da falta de colchões, pegos por um grupo de apenas duas salas de aula transformadas em quartos. "Valeu a lei do mais forte", explica.
Para quem ficou apenas algumas horas na escuridão da escola Carlos Gomes, a sensação é de que ela tem razão. A partir do momento em que o caminhão foi embora, uma espécie de estado de natureza se instalou. Naquela noite, houve casos em que o homem foi lobo do homem, como asseverou Thomas Hobbes.
O grupo de jovens resolveu escolher e "trocar" algumas roupas com quem havia selecionado peças na distribuição organizada minutos antes pelos voluntários. Não quiseram o paletó de pastor. Na manhã seguinte, coube a Jéssica Laize Silva, estudante de 18 anos da escola, tentar organizar a convivência. Não sem antes tomar um susto. Com a chave da sala da diretoria, local em que estavam armazenadas roupas e comida, resolveu abrir a porta para entregar um casaco a um dos moradores provisiórios do local. Não conseguiu conter uma invasão, que acabou, mais uma vez, com o cada um por si em busca de roupas.
Jéssica resolveu levantar todas as pessoas alojadas na escola, catalogá-las por família e por idade. até o fim do dia, queria dividir as 18 salas segundo esses critérios.
Ginásio com luz - A luz esteve presente em outro local destinado a desabrigados de União dos Palmares, o ginásio municipal. Ali, a família de Cristina Felix da Silva (seu marido, quatro filhos, mãe e irmã) se reúnem em dois sofás para assistir a um filme de suspense. O aparelho de DVD teve seu visor queimado pela água, mas ainda funciona. O filme foi descoberto pelo marido de Cristina, Josué, em uma das ruas alagadas. Chama-se Dia dos Mortos. "Não quero nem ver. É filme de dar medo", diz, cobrindo os olhos com as mãos, Daniel, um dos filhos do casal.
Os cantos e as arquibancadas do ginásio são ocupados por famílias que perderam suas casas e, em alguns casos, familiares. Grávida de seis meses, Maria Zuleide, 42, prepara na lateral esquerda da quadra quatro miojos no fogão que conseguiu salvar depois que a água baixou. Seu marido, Luis Apolinário, 67, está deixado na cama que fica próxima ao círculo central da marcação de futebol de salão. "Ele é muito doente, quase não conseguiu sair de casa", diz Zuleide. Seus dois filhos, tentavam dormir no chão. A mais velha reclamou do barulho das pessoas e da luz na cara.

TRAGÉDIA: Cães farejadores utilizados no Haiti serão enviados a Pernambuco para localizar corpos das vítimas

TRAGÉDIA: Cães farejadores utilizados no Haiti serão enviados a Pernambuco para localizar corpos das vítimas
Saques, o novo temor nas cidades alagadas
Letícia Lins e Odilon Rios*

RECIFE e UNIÃO DOS PALMARES (AL). Os saques são o novo temor provocado pelas chuvas em Pernambuco, onde, além das mortes, foram destruídas 11.407 casas, 79 pontes e mais de mil pequenos açudes, e danificados 2.103 quilômetros de estradas asfaltadas e dez mil quilômetros de estradas vicinais. A população de cidades como Barreiros e Palmares reclama de ataques a lojas e mercados.
- Em Palmares, os comerciantes estão dormindo em suas lojas, no escuro e sem água, para tomar conta das mercadorias que restaram. Houve saques no mercado público, em mercadinhos, em lojas de sapatos e de eletrodomésticos - contou Maria Cláudia Oliveira da Silva, comerciante e dona de uma gráfica, acrescentando que foram saqueados um carregamento de de água mineral e uma carreta de frango congelado.
Em Barreiros, a 110 quilômetros da capital, moradores informaram que os comerciantes também estão dormindo nas lojas. A cidade permanece sem água, porque não há luz na estação de bombeamento. Nos dois municípios, que estão entre os nove em estado de calamidade pública no estado, mulheres tentaram ontem resgatar comida de supermercados que foram inundados. Na praça de Barreiros, até sacos de pipoca e bombons eram tirados da lama.
Em Barreiros, onde o hospital municipal foi derrubado, chegou ontem um hospital de campanha da Aeronáutica, com capacidade para 400 atendimentos diários. O governo federal prometeu enviar outro a Palmares, a 125 quilômetros da capital.
Ontem, os ministros da Integração Nacional e da Defesa, João Santana e Nelson Jobim, sobrevoaram a região atingida com o governador Eduardo Campos (PSB). Santana informou que cães farejadores que foram usados no Haiti serão enviados a Pernambuco para localizar corpos. Mas não havia ontem reclamações de desaparecidos no estado.

Governo de PE pede ajuda a transportadoras
Ontem à noite, o governo estadual fez um apelo para que empresas transportadoras cedam caminhões para levar alimentos até as vítimas da enchente. As doações estão chegando em grandes quantidades, mas não há transporte para levá-las. A Comissão de Defesa Civil de Pernambuco informou que já distribuiu mais de 266 toneladas de donativos para as cidades atingidas e que 15 caminhões estão saindo diariamente do Recife para o interior. Quase 191 toneladas de alimentos e 60 toneladas de água foram entregues.
Na tarde de ontem, em União dos Palmares, em Alagoas, moradores aguardavam o resultado do trabalho de uma máquina retroescavadeira que revolvia a terra atrás de corpos, a poucos metros do rio Mundaú. Ao lado do rio, em uma das cabeceiras da ponte, o dono de um mercadinho e o filho haviam tentado salvar as mercadorias para o primeiro andar do local, mas toda a estrutura fora arrastada pela força da água. O corpo do proprietário foi encontrado há dois dias, debaixo dos escombros de uma escola estadual; o do filho está desaparecido. A mãe está internada em um hospital de Maceió, sob efeito de sedativos.
Em União, a chuva destruiu ruas onde moravam três mil pessoas em 500 casas, segundo sobreviventes. Bombeiros reclamavam do cansaço nos trabalhos. José de Araújo Batista, de 69 anos, um dos 50 empregados de uma fábrica de leite destruída, não acreditava que voltaria a trabalhar.
- Acabou-se tudo, não posso ficar desempregado. O pessoal precisa trabalhar lá - disse.
Na estrada, máscaras contra o cheiro de decomposição
A estrada de asfalto às margens do rio Mundaú ligando o município a outra cidade atingida, Santana do Mundaú, tornou-se uma via de lama. Guardas de trânsito tentaram organizar o caos de carros. Pessoas andavam com máscaras no rosto por causa do cheiro de decomposição no ar.
Em Rio Largo, depois da enxurrada que contorceu os trilhos do trem e arrastou dormentes pesando 500 quilos, o dia era de sol e reconstrução. Em Branquinha, onde trilhos também foram retorcidos, a prefeita Ana Renata Freitas Lopes quer pedir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chega a Alagoas nesta quinta-feira, a mudança dos limites geográficos da cidade, completamente destruída. Ana Renata quer que Branquinha possa se afastar do rio Mundaú.
* Especial para O GLOBO

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