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segunda-feira, julho 05, 2010
Ajuda chega sobre duas rodas
JOSÉ ACCIOLY
A solidariedade às vítimas das enchentes que castigaram municípios pernambucanos nos últimos dias estão chegando de todos os modos, inclusive sobre duas rodas. Na manhã de ontem, mais de 50 motociclistas, de pelo menos dez motoclubes de Pernambuco, se reuniram para arrecadar donativos para aqueles que necessitam de um pouco de ajuda. A “frente de trabalho” se dividiu em três equipes, que circularam pelos bairros de Bom Pastor, Cordeiro, Bongi, San Martin, Engenho do Meio e Torrões, no Recife. Mais de três toneladas de material foi encaminhado para a sede do 4º Batalhão de Polícia do Exército, no Curado, que, a partir de agora, cuidará da logística de entrega dos mantimentos.
O objetivo da ação, segundo explicou o coordenador da campanha Motociclista Solidário, Leomar Toscano, era fazer com que os motociclistas passassem nas casas das pessoas que querem ajudar. “A gente sabe que a vida das pessoas é corrida e, às vezes, não dá para sairmos e entregarmos os donativos nos locais, como no Quartel do Derby e outros que estão recebendo. Por isso, resolvemos juntar os motoclubes e fazer com que eles vão até esses moradores para pegar os materiais e, assim, ajudar as pessoas de alguma forma”, detalhou.
O tenente coronel José Antônio de Sá Júnior informou que os donativos serão triados e entregues pelos soldados do Exércitos a 20 municípios pernambucanos e de Alagoas, que foram afetados pelas chuvas. “Nosso trabalho agora é montar uma logística para que essa ajuda chegue às pessoas”, garantiu. Dez batedores da polícia do Exército escoltaram os três caminhões militares, além do contigente de voluntários que participaram da ação. A campanha teve ajuda ainda da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (Aspa), que enviou um caminhão repleto de alimentos, da Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) e do Sindicato dos Trabalhadores de Moto de Pernambuco (Sindimoto) .
SOS Pernambuco // Além de produtos, doe também seu trabalho
SOS Pernambuco // Além de produtos, doe também seu trabalho
Ontem, motociclistas se uniram ao Exército e recolheram alimentos Seja apenas por uma hora, e se você puder, atue como voluntário no recebimento e triagem das doações no Quartel do Derby
Alimentos não-perecíveis, água mineral, colchões, materiais de higiene e limpeza, roupas. Da lista de donativos para as vítimas das enchentes em Pernambuco, existe um item que está em falta e que é imprescindível para que essa corrente de solidariedade não se quebre: o seu tempo. No Quartel da Polícia Militar, no Derby, no Recife, há carência de voluntários para trabalhar no recebimento e na triagem do material e no carregamento dos caminhões que estão indo levar ajuda às cidades do interior.
De acordo com a assistente social da Coordenadoria de Defesa Civil do estado (Codecipe), Maria Emília Rodrigues, para integrar a rede de voluntários do Quartel do Derby não é preciso sequer um cadastro prévio. Basta comparecer ao local, mesmo que sua disponibilidade de tempo seja de poucas horas. "Não tem problema em relação a quanto tempo a pessoa pode passar lá. O importante é que ela compareça, porque o volume de trabalho é grande", ressaltou. Ao chegar ao quartel, o voluntário pode procurar o oficial de plantão parase apresentar e iniciar a atividade para a qual for designado. O horário é das 7h às 17h, de domingo a domingo. "A pessoa não precisa ficar indo sempre. Se ela tiver só um dia de folga e quiser doar esse tempo para o trabalho voluntário, será bem-vinda", completou Rodrigues.
A Codecipe também está realizando um cadastro de voluntários que queiram atuar nos próprios municípios atingidos pelas enchentes. Segundo a assistente social, até ontem, a lista contava com 175 pessoas. Para esse cadastro, não é preciso oferecer uma ajuda especializada. O governo do estado deve recrutar as pessoas à medida que a demanda for surgindo.
Donativos - Quem não pode prestar serviço voluntário ou mesmo não tem como sair de casa para levar donativos a pontos de arrecadação conseguiu, ontem, fazer seu gesto de solidariedade. Três grupos de motociclistas acompanhados de policiais do 4ª Batalhão do Exército se dividiram e saíram de porta em porta recolhendo as doações dos moradores dos bairros Iputinga, Engenho do Meio, Madalena, San Martin, Torrões e Avenida Canxagá, no Recife. A ação fez parte da campanha Motociclista Solidário, promovida pela Shineray do Brasil, Sindicato dos Motoqueiros de Pernambuco, Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores e o Exército Brasileiro. No final, eles conseguiram arrecadar mais de uma tonelada de alimentos, material de limpeza, roupas e eletrodomésticos. Os donativos foram entregues ao Exército, que ficará encarregado de distribuir o material com os 39 municípios atingidos pelas chuvas.
Os motociclistas se encontraram logo cedo na sede da Shineray, na Avenida Caxangá, de onde saíram por volta das 10h em direção aos bairros. A dona de casa Maria das Graças Freitas de Oliveira, 62 anos, entregou roupas e sapatos usados. "Já havia deixado tudo separado, mas não tive tempo de sair para entregar. A ideia deles virem buscar as doações foi maravilhosa", comentou a senhora, que reside na Rua Souza Bandeira, na Caxangá. Morador da Rua Corte Real, em San Martin, Alfeu Marques de Andrade, 48, fezquestão de fazer sua doação em material de limpeza. "Soube que as pessoas estão tendo dificuldades para limpar as casas porque não têm água sanitária, sabão, detergentes e desinfetantes", falou. Segundo o governo do estado, já foram enviadas mais de 990 toneladas de donativos, dos quais mais da metade foram resultado da solidariedade da população.
domingo, julho 04, 2010
Aula de civilidade a céu aberto
tragédia das águas
No centro de donativos do Quartel do Derby, no Recife, voluntários de diferentes classes sociais representam solidariedade em prol das vítimas da enchente. Morador de rua e médico se tornam iguais
Silvia Bessa – Correio Braziliense
O Quartel da Polícia Militar do Derby, no Recife, instalou a maior sala de aula a céu aberto de Pernambuco, com ensino gratuito de trabalho em equipe, fraternidade e igualdade. Deveria se tornar ponto obrigatório para visitas de estudantes de todas as idades e classes sociais. É lá onde se assiste o exercício pleno da civilidade e da consideração ao próximo. Só no quartel do Derby pode-se encontrar um cirurgião cardíaco e toráxico dos melhores hospitais particulares do estado e um morador de rua carregando, sem diferença, um caminhão de cestas básicas. Escondidos atrás da camisa oficial da “Operação Reconstrução”, Paulo Santana, 49 anos, e Airton de Oliveira da Silva, de 37 anos, têm emprestado horas dos seus dias em favor das vítimas da enchente que arrasou 67 municípios do estado. São extremos unidos em função de uma causa.
Faltou sangue tipo O negativo para viabilizar a cirurgia que Dr. Paulo Santana faria. “Estava sem compromisso, então resolvi vir ajudar”, disse o médico do Hospital Santa Joana. Ele chegou no centro de recebimento de donativos da PM às 9h da quinta-feira e, às 12h, ainda estava suando a camisa, segurando um saco de mantimentos por segundo e animando a fila de voluntários. “Vamos, acelera, vamos ver se esse povo come ainda hoje”, repetia, promovendo a alegria geral de ilustres desconhecidos do lado.
Airton de Oliveira Silva, o morador de rua, chegou um pouco antes, às 7h, e às 17 ainda se destacava pela disposição com a qual colocava nas costas os sacos de comida destinados aos desabrigados. “Disseram que a coisa está séria pelo interior. Antes falavam que pessoas de sete cidades passam dificuldades, mas hoje soube que passou para doze cidades”, comentou, admirado, sem informação sobre números ou dimensão do desastre das chuvas. “Realmente, não sei porque não assisto televisão. Lógico, não podia assistir: moro na rua”, contou o sem teto. Airton pernoita em baixo das marquises do Recife antigo durante a semana; dias de sábado e domingo, se “muda” para qualquer beira de calçada do Derby (“É mais seguro”). Ex-gari, Airton tem um patrimônio parecido com o de muitas das vítimas das chuvas — um colchão e algumas poucas roupas doadas. Ficou sem moradia em 2000, quando perdeu o emprego da Prefeitura de Olinda. “Aqui, ajudando esse povo, minha personalidade cresce”, revelou.
Ajuda aos nossos
O médico Paulo Santana, 24 anos de profissão, acredita que na hora da necessidade se deve lembrar da nacionalidade dos desabrigados. “A gente se comove e ajuda ao Haiti quanto mais os nossos”, frisa o cirurgião, conhecido pela sua disponibilidade em atender os mais carentes. No consultório, Dr. Paulo trabalha com leveza e colabora com quem precisa, muitas vezes ignorando questões financeiras. Ele já enfrentou duas enchentes na década de 70, quando morava na Avenida Caxangá e “perdeu tudo”. “Não convido nenhum colega de trabalho para vir comigo aqui, mas se minha iniciativa incentivar alguém será ótimo”. “Sem dúvida, atitudes como a dele incentivam a mobilização da sociedade”, disse a representante comercial hospitalar Sandra Rodrigues.
Vivendo sozinho, Airton não tem sequer quem convidar. “Mas queria dizer que estou muito satisfeito por exercer o voluntariado, ajudando a quem precisa”, frisou, ao fim da quinta-feira, usando palavras bonitas. Homem sem patrimônio, de vestes simples, de poucos sorrisos, Airton oferece a sua boa vontade. Observador atento da aula de civilidade gratuita e a céu aberto promovida no Quartel da PM no Derby, o soldado Marcos César Rocha, vê o médico e o morador de rua como representantes da singular colaboração dos voluntários.
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