terça-feira, setembro 07, 2010

O lulismo é um produtivismo

O lulismo é um produtivismo
 CLAUDIO SALM - O GLOBO - 06/09/10
O produtivismo designa a exaltação da produção pela produção. Não tem compromissos com a promoção da cidadania nem com a preservação do meio ambiente. Costumase associar o produtivismo ao capitalismo que, na falta de resistências, subordina tudo aos interesses mercantis, ao lucro. No entanto, o produtivismo marcou também o stalinismo. Na década de 1930, Stalin consagrou o sthakanovismo como a forma ideal de organizar o trabalho na URSS, forma essa que nada mais era que o taylorismo com emulação patriótica. A experiência soviética, como se sabe, foi uma história de desastres ecológicos em nome da produção.
Em recente visita ao Brasil, Daniel Cohn-Bendit rotulou o lulismo de "ideologia produtivista". Nada melhor que a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte para ilustrar o ponto. A concepção do projeto bate de frente com a nossa melhor tradição no planejamento do setor energético. Líderes como Getúlio Vargas, Lucas Nogueira Garcez e Juscelino Kubitschek sempre privilegiaram o cuidado com as bacias hidrográficas, fator desconsiderado no caso de Belo Monte que, entre outros estragos irreversíveis, irá secar a Volta Grande do Xingu na região de Altamira.
Só não dá para dizer que nunca antes na história deste país o meio ambiente foi tão agredido, porque os erros cometidos pelo regime militar, como a hidrelétrica de Balbina, também foram enormes. Apesar da importância que adquiriu a consciência ecológica, o mesmo modelo serve hoje de inspiração para a ocupação econômica da Amazônia. Nada justifica o crime ambiental e social de Belo Monte. Irá favorecer os suspeitos de sempre, bem como as mineradoras, que serão as maiores consumidoras da energia subsidiada. Ninguém pode ser contra maior aproveitamento do imenso potencial hidrelétrico da Amazônia. Mas não se pode desconhecer que existem alternativas mais econômicas e menos devastadoras para a produção de energia elétrica nas bacias amazônicas.
Engenheiros da maior competência que detêm esses conhecimentos não são ouvidos. Como não foram ouvidos, no caso de Belo Monte, os ambientalistas e as populações que serão diretamente atingidas. Lula, quando esteve em Altamira, recusouse a recebê-los e as audiências públicas não passaram de uma farsa, contrariando a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) da qual o Brasil é signatário.
Aos que se opõem à obra só resta assistir ao processo autoritário que nos empurra Belo Monte goela abaixo.
Autoritarismo? Não é assim, diriam os representantes das grandes empreiteiras. Afinal, o principal instrumento institucional para a construção da usina de Belo Monte é um Decreto Legislativo do Senado (No788, de 2005), quando seu presidente era Renan Calheiros.
Encontramos evidências da ideologia produtivista até mesmo nas políticas sociais. O gasto público social vem aumentando no Brasil, como em toda a América Latina, desde o início dessa década, o que é bom.
Tais gastos deveriam ser avaliados pelos benefícios sociais que podem provocar. O que vemos, porém, é a ênfase dada aos impactos positivos do gasto social sobre a economia, um keynesianismo vulgar e conceitualmente equivocado, lugar comum no discurso sindicalista em épocas de dissídio coletivo.
Ora, que o maior gasto - público ou privado, social ou qualquer outro - ajuda a estimular uma economia em recessão é hoje uma banalidade.
Desse ponto de vista, jogar dinheiro de um helicóptero sobre comunidades carentes teria o mesmo efeito, ou até maior, com menores custos administrativos.
O argumento serviria, no máximo, para defender a expansão dos gastos correntes do governo diante das advertências dos que se preocupam com as contas públicas e com o crescente déficit nas contas externas. Não vemos um debate sério a respeito, mas a tentativa de desqualificar os que chamam a atenção para as tendências, tachados de fiscalistas e de estagnacionistas, no propósito de vender a ideia de "novo modelo de desenvolvimento".
Importante, mesmo, seria saber em que medida o maior gasto social contribuiu para melhorar a educação, a segurança, o atendimento à saúde. A candidata oficial à presidência repete como um mantra: "Nós levamos 31 milhões à classe média (sic)." Sendo assim, para quê se preocupar com as filas do SUS ou com a qualidade da escola pública? A nova classe média poderá agora comprar planinhos de saúde e matricular seus filhos na escola privada.
O líder revolucionário de 1968 tem razão, o PIB subiu à cabeça dos nossos governantes.
Economista Cláudio Salm, do Instituto de Economia da UFRJ

Duke, hoje no Super Notícia (MG)

Explicações em pequenas doses

Explicações em pequenas doses

Luis R. Aizpeolea

 A declaração de cessar-fogo que o ETA divulgou, ontem, não faz mais do que confirmar uma expectativa criada, há meses, desde que os aliados sul-africanos e irlandeses da esquerda basca a exigiram, em Bruxelas, em março. No entanto, o comunicado do ETA esclarece pouco, não especifica a duração do cessar-fogo ou o seu alcance.
E sequer responde às reclamações dos aliados internacionais da esquerda basca, em março, clamando por um cessar-fogo permanente e verificável por organismos internacionais. Ele tampouco impõe condições.
O comunicado é, portanto, o primeiro passo, ao qual se seguirão outros, que deverão esclarecer as grandes incógnitas que o texto de ontem não especifica. Será um processo de explicação em pequenas doses.
O ETA precisava aliviar a pressão que vem sofrendo sistematicamente da esquerda basca desde que, em fevereiro, suas bases aprovaram maciçamente a proposta de Arnaldo Otegi, Rufi Etxeberria e Rafael Diez Usabiaga, de promover um “processo democrático por vias políticas e pacíficas”.
Desde fevereiro até o verão (no Hemisfério Norte) , a pressão foi num crescendo, de tal modo que em alguns círculos se dava por certo que o ETA declararia o cessar-fogo em setembro.
A esquerda basca precisava que, agora, o grupo providenciasse o lançamento de uma campanha a favor de sua legalização e, assim, participar das eleições municipais de 2011.
O comunicado do ETA, no entanto, não esclarece mais nada. E podese deduzir que não existe no grupo uma posição clara de abandonar definitivamente as armas, condição que o governo impõe para dar credibilidade ao processo e abrir uma nova etapa na qual se abordem questões como o futuro dos presos do grupo.
Tudo parece indicar que, com o cessar-fogo, o ETA quer ganhar tempo para decidir seu futuro: ou curvar-se aos desejos, não só do governo, mas também da esquerda basca de que abandone definitivamente as armas; ou usar esse tempo para tentar rearmarse, como aconteceu em tréguas anteriores. Tal incógnita faz com que essa declaração de cessar-fogo tenha sido acolhida com enorme ceticismo, em comparação com as declarações anteriores. Nas próximas semanas, as coisas irão se esclarecer.
O ETA parece querer ganhar tempo para decidir seu futuro
LUIS R. AIZPEOLEA é articulista do “El País”

Trégua do ETA sob bombardeio

Trégua do ETA sob bombardeio

Cessar-fogo anunciado por terroristas bascos não convence autoridades, que devem manter partido ligado ao grupo fora das eleições

Priscila Guilayn – O Globo

 ‘Insuficiente, ambíguo e fraudulento’. Assim foi considerado, pelo governo basco, o cessar-fogo decretado ontem pela organização separatista ETA. Esta nova trégua do grupo terrorista, a 11aanunciada desde 1981, foi recebida pelas autoridades em toda a Espanha com ceticismo. Como não houve um anúncio de abandono definitivo das armas, o governo regional basco deixou claro que a polícia não está em trégua e que a chamada esquerda abertzale (nacionalistas radicais) continuará impedida de apresentar-se às eleições do ano que vem. No comunicado, o ETA se diz disposto a negociar um acordo com o governo “de requisitos mínimos democráticos necessários para empreender o processo democrático”.
— Temos de ser muito exigentes com o ETA para que deixe definitivamente a atividade terrorista — afirmou o conselheiro de Interior do governo basco, o socialista Rodolfo Ares. — Aos que dão algum valor a este comunicado, é preciso deixar claro que é insuficiente para que possam voltar à política.
Ares se referia à própria esquerda nacionalista basca, que em outra entrevista coletiva citava o comunicado do ETA como uma “decisão unilateral, indefinida e não condicionada de interrupção de suas ações armadas”.
O partido Batasuna, que representava institucionalmente a esquerda abertzale, foi ilegalizado há sete anos, após ser considerado pelo juiz Baltazar Garzón o braço político do ETA. Seu líder, Arnaldo Otegi, está preso e perdeu os direitos políticos por 16 anos. O Batasuna ainda está presente em cerca de 30 prefeituras bascas, mas está fadado a desaparecer em 2011, quando serão realizadas novas eleições municipais.
— O comunicado tem um valor inquestionável para que se instaure a paz e se consolide um processo democrático — afirmou ontem o porta-voz abertzale Txelui Moreno, que, em abril, fez a primeira censura pública ao ETA, acusando-o de ser “um bloqueio ao diálogo”.
O comunicado de ontem foi feito através de um vídeo divulgado pela rede BBC de Londres, uma estratégia para conseguir mais repercussão internacional. Eram três encapuzados: quem leu o comunicado foi uma mulher.
O Partido Nacionalista Basco (PNV), que governou durante 29 anos consecutivos — até 2009 — o País Basco, divulgou uma nota dizendo que o comunicado do ETA não é o que a sociedade basca esperava. Já para o Eusko Alkartasuna (EA), um pequeno partido nacionalista dissidente do PNV, o anúncio de cessar-fogo do ETA é alentador, mas não deixa de ser apenas um primeiro passo.
— A decisão do ETA de não realizar atentados, além de responder à demanda da cidadania, é e deve ser um primeiro passo que nos leve a uma situação de trégua definida que estabeleça um cenário de paz — disse Pello Urizar, secretário-geral do EA.
Desde que rompeu o último cessar-fogo — que durou nove meses — com um carro-bomba no Aeroporto de Barajas, no dia 30 de dezembro, o ETA cometeu cerca de meia centena de atentados e matou 12 pessoas. O fim da trégua significou um enfrentamento entre as principais forças políticas espanholas: Partido Socialista (PSOE), no governo, e Partido Popular (PP), na oposição. O processo de paz de 2006, quando o governo do socialista José Luis Rodríguez Zapatero e o ETA estavam em plena negociação, rompeu um acordo antiterrorista firmado com o PP em 2000.
Oposição promete apoiar luta contra terrorismo
Ontem, com o comunicado de uma nova trégua do ETA, o PP afirmou que o governo contará com seu apoio se continuar o trabalho na luta contra o terrorismo. A abertura de um novo diálogo com o ETA significaria para o Partido Popular a ruptura de um acordo que tornou possível a posse de Patxi López, do PSOE, como primeiro lehendakari (chefe do governo basco) não nacionalista.

— O único comunicado que interessa à sociedade espanhola será aquele no qual se anuncie a dissolução do ETA e o abandono definitivo das armas — afirmou Javier Arenas, vice-secretário nacional do PP.
O cerco ao ETA vem sendo cada vez mais forte, não só na Espanha como na França, onde oito líderes foram detidos nos últimos dois anos.
Com a prisão de Francisco López Peña, conhecido como Thierry, em maio de 2008, uma nova geração passou a ocupar a direção do grupo terrorista.
São jovens nascidos depois da transição democrática, que não superam os 30 anos e carecem de formação ideológica. Sua escola era a chamada kale boroka, a violência urbana.
Encurralado, como alternativa de quartel-general o ETA foi para Portugal, onde montou sua fábrica de bombas. Nestes últimos anos, o grupo vem apostando no recrutamento de pessoas sem ficha policial e que conciliem uma vida normal com a atividade terrorista. Com escassa formação militar, cometem numerosos erros, facilmente detectados pela polícia. As dissidências internas completam o atual panorama de debilidade.
Membros históricos do ETA, com diversos assassinatos nas costas, presos e condenados a penas de até 200 anos, vêm se mostrando abertamente contrários à continuidade da luta armada.
Este anúncio de cessar-fogo chega num momento em que há tempos o terrorismo do ETA não ocupa destaque nos meios de comunicação nacionais, nem é ordem do dia nos debates entre governo e oposição.
— É o comunicado mais fraco que emitiram até agora e no qual mostram querer mais coisas em troca: estar nas eleições municipais — diz Ángeles Pedraza, da Associação de Vítimas do Terrorismo.
A última vítima de ETA foi um policial, assassinado na França no dia 16 de março.
Antes disso, no dia 31 de julho de 2009, dois guardas civis espanhóis foram mortos na ilha de Maiorca. O último atentado foi cometido no dia 9 de agosto do ano passado.

Brum, em O Jornal de Hoje

Ameaças à democracia

Ameaças à democracia

CARLOS ALBERTO DI FRANCO – O Globo

 Em 1964, sob o pretexto de preservar a democracia ameaçada por um presidente da República manipulado pelo radicalismo das esquerdas, os militares tomaram o poder. E o que se anunciava como intervenção transitória se transformou no pesadelo da ditadura. A imprensa foi amordaçada. Lideranças foram suprimidas. Injustiças foram cometidas em nome da democracia.
O que se viu no transe da ditadura foi o germinar de duas tendências: liberdade versus autoritarismo. Os democratas, como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, entre outros, partiram para a luta contra a ditadura, mas sempre apontando para o horizonte de um regime aberto. Outros, como Dilma Rousseff e Franklin Martins, partiram para a clandestinidade. Passaram-se anos. A guerrilha foi substituída pelos ensinamentos de Gramsci, pelo marketing e pela manipulação das massas desvalidas.
Mas a alma continua autoritária.
Em discurso, ao lado do presidente Lula, o ministro Franklin Martins criticou a imprensa e disse que os jornais e emissoras de TV vão perder o controle sobre as notícias. Eles participaram do lançamento da TVT, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Franklin disse que o canal ajudará a internet a quebrar o poder dos “aquários”, jargão que identifica a chefia das redações. “Isso é uma revolução e incomoda muita gente que ficava no Olimpo. Mas é irreversível, e está apenas começando.” O inimigo: a imprensa independente. A mesma que se opõe e, se oporá sempre, aos novos ímpetos autoritários que se vislumbram no horizonte pós-eleitoral.
O projeto de controle das comunicações e das liberdades não é uma possibilidade.
É um estratégia em implantação.
O respeitado Ethevaldo Siqueira, de “O Estado de S. Paulo”, fez uma radiografia: “O PT não quer simplesmente continuar, mas se prepara para aprofundar o aparelhamento do Estado na área das Comunicações. Ao longo de quase oito anos, o partido ocupou quase todos os espaços de poder na área”, diz Siqueira. O governo Lula esvaziou as agências reguladoras, concentrou esforços na formulação do Plano Nacional de Banda Larga e na recriação da Telebrás.
“Criou a EBC(TV Brasil), e passou a cuidar quase secretamente da questão da banda larga e da Telebrás.” A estratégia petista consiste em aprofundar o aparelhamento e a ocupação total do território estatal das comunicações, conclui.
É sombrio o horizonte da democracia.
Agora, com a economia turbinada, tudo é festa e a capacidade crítica se esvai. Mas um país com imprensa ameaçada, oposição esfacelada, instituições aparelhadas, comunicação controlada e sob o efeito de um crescente populismo assistencialista é tudo, menos democracia. Cabe-nos resistir, com as armas do profissionalismo, da ética inegociável e da defesa da liberdade. A democracia pode cambalear, mas sempre prevalece.

Como nos piores tempos

Como nos piores tempos

Paulo Brossard - ZERO HORA (RS)

Tinha o propósito de não voltar ao fato público e notório da violação do sigilo fiscal de pessoas próximas a um dos candidatos à Presidência da República, abordado mais de uma vez, mas novas notícias trouxeram à luz aspectos inéditos ao caso, que, dia a dia, se torna mais estranho e indigesto.
Tudo começou em 19 de junho, quando a Folha de S. Paulo publicou na página 12 do seu primeiro caderno, A, sob o título Dado sigiloso de dossiê saiu da Receita, notícia segundo a qual os dados fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pedreira, levantados pelo grupo de inteligência da pré-campanha de Dilma Rousseff (PT), saíram diretamente dos sistemas da Receita Federal, como atestam documentos aos quais a Folha teve acesso, (sic). Na mesma página e da mesma notícia, lia-se que procurada desde o começo da semana, a Receita informou que não iria se manifestar sobre o assunto. Noutra passagem informava a Folha exibiu parte dos papéis de EJ (vítima) e este confirmou a veracidade das informações por ele enviadas à Receita, adiantando que esses documentos não estão em nenhum outro lugar que não a Receita Federal. Eu afirmo que o meu sigilo fiscal foi violado. Aí está o resumo do caso que não cessou de encrespar-se desde seu aparecimento na imprensa.
Revelando estar a par do assunto, a senhora candidata à Presidência da República, no dia seguinte, 20, no mesmo jornal afirmava que cabe à Receita Federal explicar como vazaram dados fiscais de Eduardo Jorge Caldas Pereira. Em outras palavras, pela Folha de S. Paulo de 19 e 20 de junho passado, o caso ficou demarcado, com a confirmação de que efetivamente ocorrera a quebra do sigilo mencionado, quando a Constituição assegura sua inviolabilidade, art. 5º XII.
Mais de mês decorreu e as notícias que se sucederam deixaram a Receita, que, afinal, saiu do silêncio, em posição cada vez menos cômoda. Os meios de comunicação informaram que ela terminou por reconhecer que além do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, mais três pessoas do mesmo grupo partidário, no dia 8 de outubro de 2009, num período de 15 minutos, tiveram violados os seus dados sigilosos, a indicar que não se tratava de ilícitos isolados, mas de crime organizado; foi divulgado que suspeitos de violar sigilo são blindados pela Receita; mais um dia e a violação era associada a propina, e a investigação fazendária sigilosa e sem prazo para terminar aparece como concluída; mais um dia e a Receita aponta como suspeitas mais duas funcionárias e volta a pretender que o processo se mantenha sigiloso; eis senão quando vem a público o acesso a dados da filha do candidato à presidência José Serra a pedido dela (sic), embora o governo soubesse que era falsificada a assinatura da requerente para chegar à quebra dos dados; nesta altura, a própria Receita admite a falsificação do requerimento, bem como do seu reconhecimento, pois não havia no cartório o registro de assinatura, além de que era grosseira a falsificação do reconhecimento atribuído ao tabelião do ofício que teria feito; segundo a Folha de S. Paulo, o falso procurador, ou que outro e melhor nome possa ter, teve quatro CPFs cancelados e acumula 16 processos, seis deles na área criminal; este o personagem que em 30 de setembro do ano passado entregou o pedido a uma servidora da Receita em Santo André, que acessou as declarações do imposto de renda da filha do candidato José Serra referentes aos exercícios de 2007 a 2009 e no mesmo dia as repassou ao falsário; por fim, o secretário da Receita Federal já inocentou os servidores envolvidos no caso. Por sua vez, o honrado presidente da República para não demitir Cartaxo (secretário da Receita Federal), Lula tira Receita das investigações, segundo manchete de grande jornal.
Com isso, importante segmento do serviço público federal, com acesso aos dados de natureza privada de todos os brasileiros e estrangeiros residentes no país, viu-se atingido em sua respeitabilidade por ação e omissão do próprio governo. É lamentável. Em tempos passados, houve aqui e em outras mal-afamadas Repúblicas fatos dessa espécie, mas supunha-se que, no Brasil, isto não se repetiria. Repetiu-se. À guisa de defesa da insigne felonia, pela tevê e pela imprensa, membros do governo não coraram em afirmar que a quebra de sigilo não se limitava à meia dúzia de casos agora revelados, mas eram muitos, muitos e muitos mais. Acredite se quiser.

#photography #fotografia #fotojornalismo A arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não #botequimtuitajoaquim by Johnguardacosta

Amorim

Marina, de volta à casa (setembro, 2010)

'Facção sindical ocupou cargos na Receita'

'Facção sindical ocupou cargos na Receita'

Everardo Maciel, ex-secretário da Receita, afirma que violação de sigilo é plataforma para outros crimes

ENTREVISTA Everardo Maciel - Fabio Brisolla – O Globo

 A crise na Receita Federal deflagrada pela violação de sigilos fiscais é resultado de um loteamento de cargos guiado por interesses políticos. A crítica partiu de Everardo Maciel, que comandou a Receita Federal nos dois mandatos do expresidente Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002. Sócio de uma consultoria fiscal em Brasília, ele diz que os problemas começaram com as indicações de sindicalistas para posições estratégicas na gestão de Lina Vieira, que antecedeu o atual secretário Otacílio Cartaxo. Sobre as violações constatadas, Everardo critica o ministro da Fazenda, Guido Mantega, por afirmar que a Receita sempre foi vulnerável: “É uma maneira de encobrir o que vem sendo praticado.”
 O GLOBO: Qual a sua avaliação sobre a violação do sigilo fiscal constatada dentro da Receita Federal? EVERARDO MACIEL: É uma situação gravíssima. A Receita reúne informações extremamente importantes. O vazamento não só corresponde a crime, como favorece vários outros crimes, como roubo, calúnia e difamação. É uma plataforma para outros crimes.
O ministro Mantega afirmou que a Receita sempre foi vulnerável.  O senhor concorda com essa afirmação? EVERARDO: Vulnerabilidade existe em todos os sistemas de informação de qualquer órgão, em qualquer país que seja. Agora, é importante saber o grau de rigidez do sistema. Dizer que o sistema da Receita é vulnerável...
Não é. Ou poderia dizer: é dos menos vulneráveis. Não significa que não pode acontecer.
Mas também essa não pode ser a justificativa para as falhas que ocorreram. Isso é uma maneira de encobrir o que vem sendo praticado
 Qual seria a questão central a ser observada na investigação sobre a quebra de sigilo? EVERARDO: É preciso olhar o aspecto mais importante nessa história toda. O problema não é vulnerabilidade da Receita. Essa é a ponta de um iceberg, um fragmento de uma questão mais ampla. Evidencia a existência de uma quadrilha que estava tentando obter informação cujas intenções eram as piores possíveis. Não estou fazendo acusações políticas. Mas as pessoas que fizeram tinham um interesse comercial, havia um negócio em andamento, com finalidade política.
 Um dos suspeitos, o contador Antônio Carlos Atella Ferreira, segundo o TRE, era filiado ao PT... EVERARDO: Existe essa pessoa, com uma biografia esquisita...
Não consigo entender como não foi decretada prisão desse cidadão. Ele está obstruindo a Justiça e debochando do Estado brasileiro.
 A atual administração da Receita Federal foi comprometida por causa das violações constatadas? EVERARDO: O comando da Receita não pode ser responsabilizado pelo que está acontecendo.
Seria injusto. O importante neste momento é identificar os responsáveis por essas violações. E agir de forma transparente, algo que infelizmente não vem ocorrendo.
A cada minuto há uma explicação diferente para um fato.
É preciso assumir o problema, de forma adulta.
O senhor acha que o atual secretário da Receita, Otacílio Cartaxo, deve ser afastado do comando da instituição? EVERARDO: Não. O que tem de haver é uma discussão clara.
A Receita é assunto de Estado.
Não pode ser tratada como questão política. Ele não pode ser tratado como bode expiatório nessa história. Sua nomeação foi o reconhecimento de que o modelo estabelecido anteriormente estava errado.
 O senhor se refere à gestão de Lina Maria Vieira? A interferência política teria começado nesse período? EVERARDO: Na administração anterior, cargos estratégicos foram ocupados por facção sindical da Receita. Isso não pode nem ser chamado de aparelhamento.
É um subaparelhamento.
Acho que o próprio governo reconheceu que cometeu um erro.
E a indicação de Cartaxo foi uma forma de se corrigir isso.
 Lina Vieira seria a responsável por esse aparelhamento ocorrido dentro da Receita? EVERARDO: A Lina foi um mero instrumento. Não saberia identificar quem no governo definiu essa orientação.
 Lina substituiu Jorge Rachid, que, antes de ser secretário da Receita Federal, foi seu braço direito no comando da instituição. O senhor acha que a demissão dele foi articulada por grupos políticos? EVERARDO: Quando Rachid assumiu, houve uma campanha deliberada, política, pesada, que envolveu ações difamatórias, com objetivo de retirálo do comando. Ele não saiu de imediato por ter conduzido a receita de forma íntegra.
Mas, em um dado momento, ele foi derrubado de maneira sórdida. E as pessoas que entraram atendiam a essa facção política. A consequência disso não terminou ainda. E, por incrível que pareça, essas pessoas não desistiram de tomar o poder. Os três candidatos do sindicato ao cargo de Secretário da Receita integravam a administração de Lina Vieira (em agosto, o sindicato dos auditores fiscais anunciou uma lista com três nomes para substituir Cartaxo, que será enviada ao próximo presidente da República). Eles não desistiram.
 A crise atual na Receita estaria relacionada diretamente com essa “facção política” que tentou assumir o comando da instituição? EVERARDO: O Rachid caiu em decorrência de um processo iniciado no dia em que ele tomou posse. E resultou num desastre.
A Receita caiu, a estrutura foi desorganizada. A crise atual é consequência da politização da Receita. A saída de Rachid foi apenas um capítulo desse enredo. Mas o episódio atual (as violações de sigilos), lamentável, criminoso, ao menos serve para a sociedade perceber o que estava acontecendo lá dentro.

Skoob

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