quarta-feira, setembro 08, 2010
O despertar da oposição
O despertar da oposição
MARCO ANTONIO VILLA – Folha de São Paulo
A oposição acordou. Finalmente. Tinha imaginado que a eleição era na Lapônia. E que a candidatura oficial tinha a lhaneza do Papai Noel. Descobriu que vivemos em um país onde as instituições democráticas são frágeis. Onde o poder Judiciário é de mentirinha. E o Legislativo está sendo invadido – para a alegria mórbida dos inimigos da liberdade – por humoristas decadentes, ex-jogadores de futebol, celebridades instantâneas e “sambeiros” que espancam suas mulheres.
Lula rasgou a lei eleitoral. Depois de ter sido multado diversas vezes pela TSE resolveu, a seu modo, a questão: passou a ignorar solenemente o tribunal. Manteve a rotina de associar o cotidiano administrativo com o processo eleitoral. Em outras palavras: “peitou” o tribunal e ganhou. Ganhou por omissão do TSE. Para Lula, a democracia não funciona pelo respeito às leis, com uma oposição vigilante e pela crítica às ações do governo. Não. Para ele, a democracia só tem uma fala, a dele. Transformou as cerimônias públicas em espetáculos de humilhação. Aos adversários, como na Revolução Cultural chinesa, reserva o opróbrio. Basta citar dois incidentes recentes: um em São Paulo e outro em Sorocaba. Manteve-se impassível quando a claque vaiou e quase impediu de falar, o governador Goldman. No fundo, estava satisfeito. O mais triste é que o fato foi considerado absolutamente natural. No Brasil lulista a prática de impedir pelos gritos e, se necessário, pela força, um opositor de falar, está virando rotina.
A associação indevida entre governo e Estado é evidenciada a todo momento. Tanto no escândalo dos dossiês, como no comício de Guarulhos – onde nem usou o disfarce da presença da candidata – ou na decoração do gabinete presidencial, que tem na parede um adesivo com o logotipo do governo ao invés de algum símbolo nacional.
O lulismo desqualifica a política. E abre caminho para o autoritarismo. A eleição deixa de ser uma salutar disputa pelo futuro do país e vira uma guerra. Para ele, os opositores não são adversários, são inimigos. Enfatiza alguns êxitos econômicos (parte deles sem qualquer relação com o atual governo) e sonha com o poder absoluto. Despreza os defensores das liberdades e, por vontade própria, já começou a mini-constituinte: aboliu informalmente o artigo 5º da Constituição.
Age como o regime militar. Tem medo de, cara a cara, enfrentar um oposicionista. Ridiculariza a política. Neste ritmo logo veremos, como na ditadura, algum outdoor com a frase: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada.”
Historiador. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. Bacharel e Licenciado em História, Mestre em Sociologia e Doutor em História.
Orfandade comunicacional
Orfandade comunicacional
Alon Feuerwerker – Correio Braziliense
Se o sujeito descer aqui num disco voador vindo, sei lá, de Marte concluirá que no Brasil só há pobres, ou só gente que precisa desesperadamente do governo para resolver os próprios problemas. É a conclusão de alguém cuja única fonte de informação são os programas dos candidatos nos intervalos regulamentares no rádio e na televisão destinados às campanhas eleitorais.
Eleição é varejo, e o eleitor está atrás de soluções para sua vida.
Eu mesmo já escrevi aqui sobre o tema, defendendo esse ponto de vista.Dito isso, é o caso de perguntar: será que não há na campanha presidencial brasileira interesse por debater assuntos que não digam exclusivamente respeito às necessidades fundamentais das camadas mais pobres? Qualquer estatística comprovará que a mudança no perfil de renda do brasileiro e da brasileira foi radical nas últimas duas décadas.Tudo bem que tucanos e petistas debatam interminavelmente sobre quem contribuiu mais, talvez na casa do zero vírgula qualquer coisa.Mas um detalhe é consensual: independentemente da paternidade, o Brasil é hoje um país com ampla classe média.
Quem fala para esse novo país? Até agora ninguém. Os candidatos empenham-se na comunicação “do que eu vou fazer por você se eu chegar lá”, mas falta alguém para informar que medidas vai adotar para o novo emergente, inclusive e principalmente o beneficiário da recente aceleração da mobilidade social, para que ele possa cuidar melhor da vida.
Um exemplo é a discussão sobre os juros.
Os candidatos não querem melindrar os bancos, está certo.Mas será que é só isso? Qual o motivo para nenhum dos principais postulantes sequer pensar em atacar duramente na tevê o juro de 10% ao mês no cheque especial, quando a inflação anual ronda os 5%? Claro, esse é um problema para quem tem cheque especial e usa, uma turma que certamente não é a maioria.
Mas será pouca gente? Um argumento é que os materiais para tevê e rádio devem ser pensados conforme o perfil do público que se informa principalmente por esses dois meios. Não cola. Nos demais canais não há variações significativas.
Além da tevê e do rádio, há os jornais, as revistas e, principalmente, a internet. Nem por isso os candidatos aproveitam para conversar com outros que não os pobres estilizados das qualis.
Naturalmente, os marqueteiros devem estar certos e eu errado.
O que mais há em campanha eleitoral é gente, especialmente jornalistas, disposta a dizer o que os marqueteiros devem fazer ou deixar de fazer. Parece-me um tanto pretensioso, se se considerar que para fazer os programas de rádio e tevê os candidatos contratam marqueteiros, e não jornalistas.
Mas confesso que tenho essa curiosidade. Por que um bom pedaço da população fica “excluída” quando os candidatos ou seus programas dão sinal de vida nas ondas do rádio ou nas telas de tevê? Acampado Depois de oito anos de negociações (haja negociação!) parece que o governo vai anunciar o vencedor da concorrência para comprar um punhado de caças novos para a Força Aérea Brasileira.
Considerando que a administração tucana gastou também um tempo imenso, para não decidir, talvez seja conveniente agradecer aos céus pelo ambiente de paz e tranquilidade que nos cerca. Um país com nosso ritmo não pode mesmo se dar ao luxo de entrar numa guerra.
Houvesse ameaça bélica real, e se precisássemos depender da velocidade das nossas autoridades para concluir sobre temas assim, estaríamos todos fritos.
A turma nem teria ainda chegado à redação final mais adequada para os editais,mas o inimigo já estaria acampado na Praça dos Três Poderes.
Por que um bom pedaço da população fica “excluída” quando os candidatos ou seus programas dão sinal de vida nas ondas do rádio ou nas telas de tevê?
Combinar com os eleitores
Combinar com os eleitores
Merval Pereira
Não há ainda informação confiável sobre a repercussão do escândalo da quebra em série de sigilos fiscais na decisão dos eleitores, e ambos os lados da disputa anunciam números favoráveis: para os petistas, se alguma coisa se moveu foi a favor de Dilma, que teria ampliado sua diferença sobre Serra apesar dos pesares. Para os tucanos, os números já indicariam uma queda de Dilma e subida de Serra, restando confirmar se essa é uma tendência que pode levar a eleição ao segundo turno.
Assim como a iniciativa de pedir ao TSE que retirasse do ar a propaganda em que Collor aparece pedindo votos para Dilma demonstra que esse apoio não repercute bem na campanha petista, também a reação do presidente Lula é uma demonstração de que o caso da quebra continuada de sigilos por diversas repartições da Receita pelo país é um assunto potencialmente perigoso para a campanha de Dilma Rousseff.
Disse o presidente, sempre como se estivesse em um palanque eleitoral, e não na posição de líder de um país, que, da mesma forma que “armaram” contra ele em 2006, estão querendo “armar” agora para cima de sua candidata.
A relação entre um caso e outro é sintomática quando feita pelo próprio presidente, e é ruim para a campanha oficial, porque embute a aceitação de que pode acontecer o mesmo agora, com o novo caso dos “aloprados” levando a eleição para o segundo turno.
Também o raciocínio desenvolvido dentro do governo, revelado ontem pelo secretário particular de Lula, o sempre fiel escudeiro Gilberto Carvalho, espelha a fragilidade da defesa diante das evidências.
Para ele, há ligações muito “tênues” entre o PT e as quebras de sigilo, uma ligação que só ficaria evidenciada caso, em vez de “petistas da base”, estivessem envolvidos petistas da direção partidária.
Ora, mais petistas da direção partidária do que os envolvidos no escândalo do mensalão, impossível. O próprio chefe do Gabinete Civil de então, José Dirceu, foi identificado pelo procurador geral da República como o “chefe da quadrilha” que fora montada dentro do Palácio do Planalto para manipular as bancadas do Congresso Nacional.
Um ano depois, estoura o caso do dossiê contra os candidatos tucanos ao governo de São Paulo, José Serra, e subsidiariamente contra o candidato a presidente da República, Geraldo Alckmin.
Apanhados em flagrante com um punhado de dinheiro vivo dentro de um hotel em São Paulo, os “aloprados” indicaram como agentes da ação criminosa Jorge Lorenzetti, o churrasqueiro pessoal de Lula; Freud Godoy, seu segurança pessoal transformado em assessor especial; e Hamilton Lacerda, na época assessor do gabinete do senador Aloizio Mercadante (PT-SP) e coordenador da sua campanha ao governo estadual.
Mais ligados ao comando do partido e ao Palácio do Planalto do que isso, também é impossível.
Mas até agora nada aconteceu com nenhum dos envolvidos.
Os que foram denunciados no Supremo Tribunal Federal pelo mensalão continuam atuando de uma maneira ou de outra no PT, e os “aloprados” vão levando sua vidinha, sempre ligados ao partido e ao governo.
Como um dos argumentos mais utilizados pelos governistas para tentar desqualificar as denúncias é que não interessava à campanha de Dilma quebrar sigilos fiscais quando a eleição está praticamente vencida no primeiro turno, nunca é demais lembrar que o presidente Lula chamou de “aloprados” seus amigos e correligionários que participaram daquela operação em 2006 justamente porque não havia razão para tumultuar uma eleição que caminhava para ser resolvida no primeiro turno.
O mesmo ocorreu nesse caso atual, quando nem mesmo as pesquisas mostrando a candidata oficial abrindo uma dianteira foram suficientes para conter o ímpeto dos “neoaloprados”.
Além do fato de que as primeiras quebras ocorreram ano passado, quando as pesquisas indicavam uma provável vitória de Serra.
Mas não é apenas o governo que está tentando transformar a vítima em culpado. Também Marina Silva, candidata do Partido Verde, depois de criticar a omissão do governo na investigação das quebras de sigilo, deixou aflorar sua alma petista e resolveu criticar também o candidato tucano José Serra, talvez sinalizando qual seria sua posição em um eventual segundo turno entre Dilma e Serra: “As eleições estão indo por um caminho que não interessa ao Brasil. Interessa para alguém ganhar as eleições se fazendo de vítima para, de acordo com as circunstâncias, angariar a simpatia do eleitor”.
Para fugir desse tipo de acusação, o candidato José Serra passou a evitar o assunto como tema de sua campanha, transferindo para a direção nacional do PSDB o prosseguimento da disputa no plano institucional.
Uma eventual ida para o segundo turno pode oferecer aos tucanos uma rara oportunidade para a união de forças que não conseguiram neste primeiro turno.
O partido hoje aparece em primeiro lugar na disputa de sete estados, podendo eleger os governadores de São Paulo, com Geraldo Alckmin; Minas Gerais, com Antonio Anastasia; Goiás, com Marconi Perillo; Paraná, com Beto Richa; Piauí, com Sílvio Mendes; Roraima, com José Anchieta Júnior; e Pará, com Simão Jatene.
Tem chances ainda em Rondônia, com Expedito Júnior; no Amapá, com Jorge Amanajás; em Mato Grosso, com Wilson Santos; e em Tocantins, com Siqueira Campos.
Com a eleição para o Congresso definida a 3 de outubro, e alguns governos estaduais também, o PSDB poderá entrar num eventual segundo turno com uma força política maior, e mais coeso do que atualmente.
Mas antes, como diria Garrincha, tem que combinar com os russos.
Adicional de periculosidade não é devido ao advogado ligado à área prisional
Adicional de periculosidade não é devido ao advogado ligado à área prisional
No julgamento do RR 10800-34.2005.5.02.0066, o TST, por unanimidade, entendeu que não deve ser pago adicional de periculosidade ao advogado da Fundação Professor Doutor Manoel Pedro Pimentel – Funap (SP). O advogado pleiteou o recebimento do adicional sob a fundamentação de que os funcionários e servidores do Estado de São Paulo que como ele atuam em estabelecimentos prisionais recebem o benefício. Em suas razões, a Funap sustentou que, por ser uma fundação pública, não tinha a obrigação de pagar o adicional. Alegou que esse adicional é dirigido apenas aos funcionários públicos e servidores da Administração centralizada do Estado, com previsão na Lei Complementar Estadual nº 315/1983. Assim, o relator excluiu da condenação imposta à Funap o pagamento da verba.
Tema em discussão: Política externa brasileira
Tema em discussão: Política externa brasileira
NOSSA OPINIÃO – Jornal O Globo
Volta às origens
Entre inegáveis ações positivas do governo Lula, infelizmente não está a política externa. A expectativa em torno da atuação internacional do Brasil cresceu consideravelmente, em linha com o destaque que o país passou a ter por conta da consolidação de suas instituições democráticas, da relativa firmeza de sua economia e dos avanços na redução das (ainda graves) desigualdades sociais. Mas as expectativas foram frustradas.
No governo Lula, a política externa brasileira foi reorientada para refletir supostos novos interesses estratégicos do país, em prejuízo da linha histórica traçada pelo Barão do Rio Branco, pautada pelo profissionalismo, pela eficiência e pela sintonia fina dos interesses nacionais.
Simpatias ideológicas começaram a ditar o rumo da diplomacia brasileira, abrindo desnecessárias áreas de desgaste com importantes e tradicionais parceiros do país. Ao mesmo tempo, interesses partidários passaram a interferir nas diretrizes permanentes de nossa atuação externa, deixando o Itamaraty refém de iniciativas descalibradas.
O compadrio ideológico fez com que o Brasil apoiasse sistematicamente o regime comunista de Cuba, para o qual a defesa dos direitos humanos é uma atitude “antirrevolucionária”; o regime bolivariano da Venezuela, para o qual adversários políticos são inimigos jurados; ou o regime indigenista da Bolívia, que nacionalizou instalações brasileiras de exploração de gás.
A política externa brasileira ressuscitou fósseis da Guerra Fria, como a divisão entre Primeiro e Terceiro Mundos, o conflito entre o Hemisfério Norte, desenvolvido e explorador, e o Sul, pobre e espoliado, o que desembocou num antiamericanismo risível. Esse posicionamento brasileiro levou a distorções, como a insistência no apoio ao ex-presidente Zelaya, de Honduras, um chavista tardio, mesmo depois de a crise do país ter sido solucionada com a realização de eleições apoiadas por Washington. Criou situações ridículas, como a do presidente Lula, em visita ao Oriente Médio, tentando posicionar o país como um dos baluartes do processo de paz entre israelenses e palestinos.
E forçações de barra, como a de tentar transformar o Brasil num interlocutor privilegiado do regime clerical-obscurantista do Irã, sendo imediatamente desautorizado pelos Estados Unidos e pelos fatos.
Da ideia do contraponto à OEA, que seria controlada por Washington, nasceu a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), com todo o apoio brasileiro e o objetivo de unir as duas organizações de livre comércio sul-americanas — o Mercosul e a Comunidade Andina de Nações.
A entidade se desdobraria, entre outras medidas, num Conselho de Defesa da América do Sul. Não está explícito de que ou de quem a região se defenderia.
Mas pode-se imaginar, a julgar pelo antiamericanismo predominante entre seus membros — a Colômbia, maior aliada dos EUA na região, é membro relutante.
Não há dúvida de que a diplomacia deve ser dinâmica para acompanhar a evolução dos interesses estratégicos do país num mundo em rapidíssima transformação. Há novos atores, como os Bric, e novos temas, como a defesa do meio ambiente, mas isso não quer dizer que o país deve abandonar os pilares tradicionais de sua política externa.
Deve, isto sim, é resgatar o equilíbrio e o multilateralismo que sempre caracterizaram a atuação do Itamaraty. O Barão do Rio Branco agradece.
OUTRA OPINIÃO
Diplomacia democrática
FÁTIMA MELLO
A política externa brasileira sempre foi vista pelo grande empresariado industrial e do agronegócio como propriedade desses setores.
Sob a alegação de ser uma política de Estado, confundia-se interesse nacional com seus próprios interesses.
Ao longo dos últimos anos novas agendas e novos atores passaram a disputar os rumos da política externa, visando a democratizá-la e torná-la uma política pública que reflita os interesses múltiplos e conflitantes que existem na sociedade brasileira. Trabalhadores urbanos e rurais, consumidores, ambientalistas, organizações que defendem direitos sociais e serviços públicos universais passaram a questionar as prioridades das grandes corporações que sempre orientaram a atuação externa do Brasil.
Passaram também a pressionar para que a agenda de direitos, da sustentabilidade ambiental e de garantia das políticas de saúde, educação, serviços públicos, segurança e soberania alimentar passe a orientar a formulação da política externa.
Tais organizações e movimentos sociais defendem uma agenda diferenciada de integração do Brasil com os países da América Latina e com outros países do Sul. Propõem o controle social da atuação de empresas dentro e fora do Brasil, demandando garantias e contrapartidas sociais e ambientais das empresas multinacionais, inclusive das empresas brasileiras que estão se internacionalizando, e exigindo o cumprimento das regulações existentes para elas no plano internacional e na legislação nacional. Defendem que a política externa incorpore como diretriz central a defesa da dimensão ambiental, priorizando a articulação da posição externa com políticas internas de transição para uma economia de baixo carbono, que inclua a diversificação da matriz energética, a defesa dos sistemas agroecológicos da agricultura familiar e camponesa, o respeito aos territórios das populações tradicionais. Defendem que os direitos sociais prevaleçam sobre os interesses meramente comerciais.
Para que os interesses múltiplos e conflitantes existentes na sociedade brasileira possam ser processados, mediados e por fim traduzidos em posição externa é necessária a criação de um espaço institucional que inclua esta diversidade de atores e agendas. Os espaços e dinâmicas existentes até agora — sejam a Camex, as consultas ad hoc, as reuniões realizadas em gabinetes de ministérios com os grupos empresariais de pressão — já não são mais aceitáveis porque deixam importantes setores sociais e agendas do lado de fora, sem interlocução. A proposta de criação de um Conselho de Política Externa reforçaria o papel do Ministério das Relações Exteriores como o lócus de mediação, formulação e condução da política externa, conferindo legitimidade às definições dessa política. O conflito e a democratização do processo decisório na política externa são sinais positivos, pois contribuem para a democratização do Estado. E isso deve ser visto como prioridade pelo próximo governo.
FÁTIMA MELLO é secretária executiva da ONG Rede Brasileira Pela Integração dos Povos.
Paul Bloom: "Nossas crenças afetam nosso prazer"
Paul Bloom: "Nossas crenças afetam nosso prazer"
Um dos maiores estudiosos do aprendizado explica por que a ilusão é importante para o desejo humano
Letícia Sorg - Época
É fácil imaginar uma explicação evolutiva para o desejo de fazer sexo ou comer – comportamentos favoráveis à reprodução e à sobrevivência da espécie tendem a ser transmitidos. Mas como explicar o gosto por música ou pintura? Por que na infância gostamos de ursos de pelúcia? Em suas pesquisas sobre o desenvolvimento infantil, o psicólogo Paul Bloom, professor da Universidade Yale, descobriu que as crianças não gostam de seus brinquedos por causa da aparência e se recusavam a receber uma cópia, mesmo idêntica, no lugar do original. Qual é a razão? Instigado pela dúvida, Bloom reuniu as últimas pesquisas sobre o tema no livro How pleasure works (Como o prazer funciona), lançado recentemente nos Estados Unidos. Nesta entrevista, como no livro, ele tenta explicar por que gostamos do que gostamos.
ENTREVISTA - PAUL BLOOM
QUEM É Psicólogo nascido em 1963 em Montreal, no Canadá, vive em New Haven, nos Estados Unidos, com a mulher, a psicóloga Karen Wynn, e dois filhos
O QUE FEZ É professor do Departamento de Psicologia de Yale. Seus trabalhos foram publicados nas revistas Nature e Science, entre outras. Escreve regularmente artigos em jornais como o The New York Times e o The Guardian. Entre outros livros, é autor de Descartes’ baby (2004), sobre como crianças aprendem
ÉPOCA – Por que é importante saber por que gostamos do que gostamos? Paul Bloom – Há duas respostas. Minha resposta é que é intelectualmente interessante. O prazer é um aspecto fundamental da natureza humana e qualquer teoria sobre a mente ou sobre como as pessoas funcionam inclui entender melhor do que elas gostam. A resposta prática é que muitas pessoas querem aumentar a quantidade de prazer que têm em sua vida e diminuir a quantidade de sofrimento, e, para isso, é preciso entender do que gostamos e por que gostamos. Muitos de nós não sabemos o que nos dá prazer, e aprender mais sobre isso pode melhorar nossa vida.
ÉPOCA – O senhor diz que há uma lista finita de prazeres. Quantos e quais são eles? Bloom – É difícil dizer um número, mas são mais do que cinco e menos do que 50. As pessoas gostam de sexo, de comida, de histórias, de se sentir seguras, de satisfazer sua curiosidade... Se continuarmos a listar, chegaremos aos prazeres que nos foram dados pelo processo evolutivo.
ÉPOCA – Mas seu livro questiona a ideia de que todos os prazeres são resultado do processo evolutivo e, portanto, formas de favorecer a reprodução e a sobrevivência. Bloom – Grande parte do meu livro é uma discussão sobre como vamos além desses prazeres inatos. Muitos prazeres – os mais interessantes, eu diria – não trazem nenhuma vantagem evolutiva, como apreciar uma obra de arte ou assistir à televisão. A ideia de que muitos prazeres surgiram da evolução é verdadeira, mas me interessa como nós ampliamos e elaboramos esses prazeres, algumas vezes até eles não terem mais benefícios para nossa sobrevivência. As pessoas evoluíram para sentir atração sexual umas pelas outras. Isso faz muito sentido dentro da teoria de Darwin. Mas também somos atraídos pela pornografia, por fotografias, por vídeos, que não trazem nenhum benefício reprodutivo.
ÉPOCA – Mas todo prazer precisa ter uma ligação, ainda que indireta, com a evolução? Bloom – Há sempre uma ligação, mas nem sempre tão simples. O caso da pornografia é uma extensão clara: como evoluímos para responder aos estímulos de pessoas reais, é natural respondermos também a imagens. Mas há extensões menos claras, como o prazer dos objetos com valor sentimental, como ursos de pelúcia, alianças de casamento. Esse é um prazer muito humano – não é algo que poderia facilmente ser explicado pelo processo evolutivo. Basicamente, o que acontece é que relacionamos nossa própria história ao objeto.
ÉPOCA – Isso quer dizer que o prazer é mais cultural do que biológico? Bloom – Não. Nós temos interesse na essência das coisas, na natureza mais profunda, e isso é universal. Não é produto de uma cultura, é biológico. Mas há também aspectos culturais que podem alterar nosso prazer.
ÉPOCA – Como explicar que dois irmãos que dividem grande parte da carga genética e foram criados na mesma cultura possam ter gostos totalmente diferentes? Bloom – Uma parte da explicação está nas diferenças genéticas. Outra parte pode estar ligada à experiência individual – um irmão pode comer algo ouvindo uma música de que gosta e associar um alimento a algo bom, enquanto o outro pode fazer uma associação ruim.
ÉPOCA – O senhor descreve vários estudos que mostram como somos incapazes de distinguir, em testes cegos, água da torneira de água engarrafada, vinho caro de vinho barato. Bloom – Somos incapazes até de distinguir patê de ração de cachorro! O engraçado é que as pessoas acham que elas, ao contrário dos participantes das pesquisas, saberiam a diferença. Elas me dizem: “Eu gosto da bebida pelo seu sabor! Bebo aquele vinho porque gosto, não ligo para o preço”. Mas isso é uma ilusão de todos nós. Quer gostemos ou não, nossas experiências são muito influenciadas por nossas crenças. O que pensamos afeta drasticamente o que sentimos.
ÉPOCA – Deveríamos, então, deixar de lado as degustações de vinho e parar? O prazer é uma ilusão? Bloom – As pessoas sempre pensam que esses estudos trazem uma má notícia. Mas não estou certo disso. Essas pesquisas só mostram que somos sensíveis a aspectos mais profundos. Suponha que você tenha um objeto de que gosta muito, mas que não consiga distinguir de outro objeto, uma cópia, pelo qual você não tem nenhum apreço. É irracional gostar mais do original, por causa de sua história, do que da cópia? Acho razoável considerar que algo é mais gostoso porque você acha que é natural ou porque você sabe que é mais caro. É verdade que somos enganados algumas vezes, mas não na maioria delas. Às vezes escolhemos ter um Picasso, e não uma réplica; ou manter nossa aliança de casamento original, e não usar uma cópia. Existe a opção de beber um vinho sem olhar o rótulo ou saber seu preço. Mas, na minha opinião, ter esse conhecimento torna as experiências mais prazerosas.
ÉPOCA – Até que ponto podemos alterar nossos gostos, nossas fontes de prazer? Bloom – Se as crenças mudam radicalmente a forma como as pessoas sentem algo, então o prazer pode mudar se as opiniões mudarem. Se suas convicções sobre um objeto mudarem, seu sentimento sobre ele vai mudar. Se as pessoas começarem a reprovar o processo de obtenção dos diamantes, vão passar a gostar menos deles. Isso de certa forma é uma boa notícia: nossa crença de que algo é ruim pode nos fazer gostar menos dele.
Somos todos poetas
Somos todos poetas
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
Murilo Mendes
(1901-1975)
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