segunda-feira, outubro 18, 2010
Casa Grande
Casa Grande
ANCELMO GÓIS – O Globo
Até ontem, mais de 5.000 pessoas tinham assinado o manifesto de apoio a Dilma que será lido hoje no Teatro Casa Grande, no Rio. A lista tem intelectuais e artistas, como Marilena Chauí, Emir Sader, Frei Betto, Antonio Grassi, Chico Buarque e Barretão, e inclui gente do meio universitário, religiosos e ambientalistas.
Irmã Dilma Aliás, na cúpula do PT há um racha em relação à recente conversão de Dilma ao discurso religioso. É gente que acha que ela não convence como madre superiora e sugere focar na reconquista da classe média, com atos como o de hoje, no Casa Grande.
Seguro de carro O STJ decidiu que as seguradoras de veículos terão de pagar o valor da apólice, mesmo que o sinistro (batida, roubo, etc.) tenha ocorrido após a venda do carro sem prévia comunicação. A nova súmula, que deve gerar polêmica, terá de ser seguida por todos os TJs, Brasil afora.
A volta de Cristina A procuradora Cristina Romanó, que atuou no Tribunal de Haia no julgamento do ditador Slobodan Milosevic, vai comandar uma força-tarefa do MPF de combate a desvios de recursos federais nas prefeituras do Estado do Rio e do Espírito Santo. Eu apoio.
No mais Dilma Rousseff chamou o mestre Stanislaw Ponte Preta de Sebastião Ponte Preta. Merece punição da Justiça Eleitoral. Com todo o respeito.
Não me escapa Sábado, Bibi Ferreira, 88 anos, interrompeu seu show no Canecão para anunciar a presença na plateia da aniversariante Fernanda Montenegro, 81 anos. O público cantou parabéns e, no camarim, a atriz confessou: — Bibi, sempre lhe tive tanta admiração, que cheguei a ter medo de me aproximar nesses últimos 50 anos. Mas agora você não me escapa mais. Não é fofo?
Pé no exterior O alemão Marco Kreuzpaintner, 33 anos, diretor de “Desaparecidos”, está no Brasil selecionando elenco de seu próximo filme, “One way ticket”. Mais de 60 atores disputam quatro papéis da coprodução alemã e brasileira, falada em inglês, que será rodada em 2011, no Rio e em Londres.
Segue... Pelo lado de cá, está a Conspiração Filmes, que busca crescer no mercado internacional com parcerias como esta. A primeira, com os espanhóis, rendeu “Lope”, dirigido por Andrucha Waddington.
Sucesso lá fora Pela segunda vez em um mês, uma equipe do jornalão “New York Times” visita Santa Teresa. Só este ano, o bairro carioca já mereceu as páginas de revistas e guias internacionais como “Monocle”, “Wallpaper”, “Lonely planet”, “First class” e “Conde Nast”.
Cabo gay Abriu em Cabo Frio, o bonito balneário do litoral fluminense, vizinho de Búzios, a primeira pousada e boate gay da região. Chama-se The Box.
Emergência 192 Outro dia, com a Rua Dias Ferreira, no Leblon, no Rio, fechada ao trânsito por causa de um festival de jazz, uma senhorinha passou mal em casa e quase morreu, porque uma ambulância não conseguiu chegar. Foi salva por um vizinho médico. Moradores fizeram queixa à prefeitura.
Skatista ladrão Ontem, três pessoas foram roubadas, entre 14h30m e 15h, na pista fechada da Vieira Souto, entre Garcia D’Ávila e Anibal de Mendonça, em Ipanema. O ladrão usava um skate motorizado para arrancar bolsas, máquinas fotográficas e celulares de quem passeava pela área de lazer. É o terceiro fim de semana seguido que o crime acontece ali.
Dona Inflação Dona Inflação passou filtro solar e foi à praia. Os postos de salvamento da orla carioca, que cobravam R$ 1 pelo chuveiro e o banheiro, agora custam R$ 1,50. Além do aumento de 50%, o Posto 10, em Ipanema, passou o fim de semana... sem água.
A cor do voto
A cor do voto
José Roberto de Toledo - O ESTADO DE S. PAULO
José Serra (PSDB) tem mais chances entre brancos e amarelos. Dilma Rousseff (PT) vai melhor entre pretos e pardos. Se cor da pele equivale a origem étnica, o tucano ganha por 5 pontos nos caucasianos/orientais. Entre os negros, a petista tem 15 pontos de vantagem.
A divisão do eleitorado por cor obedece às mesmas categorias do IBGE. Como no Censo 2010, os entrevistados se auto-classificaram aos pesquisadores do Ibope. Os dois grupos correspondem a 46% (brancos/amarelos) e 53% (pretos/pardos) do eleitorado pesquisado.
A variável não havia sido analisada até agora nesta eleição. Foi incluída na pesquisa pelo Ibope a pedido de grupos militantes do movimento negro.
Uma das conclusões mais importantes dessa análise é que a preferência de pretos/pardos por Dilma e de brancos/amarelos por Serra sobrevive ao controle dos resultados pela renda e escolaridade dos eleitores.
Negros que ganham mais e/ou que cursaram mais séries na escola continuam votando até 30% mais na petista. É um comportamento eleitoral muito diferente dos caucasianos e orientais das mesmas faixas de renda e escolaridade, que votam até 44% mais no adversário.
Considerando-se apenas os eleitores que frequentaram o ensino médio ou superior, Dilma tem 38% entre brancos/amarelos e 51% entre pretos/pardos. Serra tem praticamente os porcentuais inversos: 52% e 42%, respectivamente.
Entre os eleitores com renda superior a 5 salários mínimos, o topo da pirâmide eleitoral, a divisão do voto por cor segue na mesma proporção. Dilma tem 36% entre os brancos (contra 52% de Serra) e 51% entre os negros (contra 40% do adversário).
Há, portanto, fatores que diferenciam o voto dos dois grupos que vão além das condições sócio-econômicas em que vivem. A explicação parece ser tampouco a identificação entre eleitores e candidatos da mesma cor. Tanto Dilma quanto Serra são brancos e filhos de imigrantes europeus.
A sondagem do Ibope fornece pistas, mas não todos os elementos para explicar a clivagem do voto em função da auto-definição do eleitorado. O conjunto de pesquisas deixa claro, porém, que a cor não é o único fator, nem sequer o principal, para a escolha do presidenciável.
O voto é uma combinação da cor, religião, renda, escolaridade, ocupação e local de moradia do eleitor -não necessariamente nessa ordem. Essas variáveis têm pesos diferentes para cada um. O religioso dá mais importância à opinião do candidato sobre o aborto, por exemplo. Mas se esse eleitor for beneficiário do Bolsa-Família a opção por um ou outro presidenciável será mais complexa: a balança penderá às vezes para o bolso, às vezes para a orientação religiosa.
Esses pesos e contra-pesos matizam a importância da cor do eleitor na decisão do voto.
Nos segmentos intermediários de renda e escolaridade, Serra ainda vai melhor do que Dilma entre brancos/amarelos, embora sua vantagem não seja tão grande quanto entre os mais ricos e escolarizados da mesma cor. Já entre os mais pobres (renda até 2 salários mínimos), o tucano apenas empata com a petista no eleitorado branco (45% a 47%), e perde por 20 pontos no negro: 36% a 56%.
A divisão do eleitorado segundo a cor de sua pele encontra um paralelo na geografia do voto nas metrópoles brasileiras. Em São Paulo, os candidatos a presidente do PSDB em 2006 e 2010 obtiveram vantagens maciças nas zonas centrais, mais ricas e tradicionais da cidade.
Em bairros como os Jardins e Pinheiros, onde a grande maioria dos moradores é branca, Geraldo Alckmin (PSDB) obteve até 79% dos votos válidos em 2006. Serra ficou em 68%, mas porque parte desses eleitores optaram por Marina Silva (PV) - uma candidata que, dependendo dos olhos de quem a vê, poderia ser enquadrada em qualquer uma das categorias étnicas.
Substitua-se esses bairros por Copacabana, Leblon e Gávea e o quadro se repete no Rio de Janeiro. A única diferença é que o voto petista não fica limitado à periferia. Está também encastelado nas zonas eleitorais dos morros da Zona Sul, como Rocinha e Vidigal, onde Dilma teve maioria absoluta de votos no primeiro turno.
Os dados sugerem pauta para novas pesquisas e investigações. Por ora, indicam que os que ascenderam recentemente a condições sócio-econômicas melhores mas ainda moram nas mesmas áreas onde viviam seus pais votam majoritariamente em presidenciáveis do PT.
Será curioso observar o comportamento desses emergentes ao longo das próximas eleições. Será que eles se manterão fiéis aos partidos que reivindicam tê-los ajudado a melhorar de vida, ou assimilarão a preferência eleitoral dos novos vizinhos?
Setor de carga aérea à beira do colapso
Setor de carga aérea à beira do colapso
Aviões velhos, falha de segurança, problema financeiros e fraudes atingem empresas que prestam serviço a Correios e BC
Geralda Doca e Fábio Fabrini – O Globo
Pivô do escândalo de tráfico de influência na Casa Civil e sem voar para os Correios desde 27 de setembro, a Master Top Airlines (MTA) não é a única empresa de carga aérea em dificuldade no país. Responsável por carregar encomendas dos brasileiros e parte do dinheiro enviado pelo Banco Central aos estados, o setor está em situação complicada. Aviões velhos, falhas de segurança, obstáculos financeiros e falta de documentação são problemas comuns às companhias, não raro envolvidas em fraudes.
Correios e BC são os principais clientes do segmento por necessitarem de ser viços constantes e serem fonte de receita garantida.
Segundo a Anac, cinco das nove companhias domésticas foram proibidas de voar. Entre as quatro com autorização está a MTA, que deveria fazer as linhas de Salvador e Recife para os Correios, mas não decola mais. A inoperância obriga a estatal a contratar emergencialmente espaços nos porões de companhias de passageiros, pagando caro por isso. Só nos últimos três meses, foram gastos R$ 3,3 milhões para substituir as empresas. O serviço é prejudicado, com atraso nas entregas.
— Isso tem um impacto muito forte no esquema operacional — admite o chefe do Departamento de Encaminhamento e Administração de Frota dos Correios, Carlos de Sousa Montenegro.
Na quinta-feira, a Anac proibiu de levantar voo outra contratada dos Correios, a Air Brasil, que faz a linha São Luís-Teresina Belo Horizonte-São Paulo Rio. Além de ter problemas em equipamentos, a empresa voava sem autorização e cumpria mais horas de voo do que podia.
Também estão proibidas de levantar voo as cargueiras TAF e Beta (que tinham contratos com os Correios até o fim de 2009) e a Skymaster. Segundo a estatal, em dezembro um avião da TAF bateu num elevador de carga em Guarulhos. Semanas depois, outro avião da empresa bateu numa árvore e fez um pouso forçado em Parintins (AM). Devido aos incidentes, a Anac suspendeu o Certificado de Homologação de Empresa de Transporte Aéreo (Cheta), que precisará passar por nova certificação.
A Beta parou de decolar para os Correios depois que o Ministério Público Federal (MPF) constatou conluio com a Skymaster para fraudar uma licitação.
As duas fizeram um acordo de que quem vencesse subcontrataria a outra, dividindo o dinheiro.
A Anac cassou sua concessão em agosto.
Das companhias com autorização para voar, além das Master Top, sobram a Rio Linhas Aéreas e a Total (também contratadas dos Correios), a Absa e a Variglog. Esta, ex-subsidiária da Varig e vendida a um grupo chinês, também enfrenta problemas financeiros.
A frota das empresas aéreas de carga doméstica com autorização para operar é de 18 aviões, segundo a Anac. Isso não significa, entretanto, que todos estejam operando (os três DC-10 da Master Top, por exemplo, estão parados). A Agência informa também que o volume total de carga doméstica transportada por quilômetro voado subiu 12,45% entre 2001 e 2009, saindo de 513,5 milhões de toneladas para 577,5 milhões de toneladas.
Setor movimenta R$ 1,3 bilhão por ano O setor cargueiro tem movimentado, por ano, ao menos R$ 1,3 bilhão. Só os Correios gastaram, em 2009, R$ 316,19 milhões com as companhias contratadas.
A Infraero, que fatura com as tarifas dos aeroportos, recebeu R$ 572,9 milhões (doméstico e internacional). TAM e Gol obtiveram no primeiro semestre, respectivamente, R$ 242,7 milhões com cargas e R$ 177,4 milhões com “receitas auxiliares”, a maior parte cargas.
Para especialistas, a falta de dados concretos dificulta um perfil do setor.
— São empresas amadoras, que abrem e fecham com facilidade e usam aviões velhos, com alto custo com combustível e manutenção — diz o professor de Transporte Aéreo da UFRJ, Respício do Espírito Santo Júnior.
Segundo ele, é preciso aumentar a concorrência e quebrar o monopólio dos Correios na questão da logística.
Ele defende ainda a abertura do mercado às estrangeiras (Fedex, UPS e DHL). Essas companhias, aliás, estão de olho no país e aguardam aprovação do projeto que amplia de 20% para 49% a participação do capital estrangeiro.
Uma e outra coisa
Uma e outra coisa
Ricardo Noblat - O GLOBO
"Serra, você não é o cara, você tem mil caras". (Dilma Rousseff, acusada por Serra de ter duas caras)
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, observou com sabedoria o deputado José Genoino, na época presidente do PT e empenhado em negar a existência do mensalão. Esqueceu ou só lembra vagamente do que se trata? Mensalão foi o esquema milionário de pagamento de propinas a deputados para aprovação na Câmara de projetos do governo.
Usar dinheiro suspeito para comprar consciências seria uma coisa abominável, vil, incabível, muito além dos limites da irresponsabilidade do PT. Outra coisa seria usar dinheiro não contabilizado ou não declarado à Justiça para financiar despesas de campanha do PT e de partidos aliados.
Orientado por Márcio Thomaz Bastos, seu ministro da Justiça, Lula foi curto e grosso ao resumir o assunto. Não houve mensalão, ponto. Tudo não passou de caixa dois de campanha. Aleluia, irmão! Mensalão seria crime. Caixa dois também é crime. Mas um crime corriqueiro praticado por todos os partidos, segundo Lula. De acordo? Em frente.
Uma coisa é Dilma ter dito que é a favor da descriminalização do aborto. Outra coisa é Serra, como ministro da Saúde, ter mandado o Sistema Único de Saúde (SUS) atender às mulheres vítimas de estupro e decididas a abortar como permite a lei. De acordo? O ministro que antecedeu Serra no cargo se recusou a dar a ordem ao SUS.
Por quê? Porque era contra o aborto mesmo nos casos previstos em lei — violência sexual e gravidez com risco de morte para a mãe. Serra não estava obrigado a proceder de maneira diferente. Mas, sensível à tragédia das mulheres que, tendo o direito a abortar, não dispunham de meios seguros para fazê-lo, orientou o SUS a socorrê-las.
Fez bem. Revelou-se um administrador humano. O Estado brasileiro é laico. Seu comportamento independe de doutrinas religiosas. Na época, Serra poderia ter dito que era contra a descriminalização do aborto. E acrescentado que só agia daquela forma para ser coerente com a lei e tirá-la do papel. Não disse. Por quê?
Porque em consciência era — como continua sendo — favorável ao direito da mulher de somente ser mãe na hora que quiser. Esse, por sinal, era um dos muitos pontos que aproximavam o pensamento de Serra do pensamento da socióloga Ruth Cardoso, amiga dele e mulher do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
É leviano atribuir a Serra a condição de mentor da campanha que apresenta Dilma como assassina de criancinhas. Não é leviano, porém, acusá-lo de surfar na campanha tocada por eleitores seus na internet e por pastores e bispos em igrejas. Com todas as letras, a mulher de Serra chamou Dilma de assassina de criancinhas. Ele a desautorizou? Não.
Sempre que pode ou que lhe perguntam, Serra afirma ser contra o aborto. Não perde a chance de retocar o perfil de um homem religioso. No debate com Dilma promovido pela Band no último dia 10, disse ser contra o aborto “até por uma questão pessoal”. Não lhe perguntaram que questão era essa. A frase ficou boiando no ar.
Uma coisa é ser contra o aborto. Outra é ser a favor da sua descriminalização. Todos são contra o aborto — até mesmo as mulheres que um dia abortaram. Descriminalização tem a ver com não ir para a cadeia. Em grande parte do mundo, nenhuma mulher está sujeita à prisão por ter abortado. Serra não precisa acelerar seu raciocínio para entender isso.
Dá um show de cinismo quando mistura uma coisa com a outra ou quando finge ser contra o que nunca foi. O show atinge o seu clímax quanto beija imagens de santos e até comunga. Para comungar, um católico deve ter-se confessado recentemente. Data de quando a última vez que Serra se ajoelhou diante de um padre e confessou suas culpas?
Mensalão não é caixa dois. A Justiça aceitou a denúncia contra 40 integrantes da “organização” que tentou se apoderar do aparelho do Estado. A posição de Serra sobre o aborto é igual à de Dilma. O acerto de Serra, se ele tiver sorte, será com a Justiça divina.
Impasse fiscal
Impasse fiscal
GEORGE VIDOR - O GLOBO - 18/10/10
O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne esta semana e há uma expectativa geral de manutenção nas taxas básicas de juros em 10,75% ao ano. Poderia haver até uma redução não fosse a política fiscal expansionista do governo, com os gastos de custeio crescendo mais do que deveriam para o momento. Dilma Rousseff e José Serra não dão sinais de que isso poderá mudar em 2011.
Em seu último relatório de inflação, o Banco Central se mostrou otimista quanto à possibilidade de a política fiscal vir a dar uma contribuição mais significativa para que a pressão da demanda sobre os preços domésticos diminua. No entanto, os discursos dos dois candidatos à Presidência vão na direção contrária.
Dilma se referiu a uma queda da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), mas ao mesmo tempo descartou a necessidade de um ajuste fiscal (talvez porque esse tipo de proposta possa soar como algo neoliberal, conflitando com o mote principal da sua campanha no momento, que é a negação de tudo que foi feito no governo Fernando Henrique Cardoso).
Esse mesmo argumento é defendido pelo atual governo, que joga na hipótese de um ritmo acelerado de crescimento econômico aumentar o denominador (PIB) a ponto de o numerador (dívida pública) não precisar ser alterado pela acumulação de um superávit primário mais robusto — para usar uma palavra da moda — nas finanças governamentais.
No entanto, para concretizar todas as promessas de campanha, o eventual governo Dilma teria de gastar mais. E nem poderia, mesmo que de forma suplementar, recorrer a privatizações para alavancar investimentos, pois Dilma tem manifestado horror a essa questão, chegando a embutir críticas à venda da Vale, cujo desempenho como ex-estatal foi reconhecidamente fabuloso.
O candidato da oposição, José Serra, por sua vez, promete botar mais lenha na fogueira dos gastos federais, garantindo que aumentará o salário mínimo para R$ 600 e ainda concederá um reajuste de 10% aos aposentados do INSS, sem dizer de onde remanejará recursos do orçamento (pois no rol das suas promessas há uma outra penca de despesas relacionadas com saúde, educação, segurança, etc.). Nesse caso, o déficit da previdência aumentaria de imediato, o que faria o superávit primário das finanças governamentais encolher ainda mais. Para variar, tanto as autoridades como os postulantes à Presidência apostam em um salto na arrecadação (pré-sal, principalmente) que viabilize despesas crescentes.
Nenhum dos dois candidatos falou até agora claramente sobre elevação de impostos (Dilma fez apenas uma alusão ao financiamento da saúde no Brasil, que precisa ser equacionado", mas sem mencionar especificamente a ressurreição da CPMF). Então, se o candidato vitorioso tomar posse com o pé afundado no acelerador, o superávit primário acabará encolhendo inevitavelmente, e aí “bau bau” para a expectativa de redução das taxas de juros.
Pelo visto, em termos de política fiscal, não teremos para onde correr nessas eleições. Cada um dos candidatos promete gastar mais que o outro...
O pré-sal entrou na disputa eleitoral de maneira distorcida, pois Dilma acusou Serra de querer “privatizálo”, com base em declarações que teriam sido dadas por David Zylbersztajn supostamente na qualidade de assessor em energia do candidato da oposição.
Testemunhei essas declarações porque fui moderador do debate no qual elas teriam sido feitas. David falou com a autoridade de ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e consultor privado.
Não fez menção alguma a propostas de governo Suas críticas, por sinal pertinentes, se endereçavam ao modelo de partilha defendido pelo atual governo para exploração de futuros blocos na camada do pré-sal. Ele frisou que a experiência prática mostra que o estado sabe muito bem arrecadar, mas se passar a estocar e a vender petróleo, por meio de uma nova estatal (a PréSal), o risco de corrupção será enorme.
Fora do governo, ou dos habituais defensores do monopólio estatal, é difícil encontrar quem aponte vantagens no modelo de partilha. Os mesmos objetivos seriam alcançados pelo que está em vigor, sem submeter a Petrobras a um desafio que supera a capacidade de qualquer companhia de petróleo existente hoje no mundo.
Na verdade, em todos os debates que presenciei sobre o pré-sal, só ouvi UM forte argumento capaz de justificar o modelo de partilha.
No novo modelo, o governo teria domínio sobre o ritmo de entrada de produção dos futuros campos — pois a lei proposta garantirá à estatal PréSal poder de veto nos conselhos de administração dos consórcios vencedores das licitações, quaisquer que sejam eles — enquanto no atual sistema esse critério é definido pelo concessionário. A Noruega, porém, encontrou uma fórmula de conciliar isso em seu modelo, que não é o de partilha.
Quanto aos demais fatores, o modelo de concessão ganha da partilha por léguas de distância.
Os secretários estaduais, que se reúnem periodicamente em um fórum, estão contrariados e discordam de algumas projeções no Plano Decenal de Expansão 2010/2019 elaborado pela Empresa de Planejamento de Energia (EPE). Eles elaboraram um documento de 21 páginas e o encaminharam ao ministro Márcio Zimmermann. O secretário estadual de energia do Rio Grande do Sul, e presidente desse fórum, Daniel Andrade, teme que a oferta não acompanhe o crescimento esperado para a demanda já em 2013, um ano em que o estado abrigará, por exemplo, jogos da Copa das Confederações.
Muito embate, pouco debate
Muito embate, pouco debate
Dilma ataca privatizações; Serra diz que PT mente; e propostas não são aprofundadas
Fábio Vasconcelos, Henrique Gomes Batista e Rafael Galdo – O Globo
O segundo debate entre os candidatos à Presidência, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), realizado ontem pela RedeTV! e pela “Folha de S.Paulo”, foi marcado por troca de acusações do início ao fim. Como no primeiro debate deste segundo turno, a petista voltou a acusar Serra e tucanos de serem favoráveis à privatização de empresas públicas. O candidato tucano acusou Dilma de mentir para os eleitores e disse que o PT é que “privatiza” a estatal, dividindoa entre seus partidos aliados. A descriminalização do aborto, o casamento gay e o discurso religioso, que têm provocado polêmica entre eles neste segundo turno, não foram abordados por nenhum deles.
Os dois candidatos começaram o debate aparentemente nervosos.
Eles não responderam à primeira pergunta feita pelo mediador, que pedia a cada um que apontasse defeitos e qualidades do adversário. Além das privatizações, Serra e Dilma discutiram sobre formação profissionalizante, segurança pública, saúde, educação, infraestrutura e corrupção.
Serra foi o primeiro a fazer pergunta. Cobrou de Dilma explicações para o baixo número de trabalhadores que tiveram acesso a cursos de capacitação com recurso do Fundo do Amparo ao Trabalhador (FAT). Segundo Serra, no governo Lula apenas 2 milhões de trabalhadores participaram dos cursos, contra 14 milhões no governo Fernando Henrique.
Dilma não respondeu à pergunta e preferiu citar números de escolas técnicas criadas nos últimos oito anos. A candidata do PT acusou o governo FH de proibir a construção de escolas técnicas: — Nos últimos cem anos foi criada uma quantidade de escolas técnicas abaixo do que nós criamos. Nós estamos criando, até o final deste ano, 214 escolas técnicas contra 140. Por que foram criadas tão poucas escolas técnicas (antes)? No período do governo anterior, do Fernando Henrique, na qual o candidato adversário foi ministro do Planejamento e também ministro da Saúde, o que aconteceu? Foi feita uma lei proibindo que se criasse escolas técnicas a não ser que estados e municípios assumissem a manutenção dessas escolas — disse a petista.
Na réplica, Serra acusou Dilma de citar números “fantasiosos” e afirmou que o número de vagas em escolas técnicas em São Paulo supera os dados do governo federal: — A pergunta (sobre o FAT) não foi respondida. Na verdade, investia-se por ano cerca de R$ 700 milhões nesse treinamento, e o FAT foi feito para isso. E a lei que permitiu usar recursos do FAT para treinamento foi de minha autoria. No entanto, a partir de 2003, isso mergulhou. Passou-se a se investir quase nada. Sete vezes menos.
Não é verdade que o governo anterior proibiu escola técnica. Escola técnica não é a mesma coisa que curso profissionalizante do FAT. Os números (citados por Dilma) são sempre apresentados na base da fantasia, “vamos ter, faremos isso e aquilo”.
Na tréplica, Dilma insistiu no ataque: — O que o candidato está fazendo é tergiversando. De fato proibiram.
Queriam que as escolas técnicas fossem custeadas por estados e municípios.
Ora, estados do Nordeste, cidades menores do interior de São Paulo, não poderiam ter.
Na sua vez de perguntar, Dilma voltou a falar nas privatizações. Acusou o governo de São Paulo de recorrer ao Cade para suspender a venda da empresa Gas Brasiliano à Petrobras.
Serra voltou a criticar a falta de uso de recursos do FAT para treinar trabalhadores.
Ao responder depois, Serra afirmou: — Esse não é um assunto que dependa do governo de São Paulo. Há uma agência, e nós respeitamos a autonomia e a liberdade das agências, em vez de fazer como o governo federal, que faz um loteamento político e passa a usar as agências como instrumento para criar dificuldades para vender facilidades. Segundo, o argumento é de outra natureza, é que a Petrobras é a fornecedora do gás. Em geral quem fornece não distribui o gás porque aí fica o poder de monopólio, e é uma coisa que limita a concorrência para o consumidor. A campanha da candidata na TV mente a respeito da minha posição sobre a Petrobras. Fui um dos que lideraram a luta em defesa pela Petrobras.
No segundo bloco do debate, Dilma tentou monopolizar o tema da privatização. A candidata explicou melhor o caso da Gas Brasiliano, empresa de capital italiano que está querendo vender seus ativos no Brasil e que, por conta da distribuidora paulista de gás, tem participação do governo do estado em seu capital.
Ela acusou o governo de Serra, enquanto governador, de questionar no Cade, órgão de controle da concorrência no país, a possibilidade de a Petrobras comprar a Gas Brasiliano: — A Petrobras ofereceu o maior preço (pela Gas Brasiliano), a segunda colocada é uma empresa japonesa e a terceira é uma empresa privada nacional. Mesmo dando o maior preço, por que a agência reguladora do estado e a Secretaria de Energia aqui de São Paulo não são favoráveis à compra? Eu gostaria de entender.
Serra disse que o PT e a candidata tratam do tema da privatização por questões eleitorais.
— Não tem nada a ver (o debate da privatização) com os problemas atuais, hoje não há na agenda do Brasil empresas para serem privatizadas.
O que há, isso sim, são empresas para serem estatizadas, ou seja, são empresas públicas das quais o governo é proprietário mas que são usadas para fins privados de um partido, de um grupo, de uma turma, como acontece, por exemplo, infelizmente, na própria área da Petrobras, que é toda dividida, diretoria para tal partido, empresa distribuidora para tal força política, dizem até que é para o ex-presidente Collor, que é um entusiasta apoiador da candidata petista — respondeu o tucano.
Serra disse ainda que é tão favorável à Petrobras que o próprio mercado reconhece isso: — Quando houve o segundo turno, só essa notícia, da possibilidade da minha vitória, a situação das pesquisas, as ações da Petrobras melhoraram — disse, provocando aplausos de tucanos e vaias de petistas.
Na sequência, Serra questionou Dilma sobre políticas antidrogas e disse que o governo de Lula pouco fez, principalmente no controle de fronteiras.
— Até o presidente Evo Morales (Bolívia), que é amigo de Lula, reconheceu que há muito contrabando de droga em seu país. Essa droga vem para o Brasil — disse Serra, afirmando que a política de segurança do PT é a adotada pelo governo petista no Pará, onde uma jovem foi presa numa cela masculina.
Dilma disse que o melhor seria comparar o que os dois governos fizeram, e no governo federal há uma maior política de reaparelhamento da Polícia Federal.
— O candidato Serra vive falando que tem uma política de apoio aos viciados.
Estima-se que há 300 mil viciados em droga no Estado de São Paulo, mas, como ele mesmo corrigiu, só há 300 vagas em clínicas do governo do Estado — disse Dilma. — A característica do governo Serra é fazer programas pilotos. Eles fazem pouco para poucos. Nós fazemos muito para muitos.
Na sua segunda pergunta, Dilma voltou a falar de privatização, questionando se Serra colocaria novamente as empresas do sistema Eletrobras no rol das que poderiam ser privatizadas. Serra respondeu dizendo que há coisas boas na privatização, como a privatização do sistema de telecomunicações.
Na última pergunta do bloco, Serra perguntou a Dilma por problemas em infraestutura, afirmando que há poucos investimentos em rodovias.
— O custo de levar a soja do porto de Paranaguá à China é menor que o custo de levar a soja do Mato Grosso ao porto de Paranaguá — disse Serra.
Dilma respondeu dizendo que nunca se investiu tanto em infraestrutura como agora, acusou Serra de “roubar” seus projetos, que estão no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No que o tucano afirmou que o PAC é uma lista de obras, mas que pouco sai de fato do papel.
Serra, diversas vezes, disse que Dilma mente, e afirmou que ela fala muito e faz pouco. “Vê tudo pelos óculos do PT, tudo azul” e disse que o PT sempre critica São Paulo.
Dilma respondeu que as críticas que faz é em relação ao governo paulista de Serra, não contra o estado ou o povo paulista.
A dádiva e as forças próprias
A dádiva e as forças próprias
Luiz Werneck Vianna - VALOR ECONÔMICO
Sucessões presidenciais, mesmo quando anódinas, como esta em que estamos envolvidos, têm o condão de mudar o curso dos acontecimentos. Sucessões brasileiras envolvem um colégio eleitoral de milhões de pessoas, expostas por um largo período de tempo à propaganda eleitoral nos meios de comunicação de massa, com seus candidatos obrigados a decifrar, em meio a uma profunda heterogeneidade social e regional, quais são as motivações para o voto de um eleitorado de comportamento ainda muito pouco conhecido.
Assim, afora a presença do marketing político e dos institutos de pesquisa especializados no estudo do voto que atuam no sentido de produzir alguma inteligibilidade e previsibilidade sobre o processo eleitoral, as eleições, especialmente em uma sociedade inarticulada como a nossa, contam, ou deveriam contar, com a leitura privilegiada dos candidatos sobre o cenário e as circunstâncias em que estão envolvidos.
Algumas sucessões do nosso passado recente não podem ser explicadas se não se consideram os atributos demiúrgicos de candidatos vencedores, como Jânio Quadros, Fernando Collor e Lula, que, em meio a inumeráveis caminhos possíveis, descobriram os que poderiam levá-los a atingir as expectativas dos eleitores das eleições em que disputaram. No caso deles, pode-se sustentar que o carisma tenha sido um elemento determinante em suas vitórias, na medida em que importou em leituras inovadoras da situação do país e que significavam rupturas com rotinas e com as formas usuais de interpretá-la.
Essas eleições de 2010 nascem sob o signo oposto ao da inovação. Tanto para Dilma como para Serra, os dois contendores que aí estão no segundo turno, a chave de leitura com se credenciam à disputa eleitoral é a da continuidade, diagnóstico que lhes chega dos especialistas e que não reclamava deles uma qualidade especial, salvo a de se apresentarem como administradores preparados a fim de dar sequência a um script que vinha "dando certo". A partir dessa opção comum, ambas as candidaturas abdicam da invenção, da criação propriamente política, e partem para o confronto eleitoral em um campo dominado pela linguagem da administração.
Sob esse registro sem alma, o horário político franqueado pela legislação vai servir de vitrine para as obras realizadas e de lugar para controvérsias estatísticas sobre serviços anteriormente prestados, cada candidato brandindo uma cornucópia gigante de onde se extraem promessas de habitação, saúde, segurança, saneamento básico, aumentos salariais, vida farta e barata como dádiva do futuro governante.
Porém, como se diz, promessas são dívidas, e, dessa perspectiva, a questão social brasileira, nesta disputa eleitoral, adquiriu - e essa é, sem dúvida, uma vitória de Lula - uma envergadura inédita na política brasileira. De passagem, notar que o tema das privatizações, antes tão influente, somente, agora, no segundo turno, faz sua aparição, embora, pelo que se vê, sem acender a imaginação dos eleitores e a dos próprios candidatos.
Abrir essa cornucópia, sabem-no as pedras das ruas, vai depender da economia, e, tirante as expectativas de tesouros escondidos no pré-sal, o público eleitor não está suficientemente informado de como tantas promessas vão se converter em bens tangíveis, uma vez que os candidatos se têm mostrado reticentes sobre quais são os seus programas de governo.
De qualquer modo, o mandato que vier a nascer dessa campanha presidencial estará incontornavelmente comprometido com a realização do que foi o programa social das duas candidaturas, temática dominante em todo o seu transcurso, ambas alinhadas a uma social-democracia à brasileira de corte paternal, essa nova espécie de jabuticaba que medra entre nós.
Frustrações nesse terreno, com Lula tão perto em São Bernardo, não seriam aconselháveis. Contudo, dado que os recursos são escassos, nada difícil prever que, com o novo governante, a hora das reformas chegará para valer, e, com ela, a queda de braços a definir quem perde e quem ganha, havendo dois times bem definidos para uma aguerrida disputa em cada ponto da sua agenda.
Dessa modelagem resultou, como seria de se esperar, uma campanha presidencial em que os movimentos sociais e seus temas tenham sido os grandes ausentes, dos sindicatos às organizações feministas. Não é, pois, por acaso, que, em sua reta final, diante de um cenário frio e despolitizado, resultado para o qual os candidatos - instituídos em ideólogos da dádiva como recurso de mobilização eleitoral - estão longe de serem inocentes, essas eleições culminem, lastimavelmente, com o reconhecimento, inclusive em documentos oficiais de candidatos, de que caberia um lugar na vida republicana brasileira para as formas mais primitivas do fundamentalismo religioso.
Para esse desastrado resultado, não conspiraram, em suas convicções pessoais, inequivocamente modernas e progressistas, nem Serra e nem Dilma, mas sim essa dita política do social reinante entre nós, produzida de cima para baixo, e que subestima a capacidade da sociedade de se auto-organizar sem a indução benevolente de um governo compadecido. Daí que outro efeito, certamente inesperado, do caráter benfazejo dessas eleições é o de ter demonstrado aos movimentos sociais e às suas organizações que a realização de suas aspirações depende das forças próprias de que falava Rousseau, e não do Estado e de suas agências, que, por natureza, são prisioneiros da lógica da conservação e expansão do poder político. Por ora, o movimento feminista é a melhor testemunha disso.
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador do Iesp-Uerj. Ex-presidente da Anpocs, integra seu comitê institucional. Escreve às segundas-feiras
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