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sexta-feira, novembro 12, 2010
Uma fábula de R$ 900 milhões
Uma fábula de R$ 900 milhões
VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA DE SÃO PAULO
Histórias contam como entrava dinheiro fictício no PanAmericano, mas não como saía o dinheiro real
AINDA ESTÁ difícil de entender o que produziu um rombo "da ordem de R$ 900 milhões" no PanAmericano. Informantes do governo dizem que essa conta é mais ou menos final, mas não explicam se já foram descobertas todas as "incoerências contábeis" nem qual a dimensão exata e o "modus operandi" dos malfeitos. Desde o final de outubro examinam outros bancos ativos no mercado de cessão de crédito e até agora não acharam mais nada.
Segundo as vagas informações disponíveis, o problema maior estaria no registro das operações de cessão de carteira de crédito. Mas apenas tal informação é insuficiente para medir o rombo do PanAmericano. Tal registro pode explicar os haveres e os fluxos de recebimentos fictícios do banco, mas não diz por onde vazava o dinheiro. Nos balanços, como no dito da fábula, o que entra por uma porta sai pela outra.
"Cessão de carteira de crédito" significa que o banco vendia os empréstimos que havia feito. Quando um banco empresta dinheiro, na verdade está comprando uma série de pagamentos futuros. O valor da "compra" é o do empréstimo concedido; a "mercadoria" comprada são as "prestações" do empréstimo, que o banco vai receber com juros. Ou seja, o banco compra o direito a um fluxo de pagamentos. Por motivos vários, o banco pode vender esse direito a outra instituição financeira ou a um fundo de investimentos. Faz tal coisa a fim de, por exemplo, abrir espaço no seu balanço para conceder novos empréstimos.
De qualquer modo, vendendo créditos o banco antecipa parte da receita daquele fluxo de pagamentos, fluxo que passa a pingar na conta de outro banco. O banco originador, o que concede o empréstimo e o revende, grosso modo "cobra as prestações" do empréstimo e as repassa ao banco "comprador" do crédito.
Como muitos outros bancos menores, o PanAmericano vende grupos de empréstimos (carteiras de créditos) a bancos maiores. Foram notados vários problemas no registro dessas operações. O PanAmericano: 1) Teria vendido cem empréstimos, mas registrado a venda de apenas 80, digamos; 2) Não teria registrado que vendeu tais créditos. O PanAmericano repassava o dinheiro das "prestações" aos bancos compradores, mas constava em seus registros que continuava a recebê-las; 3) Teria vendido o crédito mais de uma vez, a bancos diferentes; 4) Teria vendido créditos que já haviam sido liquidados pelos tomadores.
Haveria casos ainda mais enrolados. Mas os exemplos bastam para ilustrar que o banco dizia dispor de haveres e fluxos de pagamentos fictícios ao mesmo tempo em que tinha despesas reais com os bancos para os quais vendeu os créditos. O esquema poderia ser mantido por um certo tempo -o dinheiro que entrava tapava os rombos imediatos.
Essa operação de inflar os ganhos apenas faz sentido se servir para lustrar resultados, tapar vazamentos ou desvios em outros negócios. Por exemplo, para inflar lucros e/ou a distribuição de lucros inexistentes; para tapar buracos e esconder grossas inadimplências. Esses motivos são apenas especulação. Mas é difícil crer que erros formais resultem num buraco de R$ 900 milhões.
O governo diz que se trata de um "caso isolado". Tomara. O temor é o de haver uma onda de inadimplência escondida por operações fajutas de cessão de crédito.
vinit@uol.com.br
quinta-feira, novembro 11, 2010
Quatro anos de fraudes
Quatro anos de fraudes
Para BC, irregularidades no PanAmericano são anteriores à compra pela Caixa
Patrícia Duarte, Geralda Doca e Ronaldo D’Ercole BRASÍLIA e SÃO PAULO – O Globo
| O diretor de Fiscalização, Alvir Hoffmann (foto), explicou que há indícios de que as mesmas carteiras de crédito tenham sido vendidas mais de uma vez |
Indícios reunidos pelo Banco Central (BC) apontam que as irregularidades supostamente cometidas pela cúpula do banco PanAmericano, que resultaram em rombo de quase R$ 2,5 bilhões, podem estar ocorrendo há três ou quatro anos. O banco foi comprado pela Caixa Econômica Federal em dezembro de 2009, ou seja, quando a maquiagem nos balanços já acontecia. Ontem, o diretor de Fiscalização da autoridade monetária, Alvir Hoffman, confirmou que o PanAmericano — do Grupo Sílvio Santos — continuava contabilizando em seu balanço carteiras de crédito que já tinha vendido ao mercado. A instituição também vendeu as mesmas carteiras para clientes diferentes, o que caracteriza duplicidade. Hoffman disse que pode ter havido, neste caso, crime de colarinho branco.
Para tentar burlar ainda mais a fiscalização, segundo o BC, os executores dessas operações irregulares a tratavam “dentro da lei”, pagando até Imposto de Renda sobre os “ganhos” obtidos com as carteiras que não pertenciam mais ao banco. A fraude foi sofisticada, indicando que havia muito conhecimento contábil para evitar rastros. A suspeita maior é de que tenha sido cometida para melhorar os bônus da diretoria, que dependem do desempenho do banco.
As investigações envolvem toda a cúpula do banco, como ex-diretores, alguns conselheiros e administradores.
Os executivos envolvidos podem ser alvo de sanção administrativa, ficando impossibilitados de atuar no mercado financeiro. Após o término das investigações do BC, se forem confirmadas as fraudes, será caracterizado crime financeiro — passível de pena de reclusão — e a apuração será encaminhada ao Ministério Público.
— Ele (PanAmericano) vem fazendo ao longo do tempo. Pode ter começado há três, quatro anos. Nós não temos esses dados ainda — disse Hoffman.
Embora as fraudes tenham sido descobertas há um mês, só na terça-feira o PanAmericano afastou os oito executivos que dirigiam o banco. Todos foram demitidos, inclusive o diretorsuperintendente, Rafael Palladino, o diretor de Relações com Investidores, Wilson De Aro, e o diretor de crédito e Administrativo, Adalberto Savioli, que também foi presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento.
Auditorias não detectaram problema
A participação de 49% no PanAmericano foi comprada pela Caixa por R$ 739,2 milhões. A operação foi aprovada pelo BC em julho deste ano apenas do ponto de vista de concentração bancária. Era preciso ainda analisar a situação das contas e foi então que, em outubro, o BC descobriu a fraude. Segundo fontes do BC, o banco estatal não sofre porque só passaria a ser corresponsável pela gestão quando indicasse seus diretores. E isso ocorreu apenas ontem, depois que o rombo já tinha sido divulgado e os exdiretores, afastados. Em nota, o BC informou que a tarefa de fazer auditoria num processo de aquisição cabe aos contratados pelos envolvidos.
— Não houve falhas na fiscalização.
O BC encontrou o problema. O BC não fez nada de errado, quem fez foram eles (PanAmericano) — afirmou Hoffman.
Nem o banco público nem as empresas que trabalharam para a Caixa na formatação do negócio — o Banco Fator, a auditoria KPMG e a BDO Consultores — detectaram as operações infladas. Além disso, ficou claro que o trabalho de auditoria foi feito com números fornecidos pelo próprio PanAmericano, chancelados pela sua auditoria contratada, a Deloitte, e alocados numa base de dados.
O rombo total apurado pelo BC é de um pouco mais de R$ 2,4 bilhões.
Para cobrir o rombo, o Grupo Silvio Santos tomou empréstimo de R$ 2,5 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), formado com contribuições dos próprios bancos.
O BC considera a solução dada para evitar a quebra do PanAmericano perfeita, porque não causou prejuízos ao FGC nem aos acionistas do banco, como a Caixa.
— O único que perdeu foi o dono do banco — afirmou o diretor do BC.
O BC, diante disso, não colocará nenhum técnico ou interventor no PanAmericano para acompanhar os próximos passos. Considera o caso solucionado e só continuará apurando o que, de fato, causou o rombo. Hoffman descarta problemas de solvência em outros bancos e assegura a solidez do sistema financeiro nacional: — O banco está recuperado e segue vida normal. Não há evidências de suspeitas de problemas semelhantes.
Ontem, no Twitter, o assunto Banco PanAmericano chegou a ser o tópico mais comentado no Brasil.
Senado convoca presidente do BC
A Caixa se recusou a conceder entrevista ontem. Em nota, informou apenas que a CaixaPar (braço financeiro criado na crise internacional para comprar empresas) contratou o Banco Fator, que, por sua vez, contratou a KPMG para a auditoria. Posteriormente, a Caixa contratou a BDO Consultores para uma segunda opinião.
O Fator informou ter subcontratado a KPMG e o escritório Bocater para a avaliação jurídica do negócio. A KMPG informou, por nota, que “não atuou e não atua como auditor independente” do PanAmericano, tendo sido contratada para executar procedimentos de análise de dados de março de 2009 disponibilizados pelo banco.
Já a BDO enfatizou em nota que o escopo de seus serviços “não envolveu, de forma alguma, atividades relativas à diligência técnica”. O advogado Francisco Costa do Bocater explicou que os trabalhos ficaram restritos aos aspectos jurídicos.
A Deloitte, primeira a auditar o banco, informou que, de acordo com o seu Código de Ética e Conduta Profissional, “não emite comentários sobre situações relacionadas a clientes”.
Fontes do BC avaliam que, na compra do PanAmericano, a Caixa foi prejudicada pela avaliação errônea das auditorias. Em compensação, conseguiu que o Grupo Silvio Santos se comprometesse a honrar a operação.
— É evidente que um fato como esse levanta uma percepção de risco, o que não é ruim. É bom que depositantes e até controladores de outros bancos fiquem atentos que o mercado tem risco. Achar que não tem gera distorções como um subprime americano. A diferença é que aqui não há dinheiro público na operação para salvar a instituição — disse a fonte.
Com mais de 200 lojas e parceria com mais de 20 mil estabelecimentos comerciais, o PanAmericano não é um “banco de conta corrente” e atua predominantemente como financeira. No fim de 2009, o banco informava ter 2,1 milhões de clientes com algum tipo de crédito contratado. Patrocinador do Corinthians, o banco terá, por contrato, sua marca estampada nas camisas do clube até o fim do ano.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou ontem requerimento do senador Antonio Carlos Magalhães Júnior (DEM-BA) convidando os presidentes do BC, Henrique Meirelles, e da Caixa, Maria Fernanda Ramos Coelho, para audiência na próxima quarta-feira.
segunda-feira, outubro 18, 2010
Impasse fiscal
Impasse fiscal
GEORGE VIDOR - O GLOBO - 18/10/10
O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne esta semana e há uma expectativa geral de manutenção nas taxas básicas de juros em 10,75% ao ano. Poderia haver até uma redução não fosse a política fiscal expansionista do governo, com os gastos de custeio crescendo mais do que deveriam para o momento. Dilma Rousseff e José Serra não dão sinais de que isso poderá mudar em 2011.
Em seu último relatório de inflação, o Banco Central se mostrou otimista quanto à possibilidade de a política fiscal vir a dar uma contribuição mais significativa para que a pressão da demanda sobre os preços domésticos diminua. No entanto, os discursos dos dois candidatos à Presidência vão na direção contrária.
Dilma se referiu a uma queda da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), mas ao mesmo tempo descartou a necessidade de um ajuste fiscal (talvez porque esse tipo de proposta possa soar como algo neoliberal, conflitando com o mote principal da sua campanha no momento, que é a negação de tudo que foi feito no governo Fernando Henrique Cardoso).
Esse mesmo argumento é defendido pelo atual governo, que joga na hipótese de um ritmo acelerado de crescimento econômico aumentar o denominador (PIB) a ponto de o numerador (dívida pública) não precisar ser alterado pela acumulação de um superávit primário mais robusto — para usar uma palavra da moda — nas finanças governamentais.
No entanto, para concretizar todas as promessas de campanha, o eventual governo Dilma teria de gastar mais. E nem poderia, mesmo que de forma suplementar, recorrer a privatizações para alavancar investimentos, pois Dilma tem manifestado horror a essa questão, chegando a embutir críticas à venda da Vale, cujo desempenho como ex-estatal foi reconhecidamente fabuloso.
O candidato da oposição, José Serra, por sua vez, promete botar mais lenha na fogueira dos gastos federais, garantindo que aumentará o salário mínimo para R$ 600 e ainda concederá um reajuste de 10% aos aposentados do INSS, sem dizer de onde remanejará recursos do orçamento (pois no rol das suas promessas há uma outra penca de despesas relacionadas com saúde, educação, segurança, etc.). Nesse caso, o déficit da previdência aumentaria de imediato, o que faria o superávit primário das finanças governamentais encolher ainda mais. Para variar, tanto as autoridades como os postulantes à Presidência apostam em um salto na arrecadação (pré-sal, principalmente) que viabilize despesas crescentes.
Nenhum dos dois candidatos falou até agora claramente sobre elevação de impostos (Dilma fez apenas uma alusão ao financiamento da saúde no Brasil, que precisa ser equacionado", mas sem mencionar especificamente a ressurreição da CPMF). Então, se o candidato vitorioso tomar posse com o pé afundado no acelerador, o superávit primário acabará encolhendo inevitavelmente, e aí “bau bau” para a expectativa de redução das taxas de juros.
Pelo visto, em termos de política fiscal, não teremos para onde correr nessas eleições. Cada um dos candidatos promete gastar mais que o outro...
O pré-sal entrou na disputa eleitoral de maneira distorcida, pois Dilma acusou Serra de querer “privatizálo”, com base em declarações que teriam sido dadas por David Zylbersztajn supostamente na qualidade de assessor em energia do candidato da oposição.
Testemunhei essas declarações porque fui moderador do debate no qual elas teriam sido feitas. David falou com a autoridade de ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e consultor privado.
Não fez menção alguma a propostas de governo Suas críticas, por sinal pertinentes, se endereçavam ao modelo de partilha defendido pelo atual governo para exploração de futuros blocos na camada do pré-sal. Ele frisou que a experiência prática mostra que o estado sabe muito bem arrecadar, mas se passar a estocar e a vender petróleo, por meio de uma nova estatal (a PréSal), o risco de corrupção será enorme.
Fora do governo, ou dos habituais defensores do monopólio estatal, é difícil encontrar quem aponte vantagens no modelo de partilha. Os mesmos objetivos seriam alcançados pelo que está em vigor, sem submeter a Petrobras a um desafio que supera a capacidade de qualquer companhia de petróleo existente hoje no mundo.
Na verdade, em todos os debates que presenciei sobre o pré-sal, só ouvi UM forte argumento capaz de justificar o modelo de partilha.
No novo modelo, o governo teria domínio sobre o ritmo de entrada de produção dos futuros campos — pois a lei proposta garantirá à estatal PréSal poder de veto nos conselhos de administração dos consórcios vencedores das licitações, quaisquer que sejam eles — enquanto no atual sistema esse critério é definido pelo concessionário. A Noruega, porém, encontrou uma fórmula de conciliar isso em seu modelo, que não é o de partilha.
Quanto aos demais fatores, o modelo de concessão ganha da partilha por léguas de distância.
Os secretários estaduais, que se reúnem periodicamente em um fórum, estão contrariados e discordam de algumas projeções no Plano Decenal de Expansão 2010/2019 elaborado pela Empresa de Planejamento de Energia (EPE). Eles elaboraram um documento de 21 páginas e o encaminharam ao ministro Márcio Zimmermann. O secretário estadual de energia do Rio Grande do Sul, e presidente desse fórum, Daniel Andrade, teme que a oferta não acompanhe o crescimento esperado para a demanda já em 2013, um ano em que o estado abrigará, por exemplo, jogos da Copa das Confederações.
sábado, outubro 16, 2010
Novelo cambial
Novelo cambial
MIRIAM LEITÃO – O Globo
A armadilha cambial em que o país está é complexa, difícil de desarmar e, pior, o Brasil não controla fatos que nos afetam como a política monetária americana. No que o país pode influir, o governo não quer mexer, que é o gasto público. Este ano o Brasil está crescendo de 7% a 8% e vai ter um superávit fiscal igual ao do ano passado em que cresceu zero. O sensato seria economizar mais.
Ontem, o presidente do Fed, banco central americano, Ben Bernanke, fez um aviso que já era aguardado e foi esmiuçado pelos economistas. Ele disse o que se esperava: que vai pôr muito mais dólares em circulação através da compra de títulos públicos. Os juros estão perto de zero e o Fed tenta ampliar mais a emissão da moeda. Conclusão: se haverá mais dólares em circulação, a moeda americana continuará se desvalorizando em relação às outras.
Se o dólar continuar caindo e o real continuar subindo, mais cara fica a produção nacional comparada com o produto importado, e mais caros ficam os produtos brasileiros no exterior.
Mas é o emissor da moeda de referência do comércio internacional que está dizendo que tomará decisões que vão desvalorizar o dólar. Ele faz isso para tentar reativar o consumo.
Acontece que o consumidor americano estava numa bolha provocada por um superendividamento e se queimou na crise. Perdeu a casa que tinha ou ela ficou mais desvalorizada. Suas dívidas cresceram. Hoje paga contas e tenta economizar.
Nem juro zero o convence, e o banco central americano está tentando aumentar a oferta de crédito para esse desconfiado consumidor.
Essa é uma parte da moeda.
Há outras. Países desenvolvidos estão crescendo pouco e assim devem ficar. Para salvar os bancos, quando os consumidores não puderam pagar as contas, eles aumentaram os gastos públicos. A dívida deles dobrou como proporção do PIB, os déficits estão em níveis recordes. As empresas desconfiadas não investem e por isso não empregam.
Aumenta o medo do consumidor de gastar mais. Ao desvalorizar o dólar os Estados Unidos tentam também aumentar a possibilidade de exportar. E para quem? Para os países onde há crescimento.
Conversei no programa Espaço Aberto desta semana com dois economistas que foram à reunião do FMI: Ilan Goldfajn, economista chefe do Itaú-Unibanco, e Fernando Rocha, sócio da JGP Gestão de Recursos.
Fernando disse que ficou claro que o FMI não tem mais poder para forçar políticas que corrijam as distorções.
Ilan disse que o efeito colateral da política monetária expansionista dos países ricos é jogar um fluxo excessivo de dólares nos países emergentes: — Pode levar meses até o dólar se estabilizar. O fluxo vai aumentar para os emergentes, as bolsas podem subir, mas o dólar continuará baixo. Nesse intervalo, os emergentes começam a tentar se proteger com medidas unilaterais como a que o Brasil tomou.
O excesso de dinheiro vem para os emergentes por vários motivos, diz Fernando: — Vem pelo diferencial de juros, vem atrás de crescimento.
Os dois entrevistados acham que há decisões que o Brasil pode tomar para atacar as causas. A elevação do IOF para as aplicações em títulos do governo foi um ataque ao efeito. A medida que acabou não tendo efeito prático.
O que funcionaria seria reduzir os gastos, abrir espaço para derrubar os juros e assim diminuir o fluxo que só vem para aproveitar esse juro alto. A queda dos gastos tem outro efeito prático.
— O Brasil está vivendo um boom de consumo, o que é saudável porque vem da ampliação da classe média; está vivendo um boom de investimento, o que é saudável porque é o país investindo mais. Não é bom neste momento ter um boom de gasto do governo. É muito boom para um país só — disse Ilan Goldfajn.
Fernando Rocha lembra que este ano o governo está arrecadando mais.
Era a hora certa para elevar o superávit primário.
— As receitas estão crescendo 12% a 13% e o governo vai ter este ano o mesmo superávit primário que teve no ano passado, só que agora o país está crescendo entre 7,5% a 8% e no ano passado estava em zero — diz.
Na verdade, o número pode ser até pior. Ilan acha que o superávit que já foi 3,5% a 4% no atual governo, está em 1,5%, quando são excluídas as receitas apenas contábeis.
Com esse crescimento, alimentado em parte pelos gastos do governo, o país está ampliando o déficit em transações correntes. Por isso acaba precisando daquilo que tenta barrar.
— Hoje se o governo tiver muito sucesso em evitar o fluxo de capitais especulativos, ele terá problemas de financiar o déficit.
Só com investimento direto não dá — diz Ilan.
O dólar baixo cria outro curioso dilema. O governo gostaria muito que o câmbio subisse, mas se isso acontecesse a inflação subiria também. Hoje, com altas de preços de alimentos, por causa da seca, e com a pressão da demanda crescente, a inflação só não sobe por causa dos juros altos e do dólar em queda.
Para complicar a situação, a China impede que a sua moeda se valorize como as outras moedas de países emergentes como o real, o rand, o dólar australiano, entre outras. Resultado: os produtos chineses ficam cada vez mais baratos.
O país está enrolado num novelo cambial. Para começar a desenrolar só cortando gastos públicos. No ano passado os gastos foram ampliados para fazer uma política anticíclica na crise, agora era hora de manter a política anticíclica fazendo o oposto: economizando na abundância. Mas a gastança vai continuar.
• e-mail: miriamleitao@oglobo.com.br
COM ALVARO GRIBEL
Reservas externas custam R$ 45 bilhões ao País
Reservas externas custam R$ 45 bilhões ao País
Manutenção das reservas internacionais superiores a US$ 280 bilhões custa ao contribuinte brasileiro o equivalente a 1,5% do PIB
Leandro Modé, de O Estado de S. Paulo
| Intervenção do Banco Central no mercado cambial é tática para manter o real desvalorizado (Agência Estado) |
A manutenção das reservas internacionais superiores a US$ 280 bilhões custa ao contribuinte brasileiro cerca de R$ 45 bilhões ao ano (o equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto), segundo estimativas de economistas como o ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore e o ex-diretor da instituição Alexandre Schwartsman.
O valor supera o total de investimentos públicos previstos para 2010. No primeiro semestre, o governo investiu um recorde de R$ 20,6 bilhões. Se mantiver o ritmo (o que é difícil, porque a lei eleitoral veta desembolsos próximos do pleito), o total no ano chegará a R$ 41,2 bilhões.
As reservas custam caro porque o BC aplica a maior parte dos recursos em títulos públicos de países desenvolvidos, notadamente dos Estados Unidos, que hoje em dia pagam taxas de juros próximas de zero. Como o Brasil não tem excedente orçamentário para adquirir os dólares, o governo o faz por meio de endividamento. Só que a taxa básica brasileira está em 10,75% ao ano. A diferença entre o juro externo e interno é o custo das reservas.
Sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o Brasil caminha rapidamente para chegar a reservas de US$ 300 bilhões. "Nós temos um custo de fato, mas é melhor pagar este custo do que ter uma economia mais vulnerável", disse ele em entrevista à GloboNews.
O forte ingresso de dólares nos últimos meses levou o BC a acelerar a compra da moeda, o que aumentou rapidamente as reservas: de US$ 239 bilhões no último dia útil de 2009 para US$ 280,5 bilhões quinta-feira, alta de 17,4%. Como é uma operação cara, provoca intenso debate entre analistas. Há duas semanas, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, afirmou que se trata de uma "estratégia que leva ao próprio fracasso".
Se esse custo fosse analisado de forma isolada, ou seja, sem levar em conta outros fatores, a maioria dos economistas tenderia a concordar com Blanchard. Eles argumentam que os cerca de US$ 200 bilhões que o Brasil tinha no auge da pior crise mundial desde os anos 30 foram suficientes para blindar a economia.
No entanto, a "guerra cambial" global, como definiu Mantega, alterou a discussão e levou até mesmo críticos da estratégia a concordar com o ministro. "Para tratar da questão das reservas, é preciso abrir a janela para o que está acontecendo no mundo", pontua Pastore. "Não estamos em um mundo normal. É uma nova fase na sequência de eventos da crise internacional."
Essa fase caracteriza-se por dois fatores principais. O primeiro é a fraqueza da economia dos países desenvolvidos, que veem nas exportações uma alavanca para retomar o crescimento. Por isso, muitos têm procurado manter suas moedas desvalorizadas.
O segundo ponto é a farta liquidez global, que decorre da política monetária frouxa adotada das nações desenvolvidas. Em outras palavras, há dinheiro sobrando, a despeito da própria crise. E esse dinheiro migra, principalmente, para os emergentes.
sábado, setembro 18, 2010
Mais de quase nada
Mais de quase nada
Celso Ming - O Estado de S. Paulo - 16/09/2010
Há meses, o ministro Guido Mantega avisa que está preparando um pacote de decisões do governo destinadas a evitar a excessiva valorização do real, mas não consegue inventar nada de especialmente poderoso para reverter a tendência do câmbio.
Apesar da multiplicação das advertências de que a saída de dólares por meio do forte aumento das importações pode provocar fuga de capitais, continua entrando mais moeda estrangeira do que saindo e isso empurra as cotações do câmbio para baixo.
Mas o que fazer para reverter esse jogo que vai tirando competitividade do setor produtivo brasileiro, porque encarece em dólares os bens exportáveis que têm custos em reais?
O problema começa quando se pretende definir o que é "excessiva valorização do real", o que implica eleger um piso abaixo do qual o governo não deixará que as cotações deslizem.
Em seguida, trata-se de saber como agir. Como não dá para voltar ao câmbio fixo, fazer alguma coisa será quase inevitavelmente tirar mais de quase nada. É, por exemplo, levar o Banco Central a aumentar suas compras de moeda estrangeira e incrementar as reservas. Mas já se viu que, além do custo da operação, hoje de US$ 18 bilhões por ano, essa exibição de exuberância contribui para atrair ainda mais moeda estrangeira ou para impedir que saia (o que dá mais ou menos no mesmo), e, dessa maneira, injetar mais combustível para uma maior valorização do real.
A ideia de acionar as compras de moeda estrangeira por meio do Fundo Soberano do Brasil também não muda em muito as coisas. Para isso, o Fundo deverá contar com abundantes recursos fiscais, o que não acontece. E adquirir dólares com reais obtidos com a venda de títulos públicos significa aumentar o endividamento bruto para obter efeito limitado.
Às vezes, o ministro Mantega lamenta a forte entrada de dólares no mercado de ações e no de renda fixa. No entanto, quem quer capitalizar a Petrobrás na maior operação dessa natureza em todos os tempos; quem quer arrumar mais recursos para Banco do Brasil, BNDES, Caixa, Eletrobrás e para as empresas brasileiras que precisam crescer tem de aceitar a maciça entrada de dólares. Quem quer borboletas tem de tolerar a ação das lagartas - já ensinava o Pequeno Príncipe.
A Selic, é claro, precisa cair para reduzir a desproporção entre juros internos e externos e, assim, evitar a especulação. Mas, ao contrário do que tanta gente pensa, os juros altos demais no Brasil não são manifestação de perversidade do Banco Central. São consequência do que está aí, que, no fundo, tem a ver com o baixo índice de poupança interna e com a enorme propensão ao aumento do gasto público, que obriga o Brasil a ter a dívida que tem.
Também não faz sentido taxar com IOF a entrada de capitais, num momento em que o País precisa desesperadamente de recursos para desenvolver o pré-sal, o trem-bala, as obras da Copa do Mundo, da Olimpíada e para tanta coisa mais.
A falta de opções pode ser chocante, mas é um dado da realidade. Para compensá-la, não faz sentido pretender segurar o dólar no grito. A economia do Brasil está pagando no câmbio o preço do bom desempenho até mesmo durante a maior crise desde os anos 30.
A arrecadação bombeia A arrecadação do governo federal segue batendo recordes. Foi em agosto 15,3% mais alta do que em agosto de 2009. E na acumulada do ano foi 12,6% mais alta.
É o consumo... O principal fator que puxou a arrecadação foi o forte crescimento das vendas, de 14,2%, no período de sete meses imediatamente anterior a agosto. É mais um indicador que confirma a expansão do consumo em consequência do aumento das despesas públicas, do avanço do crédito e do esticão da massa salarial.
quinta-feira, junho 10, 2010
Com economia aquecida, juro básico brasileiro volta a 2 dígitos
Com economia aquecida, juro básico brasileiro volta a 2 dígitos
Quarta-feira, 9 de junho de 2010 20:46 BRT - Por Isabel Versiani
BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central elevou nesta quarta-feira a taxa básica de juros brasileira pela segunda vez consecutiva, em um esforço para esfriar a atividade doméstica em meio a preocupações com a inflação. Em decisão unânime, o BC aumentou a Selic em 0,75 ponto percentual, para 10,25 por cento ao ano, em linha com o esperado pela maioria dos analistas de mercado. Com isso, a taxa voltou ao nível definido em abril do ano passado. Em breve comunicado, o Comitê de Política Monetária (Copom) repetiu as palavras da reunião anterior de que dá "seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias ao cenário prospectivo da economia, para assegurar a convergência da inflação à trajetória de metas".
O anúncio foi feito um dia após dados mostrarem que a economia brasileira cresceu a uma taxa robusta no primeiro trimestre, enquanto a maior parte dos países ainda patina para combater os efeitos da crise global. Também se deu depois da divulgação de indicadores domésticos de inflação de maio apontando que ainda há pressões de preços. O IGP-DI do mês passado foi o maior em quase dois anos e o IPCA, embora tenha desacelerado, registrou aumento dos núcleos. Entre o anúncio dos indicadores e a decisão do Copom, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em discurso que fará "qualquer coisa" para não deixar a inflação voltar. "Da minha parte, eu vou controlar a inflação", disse.
De um total de 21 instituições financeiras consultadas pela Reuters, 19 já esperavam o aumento de 0,75 ponto da Selic, enquanto duas apostavam em alta de 0,50 ponto. Os analistas agora aguardam a divulgação da ata da reunião do Copom, na próxima semana, para sinais sobre os próximos passos do colegiado. "O BC manteve a estratégia de fazer mais para fazer menos, ou seja, aperto maior por um período mais curto", avaliou o economista-chefe do WestLB, Roberto Padovani. "A discussão agora é sobre o tamanho desse ciclo. Agora tem que ler a ata para saber a visão do BC sobre o cenário externo."
RITMO DA ATIVIDADE
O crescimento do PIB no primeiro trimestre foi de 2,7 por cento frente ao trimestre anterior e de 9,0 por cento na comparação anual --maior aumento da série, iniciada em 1995. A tendência é de desaceleração ao longo do ano, em parte por conta da retirada de estímulos fiscais adotados pelo governo para enfrentar a crise global. Mas, ainda assim, a avaliação de economistas é de que o crescimento em curso não é compatível com a capacidade da economia brasileira, por conta de gargalos em áreas como infraestrutura e na oferta de mão de obra. As expectativas de inflação do mercado para 2010 e 2011 estão acima da meta do governo, de 4,5 por cento.
O IPVCA, índice de inflação ao consumidor usado como parâmetro para as metas, perdeu força no mês passado refletindo um arrefecimento dos preços de alimentos. Mas os núcleos, que desconsideram os preços mais voláteis, aceleraram, segundo cálculos de economistas. "Vejo que o BC já perdeu o controle sobre os preços neste ano", afirmou Clodoir Vieira, economista-chefe da corretora Souza Barros. "O que está fazendo é se preparar para 2011, agindo agora, já que o cenário para este ano aponta uma inflação elevada." O Copom voltará a se reunir nos dias 20 e 21 de julho.
(Reportagem adicional de Ana Nicolaci da Costa, Aluísio Alves, Paula Laier e José de Castro)
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