sábado, outubro 30, 2010
Alternativas sustentáveis
Alternativas sustentáveis
RENATO RIBEIRO ABREU - O GLOBO - 29/10/10
O respeito ao meio ambiente, associado ao desenvolvimento sustentável, é uma agenda permanente para a sobrevivência de todos nós e nossos descendentes. Muito se fala sobre sustentabilidade, preservação ambiental, poluição, camada de ozônio.
Contudo, o tema é sério demais, e exige muita responsabilidade quando se trata do assunto.
Não temos pretensão alguma de ser donos da verdade. Porém, como participantes ativos nos setores industriais e do agronegócio em diversas atividades e estados do Brasil, entendemos que, por questão de honestidade, devemos emitir nossa opinião de forma imparcial. Muitos se arvoram em donos da verdade, com críticas irresponsáveis, inconvenientes e até por interesses outros, sem ter o mínimo conhecimento da realidade vivida pelos principais atores, que são os nossos agricultores, principalmente os do Centro Oeste brasileiro.
Pela complexidade do tema, teremos que voltar a um, dois ou até três séculos. A nossa colonização começou com a extração do pau-brasil, depois mineração, açúcar, café etc. Mesmo antes do fim da escravidão, o governo brasileiro, durante o Império, começou a incentivar a vinda de estrangeiros para fortalecer nossa agricultura, bem como para o suprimento de mão de obra mais especializada. Colonizar, produzir, expandir e ocupar nossas fronteiras foi, durante esse longo período, o melhor que se tinha a fazer.
Nessa mesma ocasião, nos Estados Unidos, na famosa corrida para o Oeste, estes fatos também ocorriam, até com muito mais intensidade.
No final do século XIX, com o início da industrialização na Inglaterra, em alguns países da Europa e depois nos Estados Unidos, o fluxo de mão de obra, que até então era quase todo da agricultura, começou a migrar para a indústria. À medida que o setor industrial crescia, o homem do campo migrava para os grandes centros.
A humanidade continua e continuará crescendo, e a necessidade de alimentos idem. No Brasil, tínhamos, e ainda temos, dois terços de nossa área (região da Amazônia Legal) precisando de constante proteção. Não é fantasia, nem nacionalismo barato.
Quem viaja constantemente para o exterior sabe o quanto essa área é visada.
Em função disso, durante o governo JK, com a construção de Brasília e o início da industrialização no Brasil, e depois com o regime militar, ocupar essa região tornou-se prioridade.
Continua sendo agora, só que com responsabilidade ambiental e sustentável. Novos bandeirantes foram para o Centro-Oeste incentivados pelo governo. Trocaram pequenas áreas de terras no Sul e no Nordeste do Brasil por médias e grandes áreas no Centro-Oeste. Com clima e topografia excelentes, melhoraram a produtividade a cada ano, via fundações de pesquisas e Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (no nosso entender, a mais importante empresa do Brasil).
Todo esse processo levou o Brasil a se tornar um dos líderes (em alguns setores o maior) na produção mundial de alimentos. Nos últimos 12 anos, isoladamente, o saldo do agronegócio tem sido muito superior ao saldo comercial brasileiro como um todo. E sem ele não teríamos atravessado tantas crises. Os outros setores da economia consomem parte do saldo da balança comercial do agronegócio. Ao longo de quase três séculos, todo este processo sempre contou com incentivo e apoio governamental.
Culpar os grandes desbravadores do passado e ainda do presente é uma enorme injustiça. Tratar nossos heróis como bandidos, idem. É óbvio que todo setor tem seus indesejados e aproveitadores, porém achamos que são minoria. O Brasil, com certeza, pode dobrar ou até triplicar nossa produção sem a necessidade de nenhum desmatamento, somente recuperando áreas degradadas e até reflorestando algumas.
Precisamos de alternativas criativas e viáveis, buscar a geração tanto quanto possível de energia limpa, proteger nossos mananciais, melhorar tecnologicamente nossas indústrias, reduzir drasticamente o desperdício e o consumo exagerado. Sabemos que não é uma tarefa fácil, mas, em vez de somente criticar, falar e condenar, mudar nosso comportamento com honestidade nas ações e respeito ao próximo tornará a tarefa possível.
RENATO RIBEIRO ABREU é empresário.
Da empatia
Da empatia
Arthur Dapieve – O Globo – Segundo Caderno
Há imagens que saem da sombra
Primo Levi, o escritor judeu italiano, certa vez disse algo verdadeiro e aterrador sobre Anne Frank, a menina judia holandesa que deixou registrados medos e esperanças em seu célebre diário.
“Uma única Anne Frank nos comove mais do que as inumeráveis pessoas que sofreram como ela, mas cujas imagens permaneceram na sombra”, meditou. “E talvez tenha de ser assim: se pudéssemos e devêssemos compartilhar o sofrimento de todos, não conseguiríamos seguir vivendo.” Anne Frank morreu de tifo, no campo de concentração de Bergen-Belsen, em 1945, aos 15 anos. Levi esteve em Auschwitz, sobreviveu e se suicidou na casa de sua família, em Turim, em 1987, aos 67 anos.
Lembro-me muito dos dois sempre que ou uma notícia de jornal ou uma conversa casual traz à tona mais alguma história triste dessa vida. É preciso polir a carapaça, racionar a empatia, não pensar muito a fundo nos fatos — e nem me refiro aos fatos políticos — para conseguir levantar da mesa do café bem-disposto e começar o dia. Não nos é suportável compartilhar o sofrimento de todos, no Morro do Bumba, na Faixa de Gaza. É preciso, também, buscar nas mesmas páginas ou nos mesmos papos algum caso feliz, algum contrapeso em alegria — o resgate dos mineiros no Chile, a vitória no Engenhão — que proporcione a energia para nos erguermos e seguirmos em frente.
Às vezes, porém, uma notícia fura o tal bloqueio que armamos para a nossa própria preservação e nos comove, de verdade. Comigo foi o caso, na sexta-feira passada, do registro pela internet da morte do designer paulista Henrique Carvalho Pereira, de 22 anos. Fiquei com os dedos suspensos sobre o teclado do computador, um nó na garganta, relembrando a tragédia. No dia 21 de dezembro de 2009, Henrique estava folheando um livro de culinária na Livraria Cultura da Avenida Paulista quando foi agredido com um taco de beisebol pelo personal trainer Alessandre Fernando Aleixo, de 38 anos. O designer esteve em coma desde então. Dez meses e um dia.
Alessandre continua preso, à espera de julgamento, agora não mais por tentativa de homicídio, mas por homicídio. Seu crime não teve motivação alguma, Henrique foi escolhido sabe-se lá por que razão. O personal trainer tem problemas psiquiátricos e poderá ser considerado inimputável — ou seja, sem responsabilidade por seus atos — dependendo do resultado de um exame de sanidade mental realizado no começo do mês, mas ainda sem data prevista para a divulgação do laudo.
Uma obra que o designer concebera para a Cow Parade, a “Vaca de Sampa”, tem sido exibida nos campi da Uniban, pela qual ele se formou.
Henrique nunca chegou a vê-la pelas ruas da cidade.
Nos últimos dez meses, sua família estabelecera uma rotina diária de visitas à UTI do Hospital das Clínicas. Sua mãe, uma professora, licenciou-se para poder se dedicar exclusivamente a Henrique. A princípio, havia esperança.
Embora estivesse em coma desde a agressão, o rapaz às vezes dava a impressão de reagir a estímulos musicais ou táteis. Nos últimos dias, contudo, ele não se movia mais.
A família pressentiu que era chegada a hora.
Henrique morreu de falência múltipla dos órgãos, às 5h30m de sexta-feira. Religiosos, seus pais receberam a notícia com serenidade e sem ódio. Agora, é tratar de retomar a vida e dar mais atenção ao irmão caçula do designer.
Milhares de famílias enfrentam dramas mais ou menos similares, e no entanto únicos, todos os dias. Não é possível nem desejável compartilhar o sofrimento de todas elas. Carregar o peso do mundo nas costas levaria, creio, à mesma saída de Primo Levi. Por que, então, perguntei-me, os dedos voltando ao teclado, por que, então, o desenlace previsível de uma desgraça já distante no tempo e no espaço, envolvendo pessoas que não conheço, deixa-me tão comovido? Primeiro, obviamente, eu sou humano. Apesar de a empatia não nos ser exclusiva (a internet está cheia de imagens de cães tentando salvar cães de atropelamento), ela é uma das mais belas características de nosso gênero.
Há mais na história, certamente. Tocou-me a faixa etária de Henrique, a mesma de alunos e enteadas, tão cheios de planos e sonhos. Tocou-me a circunstância de o ataque ter sido realizado numa livraria, enquanto a vítima folheava algo, situação tão corriqueira na minha vida e em tese tão distante da possibilidade de morte. Tocou-me o absurdo aleatório da agressão, que reitera, ao menos para não religiosos como eu, a falta de sentido da existência, a necessidade de se viver do modo mais digno e intenso possível — porque nunca se sabe o que nos reserva a próxima página.
Portanto, tendo iniciado o texto com a citação de um escritor italiano, vou fechá-lo citando outro escritor italiano. Dino Buzzatti.
Do romance “O deserto dos tártaros”, traduzido por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade para a Record: “Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela; que se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso que causa a solidão da vida.” Como se lê, os grandes autores divergem sobre os limites da empatia.
Versão do Viagra será o que mais fatura entre genéricos
Versão do Viagra será o que mais fatura entre genéricos
Maria Cristina Frias Folha de S. Paulo - 29/10/2010
O genérico do Viagra pode se tornar o remédio com maior faturamento do segmento no país em 2011.
A Sildenafila, princípio ativo do Viagra, movimentou em setembro US$ 7 milhões, segundo a Pró Genéricos (associação da indústria).
O volume é considerado expressivo, se levado em consideração o fato de o Viagra ter sido iniciado no mercado genérico há apenas três meses, com o vencimento da patente detida pela Pfizer.
O total em 12 meses seria de no mínimo US$ 84 milhões, segundo estimativas da Pró Genéricos, além de um crescimento mensal que pode elevar o número a US$ 150 milhões por um ano.
"Se seguir a tendência, provavelmente será um dos medicamentos de maior faturamento. Se não for o primeiro, certamente estará muito perto", diz Odnir Finotti, presidente da entidade.
Outra droga, cuja patente recém expirada também pertencia à Pfizer, o genérico do Lípitor (Atorvastatina) já movimenta US$ 900 mil no mês.
Entre os componentes usados no combate ao colesterol, a Sinvastativa é hoje um dos mais vendidos, mas deve perder espaço para a mais moderna Atorvastatina.
"A droga, destinada ao mesmo fim, também tem potencial para subir ao topo."
O maior faturamento no mês foi o do Omeprazol.
Produtos químicos têm melhor trimestre em quatro anos
A fabricação e a venda de produtos químicos para uso industrial registraram o melhor trimestre dos últimos quatro anos, de acordo com a série histórica do Relatório de Análise Conjuntural da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), que será divulgado hoje.
A produção cresceu 3,26% de julho a setembro deste ano e as vendas ao mercado interno aumentaram 6,99%, na comparação com o mesmo período de 2009.
No acumulado do ano, até setembro, as vendas tiveram incremento de 8,82% e a produção subiu 8,84% ante o mesmo intervalo de 2009.
A alta de 14,68% no consumo nacional no período mostra que as importações ainda atendem parcela significativa da demanda interna, de acordo com o relatório.
De janeiro a setembro, as compras externas cresceram 27,03%, três vezes mais que a produção local.
Em setembro, as vendas internas subiram 0,08%.
BRASKEM MIRA MÉXICO EM BUSCA DE EXPANSÃO MUNDIAL
A Braskem vai iniciar em 2015 a produção de resina no norte do México. O plano da companhia é expandir suas atividades no exterior.
A projeção do consumo de demanda de resina no México em 2014 é de 2 milhões de toneladas, dos quais 1,6 milhão será produzido pela companhia.
Os investimentos da companhia poderão chegar em US$ 2,5 bilhões.
A importância da operação é geográfica e estratégica, de acordo com o presidente da empresa Bernardo Gradin.
"Com esse projeto, nós vamos posicionar a Braskem na América do Norte e na América do Sul", afirma o executivo.
"Visamos atender todo o mercado mexicano, começar a servir o americano e partir para novas fronteiras", diz Gradin.
"O México é um passo importante porque importa mais resina do que produz, a demanda do país é maior do que a capacidade que tem de fabricá-la."
Mesmo com o projeto, em cinco anos, a demanda mexicana vai continuar maior do que a produção, de acordo com as estimativas da Braskem.
No ano passado, a brasileira venceu em parceria com a mexicana Idesa um leilão promovido pela estatal Pemex Gás e Petroquímica Básica para compra, por 20 anos, de 66 mil barris diários de etanol.
O álcool será usado como matéria-prima no complexo petroquímico a ser construído em Coatzacoalcos, no Estado mexicano de Veracruz.
BIORREFINO A Braskem constituiu um conselho de notáveis com 300 cientistas de diversas partes do mundo, que prestarão consultoria em pesquisa e desenvolvimento. A primeira reunião do grupo deve ocorrer em dezembro.
"Em quatro anos, teremos 600 cientistas. Poucas empresas no Brasil têm isso", diz. Um dos focos dos cientistas será o desenvolvimento de materiais especiais a partir do biorrefino.
FUNDO DE PENSÃO MAIOR O plano de benefícios Previ Futuro alcançou em setembro a marca de R$ 2 bilhões em ativos líquidos.
Até o final de 2009, havia acumulado R$ 1,7 bilhão. Nos nove primeiros meses deste ano, somou R$ 300 milhões ao montante.
O plano foi criado em dezembro de 1997 para atender aos funcionários do Banco do Brasil admitidos a partir de dezembro daquele ano.
"O resultado demonstrado pelo plano mais jovem da entidade é fruto, em especial, do bom momento vivido pela economia e da gestão profissional e participativa dos recursos", diz Ricardo Flores, presidente da Previ.
O plano conta com cerca de 64 mil participantes. Ao todo, os ativos sob gestão da Previ somam R$ 146 bilhões.
Ocupação... José Luciano Penido, presidente do Conselho da Fibria, assume no próximo dia 3 de novembro, na China, o posto de presidente do grupo de trabalho das indústrias florestais do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável.
...verde A entidade, com sede na Suíça, reúne executivos de 145 empresas do mundo, voltadas para a excelência ambiental e princípios do desenvolvimento sustentável. A Fibria é hoje a maior produtora de celulose do mundo e utiliza ferramenta para reduzir impactos ambientais.
Estratégias Os economistas Mailson da Nóbrega, Marcel Solimeo e Roberto Macedo estarão presentes no seminário "Perspectivas da Economia", realizado pela Associação Comercial de São Paulo, no dia 4. O evento vai debater as tendências da economia para 2011. O seminário é gratuito.
Crédito de... A Agência de Fomento Paulista/Nossa Caixa Desenvolvimento assinou ontem acordo com o fundo de carbono alemão KfW para consultoria e compra de créditos de carbono.
...carbono Pelo contrato, as empresas clientes do banco que tomarem empréstimo de da linha Economia Verde -que financia projetos que reduzem emissões de gás- poderão vender os créditos de carbono para o KfW.
CRESCEM AQUISIÇÕES DE HOTÉIS O volume de transações de compra e venda de hotéis no mercado norte-americano se acelerou nos últimos meses.
As operações devem atingir US$ 6,5 bilhões neste ano, segundo a consultoria Jones Lang LaSalle Hotels. Esse valor supera em US$ 2 bilhões as estimativas anteriores.
Com uma oferta limitada no mercado de hotéis de alta qualidade para investimento, o ambiente tornou-se bastante competitivo, de acordo com a consultoria.
Os fundos de investimento imobiliário têm sido os compradores mais ativos, com 58% dos negócios.
O momento também está favorável para as aquisições hoteleiras no Brasil. A norte-americana Host Hotels & Resorts anunciou neste mês a compra do hotel JW Marriott, no Rio de Janeiro, por US$ 47,5 milhões.
A farra do orçamento
A farra do orçamento
EDITORIAL O Estado de S. Paulo - 29/10/2010
O governo petista decidiu apressar a contratação de obras e serviços de infraestrutura e ampliar a carteira de investimentos para o próximo ano, na certeza de que a administração será comandada pela hoje candidata Dilma Rousseff. Há uma clara disposição de gastar e empenhar verbas sem preocupação com o resultado fiscal. O superávit primário programado para 2010 está garantido, de acordo com o Ministério da Fazenda. Uma complicada manobra financeira permitiu ao Tesouro contabilizar R$ 31,9 bilhões como receita, depois da capitalização da Petrobrás. Esse arranjo, contestado até por especialistas do setor público, permitiu ao governo acomodar a gastança do ano de eleições e disfarçar o déficit do mês passado. Mas deve servir também para justificar uma folgada gestão orçamentária até o fim do ano.
Já foi uma imprudência usar a receita extra, obtida por meio de um arranjo contábil, para acomodar o resultado fiscal de setembro. Outra imprudência será continuar gastando e empenhando verbas como se houvesse folga nas contas federais. Se o governo tiver realmente uma sobra de caixa, liquidar uma fatia maior da dívida pública será a melhor forma de usá-la. Mas a austeridade e a gestão eficiente não têm sido a marca deste governo.
Os investimentos custeados pelo Tesouro têm sido, neste ano, cerca de 50% maiores que no ano passado. Mas não é essa a causa da piora do resultado das contas públicas.
Embora tenha apressado os desembolsos para obras e compras de equipamentos, o governo se manteve distante do valor autorizado para 2010. Até 13 de outubro, o Tesouro só pagou R$ 31,4 bilhões, 45,5% dos R$ 69 bilhões previstos para investimentos neste ano.
Do total pago até essa data, R$ 19,4 bilhões, ou 61,8%, corresponderam a restos de exercícios anteriores. Restos a pagar ainda não liberados totalizavam R$ 29,5 bilhões, segundo a ONG Contas Abertas.
Se o governo correr para empenhar mais verbas até o fim do ano, o resultado será um grande aumento da rubrica "restos a pagar". Isso não envolverá, necessariamente, uma ampliação dos investimentos financiados pelo Tesouro.
Nem o esforço para apressar os desembolsos no período de eleições contribuiu para diminuir de forma sensível a diferença entre a verba prevista no orçamento e o valor desembolsado. Restos a pagar continuam sendo a maior parte do valor investido e, apesar disso, o estoque de verbas acumuladas de exercícios anteriores continua grande.
Como sempre, o investimento orçamentário fica bem abaixo do programado não porque falte dinheiro, mas porque a administração federal carece da competência necessária para executar obras e programas de ampliação ou renovação de equipamentos.
O presidente Lula costuma discursar em inaugurações para exaltar a capacidade de realização de seu governo. Para cada obra inaugurada, no entanto, há um número enorme de projetos emperrados na execução, com licitação atrasada ou ainda no papel apesar de anunciados há muito tempo.
Em cada balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o governo proclama resultados logo desmentidos quando se analisam os dados com mais atenção. O PAC é um fracasso administrativo - um dos muitos da ex-ministra Dilma Rousseff em sua missão de coordenar investimentos. Se algum qualificativo lhe foi atribuído injustamente, foi com certeza o de tecnocrata, ainda repetido pela imprensa estrangeira.
Mas a inépcia administrativa da ministra Dilma Rousseff não destoou do padrão geral do governo petista. Se esse fosse o caso, o governo teria melhorado depois de sua saída. Isso não ocorreu. Os investimentos orçamentários continuaram tão emperrados quanto antes. Na área das estatais, o Grupo Petrobrás continuou realizando cerca de 90% das aplicações previstas no PAC, enquanto projetos de outras áreas continuaram em marcha lenta. Além disso, a gastança improdutiva foi intensificada, o resultado fiscal piorou e a herança prevista para o próximo governo é assustadora.
A outra História do Brasil
A outra História do Brasil
Hermano Vianna – O Globo
O Brasil deixou de ser o mesmo país em que eu vivia antes da leitura do livro (de Jorge Caldeira)
Jorge Amado, escrevendo sobre o lançamento de “Casa-grande e senzala”, não economizou o tom bombástico: “Foi uma explosão [...] Quem não viveu aquele tempo não pode imaginar a sua beleza [...] O livro de Gilberto deslumbrava o país, falavase dele como nunca se falara antes de outros livros.” Monteiro Lobato foi até mais apoteótico: “Qual o Cometa Halley, irrompera nos céus da nossa literatura...” Diante desses comentários, fiquei com inveja. Não me lembro, desde que me tornei devorador de livros, de um lançamento sobre o Brasil que tivesse gerado tal deslumbramento.
Ou mesmo que tivesse provocado apenas em mim surpresa capaz de desnortear minha visão de país, propondo uma maneira realmente nova de pensar nosso lugar no mundo.
Talvez os livros, não apenas quando falam do Brasil, tenham perdido esse poder.
Games e softwares ganharam corações e mentes de forma contundente, apesar de pouco analisada, e sem produção nacional de peso. Por exemplo: “Halo:Reach”, game recémlançado, vendeu 200 milhões de exemplares no primeiro dia, em todo o planeta.
Isso é que é um Cometa de Halley mercadológico, que irrompe nos céus da consciência contemporânea fora do radar da crítica artística, sem deslumbrar figurões da literatura de país algum. Porém, mesmo com essa competição “desleal” de outros estímulos culturais, provavelmente o verdadeiro problema não seja somente mídia (game ou livro), mas também o tal “conteúdo” (o “Brasil”, o “nacional”), e assim — abruptamente — a ausência desses livros em nossa vida atual fica bem explicada, ou eternamente sem explicação.
Então — quando eu já estava conformado, jogando “Little big planet” — surge o “História do Brasil com empreendedores”, de Jorge Caldeira. Terminei a leitura há meses. Tentei fazer pouco caso, ou abafar meu espanto.
Claro que ouvia elogios, mas todos meio “blasés”, ou distanciados, como se proferidos por personagens do “La dolce vita” de Fellini, naquela festa final, quando — diante do oferecimento de um strip-tease — alguém diz: “Não novamente, todo mundo já viu você nua.” Prudente, fiquei esperando a contestação de algum historiador, metralhando dados para provar que o que Caldeira diz está errado. Nada, até agora. Isso quer dizer que todo mundo aceitou a nova interpretação do Brasil? Ou ninguém leu direito, ou deu importância ao que leu? Estranhíssima situação. No meu pensamento, as teses de Caldeira foram — como naquela música do Peninha — “crescendo, crescendo, me absorvendo e de repente eu me vi completamente” delas, tomado pelo livro. E tenho que confessar: o Brasil deixou de ser o mesmo país em que eu vivia antes da leitura. Não é exagero: se vamos, a partir de agora, levar a sério o que está escrito em suas páginas, mesmo os livros didáticos precisam ser reescritos. Nas escolas, aprendemos que a economia colonial brasileira não se desenvolveu pois tudo que era produzido aqui ia para Portugal. Caldeira revela um outro início de país, com mercado interno mais dinâmico que o da metrópole, com vida rica fora da casa-grande e da senzala. Somos ensinados desde criancinhas, nas primeiras aulas de História, a pensar uma colônia apenas com senhores e escravos.
“História do Brasil com empreendedores” fala de uma terra que tinha, na pior das hipóteses, mais de dois terços da população composta por homens livres. Meu espanto: como os outros livros nos “esconderam” essa gente toda, esse tempo todo? E o que fazer, a partir de agora, com o aparecimento dessa “nova” e decisiva população? Como se isso não bastasse, Caldeira ainda lança várias outras ideias que para mim são alegremente pertubadoras, e exigem revisão cuidadosa de várias de crenças anteriores.
Com Gilberto Freyre, eu imaginava que a mestiçagem brasileira tivesse origem ibérica, talvez árabe. Vários bons momentos de “História do Brasil com empreendedores” viram essa ideia pelo seu avesso “perspectivista”: nossos índios se tornam os “miscigenadores” mais radicais e obstinados.
Certa vez, em entrevista, Aílton Krenak me disse que os índios não tinham lugar em “Casa-grande e senzala” — eram os que ficavam fora, à espreita, prontos para o ataque. Para Caldeira, o ataque já aconteceu, na surdina, mudando os corpos de senhores e escravos, sem que eles percebessem ou escrevessem sobre isso em seus livros de História, ou contra-História.
Fui procurar outros livros de Caldeira. Dei sorte de encontrar um exemplar da edição esgotada de “A construção do samba”, que reúne ensaios dos anos 80. Incrível não ter conhecido esses textos antes de ter escrito o meu “O mistério do samba”, com tantas preocupações em comum.
Foi interessante reencontrar Donga, que agora pode ser “lido” como um empreendedor, inventor de um “negócio”, o da música popular no Brasil, entre o “mercado” e a autenticidade, entre a “roda” e o consumo de massa.
Na perspectiva de Caldeira, o sambista — como o trabalhador livre da colônia — deixa de ser apenas o excluído, para se tornar também — ao mesmo tempo — agente de sua própria história, mesmo de forma informal.
A informalidade, “o fio do bigode” e o favor acabam se tornando os maiores inimigos dos empreendedores. O crescimento da periferia — ainda que exuberante — fica contido, à margem. Com metade da economia na informalidade, o Brasil precisa enfrentar esse problema mais que central. Pense nisso, antes de votar no domingo.
Além do arco-íris
Além do arco-íris
Miriam Leitão
O Brasil descobriu petróleo no pré-sal nos anos 50 e já o explora há décadas. O que houve agora foi a descoberta de grandes reservas, mas nem todo produto é de boa qualidade. A produção iniciada em Tupi é mínima perto do total extraído no Brasil.
Principalmente é falsa a ideia de que o pré-sal é a solução mágica que garante o futuro. O governo faz confusão proposital quando o assunto é petróleo.
A excessiva politização do tema está criando mitos e passando para o país a ideia de que agora ganhamos na loteria, um bilhete premiado, que vai produzir dinheiro abundante que resolverá todos os nossos problemas. Isso reforça a tendência a acreditar na quimera, no “deitado em berço esplêndido”, que tem feito o país perder chances e assumir riscos indevidos.
A primeira descoberta de petróleo no pré-sal do Brasil foi em 1957 no campo de Tabuleiro dos Martins, em Maceió. A segunda foi em Carmópolis, em 1963. Ainda hoje se produz petróleo nos dois campos: no segundo, 30 mil barris por dia. O campo de Badejo, na Bacia de Campos, também fica na camada do pré-sal. Ele foi descoberto em 1975. Os dados contrariam o marketing do “nunca antes” e que esse petróleo é o “passaporte para o futuro”, como tem dito a candidata Dilma Rousseff.
Há produção de petróleo em campos de pré-sal no mundo inteiro. No Golfo do México, no Oriente Médio, no oeste da África, no mar do Norte. Um dos mais famosos é o de Groningen, na Holanda, descoberto pela Shell em 1959. Ainda hoje se tira petróleo de lá.
— O pré-sal invenção brasileira é uma distorção de marketing inventado pelos políticos do governo com apoio dos ideólogos da Petrobras e da ANP — explica o ex-diretor da Petrobras, Wagner Freire.
O Brasil produz hoje dois milhões de barris de petróleo por dia. Na melhor estimativa, a produção do pré-sal chegará a esse volume daqui a cinco anos. A exploração definitiva do campo de Tupi, que começou ontem, mas que na verdade ainda se encontra na fase de testes, foi de 14 mil barris, cerca de 0,7% da produção atual. A projeção é que em 2012 produza 100 mil.
— Na rodada zero de licitações, em 1998, a ANP permitiu que a Petrobras escolhesse todos os campos que gostaria de explorar. Ela não quis as áreas do pré-sal. Na época, o barril do petróleo custava em torno de US$ 15.
Por esse preço, a exploração era inviável pelos custos e dificuldades. Hoje, o petróleo está cotado a US$ 80. É por isso que a produção começou a valer a pena — lembra o consultor Adriano Pires.
O campo de Tupi foi licitado para a Petrobras e outras empresas privadas no ano 2000, como resultado da segunda rodada da ANP. Em 2007, foi comprovado que havia petróleo e, diante dos indícios de grandes reservas 47, blocos do pré-sal foram retirados da competição.
Até agora ainda não se sabe quais são as reservas de Tupi. A Petrobras afirma que existem de 5 a 8 bilhões de barris. Mas a certificadora Gaffney, Cline & Associates, que foi contratada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) para analisar o campo, estimou um volume menor: de 2,6 bilhões de barris.
Quem está certo? Ninguém sabe. É preciso fazer mais prospecção.
O relatório da Gaffney também diz que um dos campos de pré-sal, o de Júpiter, tem óleo pesado, ou seja, com menor qualidade, explica Wagner Freire. O gás possui 79% de CO2 e o petróleo é de 18° de API. O petróleo do tipo Brent e WTI, que são referência no mundo, possuem API acima de 30°. Quanto mais alta essa medida, mais leve é o petróleo, ou seja, dele se retira maior volume dos derivados mais valorizados.
O petróleo que hoje se extrai no Brasil é de 20° a 22°. Tupi é um pouco melhor, 26°, mas ainda assim não chega ao nível do Brent e do WTI.
O fato de ter alto teor de CO2 no gás em Júpiter é um complicador. Se o CO2 for para a atmosfera, aumentará muito as emissões de gases de efeito estufa do Brasil.
Todo brasileiro admira a capacidade da Petrobras, provada ao longo de cinco décadas, de encontrar petróleo, desenvolver tecnologias e produzir em águas profundas.
Mas a propaganda tem distorcido tudo, como se houvesse uma Petrobras velha e uma nova, do PT.
Não é verdade também que antes o petróleo brasileiro era carne de pescoço e agora acharam filé. Temos no Brasil óleos mais leves, ou seja filé mignon, em poços como os do Espírito Santo. O de Urucu na Bacia do Solimões é leve e sem enxofre, melhor que o Brent. E tem petróleo leve e pesado no pré-sal.
A Gaffney, que fez o estudo para a ANP, concluiu que todas as reservas do pré-sal juntas têm potencial de 15 a 20 bilhões de barris. Isso é uma boa notícia porque significa dobrar as reservas provadas do Brasil, que em 31 de dezembro de 2009 estavam em 15,2 bilhões. Poderíamos chegar a 35 bilhões e ganharíamos cerca de seis posições no ranking mundial de países com potencial para explorar petróleo, saltaríamos do 16º lugar para 10º, ao lado da Nigéria.
Ainda assim, estaríamos longe de países como Arábia Saudita, com 314 bilhões de barris em reservas; Irã, com mais de 138 bilhões; Iraque, 115 bilhões; Kuwait, com 113 bilhões. Não seríamos também o primeiro da América do Sul porque a Venezuela tem mais de 99 bilhões de reservas comprovadas.
Há dificuldades técnicas nada desprezíveis para a produção desse petróleo em larga escala.
— Para se ter ideia, o campo de Roncador, que é no póssal, e foi descoberto em 1996, com três bilhões de barris de reservas, ainda não tem seu plano de desenvolvimento completo. E o desenvolvimento e a operação do présal são mais complexos e mais caros — diz Freire.
Não existe um pote de ouro depois do arcoiacute;ris que vai resolver todos os nossos problemas.
Ainda não inventaram um passaporte para o futuro que não seja trabalhar muito, poupar mais, investir sempre e, principalmente, educar a população.
oglobo.com.br/miriamleitao e-mail: miriamleitao@oglobo.com.br
COM ALVARO GRIBEL
Primeira vitória da Lei da Ficha Limpa
Primeira vitória da Lei da Ficha Limpa
O Globo
O impasse criado pelo empate em cinco votos, no Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a aplicação nestas eleições da Lei da Ficha Limpa poderia ter sido superado na mesma sessão em que surgiu pela primeira vez, no julgamento do recurso de Joaquim Roriz, enquadrado pela Justiça Eleitoral como “ficha suja”. Bastaria que a maioria dos ministros, como ocorreu na sessão de quarta, quando foi julgado o caso de Jader Barbalho, tivesse adotado a cláusula do regimento interno da Corte pela qual, nesta circunstância, pode valer o veredicto anterior. Ou seja, o do Tribunal Superior Eleitoral, contrário a Roriz, como também a Barbalho.
Mas o que importa é que, diante da repetição do empate, a providencial proposta do mais antigo ministro em atuação no STF, Celso de Mello, pelo acionamento da cláusula, foi aceita por sete dos 10 ministros presentes.
Assim, o segundo candidato mais votado para o Senado no Pará, Jader, do PMDB, não assumirá, por ter sido enquadrado em um artigo da Ficha Limpa redigido para evitar a saída fácil da renúncia para o político sob risco de cassação. Barbalho renunciara ao Senado, em 2001, para escapar de um processo de cassação aberto devido a malfeitorias na Sudam. Deu certo naquele tempo. Não fosse a Ficha Limpa, o político voltaria a se abrigar sob imunidades parlamentares.
Registre-se que, pela segunda vez, o presidente do Supremo, Cezar Peluso, recusou-se a usar a prerrogativa de votar duas vezes para acabar com o impasse. Roriz e Barbalho estariam livres, nesta eleição, da Ficha Limpa, assim como todos os demais atingidos pela nova lei, pois Peluso discorda da vigência imediata da lei. Mas não fazia mesmo sentido liberar políticos numa penada, sem discutir cada caso.
A vitória da Ficha Limpa contra o político paraense e a aceitação do critério para o desempate de julgamentos são um fecho histórico num processo de mobilização da sociedade que recolheu bem mais de um milhão de assinaturas para apresentar a lei ao Congresso, ter o projeto aprovado numa saudável rodada de negociação parlamentar e, enfim, a lei ser aplicada na Justiça, tudo isso em aproximadamente um ano.
Mas não pode haver desmobilização, pois, segundo interpretação, o veredicto dado ao recurso de Barbalho vale apenas para casos idênticos.
Quer dizer, de políticos que renunciaram a mandatos por esperteza. Por exemplo, o outro candidato ao Senado pelo Pará, Paulo Rocha (PT), mensaleiro e que também renunciou para escapar da mesma punição dada a José Dirceu e Roberto Jefferson. O Supremo precisará, ainda, julgar recursos de fichas-sujas conhecidos: Paulo Maluf, um deles, já condenado por colegiado de magistrados, um dos critérios de enquadramento na lei.
Espera-se que, nos debates que ainda virão, não ocorram os bate-bocas de quarta-feira, travados num tom além dos limites da cordialidade e fora da necessária liturgia dos tribunais.
Outro ponto a registrar é o da delicadeza da nomeação do 11º ministro pelo presidente da República, seja Lula, Dilma ou Serra. Como ele será o sexto voto, o do desempate, melhor que todos os casos de fichas-sujas com recurso no STF sejam julgados sem este ministro.
Não pode pairar dúvida sobre a lisura na escolha do Planalto e na aprovação do nome no Senado, por parlamentares passíveis de serem alcançados por uma lei cuja aplicação poderá ser decidida pelo sabatinado.
Exige cautela a nomeação do ministro que terá o voto do desempate
Assinar:
Postagens (Atom)





