domingo, novembro 07, 2010

O efeito Dilma sobre o próximo meio século

O efeito Dilma sobre o próximo meio século
Paulo Rabello de Castro – Revista ÉPOCA
PAULO RABELLO DE CASTRO
é doutor em economia e palestrante,
 conselheiro de empresas,
 autor de livros como 
A grande bolha de Wall Street
Mantém o Blog da Bolha 
e escreve quinzenalmente
Até hoje, achava eu, equivocadamente, que a vitória de Dilma abriria um novo ciclo no Brasil, pós-Lula. FHC inaugurou o ciclo anterior, representando o presidente moeda, ao coordenar magistralmente a equipe que domou a inflação. Lula deu prosseguimento ao ciclo e nos devolveu a renda e o crédito, recriando uma classe média que se pensava morta. O ciclo do resgate econômico estaria, então, completo, pensava eu. Mas vejo, agora, que ainda não.
O que vem por aí será a etapa final da contribuição da “geração de 68”. A militância política da presidente eleita, desde os idos da década de 1960, tem sido ressaltada na TV como parte do currículo de Dilma Rousseff, lembrando o episódio da tortura da presidente pelo regime militar então instalado no país. A própria Dilma afirma ter sido “brutalmente torturada”. Como nada justifica o crime da tortura, falar abertamente sobre essa página repugnante da história é bom para purgar o pecado coletivo da nossa sociedade. A “geração de 68”, uma juventude generosa e voluntariosa, não quis esperar o fim do regime militar. Aqui e no exterior, muitos confrontaram o establishment social e político, como na Marcha dos Cem Mil, em 1968, no Rio de Janeiro, ou em Paris, ou em Woodstock, nos EUA. Sempre de modos e jeitos diferentes, mas sempre a mesma coisa.
Após um rápido intervalo de cortina, como numa peça de teatro ao vivo, é essa “geração de 68” que reaparece em nossa história atual, com Serra, FHC e Cesar Maia – exilados no Chile –, ou com Dilma, Dirceu e Gabeira, com Lula e tantos outros, da mesma turma de perseguidos ou banidos pelo antigo regime. Os então excluídos foram mais do que resgatados: foram reintegrados e alçados, pelo poder democrático do voto, aos mais altos postos da República. O Brasil deu a volta em sua própria história e devolveu aos melhores e mais bravos da geração de 68 seu mais amplo direito de participação. Por isso mesmo, Dilma ainda não pertence a um ciclo novo, mas ao atual, que ela terá a honra de encerrar.
É enorme a responsabilidade da presidente eleita, encarregada de completar a obra de 68. As decisões que Dilma tomará repercutirão intensamente nos 50 anos à frente, na vida inteira de praticamente todos os quase 190 milhões de brasileiros vivos nesta data. Para ter ideia do que é meio século em matéria econômica e tributária, em importância sobre nossa vida diária, basta recordar que vivemos dos benefícios residuais da estrutura modernizadora (para a época, bem entendido) deixada pronta, em 1967, pela equipe de Roberto Campos e Octavio Bulhões, gigantes de uma geração precedente, de que faz parte o brilhante professor Delfim Netto (leia a entrevista). Fazendo as contas: se Dilma for reeleita, até 2018 meio século terá se passado desde que a “geração de 68” começou a atuar politicamente.
Ela prometeu reduzir e simplificar impostos.
Precisamos também controlar gastos públicos
O produto líquido dessa geração de 68 terá nas intenções programáticas de Dilma sua última cartada coletiva. A ela caberá não mais consertar a moeda (já que FHC devolveu respeito ao dinheiro e confiabilidade aos preços), nem aprumar a autoestima do povo (já que Lula, um gigante da política brasileira, promoveu uma segunda e enorme rodada de redução da pobreza e inclusão econômica). Mas ela tem pela frente o desafio de substituir a máquina velha e desgastada das instituições econômicas que hoje emperram nossa vida pública e privada. Não basta o que Dilma já prometeu, que não é pouco: simplificar e desonerar a tributação no Brasil. É urgente alcançar bem mais do que isso, pois é de uma nova estrutura tributária e produtiva, e de controle eficiente dos gastos públicos, que estamos precisando para virar, afinal, país desenvolvido.
A conclusão é que não faltará bravura aos melhores de uma geração que um dia enfrentou paus de arara. A dúvida, como diria Calvino, é se não nos faltarão, entretanto, leveza, rapidez e exatidão, como prescrevia o literato, nas transformações requeridas neste novo milênio.

norah jones - come away with me lyrics

AROEIRA


Por quê? Porque Lula quer

Por quê? Porque Lula quer
Eliane Cantanhêde - FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - A candidata Dilma ainda está quente, e a presidente eleita Dilma já sinaliza a possibilidade de ressuscitar a CPMF - algo sobre o qual não abrira a boca durante toda a longuíssima campanha.
Isso causa, evidentemente, o maior rebuliço na opinião pública, nos partidos aliados, nos governistas, nos mercados. Há um desequilíbrio entre ônus e bônus.
O bônus econômico é questionável. Primeiro, porque a receita da Saúde se manteve praticamente estável antes, durante e depois da CPMF. Segundo, porque a arrecadação vai muito bem, obrigada. A receita cresceu duas vezes mais que a CPMF nos dois mandatos de Lula. Dilma precisa de mais imposto?
O mercado acha que não. Apesar de ter jogado todas as fichas e simpatias na candidatura de Dilma, de "esquerda", já está reagindo. Nem se sabe ainda se a CPMF voltará, mas os juros disparam na Bolsa de Mercadorias e Futuros.
E o ônus político pode ser pesado. Trazer a CPMF de volta à pauta é mexer com o bolso e com a emoção de quem paga a conta e dar de presente uma boia para a oposição se agarrar, particularmente o DEM. É também excitar o ambiente entre os dez partidos aliados, a dois meses da troca de governo, com todos eles se estapeando por cargos.
Principalmente, cria mais um teste de fogo para Dilma, que já tem mil problemas para se preocupar e cujo forte não é exatamente o jogo de cintura e a negociação política.
Se é uma temeridade política sem contrapartida econômica, resta uma conclusão: a CPMF é mais um voluntarismo de Lula. Com tantas vitórias, ele não suporta a ideia de conviver com essa doída derrota no Congresso e quer rebobinar o filme. Depois de "caçar" adversários e conclamar o "extermínio" da oposição, agora quer vingança.
Simultaneamente, Lula faz pronunciamento na TV propondo que oposição e governo respeitem-se mutuamente e divirjam de "forma madura e civilizada". Parece piada.

O amanhã de Lula, Serra e Marina

O amanhã de Lula, Serra e Marina
GAUDÊNCIO TORQUATO – O ESTADO DE SÃO PAULO
A pergunta passa a frequentar a mesa política: o que farão, sem mandato, Luiz Inácio Lula da Silva, José Serra e Marina Silva? Os cenários desenhados pela resposta, por mais coloridos que sejam, deixam espaços em branco, porquanto entre os fatores que ajudam a tornar viáveis metas na arena política há aqueles que passam ao largo da vontade das pessoas. São os fatores imponderáveis que decorrem de circunstâncias temporais. O ciclo de vida de um ator político decorre, em primeiro lugar, dos vetores de força que o sustentam, entre os quais a motivação, a história, o domínio sobre a situação e o controle exercido sobre outros atores. Quanto à motivação, Lula, Serra e Marina dão mostras de que não pretendem abandonar tão cedo a competição. Dispõe cada qual de capital acumulado para gastar em futuros empreendimentos. O presidente da República sai da liça como responsável direto pela vitória de sua candidata; o ex-governador paulista brande o argumento de que, apesar da derrota, sua candidatura propiciou a eleição de oito governadores tucanos e dois do DEM, cuja administração abrigará 52% da população e mais de 50% do produto interno bruto (PIB) nacional. Já Marina, com quase 20% dos votos válidos, levanta o troféu da força moral, sendo este, por si, patrimônio suficiente para abrir frestas nas portas do amanhã.
O presidente que dá adeus reúne condição excepcional para alargar os horizontes. Governante dos mais admirados da História brasileira, com prestígio comparável ao de Getúlio Vargas e agora arquiteto da vitória de Dilma, esse último exemplar carismático estabeleceu simbiose tão intensa com o poder que não se imagina longe dele por muito tempo. Com 84% de aprovação, Lula dispõe de densa camada de gordura para queimar no caldeirão político. Intuitivo e perspicaz, afasta-se da pupila, num primeiro momento, para que ela desenvolva sua própria identidade. Um dos maiores desafios de um governante é fixar a marca pessoal, a maneira própria de comando, diferencial indispensável para angariar credibilidade. O "paizão" se esmerará na cautela, seja para não ofuscar os espaços da nova governante - e ser queimado pelo flash midiático -, seja para ela se sentir à vontade no exercício da autoridade. Mas prezará ser solicitado para emprestar seus saberes nos campos da política, da administração e da malícia, dando conselhos, sugerindo, orientando ajustes. E não se espere o desfecho, por alguns apregoado, da "criatura voltando-se contra o criador", no figurino Fleury contra Quércia ou Pitta contra Maluf. E a razão é a morfologia partidária: o PT, mais que uma sigla, é uma religião. Impõe dogmas. Voltar-se contra o Senhor dos Senhores seria a maior traição ao partido. Um suicídio.
Diferentemente de Fernando Henrique Cardoso, que encerrou o ciclo da representação popular por achar concluída a sua missão, Lula não se vê fora da política. E mais, da política militante, que exerce com desenvoltura desde os tempos do sindicalismo. Seu hábitat é o palanque, sua voz é a corneta de mobilização e seu prazer é o convívio com a massa, de onde extrai a vitamina que oxigena seu espírito. Não conseguirá viver longe de plateias. Correrá o mundo, a partir do continente africano, e, como caixeiro-viajante, vai "vender" os programas sociais que implantou. Sua fama abrirá portões. Se quiser, poderá comandar ações internacionais nas frentes sociais e de solidariedade. Mas seu foco continuarão a ser os fundões do País, onde criou profundas raízes desde os tempos das Caravanas da Cidadania. Por isso não se descartam novas viagens de Lula pelo território nacional, agora sob o argumento de avaliar a seara plantada. E apurar a temperatura social. Nisso é um craque. Entre viagens, aqui e alhures, palestras e encontros, Luiz Inácio disporá de tempo para reorientar rumos do PT e harmonizar as alas, que vivem em dissensão. O terceiro olho - o do meio da testa - contemplará horizontes mais largos. Céu de brigadeiro ou nuvens cinzentas, nas margens de 2014, ajudarão a balizar a decisão de voltar ou não à trilha de Brasília, que tão bem conhece.
José Serra, por sua vez, dispõe de um capital que tende a se esvair ao longo do tempo. No curto prazo, os recursos acumulados têm alto poder de compra. Basta anotar que a população se dividiu quase meio a meio, com parcela ponderável adquirindo suas ações. O ex-governador, porém, amarga duas derrotas para a Presidência e, diferentemente de Lula (que também as experimentou), não tem o carisma deste. Nem a proteção do cobertor social costurado pelo lulismo. Teria à disposição daqui a dois anos o amplo espaço da Prefeitura de São Paulo. Seria certamente forte candidato, ancorado no recall da candidatura presidencial. Tal opção, porém, soaria como um passo atrás. O "até logo" com que agradeceu aos eleitores pode ser entendido como "voltarei assim que for possível". Acontece que sua visibilidade de árvore mais alta na floresta tucana faz sombra ao florescimento de novos exemplares. Seu desafio é o de se encaixar no projeto de renovação do PSDB. O partido está a exigir uma reaprendizagem na forma de fazer oposição, tentando chegar às massas, das quais nunca se aproximou.
De Marina Silva, que se saiu bem na radiografia eleitoral, espera-se papel de indutora de novos ideários, a partir do engajamento de conjuntos médios formadores de opinião e da mobilização de segmentos jovens. Dispõe ela de boa reserva de carisma, acentuado por sua estética que evoca Gandhi. Sua ação poderá ser amplificada por núcleos da intelligentzia e setores engajados na causa ambiental. Identifica-se, ainda, com a bandeira ética, que se apresenta como símbolo da louvação nacional. A acriana terá sempre boa acolhida nos palcos das grandes metrópoles e, caso mantenha a visibilidade, poderá credenciar-se como contraponto aos valores da velha política.
Lula, Serra e Marina, todos de origem modesta, terão um novo encontro marcado com o poder. Se faltarem ao compromisso, será por circunstâncias maiores que a sua vontade.

Pater, para A Tribuna


O imprevisível na arte

O imprevisível na arte
FERREIRA GULLAR - FOLHA DE SÃO PAULO - 07/11/10
Quando as regras foram abandonadas, o imprevisível tornou-se um fator essencial da criação
TALVEZ A nossa visão da expressão artística se enriqueça se tentarmos mudar a maneira usual de entendê-la. Não há dúvida de que uma compreensão cabal desse fenômeno é quase impossível.
Digo isso porque tendo a achar que não há respostas definitivas para os problemas e, particularmente, quando se trata de matéria tão complexa e ambígua quanto a arte.
Estou convencido de que a obra de arte é resultado de um processo, que tem como fator consubstancial a imprevisibilidade. Isso se tornou mais evidente na época moderna, quando a expressão artística se libertou das normas que surgiram, séculos antes, nas academias de arte.
Uma série de fatores levara ao estabelecimento de regras e princípios a que os artistas deveriam obedecer; regras essas que nasceram da convicção de que a função das artes plásticas era representar a figura humana.
Uma coisa condicionou a outra: se a arte alcançaria sua mais alta expressão representando o corpo humano, era, então, obrigatório estudá-lo objetivamente e buscar, com rigor científico, copiar cada detalhe que o constitui.
E assim surgiu um verdadeiro código capaz de orientar o artista na captação fiel das particularidades do corpo humano. Normas e proporções preestabelecidas possibilitaram conceber a figura humana ideal, representada conforme relações e harmonia que não se encontram em nenhum corpo humano real. Por essa razão, a realização artística tornou-se previsível, ou seja, um procedimento regido de antemão por regras conhecidas.
Se é verdade que o grande artista nunca se submeteu integralmente a tais regras, não resta dúvida de que, quando elas foram abandonadas, o trabalho artístico sofreu uma mudança fundamental: o imprevisível tornou-se um fator essencial da criação artística.
O início se dá no cubismo analítico, quando a representação figurativa é substituída pela construção arbitrária da forma dos objetos. Agrava-se com o abandono dos processos propriamente pictóricos, substituídos pelo uso de papel colado à tela, arame, areia, barbante. Se o artista não tem qualquer compromisso com a imitação das figuras, que fatores passam a reger a realização da obra?
Do meu ponto de vista, com o cubismo, a pintura, que antes nascia das formas naturais, passou a nascer, na tela, da imaginação do pintor. "Cézanne, de uma garrafa fazia um cilindro; eu, de um cilindro, faço uma garrafa", afirmava o cubista Juan Gris (1887-1927). Essa autonomia da linguagem levou a uma exacerbação que ultrapassou os limites: tudo o que se punha na tela virava expressão estética, fosse papel, barbante ou areia.
Em contrapartida a esse tipo de construção arbitrária, surgiu a arte geométrico-construtiva, inicialmente com o neoplasticismo de Piet Mondrian (1872-1944). Regida por linhas verticais e horizontais, limitava a composição a quadrados e retângulos em cores primárias, que se repetem de um quadro para o outro.
O grau de imprevisibilidade foi reduzido, mas não eliminado, mesmo porque não era esse o propósito do artista, uma vez que a composição, como um todo, sem o comprometimento com a representação figurativa, era "arbitrária", ou seja, o resultado possível a partir dos elementos postos em jogo. Na verdade, a arte construtiva buscou tornar necessário o que era casual.
No polo oposto a essa arte, situou-se a arte informal ou tachismo, cuja manifestação mais radical terá sido a "pintura cega", como a do italiano Vêdova, por exemplo.
No entanto, pela despreocupação total com a construção da obra, esse procedimento tentou eliminar a relação dialética entre ordem e desordem, previsibilidade e imprevisibilidade, perdendo-se assim a noção de obra, em que sempre intervém a opção do autor: o acaso criaria a obra, mas é a intervenção do artista que faz dela expressão humana, mesmo porque o puro acaso, assim como a natureza, que produz galáxias, não produz arte.
Esta, por maior que seja o grau de acaso que a constitua, é sempre resultado da intervenção do artista. Mesmo Pollock -que, dançando sobre a tela posta no chão, deixava cair sobre ela respingos de tinta que constituiriam a obra- intervinha, depois, para corrigir o que o acaso criara errado.

Pragmatismo

Pragmatismo
Merval Pereira - O GLOBO
Estamos tendo um exemplo em tempo real do estilo lulista pragmático de governar. Nos últimos dois anos, para eleger sua candidata à Presidência da República, o governo aumentou os gastos públicos e foi generoso com aposentados, pensionistas e funcionários públicos.
Aumentou o alcance e o valor de programas sociais como o Bolsa Família.
Reduziu o superávit primário e fez malabarismos fiscais para parecer que continuava cuidando do equilíbrio das contas públicas.
Atingido o objetivo, a austeridade toma conta novamente do governo, que anuncia, através do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, cotado para permanecer no governo Dilma em posição estratégica, que não há mais espaços para novas “bondades”.
Até mesmo a ideia de alterar a legislação que define o reajuste do salário mínimo, lançada pelas centrais sindicais e recebida com simpatia pela presidente eleita, foi rechaçada pelo ministro, certamente assumindo o papel de “homem mau” do governo para livrar Dilma Rousseff do problema.
Sua argumentação é irrepreensível: se há uma legislação que define o reajuste do salário mínimo pela média do crescimento do PIB dos dois últimos anos, não é possível mudá-la apenas porque, circunstancialmente, seu resultado não permite um aumento real devido ao crescimento negativo do PIB em 2009.
Também os governadores eleitos do PSB assumem a ideia de relançar a CPMF, incentivada pelo próprio presidente Lula, para tirar do futuro governo o peso de ter que quebrar a promessa de não aumentar a já alta carga tributária brasileira.
A desculpa de que a volta da nefasta contribuição é necessária porque a demanda da saúde é “infinita”, na explicação do governador eleito do PSDB Antonio Anastasia, de Minas, serve só para encobrir a real necessidade de mais dinheiro para sustentar os gastos que já foram contratados para o futuro.
O fato inquestionável é que os gastos com a saúde pública permaneceram inalterados depois da extinção da CPMF, e a arrecadação do governo acrescentou aos cofres públicos o equivalente a duas CPMFs, aumentando em cerca de 3% do PIB nos oito anos.
Esse movimento pela recriação da CPMF está colocando em ação novamente as mesmas forças que levaram à sua extinção, em 2007.
E um dos mais destacados líderes empresariais, naquela ocasião e agora, é Paulo Skaf, da Fiesp, que se candidatou ao governo de São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), numa dessas paradoxais bobagens que a política brasileira permite.
Lula, ao saber que as associações empresariais de Santa Catarina estão protestando contra a possibilidade da volta da CPMF e também da desindustrialização do estado devido à guerra fiscal, destilou todo seu ressentimento com a vitória da oposição no estado: “E eles votaram em quem?”, perguntou na reunião ministerial.
Ainda mais que o líder do movimento Xô CPMF foi o deputado federal Paulo Bornhausen, do DEM, que já está novamente em campo contra o ressurgimento da contribuição.
O mesmo pragmatismo Lula adotou na sua fala ao povo brasileiro para saudar a eleição realizada. Pediu que oposição e governo se respeitassem pelo bem da democracia, como se esse tivesse sido seu comportamento como líder político em todos os momentos em que foi derrotado.

Não foram poucos, e sempre Lula se recusou a aceitar o governo eleito contra ele como legítimo, e nem mesmo quando houve a crise institucional provocada pelo impedimento de Collor ele aceitou participar do governo de união nacional de Itamar Franco.
A oposição brasileira, que saiu da urna fortalecida em relação às eleições anteriores, mas enfraquecida no Congresso, debate publicamente qual deve ser sua atitude daqui para frente.
Como bem ressalta o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC-Rio, o poder político deslocou-se de São Paulo para Minas na atual situação.
A presidente eleita Dilma Rousseff é mineira de nascimento e soube usar esse trunfo na eleição. Certamente essa origem recuperada pela política ajudou-a a manter a diferença a seu favor nos dois turnos, aliada ao fato de que há um sentimento em Minas de frustração em relação aos paulistas, mais imediatamente devido à disputa no PSDB para a indicação do presidente que relegou Aécio Neves, como destacou o ex-presidente Itamar Franco, senador eleito por Minas.
Mas também em termos históricos, como ressalta Romero Jacob, atingindo o próprio Itamar: os mineiros ajudaram a tirar os paulistas do poder em 1930 e os recolocaram de volta em 1994.
Romero Jacob ressalta que São Paulo, principal estado brasileiro, ficou fora do comando da federação por 64 anos: de 1930 a 1994, tirando os nove meses de Jânio Quadros e o período dos militares, “isso porque mineiros e gaúchos se uniram contra os paulistas”.
O candidato do ex-presidente Itamar Franco à sua sucessão era o deputado federal Antonio Britto, político gaúcho, revivendo a velha aliança de Minas com o Rio Grande do Sul.
E, como Britto não quis, ele apoiou Fernando Henrique, esperando voltar à política do “café com leite”, e se sentiu traído pela reeleição. “Fernando Henrique fez com Itamar o mesmo que Washington Luiz fizera em 1929, quando não apoiou Antonio Carlos, presidente de Minas”, relembra.
O líder natural da oposição, depois da derrota de Serra, é o mineiro Aécio Neves que, com apoio de partidos da base governista, já ensaia articulações políticas que, se dificilmente o levarão agora à presidência do Senado, certamente plantarão sementes para futuras ações políticas mais consequentes.
Também capazes de acordos pragmáticos, partidos de oposição com os da base governista, como PSB e PP, organizam uma aliança que se contraponha à força do PT e PMDB, que querem dividir entre eles, que detém as maiores bancadas, o poder nas duas Casas do Congresso.
São movimentos incipientes, mas que já demonstram que o alto grau de fragmentação da base governista, e a inexperiência da presidente eleita nesses jogos parlamentares, podem permitir que a oposição tenha mais campo de manobra do que inicialmente previsto.
Desde, é claro, que consigam se entender entre eles.          

Dolphins Surfing

Bello, hoje na Tribuna de Minas


Cenas de Ipanema

Cenas de Ipanema
DANUZA LEÃO - FOLHA DE SÃO PAULO - 07/11/10
Levou o guarda-chuva. Um homem que faz isso é um homem medroso. Não covarde, medroso
FOI CURIOSO ver Lula anunciar a grande novidade: que o governo vai ter a cara de Dilma; preferia ter ouvido isso da própria.
Não entendi por que ele vai levar a presidente eleita para viajar; para apresentá-la ao mundo, como uma filha inexperiente? Para tirar uma casquinha de sua popularidade?
Para aproveitar e no avião fazer a cabeça dela na escolha de sua equipe? Espero que Dilma dê boas razões para que eu lhe faça grandes elogios, mas está claro que, se a CPMF voltar, não será culpa dela, mas dos governadores. Para já, a eleição acabou, a vida voltou ao normal, vamos mudar de assunto.
Outro dia entrei numa farmácia na Visconde de Pirajá -são umas cinco em cada quarteirão- e dei de cara com uma freira. Levei um susto; era freira de verdade, vestida como tal, coisa que não via há anos.
Prestei atenção a seu hábito -é como se chama a roupa que elas usam. Uma roupa comprida, de algodão marrom; na cabeça, uma espécie de véu preto, e, cobrindo a testa, um tecido branco. Na cintura, uma corda, e nos pés uma sandália de couro cru, que não ficava nada a dever às mais lindas sandálias italianas dos anos 60.
No meio de mulheres de pernas e barrigas de fora, jeans apertadíssimos, tomara que caia, tudo numa profusão de estampas coloridas, me deu uma certa paz, ver aquela mulher tão chique -a combinação de marrom, preto e branco fazia toda a diferença. E lembrei de ouvir, quando criança, falar de meninas que tinham a "vocação", isto é, que pretendiam se tornar freiras.
Será que isso ainda existe? Será que passa pela cabeça de alguma adolescente ser noiva de Cristo? Lembrei de Madre Teresa de Calcutá, que usava um hábito branco, debruado de azul, e pensei que nesse momento tão difícil pelo qual passa a moda, se algum costureiro ousasse fazer uma coleção com a sobriedade e o bom gosto das roupas das religiosas, poderia ser um caminho, nesse universo tão perdido.
Voltando: o dia estava nublado, mas quente, e quando saí da farmácia, vi que se anunciava uma chuva. Parei na porta de uma loja e fiquei olhando as pessoas; foi quando vi um senhor carregando um guarda-chuva desses dobráveis. Andava devagar, olhando cuidadosamente para o chão, imagino que para não pisar num buraco ou tropeçar.
Sou de uma geração que achava os homens diferentes das mulheres. Mais fortes, mais corajosos -"homem não chora". Mas não aquele com o guarda-chuva. Antes de sair ele deve ter olhado o tempo pela janela, achou que podia chover, e levou o guarda-chuva. Um homem que faz isso é um homem medroso. Não covarde, medroso. Ele tem medo de se molhar, de talvez pegar uma gripe que pode se transformar em pneumonia.
Os jovens não usam guarda-chuva. Eles enfrentam as tempestades achando graça, e quando se trata de dois apaixonados, costumam às vezes se abrigar debaixo de uma marquise para se beijar. E -imagino- quando chegam, enquanto ele troca de camisa, ela enxuga os cabelos com uma toalha e vai para a cozinha fazer um chá, para esquentar os corpos. E os dois riem, falando da chuva, comentando que era uma chuva molhada -nem todas são-, felizes por já estar em casa.Já aquele homem, não. Ele parecia ser só, a chuva não lhe trazia nenhuma alegria, nem mesmo um alívio porque o tempo ia refrescar, e quando chegasse em casa, não teria ninguém que lhe fizesse uma bebida quente, ou com quem pudesse -ou quisesse- falar.
A fragilidade masculina é sempre comovente, e, no caso, triste. Porque o medo daquele homem não era só da chuva, mas, também, da vida.

Por que não reescrevem tudo?

Por que não reescrevem tudo?
JOÃO UBALDO RIBEIRO - O GLOBO - 07/11/10
De uns tempos para cá, não sei se me engano, começaram a proliferar normas destinadas a controlar nossa conduta individual.
Falei em algumas aqui e cheguei a aventar a hipótese de que uma agência governamental, ou qualquer outra das muitas autoridades a que vivemos subordinados sem saber, venha a estabelecer normas para o uso do papel higiênico e garantir sua observação através da instalação de câmeras nos banheiros de uso público. Nos banheiros domésticos, imagino que seriam suficientes umas visitas incertas de inspetores com gazuas, para tentar flagrar os que se asseassem ilegalmente.
Não se trata somente de passatempo para burocratas entediados e sem mais o que fazer. Trata-se da convicção, que parece grassar truculentamente em toda parte, de que existe algo "certo", cientificamente certo e, portanto, todos devem comportar-se dentro do certo.
Se nas ciências físicas esse negócio de "certo" já é olhado com um pé atrás, nas ciências humanas, que nunca puderam aspirar ao nível de objetividade daquelas, a existência do "certo" é muito discutível, envolve necessariamente valores, valores que permeiam toda ação do homem e não são território da ciência e da objetividade.
Agora leio aqui nos jornais que a compulsão pelo certo acaba de atingir novo limite. Desta vez, por um parecer do Conselho Nacional de Educação, que opinou que o livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, deve ser proibido nas escolas públicas, por se tratar de obra racista. Sei que, entre vocês, há leitores de Monteiro Lobato que acharam que não entenderam o que acabaram de ler. Mas é isso mesmo: não pode "Caçadas de Pedrinho", porque é racista. Ou, por outra, pode, mas somente "quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil".
Eu não vou nem falar nos milhões de brasileiros de todas as idades e todas as gerações que viveram no mundo mágico criado por um dos maiores escritores universais, um gênio naquilo que fez melhor, motivo de orgulho para todos nós, Monteiro Lobato. Nem vou dedicar tempo a entender como é que foi que todos esses milhões, lendo, despreparados, livros racistas, não vieram mais tarde a abrigar preconceitos e ideias nocivas, instilados solertemente na consciência indefesa de crianças.
Monteiro Lobato, com toda a certeza, tem tantos defensores quanto leitores, não precisa de mais uma defesa.
E que diabo é "compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil". A compreensão "certa"? Qual é a compreensão certa de um fenômeno que gera até brigas ferozes entre seus estudiosos e participantes? Estará correta a visão que vê no racismo um fenômeno causado exatamente pela diferença de raças? Terá mais razão o que vê na escravidão um fenômeno basicamente econômico e só secundariamente racial? Quem resolveu isso? Qual a posição oficial do governo? O professor que orientar a leitura de "Caçadas de Pedrinho" terá que saber.
Deus ajude as pobres crianças, torturadas com o que era antigamente somente um livro que as transportava para a fantasia, a aventura e o encantamento inocentes.
Agora, ao que parece, o correto é a leitura tutelada, orientada.
Antigamente, a literatura infantil era liberdade, escape, território autônomo em que a imaginação do jovem, ainda não embotada pela experiência, o levava a uma felicidade mais tarde irreproduzível. Agora talvez se diga "você gostou disso, por aquilo; e não gostou disso, porque não é para gostar, está errado". A boa literatura dá lições como consequência, não como objetivo. Deve-se ensinar a ler por prazer, de maneira desarmada e aberta - e não há como desconfiar dos clássicos como Lobato, os clássicos são clássicos porque são clássicos.
A literatura, como a vida, não é certinha.
A ficção até que arruma os acontecimentos, lhes empresta enredos e sentidos que na vida real não têm.
Mas, como a vida, a ficção mostra contradições, reflete dilemas, exibe defeitos, ilumina a existência humana.
Quem entra num romance deve entrar sozinho, a viagem é individual e intransmissível.
E até mesmo essa conversa de necessidade de contextualizar o livro é bem discutível. No meu tempo de menino, ninguém precisou contextualizar os livros de Tarzan para aceitar a África dele, assim como não se contextualizava Robin Hood, D'Artagnan, Jorge Amado, Érico Veríssimo ou quem lá fosse que aparecesse num romance, a contextualização era automática, vinha do bom texto.
Finalmente, em que medida os defeitos não são subjetivos, ou seja, não estão apenas na mente e na percepção de quem os aponta? Existirá um racismômetro? E, mais ainda, não haverá outras áreas sensíveis? Acho que a adoção de mais controles é decorrência lógica e questão de justiça. Temos por exemplo a antropologia ultrapassada de Euclides da Cunha, o tal que falou no "mestiço neurastênico do litoral".
É tão presente nele essa visão antropológica superada (além de ofensiva a grupos raciais; eu mesmo sou mestiço neurastênico do litoral e as mulheres sempre me discriminaram) que o melhor seria mandar um antropólogo correto e moderno reescrever "Os Sertões', para quê o velho? Esperemos também alegações de violência contra mulheres (Barba-Azul), machismo (Bolinha), ódio a uma espécie em extinção (o lobo de Chapeuzinho Vermelho), exploração de deficientes verticais (os anões de Branca de Neve), apologia da bruxaria (a Bela Adormecida) e assim por diante. Olhando para trás, chego a ter um arrepio, em ver como escapamos por pouco de termos as personalidades deformadas pela leitura irresponsável dos clássicos, esses repositórios de traições, assassinatos, incestos, preconceitos, guerras, adultérios e tudo mais que o planejamento científico logo eliminará. Melhor por enquanto ficar longe deles e aguardar instruções das autoridades
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

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Fotografia por Randy Olson, a National Geographic

Paixão, em Gazeta do Povo


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