sexta-feira, outubro 01, 2010

Uma candidatura movida a gasto público

Uma candidatura movida a gasto público
Rogério L. Furquim Werneck - O ESTADO DE S. PAULO
Terão as forças políticas que se opõem a Dilma Rousseff condições de assegurar que a eleição exija segundo turno? A folgada liderança da ex-ministra-chefe da Casa Civil nas pesquisas de intenção de voto não caiu do céu. Foi fruto de gigantesca mobilização de recursos a que recorreu o governo, ao longo de pelo menos dois anos, para transformar uma candidata sem qualquer experiência eleitoral prévia em concorrente viável à Presidência da República. É o momento de olhar para trás e perceber as reais proporções da mobilização fiscal levada à frente pelo governo para montar e nutrir a ampla coalizão política que hoje sustenta o bom desempenho eleitoral da candidata.
A parte menos dispendiosa dessa operação envolveu o Bolsa Família, que adveio da consolidação e da ampliação de programas de apoio à população de baixa renda criados no governo FHC. Bem mais custosa tem sido a política de reajuste sistemático do salário mínimo a taxas substancialmente mais altas que a inflação, que tem onerado em muito as contas da Previdência e de governos subnacionais. Tampouco tem sido fácil acomodar a conta da generosidade dos reajustes salariais com que foi agraciada parte substancial dos servidores públicos federais.
Incomparavelmente mais dispendiosa, contudo, tem sido a mobilização fiscal que permitiu a cooptação da outra extremidade do extenso arco de forças políticas que hoje apoia a candidatura governista. O que se revelou realmente caro não foi angariar o apoio dos mais pobres, mas, sim, dos mais ricos. Nessa linha, merece destaque o colossal programa montado no BNDES para concessão de crédito de longo prazo, a taxas de juros pesadamente subsidiadas, bancado com recursos do Tesouro provenientes da emissão de dívida pública. Desde meados de 2008, foram emprestados pelo Tesouro ao BNDES nada menos que R$208 bilhões. Cifra equivalente a mais de 16 vezes o dispêndio anual do governo com o programa Bolsa Família. Embora tais empréstimos venham sendo contabilizados de forma artificial, para que não apareçam nas cifras de dívida líquida do governo central, o Tesouro não teve como evitar que, em decorrência dessas operações, o estoque de dívida bruta federal mostrasse forte elevação no período.
Muito eficazes, também, para cooptar o empresariado, têm sido as expectativas de favores governamentais que deverão advir do avanço da exploração do pré-sal. Especialmente importantes vêm sendo os lucros esperados com a produção de bens de capital para a indústria petrolífera, sob o guarda-chuva protecionista da exigência de que os equipamentos supridos à Petrobras e outras empresas tenham pelo menos 65% de conteúdo nacional. É claro que a prodigalidade com que tais favores vêm sendo concedidos se faz às custas de brutal encarecimento dos investimentos no pré-sal, com consequente redução do excedente da exploração que poderá vir a ser apropriado pelo governo. O que significa dilapidação de recursos públicos que deveriam ter destinação muito mais nobre, em benefício da grande maioria da população.
É essa frente ampla que vem dando sustentação à candidatura de Dilma Rousseff. Vai dos beneficiários do Bolsa Família ao grande empresariado refestelado no Bolsa BNDES e no Bolsa Conteúdo Nacional. Sua manutenção vem exigindo doses maciças e crescentes de dinheiro público. Basta ter em mente as transferências adicionais de dezenas de bilhões de reais do Tesouro ao BNDES, agora anunciadas, que bem ilustram a desfaçatez com que as contas públicas passaram a ser tratadas no país.
O governo comporta-se como se acreditasse que, com a nova alquimia contábil que desenvolveu, já não tem restrição fiscal a respeitar. Alega ter descoberto a pedra filosofal das finanças públicas: uma fórmula mágica de gestão fiscal que permite transformar emissão de dívida bruta em melhora do superávit primário.
Não há como alimentar ilusões. Esse vale-tudo fiscal é só o prenúncio do que se verá no próximo mandato. A menos, claro, que o eleitorado decida dar um basta. A partir de domingo.
Rogério L. Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio.

Alecrim


Dilma, na margem de erro

Dilma, na margem de erro
Merval Pereira – O Globo
 O que parece que está acontecendo neste momento da campanha presidencial é que a decisão está mesmo na margem de erro. A média das últimas pesquisas dá uma vantagem para Dilma Rousseff sobre a soma dos demais candidatos de 2 a 5 pontos percentuais, o que permitiria sua vitória já no primeiro turno. Mas pode faltar fôlego no final da campanha, dependendo de alguns fatores, como uma abstenção maior no Nordeste, por exemplo, que em parte foi amenizada pela decisão do Supremo Tribunal Federal de exigir apenas um documento com fotografia para o eleitor votar, sem necessidade de mostrar o título de eleitor.
Também o crescimento da candidata do Partido Verde, Marina Silva, pode ser maior do que está sendo captado por alguns institutos de pesquisa.
O Partido Verde tem levantamentos próprios que indicam que sua candidata está crescendo muito em capitais como Rio e Belo Horizonte, tirando votos especialmente de Dilma Rousseff.
Tanto os levantamentos do PV quanto os do PSDB indicam que Marina tem potencial para chegar a mais de 15% de votos válidos, os mais otimistas achando que ela pode beirar os 20%.
Mas qualquer escorregão de qualquer dos candidatos pode influenciar na decisão final do voto. Não é à toa que a candidata Marina Silva, além de visar a favorita Dilma Rousseff na questão do aborto, está também atacando o candidato tucano José Serra, afirmando que ele não tem competitividade para disputar um segundo turno.
Apresentando-se como a única alternativa real para derrotar Dilma num eventual segundo turno, Marina procura esvaziar seu adversário tucano e estimular o voto útil dos que querem derrotar o PT.
Os temas delicados serão colocados para os candidatos, como a questão do aborto, que também é uma complicação para Marina junto ao eleitorado mais progressista, que considera que ela é muito conservadora em questões morais justamente por ser evangélica.
Marina poderá receber votos de um eleitorado mais conservador, e perder votos em um eleitorado mais progressista que normalmente teria o Partido Verde como opção ao petismo.
Também o candidato tucano José Serra será confrontado com suas últimas promessas claramente eleitoreiras, como o 13osalário para o Bolsa Família ou aposentadoria integral para o funcionalismo público.
Ao mesmo tempo ele acenou com a possibilidade de mudar a idade para a aposentadoria, um tema tabu para os que estão com projetos de aposentadoria.
Mais uma vez parece que a eleição será decidida dentro da margem de erro, como vem acontecendo desde 1998, na reeleição do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
Sua eleição em 1994 foi mais tranquila, já no primeiro turno com 54,3% dos votos válidos, sem grandes emoções.
Quatro anos depois, com a crise econômica forte e a desvalorização do Real se tornando incontornável, ele foi reeleito com 53,1%, mas ficou até o último momento da apuração em suspense.
Em 2002, o candidato do PT, Lula, foi para o segundo turno com 46,4% dos votos, e em 2006 ficou com 48% no primeiro turno.
O país tem ficado muito dividido em todas as eleições. E mesmo que o presidente Lula chegue perto de 80% de popularidade, não conseguiu retirar do pleito esse caráter de divisão de forças políticas, como se verifica agora.
Há estudos que demonstram que os institutos de pesquisas tendem a aumentar os índices dos candidatos favoritos nas eleições, o que quase sempre não se confirma nas urnas.
A decisão final do eleitor fica dependendo de pequenos fatores. Por isso, o presidente Lula voltou a entrar na campanha para defender sua candidata dos ataques que vem sofrendo nos últimos dias por conta das questões delicadas — como o aborto — no último programa eleitoral.
Essa questão está abalando tão fortemente os votos dos eleitores religiosos, católicos ou evangélicos, que uma movimentação maior foi necessária para tentar apagar o foco de incêndio, e até mesmo o Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, foi convocado pelo governo para defender Dilma.
Logo ele, que se declara a favor do aborto.
É bom lembrar que na última eleição para senador no Rio o candidato do PP, Francisco Dornelles, superou Jandira Feghali nos últimos dias de campanha justamente devido à posição dos partidos de esquerda a favor do aborto.
Esse tema pode ter levado o Datafolha a captar uma reação mais intensa do eleitorado na segunda-feira, dia 27, quando registrou uma queda mais acentuada da diferença entre Dilma e os adversários.
Acontece que, no fim de semana anterior, as igrejas haviam feito pronunciamentos fortes contra o PT e sua candidata por conta do apoio ao aborto.
Segundo especialistas, as diferenças nas medições se devem às metodologias utilizadas pelos institutos de pesquisa.
O Ibope, o Vox Populi e o Sensus adotam os setores censitários do IBGE como base para as entrevistas domiciliares, indo às áreas urbana e rural do país, segundo as variáveis sexo, idade, escolaridade e renda da população.
O Datafolha utiliza o método do fluxo de ponto, com pesquisas realizadas com as pessoas circulantes em pontos específicos dos municípios, segundo as variáveis sexo e idade.
O fluxo de ponto é uma metodologia mais fluida do que a domiciliar. O National Opinion Research Center da Universidade de Chicago recomenda que as pesquisas de fluxo de ponto devam ter o dobro do tamanho amostral que as domiciliares para obterem a mesma margem de erro, com o controle mínimo das variáveis sexo, idade, escolaridade e renda para a obtenção apropriada da amostra coletada.
Por isso, a amostra do Datafolha é sempre de 10 mil pesquisados, quase o triplo dos demais institutos. Numa eleição apertada como essa, qualquer desvio de cálculo pode comprometer o resultado final. Somente no domingo saberemos quem está com a razão.

Lula dá apoio por meio de Chávez

Lula dá apoio por meio de Chávez
No Haiti, Celso Amorim monitora a crise em telefonemas a chanceler equatoriano
Demétrio Weber
 BRASÍLIA. Demonstrando total suporte ao governo do Equador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou ontem com o presidente Hugo Chávez e pediu que o venezuelano transmitisse a Rafael Correa a mensagem de apoio do governo brasileiro. Ontem mesmo, o secretário-geral do Itamaraty e ministro interino, embaixador Antônio Patriota, partiu para Buenos Aires, onde participaria da reunião emergencial convocada pela União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
Lula falou com Chávez por volta das12h30m (horário de Brasília), quando ainda não estava clara a extensão dos distúrbios no Equador e, àquela hora, recebeu informações de que a situação em Quito estaria sob controle. À noite, o presidente ainda tentou telefonar ao líder equatoriano antes de um comício em São Bernardo do Campo.
Em viagem oficial ao Haiti, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, conversou por telefone com o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, a quem também expressou a total solidariedade do governo brasileiro em defesa do regime democrático e do Estado de direito.
Em nota, Amorim mencionou a mobilização de entidades internacionais das quais o Brasil faz parte para rechaçar qualquer tentativa de golpe no Equador. Ele citou a Unasul, o Mercosul e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
“O ministro tem mantido o presidente Luiz Inácio Lula da Silva informado sobre as gestões em curso para uma resposta firme e coordenada do Mercosul, da Unasul e da OEA, a fim de repudiar qualquer desrespeito à ordem constitucional naquele país irmão”, diz o texto divulgado pelo Itamaraty.
Em outra nota, os países que integram o Mercosul — Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai — também manifestaram apoio a Rafael Correa: “Os Estados Partes do Mercosul tomaram conhecimento com profunda preocupação dos graves eventos que estão ocorrendo no Equador, no dia de hoje. As ações representam clara tentativa de sublevação constitucional por setores das Forcas de Segurança daquele país. Os Estados Partes do Mercosul condenam energicamente todo e qualquer tipo de ataque ao poder civil legitimamente constituído e à ordem constitucional e democrática do Equador”, afirma o documento.
Além dos quatro países fundadores, o Mercosul tem ainda como membros associados Bolívia, Chile, Peru, Colômbia e Equador. A nota invoca ainda o Protocolo de Ushuaia de Compromisso Democrático do Mercosul, e exige “o imediato retorno da normalidade constitucional no Equador”.
“Os Estados Partes do Mercosul endossam integralmente a posição já manifestada pela Unasul, por meio de seu secretáriogeral, Nestor Kirchner, e apoiam a realização de Reunião Extraordinária de Ministros das Relações Exteriores daquele organismo”.

Rafa Camargo, para Charge Online


Pré-sal e gastança pública

Pré-sal e gastança pública
Yoshiaki Nakano - VALOR ECONÔMICO
Segundo as manchetes da imprensa, o Secretário do Tesouro Nacional comemorou que a operação de capitalização da Petrobras resultará, em setembro, na entrada de caixa de R$ 30 bilhões, gerando o "maior superávit história". O presidente Lula festejou também a capitalização da Petrobras, como "a maior do mundo", que gerou a entrada de uma enxurrada de capitais do exterior aumentando mais de 1.100%, de setembro em relação a agosto, batendo recorde histórico. Os especuladores do mercado financeiro comemoram, na mesma proporção, a apreciação do real, que chegou a R$ 1,70 por dólar. Engordando seus polpudos ganhos acima da taxa de juros praticada no Brasil, que permanece a mais alta do mundo, quando o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos pratica taxa próxima a zero.
Essa enxurrada de entrada de capitais e a política de juros do Banco Central estão alimentando a expectativa de novas apreciações do real, que poderá se converter num processo de "profecia que se autorrealiza", porém desestabilizadora e catastrófica, no médio prazo. Veja o ritmo assustador de crescimento no déficit de transações correntes, que deverá superar US$ 50 bilhões neste ano. Tudo isto é exatamente o que a hipótese de "doença holandesa" prevê. Mais do que isso, o "boom" no setor de recursos naturais resultará num encolhimento do setor de "tradables" manufaturados, como vem acontecendo, e de forma cada vez mais acelerada no Brasil. Esse efeito destruidor do setor de manufaturados é tão maior quanto mais aberta for a conta de capitais, levando a uma especialização crescente do país em setores exploradores de recursos naturais e não "tradables". (Ver pesquisa cobrindo 90 países e 81 setores manufatureiros, Kareem Ismail, The Structural Manifestation of the "Dutch Disease": The Case of Oil Exporting Countries", IMF Working Paper, Abril de 2010).
Para aqueles que se preocupam com o desenvolvimento do país no longo prazo e com as futuras gerações, não há nada a comemorar com a descoberta do pré-sal e capitalização da Petrobras. Ao contrário, os fatos acima apontados confirmam que o Brasil não tem nem instituições, nem maturidade econômica para se beneficiar, a longo prazo da descoberta de grandes jazidas de petróleo, a exemplo de muitos outros países, como a Venezuela e México, para mencionar apenas os nossos parentes próximos. Não somos a Noruega, que institucionalizou os recursos efetivos vindos da exploração de petróleo, constituindo reserva para o futuro, ou seja, poupança para gerações futuras.
o caso brasileiro, estamos fazendo pior do que faz a Venezuela hoje ou outros países, apreciam a taxa de câmbio consumindo a receita efetiva de exportação de petróleo. O Brasil está apreciando a taxa de câmbio antecipadamente e consumindo uma receita de exportações, que poderá ou não, se materializar no futuro, provavelmente, muito depois da Olimpíada de 2014, ampliando o passivo externo e a gastança pública. É importante lembrar que a receita futura é ainda incerta e existem riscos e desafios tecnológicos não triviais para extrair petróleo em águas do pré-sal.
De janeiro a agosto deste ano, os gastos do governo federal e Banco Central aumentaram 17,2%, em relação, ao mesmo período do ano anterior. A rigor, o Tesouro Nacional está colocando, antecipadamente em caixa, R$ 30 bilhões, próximo de 1% do PIB, para pagar os aumentos galopantes de consumo do governo, particularmente aumento de salários do funcionalismo, dado desde 2008. Lembro que somente esses aumentos representam muito mais do que as receitas futuras agora antecipadas. Não estamos consumindo uma receita efetiva de exportações de petróleo, só isto seria desastroso para um país que poupa e investe apenas 19% do PIB. Estamos antecipando receita futura para pagar gastança passada!
Com a apreciação da taxa de câmbio, além de consumir uma receita futura incerta, estamos destruindo o setor manufatureiro brasileiro que foi construído por gerações passadas, no último século, com a entrada de importações, particularmente de países que mantêm a sua taxa de câmbio ultra-depreciada, como a China. Fábricas são fechadas para se transformarem em importadoras. Muitos setores industriais, num processo regressivo, são obrigados a se especializar em atividades exploradoras de recursos naturais. Veja o exemplo do setor de soja, cujas fábricas de óleo foram fechadas, tornando o Brasil exportador de grãos. Da mesma forma, o setor siderúrgico, que vinha alcançando notável renovação e avanço tecnológicos depois da privatização, está se tornando, cada vez mais, exportador de minério de ferro, e o Brasil de exportador, de repente, está importando em torno de 30% do aço consumido.
Quando analisamos para que setores da indústria os investimentos estão sendo canalizados, dados do IBGE mostram um quadro típico da "doença holandesa": aumentaram, de 1996 a 2008, nos setores baseados em recursos naturais e de petróleo, e diminuíram nos setores de maior valor agregado e intensivos em tecnologia. Não é a toa que o saldo comercial desses últimos setores, que em 2005 era de cerca de US$ 5 bilhões, tenha se transformado num déficit, que deverá atingir US$ 60 bilhões.
Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP.

Atraso no pagamento de seguro não anula automaticamente o contrato

STJ – SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA – DECISÃO - 01/10/2010 - 08h03min
Atraso no pagamento de seguro não anula automaticamente o contrato
O simples atraso no pagamento não autoriza que a seguradora anule automaticamente o contrato, sem que o segurado seja notificado da suspensão da proteção enquanto estiver em atraso. A decisão é da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em recurso da Itaú Seguros S/A.
O julgamento consolida posicionamento do Tribunal que exige a constituição da mora pela seguradora por meio da interpelação do segurado.
No caso específico, o contrato de seguro foi renovado de forma automática com o pagamento do primeiro boleto, em 29 de outubro de 2001. O acidente ocorreu em 15 de dezembro. Para a Itaú Seguros, o atraso da parcela vencida em 28 de novembro teria anulado automaticamente o contrato.
O Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) reconheceu a obrigação de indenizar da seguradora porque se trataria de atraso aleatório de uma parcela. Para o TJPR, a Itaú se recusou a receber o pagamento por não ter enviado ao segurado a apólice e os boletos bancários, conforme previa expressamente a Proposta de Renovação Automática. “Concordando com essas condições, basta pagar a 1ª parcela anexa. As demais, se houver, serão enviadas com sua apólice”, afirmava o contrato.
Segundo o TJPR, o atraso do segurado só ocorreu por culpa da seguradora. E, além disso, a demora no pagamento da parcela de prêmio não gera o cancelamento automático do contrato de seguro.
O ministro Aldir Passarinho Junior confirmou o entendimento do tribunal local. Ele esclareceu que o STJ firmou jurisprudência nessa linha em outro caso relatado por ele na Segunda Seção – órgão que reúne as duas Turmas que tratam de direito privado.
A Turma também rejeitou o recurso da Itaú Seguros quanto aos juros não previstos em contrato. Segundo o relator, na vigência do Código Civil anterior aplica-se 0,5% de juros ao mês, passando à forma do artigo 406 do Código Civil atual, a partir de sua vigência. A seguradora pretendia aplicar a regra anterior por todo o período, já que o acidente ocorreu na vigência do código revogado.
Coordenadoria de Editoria e Imprensa

J. Bosco para O Liberal


Cercado, Correa decreta exceção

Cercado, Correa decreta exceção
Presidente denuncia tentativa de golpe após rebelião de policiais e ameaça dissolver Congresso
QUITO – O Globo
 Queimando pneus e lançando bombas de gás lacrimogêneo, milhares de policiais e militares ocuparam quartéis e aeroportos em todo o país em repúdio à aprovação da lei por decreto presidencial, na véspera. Na confusão, uma pessoa morreu e pelo menos seis ficaram feridas, segundo fontes oficiais. Ruas foram fechadas em Quito. Houve relatos de saques e confrontos de estudantes em Guaiaquil e Cuenca. No interior, policiais de ao menos sete províncias aderiram aos protestos, e manifestantes tomaram a sede do governo provincial de Cotopaxi, afirmando que só voltariam ao trabalho quando lhes fossem devolvidos os direitos eliminados pela lei - parte de um pacote de austeridade do governo. Mais tarde, os rebeldes invadiram a TV estatal para tentar interromper o sinal da emissora, que veicula notícias críticas aos manifestantes.
Numa tentativa de pôr fim aos protestos, Rafael Correa se dirigiu ao principal quartel de Quito, onde fez um discurso acalorado, chamando os revoltosos de traidores.
- Não darei nenhum passo atrás, se querem tomar os quartéis, se querem trair sua missão de policiais, traiam. Se querem matar o presidente, aqui está, matem se têm vontade. Se querem destruir a pátria, aqui está - declarou Correa, que em seguida se referiu aos policiais como "bandidos ingratos".
Os manifestantes começaram, então, a ameaçar Correa, que buscou refúgio dentro do quartel. Usando máscara antigás, o presidente chegou a ser atingido por uma garrafa, e teve de ser hospitalizado ao apresentar problemas respiratórios causados por bombas de gás lacrimogêneo lançadas pelos policiais.
Enquanto isso, o chefe das Forças Armadas, Ernesto Gonzalez, anunciou que a instituição continuava leal ao presidente.
- Nós estamos dentro de um Estado de lei. Somos leais à autoridade máxima, que é o presidente - disse à imprensa.
Atendendo os chamados do chanceler equatoriano, Ricardo Patino, que pediu à população que "resgatasse o presidente" do hospital militar, partidários de Correa saíram às ruas para demonstrar apoio ao governo. Cerca de 800 deles se reuniram em frente ao palácio presidencial, enquanto outros tentavam entrar no hospital, de onde Correa não havia saído até a noite por pressão de policiais que circundavam o prédio. Houve confronto entre os dois grupos, e alguns partidários de Correa jogaram pedras em policiais que os impediam de entrar no edifício. Do lado de dentro, o presidente se reuniu com representantes dos policiais revoltados, mas afirmou que não negociaria com os dissidentes até que as manifestações fossem encerradas. Correa também rejeitou qualquer operação de resgate, dizendo querer evitar mais violência, e acusou a oposição de tentar depô-lo.
- É uma tentativa de golpe de Estado da oposição. São certos grupos alocados nas Forças Armadas e na polícia, basicamente da Sociedade Patriótica - disse à Rádio Pública, em referência ao partido do ex-presidente Lúcio Gutiérrez, que governou o país entre 2003 e 2005.
Gutiérrez negou à Agência EFE estar por trás da iniciativa dos dissidentes.
 Diante dos acontecimentos no país, a Organização de Estados Americanos (OEA) realizou uma sessão extraordinária, onde aprovou uma resolução favorável a Correa. A União das Nações Sul-Americana (Unasul) também convocou reunião de emergência em Buenos Aires para discutir a crise.
A onda de caos no Equador ocorre num momento em que o presidente enfrenta um impasse com parlamentares do seu próprio partido. A Aliança País, partido de Correa, não tem maioria no Legislativo, e os próprios deputados governistas vêm barrando a aprovação de alguns dos principais projetos propostos pela Presidência. Por telefone, de dentro do hospital, Correa confirmou que estuda a dissolução do Congresso - possibilidade prevista na Constituição aprovada em 2008. Segundo a Carta, se o Legislativo esbarrar num impasse, o presidente pode aplicar a chamada "morte cruzada" e dissolver a Assembleia Nacional, convocando eleições gerais.
Sem segurança policial, as atividades do Congresso foram suspensas, e os rebeldes cercaram e invadiram a Casa, alegando intenção de defender a democracia.
Alarmados, líderes regionais saem em socorro de Correa
Chefes de Estado da Unasul se reúnem em caráter emergencial em Buenos Aires
Fernando Eichenberg
 WASHINGTON. A ameaça contra o presidente do Equador, Rafael Correa, causou alvoroço na diplomacia latino-americana. Enquanto chefes de Estado corriam para Buenos Aires para uma reunião de emergência da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) nesta madrugada, em Washington, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovava uma resolução de solidariedade ao líder equatoriano. O secretário-geral da organização, José Miguel Insulza, defendeu a atuação enérgica de governos e instituições multilaterais "para evitar que o golpe de Estado se consume":
- É muito importante que se vejam todos os países da América unidos contra isto.
Chávez convoca seus aliados por meio do Twitter
Com discursos incendiários, aliados do governo de Quito saíram em socorro do líder equatoriano. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que manteve constante contato ontem, por telefone, com Correa, declarou seu apoio. Pelo Twitter, o venezuelano alardeou: "Estão tentando derrubar o presidente Correa. Alerta aos povos da Aliança Bolivariana (para as Américas, Alba)! Alerta aos povos da Unasul! Viva Correa!".
- Seria grande ingenuidade pensar que tudo isso está relacionado à diminuição salarial - apontou Chávez, em entrevista à Telesur, certo de articulações políticas para depor seu amigo.
Outro velho aliado de Quito, o presidente boliviano, Evo Morales, pediu que os chefes de Estado da região viajassem à capital equatoriana para "salvar a vida de Rafael Correa".
O governo da Colômbia alertou para a necessidade de uma solução pacífica para restabelecer a ordem pública e institucional. Sem perder a chance de alfinetar os Estados Unidos ao se pronunciar contra o que viu como uma tentativa de golpe, o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, lembrou a Washington que "a omissão a tornaria cúmplice" de um golpe. Fidel Castro também se pronunciou:
- O golpe, na minha opinião, já está perdido. Obama e Hillary não terão escolha a não ser condená-lo - disse, referindo-se ao presidente Barack Obama e à secretária de Estado Hillary Clinton.
O embaixador brasileiro na OEA, Ruy Casaes, leu em voz alta para o plenário da organização o comunicado oficial do Itamaraty, e acrescentou:
- Não podemos ficar de braços cruzados diante de fatos que ameaçam a democracia em um dos países-membros. Nossa resposta deve ser imediata, unânime e contundente.
Além dos países sul-americanos, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, expressou preocupação com a integridade física de Correa e garantiu o reconhecimento da ONU a seu governo. França e Espanha também condenaram "a alteração da ordem constitucional equatoriana" e pediram calma.

Roriz tentou contratar genro de ministro

Roriz tentou contratar genro de ministro
Gravação mostra que ex-governador do DF negociou com advogado para tentar afastar Ayres Britto de julgamento
Jailton de Carvalho e Francisco Leali
 BRASÍLIA. O ex-governador Joaquim Roriz tentou, no início deste mês, contratar um advogado que é genro do ministro Ayres Brito, do Supremo Tribunal Federal (STF), para tentar garantir uma decisão favorável à sua candidatura ao governo do Distrito Federal. A negociação foi registrada em vídeo gravado pelo próprio Roriz. As imagens mostram o candidato se dizendo disposto a pagar pelo serviço que o advogado Adriano Borges Silva pretendia vender. Preço: R$ 4,5 milhões.
Produto: um voto favorável de Britto para Roriz, ou o impedimento do ministro na votação.
A negociação garantiria vitória do ex-governador. Adriano é marido e sócio de Adrielle Ayres Britto, filha do ministro, também citada na negociação.
O ministro negou participação e disse que, quando soube da tentativa de contratação, orientou o genro a “pular fora” porque se tratava de uma manobra de Roriz. Semana passada, por cinco votos a cinco, o STF não conseguiu decidir se a candidatura de Roriz, impugnada com base na lei da Ficha Limpa, deveria ser mantida. Roriz acabou desistindo da candidatura. Ayres Britto votou contra Roriz.
Encontro ocorreu em 3 de setembro Roriz e Adriano se encontram em 3 de setembro, quando o STF se preparava para votar o recurso de Roriz e, assim, decidir se o ex-governador poderia permanecer candidato. O encontro entre Adriano e Roriz foi marcado por Eládio Carneiro, advogado do exgovernador no STF. Às 17h37m, Roriz entrou numa sala, acendeu a luz e se sentou à frente de uma mesa. Adriano o seguiu e iniciou a negociação: — Eu vim aqui mais para trazer essa solução, e o governador é que vai ver o que vai poder me ajudar para contemplar este pessoal (...) Nos outros processos em que eu peguei governador ... Estou trabalhando o (ex-senador) Expedito Junior, o pró-labore foi cobrado um milhão e meio e três no êxito né (...)... Não estou colocando isso como um valor, estou pedindo que o governador me ajude pelo menos a pagar uma parte do meu pessoal que tá trabalhando — pede Adriano.
Em outro trecho, Roriz cobrou a garantia da futura decisão de Ayres Britto. Naquele momento, a expectativa era que os dez ministros estivessem rachados.
Metade entendia que a lei da Ficha Limpa valeria para este ano.
Assim, Roriz não poderia ser candidato. A outra metade entendia que a lei só deve ser aplicada nas próximas eleições. Bastaria Ayres Britto se declarar impedido, ou votar contra a lei, para assegurar a vitória de Roriz.
— Eu gostaria da sinceridade sobre o voto do seu sogro? — cobrou Roriz.
— A única coisa que eu tô precisando é que ele não leve. Com isso aí, ele não vai participar. Tá impedido — diz Adriano.
— Então é o êxito — conclui Roriz.
Advogado pediu R$ 1,5 milhão adiantado Roriz afirmou ainda que uma decisão liminar favorável à candidatura já seria suficiente. A conversa se arrastou e, mais uma vez, Adriano pediu R$ 1,5 milhão imediatamente, e mais R$ 3 milhões no fim do processo.
O advogado cobrou o pagamento pelo menos quatro vezes.
Roriz alegou que estava sem dinheiro e não aceitou pagar adiantado. Adriano disse que iria conversar com a mulher.
— Então, vou conversar com a minha sócia. Vou ter que compartilhar a situação com ela, porque a decisão é conjunta. (...) Vai ser um desgaste muito grande. A imprensa vai bater muito.
Segundo o advogado Eri Varella, um dos auxiliares de Roriz, o ex-governador nada pagou.
Varela disse que hoje entrará com notícia-crime no STF contra Ayres Britto, Adriano e Adrielle.
— O que ele (Adriano) estava fazendo era extorsão — disse Varela.
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