quinta-feira, agosto 12, 2010
Entrevistas do Jornal da Dez da Globo News - Candidatos a Presidente
Entrevistas do Jornal da Dez da Globo News - Candidatos a Presidente
Papai
Papai
11 de agosto de 2010 - Roberto DaMatta - O Estado de S.Paulo
Um papel social importante é regularmente assinalado. Na semana que passou, comemoramos o seu lado positivo. Mas mesmo vivido pelo avesso, o papel é discutido, como ocorre nos tristes casos em que o pai destrói o filho, que o castiga em excesso ou, pior que isso, que o renega. No lado simbólico e exemplar, invocamos o Pai para glorificá-lo na sua projeção como o Pai Eterno que tudo criou; ou o pai mortal que, sendo regular e mediocremente bom e mal, como é o caso em geral, ajuda - é certo - a vender cuecas e gravatas, mas também a pensar em certas coisas...
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De papai guardei duas memórias. Ele não foi um homem de palavras ou canções. Pouco disse, muito agiu. Sempre no sentido de preservar e cuidar da família ("nada pode faltar na minha casa!"); jamais pulou a cerca: foi o maior marido "caixão branco" que vi na minha vida; nada me disse quando, um dia, tive uma dificuldade sexual corriqueira (e fundamental) que nos torna ternamente meninos diante das mulheres; mas, um dia, quando notei a janela do meu quarto ser forçada, testemunhei sua coragem quando ele, de um salto, escancarou-a no intuito de pegar o ladrão que tentava violar o nosso lar.
Quando entrei no ginásio numa Juiz de Fora de bondes e apenas duas piscinas (a do Sport e a da casa do Mario Assis onde, com o Mauricio Macedo e o saudoso Naninho, tomávamos banho depois de peladas de basquetebol), meu pai, um tanto solene, presenteou-me com uma caneta Parker. Nela, estava incrustado o meu nome. Aquela caneta me levou à escrita - um desejo e comando ocultos daquele pai provedor e elegante. Ali eu recebi a pena que me livra, com as mentiras que conto, de todas as penas desta vida.
Quando, nos idos de 1963, para o risco de Harvard, ia partir para uma Nova Inglaterra fria e desconhecida, papai me presenteou com um sóbrio sobretudo que era uma confirmação de autonomia, era um voto de sucesso para a carreira que tomava corpo e era, eis o que vejo hoje com olhos marejados de lágrimas, a definitiva, a tão necessária - a tão magnânima Bênção paterna. Pois o que é a "bênção" senão a prova explícita de um amor incondicional e, por isso mesmo, pronto para sair de cena?
Esse casaco me agasalhou nas nevascas. Deu-me o calor e o conforto moral contra as covardias da minha insegurança. Usei-o quando fiz meus exames para o doutoramento; vesti-o quando caminhava nas ruas de Cambridge e, solitário, aprendia a ser antropólogo. Ou antropófago dos fatos da vida. Ao escrever e tentar me proteger, estou com papai. Bonito, forte, amante da praia e dos esportes. Fiel à sua família e à sua casa. Tão honesto e puro que, mesmo sendo fiscal do consumo, só nos legou uma casa. Nós, seus cinco filhos e filha, o enterramos com um choro de orgulho e amor. Fôramos todos abençoados por esse baiano que, entre muitas coisas, jamais visitou os Estados Unidos, pois - como me disse uma vez - jamais poderia pôr os pés num país que não gostava de negros.
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Um dia eu virei e - digo-o porque é importante - jamais deixei de ser pai. Estava escrito e a despeito de minhas dúvidas, determinado. Segui a mesma sina e tive dois filhos e uma filhinha. A metade da prole paterna, como manda o figurino de um rapaz que queria ser pai e tinha aspirações politicointelectuais. Como politicointelectual queria ser a luz dos explorados e era favorável ao que então se chamava de "reformas de base" e hoje dizem ser o PAC. E que jamais saem do papel. Tinha fantasias de ser um grande "conscientizador" (eis uma outra palavra da época) e sair pelo mundo, renunciando-o, para exercer a carreira dos comunistas que - naquele momento - figuravam como andarilhos e santos. Não sei aonde foram parar. Como pai e marido, segui o pai e como pai fui menos calado e certamente tão insatisfatório e faltoso quanto Renato, meu genitor. Pois quem como pai é pleno, se a plenitude supõe uma igualdade que o papel de doador da vida, instaurando uma dívida inafiançável, suprime de saída? Como ser pai (ou mãe) se num momento de nossas vidas fomos deuses e o nosso êxtase - num leito que também é o Jardim do Éden - produziu o sopro da vida?
Quando meu filhos nasceram, eu me senti mais como um deus do que como um mero reprodutor. Tinha uma consciência tão forte, tão brutalmente presente da minha capacidade de conceber vidas que esse dom englobava a mera paternidade social e cartorial de dar apenas o nome, ao lado da transformação de marido em papai.
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Sou hoje avô, ou como falamos carinhosamente no Brasil, sou pai duas vezes. De fato, testemunhar o nascimento dos filhos dos filhos é uma bênção: um raro e bíblico privilégio. Os filhos dos filhos nos fazem reviver o dom da vida sendo reproduzida pelos que fizemos. Pode haver algo mais gracioso?
Mas em verdade eu vos digo, queridos leitores, não há nada, mas nada mesmo mais abençoado do que ter a consciência de ser um doador de vidas e por elas responder. De ter o poder de distribuir a Bênção do amor e de assim desejar, do fundo do coração, que todos os seus filhos tenham uma longa vida e sejam muito - sejam eternamente felizes.
OIT alerta para surgimento de ‘geração perdida’ de jovens sem emprego
OIT alerta para surgimento de ‘geração perdida’ de jovens sem emprego
Daniela Fernandes
De Paris para a BBC Brasil
O número recorde de quase 81 milhões de jovens desempregados no mundo em 2009, devido à crise econômica, cria o risco do surgimento de “uma geração perdida, constituída de jovens que abandonaram o mercado de trabalho e perderam as esperanças de poder trabalhar e ganhar a vida decentemente”, alerta a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em um relatório divulgado nesta quarta-feira.
O risco da existência de uma “geração perdida” afeta sobretudo os jovens de países desenvolvidos, onde “novos candidatos que ingressam no mercado de trabalho se somam às filas de desempregados”, disse à BBC Brasil Sara Elder, economista da OIT e autora do relatório Tendências mundiais do emprego dos jovens 2010.
O número de jovens desempregados nos países ricos passou de 8,5 milhões em 2008 a 11,4 milhões em 2009, o que representa um aumento de 34,1%.
No caso dos países em desenvolvimento e pobres, onde muitos trabalham de maneira independente e em setores informais e não podem contar com benefícios sociais, os jovens desempregados “perdem a oportunidade de sair da pobreza”, afirmou a economista.
“Nos países em desenvolvimento, os efeitos da crise econômica ameaçam agravar os déficits de trabalho decente dos jovens, tendo como resultado um aumento do número de jovens trabalhadores bloqueados na pobreza, prolongando o ciclo da pobreza no trabalho em pelo menos uma geração”, declarou o diretor-geral da OIT, Juan Somavia.
Já nos países ricos, muitos jovens desempregados acabam optando por prolongar seus estudos superiores após ficarem pelo menos um ano inativos. “Mas muitos se revoltam com a situação, se sentem desencorajados e abandonam a procura de um trabalho”, disse a economista.
Programas para jovens
Não há números globais em relação aos jovens que desistem de ingressar no mercado de trabalho, mas ela citou os exemplos de alguns países.
Na Grã-Bretanha, segundo a autora do estudo, 25% dos jovens inativos se sentem desencorajados para procurar um emprego.
Esse é o índice mais alto entre as economias desenvolvidas. Na Espanha, 10% dos jovens desempregados perderam as esperanças de encontrar um trabalho.
Elder disse que muitos países desenvolvidos, como os da União Europeia, criaram programas de formação e adotaram medidas fiscais para subsidiar a contratação de jovens.
“O perigo agora são as pressões para retirar esses incentivos”, afirmou, se referindo às restrições orçamentárias para reduzir os elevados déficits públicos dos países europeus.
Segundo o relatório, o número de jovens com idade entre 15 e 24 anos desempregados aumentou em 7,8 milhões no mundo entre 2007 e 2009, totalizando 80,7 milhões de pessoas.
A título de comparação, durante o período de dez anos que precedeu a crise atual (de 1996/97 a 2006/07), o número de jovens desempregados no mundo aumentou em 1,91 milhão.
A taxa de desemprego dos jovens passou de 11,9% em 2007 a 13% em 2009, a maior alta em termos percentuais dos últimos 20 anos em que a OIT dispõe de estatísticas internacionais.
A organização prevê que o índice de desemprego entre os jovens começará a diminuir somente em 2011.
Neste ano, a OIT estima uma leve alta na taxa, que deve atingir 13,1% dos jovens economicamente ativos.
Brasil
Embora o estudo da OIT retrate a situação apenas por regiões do mundo e não por países, a economista afirmou que o Brasil “é um caso muito especial e representa um bom exemplo de resposta à crise” do desemprego dos jovens.
Elder citou o programa Bolsa-Família, que teria contribuído, segundo ela, para a redução da taxa de desemprego dos jovens no Brasil.
O índice, no segundo trimestre deste ano, é de 17%. No mesmo período de 2007, a taxa era de 18,7%.
Na América Latina e Caribe, o número de jovens desempregados aumentou 11,4% entre 2008 e 2009, totalizando 8,8 milhões de pessoas.
Leandro e seu vídeo são o Juruna 2.0
Leandro e seu vídeo são o Juruna 2.0
Elio Gaspari
Era uma vez um índio chamado Juruna. Ele escandalizou o país no fim dos anos 70 com um simples gravador. O xavante ia aos gabinetes de Brasília, apresentava seus pleitos, ouvia o blá-blá-blá dos burocratas e gravava. Quando Juruna tocou suas fitas o Brasil percebeu que não era só ele quem estava sendo feito de bobo e tratado como um estorvo. Juruna transformou-se numa celebridade e, em 1982, tornou-se o primeiro índio a sentar na Câmara dos Deputados. Deu-se à bebida e morreu no anonimato em 2002.
Para felicidade geral, existem hoje a internet e o YouTube. O garoto Leandro dos Santos de Paula, que vive no conjunto Nelson Mandela, em Manguinhos, perto de uma área conhecida como Faixa de Gaza, gravou em vídeo uma breve conversa com Lula e Sérgio Cabral durante uma visita dos dois ao bairro e tornou-se um Juruna 2.0.
Leandro queixou-se ao Nosso Guia de que na área esportiva da obra que os maganos visitavam não podia jogar tênis. Tomou a primeira, de Lula: "Isso é esporte da burguesia, porra." (Se Leandro tivesse o chassi de Serena Williams, ele não arriscava uma cortada dessas.) Na condição de pai dos pobres, aconselhou: "Por que você não faz natação?"
"Porque a gente não pode entrar na piscina." Por quê? "Porque não abre para a população."
Nosso Guia virou-se para o governador Sérgio Cabral e ensinou:
"No dia em que a imprensa vier aqui e pegar um final de semana com essa porra fechada, o prejuízo político será infinitamente maior do que colocar dois guardas aqui."
Maravilha. A patuleia paga a piscina, não pode entrar, e Lula se preocupa com a possibilidade de a imprensa flagrar a cena. Sem imprensa, tudo bem. Ademais, o que ele teme é o "prejuízo político". O da Viúva é desprezível.
Leandro reclamou do barulho que o Caveirão (o blindado com que a PM demonstra sua força) faz à noite na sua rua. Entrou em cena o governador Sérgio Cabral, chamando Leandro de "otário" e "sacana". A intervenção de Cabral foi claramente intimidatória, mas o jovem não baixou a bola. Afinal, como no caso de Juruna, sua ação foi premeditada. Ele é freguês das comemorações triunfalistas do governador. À diferença do índio, ele faz o registro em vídeo.
Cabral sustenta que Leandro está sendo usado por interesses eleitorais. Engano. Foram ele e Nosso Guia quem usaram a autoridade que a choldra lhes confere para desfilar vulgaridades, o resto é registro. Como diria o bandido Elias Maluco, "não esculacha". Em seu benefício, foi arrogante, mas não chamou Leandro para a briga, como fez Ciro Gomes em Tianguá, nem estapeou um eleitor em Campo Grande, como fez o governador André Puccinelli. (Nos dois casos, os doutores haviam sido chamados de "ladrão".)
Bem-aventurados os leandros desta vida, bem-aventurado o YouTube e glória eterna ao Juruna. O xavante, depois de eleito deputado, fez um discurso chamando todos os ministros do governo João Figueiredo de "ladrões". O general invocou os sentimentos do ministro do Exército e quis que o ministério o processasse: "Eu quero todos! Quem não fizer, eu demito!" Onze fizeram, e chegou-se a temer uma crise com o Congresso. Deu em nada. O Brasil tinha começado a melhorar.
Em nome dos fatos
Em nome dos fatos
Miriam Leitão - O Globo
Inflação fora de controle quem enfrentou foi o Plano Real. O acumulado em 12 meses estava em 5.000% em julho de 1994. Quando a inflação subiu em 2002, no último ano do governo Fernando Henrique, pela incerteza eleitoral criada pelo velho discurso radical do PT, ficou em 12%. Ela foi reduzida pelo instrumental que o PT havia renegado. Isso é a História. O resto é propaganda e manipulação.
O PT e o governo Lula têm dito que receberam o país com descontrole inflacionário e a candidata Dilma Rousseff repetiu isso na entrevista do Jornal Nacional. O interesse é mexer com o imaginário popular que lembra do tormento da inflação. A grande vitória contra a inflação foi conquistada no governo Itamar Franco, no plano elaborado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, como todos sabem. Nos primeiros anos do governo FH houve várias crises decorrentes, em parte, do sucesso no combate à inflação, como a crise bancária. Foi necessário enfrentar todas essas ondas para garantir a estabilização.
Nada daquela luta foi fácil. A inflação havia derrotado outros cinco planos, e feito o país perder duas décadas.
Todos sabem disso. Se por acaso a candidata Dilma Rousseff andava distraída nesta época, o seu principal assessor Antonio Palocci sabe muito bem o que foi que houve. Ele ajudou a convencer os integrantes do partido a ter uma atitude mais madura e séria no combate à inflação. O PT votou contra o Plano Real e fez oposição a cada medida necessária para consolidar a nova ordem. As ideias que o partido tinha sobre como derrotar a alta dos preços eram rudimentares.
Em 2002, a inflação subiu principalmente nos dois últimos meses, após a eleição.
A taxa, que havia ficado abaixo de 6% em 2000, subiu um pouco em 2001 e ficou quase todo o ano de 2002 em torno de 7%. Em outubro daquele ano, o acumulado em 12 meses foi para 8,5%. Em novembro, com Lula eleito, subiu para 10,9% e em dezembro fechou em 12,5%. É tão falso culpar o governo Fernando Henrique por aquela alta da inflação — de 12,5% repita-se, e não os 5.000% que ele enfrentou — quanto culpar o governo Lula pela queda do PIB do ano passado, que foi provocada pela crise internacional.
Recentemente, conversei com um integrante do governo Lula que, longe dos holofotes e da campanha, admitiu que essa aceleração final foi decorrente do fato de que a maioria dos empresários não acreditava que o governo Lula fosse pagar o preço de manter a estabilização.
Esse foi o mérito do PT. Foi ter contrariado seu próprio discurso, abandonado suas próprias propostas, por ter percebido o valor da estabilização. Esse esforço foi liderado por Palocci e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. A inflação entraria numa rota de descontrole que poderia até ter destruído o esforço feito durante os oito anos anteriores se o governo Lula tivesse persistido nas suas propostas. A História foi essa e não a que a candidata Dilma Rousseff apresentou.
No caso da dívida, também a versão apresentada em palanque é diferente dos fatos. Por medo do governo Lula houve fuga de capitais e dificuldade de renovação de empréstimos a empresas brasileiras. Na negociação com o FMI, o Brasil acertou um empréstimo em que quase todas as parcelas seriam liberadas no governo Lula. Era para garantir um começo mais fácil para a nova administração. A conquista da confiança na condução econômica pela dupla Palocci-Meirelles fez com que a maior parte do dinheiro do Fundo nem fosse sacada porque os financiamentos voltaram. No final de 2008, houve de novo uma drástica suspensão do crédito externo para empresas brasileiras, mas não se pode culpar o governo Lula por isso. Como se sabe, foi a crise bancária americana e europeia. Com alguns números se pode construir versões fantasiosas, ou se ter a coragem de dizer a verdade, mesmo em época eleitoral, para não negar o mérito do passado, e mostrar o que se avançou.
Há virtudes na política econômica do começo do governo Lula. Nos últimos tempos há muitos defeitos também. Mas o importante agora é constatar que não é verdade que o país tenha crescido abaixo da média dos outros durante o governo Lula por culpa do governo anterior. O Brasil cresceu 1% em 2003. Depois cresceu forte em 2004. Nos anos de 2005 e 2006 o PIB variou 3,16% e 3,9% e o mundo crescia bem mais.
Não é possível responsabilizar o governo anterior por isso, evidentemente. Depois de crescer 6% e 5% em 2007 e 2008, o Brasil teve uma pequena queda do PIB, de 0,19%, no ano passado, por causa da crise externa e não de qualquer erro do governo Lula. Um número melhor do que o da Rússia, e abaixo dos outros Brics.
Enfim, a História é o que a História é. Essas distorções da realidade de época de campanha são tentativa de manipulação da opinião pública. Ofendem a memória e a inteligência das pessoas.
Seria preferível que a candidata governista falasse da boa notícia de que em 2010 o país cresce forte, com inflação baixa, e criando emprego. E não que menosprezasse as vitórias de países menores ou que falsificasse tão grosseiramente os fatos recentes da História do Brasil.
Prática de Dança, Austrália
Fotografia por Brendan McCarthy
Amigos há mais de 40 anos, Mary Hall, 85, Gerald Kavanagh, 80, a prática de dança de salão em uma noite quente de primavera em Bendigo, Austrália.
O cardeal e o ditador
O cardeal e o ditador
JACKSON DIEHL
O papel do cardeal Jaime Ortega - na foto, como promotor dos direitos humanos em Cuba começou com as Damas de Branco. Em abril, o arcebispo de Havana ficou furioso quando, em dois domingos sucessivos, brutamontes do regime castrista sitiaram a marcha semanal das mulheres que protestam contra a prisão de parentes considerados dissidentes políticos. Ortega mandou uma carta ao presidente Raúl Castro dizendo que “seria covardia da Igreja tolerar isto em silêncio”, disse-me ele.
Ortega e outros líderes da igreja cubana enviaram muitas cartas a Raúl Castro e a seu irmão, Fidel, durante anos. O que foi diferente agora, disse o cardeal, é que recebeu resposta. Em uma semana, Raúl comunicou-lhe que as Damas de Branco poderiam continuar com suas marchas. Em um mês, Ortega teve seu primeiro encontro com Raúl, que começou por contar-lhe que planejava libertar todos os prisioneiros políticos de Cuba.
Desde então, o cardeal, de 73 anos, encontrou-se mais três vezes com o presidente cubano, de 79, para falar sobre a libertação dos presos políticos e as possibilidades de mudança no país.
Não “reforma”, muito menos “democracia” — Raúl não gosta dessas palavras.
Mas Ortega se convenceu de que “isto é algo novo”. A libertação dos presos, argumenta, “abre possibilidades”. Até agora, 24 dissidentes foram levados a Espanha, EUA e Chile; o regime se comprometeu a soltar mais 28 dos mais de 100 que ainda amargam a prisão.
O que é possível? Esta se tornou uma importante questão à medida que a não reforma de Raúl avança e o Congresso americano examina um projeto de lei que retalha o que resta do embargo, levantando todas as restrições a viagens a Cuba e liberalizando ainda mais as exportações de alimentos. No dia 1° , Raúl anunciou que o governo autorizaria mais negócios privados, em parte para ocupar os cerca de 1 milhão de cubanos — 20% da força de trabalho — que Havana quer dispensar.
Uma análise é que isto é o replay da estratégia padrão do castrismo para tirar o regime de enrascadas. A situação da economia cubana está ainda pior hoje: a produção de alimentos caiu 7,5% no primeiro semestre e a última safra de cana-de-açúcar foi a pior em um século. Na última vez que a ilha enfrentou uma crise econômica tão severa, no início dos anos 90, Fidel afrouxou os controles sobre a empresa privada.
Tão logo a economia se recuperou, ele fechou muitos dos negócios que autorizara.
Libertação de prisioneiros também não é novidade: Castro o fez em 1969, 1979 e 1998.
Ainda assim, alguns em Cuba e no exterior acham que Raúl está em meio a algo diferente. Ele entende, dizem eles, que o regime stalinista não pode sobreviver na forma atual, e pretende modernizálo e estabilizá-lo antes que ele e seu irmão morram. Raúl enfrenta forte resistência da parte de Fidel, que — depois de quatro anos de ausência —, começou a aparecer em público dias após a primeira libertação de prisioneiros.
Mas Raúl, diz-se, está determinado a levar à frente, metodicamente, um programa de mudanças que se estenderá por anos, não meses.
O cardeal Ortega parece se alinhar com a hipótese mais otimista. Ele estava em Washington na semana passada para receber um prêmio, em sua segunda visita em dois meses — vinha se encontrando com membros do governo Obama e do Congresso. Ele sugere que uma grande parte da agenda é voltada para a melhoria das relações com os EUA, de modo que a economia cubana possa ser revivida com o comércio bilateral e os investimentos americanos.
“Ele tem desejo de uma abertura com o governo americano”, acha Ortega. “Ele repetiu-me várias vezes que está pronto para conversar com os EUA diretamente, sobre todos os assuntos.” Isto inclui as reformas democráticas que o governo Obama exige como condição para melhorar as relações? “Tudo tem de ser passo a passo. Não é realista começar pelo fim. O mais importante é dar os passos no processo.” Não duvido da sinceridade do cardeal.
Mas acho difícil crer que Raúl seja o Gorbatchev cubano. Ele se parece com Yuri Andropov, um dos idosos e frágeis antecessores de Gorbatchev, que sabia que o sistema soviético era insustentável, mas não tinha determinação para transformá-lo. Ortega pode estar certo sobre seu diálogo com Raúl ser algo novo em Cuba. Mas o tempo de mudança real — e de maior engajamento dos EUA — ainda não chegou.
quarta-feira, agosto 11, 2010
O dia em que o PT vetou Ulysses Guimarães
O dia em que o PT vetou Ulysses Guimarães
JORGE BASTOS MORENO – O Globo
Antes mesmo do primeiro turno da primeira eleição direta no país, pós-ditadura, o então coordenador da campanha de Lula, Plínio de Arruda Sampaio, já conversava com os partidos de esquerda e centro-esquerda.
Elegante, extremamente elegante, Plínio começou, com a autorização de Lula, a conversar com o então presidente do PMDB, Jarbas Vasconcelos, sobre o apoio do partido e do candidato Ulysses Guimarães.
O PMDB era o maior partido, e Jarbas, portanto, era o dirigente mais assediado. Lula, além de concentrado em vencer Collor, tinha um motivo forte, mas altamente prosaico, para não querer conversar com Jarbas. Eu sabia, já tinha ouvido isso dele várias vezes, embora só quase três décadas depois é que me autorizou a publicar:
— Eu tenho vergonha até hoje do Jarbas Vasconcelos, por causa de um acidente ocorrido quando ele me visitou em casa. Eu me lembro disso como se fosse hoje. Tinha um sofazinho velho rasgado lá na minha casa. Tinha vergonha de que as pessoas fossem lá por causa do meu sofá. Botava um cobertor em cima para esconder a parte rasgada. Um dia chega lá em casa o Carlos Villares, dono da Fábrica Villares, para conversar comigo, e o sofá lá todo rasgado. Tratei logo de meter um cobertor em cima... Jarbas Vasconcelos, eu me lembro, estava sentado no sofá. Eu morava numa casinha três por três. Cada quarto tinha três por três. Eu estava lá conversando com o Jarbas, e, de repente, uma baratona deste tamanho vai passando, e o Jarbas a esmaga com o pé! (Lula conta o episódio escondendo o rosto feito menino envergonhado).
A barata era o empecilho!
Extremamente fiel e discreto, Jarbas contou apenas a Ulysses que estava sendo procurado pelo coordenador de Lula. E, assim mesmo, quase às vésperas do encerramento do horário eleitoral, por uma questão de respeito ao velho comandante. Ulysses gostou da conversa porque gostava muito de Lula. E, como último candidato a usar o último programa eleitoral, fez um discurso carregado de emoção e desabafo contra o regime militar que ajudara a derrubar, como fizera na promulgação da Constituinte, quando exibiu todo o seu "ódio à ditadura; ódio e nojo" e proclamou que "a sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram". No encerramento da campanha, Ulysses falou de Vladimir Herzog, Santos Dias da Silva e de todos os assassinados pela ditadura, mas centrou sua homenagem num estudante da Universidade de Brasília —- com voz embargada, gritou por uma geração inteira o nome de Honestino Guimarães. E, nas últimas palavras, deu a senha para o eleitor do segundo turno:
-- Não vote no arrebatado, no irresponsável.
Plínio e Jarbas comemoraram. Mas, na semana seguinte à eleição, o deputado José Genoino recusou o apoio do PMDB, dizendo que Ulysses Guimarães e seu partido representavam o que havia de pior na política brasileira.
Lula cedeu ao veto de Genoino, e Plínio pediu desculpas a Jarbas e a Ulysses.
Lula cedeu ao veto de Genoino, e Plínio pediu desculpas a Jarbas e a Ulysses.
Na campanha que finalmente o elegeu, perguntei a Lula qual era o seu maior arrependimento político:
— Teria feito tudo outra vez. Só não teria cometido o erro de não ter ido conversar com Ulysses Guimarães no segundo turno de 89. Esse é um erro que assumo. Não gosto de ficar dividindo responsabilidades nos erros. É mais fácil conseguir dividir responsabilidades nas glórias do que nos erros. Se tivesse acreditado na aliança com o PMDB, teria bancado. Achava que não ajudaria. Por coincidência, perdi do Collor com a diferença de votos que teve o Ulysses Guimarães.
Genoino chorou na morte de Ulysses, mas não pôde pedir perdão diante do caixão do velho porque Ulysses desapareceu no mar.
Barreira provoca mal-estar entre brasileiros e paraguaios na fronteira
Barreira provoca mal-estar entre brasileiros e paraguaios na fronteira
Blocos de concreto foram levantados entre as cidades de Ponta Porã e Juan Pedro Caballero
A instalação de blocos de concreto em um trecho da fronteira que corta as cidades de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, e Juan Pedro Caballero, no Paraguai, gerou mal-estar entre os dois lados, com troca de acusações que envolvem desrespeito à fronteira e uma suposta concorrência desleal. As autoridades paraguaias investigam denúncias de que comerciantes brasileiros teriam levantado "barreiras" em diversos pontos da fronteira, durante a madrugada desta terça-feira.
O Itamaraty confirma ter sido comunicado do episódio pelo governo paraguaio e que enviou um representante da comissão de fronteiras para avaliar de perto a situação. De acordo com jornais locais, os brasileiros estariam "descontentes" com o número crescente de moradores de Ponta Porã que cruzam a fronteira com Juan Pedro Caballero em busca de produtos com preços mais em conta.
Os paraguaios, por sua vez, acusam o lado brasileiro de impedir o trânsito de pessoas entre os dois países, "interferindo" de forma ilegal na linha de fronteira. Até o momento, nem o governo paraguaio nem o brasileiro conseguiram identificar os responsáveis pela instalação dos blocos de concreto. "Nenhuma das duas prefeituras sabe quem pode ter levantado essa barreira, por isso estamos um pouco confusos", disse à BBC o cônsul paraguaio em Ponta Porã, Luis Sosa.
Sosa, que participou das reuniões realizadas pela delegação da chancelaria paraguaia, garantiu que "houve um acordo para destruir todas as barreiras". "Não há ruptura das relações, não há ressentimentos e está tudo bem encaminhado", acrescentou.
Concorrência
O presidente da Associação Comercial de Ponta Porã, Evaldo Pavão, disse que a situação no limite entre as duas cidades está "tensa", mas negou que a decisão de bloquear parte da fronteira tenha partido da entidade, como chegou a afirmar a imprensa paraguaia. "Existe, sim, uma insatisfação dos comerciantes brasileiros com o desrespeito à fronteira, que prejudica o comércio aqui em Ponta Porã", disse.
O motivo, segundo ele, é a valorização do real, que deixa os produtos brasileiros mais caros frente aos concorrentes paraguaios. Além disso, diz ele, os paraguaios "pagam bem menos impostos". "Você imagina atravessar a rua e encontrar uma carga tributária de 10%, enquanto aqui pagamos 40%", diz. "É uma concorrência desleal", completa.
Segundo a imprensa paraguaia, os comerciantes brasileiros estariam especialmente preocupados com a construção de um grande centro comercial do lado paraguaio, cujo investimento chega a US$ 3,5 milhões.
O episódio das barreiras fez reacender o debate sobre a fiscalização da fronteira entre Brasil e Paraguai, que cobre uma extensão de aproximadamente 1.300 quilômetros. Em muitos trechos, como na região de Ponta Porã com Juan Pedro Caballero, o limite entre os dois países se torna confuso, com ruas que atravessam os dois países sem demarcação clara.
História antiga
A construção de barreiras por parte do Brasil na fronteira com o Paraguai não é uma história nova. Em abril de 2007, a Receita Federal em Foz do Iguaçu, na fronteira com Ciudad del Este, a cerca de 360 quilômetros de Assunção, anunciou a construção de um muro para frear o contrabando e a imigração ilegal.
O projeto estabelecia que a barreira de separação passaria por debaixo da Ponte da Amizade, que liga os dois países sobre o Rio Paraná. O anúncio causou uma onda de indignação no Paraguai. O projeto, batizado pela imprensa paraguaia de "muro da vergonha", acabou não se concretizando. * Colaborou Eduardo Arce, da BBC Mundo no Paraguai
Missões de paz mobilizam brasileiros
Missões de paz mobilizam brasileiros
Desde 1956, voluntários do Brasil participam de ações fora do país. Veteranos e novatos são movidos pelo mesmo sentimento: a vontade de ajudar o próximo
Isidoro Baçon, Luciano Moreira, Lugans Maia, Daniel Silva e Rinaldo Feijó poderiam ser chamados de segunda geração dos voluntários da pátria. Em 1956, quase um século depois de voluntários participarem da Guerra do Para guai, brasileiros começaram a integrar as tropas das missões de paz das Nações Unidas. Baçon fez parte do grupo que participou da primeira operação com soldados nacionais. Com apenas 20 anos, foi para o Egito, no Batalhão Suez. De lá para cá se passaram cinco décadas, mas o sentimento dos “novatos” é o mesmo do veterano: participar de uma missão é algo que fica marcado para sempre.
Baçon não seguiu carreira no Exército depois que voltou da missão. Ele conta que, em 1956, cumpria o serviço obrigatório no Rio de Janeiro, quando topou a proposta de ir para a “viagem fantástica”. “Ninguém sabia muito bem o que faríamos lá. Tudo era mistério”. O evento foi tão marcante na vida dele que ele fundou a primeira associação no Brasil para reunir ex-combatentes do Batalhão Suez. Ele também é fundador de um museu que lembra a história das participações do país em missões de paz.
De malas prontas
Nesta segunda-feira os paranaenses Lugans Maia, 24 anos, e Daniel Silva, 22 (Foto acima), embarcarão para uma missão no país mais pobre das Américas. No Haiti ajudarão as Nações Unidas a manter a esta bi lidade na região. Apesar da pouca idade, os dois garantem que esta é a realização de um sonho. A expec tativa é grande e a aflição das mães também. Mas com uma boa conversa, elas estão orgulhosas por terem “heróis na família”. Silva está de casamento marcado para quando voltar, daqui a seis meses. Os dois se alistaram logo que a oportunidade surgiu. Passaram por uma seleção e treinamento, que inclui o aprendizado do idioma crioulo haitiano, falado pela maioria da população. (PC)
Século 21
Dos mais de 50 anos que separam a primeira missão do Brasil na Organização das Nações Uni das (ONU) até o reconhecido trabalho no Haiti, o país mudou muito. Nesta última década o governo tem se esforçado para ampliar seu papel nas Nações Unidas e conquistar o tão requisitado as-sento permanente no Conselho de Segurança do órgão. E o panorama é o mesmo em to do o mundo. Cada vez mais na ções têm participado. Em toda a história da ONU esse é o momento em que a instituição mais participa de missões de paz: 15, com 100 mil pessoas envolvidas.
O capitão do Exército Luciano Moreira fez parte, em 2006, da Missão da ONU para a Estabilização no Haiti. Durante seis meses participou de uma rotina pesada que incluía 28 dias de trabalho e dois de descanso. Ele comandou um pelotão de 30 homens da infantaria, linha de frente das ações. Na partida do Brasil, o grupo tinha um misto de expectativa e ansiedade, porque o Haiti ainda era um território desconhecido, com histórico re-cente de golpes militares e com conflito civil armado em curso.
O que mais chamou a atenção do capitão foi a miséria. Não há Estado no Haiti, não há luz, água e esgoto. “O fato que mais me marcou foi quando dei doces para uma família e as crianças comemoraram como se fosse a melhor coisa do mundo. Este foi o único dia em que voltei para a base e chorei”, conta Moreira.
Sudão
O coronel Rinaldo Feijó acabou de retornar do Sudão, país africano vizinho do Egito. Por um ano ele ajudou a mediar conflitos entre o exército do país e rebeldes do sul que desejam a separação. Após este período em um dos locais mais pobres do mundo, onde milhões de pessoas já morreram vítimas da guerra civil, Feijó voltou com o sentimento de viver em uma nação abençoada. “As diferenças culturais são enormes. A parte norte do Sudão vive sob a influência do islamismo e a sul é formada por diversas tribos.”
Tanto o coronel Feijó quanto o capitão Moreira afirmam que o Brasil é bem visto nas missões de que participa. No caso do Haiti, por exemplo, os brasileiros são coordenadores da Minustah e em algumas favelas somente os militares daqui conseguiram realizar uma ocupação pacífica. No Sudão, os brasileiros ocupam cargos de comando e assessoria. A percepção dos dois é confirmada pela ONU. “Os brasileiros demonstram alto grau de profissionalismo e ganharam a admiração dos atores envolvidos”, diz Giancarlo Summa, diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil.
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