sábado, agosto 21, 2010
Construam a mesquita do Marco Zero
Construam a mesquita do Marco Zero
Fareed Zakaria - colunista e editor-chefe da edição internacional da revista Newsweek e escreve quinzenalmente em ÉPOCA
Desde os atentados do 11 de setembro, a esquerda e os conservadores concordam que a solução duradoura para o problema do terrorismo islâmico é prevalecer na batalha de ideias para desacreditar o islã radical, a ideologia que motiva homens jovens a matar e ser mortos. A vitória na guerra ao terror vai ser conseguida quando uma versão dominante moderada do islã – que seja compatível com a modernidade – triunfar totalmente sobre a visão de mundo de Osama Bin Laden.
Como diz Daniel Pipes, especialista em Oriente Médio e conservador, “o papel dos Estados Unidos é menos oferecer suas próprias visões que ajudar os muçulmanos com visões compatíveis, especialmente em questões como relações com não muçulmanos, modernização e os direitos das mulheres e das minorias”. Com essa finalidade, logo no começo de seu mandato, George W. Bush deu início a um esforço para se aproximar do islã moderado. De lá para cá, Washington financiou mesquitas, institutos e centros comunitários que tentam modernizar o islã em todo o mundo. Exceto, pelo visto, na cidade de Nova York.
A cidade está debatendo se um centro islâmico deveria ser construído a duas quadras do local onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center antes do 11 de setembro, mesmo depois de a prefeitura ter dado aval. Se vai haver um movimento reformista no islã, ele vai emergir de entidades como o instituto proposto. Grupos como o que está por trás desse projeto deveriam ser incentivados, não demonizados.
Os islâmicos que querem erguer a mesquita perto do local do 11 de setembro têm de ser incentivados
O homem que vai construir a mesquita, o imã Feisal Abdul Rauf, é um clérigo muçulmano moderado. Ele disse uma ou outra coisa bem crítica sobre a política externa americana – mas é coisa que é possível ler a qualquer hora no blog conservador Huffington Post. Sobre o islã, as visões de Rauf são claras: ele condena regularmente todo tipo de terrorismo. Fala sobre a necessidade de os muçulmanos viverem pacificamente com todas as outras religiões. Defende direitos iguais para as mulheres, critica leis que de alguma forma punam não muçulmanos. Seu último livro, O que está certo com o islã é o que está certo com a América, afirma que os EUA são, na verdade, a sociedade islâmica ideal, pois promovem a liberdade para indivíduos de todas as religiões. A sua visão sobre o islã é o pesadelo de Bin Laden.
A questão muito maior que a mesquita do Marco Zero de Nova York levanta é, claro, a da liberdade de religião nos EUA. Muito foi escrito sobre isso. Apenas recomendaria o discurso do prefeito nova-iorquino, Michael Bloomberg, sobre o assunto. Eloquente e corajoso, deveria tornar-se leitura obrigatória em toda sala de educação cívica.
O discurso de Bloomberg contrasta com a bizarra decisão da Liga Antidifamação (ADL) de se alinhar publicamente aos que preferiam ver a mesquita longe do Marco Zero. O estatuto da LAD, uma ONG inicialmente destinada a combater o antissemitismo, busca “pôr fim para sempre à discriminação ou ao escárnio injusto e ilegítimo contra qualquer seita ou grupo de cidadãos”. Mas Abraham Foxman, diretor da LAD, disse que todos precisamos respeitar os sentimentos das famílias do 11 de setembro, mesmo se forem sentimentos preconceituosos. “A angústia delas permite que tenham posições que outros classificariam como irracional ou intolerante”, afirmou Foxman.
Primeiro, as famílias têm opiniões diversas sobre essa mesquita. Afinal, dezenas de muçulmanos foram mortos no World Trade Center. Foxman acredita que não haja problema ser intolerante se as pessoas acham que sejam vítimas? A angústia dos palestinos, então, permite que eles sejam antissemitas? Há cinco anos a LAD me honrou com o prêmio Hubert H. Humphrey de Liberdades da Primeira Emenda (à Constituição americana, que garante as liberdades individuais). Fiquei emocionado por receber um prêmio de uma organização que eu admirava. Mas não posso mais ficar com ele. Devolvi a bela plaqueta e o valor de US$ 10 mil que veio com ela. Peço que a LAD reveja a sua decisão. Admitir um erro é um preço pequeno a pagar para recuperar uma reputação.
VEJAM O EXCELENTE PROGRAMA DA GLOBO NEWS SOBRE O ASSUNTO NO LINK: http://globonews.globo.com/videos/v/barack-obama-causa-polemica-com-projeto-de-construcao-de-centro-islamico/1321801/#/todos/20100820/page/1
O donatário
O donatário
MÍRIAM LEITÃO O GLOBO - 20/08/10
O presidente Lula se despedindo da Presidência, no programa eleitoral de Dilma Rousseff, com a música “entrego em suas mãos o meu povo” me lembrou o pior Brasil. O Brasil dos donatários, das capitanias hereditárias. Como se não fosse suficiente, ainda há o discurso que infantiliza o povo brasileiro com essa história de pai e mãe do povo.
Desde “Coronelismo, enxada e voto”, de Victor Nunes Leal, o Brasil conhece bem esse seu pior lado. O do patrimonialismo brasileiro, do qual nasceram outros defeitos: o populismo, o paternalismo, o clientelismo. Com a manipulação das massas, os donatários do Brasil mantêm o poder e o entregam aos seus herdeiros.
Além do “deixo em suas mãos”, há ainda a ameaça continuísta implícita: “Mas só deixo porque sei que vais continuar o que eu fiz.” Como se Lula pudesse decidir não passar a Presidência à pessoa que for eleita este ano.
Ninguém duvida que apelos emocionais funcionam em campanha eleitoral. Mas não garantem eleição. Difícil esquecer até hoje o contagiante “Lula lá, nasce uma estrela, Lula lá”. E ele perdeu aquela eleição. São muitas as razões do voto e a história eleitoral brasileira é curta demais para que sejam traçadas leis gerais.
Mas espera-se que ela não se explique pelo retrocesso, por essa visita ao passado.
A economia é decisiva na maioria das eleições, mas nem sempre. A economia americana estava num dos seus melhores momentos ao final do governo Bill Clinton e mesmo assim Al Gore perdeu. É bem verdade que Al Gore quis distância de Clinton por causa do escândalo Monica Levinsky.
Se por acaso o então presidente democrata fizesse uma campanha paternalista, cantando que entregava o povo americano nas mãos de Gore — como se fosse sua propriedade — certamente causaria rejeição ainda maior. Lá, eles não acham que eleitores passam de mão em mão como uma massa sem vontade própria. Nem mesmo ocorreria a um presidente decidir pelo partido quem deve concorrer à sua sucessão, porque existe o saudável ritual das primárias em que os candidatos a candidatos enfrentam o desafio de convencer seus próprios militantes. Aqui, nem governo nem oposição escolhem postulantes de forma transparente.
O Brasil está crescendo forte, a inflação está em queda — foi zero em julho — o crédito se expandindo, o consumo aumentando, o desemprego caindo.
Alguns números são mais elevados por causa da base de comparação, mas há crescimento de fato. A crise de 2008/2009 derrubou a economia e, da perspectiva da campanha governista no Brasil, a recuperação está ocorrendo na hora exata para ajudar o governo na campanha. Todos esses fatores são mais poderosos na definição do voto do que apelos populistas.
É a sensação de conforto econômico que fortalece a campanha da continuidade.
Na onda mistificadora na qual todos no governo estão empenhados, o Ministério da Fazenda divulgou ontem um pretenso estudo para provar que a atuação do BNDES garantiu que o país evitasse uma recessão de 3,2% no ano passado e sustentou 4 pontos percentuais do crescimento deste ano.
A História econômica recente do Brasil mostra que o crescimento do PIB tem duas características: não sustenta taxas altas por muito tempo; não tem grandes quedas. No ano passado, vários países do mundo tiveram quedas grandes do PIB como os 7% da Rússia e do México. O Brasil ficou no -0,2%. Pela visão do ministro Guido Mantega, foi a ação do BNDES.
Mas na crise da Ásia todos os países que tiveram colapsos cambiais enfrentaram recessões enormes: Coréia, -7%; Indonésia, -17%. O Brasil não teve resultado negativo. E não teve esse jorrar de dinheiro do Tesouro para as empresas brasileiras através do BNDES. Segundo Mantega, esses empréstimos subsidiados com dinheiro do Tesouro garantiram 7% de crescimento. Esse número é tão científico quanto o ocultismo.
Ninguém discute a importância do BNDES na economia brasileira, é claro que ele é importante. O problema são os desvios que reforçam o patrimonialismo: a ideia de que o Tesouro pode ser apropriado por alguns. Reduzir o custo de capital, incentivar empresas, estimular a economia o banco sempre fez. Só nos seus piores momentos, como na época dos militares no poder nos anos 1970, escolheu donatários do dinheiro público, concentrou recursos nessa proporção, transferiu impostos para alguns poucos como está fazendo agora.
É por isso que os grandes empresários brasileiros estão tão contentes e querem mais do mesmo. O presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, na série de ideias obsoletas que exibiu na entrevista que concedeu esta semana ao “Valor Econômico”, disse que quer não um, mas três BNDESs.
Pode-se imaginar que está sendo sincero. Pediu que o governo “feche o país por um tempo.” Pode-se imaginar por quê. Com a economia fechada, funciona melhor o sistema das capitanias hereditárias, do mercado interno entregue como donataria para alguns proprietários. Há 20 anos o Brasil começou a abrir a economia, por isso já se pensava, a esta altura, que ninguém teria mais a coragem de fazer um pedido como esse. A crise de 2008/2009 e as eleições de 2010 viraram uma espécie de licença para propor qualquer velharia: dos subsídios ao fechamento do país. A campanha governista nas eleições está fortalecendo a ideia de que o país não tem um líder, nem um presidente; tem um dono.
Um donatário.
Novas elites
Novas elites
Nelson Motta
Os atiradores de elite são os melhores, não podem falhar. A tropa de elite é formada pelos mais aptos e bem treinados. A elite acadêmica é o motor do progresso científico e tecnológico, a artística produz as obras que constroem a cultura nacional, a política governa o país. Cada elite profissional vale pela excelência de seus integrantes. Em qualquer lugar do mundo é uma honra, um objetivo de vida, estar entre os melhores no seu trabalho.
Mas, quando Lula fala, elite é sempre sinônimo de malvado e injusto, de inútil e explorador, de odiar os pobres e gostar de ver o povo passar fome. De maior inimiga da democracia.
Que elite é essa? Não é a dos charutos e vinhos, das madames consumistas e filhos playboys, carros importados e amigos picaretas, dos coronéis rurais e urbanos, dos veteranos mamadores nas tetas do Estado. Esta está com Lula, o obedece no Congresso, financia suas campanhas, apoia seus programas econômicos e sociais. Seria até indelicado reclamar.
As novas elites não nascem na academia, nem no empreendedorismo e nem no mercado produtivo. Como os militares, nos tempos da ditadura, elas estão em toda parte, mas agora vêm dos sindicatos e da militância, são gestores, investidores com o capital alheio, novos poderosos com acesso a verbas e programas. Elas não se baseiam em excelência ou competência profissionais, mas em fidelidade, ideologia e militância. Não é ilegal ou imoral ser dessa elite, só engorda.
Mas a novidade da elite lulo-popular não acabou com a velha elite sarno-patrimonialista, juntou-se a ela nos privilégios. Lula não se contenta em multiplicar os pães e os peixes, multiplica as elites. Em 2020 teremos acabado com a pobreza, basta Dilma vencer. Com tantas elites, daqui a pouco vai nos faltar povo e não teremos mais a quem culpar pelo Brasil ainda não ser, mas só estar próximo, da perfeição - como o nosso sistema de saúde pública, nossos aeroportos e estradas.
Os novos fumadores de charutos e bebedores de vinhos se juntam aos antigos inimigos e brindam à vitória do velho slogan de Zé Dirceu quando era líder estudantil. Ao povo no poder.
Constituinte exclusiva é salto no escuro – Editorial / O Globo
Constituinte exclusiva é salto no escuro – Editorial / O Globo
É característica das Constituições a intocabilidade. Quanto mais perene o texto da Carta, maior a estabilidade jurídica de uma sociedade. Não que se deva, de forma dogmática, decretar o engessamento de qualquer constituição. Tanto que há regras, em todo país democrático, para sua alteração - geralmente exigências difíceis de atender, pois uma revisão constitucional, por menor que seja, precisa refletir um consenso construído na sociedade, depois de exaustivo debate.
Não foi por outro motivo que a atual Constituição brasileira, a da redemocratização, promulgada em 1988, previu um prazo para depois do qual pudesse ser revista sem as tais exigências: ou seja, adesão de três quintos (60%) dos votos na Câmara e no Senado, com dois turnos de votação em cada Casa. Na fase de revisão era possível aprovar propostas em turno único, em sessões unicamerais do Congresso, por maioria absoluta (50% mais um voto). O sábio dispositivo pressupunha a correta ideia de que, passado aquele período, não mais seria possível, como não é, alterar a Carta, a não ser pelos caminhos usuais.
A ideia de uma "miniconstituinte" ou "constituinte exclusiva" para a realização da propalada reforma política surgiu no PT, foi incluída no programa do partido e transposta para as propostas de governo da candidata Dilma Rousseff. No debate entre candidatos promovido quarta-feira pela "Folha de S.Paulo"/UOL, Dilma defendeu o mecanismo, com apoio de Marina Silva e crítica, rápida, de José Serra. Para o candidatos tucano, não se deve confiar na exclusividade dessa constituinte.
Tem razão o tucano, porque há no PT frações que rezam pela cartilha chavista, e não pode ser esquecido que Chávez e seus seguidores Evo Morales e Rafael Correa, ao assumir, no auge da popularidade, conseguiram convocar constituintes, para começar a garrotear a democracia - e com base na lei, de maneira diabólica.
Muito difícil pensar que o mesmo se repita no Brasil, devido à solidez das instituições republicanas do país, ao contrário das venezuelanas, bolivianas e equatorianas. E também todos os candidatos mais importantes fazem profissão de fé na democracia. Mas sempre vale a lembrança.
A questão a saber é se existem condições para uma miniconstituinte destinada a rever a legislação da vida político-partidária. Reeleição? E em quantos mandatos consecutivos? Financiamento público de campanha? Votação em lista? Ora, como inexiste conhecimento amplo sobre estes e outros temas, logo, também não há consensos. Há uma exceção no financiamento público, rejeitado majoritariamente nas pesquisas de opinião. O povo pode não saber de detalhes do mecanismo, mas intui que ele não acabaria com o caixa dois.
Portanto, o mais sensato, sem prejuízo de debates durante a campanha, é não levar a sério a proposta de constituintes exclusivas, mais ainda para tratar de temas ainda obscuros. Se projetos de alteração da Carta não conseguem ser aprovados será erro crasso abaixar as barreiras para viabilizá-los. Assemelha-se a aumentar o tamanho do gol para se desempatar uma partida.
Atalhos desse tipo sempre levam a saltos no escuro.
União deve adiar de novo capitalização da Petrobras - Capitalização da Petrobras fica mantida para setembro, diz Mantega Segundo ministro da Fazenda, prazos anunciados serão cumpridos. Mantega não confirmou os valores sugeridos para os barris.
União deve adiar de novo capitalização da Petrobras
Empresas dão preços muito diferentes para barril de petróleo; Vale passa estatal
Luiza Damé, Geralda Doca, Gustavo Paul e Patrícia Duarte
BRASÍLIA e RIO
Confirmada a grande disparidade de preços entre as avaliações das reservas a serem cedidas à Petrobras, o governo voltou a trabalhar com a possibilidade de adiar pela segunda vez a capitalização da estatal, prevista para 30 de setembro, ou seja, às vésperas das eleições presidenciais. As indicações foram dadas por auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e por intermédio de nota conjunta dos órgãos federais que representam a União nas discussões. Tiveram como estopim a entrega formal à Agência Nacional do Petróleo (ANP), ontem, da avaliação do preço do barril de petróleo pela certificadora Gaffney, Cline & Associates. Este estudo e o levantamento contratado pela Petrobras foram enviados ao governo federal.
Os valores não foram confirmados, mas rumores do mercado apontavam que o preço sugerido à ANP ficaria entre US$ 10 e US$ 12, o dobro do que teriam sido auferido pela consultoria da estatal, entre US$ 5 e US$ 6. Essa divergência surpreendeu o governo, que torcia por avaliações mais próximas, e colocou-o numa saia justa. A capitalização já havia sido adiada em junho, de julho para setembro.
Haverá impacto no superávit fiscal
Para fazer a capitalização da estatal, a maior da história do país, em 30 de setembro, o governo marcou para 30 de agosto a assinatura do contrato de cessão onerosa de até cinco bilhões de barris. Na segunda-feira, seria divulgado o custo do barril. Mas, para isso, os técnicos terão de trabalhar no fim de semana para chegar a um denominador comum e que caiba no limite do aumento de capital autorizado pela Assembleia Geral da Petrobras, de R$ 150 bilhões. Segundo um auxiliar direto do presidente Lula, o tema deverá se tratado com todo o cuidado: — Mesmo o momento adequado de se fazer isso (a capitalização) carece de uma discussão. O presidente está se apropriando agora dos elementos. Vamos tomar cuidado para que seja uma ação de grande repercussão.
Perguntado se a data de 30 de setembro estava mantida, o auxiliar foi direto: — Nada disso está tão acertado.
Pouco antes das 20h 30m, foi enviado outro sinal de que os prazos poderiam ser dilatados, por meio de nota conjunta da Casa Civil e os ministérios da Fazenda e de Minas e Energia. Os órgãos informaram que a Petrobras e a ANP enviaram os estudos das certificadoras, mas pontuaram que “o governo solicitou informações adicionais para a ANP e a Petrobras, e aguardará a conclusão dos laudos de certificação para a definição dos parâmetros da cessão onerosa”. O problema é que, à tarde, a ANP havia divulgado nota dizendo que os estudos finais só seriam entregues no fim do mês — quando o governo previa assinar o contrato de concessão.
O preço do barril é essencial na capitalização. Definirá quanto vale a reserva a ser cedida pela União à petrolífera e de quanto será o aporte do Tesouro, controlador da estatal, no aumento de capital. O governo não tem meta de valor do barril , mas os parâmetros precisam ser convenientes para as duas partes. Para a estatal, quanto mais baixo o preço, melhor, pois pagará menos pela cessão onerosa.
Para a União, quanto mais caro, mais ela será ressarcida pela oferta.
Mas a possibilidade de o preço do barril vier elevado, acima de US$ 10 por exemplo, preocupa técnicos que atuam na operação. Entre outras razões porque a capitalização poderia superar, e muito, o limite de R$ 150 bilhões autorizado pela Assembleia Geral da companhia para o aumento total de capital, considerando o aporte da União e dos outros acionistas.
— Se os preços vierem muito elevados, alguém vai ter de parar para fazer contas — afirmou uma fonte.
A composição passa ainda pelo volume de barris a serem cedidos, que poderá ser menor que o previsto. Outro problema é o impacto que a capitalização terá no superávit primário (economia para pagamento de juros), pois envolverá emissão de títulos públicos para a União acompanhar o aumento de capital da Petrobras.
A disparidade de avaliações reacendeu a disputa interna nos bastidores da Esplanada. Uma ala do governo voltou a defender o adiamento do aumento de capital, argumentando ser impossível chegar a um preço final satisfatório sem divergências.
— O presidente Lula foi sábio em várias situações. Se for sábio desta vez, vai mandar a Petrobras marcar passo (adiar o processo) — disse uma fonte.
Para analistas, barril sairá por até US$ 7
Mas também há quem acredite que, trabalhando o fim de semana, há tempo para chegar a um consenso.
— O que muda são as interpretações das variáveis. É uma fase negocial — afirmou o diretor do Departamento de Assuntos Extrajudiciais da Advocacia Geral da União (AGU), Rafaelo Abritta, sinalizando que o peso político será grande na solução final.
Ontem, Lula não tratou pessoalmente do tema. De acordo com o acertado em reunião política na quarta-feira, os técnicos se reuniram na sede da Petrobras no Rio. Estava prevista apenas uma conversa telefônica entre ele e o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli. Em nota, a Petrobras disse que os rumores sobre os valores para a cessão onerosa são “mera especulação”.
E afirmou que a cessão onerosa “será uma transação comercial entre as duas partes (empresa e União), que seguirá as regras de mercado”. Por isso, “é natural que ambas as partes busquem maximizar seus resultados”.
Analistas de mercado já fizeram as contas e apostam em adiamento da capitalização para após as eleições.
Com o barril entre US$ 10 e US$ 12, ela teria um volume final de US$ 140 bilhões a US$ 170 bilhões, considerando a cessão onerosa de cinco bilhões de barris, acima do limite autorizado em assembleia de R$ 150 bilhões. Osmar CamilosCamilos, da corretora Socopa, acredita que uma alternativa seria reduzir o volume de barris da cessão onerosa. Os analistas preveem que o preço do barril na cessão onerosa ficará de US$ 5 a US$ 7.
Crise consolida Brasil como 8ª economia mundial
Crise consolida Brasil como 8ª economia mundial
A crise espanhola permitiu que o Brasil se firmasse na oitava posição entre as maiores economias do mundo. Com base em números oficiais, o jornal econômico espanhol Expansion revelou que o ranking das maiores economias foi bastante modificado com a crise global nos últimos dois anos.
A China ultrapassou o Japão e agora se tornou a segunda maior economia do mundo. Já o Brasil supera a Espanha e é a oitava potência, em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal. Com base nos números do primeiro semestre, o PIB brasileiro seria de US$ 1,8 trilhão, ante US$ 1,5 trilhão da Espanha. Segundo o jornal, a Espanha chegou a ficar na sétima posição em 2007, quando ainda vivia um boom econômico. Mas, com 20% de desemprego, um déficit colossal e uma economia estagnada, perdeu posições.
Já dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), organizados por Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, indicam que a ultrapassagem da Espanha pelo Brasil teria acontecido ainda em 2009. Mas a persistência da crise nos países ricos e a rápida recuperação dos emergentes, como o Brasil, fizeram com que a diferença entre os dois países disparasse em 2010.
Em 2009, segundo os dados do FMI, o Brasil, com PIB de US$ 1,57 trilhão, estava na oitava posição do ranking, mas colado na Espanha, que era a nona colocada, com US$ 1,46 trilhão. Já a projeção do FMI para 2010 joga o PIB brasileiro para US$ 1,91 trilhão, bem acima do US$ 1,56 trilhão previsto para a Espanha. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Marina busca espaço
Marina busca espaço
MERVAL PEREIRA O GLOBO - 20/08/10
A candidata do Partido Verde Marina Silva começou, no debate pela internet da “Folha de S. Paulo” e do UOL, a explicitar uma nova estratégia de campanha, mas muita gente confundiu seus primeiros passos com uma adesão antecipada à candidatura do PT, como se esse fosse um movimento quase que natural de quem esteve naquele partido nos últimos 30 anos.
Mas quem apostar que a estratégia da candidata Marina Silva será fazer dobradinha com a petista Dilma Rousseff, atacando o tucano José Serra, está enganado.
O que aconteceu nesse sentido terá sido apenas fruto de circunstâncias daquele debate, e não é uma estratégia de campanha.
É possível que mais adiante, aos poucos, como é seu estilo, Marina deixe claro mais pontos de desacordo com o governo petista que abandonou depois de mais de cinco anos no Ministério do Meio Ambiente.
Mesmo porque um dos pontos mais fortes do discurso de Marina foi justamente em cima do presidente Lula e de sua candidata Dilma Rousseff, ao dizer: “Estão querendo infantilizar os brasileiros com essa história de mãe e pai.” Aliás, a frase fez tanto sucesso que foi usada ontem por Marina na visita que fez à Bolsa de Valores em São Paulo: “O Brasil precisa de uma discussão madura sobre seu futuro. Os brasileiros não podem ser tratados de forma infantilizada”, reafirmou.
É verdade que os coordenadores de sua campanha acreditam que “uma janela de oportunidade” pode se abrir caso a candidata oficial continue se distanciando do tucano José Serra nas pesquisas eleitorais, fazendo os eleitores começarem a pensar que quem ainda tem condições de derrotar Dilma é Marina.
Mas, mesmo que o objetivo imediato da candidata do Partido Verde seja superar Serra para ir para o segundo turno contra a candidata oficial, a estratégia teria que ser mostrar ao eleitorado que hoje escolhe Serra que também Marina é uma crítica do governo, ou pelo menos de Dilma, e se coloca como uma alternativa ao PT que está no poder.
Por isso, ontem ela esclareceu que sua preocupação “não é em criar constrangimento para o Serra nem para a Dilma, e sim criar um constrangimento ético para o Brasil”.
A senadora Marina Silva tem o cuidado de não criticar diretamente o presidente Lula, de quem faz questão de se dizer amiga.
Essa postura permite que ela tente ser uma opositora do PT sem atingir o presidente, abrindo espaço para que eleitores petistas que hoje votam em Dilma pensem nela como opção.
Segundo o Datafolha, Marina tem 15% no Rio de Janeiro, acima de sua média nacional, que fica em torno de 10%, enquanto Serra tem 25%.
O Partido Verde está convencido de que o Rio de Janeiro pode ser a plataforma de lançamento de Marina no plano nacional, o primeiro lugar em que ela passará Serra, viabilizando uma arrancada rumo ao segundo turno, embora tenham os pés no chão e saibam que o eleitorado do Rio não representa o brasileiro.
Além dos votos da classe média que poderão migrar de Serra, na área popular, os votos, sobretudo entre as mulheres pobres, migrarão tanto de Dilma como de Serra, imaginam os coordenadores da campanha.
O cientista político Nelson Rojas de Carvalho, da Universidade Federal Rural do Rio, ligado ao prefeito Cesar Maia, especialista em pesquisas de opinião, vem encontrando na Região Metropolitana do Rio, sobretudo em Nova Iguaçu, Caxias e São João de Meriti, eleitores de classes C e D que começam a prestar atenção em Marina por uma pauta de valores, percebendo-a como a mais preocupada com os pobres e contra a corrupção.
Para ele, o tema de meio ambiente teria que ser ampliado para outros valores que ela encarna, como críticas ao desvirtuamento do PT e o combate à corrupção, se quiser aumentar sua área de contaminação eleitoral.
Na percepção do eleitorado, ela tem autoridade para empunhar essa pauta de valores.
Na análise de Nelson Rojas de Carvalho, a racionalidade de uma aproximação centrista supõe um eleitor informado, mas é ininteligível para o eleitor de baixo grau de informação.
Não havendo diferenciação entre os candidatos, se a oposição é igual ao governo, para o eleitor médio é melhor manter o que já existe.
A despolitização do debate é uma política boa para quem está no governo. Temas dicotômicos que marcariam a oposição teriam maior rendimento eleitoral, analisa Carvalho, e aglutinariam as bases oposicionistas.
“Se ele não se diferenciar da Dilma, essa base pode migrar para Marina”, diz, referindo-se ao candidato tucano José Serra.
Se a maior definição dos candidatos, determinada pela vantagem da candidata oficial nas pesquisas de opinião, for a tônica dos programas de propaganda eleitoral, poderemos ver uma mudança de estratégia interessante.
O candidato tucano José Serra, que torce para que Marina mantenha-se em torno dos 10% para tentar garantir o segundo turno, terá que manter um olhar atento à retaguarda para não ser surpreendido por uma ultrapassagem que ainda parece improvável.
Mesmo não tendo uma estrutura partidária tão ampla quanto a da base governista, e sofrendo com problemas de arrecadação de fundos para a campanha, que se agravam à medida que a vantagem da candidatura oficial aumenta, o PSDB ainda é o único contraponto viável ao governo, e o tempo de propaganda oficial no rádio e na televisão isola a candidatura de Marina em pouco mais de um minuto.
Serra elevou o tom de suas críticas ao governo, de maneira a marcar a posição de oposicionista, mas se a “cristianização” de que parece estar sendo vítima não for estancada, com os candidatos nos estados simplesmente deixando de incluí-lo em suas propagandas na televisão, sua candidatura pode ser inviabilizada de vez.
Cataratas do Iguaçu
Fotografia por Francis Sharmy
Uma das maiores cataratas do mundo quebra o Rio Iguaçu entre Brasil e Argentina.
Entrevista: José Murilo de Carvalho
Entrevista: José Murilo de Carvalho
VALOR ECONÔMICO - Por Sergio Lamucci, de São Paulo
O vencedor das eleições deste ano enfrentará grandes desafios em 2011, a começar pelo fato de suceder um presidente com aprovação recorde, diz o historiador José Murilo de Carvalho. "Ex-presidentes, sobretudo os que terminam seu governo com avaliação muito positiva, têm a capacidade de se tornarem uma sombra para os sucessores, aliados ou adversários", afirma Carvalho, professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para ele, "se exercida essa capacidade", um eventual adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva "estará sob permanente vigilância e terá que enfrentar a cobrança do tipo "no meu governo etc.", que pode ter efeito desgastante". A situação de Dilma Rousseff (PT) tampouco seria confortável: "Sem voo político próprio e sem a liderança e a popularidade do antecessor e mentor, ela terá dificuldade em firmar sua autoridade e seu comando, sobretudo se houver deterioração no cenário econômico". Dessa forma, o melhor para todos, especialmente para a democracia brasileira, "seria que o futuro ex-presidente se abstivesse de interferir no governo de seu sucessor".
Além da sombra de Lula, o sucessor terá outros grandes desafios, pois vai comandar um país ainda muito desigual, apesar das melhoras recentes, em que metade da população não tem rede de esgotos, a educação é de péssima qualidade, a carga tributária é alta e os gastos públicos são excessivos. "Todas essas contas serão apresentadas ao sucessor, que não terá a garantia de enfrentar condições internacionais favoráveis, como foi o caso em quase todo o mandato de oito anos de Lula."
Além da sombra de Lula, o sucessor terá outros grandes desafios, pois vai comandar um país ainda muito desigual, apesar das melhoras recentes, em que metade da população não tem rede de esgotos, a educação é de péssima qualidade, a carga tributária é alta e os gastos públicos são excessivos. "Todas essas contas serão apresentadas ao sucessor, que não terá a garantia de enfrentar condições internacionais favoráveis, como foi o caso em quase todo o mandato de oito anos de Lula."
Entre Dilma e José Serra (PSDB), o historiador considera difícil dizer quem tende a fazer o melhor governo. "Dilma poderá dar continuidade às políticas includentes de Lula, que chamo de democráticas, o que seria bom." Mas vê o risco de que ela faça crescer ainda mais o tamanho do Estado, além de tentar aumentar o controle governamental da economia e sobre a sociedade. Já Serra representa a alternância no poder, algo bom "em si". "E ele poderá reforçar mais o lado que chamo de republicano, que se refere à boa gestão do dinheiro público e à redução do aparelhamento do Estado." Quanto ao controle do governo sobre a economia, Serra provavelmente não se distinguiria muito de Dilma, acredita ele.
Carvalho faz uma avaliação positiva de Marina Silva (PV). "É uma candidata republicana, boa demais para ganhar. É um exemplo de vida, uma mulher pública inatacável em seu comportamento, com uma clara mensagem a propósito de um tema que constitui um dos maiores problemas do Brasil e do mundo."
Ao analisar o governo Lula, Carvalho diz que, entre erros e acertos, o saldo é positivo. "Avançamos algo na redução da desigualdade e muito na redução da pobreza, dentro de um clima de liberdade e, apesar dos escândalos, sem ruptura do sistema representativo. Demos um grande passo à frente." Entre os pontos negativos, aponta a tolerância com práticas abusivas como as do mensalão e a ação dos aloprados e "uma postura quase desrespeitosa em relação ao Judiciário", criticando ainda o inchamento do Estado e a ideologização excessiva da política externa.
Membro da Academia de Letras e doutor em ciência política pela Universidade Stanford, Carvalho é autor de obras elogiadas como "D. Pedro II", de 2007, e "Os Bestializados", de 1987. Diz estar "em entressafra", ajustando-se a uma aposentadoria imposta pela legislação no ano passado. "Tenho escrito, sobretudo, artigos de revistas e capítulos de livro. Um trabalho de vulto, em que me envolvi com dois colegas e encruado há tempos, a publicação dos panfletos da independência, talvez tenha agora oportunidade de ir adiante." A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por meio de intensa troca de e-mails:
Valor: Esta será a sexta eleição em que o país escolhe o presidente depois da redemocratização, a primeira sem a participação de Lula. Qual o significado da eleição? José Murilo de Carvalho: Democracia política requer longo e paciente aprendizado. Cada substituição de chefe de Estado feita de maneira constitucional e legal é um avanço. Excetuando a Primeira República, que teve 10 eleições, mas que era um regime oligárquico, a sequência de seis é a maior da República. Ainda é pouco em comparação com repúblicas estabilizadas, mas é um passo à frente. Por isso, é preciso reconhecer o mérito do presidente Lula em ter resistido à tentação de um terceiro mandato, recusando-se a seguir o exemplo de um de seus amigos na América do Sul.
Valor: Como ocorre desde 1994, a eleição está polarizada entre PT e PSDB, os partidos que, segundo disse uma vez Fernando Henrique Cardoso, disputam " quem é que comanda o atraso " . Esse arranjo político tem sido benéfico para o país? Carvalho: A frase é justa. Tanto Fernando Henrique quanto Lula pagaram o preço de suas alianças com o atraso. Isso foi cobrado de Fernando Henrique, agora é cobrado de Lula. Por mais que essas alianças frustrem e irritem os que sonham com uma democracia moderna, sem elas, em nossas circunstâncias, não teria havido a estabilidade necessária para o exercício do governo dentro de um sistema representativo. Os impasses entre o Executivo e o Legislativo teriam causado paralisia do governo, pois, como já percebera Celso Furtado, entre nós o Executivo tende a ser mais reformista do que o Congresso. É verdade que essas alianças têm causado grandes danos à República. Está aí o exemplo do mensalão. Mas é preferível lutar contra a corrupção dentro da liberdade do que nem poder detectá-la em regime de exceção.
Valor: Lula tem aprovação recorde e seu último ano de governo terá um crescimento de 7% ou mais. Lula será uma sombra incômoda para o próximo presidente Carvalho: Ex-presidentes, sobretudo os que terminam seu governo com avaliação muito positiva, têm a capacidade de se tornarem uma sombra para os sucessores, aliados ou adversários. No caso presente, se exercida essa capacidade, um eventual adversário eleito estará sob permanente vigilância e terá que enfrentar a cobrança do tipo " No meu governo etc. " , que pode ter efeito desgastante. Na eleição eventual de uma aliada, a situação não será mais confortável. Sem voo político próprio e sem a liderança e a popularidade do antecessor e mentor, ela terá dificuldade em firmar sua autoridade e seu comando, sobretudo se houver deterioração no cenário econômico. O melhor para todos, sobretudo para nossa democracia, seria que o futuro ex-presidente se abstivesse de interferir no governo de seu sucessor, aliado ou adversário.
Valor: Lula tem aprovação recorde e seu último ano de governo terá um crescimento de 7% ou mais. Lula será uma sombra incômoda para o próximo presidente Carvalho: Ex-presidentes, sobretudo os que terminam seu governo com avaliação muito positiva, têm a capacidade de se tornarem uma sombra para os sucessores, aliados ou adversários. No caso presente, se exercida essa capacidade, um eventual adversário eleito estará sob permanente vigilância e terá que enfrentar a cobrança do tipo " No meu governo etc. " , que pode ter efeito desgastante. Na eleição eventual de uma aliada, a situação não será mais confortável. Sem voo político próprio e sem a liderança e a popularidade do antecessor e mentor, ela terá dificuldade em firmar sua autoridade e seu comando, sobretudo se houver deterioração no cenário econômico. O melhor para todos, sobretudo para nossa democracia, seria que o futuro ex-presidente se abstivesse de interferir no governo de seu sucessor, aliado ou adversário.
Valor: Quais os principais desafios políticos que enfrentará o sucessor de Lula? Carvalho: Além de suceder a um presidente popular, com os problemas que isso pode acarretar, há grandes desafios pela frente. Apesar de alguma melhora, o Brasil ainda detém o terceiro pior índice de desigualdade do mundo, metade da população não tem rede de esgotos, a educação foi universalizada, mas continua de péssima qualidade, os impostos estão entre os mais altos do mundo, a taxa de poupança e, portanto, também a de investimento, é baixa, os gastos públicos são excessivamente altos. Todas essas contas serão apresentadas ao sucessor, que não terá a garantia de enfrentar condições internacionais favoráveis como foi o caso em quase todo o mandato de oito anos de Lula.
Valor: Os fatos de não ter experiência político-eleitoral e não ser uma petista histórica pode fragilizar um eventual governo Dilma? Carvalho: Sem dúvida. Não será fácil superar esses obstáculos e ainda ter que enfrentar a oposição e a sombra do antecessor e criador. Acresce-se a isso o fato de, se eleita, tornar-se a primeira mulher a governar o país no regime republicano. As pressões serão enormes.
Valor: Serra representa a mudança, ou algum grau de mudança, num momento em que a aprovação de Lula e o crescimento favorecem a continuidade. Como articular um discurso de oposição nessas circunstâncias? Carvalho: A tarefa da oposição não é fácil. Ela tem que enfrentar a candidata de um presidente popular com as armas de um candidato reconhecidamente competente, mas sem apelo popular. A tática do candidato da posição de não confrontar diretamente o presidente, de dizer que se trata de fazer mais e não diferente, é prudente, mas não suficiente para convencer o eleitor, favorecido pelas políticas sociais do governo, a arriscar mudanças. Além de concentrar a crítica nas fraquezas da candidata oficial, ele terá que mostrar as diferenças que pretende introduzir nas políticas públicas, e isso sem dar margens à acusação de querer voltar atrás nas políticas redistributivas.
Valor: Que diferenças e semelhanças o sr. vê nas candidaturas e nos eventuais governos de Dilma e Serra? Carvalho: É mais fácil, ou menos difícil, falar nos dois candidatos do que adivinhar seus eventuais governos. Os dois, aliás, têm a mesma origem na esquerda e coincidem em vários pontos. Quanto às candidaturas, a de Dilma é um enigma. A candidata tem feito todo o possível para se ajustar ao papel que lhe foi atribuído e às necessidades da campanha, com plástica, sorrisos, posições liberais em economia, corretas em ecologia, e democráticas em política. Mas nada disso corresponde bem à sua biografia, que está mais próxima do estatismo em economia, incorreção em ecologia e autoritarismo em política. É difícil dizer qual Dilma vai governar, caso seja eleita. Serra é um só, embora também faça seus ajustes eleitorais. Ele voltou atrás, por exemplo, em seu ataque à independência do Banco Central. Tem, como a Dilma não eleitoral, pouco jogo de cintura, um estilo centralista de governar e uma postura de desenvolvimentismo a todo custo. Suas vantagens são a transparência, a experiência política e a capacidade comprovada de administrador. Um eventual governo Serra certamente daria maior ênfase à boa gestão dos gastos públicos do que ao aumento deles.
Valor: Entre Dilma e Serra, quem o sr. acha que tende a fazer um governo melhor para o país? Carvalho: É difícil dizer. Dilma poderá dar continuidade às políticas includentes de Lula, que chamo de democráticas, o que seria bom. Mas poderá fazer crescer ainda mais o tamanho do Estado, aumentar o controle governamental da economia, interferindo, por exemplo, na autonomia do Banco Central, e tentar aumentar o controle sobre a sociedade. Serra, por outro lado, representará a alternância no poder, que é uma coisa boa em si, e poderá reforçar mais o lado que chamo de republicano, que se refere à boa gestão do dinheiro público e à redução do aparelhamento do Estado. No entanto, quanto ao maior controle governamental da economia, não creio que se distinguiria muito de Dilma.
Valor: Depois de 16 anos de governo de dois presidentes com estilo conciliador, o país deverá ser comandado a partir de 2011 por Dilma ou Serra, políticos com pouco jogo de cintura, como o sr. mesmo disse. Quais riscos essa característica traz para o cenário pós-Lula? Carvalho: Prefiro falar em dificuldades em vez de riscos. Como se sabe, Fernando Henrique e Lula tiveram que engolir muitos sapos, fazer muitos compromissos para viabilizar seus governos e o fizeram com ou sem caretas. Pelo temperamento, os dois candidatos terão mais dificuldade nesse campo. Mas, como o problema político principal estará na manutenção de uma coalizão capaz de fornecer os votos necessários no Congresso, imagino que ambos acabarão aceitando a receita brasileira de que é dando que se recebe.
Valor: Depois de 16 anos de governo de dois presidentes com estilo conciliador, o país deverá ser comandado a partir de 2011 por Dilma ou Serra, políticos com pouco jogo de cintura, como o sr. mesmo disse. Quais riscos essa característica traz para o cenário pós-Lula? Carvalho: Prefiro falar em dificuldades em vez de riscos. Como se sabe, Fernando Henrique e Lula tiveram que engolir muitos sapos, fazer muitos compromissos para viabilizar seus governos e o fizeram com ou sem caretas. Pelo temperamento, os dois candidatos terão mais dificuldade nesse campo. Mas, como o problema político principal estará na manutenção de uma coalizão capaz de fornecer os votos necessários no Congresso, imagino que ambos acabarão aceitando a receita brasileira de que é dando que se recebe.
Valor: O PMDB ganhou força ao longo do governo Lula. Para ter o apoio do partido à Dilma, Lula fez o PT apoiar o PMDB em Minas e no Maranhão. Esse avanço do PMDB é preocupante? Carvalho: Como disse, essas alianças, apesar de constrangedoras, são indispensáveis para a governança. O que preocupa é a natureza da convivência do PT com o PMDB em eventual governo Dilma. Pela força de sua liderança, Lula foi capaz de enquadrar o PT e controlar o PMDB. Dilma terá maior dificuldade em fazer isso. Ela poderá se ver diante do dilema de ter que recorrer à ajuda de Lula, enfraquecendo a própria autoridade, ou enfrentar crises desgastantes em sua aliança.
Valor: Como o sr. analisa a candidatura de Marina Silva? Ela tem potencial para crescer impedir uma eleição plebiscitária ou será apenas uma coadjuvante? Carvalho: Dada a polarização existente, acho que Marina Silva não passará de coadjuvante. É uma candidata republicana, boa demais para ganhar. No caso de um final de campanha muito disputado, no entanto, seus votos poderão decidir se haverá ou não um segundo turno e, caso haja, seu apoio poderá decidir o resultado final. De qualquer modo, uma campanha como a de Marina Silva só fará bem ao país. Ela é um exemplo de vida, uma mulher pública (hoje já se pode usar a expressão em sentido positivo) inatacável em seu comportamento, com uma clara mensagem a propósito de um tema que constitui um dos maiores problemas do Brasil e do mundo, a preservação das condições naturais de sobrevivência da espécie humana. Sua pregação ecológica sozinha já vale sua campanha, sobretudo quando se leva em conta que a ecologia não é forte de nenhum dos dois principais candidatos, para dizer o mínimo.
Valor: Não há um candidato explicitamente de direita na eleição, ou mesmo alguém que defenda ideias econômicas mais liberais. Por que há esse vácuo? Carvalho: No Brasil, os políticos e os partidos têm vergonha de se declarar de direita, talvez por causa da ditadura militar. E há também ainda certo receio de assumir posição de esquerda, talvez pela mesma razão. Mas creio que, além da ditadura, a opinião pública também favorece uma tendência centrista. Às vésperas do golpe de 1964, quando a política parecia radicalmente polarizada, pesquisas do Ibope indicavam vitória do moderado Juscelino sobre Brizola e Lacerda nas eleições que viriam. Lula teve que dar uma guinada para o centro para se tornar um candidato viável. Essa característica da opinião pública força os candidatos a se afastarem dos extremos e se amontoarem em um imenso centrão sem fisionomia definida. Seria útil se houvesse partidos e candidatos abertamente de direita. Daria mais transparência à luta política.
Valor: Não há um candidato explicitamente de direita na eleição, ou mesmo alguém que defenda ideias econômicas mais liberais. Por que há esse vácuo? Carvalho: No Brasil, os políticos e os partidos têm vergonha de se declarar de direita, talvez por causa da ditadura militar. E há também ainda certo receio de assumir posição de esquerda, talvez pela mesma razão. Mas creio que, além da ditadura, a opinião pública também favorece uma tendência centrista. Às vésperas do golpe de 1964, quando a política parecia radicalmente polarizada, pesquisas do Ibope indicavam vitória do moderado Juscelino sobre Brizola e Lacerda nas eleições que viriam. Lula teve que dar uma guinada para o centro para se tornar um candidato viável. Essa característica da opinião pública força os candidatos a se afastarem dos extremos e se amontoarem em um imenso centrão sem fisionomia definida. Seria útil se houvesse partidos e candidatos abertamente de direita. Daria mais transparência à luta política.
Valor: Nas últimas semanas, Serra e seu vice adotaram um discurso mais conservador. Pode ser interpretada como uma guinada à direita? Carvalho: Guinada ao centro. Posições extremadas em campanha são fatais. Lula o reconheceu depois de longo aprendizado. O Brasil é um país conservador.
Valor: O que explica esse conservadorismo num país tão desigual? Carvalho: A Independência não tocou na estrutura social do país, a abolição se fez sem guerras, a República só mudou a escolha do chefe de Estado e fortaleceu as oligarquias regionais, a Revolução de 1930 nada teve de revolução, a Revolução de 1964 foi uma contra-revolução, 1985 foi uma negociação. A razão para isso é que o povo político no Brasil nunca teve capacidade revolucionária em nível nacional e só começou a ganhar força eleitoral a partir de 1945. Até hoje ele ainda é vulnerável a políticas de cooptação. Pela capacidade de coerção ou cooptação, temos as elites mais competentes do mundo, inclusive a que está no poder hoje.
Valor: Passados quase oito anos do governo Lula, quais os principais pontos positivos e negativos que o sr. vê nos dois mandatos do petista? Carvalho: Quando Lula foi eleito pela primeira vez, afirmei que ele entraria para a história se conseguisse reduzir substancialmente a desigualdade social. Embora ainda se mantenha entre as mais altas do mundo, a desigualdade diminuiu nos últimos anos. Mas, sobretudo, de acordo dados do Ipea, houve redução da pobreza e da miséria desde o Plano Real, com grande aceleração a partir de 2003. Programas de inclusão iniciados no governo anterior, como o Bolsa Escola, foram grandemente ampliados no Bolsa Família, que hoje socorre milhões de brasileiros, e pelos aumentos no salário mínimo. Apesar dos problemas envolvidos na concepção e gestão do Bolsa Família, e dos usos eleitoreiros a que dá margem, não há como negar seu efeito includente. É o suficiente para que o governo Lula deixe sua marca na história. Outro ponto positivo foi ter tido a coragem, mesmo contra a opinião de setores do partido, de manter a política econômica do governo anterior, responsável em boa parte pela recuperação do crescimento em bases mais sólidas. Com sua política social e econômica, Lula conseguiu o feito ímpar de ser popular nos extremos da escala social, os banqueiros e os pobres.
Valor: E os pontos negativos? Carvalho: Do lado negativo, pode-se anotar uma atitude excessivamente tolerante com práticas abusivas como as exibidas no mensalão e na ação dos aloprados e uma postura quase desrespeitosa em relação ao Judiciário. O mensalão e outros escândalos contribuíram para a desmoralização das instituições representativas. Isso é muito pouco republicano e, politicamente falando, foi o pior aspecto do governo de Lula. Podem-se acrescentar, na coluna do débito, o retorno ao inchamento do Estado, o aparelhamento da burocracia, a falta de disposição para enfrentar reformas difíceis, mas importantes, como a fiscal, a da previdência e a política, e uma política externa excessivamente ideologizada.
Valor: Como fica o governo Lula na comparação com o de Fernando Henrique? Carvalho: Do governo Lula, acabo de falar. Creio que ele se beneficiou de uma herança bendita dos dois governos anteriores, de Itamar e Fernando Henrique, sobretudo no que se refere ao Plano Real, que o PT combateu quando foi implantado. O controle da inflação, o saneamento financeiro, garantidos no governo Lula pela ação do Banco Central, e o enxugamento das gorduras do Estado formaram um dos alicerces em que se sustenta o bom momento de que goza a economia do país. Se Lula expandiu muito o lado social, no quesito republicanismo o governo Cardoso teve melhor desempenho, apesar de alguns tropeços, como na campanha para a reeleição. Um fator importante na diferenciação dos dois governos foi o cenário internacional. Cardoso foi atropelado por uma crise externa que prejudicou seu segundo mandato, quando poderia ter colher os frutos do saneamento realizado no primeiro. Lula, na maior parte do tempo, voou em céu de brigadeiro. De um modo geral, no entanto, vejo os dois governos, e o de Itamar, como voltas de um círculo virtuoso que, se levado adiante, corre o risco de consolidar nossa democracia política e nos aproximar de uma democracia social.
Valor: Lula já se comparou a Getúlio Vargas e a Juscelino Kubitschek. Essas comparações são pertinentes? Carvalho: Com Juscelino, certamente não. JK era um desenvolvimentista radical e um convicto democrata, mas sem grande preocupação com o social e sem apelar aos trabalhadores. O forte de Lula é exatamente o social, o popular e o sindical. A comparação com Vargas é mais pertinente, pois ele foi pioneiro em nossa história em dar ênfase à política social e em interpelar os trabalhadores. Essa comparação é, no entanto, algo irônica, uma vez que o novo sindicalismo, que teve em Lula um dos protagonistas, se apresentou exatamente como reação ao sindicalismo de origem varguista e estado-novista, acusado de atrelado ao Estado e de peleguismo. Tendo em vista a situação privilegiada que as organizações sindicais tem hoje no Estado e as posições que os sindicalistas ocupam na administração pública e nas estatais, talvez a ironia desapareça e dê lugar à nêmesis do antigo ditador. Lula também se parece com Vargas na astúcia e no pragmatismo político.
Valor: Parte da oposição aponta traços de autoritarismo em Lula e no PT, que apareceriam em iniciativas como a tentativa de criação do Conselho Federal de Jornalismo e o Plano Nacional de Direitos Humanos. Lula é autoritário? Carvalho: Não diria que Lula seja autoritário. Ele pode ter, às vezes, um estilo pesado de fazer política, inclusive com o próprio partido dele, traços de seu aprendizado sindical. Mas negocia sempre. O PT, no entanto, ou melhor, setores do PT, têm, sem dúvida, como já se disse, o DNA da esquerda autoritária de onde vieram muitas de suas lideranças. As tentativas mencionadas acima são exemplo disso.
Valor: O Brasil ganhou peso no cenário internacional nos últimos anos, tornando-se uma economia com potencial de crescimento forte num momento em que os países desenvolvidos lutam para sair da crise, beneficiado ainda pela descoberta das reservas de petróleo no pré-sal. O país está sabendo aproveitar esse momento? Pode ir além da vocação de potência regional? Carvalho: É um momento certamente positivo. Mas, há riscos. Tendemos a oscilar entre os complexos de vira-lata e o oba-oba, ambos funestos. Receio que estejamos caindo no segundo complexo. Os indicadores são bons e auspiciosos, mas há um imenso trabalho a ser feito e os resultados não são garantidos. O país está caindo na participação no comércio internacional, depende muito de commodities, tem grandes desvantagens devidas à má qualidade da educação, à falta de qualificação da mão de obra, ao excesso de burocracia (como é possível que seja quatro vezes mais barato criar uma empresa na China?), à baixa taxa de investimento. O petróleo como fonte de energia está sob forte suspeita, tendo em vista os riscos que cria ao meio ambiente tragicamente demonstrados no vazamento do Golfo do México. Diria que, mais que o petróleo, o combustível mais importante para que as promessas não se frustrem é o suor do trabalho.
Valor: O Brasil ganhou peso no cenário internacional nos últimos anos, tornando-se uma economia com potencial de crescimento forte num momento em que os países desenvolvidos lutam para sair da crise, beneficiado ainda pela descoberta das reservas de petróleo no pré-sal. O país está sabendo aproveitar esse momento? Pode ir além da vocação de potência regional? Carvalho: É um momento certamente positivo. Mas, há riscos. Tendemos a oscilar entre os complexos de vira-lata e o oba-oba, ambos funestos. Receio que estejamos caindo no segundo complexo. Os indicadores são bons e auspiciosos, mas há um imenso trabalho a ser feito e os resultados não são garantidos. O país está caindo na participação no comércio internacional, depende muito de commodities, tem grandes desvantagens devidas à má qualidade da educação, à falta de qualificação da mão de obra, ao excesso de burocracia (como é possível que seja quatro vezes mais barato criar uma empresa na China?), à baixa taxa de investimento. O petróleo como fonte de energia está sob forte suspeita, tendo em vista os riscos que cria ao meio ambiente tragicamente demonstrados no vazamento do Golfo do México. Diria que, mais que o petróleo, o combustível mais importante para que as promessas não se frustrem é o suor do trabalho.
Valor: Como o sr. analisa esses movimentos recentes da política externa brasileira? Carvalho: A política externa representa seguramente o lado mais controvertido do governo Lula. Faço duas observações a respeito. Primeiro, ela me parece cultivar uma visão do imperialismo norte-americano mais voltada para o passado do que para ao futuro. Lembra a política externa independente e terceiro-mundista da década de 1960. Há hoje uma clara tendência à redução do poder dos Estados Unidos e uma ainda mais clara emergência de outra potência que será, com grande probabilidade, o grande imperialismo do século XXI. Falo, é claro, da China com seus 1,3 bilhão de habitantes, uma economia em crescimento acelerado e uma determinação inabalável de suas lideranças. Contra esse novo imperialismo, que poderá ser mais pesado do que o norte-americano, é que nos devíamos precaver. Segundo, o empenho em diversificar o leque das relações internacionais e em buscar maior influência no cenário mundial é mais do que justificado para um país como o Brasil e houve avanços a esse respeito. No entanto, o caminho seguido, pelo viés ideológico na escolha de alianças, está consumindo um precioso capital de simpatia internacional acumulado por Lula em seus primeiros anos. A parcialidade e o uso oportunista da tese da soberania dos Estados, interferindo em uns, como em Honduras, negando-se a criticar outros, como Irã, Guiné Equatorial, Cuba, e a desconsideração pragmatista dos direitos humanos não favorecem a consolidação da respeitabilidade regional e internacional e pode, eventualmente, frustrar, em vez de favorecer, o acesso a um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, que parece ser um dos objetivos buscados pelo governo.
Valor: Entre os vários erros e os vários acertos do governo Lula apontados pelo sr., o saldo final é positivo ou negativo? Carvalho: Entre erros e acertos, o saldo é certamente positivo. Avançamos algo na redução da desigualdade e muito na redução da pobreza, dentro de um clima de liberdade e, apesar dos escândalos, sem ruptura do sistema representativo. Demos um grande passo à frente.
Valor: O governo Lula está entre os melhores que o Brasil já teve ou ainda é cedo para o julgamento? Carvalho: Ainda falta a distância necessária para colocar seu governo em perspectiva histórica. Para ficar só na República, Lula terá que competir com o quase imbatível Getúlio Vargas e suas leis sociais e trabalhistas, com JK e seu desenvolvimentismo democrático, e com o próprio Fernando Henrique Cardoso e sua estabilização da economia, enxugamento do Estado e reinício das políticas sociais. Pode-se dizer, no entanto, que Lula seguramente estará nesse time
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