domingo, agosto 29, 2010

Ciência ‘a la carte’ se difunde aos poucos

Ciência ‘a la carte’ se difunde aos poucos
Concebida nos anos 80, a modalidade culinária que cria novos pratos por modificação de alimentos ganha novos adeptos
Luiz Beltramin 29/08/2010
O pai da gastronomia molecular, Hervé This, realiza experimento com nitrogênio líquido. (Foto: Divulgação)
Dar novas cores e sabores a comidas por meio da transformação física e química dos alimentos, seja por técnicas que envolvem temperaturas de preparo ou adição de novos elementos, e ainda por cima obter o máximo de ganho nutricional é tentador, ainda mais para os amantes da gastronomia. 
Por isso, gourmets profissionais e amadores se interessam cada vez mais em pesquisar os conceitos pertinentes a Gastronomia Molecular, termo que prima pela concepção de novas receitas através da modificação dos ingredientes, criada na década de 80, na Europa. 
Restaurantes em todo o mundo - no Brasil, alguns estabelecimentos paulistanos já oferecem cardápio elaborado com pratos preparados a partir do método – aderem aos conceitos e também amadores. 
Contudo, a maioria dos experimentos ainda está restrito ao campo laboratorial, pois grande parte de equipamentos e ingredientes se não está disponível ao grande público ainda tem preços bastante salgados. 
Thomspon Lee, chef de cozinha internacional, diz considerar o termo válido no sentido de apuração técnica do gourmet. Entretanto, ele, que é professor universitário na área de Gastronomia Asiática, ressalva para alguns dos empecilhos que ainda não fazem da cozinha molecular um padrão a ser seguido em massa. 
“Como técnica acho válido. É importante trabalhar com novos processos de preparação. Gastronomicamente, porém, tenho outra visão”, pondera ao citar o alto custo como um dos principais entraves para uma mais rápida difusão dos conceitos. “Não são técnicas baratas. Exigem ingredientes e equipamentos específicos. Não é simplesmente panela, faca e fogão”, diferencia. “É trabalhado mais com o lado químico e com agentes e produtos que fazem processos que geram gelatinas ou espumas. Certos equipamentos são mais de laboratório do que de cozinha, propriamente”, direciona o chef, que tem opinião divergente quanto ao sabor. “A desconstrução do alimento, como ao se transformar uma maçã in natura ou uma carne em estado normal em gelatina, espuma, ocasiona alteração no sabor. Eu, particularmente, procura não alterar a estrutura do alimento”, opina. 
Equipamento
Apesar de boa parte da indumentária necessária para os experimentos no campo da Gastronomia Molecular ainda ser praticamente inacessível a leigos ou iniciantes no assunto, há uma parcela de instrumentos disponíveis no mercado, assegura o chef Ulisses Dias, especialista em Tecnologia da Gastronomia. 
Alguns equipamentos são fáceis, alguns completamente difíceis”, pondera. “Uma câmara de congelamento de nitrogênio é complicado, restrita ao meio científico. Mas já temos no mercado, por exemplo, os cifões, desses que a gente utiliza para fazer chantily”, cita. 
Ele elenca alguns kits, oferecidos em sites específicos da Internet, de algumas importadoras. “Existem alguns kits com produtos, inclusive, como a licitina de soja, utilizada como estabilizante. Algumas outras, utilizadas no meio químico, para a indústria farmacêutica, coo o ácido algínico, também são encontradas em kit, para gelificação (processo que modifica alimentos para formato gelatinoso)”, acrescenta. 
Contudo, o professor reconhece que nem todos os processos de preparo de alimentos seguindo os conceitos gastronômicos moleculares podem ser seguidos por pessoas totalmente leigas no assunto. “Evidentemente que (a utilização de técnicas e equipamentos) depende de um pouco mais de conhecimento em profundidade”, ressalva. “Mas alguns produtos, como na área de gelificação, já se consegue fazer em casa”, atesta. 
Fonte: Jornal da Cidade de Bauru

Aurora Boreal - Alaska

Solda, para O Estado do Paraná

Ativistas fazem protestam pedindo suspensão de pena de morte de Sakineh

Ativistas fazem protestam pedindo suspensão de pena de morte de Sakineh

Correio do Brasil - 29/8/2010 15:14,  Redação, com agências - de Paris
Cerca de 300 pessoas protestaram, em Paris, pedindo a suspensão da pena de morte de Sakineh
Cerca de 300 pessoas ligadas a organizações de defesa dos direitos humanos fizeram neste sábado uma manifestação em Paris, na França, pedindo que o Irã suspenda a pena de morte de Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada por assassinato e adultério. Os manifestantes mostravam cartazes com frases como “Vamos salvar Sakineh”.
A ativista iraniana Anna Pak disse, durante a passeata, que o Irã precisa “parar de matar homens e mulheres” após supostas confissões forçadas. Sihem Habchi, integrante de um grupo que representa mulheres de minorias, disse que Sakineh simboliza o “direito de ser mulher”. A iraniana de 43 anos pode ser executada a qualquer momento.

Nancy e Rui Veloso

Falta um debate mais amplo sobre educação

CAMPANHA ELEITORAL

Falta um debate mais amplo sobre educação

Idevaldo Bodião, professor doutor em Educação, alerta que os orçamentos da área devem ser reforçados 
BRUNO GOMES – Diário do Nordeste – 29/08/2010
Especialista diz que a proposta dos candidatos ao Governo de criar escolas de educação profissional é insuficiente
A abordagem sobre o tema educação nesta campanha eleitoral tem se resumido às escolas profissionalizantes e, ao mesmo tempo, ignorado assuntos cruciais para o desenvolvimento da área a longo prazo. O entendimento é do professor doutor Idevaldo da Silva Bodião - na foto, membro do departamento de Teoria e Prática de Ensino da Faculdade de Educação da UFC. Ele critica a falta de aprofundamento no debate eleitoral em temas como o aumento dos investimentos em educação e a universalização do ensino médio, por exemplo.
O pesquisador aponta que o caminho para o desenvolvimento da educação é, cada vez mais, o incremento nos orçamentos, a vinculação de receitas e o planejamento capaz de fazer os jovens saírem da escola pública alfabetizados e senhores do conteúdo básico que lhes é ensinado, sendo estes alguns dos maiores desafios, na visão dele.
Só vem sendo abordado, até o momento, diz ele, construção de escolas profissionalizantes e isso é um erro. "A educação profissionalizante não é, e não será, uma proposta universalizante. Você não vai ver nenhum dos candidatos dizer que todas as escolas do Estado serão profissionalizantes e de tempo integral", afirma o especialista.
A justificativa que dá para a assertiva é o simples fato de que as escolas profissionalizantes, que a atual gestão promete construir 100 até o fim deste ano, significam um percentual muito pequeno diante do todo de escolas de ensino médio em todo o território cearense
. "Falar em educação profissional é se referir à minoria dos estudantes de escolas públicas. E os outros?", questiona, para mostrar que sugerir a criação de escolas profissionais é insuficiente, diante de um universo de ações que devem ser propostas pelos governantes e, antes disso, apresentadas à população na campanha eleitoral.
"Em termos de prédios, as escolas profissionalizantes irão representar um universo entre 15% e 20%. E de alunos o universo é ainda menor", diz Idevaldo Bodião e complementa: "e para os outros alunos, quais são as propostas? Isso nenhum dos candidatos disse ainda", lamentou. "Ai é que entraria a intervenção política, para falar aos alunos que representam o maior contingente".
Mercado
Outro problema apontado, dentro da mesma temática, é que o ensino médio casado com profissional tem o intuito claro de favorecer ao mercado. "A escolha dos cursos de cada escola é feita pela vocação da região e isso é a demanda da indústria".
"Como proposta, ela tem lógica, é interessante. Mas o objetivo primeiro é formar mão de obra, a formação plena dos alunos fica em segundo plano", reitera, para fazer uma ponderação: "o estudante vai se beneficiar? Claro que vai. As instalações são boas, a jornada da escola é muito boa. Beneficiará os alunos? Sim. Mas deixa a formação em segundo plano", avalia.
Bodião aconselha que o foco principal deve ser em efetivar a educação como um direito. "O que temos feito até agora, e isso não é pouco, é ampliado o acesso à escola, o número de matrículas. No entanto, os nossos jovens e crianças vão à escola e não aprendem. Esta é a grande dívida. Qualquer candidato que se apresente como alguém que vai mexer na bandeira mais relevante da educação é efetivar a educação como um direito", enfatiza o especialista.
Ele reconhece que atingir essa meta é uma missão complicada, que não cabe em uma inserção de televisão no horário eleitoral. Mas as diretrizes precisam ser explicitadas. "Uma das coisas essenciais é a questão orçamentária. E eu ainda não vi ninguém dizer que vai botar mais dinheiro na educação (destinar um percentual permanente do orçamento, maior do que 25%, para a área)".
Receitas
A meta definida no plano nacional é que até o fim de 2014, a educação esteja consumindo, em termos de recursos, 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Isso significa que os governos estaduais e municipais teriam que investir pelo menos 30% de suas receitas em educação. Hoje, isso é 25%", alertou, ao assegurar que isso poderia já começar a ser compromisso dos candidatos. Mesmo assim, ele avalia que a vinculação de recursos para a educação em 25% foi positiva e possibilitou avanços até agora.
Um outro passo, que está ausente da discussão eleitoral, é a dificuldade de se encontrar professores para algumas áreas do ensino como física e química. Como a meta estabelecida para os próximos anos é a univer-salização do ensino médio, esta carência, aponta Idevaldo, vai se potencializar se não houver uma política voltada para a valorização da docência, sobretudo nestas áreas mais carentes.
"Você vê em outros países, mais desenvolvidos, a valorização da profissão e o rigor com que os professores são capacitados até chegar à sala de aula. Aqui é justamente o contrário", lamentou. Neste sentido, um dos grandes avanços conseguidos pela categoria foi a aprovação da lei do piso salarial dos professores que engloba um conjunto de obrigações necessárias à valorização dos docentes.
E, segundo ele, mesmo a lei em vigor, ainda há debates sobre a sua plena implantação. "A lei não é só o valor pago pelo salário. É, principalmente, a reorganização do trabalho. O professor precisa de tempo para planejar aulas, propor novos trabalhos e dar qualidade ao ensino. E isso está sendo discutido na justiça", lamentou.
INÁCIO AGUIAR REPÓRTER

Marina critica clima de 'já ganhou' na campanha petista

Marina critica clima de 'já ganhou' na campanha petista
Publicada em 29/08/2010 às 12h12m
Gustavo Paul

SÃO PAULO e BRASÍLIA - A candidata do PV à presidência da República, Marina Silva, disse na manhã deste domingo que se preocupa com o clima de 'já ganhou', ao comentar a afirmação de sua adversária do PT, Dilma Roussef, que no sábado disse que depois das eleições vai estender a mão aos outros políticos que disputaram o cargo .
- Me preocupo muito com o clima de já ganhou antes do tempo, ou de entregar a toalha antes do tempo. Estou na disputa para ir para o segundo turno. Não vi a declaração (de Dilma), mas acho que um tanto um quanto maternal - afirmou.
Me preocupo muito com o clima de já ganhou antes do tempo, ou de entregar a toalha antes do tempo. Estou na disputa para ir para o segundo turno
Marina se encontra neste domingo com colaboradores do seu programa de governo, em São Paulo.
Com possibilidade de ganhar eleição ainda em 3 de outubro, Dilma refutou a afirmação feita pela concorrente Marina Silva (PV), no sábado, de que a democracia fica fortelecida quando ocorre o segundo turno. Em uma entrevista coletiva convocada para divulgação de suas propostas para a infância, Dilma não escondia o bom humor, no dia em que as pesquisas apontam uma diferença de 24 pontos para seu adversário tucano, José Serra .
- As pessoas que concorrem conosco devem ser respeitadas e depois da eleição a coisa muda de figura. - afirmou Dilma.
A gente desarma o palanque e estende a mão para quem for pessoa de boa vontade e quiser partilhar desse processo de transformação do Brasil
Questionada se já estaria estendendo suas mãos para Serra e Marina, Dilma falou como presidente eleita:
- Estendo a mão para quem quiser partilhar. Eu não sei se ele (Serra) quer. Você pergunta para ele, se ele quiser, perfeitamente.
A abertura de diálogo com os concorrentes eleitorais, segundo ela, faz parte do conceito republicano, que é adotado pelo atual governo e ela promete exercer no próximo.
- Sou do Rio Grande do Sul e lembro que havia um atrito entre o presidente e o governador. O presidente não ia lá e não dava dinheiro. Eu acho isso um absurdo: República velha é isso. A pessoa não precisa estender a mão para mim pra receber dinheiro. Pode ficar sem estender a mão, como oposição, numa boa, que vai ter dinheiro.
Contrapondo-se a Marina Silva, Dilma afirmou que a democracia brasileira sairá fortalecida se o presidente for eleito no primeiro ou no segundo turno.

Trailer do filme 'A Suprema Felicidade'.wmv

Ayres Brito diz que proibir humor no período eleitoral é 'censura'

Ayres Brito diz que proibir humor no período eleitoral é 'censura'
Publicada em 27/08/2010 às 19h28m
André de Souza
BRASÍLIA - O ministro do Superior Tribunal Federal (STF) Ayres Brito classificou de "censura" o dispositivo da lei que proibia fazer humor com políticos durante período eleitoral. Segundo ele, a liberdade de imprensa também deve ser aplicada ao humor.
- O humor é opinião crítica e arte. Concorre para o fortalecimento da democracia. É sinal de maturidade democrática o humor ser reconhecido como liberdade de imprensa - disse Ayres Brito
É sinal de maturidade democrática o humor ser reconhecido como liberdade de imprensa
O ministro informou que na decisão liminar que suspendeu alguns dispositivos da lei eleitoral houve a exclusão apenas do trecho em que é proibido o humor . O outro trecho questionado, segundo o ministro, que trata da veiculação de críticas ao candidato, houve apenas um esclarecimento.
- Proibir propaganda política não significa proibir fazer críticas. Não pode é bancar candidatura - explicou Ayres Brito, reforçando que as críticas são permitidas, mas não promover candidaturas.

IQUE - No Jornal do Brasil

Poço sem fundo

Poço sem fundo
Miriam Leitão - O Globo

Meia dúzia de pessoas está tomando uma decisão no Planalto que vai mexer com o bolso de incontáveis acionistas, grandes e pequenos, da Petrobras.
O preço do barril a ser cedido à empresa vai definir quantos reais cada acionista terá que pôr na companhia. Essa é definitivamente a forma errada de tomar uma decisão dessa importância, e isso pode provocar muitas brigas na Justiça.
Na época da privatização, eram contratadas duas avaliadoras.
Quando havia discrepância de mais de 20%, uma terceira tirava as dúvidas.
Agora, a divergência é de 100%. Dependendo do preço do barril, o minoritário terá que gastar mais ou menos dinheiro para acompanhar o aumento de capital, ou então ser diluído. A decisão afeta desde os minoritários que investiram com seu fundo de garantia até os grandes investidores brasileiros e estrangeiros.
Não pode ser um chute, ou uma conta de chegar feita por um grupinho a portas fechadas, que tem desde gente que não entende nada do tema, como os ministros Erenice Guerra e Guido Mantega, até quem tem interesse direto, como a Petrobras, ou quem já fez manifesto ideológico em torno do preço ideal, como o presidente da ANP. O presidente Lula disse que esses são os técnicos e que depois ele tomará a decisão política. Nem eles são técnicos, nem cabe decisão política numa questão que mexe com as economias de pessoas e empresas.
A empresa perdeu só este ano 27% de valor de mercado.
A consultora de mercado de capitais da Prosper Corretora, Rita Mundim, lembra que muitos acionistas minoritários usaram o Fundo de Garantia para comprar ações da Petrobras.
— A capitalização virou uma novela mexicana com final infeliz para os minoritários.
O governo se esquece que muita gente usou o Fundo de Garantia no anos 90 para comprar Petrobras.
Isso significa que 30% do sonho de muita gente virou água com a queda das ações este ano. Quem quer comprar imóvel pode ter adiado.
Quem fez dívida pode estar em dificuldade. Até agora, só houve trapalhadas e incertezas — afirmou.
O analista da Spinelli Corretora, Max Bueno, que acompanha Petrobras, estima que se o barril de petróleo for cotado a US$ 8, o minoritário terá que fazer um aporte de 30,7% do valor das ações que possui hoje. Por exemplo, quem tem R$ 100 mil de ações da Petrobras, terá que comprar mais R$ 30,7 mil para manter a participação atual.
Se o governo decidir que o petróleo vale US$ 12, esse mesmo acionista terá que desembolsar 36 mil.
O analista-chefe da Prosper corretora, Eduardo Roche, acha que o aporte do minoritário terá que ser ainda maior, em qualquer um dos casos, acima de 50%. Os especialistas têm dúvidas faltando pouco mais de 30 dias para a operação. Imagine o acionista comum. As informações continuam truncadas, as decisões são tomadas de forma equivocada e as incertezas são inúmeras.
Para se ter uma ideia, o campo de Tupi ainda não possui reservas provadas de petróleo 10 anos após a primeira licitação. Já foram feitas oito perfurações para pesquisa e só há estimativas.
No campo de Franco, que será usado na capitalização da Petrobras, foi perfurado um único poço.
— Só com um poço é muito difícil. É natural que as duas certificadoras tenham chegado a valores diferentes porque as incertezas são muito grandes; as informações, muito poucas. A capitalização jamais deveria ter sido planejada por esse processo — afirmou o ex-diretor de exploração e produção da Petrobras, Wagner Freire.
Ele explica que o processo tem que seguir várias etapas.
Com base em dados geológicos e geofísicos, as empresas identificam que áreas são promissoras, e aí se faz a perfuração exploratória. Depois, são feitos poços adicionais para se saber o montante das reservas. Em seguida, a análise econômica sobre custos de exploração, investimentos necessários, volumes recuperáveis. Em Franco, foi feito apenas um “poço estatigráfico”. Outro, com a mesma técnica, foi feito em Libra, numa área próxima, e provocou um desmoronamento com milhões de reais perdidos.
 Especialistas em petróleo, da área financeira e do setor jurídico estão espantados com o grau de improviso deste processo de capitalização.
Desde o começo, tudo está contaminado pela exploração política. O governo tem pressa porque quer fazer um palanque no dia 7 de setembro sobre a capitalização.
A Petrobras, em quem foi concentrada a exploração do pré-sal, está no limite do seu endividamento e terá que fazer um esforço enorme. Para isso foi imaginado esse tortuoso processo em que o governo cede barris de petróleo a cinco mil metros à empresa e assim se faz a capitalização.
Transfere também títulos da dívida, enquanto os minoritários terão que acompanhar com dinheiro vivo.
Se o processo beneficiar muito os acionistas, haverá transferência de riqueza de todos os brasileiros para alguns — os que são acionistas — porque a Petrobras é uma empresa de capital aberto, que tem 60% de suas ações no mercado. Se prejudicar o minoritário, ele terá perda de patrimônio. A decisão não pode ser tomada por critérios eleitoreiros porque afeta a economia de pessoas e empresas, ou representa transferência de patrimônio público.
A advogada e ex-procuradora da ANP Sonia Agel acredita que após a operação haverá contestações na Justiça.
— O minoritário pode entrar na justiça por se sentir prejudicado. Da forma como está sendo feito, o Ministério Público ou até mesmo uma ação popular pode contestar o processo porque estamos falando de um patrimônio que pertence à União. Uma terceira certificadora deveria ser contratada para definir o valor do barril, e não o próprio governo — explicou.
Essa é uma questão que tinha de estar longe dos palanques.

Pelicano, para Bom Dia (SP)

Uma doutrina por trás da censura

Uma doutrina por trás da censura

Eugenio Bucci
Na semana passada, um tribunal venezuelano proibiu os jornais do país de publicarem fotografias de vítimas de assassinatos. O fato foi noticiado no Brasil com bastante destaque, mas os fundamentos que estão por trás da medida não foram bem explicados. O assunto merece menos alarmismo e um pouco mais de atenção.
O episódio é sintoma da precoce degeneração de uma doutrina que subordinou a comunicação social aos ditames da segurança da pátria e que, levada ao extremo, vem conferindo ao Estado a função de zelar pela qualidade do jornalismo. A censura às fotos, em si, é patética e caricata, mas a doutrina que a inspira ainda preocupa.
Por certo, já se tornou ocioso protestar contra o autoritarismo de Hugo Chávez, que sucumbe aos seus defeitos ao ritmo que se distancia de suas promessas; em nome de aspirações coletivas, muitas delas legítimas, o governante montou para si mesmo um regime avesso às críticas e à renovação, adepto de militarismos e do culto à personalidade, que vai gerando infelicidade, medo e fracassos. Não há muito que fazer em relação a isso, a não ser lamentar. Mas a origem e os desdobramentos daquela doutrina autoritária, que ainda ilude entusiastas em todo o continente, isso é preciso entender com mais profundidade. É preciso aprender com a experiência, enfim.
A pedra angular dessa doutrina pode ser lida na Constituição da República Bolivariana da Venezuela, de 1999. O artigo 58, sob o disfarce de condenar expressamente a censura, veio para consagrar as razões mesmas da censura. Uma contradição involuntária do legislador apressado? Não: o artigo 58 é isso mesmo, um truque para autorizar a intervenção do Estado na imprensa.
Diz o texto: “(…) Toda persona tiene derecho a la información oportuna, veraz e imparcial, sin censura, de acuerdo con los principios de esta Constitución, así como a la réplica y rectificación cuando se vea afectada directamente por informaciones inexactas o agraviantes. (…)”
À primeira leitura, tudo bem. Além de repelir a censura, esse artigo enaltece o direito de todos à informação “oportuna, veraz e imparcial”. Nada nessa ideia parece impróprio, nada parece errado.
Nada a não ser aquilo que o artigo não diz que diz. Com seu palavreado épico, valente, próprio de uma Constituição que se propõe a “refundar” uma República “protagônica”, o texto contém uma armadilha essencial. Ao afirmar o direito de todos à informação “oportuna, veraz e imparcial”, lança suspeitas sobre o direito que todas as pessoas também têm às informações que, na opinião das autoridades, talvez sejam de veracidade duvidosa, inoportunas e nem tão imparciais assim. Com sua malícia retórica, a Constituição venezuelana põe no ar uma dúvida: quem é que vai dizer se a informação é “oportuna, veraz e imparcial”? O juiz? O Poder Executivo? A polícia?
A tradição democrática ensina que isso não é papel do Estado. A célebre Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que impediu os congressistas de legislarem contra a liberdade de imprensa, data de 1791. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da França, com sua defesa da livre comunicação das ideias como um dos direitos “mais preciosos” do homem, é de 1789. Naquela época, tanto na América como na Europa, praticamente inexistiam jornais equilibrados, desapaixonados, imparciais, oportunos, etc. Na América, havia publicações abertamente militantes, partidárias, que não hesitavam em recorrer à calúnia sanguinária. Em Paris, os filósofos e seus devezenquandários não redigiam noticiários isentos; empenhavam-se no proselitismo e na apologia do novo regime, que celebrava o individualismo, a propriedade privada e a guilhotina.
A História ensina que, nos Estados Unidos e na França, a conquista da liberdade de imprensa não veio para premiar jornalistas bem comportados, mas para garantir ao cidadão o direito de dizer o que bem entende, no tempo que quiser. A liberdade não foi o coroamento da ética jornalística, mas o seu pré-requisito: a ética de imprensa só se pode desenvolver em liberdade. Com o tempo, o jornalismo melhorou, ao menos um pouco, e a democracia se aperfeiçoou, estabelecendo formas de punir os excessos e os abusos da liberdade. Mas, atenção, o julgamento e a punição dos erros ocorrem depois que os erros são publicados; o direito fundamental que todos temos de publicar aquilo que pensamos não pode ser violado, não pode sofrer cerceamentos por antecipação.
O artigo 58 da Constituição Bolivariana é contra essa conquista da humanidade – que veio com o liberalismo, é verdade, mas se firmou como direito de todas as pessoas, sejam elas de direita ou de esquerda, tanto faz. O artigo 58 esconde a conquista desse direito universal. As pessoas não têm direito apenas à informação “oportuna, veraz e imparcial”, mas também a notícias que, na opinião das autoridades, talvez não atendam a esses requisitos. Elas têm o direito de ler publicações que juram ter entrevistado duendes e extraterrestres, ou panfletos declaradamente parciais, principistas e inoportunos. Não pode caber ao Estado – por nenhum dos seus três Poderes – dizer se a informação é ou não é “veraz” ou “imparcial”. Cabe a cada cidadão julgar isso por si mesmo, isso sim.
Quando um veículo jornalístico, livre de ingerências governamentais, assume compromisso com a informação “oportuna, veraz e imparcial”, isso até pode ser uma boa notícia (se não for puro fingimento). Agora, quando o Congresso Nacional aprova na sua Lei Maior a separação doutrinária entre a informação “oportuna, veraz e imparcial” e as outras informações, aí a notícia é tenebrosa. E dá no que vem dando.
A lei não melhora o jornalismo, mas pode piorá-lo, assim como pode embrutecer o Estado e infernizar a vida em sociedade. A Venezuela que o diga.
Fonte: Jornal “O Estado de S. Paulo” – 26/08/10

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