terça-feira, setembro 21, 2010

Amnésia e desqualificação

Amnésia e desqualificação
Fernando Rodrigues - FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - Há duas regras básicas seguidas por políticos, de esquerda ou de direita, abatidos por uma crise: 1) esquecimento súbito dos fatos e 2) desqualificar seus adversários e acusadores.
A cartilha vale no Brasil e no mundo. Quando Ronald Reagan teve de depor no Congresso dos EUA, nos anos 80, a respeito do escândalo Irã-Contras, sua frase mais marcante foi "I don"t recall" (eu não me lembro). Repetiu a negativa várias vezes ao ser indagado a respeito da participação de assessores da Casa Branca num esquema complexo e ilegal de venda de armas envolvendo o Irã e contrarrevolucionários anticomunistas na Nicarágua.
No anos 90, o governo Fernando Henrique Cardoso passou por apertos éticos. Um deles foi a compra de votos a favor da emenda da reeleição, em 1997. Deputados confessaram, em conversas gravadas, terem se vendido por R$ 200 mil para votarem a favor da mudança da Constituição. FHC se reelegeu em 1998. O termo chavismo ainda não existia, mas o PT acusou os tucanos de algo semelhante.
A cúpula do PSDB reagiu dizendo que os deputados eram desqualificados (todos do Acre). A Procuradoria Geral da República engavetou o caso. No Congresso, uma CPI foi abafada ao custo de dois ministérios para o PMDB (Justiça e o apetitoso Transportes).
Anos depois, Lula também não se lembrou de nada do mensalão. Vive desqualificando o acusador até hoje. Agora, Dilma Rousseff diz não se recordar de traficâncias na Casa Civil quando a pasta estava sob seu comando. Dentro do PT a crítica mais forte é sobre a origem da escumalha disposta a relatar o lobby no Planalto. "São bandidos", repetem os lulistas. Como se algum escândalo possa ocorrer só com o envolvimento de pessoas probas e acima de qualquer suspeita.
Tudo considerado, petistas e tucanos reagem de forma idêntica se flagrados fazendo o que não devem. Não sabem como são típicos.

Sem medo do futuro

Sem medo do futuro
EDITORIAL – O GLOBO
Prossegue ininterrupta há mais de duas décadas a sequência de escândalos de corrupção envolvendo o uso de recursos públicos. A propina entregue a funcionários da Casa Civil pela compra governamental de remédios contra a gripe suína foi apenas o último episódio. O escândalo derrubou a ministra Erenice Guerra e esquentou ainda mais a feroz disputa política entre tucanos e petistas às vésperas das eleições.
Os tucanos acusam os petistas de aparelhamento da máquina pública, por sua ocupação com quadros partidários, e de violação do estado de direito, pela quebra discricionária de sigilo fiscal. FHC acusa Lula de se comportar como chefe de facção durante a campanha. Mas o que dizer de FHC quando patrocinou uma mudança constitucional pela própria reeleição? As eleições brasileiras se tornaram uma feroz disputa pelo comando de gastos públicos que atingem 40% do PIB. Essa ferocidade das campanhas eleitorais é um sintoma do Princípio de Gause em biologia evolucionária: uma guerra de extermínio entre espécies semelhantes — tucanos e petistas — pelo domínio de um nicho ecológico: a hegemonia social-democrata.
O PSDB e o PT se revezam no poder com alianças que consideram espúrias, fisiológicas e retrógradas, conforme acusações mútuas, desembocando em acusações recíprocas de corrupção. As batalhas partidárias têm se limitado à tomada de poder. O vazio de sua agenda e sua omissão quanto às reformas necessárias reduziram a vida política a uma sinuosa disputa pela opinião pública.
A sucessão de escândalos leva ao crescente descrédito da classe política.
A clássica denúncia de Marx permanece atual: “As enormes quantias de dinheiro que passavam pelas mãos do Estado davam oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero.” Enquanto persistir uma busca da governabilidade por práticas político-administrativas condenáveis, estaremos expostos a crises institucionais. A inapetência por reformas é uma demonstração de insensatez. Os gastos públicos são centralizados em demasia (reforma fiscal), financiados por impostos excessivos (reforma tributária), as relações de trabalho são obsoletas e os encargos sociais, proibitivos (reforma trabalhista e previdenciária).
O futuro está muito além da “esquerda” e da “direita”. Não podemos temer o novo.

Eleições 2010 Justiça Eclesiástica!

Filtros especiais

Filtros especiais
O Globo
Na arquitetura do regime republicano, a independência do Poder Judiciário é uma viga mestra. O magistrado tem de estar imune a qualquer pressão e não se deixar influenciar, a não ser pela letra da lei. Mas há sempre margem para interpretações, mesmo com base técnica, serem divergentes. O exemplo do momento é a Lei Ficha Limpa, aprovada pelo Congresso num processo histórico iniciado por ampla mobilização na sociedade, lastro de um projeto de origem popular— nos termos previstos pela Constituição —, subscrito por milhões de eleitores. Diante de grande ceticismo, o projeto tramitou e foi aprovado com alterações que não o deformaram.
 Pelo contrário, aperfeiçoaram-no. E há grande discussão jurídica em torno da lei.
Mesmo à espera de um veredicto final, a ser dado pelo Supremo Tribunal Federal provavelmente nesta quarta-feira, a Ficha Limpa, aceita pelo Tribunal Superior Eleitoral, tem sido aplicada, como deve ser, pelos tribunais regionais. O noticiário sobre figuras carimbadas do mundo da corrupção na política, cujo pedido de registro de candidatura tem sido negado, injetou na opinião pública um ânimo inédito nos últimos tempos. As seções de cartas dos jornais refletem a esperança que se passou a ter de uma efetiva faxina ética na vida pública. Pelo menos seu início, pois não será apenas a Ficha Limpa que dedetizará de vez a política.
Enquanto houver partidos nanicos de aluguel, por exemplo, ainda restará trabalho a fazer neste saneamento. É antiga a ideia, sensata, de se barrar a entrada de donos de fichas criminais na política, sem a exigência de pena transitada em julgado — ou seja, confirmada em último recurso. O preceito, na prática, dada a proverbial lentidão da Justiça brasileira, significava — ou significa, a depender do julgamento do STF —, reforçar uma das mazelas da nossa sociedade: a impunidade. Como essas pessoas têm caixa para contratar advogados competentes, o recurso de chicanas protelatórias as coloca a salvo de qualquer condenação definitiva, até a prescrição do crime de que são acusadas.
Daí a primeira versão da Ficha Limpa ter estabelecido como critério para a negação de pedido de registro de candidatura qualquer condenação, mesmo em primeira instância.
Nas negociações no Congresso, mudou-se a regra para condenação em colegiado de juízes, em segunda instância. Foi um aperfeiçoamento.
Incluem-se no rol de delitos passíveis de justificar a rejeição de candidatura os cometidos na administração pública, julgados por tribunais de contas. Nada mais justo. A lei passou no primeiro grande teste, no TSE: por não estabelecer alteração efetiva na legislação eleitoral — a nova lei apenas revê critério de aplicação desta legislação —, a maioria dos ministros da Corte concordou com que a Ficha Limpa vigorasse na eleição deste ano.
Outro ponto de controvérsia é se a Ficha Limpa contrariaria o preceito da não retroatividade da pena. Aqui também a Justiça eleitoral aceitou outro bom argumento, o de que o impedimento de candidatos não é uma pena, mas a aplicação de um critério de avaliação.
Estas são questões que estarão em julgamento pelo STF, do qual se espera a mesma clarividência demonstrada pelo TSE. Afinal, como está na própria Constituição, a vida pública requer predicados especiais, e por isso, conclui-se, deve ter também filtros próprios.
Até para se evitar a esdrúxula situação de que o fichado e condenado não pode ser funcionário público, mas tem condições de ir para o plenário de qualquer Casa Legislativa e ocupar gabinetes do Poder Executivo.

Rombuda chulice

Rombuda chulice
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 20/09/10
RIO DE JANEIRO - Na sexta-feira, o presidente Lula afirmou ao iG que não permitirá que "façam sacanagem com Dilma". Queria dizer, talvez, que não permitirá que as trapalhadas da ex-ministra Erenice Guerra, omitindo informações e favorecendo parentes em transações obscuras, sofram exploração eleitoral de modo a prejudicar sua candidata à Presidência, Dilma Rousseff, ex-chefa de Erenice.
Em sua simplicidade linguística, Lula não deve saber que, por maior o relaxamento da língua e dos costumes, "sacanagem" é uma rombuda chulice, imprópria na boca de um presidente da República. Até os anos 70, "fazer sacanagem" significava... "fazer sacanagem". Não era uma expressão aceitável sequer em jornal -nem o "Pasquim" a usava-, quanto mais na presença de senhoras. Exceto, claro, em situações de extrema intimidade com as ditas senhoras.
Tudo bem, a língua acompanha os costumes e, com o tempo, as palavras perdem ou ganham conteúdos. Na primeira metade do século 20, não se chamava ninguém de "chato", mesmo que o alguém em questão fosse chatérrimo e usasse galocha. Chato era apenas aquele piolho chegado às virilhas. Um sujeito chato era um sujeito "cacete", veja só, e nenhuma mulher se ruborizava ao ouvir esta palavra.
"Sacanagem" foi uma das últimas expressões do chulo a ganhar ingresso na língua de salão. Hoje, seu sentido original só conserva um certo eco para os maiores de 60 ou 70 anos. Mas, até em consideração a estes, deveria continuar interditado em alguns círculos. Não é algo que um presidente devesse dizer ao microfone, ainda mais para se referir a uma mulher. Revela grossura. Mas, se há uma coisa pela qual Lula nunca quis se passar foi fino, não?
A "sacanagem" com Dilma já foi feita - por sua auxiliar de confiança, Erenice Guerra. Ou, então, a sacanagem está em ter se deixado apanhar.

Quanto mais Estado, mais corrupção

Quanto mais Estado, mais corrupção
Carlos Alberto Sardenberg - O Estado de S.Paulo - 20/09/10
Pode procurar em qualquer lugar do Brasil de hoje, em qualquer setor da economia, e você vai encontrar empresários, executivos e administradores empenhados em alcançar ganhos de produtividade. É a resposta correta ao ambiente de estabilidade macroeconômica. Se o planejamento não será destruído pela inflação, se os lucros não serão devorados por uma moeda sem valor, então vale a pena - na verdade se torna obrigatório - buscar eficiência dentro do próprio negócio. Agora, imaginem a sensação dessa gente de bem, do lado moderno do País, ao verificar que uma boa conexão em Brasília vale mais do que a criatividade e o esforço físico das pessoas envolvidas nas empresas.
O "capitalismo de compadres" tem esse efeito destruidor sobre o espírito empreendedor, sem o qual nenhum país vai para a frente.
De que adianta ter uma boa ideia e preparar um bom projeto se, para levá-lo adiante, precisa-se de uma decisão ou de um favor de alguém do governo? A conexão para viabilizar o projeto acaba se tornando mais importante do que o próprio projeto.
Vamos logo fazer as ressalvas de praxe: é claro que o mercado não funciona sem o Estado, as leis, os controles e as garantias institucionais; é claro que é indispensável a atuação dos governos em educação, saúde, segurança, transporte; é claro que é razoável a presença do Estado estimulando, de algum modo, setores novos da economia ou setores mais complicados.
Mas é claro também que o Estado no Brasil vai muito além desses pontos. Isso se manifesta em vários níveis. Os dois primeiros separam a atuação do Estado como regulador e fiscalizador da ação direta na economia. No primeiro nível estão, por exemplo, as agências reguladoras. No segundo estão as estatais, os bancos e as empresas públicas, além do próprio governo quando atua como construtor de estradas, portos, hidrelétricas, etc.
Certamente, em todos esses níveis de intervenção estatal pode haver eficiência e espírito público. Imaginem, por exemplo - para ir ao limite -, que os diretores das agências e das estatais fossem contratados no mercado por competentes e reconhecidas consultorias privadas de gestão de recursos humanos.
Absurdo? De jeito nenhum. Isso é até bastante comum pelo mundo afora. O atual presidente do banco central de Israel, Stanley Fischer, um economista americano, foi contratado assim, numa espécie de concorrência global. Aliás, basta abrir as páginas de classificados da revista The Economist: toda semana aparecem editais oferecendo vagas de diretores e presidentes de companhias públicas em diversos países, sem restrição de nacionalidade para os candidatos.
O Brasil, e especialmente no governo Lula, está no lado exatamente oposto. As nomeações são politizadas, cargos repartidos na base de apoio. Isso escancara as portas do "compadrio" e da pura e simples corrupção.
Reparem, um diretor de estatal ou de agência, contratado pela competência, terá compromissos com os resultados fixados por ocasião da admissão. Por exemplo: a diretoria dos Correios terá como objetivo dobrar o faturamento em tantos anos e reduzir o prazo de entrega da correspondência em tantas horas. Cumpriu, recebe o prêmio; não cumpriu, está fora.
Um diretor nomeado pelo partido tem compromisso com o partido e com os companheiros em geral. Note-se que o presidente Lula consagrou como correta a tese de que é preciso colocar os companheiros e aliados, por critérios políticos, nos postos de governo, nas agências reguladoras e nas companhias públicas.
O compromisso com o partido ou com o presidente pode ser cumprido de maneira legal, mas mesmo assim causando danos. O governo pode impor programas e obras, sem roubalheira, mas que só se justificam política e eleitoralmente. Por exemplo, a Petrobrás, tempos atrás, apresentou ao presidente Lula um plano de investimentos mais modesto. O presidente mandou ampliar para os gigantescos programas atuais. É grande o risco de a empresa estar se metendo em projetos caros demais, de baixa rentabilidade.
Lula também está forçando os bancos públicos a aumentarem seus empréstimos, desde para grandes empresas escolhidas pelo governo até para famílias comprarem a casa própria. Os empréstimos podem ser ruins e o dinheiro pode não voltar.
Por que dizemos "pode"? Porque isso só se saberá mais à frente. Mas o precedente é este: estatais e bancos (incluindo o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal) quebraram exatamente com esse tipo de política econômica. Já vimos esse filme. E notem. Os dirigentes, nomeados politicamente, nem pensam em contestar as ordens vindas do governo.
Neste caso, temos erros de política. Mas esse sistema inevitavelmente acrescenta a corrupção. Para dizer francamente, quanto mais Estado na economia, mais corrupção. Exemplo? Os países socialistas, de economia inteiramente estatal, bateram todos os recordes de corrupção e ineficiência.
O governo FHC havia saneado estatais e bancos e introduzido regras técnicas e de mercado para seu funcionamento. O governo Lula repolitizou tudo. Com as consequências que já vemos por aí. Se conseguiram estragar os Correios - com ineficiência e corrupção -, por que não conseguiriam estragar a Petrobrás ou a Caixa Econômica Federal?
É isso aí: nessas atividades econômicas, quanto menos Estado, melhor. Deixem nas mãos dos empreendedores privados. São mais eficientes do que os amigos do rei. E não roubam.

Passaredo - Chico Buarque

Afronta a direitos

Afronta a direitos
LEONARDO PIETRO ANTONELLI - O GLOBO
A nova Lei Complementar 135, chamada Lei Ficha Limpa, aplica-se aos candidatos que tenham sido condenados por órgãos colegiados mesmo antes de a norma entrar em vigor.
Foi o que decidiu, por cinco votos a dois, o plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Além disso, prevê a inelegibilidade daqueles que tenham contra si determinadas condenações, e não apenas na seara criminal, desde que proferidas por órgão judicial colegiado e independentemente de trânsito em julgado.
A ideia central consiste no fato de que, diante de uma decisão qualificada, emanada de um coletivo de juízes, já não se poderia invocar, na plenitude, a presunção de inocência. Eis o ponto controvertido que deságua imediatamente nos tribunais, por força do início do julgamento de diversas impugnações aos registros de candidaturas de chamados “fichas-sujas”.
Editada com amplo respaldo da opinião pública, até porque resulta de projeto de lei de iniciativa popular com mais de dois milhões de assinaturas, e maciço apoio dos meios de comunicação, traduziu-se num exemplo inimaginável na história política brasileira. Uma verdadeira mudança de paradigma, que levou o Congresso Nacional, às vésperas de uma eleição, a “cortar na própria carne”.
A referida lei não deveria abranger os casos anteriores à sua edição, pois a aplicação das sanções de inelegibilidade a fatos ocorridos antes de sua vigência fere o princípio da segurança jurídica. Por sua vez, o trânsito em julgado, ou seja, a decisão irrecorrível, é de extrema relevância para preservar a segurança jurídica do cidadão, pois a Constituição prevê que ninguém será considerado culpado até que o processo passe por todas as instâncias da Justiça.
A Lei Ficha Limpa ocasiona, ainda, a inevitável violação do princípio de que “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”, conforme o Art. 5o inciso XXXIX, da Constituição Federal. Assim, os condenados, mesmo por órgãos colegiados (como determina o texto legal), não poderiam sofrer as penalidades por crimes ou supostos crimes cometidos antes de sancionada a lei.
A maioria dos cidadãos não vislumbra, muitas das vezes, os efeitos e as consequências dessa lei. Resta-lhes um ilusório conforto, na ideia de que estão, por um lado, sendo resguardados, quando, na verdade, por outro lado, estão sendo afrontados nos seus direitos e garantias fundamentais individuais, previstos na Constituição. Cabe ao operador do Direito, ao jurista e, sobretudo, ao advogado identificar e apontar o conflito e as impropriedades.
O Supremo Tribunal Federal, que julgará a constitucionalidade da lei, reconhece que um terço das condenações colegiadas é, por ele, invertido em absolvições. Nesse contexto, o resultado que se afigura mais justo, e adstrito aos limites impostos pela ordem jurídica, é a aplicação da posição majoritária do STF, dando maior peso ao princípio da presunção de inocência, que tem por corolário a segurança jurídica, inegavelmente valor constitucional a ser preservado, de modo a somente admitir qualquer imposição de restrição civil, criminal ou eleitoral quando se esgotem todos os tipos de recursos admitidos pela lei.
LEONARDO PIETRO ANTONELLI é advogado e vice-diretor da Escola Judiciária Eleitoral do Rio de Janeiro.

Deficit da Previdência Social dobra em agosto e atinge R$ 5,4 bilhões

Deficit da Previdência Social dobra em agosto e atinge R$ 5,4 bilhões
THAIS BILENKY - DE BRASÍLIA – Folha .com
O deficit da Previdência Social aumentou 111,2% em agosto comparado a julho, acumulando R$ 5,4 bilhões no vermelho, segundo os dados divulgados pelo ministério nesta segunda-feira. No acumulado do ano, o rombo é de R$ 30,7 bilhões, valor 1,3% inferior ao mesmo período do ano passado.
Para a pasta, o reajuste de 7,72% para as aposentadorias maiores que um salário mínimo e a antecipação do 13º salário para aposentados e pensionistas explicam a alta na dívida.
Descontando-se os R$ 1,85 bilhões empregados nessas despesas, o deficit fica em R$ 3,56 bilhões, ainda superior aos R$ 2,56 bilhões de julho. Todos os valores foram ajustados pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor).
O ministro Carlos Eduardo Gabas disse que a estimativa de deficit para 2010 poderia ser reduzida de R$ 47 bilhões a um valor entre R$ 46 bilhões e R$ 45 bilhões, mas a decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) exige o reajuste de benefícios pelo teto a cerca de 154 mil pessoas, o que demandará R$ 1,5 bilhão da pasta e deverá manter as contas como estão.
O titular da pasta disse que a quantia deve ser desembolsada ainda neste ano. "A ideia é que não fique nada pendente para o próximo governo", afirmou.

PREVIDÊNCIA PRIVADA
Apenas 4% das famílias investem em previdência privada no país, segundo estudo realizado pela Kantar Wordpanel, a pedido da Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), entidade que reúne 65 sociedades seguradoras e 15 entidades abertas de previdência complementar.
O levantamento foi extraído de uma base de 8,2 mil domicílios, amostra que representa 81% da população domiciliar brasileira e 91% do potencial de consumo residencial no Brasil. Entre janeiro e julho deste ano, o mercado de previdência privada arrecadou R$ 23,1 bilhões, 16,46% acima do resultado no mesmo período de 2009.
Planejamento eleva projeção de crescimento do país de 6,5% para 7,2%
O Ministério do Planejamento informou nesta segunda-feira que conta com um crescimento de 7,2% do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano. Em sua projeção anterior, a autoridade econômica estimava 6,5%. O número mais atualizado está em linha com as expectativas do setor financeiro, conforme pesquisa do Banco Central junto a bancos e corretoras.
O boletim Focus, elaborado a partir dessas projeções, revelou que a maioria dos especialistas acredita que o país deve crescer 7,47% neste ano.
Para a inflação deste ano, o Ministério prevê um IPCA de 5,1%, levemente abaixo dos 5,2% divulgados anteriormente. A autoridade econômica também trabalha com uma taxa de câmbio média de R$ 1,78 neste ano, pouco abaixo da cotação de R$ 1,80 projetada no último relatório.
Os números do Planejamento constam do Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas, relativo ao orçamento de 2010. O mesmo relatório indica que o governo pode liberar R$ 1,7 bilhão a título de despesas de custeio e investimento para os órgãos da administração pública.

Terraço do Café na Place du Forum, Arles, à Noite, c.1888 Vincent van Gogh


POEMA XV - PABLO NERUDA (c/trad.p/o Portugues)

SPONHOLZ


Eleições e Mudanças Estruturais

Eleições e Mudanças Estruturais
José Goldemberg - O Estado de S. Paulo - 20/09/10
Eleições gerais, como as que serão realizadas no dia 3 de outubro, oferecem uma oportunidade para tentar melhorar o País, elegendo dirigentes mais qualificados, que se proponham de fato a melhorar as condições de vida dos brasileiros. Sob esse ponto de vista, os principais candidatos à Presidência da República, e muitos dos postulantes aos governos estaduais, têm feito um grande esforço, adequado para exaltar sua biografia, suas realizações passadas e seus planos para o futuro.
O problema é que esses planos têm pouco conteúdo quando se trata de enfrentar os problemas estruturais do País. Eles se concentram em manter ou expandir o Bolsa-Família, com seu forte conteúdo paternalista e eleitoral, melhorar os sistemas de saúde e segurança e, sobretudo, realizar obras irrigadas com recursos do Tesouro, como residências populares, trem-bala, pré-sal, reatores nucleares. Mas sem um foco claro nas imensas necessidades de melhorar o saneamento e de obras de infraestrutura, como portos, aeroportos e estradas, que permitam uma expansão real da economia. Como disse recentemente o ex-ministro Delfim Netto, essas obras, indispensáveis para os jogos da Fifa em 2014 e para a Olimpíada em 2016, não cabem nem no Orçamento da União nem no produto bruto nacional brasileiro. O que é preciso é fazer a economia crescer, e para isso é necessário solucionar os problemas estruturais do Brasil, que impedem que o País realmente se desenvolva:
Melhorar o sistema de ensino fundamental e técnico, base do avanço dos tigres asiáticos, desde a Coreia do Sul até a Índia.
Dinamizar o apoio à ciência e tecnologia e vinculá-lo ao desenvolvimento industrial, como fizeram com sucesso os Estados Unidos e o Japão.
Simplificar e racionalizar o sistema de licenciamento ambiental, sem o que as grandes obras de infraestrutura de que o País necessita não deslancharão.
A atual campanha eleitoral mal tem tocado neles.
Em relação ao sistema educacional, basta olhar o que a Inglaterra fez no século 19 para ver o que estamos fazendo de errado: introduziu o ensino fundamental de qualidade, público e obrigatório, durante um mínimo de sete anos, e uma rede de escolas técnicas para preparar os artífices da grande revolução industrial que a tornaram a maior potência mundial durante mais de 150 anos. Enquanto as grandes universidades inglesas (Oxford e Cambridge) formavam os pensadores da época, a rede de escolas técnicas e de engenharia (que nem eram consideradas parte das universidades até recentemente) formava os mestres de obras e engenheiros que construíram as ferrovias e a infraestrutura em todas as colônias do Império Britânico. O desenvolvimento da Índia, hoje a maior fonte de técnicos de computação do mundo, tem sua origem no sistema educacional que a Inglaterra implantou naquele país.
Nos Estados Unidos o caminho seguido não foi o mesmo, mas as grandes universidades, como Princeton, abrigaram não só Einstein e outros grandes cientistas, como estabeleceram íntima relação com a indústria, como fez Stanford, dando origem ao Vale do Silício e à grande revolução da informática no mundo todo.
Aqui, no Brasil, só São Paulo, com os governos Covas-Alckmin, deu ênfase ao ensino técnico, experiência que deveria ser estendida a todo o Brasil.
Isso não significa reduzir a importância da pesquisa científica pura, mas estabelecer vínculos entre ela e o desenvolvimento do País. O fato de as universidades brasileiras publicarem trabalhos científicos em grande quantidade, mas o número de novas patentes ser ínfimo, é um motivo de grande preocupação. Isso foi o que aconteceu na União Soviética, cujo sistema científico foi privilegiado por Stalin, mas se restringiu a realizações técnicas militares, contribuindo muito pouco para a modernização do país, como o próprio Gorbachev declarou na ocasião.
É essencial, por isso, manter o sistema de acesso pelo mérito às universidades, para garantir sua qualidade, e abandonar os "slogans" populistas de cotas, que, na verdade, violam os próprios fundamentos do que se entende como cidadania republicana, em que todos são iguais perante a lei. O risco de introduzir qualquer tipo de cotas é que elas podem beneficiar/prejudicar diferentes grupos sociais, dependendo da militância desses grupos. Corrigir injustiças sociais do passado pode ser feito por outros mecanismos que não afetem negativamente a qualidade do ensino e da pesquisa, os quais exigem critérios elevados de avaliação. No que se refere ao ensino fundamental, é preciso melhorar as condições de trabalho e remuneração dos professores, mas vincular essas condições ao desempenho, e não a uma reivindicação puramente sindical, como fazem alguns candidatos que se opõem, no fundo, à melhoria da qualidade da educação.
Finalmente, no que se refere aos problemas ambientais, é necessário que se reconheça que a legislação ambiental se tornou complexa demais para permitir que as grandes obras de infraestrutura de que o Brasil precisa sejam realizadas. O sistema atual, em que as promotorias ambientais e as organizações não governamentais acabaram por se transformar em órgãos que competem com os órgãos licenciadores, não é um processo salutar. A preservação do meio ambiente é um dos ingredientes essenciais de um desenvolvimento sustentável, mas não deve ser um obstáculo ao desenvolvimento, apesar de haver alguns ambientalistas que adotam essas posições. Seria muito importante que os próprios candidatos mais próximos da área ambiental fizessem propostas nesse sentido.
Enfim, a resposta aos desafios que o Brasil enfrenta vai depender dos seus recursos humanos, e esse aspecto fundamental do problema não pode ser negligenciado nas eleições de outubro.
PROFESSOR DA USP, FOI MINISTRO DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA E SECRETÁRIO DE MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO

Governo não pode ter segredos com o povo, diz Marina Silva

Governo não pode ter segredos com o povo, diz Marina Silva
Da Redação - brasil@eband.com.br
A candidata do PV à Presidência, Marina Silva, afirmou nesta segunda-feira, em Recife, que um governo "não pode ter nenhum tipo de segredo com o povo", ao comentar as acusações de suposto tráfico de influência dentro do Ministério da Casa Civil.
Com o objetivo de evitar que episódios como esse se repitam, a senadora prometeu disponibilizar na internet, se eleita, “dados de qualquer projeto que envolva recursos públicos".
Marina, que participou de caminhada no início da tarde na capital pernambucana, criticou ainda o governo atual por não “assumir as responsabilidades” diante de seus erros.
"A política de apenas se citar coisas positivas e de evitar cuidar dos problemas levou à repetição dos mesmos erros. Temos de aprender com os erros para que eles não se repitam”, declarou.A concorrente do PV minimizou ainda os resultados apontados pelos levantamentos presidenciais, que a colocam em terceiro lugar nas intenções de voto. "O que existe nas ruas é muito maior do que aparece nas pesquisas", declarou. Redator: Rodolfo Albiero

Brasil pode se tornar alvo de hackers do Leste Europeu

Brasil pode se tornar alvo de hackers do Leste Europeu
Diário de Pernambuco – 20/09/2010
O crescimento da economia brasileira pode resultar em uma mudança no perfil dos crimes cometidos pela internet contra as instituições financeiras do país. A exemplo do que já ocorre com bancos norte-americanos, o Brasil poderá passar a ser alvo de cibercriminosos do Leste Europeu. O alerta foi dado pelo chefe interino da Unidade de Crimes Cibernéticos do FBI (Polícia Federal dos Estados Unidos), James Harris.
“Como a economia brasileira está crescendo mais do que a do resto do mundo, certamente atrairá os mesmos tipos de criminosos que atuam contra as instituições financeiras dos Estados Unidos. A maioria desses criminosos vive no Leste Europeu, para onde o dinheiro roubado, pela internet, dos bancos norte-americanos é levado”, disse em entrevista exclusiva à Agência Brasil o agente do FBI.
Ele explica que a maioria dos crimes investigados pela polícia brasileira envolve práticas cometidas no país. “Esta é uma das diferenças entre as investigações do FBI e da Polícia Federal [PF] brasileira. Enquanto aqui no Brasil os criminosos investigados encontram-se em território nacional, os criminosos que são investigados pelo FBI costumam cometer os crimes a partir de outros países.”
Para Harris, a PF tem totais condições de combater esses criminosos. “A capacitação dos policiais federais brasileiros é muito similar à que é dada aos agentes do FBI. Venho ao Brasil há mais de 15 anos e posso afirmar: o treinamento, os cursos, as técnicas e as tecnologias são muito parecidas com as que utilizamos nos EUA”, afirmou.
O fato de haver hackers brasileiros entre os melhores do mundo também acaba tornando a PF mais preparada para lidar com os criminosos do Leste Europeu. “Fiquei muito impressionado com o que vi sendo feito por hackers brasileiros”, acrescentou.
Ele elogia também a forma como a PF compartilha suas informações, tanto internamente – entre diferentes áreas periciais e investigativas – quanto externamente, com outras instituições.
“A interação das áreas investigativas no Brasil parece ser bastante eficiente, com policiais focando a investigação como um todo, desde a parte tecnológica, relativa à invasão de um sistema, até o caminho que o dinheiro segue para chegar às mãos dos criminosos. Isso requer uma grande sintonia entre especialistas das áreas tecnológicas e da área financeira.”
Para as investigações de caráter internacional, o FBI e a PF têm tido uma articulação cada vez mais eficiente. “Atualmente é possível desburocratizar a comunicação entre os dois órgãos. Principalmente a partir de encontros como o ICCyber [conferência sobre crimes cibernéticos que ocorreu na semana passada em Brasília]”.
A informação foi confirmada pelo chefe do Serviço de Perícias em Informática, o perito criminal federal Marcos Vinícius Lima, do Instituto Nacional de Criminalística.
“Investigações que envolvem tecnologias precisam ser feitas de forma cada vez mais rápida e objetiva. Como muitas vezes envolvem práticas criminosas transnacionais, requerem uma comunicação dinâmica e desburocratizada com órgãos de outros países, e isso de fato tem ocorrido entre a PF e o FBI”, disse o perito à Agência Brasil.
Da Agência Brasil

Lute, para o Hoje em Dia


O lulismo posto à prova em 2010 - André Singer

O lulismo posto à prova em 2010 - André Singer
A história e seus ardis
Talita Virgínia/Folhapress
RESUMO
André Singer aplica às eleições de 2010 sua tese do "realinhamento" do eleitorado brasileiro, caracterizado pela adesão das classes baixas ao "lulismo" (por verem em Lula a possibilidade de ascensão social sem confronto) e pelo afastamento da classe média tradicionalmente petista, após o escândalo do mensalão.
CONTA-SE QUE CERTA VEZ o engenheiro Leonel Brizola teria levado o metalúrgico Lula ao túmulo de Getúlio Vargas em São Borja (RS). Lá chegando, o gaúcho pôs-se a conversar com o ex-presidente. Depois de algumas palavras introdutórias, apresentou o líder do PT ao homem que liderou a Revolução de 1930: "Doutor Getúlio, este é o Lula", disse, ou algo parecido. Em seguida, pediu que Lula cumprimentasse o morto. Não se sabe a reação do petista.
Será que algum dos personagens do encontro pressentiu que, naquela hora, estavam sendo reatados fios interrompidos da história brasileira? Desconfio que não.
Os tempos eram de furiosa desmontagem neoliberal da herança populista dos anos 1940/50. Mesmo aliados, em 1998 PT e PDT -praticamente tudo o que restava de esquerda eleitoralmente relevante- perderiam para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno. O consulado tucano parecia destinado a durar pelo menos 20 anos e trazer em definitivo o neoliberalismo para o Brasil.

BRECHA Foi por uma brecha imprevista, aberta pelo aumento do desemprego no segundo mandato de FHC, que Lula encontrou o caminho para a Presidência da República. Para aproveitá-la, fez substanciais concessões ao capital, pois a ameaça de radicalização teria afastado o eleitorado de baixíssima renda, o qual deseja que as mudanças se deem sem ameaça à ordem.1
Apesar da pacificação conquistada com a "Carta ao Povo Brasileiro" ter sido suficiente para vencer, o subproletariado não aderiu em bloco. Havia mais apoio entre os que tinham renda familiar acima de cinco salários mínimos do que entre os que ganhavam menos do que isso, como, aliás, sempre acontecera desde 1989. Ainda que as diferenças pudessem ser pequenas, elas expressavam a persistente desconfiança do "povão" em relação ao radicalismo do PT.
Depois de 2002, tudo iria mudar. A vitória levaria ao poder talvez o mais varguista dos sucessores do dr. Getúlio. Não em aspectos superficiais, pois nestes são expressivas as diferenças entre o latifundiário do Sul e o retirante do Nordeste. Tampouco no sentido de arbitrar, desde o alto, o interesse de inúmeras frações de classe, fazendo um governo que atende do banqueiro ao morador de rua. Dadas as condições, todos os presidentes tentam o mesmo milagre.
O que há de especificamente varguista é a ligação com setores populares antes desarticulados. Ao constituir, desde o alto, o povo em ator político, o lulismo retoma a combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou.
BURGUESIA EM CALMA Mas em 1º de janeiro de 2003 ninguém poderia prever o enredo urdido pela história. Para manter em calma a burguesia, o mandato inicial de Lula, como se recorda, foi marcado pela condução conservadora nos três principais itens da macroeconomia: altos superavits primários, juros elevados e câmbio flutuante. Na aparência, o governo seguia o rumo de FHC e seria levado à impopularidade pelas mesmas boas razões.
De fato, 2003 foi um ano recessivo e causou desconforto nos setores progressistas. Ao final, parte da esquerda deixou o PT para formar o PSOL. Mesmo com a retomada econômica no horizonte de 2004, Brizola deve ter morrido em desacordo com Lula, por ter transigido com o adversário.
Ocorre que, de maneira discreta, outro tripé de medidas punha em marcha um aumento do consumo popular, na contramão da ortodoxia. No final de 2003, dois programas, aparentemente marginais, foram lançados sem estardalhaço: o Bolsa Família e o crédito consignado. Um era visto como mera junção das iniciativas de FHC. O segundo, como paliativo para os altíssimos juros praticados pelo Banco Central.
Em 2004, o salário mínimo começa a se recuperar, movimento acelerado em 2005. Comendo o mingau pela borda, os três aportes juntos começaram a surtir um efeito tão poderoso quanto subestimado: o mercado interno de massa se mexia, apesar do conservadorismo macroeconômico.
Nas pequenas localidades do interior nordestino, na vasta região amazônica, nos lugares onde a aposentadoria representava o único meio de vida, havia um verdadeiro espetáculo de crescimento, o qual passava despercebido para os "formadores de opinião".
PASSO DECISIVO Quando sobrevém a tempestade do "mensalão" em 2005 -e, despertado do sono eterno pela reedição do cerco midiático de que fora vítima meio século antes no Catete, o espectro do dr. Getúlio começa a rondar o Planalto-, já estavam dadas as condições para o passo decisivo.
Em 3 de agosto -sempre agosto-, em Garanhuns (PE), perante milhares de camponeses pobres da região em que nascera, Lula desafiou os que lhe moviam a guerra de notícias: "Se eu for [candidato], com ódio ou sem ódio, eles vão ter que me engolir outra vez".
Até então, a ligação entre Lula e os setores populares era virtual. Chegara ao topo cavalgando uma onda de insatisfação puxada pela classe média. Optou por não confrontar os donos do dinheiro. Perdeu parte da esquerda. Na margem, acionou mecanismos quase invisíveis de ajuda aos mais necessitados, cujo efeito ninguém conhecia bem.
Foi só então que, empurrados pelas circunstâncias, o líder e sua base se encontraram: um presidente que precisava do povo e um povo que identificou nele o propósito de redistribuir a renda sem confronto.
PLACAS TECTÔNICAS Os setores mais sensíveis da oposição perceberam que fora dada a ignição a uma fagulha de alta potência e decidiram recuar. A hipótese de impedimento foi arquivada, para decepção dos que não haviam entendido que placas tectônicas do Brasil profundo estavam em movimento.
Em 25 de agosto, um dia depois do aniversário do suicídio de Vargas, Lula podia declarar perante o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social que a página fora virada: "Nem farei o que fez o Getúlio Vargas, nem farei o que fez o Jânio Quadros, nem farei o que fez o João Goulart. O meu comportamento será o comportamento que teve o Juscelino Kubitschek: paciência, paciência e paciência". Uma onda vinda de baixo sustentava a bonomia presidencial.
O Lula que emerge nos braços do povo, depois da crise, depende menos do beneplácito do capital. Daí a entrada de Dilma Rousseff e Guido Mantega em postos estratégicos, o que mudou aspectos relevantes da política macroeconômica. Os investimentos públicos, contidos por uma execução orçamentária contracionista, foram descongelados no final de 2005. O salário mínimo tem um aumento real de 14% em 2006.
POLARIZAÇÃO Para o público informado, a constatação do que ocorrera ainda demoraria a chegar. Foi preciso atingir o segundo turno de 2006 para que ficasse claro que o povo tinha tomado partido, ainda que em certos ambientes de classe média "ninguém" votasse em Lula.
A distribuição dos votos por renda mostra a intensa polarização social por ocasião do pleito de 2006. Pela primeira vez, o andar de baixo tinha fechado com o PT, antes forte na classe média, numa inversão que define o realinhamento iniciado quatro anos antes.
Embora, do ponto de vista quantitativo, a mudança relevante tenha se dado em 2002, o que define o período é o duplo movimento de afastamento da classe média e aproximação dos mais pobres. Por isso, o mais correto é pensar que o realinhamento começa em 2002, mas só adquire a feição definitiva em 2006. Como, por sinal, aconteceu com Roosevelt entre 1932 e 1936.
SEGUNDO MANDATO Assentado sobre uma correlação de forças com menor pendência para o capital, o segundo mandato permitirá a Lula maior desenvoltura. Com o lançamento do PAC, fruto de um orçamento menos engessado, aumentam as obras públicas, as quais vão absorver mão de obra, além de induzir ao investimento privado.
Em 2007, foi gerado 1,6 milhão de empregos, 30% a mais do que no ano anterior. A recuperação do salário mínimo é acelerada, com aumento real de 31% de 2007 a 2010, contra 19% no primeiro mandato, conforme estimativa de um dos diretores do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)2. A geração de emprego e renda explica os 70% de aprovação do governo desde então.
Nem mesmo a derrubada da CPMF, com a qual a burguesia mostrou os dentes no final de 2007, reduziu o ritmo dos projetos governamentais. A transferência de renda continuou a crescer. Foi só ao encontrar a parede do tsunami financeiro, no último trimestre de 2008, que se interrompeu o ciclo ascendente de produção e consumo. Teria chegado, então, segundo alguns, a hora da verdade. Com as exportações em baixa, o lulismo iria definhar.
COMPRAR SEM MEDO Mas o lulismo já contava com um mercado interno de massa ativado, capaz de contrabalançar o impacto da crise no comércio exterior. A ideia, difundida pelo presidente, de que a população podia comprar sem medo de quebrar, ajudou a conter o que poderia ser um choque recessivo e a relançar a economia em tempo curto e velocidade alta.
Além da desoneração fiscal estratégica, como a do IPI sobre os automóveis e os eletrodomésticos da linha branca, o papel dos bancos públicos -em particular o do BNDES- na sustentação das empresas aumentou a capacidade do Estado para conduzir a economia. Numa manobra que lembra a de Vargas na Segunda Guerra, Lula utilizou a situação externa para impulsionar a produção local.
Surge uma camada de empresários -Eike Batista parece ser figura emblemática, como notava dias atrás um economista-, dispostos a seguir as orientações do governo. A principal delas é puxar o crescimento por meio de grandes obras, como as de Itaboraí -o novel polo petroquímico no Estado do Rio-, as de Suape (PE) e de Belo Monte, na Amazônia. Cada uma delas alavancará regiões inteiras.
Por fim, a aliança entre a burguesia e o povo, relíquia de tempos passados que ninguém mais achava que pudesse funcionar, se materializa diante dos olhos. Que o estádio do Corinthians em Itaquera não nos deixe mentir.
PROJETO PLURICLASSISTA A candidatura Dilma representa o arco que o lulismo construiu. A ex-ministra, por sua biografia, é talhada para levar adiante um projeto nacional pluriclassista. O fato de ter sido do PDT até pouco tempo atrás não é casual. A mãe do PAC tem uma visão dos setores estratégicos em que a burguesia terá que investir, com o BNDES.
O povo lulista, que deseja distribuição da renda sem radicalização política, já dá sinais de que o alinhamento fechado em 2006 está em vigor. Em duas semanas de propaganda eleitoral na TV, Dilma subiu 9 pontos percentuais e Serra caiu 5. À medida que os mais pobres adquirem a informação de que ela é a candidata de Lula, o perfil do seu eleitorado se aproxima do que foi o de Lula em 2006. Ou seja, o voto em Dilma cresce conforme cai a renda, a escolaridade e a prosperidade regional.
A classe média tradicional, em que pese aprovar o governo, continuará a votar na oposição, como demonstram a dianteira de Serra em Curitiba e o virtual empate em São Paulo, municípios em que o peso numérico das camadas intermediárias é significativo.
Parte delas, sobretudo entre os jovens universitários, deverá optar por Marina Silva. Isso explica por que os que têm renda familiar mensal acima de cinco salários mínimos dão 12 pontos percentuais de vantagem para a soma de Serra e Marina sobre Dilma na pesquisa Datafolha concluída em 3/9.
O problema da oposição é que esse segmento reúne apenas 14% do eleitorado, de acordo com a amostra utilizada pelo Datafolha, enquanto os mais pobres (até dois salários mínimos de renda familiar mensal) são 48% do eleitorado. Nesse segmento, Dilma possui uma diferença de 22 pontos percentuais sobre Serra e Marina somados! Se vier a ganhar no primeiro turno, será graças ao apoio, sobretudo, dos eleitores de baixíssima renda, como ocorreu com Lula na eleição passada.
REALINHAMENTO A feição popular da provável vitória de Dilma confirma, assim, a hipótese que sugerimos no ano passado a respeito da novidade que emergiu em 2006. Se estivermos certos, por um bom tempo o PSDB precisará aprender a falar a linguagem do lulismo para ter chances eleitorais. Não se trata de mexicanização, mas de realinhamento, o qual significa menos a vitória reiterada de um mesmo grupo e mais a definição de uma agenda que decorre do vínculo entre certas camadas e partidos ou candidatos.
Quando um governo põe em marcha mecanismos de ascensão social como os que se deram no New Deal, e como estamos a assistir hoje no Brasil, determina o andamento da política por um longo período. Num primeiro momento, trata-se da adesão dos setores beneficiados aos partidos envolvidos na mudança -o Partido Democrata nos EUA, o PT no Brasil.
Com o passar do tempo e as oscilações da conjuntura, os aderentes menos entusiastas podem votar em outro partido, mesmo sem romper o alinhamento inicial. Foi o que aconteceu com as vitórias do republicano Eisenhower (1952 e 1956) e dos democratas Kennedy (1960) e Johnson (1964).
Mas para isso a oposição não pode ser extremada, como bem o percebeu a hábil Marina Silva. Até certa altura da sua campanha, José Serra igualmente trilhou esse caminho. Foi a fase em que propôs cortar juros e duplicar a abrangência do Bolsa Família.
Depois, tragado pela lógica do escândalo, retornou ao caminho udenista da denúncia moral, que só garante os votos de classe média -o que, no Brasil, não ganha eleição. Convém lembrar que no ciclo dominado pelo alinhamento varguista, a UDN só conseguiu vencer com um candidato: Jânio Quadros, que falava a linguagem populista. Fora disso, resta o golpe, sombra da qual estamos livres.
DURAÇÃO Qual será a duração do ciclo aberto em 2002, completado em 2006, e, aparentemente, a ser confirmado em 2010? O realinhamento abrange, por definição, um período longo. O último que vivemos, dominado pelo oposicionismo do MDB/PMDB, durou 12 anos (1974-86) e foi sepultado, quem sabe antes do tempo, pelo fracasso em controlar a inflação. A resposta para o atual momento também deve contemplar a economia.
Por isso, as condições de manter, pelo menos, o ritmo de crescimento médio alcançado no segundo mandato de Lula, algo como 4,5% de elevação anual do PIB, estarão no centro das preocupações do novo presidente. Sem ele, as premissas do lulismo ficam ameaçadas. Recados criptografados sobre a necessidade de reduzir a rapidez do crescimento e de fazer um ajuste fiscal duro já apareceram na imprensa, dirigidos a Dilma, provável vencedora.
O capital financeiro -apelidado na mídia de "os mercados"- vai lhe cobrar o tradicional pedágio de quem ainda não "provou" ser confiável. Caso os reclamos de pisar no freio não sejam atendidos, sempre haverá o recurso de o BC -cuja direção deverá continuar com alguém como Henrique Meirelles, senão o próprio- aumentar os juros. O aumento real do salário mínimo no primeiro ano de governo, que dependerá da presidente, pois o PIB ficou estagnado em 2009, será outro teste relevante.
CABO DE GUERRA Convém notar que, no segundo mandato de Lula, ainda que de modo relutante, o BC foi obrigado a trabalhar com juros mais baixos. Mas o cabo de guerra será reiniciado no dia 3 de janeiro de 2011. Com os jogadores em posse de um estoque de fichas renovados pela eleição, uns apostarão em uma recuperação do espaço perdido, outros numa aceleração do caminho trilhado no segundo mandato.
O PMDB, elevado à posição de sócio importante da vitória, atribuiu-se, na campanha, o papel de interlocutor com o empresariado. O PT, possivelmente fortalecido por uma bancada maior, deverá, pela lógica, fazer-lhe o contraponto do ângulo popular. A escolha dos presidentes da Câmara e do Senado, em fevereiro, servirá de termômetro para o balanço das respectivas forças.
O futuro do lulismo dependerá de continuar incorporando, com salários melhores, os pobres ao mundo do trabalho formal. Em torno desse ponto é que se darão os principais conflitos e se definirá a extensão do ciclo. Alguns analistas da oposição alertam para a proximidade de um índice de emprego que começará a encarecer a mão de obra e gerar inflação. Como mostra Stiglitz,3 é a conversa habitual dos conservadores para brecar a expansão econômica.
Por fim, não se deve esquecer que uma palavra decisiva sobre esses embates virá de São Bernardo, onde residirá o ex-presidente, bem mais perto da capital do que foi, no passado, São Borja.
Aguardam-se os conselhos de Vargas e Brizola, dos quais poderemos tomar conhecimento naquelas mensagens psicografadas por Elio Gaspari.
Notas
1. Ver André Singer. "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo", "Novos Estudos", 85, nov 2009. Link para o artigo em folha.com/ilustríssima
2. Ver João Sicsú. "Dois Projetos em Disputa". "Teoria e Debate", 88, mai/jun 2010.
3. Ver Joseph Stiglitz, "Os Exuberantes Anos 90", Companhia das Letras, 2003.
Ao constituir, desde o alto, o povo em ator político, o lulismo retoma a combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou. Empurrados pelas circunstâncias, o líder e sua base se encontraram: um presidente que precisava do povo e um povo que identificou nele o propósito de redistribuir a renda sem confronto
Em 2006, pela primeira vez, o andar de baixo tinha fechado com o PT, antes forte na classe média, numa inversão que define o realinhamento iniciado quatro anos antes. A aliança entre a burguesia e o povo, que ninguém mais achava que pudesse funcionar, se materializa diante dos olhos. Que o estádio do Corinthians em Itaquera não nos deixe mentir.

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