segunda-feira, outubro 11, 2010

O Lulismo em xeque

O Lulismo em xeque
Alberto Aggio
Houvesse um vencedor nas eleições presidenciais do dia 3 de outubro este teria sido Lula e o neologismo que lhe corresponde. Mas, como se sabe, não foi isso que aconteceu. A arrogância com a qual Lula se conduziu, aliada a outros fatores, resultou na insuficiência de votos para que Dilma colocasse um ponto final na contenda. O comportamento de Lula não se resume a uma questão de conduta eleitoral. Ele é a expressão de uma interpretação da política que ganhou corações e mentes e se espalhou por entre os apoiadores do presidente.
Com o baque, o silêncio e o desaparecimento momentâneo de Lula se fizeram necessários porque era, enfim, o lulismo que havia sido questionado em sua essência. A campanha de Dilma terá que encontrar um novo eixo e Lula deverá de afastar providencialmente do centro da cena, sob risco de complicar mais ainda a eleição da candidata que fabricou. Não há outra razão para os jornais passarem a noticiar os desajustes internos da campanha de Dilma depois do primeiro turno.
Fenômeno ou conceito eminentemente midiático, o lulismo não forma um conjunto de idéias claras e muito menos fundamentadas. Não se sabe precisamente os valores que o norteiam e sendo assim ele pode vocalizar aquilo que bem lhe aprouver conforme seus interesses momentâneos. O lulismo também não é um movimento social embora sua principal figura tenha emergido de um movimento sindical ascendente que depois ultrapassou os limites do chamado “sindicalismo de resultados” para ancorar no puro pragmatismo, inteiramente soldado e dependente do Estado.
Alçado ao governo, o lulismo é uma construção que data de 2002 e chega a 2010 com uma identificação visível: pós-ideológico, ele é personificação em estado líquido, estado da natureza política no qual as formas não se definem em momento algum. Em sua ainda breve trajetória, o lulismo se configurou como um ator político a partir de uma narrativa cumulativa e permanente de êxitos atribuídos a Lula, independentemente da sua aferição. Uma narrativa exitosa que não pode ser compartilhada com outros atores. Impedido de pleitear um terceiro mandato, o que Lula buscou nessa eleição, por caminhos e descaminhos, foi interpor sua candidata como representação viva e figurativa dessa narrativa.
O lulismo só pode operar com êxito num clima de unanimidade ou tendente a ela, no qual a oposição tem que ser residual ou “exterminada”. Tal como outros personalismos conhecidos, o lulismo não foi feito para desagradar e nem lidar com situações desagradáveis nas quais vêm à tona críticas e questionamentos. Contudo, em política não é possível imaginar que a busca ou a improvável conquista da unanimidade deva ser concebida como norma ou devir da política democrática nas sociedades complexas.
Cego a essa lição essencial, o lulismo abriu o flanco e foi alvejado pela votação que impôs a necessidade do segundo turno nas eleições presidenciais. Não houve a esperada homologia entre os índices de popularidade de Lula e a votação de Dilma. O resultado passou muito longe disso e mesmo dos índices que davam vantagem à candidata oficial. Os dias que se seguiram não trouxeram bom augúrio para o Presidente. A sorte, que costumeiramente lhe sorriu, não lhe jogou no colo o Prêmio Nobel da Paz, atribuído ao dissidente chinês Liu Xiaobo, para desencanto daqueles que apostavam em Lula.
Questionado, o lulismo poderá até vencer, mas terá que fazê-lo em condições inesperadas, já na defensiva e tendo que disputar com a oposição a mensagem da união de todos os brasileiros por um futuro melhor e mais justo. E esta não deve se afastar um milímetro da grande orientação que tem na democracia e no pluralismo o caminho para esta construção. E nela não cabe mais personalismos.
Alberto Aggio é professor de História da UNESP-Franca

J. Bosco para O Liberal


Empresa sem o dono

Empresa sem o dono
FERREIRA GULLAR
Há um desinteresse da parte das autoridades de saúde e dos médicos por cumprir suas obrigações
EDMILSON É um cidadão carioca que vive com dificuldade, ganhando pouco, tendo que sustentar um filho inválido de 12 anos que não fica em pé e nem mesmo consegue sentar-se. Haja força para levá-lo ao banheiro, banhá-lo e vesti-lo.
Edmilson, de poucos músculos e fumante inveterado (deixou de fumar faz pouco), não goza de boa saúde, de modo que, frequentemente, procura médico em algum hospital público e nada consegue, claro.
Faz alguns meses, sentindo dificuldade de respirar, uma dor no peito, decidiu ir a um hospital público relativamente próximo de sua casa, que fica em Anchieta, zona oeste do Rio. Entrou na fila às oito da manhã, recebeu um número e esperou pacientemente até ser chamado.
Isso ocorreu às três da tarde, ou seja, sete horas depois. Informaram-lhe de que não podia ser atendido porque o médico cardiologista estava de férias. Voltou para casa assustado, certo de que sofreria um infarto a qualquer momento.
Ao tomar conhecimento disso, perguntei-me se o serviço público de saúde está entregue a sádicos que têm prazer de torturar o paciente. Do contrário, por que deixá-lo na fila de espera durante horas e horas, sabendo que não há médico para atendê-lo? Isso, de um lado; de outro, como pode o cardiologista de um hospital público entrar de férias sem que se providencie outro médico para substituí-lo?
Pois bem, isso foi há muitos meses, mas, agora, há pouco mais de uma semana, Edmilson, sentindo dor num dos ouvidos, foi aconselhado a buscar um serviço médico de emergência porque poderia ter contraído uma infecção ou até mesmo estar com um tumor no ouvido.
A opção pelo serviço de emergência veio porque, se fosse a um hospital público normal, dificilmente seria atendido, como já se viu. E o caso era urgente.
Saiu de casa bem cedo para não ter que esperar o dia todo e, de fato, não esperou muito; aliás, não esperou nada, pois logo soube que ali, naquela emergência, não havia médico otorrino. "E a senhora pode me dizer em que emergência há médico otorrino?", perguntou à funcionária, que lhe disse desconhecer alguma emergência com esse tipo de médico. E Edmilson voltou mais uma vez para casa sem ser atendido pelo serviço médico do Estado que sustentamos com nossos impostos. E o que vai ser dele, tendo um enfisema no pulmão e um tumor no ouvido?
Edmilson é apenas um entre milhões de brasileiros que não têm atendimento médico, embora, agora mesmo, durante a campanha eleitoral, os políticos tenham dito que o Brasil tenha um dos melhores serviços de saúde pública do mundo. É muita cara de pau!
Claro que eles mesmos não acreditam nisso e não desejam tomar conhecimento do que efetivamente ocorre nessa área. Há, sem dúvida, carência de meios para atender à demanda de cem milhões de pessoas ou mais.
Não é fácil dar atendimento satisfatório a tanta gente, mas o que se observa é que, afora a carência de meios, há também um desinteresse da parte das autoridades de saúde e dos médicos mesmo por cumprir suas obrigações, o que se traduz em ausência de espírito público.
O chefe, em vez de exigir dos servidores o cumprimento de suas tarefas, dá mole, faz vista grossa para suas faltas e sua displicência.
Isso ocorre no serviço público de modo geral e também, claro, na área da saúde, em que assume maior gravidade. Fazer cumprir as normas, ao que tudo indica, é visto hoje como uma atitude autoritária e o que impera é o espírito de camaradagem, que termina por anular a autoridade dos que têm por função gerir a coisa pública.
Soube recentemente do caso de um médico que, nas noites de plantão, tranca-se num dos quartos do hospital e dorme a sono solto, morra quem morrer.
Não admite ser acordado, já que a noite foi feita para dormir. E fica por isso mesmo, já que pega mal denunciar um colega...
Isso ocorre por muitas razões e talvez a principal delas seja mesmo o fato de que o serviço público é uma empresa, cujo dono, o povo, está ausente e os que estão ali para representá-lo, os diretores e chefes de serviço, ou não têm consciência disso ou, como os demais, aproveitam a ausência do dono para usá-lo em função de seu próprio interesse. É a casa da mãe joana.

Especialistas aprovam tom mais incisivo dos dois, mas têm dúvidas se isso renderá votos

Especialistas aprovam tom mais incisivo dos dois, mas têm dúvidas se isso renderá votos
Cristina Azevedo – O Globo
 Especialistas ouvidos pelo GLOBO viram no debate de ontem um corte em relação à campanha do primeiro turno, em que a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, e o candidato do PSDB, José Serra, evitavam o confronto direto.
Para eles, houve uma atmosfera de ataque e de contra-ataques, em que temas polêmicos antes evitados — como o escândalo envolvendo a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra, ex-braço-direito de Dilma — foram abordados.
Mas, mesmo tornando o debate mais emocionante, esse clima de confronto pode não se traduzir em votos para nenhum dos dois candidatos, opinam.
Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o grande ausente no debate de ontem, na análise dos especialistas ouvidos pelo GLOBO.
Se nos enfrentamentos anteriores ele era citado tanto pela candidata do PT quanto pelo do PSDB, desta vez as menções ao seu nome foram poucas de lado a lado.
Dilma já demonstra mais experiência Para Eurico Figueiredo, professor do curso de pós-graduação de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense, o debate de ontem foi mais emocional que os anteriores, e o candidato do PSDB, José Serra, mostrou-se mais agressivo do que vinha sendo.
— Serra fez duas coisas que lhe cobravam muito: mostrar sua trajetória como político profissional e tocar em pontos polêmicos, como o caso Erenice. Ele se mostrou mais agressivo e isso lhe dá uma vantagem, ao meu ver — disse Figueiredo.
Para Figueiredo, Dilma foi assertiva, mas teve menos fluência do que Serra.
O professor de História Contemporânea Daniel Aarão Reis, por sua vez, acha que Dilma parecia insegura a princípio, “atingida pelos ataques que vem sofrendo, e exprimiu isso com franqueza e sinceridade”. No segundo bloco, no entanto, ela recuperou o autocontrole e mostrou conhecimento dos temas discutidos. Sobre Serra, Reis destaca que, embora atacado no debate sobre privatizações, teve como ponto forte a articulação e o autocontrole.
O debate mostrou também uma Dilma Rousseff já um pouco mais habituada à política.
Se não respondeu a todas as perguntas, na opinião de Figueiredo, ela demonstrou certa sagacidade política ao trazer temas que não dominava para áreas que conhecia melhor.
— Foi o primeiro debate frente a frente dela, e ela já se mostrou mais experiente.
Também foi autêntica, o que permitiu conhecê-la um pouco melhor — disse Figueiredo.
— Serra também foi ele mesmo. Nesse sentido, o debate foi bom. Acho que ela foi bem, mas ele foi melhor.
 “Lula não se materializou no debate” Sobre uma certa ausência do presidente Lula no debate, Figueiredo acredita que isso foi uma decisão acertada do lado de Serra, que desta vez se mostrou mais como um opositor, mas errada do lado de Dilma, que tem no presidente seu principal aliado.
— Desta vez, Lula foi praticamente um fantasma, não se materializou no debate.
Reis, por seu lado, destaca que o clima de ataques e contra-ataques pode não contribuir “para a elucidação das propostas dos candidatos”.
— Talvez eu esteja exagerando, mas acho que os dois candidatos estão perdendo.
Talvez Serra esteja perdendo menos, pela sua maior capacidade de articulação e por aparentar maior autocontrole — disse Reis, para quem Serra se saiu melhor ao discutir a segurança e a saúde; enquanto Dilma foi melhor na discussão sobre privatizações.
Figueiredo também concorda com os resultados dúbios dos ataques de ontem: — Isso pode levar a um resultado negativo para os dois — afirmou.

Visões opostas sobre portos e aeroportos

Visões opostas sobre portos e aeroportos
O Globo
Serra critica infraestrutura e Dilma reage defendendo o governo; ataques também sobre a venda da Nossa Caixa
 A infraestrutura de portos e aeroportos no país e os programas habitacionais foram discutidos no quarto bloco do debate da TV Bandeirantes pelos candidatos Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Os temas serviram, mais uma vez, de combustível para a troca de acusações.
Serra atacou: disse ser o sistema portuário brasileiro um dos piores do mundo. Dilma se defendeu e culpou o governo do PSDB de não investir no setor, em função de acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Serra citou os portos de Santos (SP) e de Salvador (BA) como uns dos mais críticos. O tucano também criticou os aeroportos.
— A respeito da infraestrutura de portos e aeroportos, estudos do Ipea mostram que o Brasil é um dos países em pior situação em matéria portuária. Só em Santos há cem navios aguardando vaga — disse Serra Dilma revidou e lembrou o período em que Serra foi ministro do Planejamento no governo Fernando Henrique: — No Brasil, no período em que você (Serra) era ministro do Planejamento, não investiu em portos e aeroportos.
O que não fizeram ficou para a gente fazer. Fizemos o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Ainda sobre infraestrutura, Dilma acusou Serra de “falar mal” do programa do governo federal Minha Casa, Minha Vida.
O tucano negou que tenha criticado, mas desmentiu números divulgados sobre o programa: — Ela (Dilma) fala em um milhão de unidades, mas foram entregues só 150 mil — disse o tucano.
— Ele (Serra) tem dito que vai continuar programas do presidente Lula. Já vi você falar muito mal do Minha Casa, Minha Vida. Vocês, usuários, olhem bem para o candidato.
Candidatos divergem sobre a venda da Nossa Caixa No terceiro bloco, Dilma voltou a falar de privatização e associou Serra à venda do banco Nossa Caixa, que pertencia ao governo do Estado de São Paulo.
— Serra, a Nossa Caixa, você queria porque queria vender. E o governo federal comprou.
Mostra claramente nossa diferença.
A segunda foi a Cesp (Companhia Energética de São Paulo). Você queria vender a Cesp. A nossa diferença é marcada não por falas, por disse que disse, mas pela prática. E aí é aquela questão: fala, mas não faz. Queria falar da diferença entre nós: nós financiamos empresas brasileiras, vocês financiavam grupos internacionais com dinheiro do BNDES.
Em seu comentário, Serra contestou a veracidade das informações citadas por Dilma: — Ela diz uma coisa totalmente falsa. São Paulo tinha um banco, a Nossa Caixa. Eu vendi a Nossa Caixa para o governo federal, que fortaleceu o Banco do Brasil. Os recursos obtidos do Banco do Brasil foram investidos em metrô, em transportes. Não é verdade o que a Dilma diz.
Ao falar sobre saúde, Serra criticou a burocracia que vem atrasando as autorizações para fabricação de novos medicamentos genéricos. A candidata do PT afirmou que a produção dos remédios genéricos aumentou durante o governo Lula: — A produção de genéricos aumentou no Brasil. Ou ele está mal informado ou não estou entendendo o que ele está falando.
Serra disse que, de fato, ela não teria entendido a pergunta: — Evidente que foi um sucesso e a produção aumentou. Mas o governo tem de aprovar a produção de novos medicamentos.
Na minha época, a autorização demorava seis meses. Agora, demorar até um ano e meio.

Tiago Recchia, para Gazeta do Povo


Valorização da vida?

Valorização da vida?
GILBERTO DIMENSTEIN - FOLHA DE SÃO PAULO
Estatísticas indicam uma linha paralela entre maior número de jovens na escola e queda da violência
DESDE QUE comecei a investigar, no fim da década de 1980, as mais diversas formas de agressão contra crianças e adolescentes no Brasil, constatei que a origem da violência estava na família. Ou na falta dela.
Nas entrevistas, surgiam, invariavelmente, histórias de maus-tratos em casa. Percebi que, embora nem todas as vítimas se tornassem pessoas violentas, os violentos tinham sofrido algum trauma doméstico, esta uma das causas do problema.
Tempos depois, tomei conhecimento de imagens captadas por ressonância magnética que mostravam que os maus-tratos na infância geram uma alteração cerebral e podem explicar atitudes antissociais.
Pesquisas realizadas nos Estados Unidos revelam, com nitidez, como crianças que recebem bom atendimento desde o berço e que são estimuladas pelos pais e, depois, na pré-escola são mais propícias a um bom desempenho escolar, têm maior chance de empregabilidade e menor risco de envolvimento em problemas com a polícia e a Justiça.
É por esse prisma que encaro o debate sobre aborto no Brasil, tratado agora com um tom histericamente eleitoral.
Causaram polêmica em escala mundial estatísticas divulgadas por economistas, segundo as quais os crimes violentos nos Estados Unidos caíram mais nas cidades em que o aborto é permitido. Por mais terrível que seja esse dado, não me espantei: deixaram de nascer crianças rejeitadas e desrespeitadas pelos pais. Misturem-se aí a baixa escolaridade, a dificuldade de conseguir um emprego, comunidades infestadas de criminosos tidos como referência a ser admirada, a falta de lazer e o acesso fácil a drogas.
Nada disso significa a defesa do aborto para evitar o crime, mas apenas a constatação de que o poder público deveria ajudar as mulheres a realizar planejamento familiar. O acesso a métodos contraceptivos é também uma questão de educação.
O planejamento familiar no país cresceu. Poderia ter crescido mais rapidamente se não fosse a força das religiões -tão grande que, como se vê nestas eleições, José Serra e Dilma Rousseff se veem obrigados, contrariando suas crenças íntimas, a pôr a fé acima da saúde pública.
Somente em 1994 se regulamentou o aborto nos casos de estupro e risco de morte das mães, uma lei aprovada em 1940 (sim, 1940!).
Grupos religiosos, conectados com os governos, atacaram a distribuição de pílula anticoncepcional, de camisinhas e de pílulas do dia seguinte. Condenaram até mesmo programas de educação sexual nas escolas, apontados como imorais. Na semana passada, o Vaticano atacou o Prêmio Nobel concedido ao criador da fertilização in vitro.
Isso retardou ou impediu o desenvolvimento desses programas.
É uma situação terrível. A mulher não consegue se proteger por falta de apoio do poder público e/ ou desinformação. Engravida contra a própria vontade. É condenada a fazer um aborto nas piores situações possíveis, correndo riscos, por falta de um sistema digno de saúde. Depois, ainda é apontada como criminosa e pecadora. Uma das principais causas da evasão escolar é a gravidez na adolescência.
Não quero ofender ninguém, mas isso me parece fazer maldades em nome de Deus.
Experiências isoladas vêm mostrando, no Brasil, como aliar informação a acesso a métodos contraceptivos tem funcionado nas comunidades mais pobres, ajudando as mulheres a planejar o tamanho de sua família, a manter-se nos estudos e a obter melhores empregos. Depois, tendem a ser melhores mães. Até porque são mais educadas.
Essas ações são resultado de gente que teve coragem de enfrentar os preconceitos e a pancadaria. Assim, hoje se pode pegar de graça pílula do dia seguinte ou camisinha numa estação do metrô ou num posto de saúde em São Paulo.
Lembro, por sinal, que estatísticas em bairros da cidade de São Paulo indicam uma linha paralela entre maior número de jovens nas escolas e queda da violência.
Penso que isso é valorizar a vida, considerando-a uma energia divina de criação.
PS- Para fazer justiça: nas minhas andanças pelos lugares mais violentos, investigando a situação das crianças e dos adolescentes, as pessoas mais despojadas que encontrei foram alguns padres, freiras e pastores. Foram lições inesquecíveis. Apesar de discordar de suas posições, prefiro a honestidade deles à encenação cristã de José Serra e Dilma Rousseff.

Matéria de princípio

Matéria de princípio
Luiz Werneck Vianna - VALOR ECONÔMICO
Vamos para a fase decisiva da sucessão presidencial sem a presença da personalidade e do discurso que a salvaram, especialmente no final da campanha, da rotina regida pelo marketing eleitoral. Com Marina, de algum modo, o mundo da vida - no seu léxico, uma política para o século XXI com eixo na solidariedade e na cooperação social - encontrou passagem na disputa que se concentrava nos candidatos Dilma e Serra. Ambos indisfarçavelmente vindos da região sistêmica da vida social, estatísticas em punho, prometendo mundos e fundos, e chamando para si a responsabilidade de levar à frente a modernização econômica e social do país, cujos fundamentos, já conhecidos pelas práticas exitosas dos governos anteriores, não deveriam ser objeto de controvérsias. Ao eleitor cabia apenas indicar qual deles seria o mais qualificado a fim de realizar essa tarefa consensual.
A leitura das urnas, contudo, subverteu o cenário do primeiro turno. O voto da periferia, tal como visto na zona Oeste do Rio de Janeiro, em cujos bairros as famílias de baixa renda se constituem em maioria, não demonstrou ser um monopólio do PT, como era de se esperar em razão das políticas assistencialistas do governo. Nessa região, a candidata do PV rondou em torno dos 33% dos votos ("O Globo", 05/10/10, p. 14), fenômeno que se reiterou exemplarmente na cidade de Volta Redonda, outrora cidade símbolo da industrialização do país, em que ela foi a vitoriosa com 40,02% da votação contra 39,53 de Dilma e apenas 18,7 de Serra, e nos surpreendentes resultados de Recife, com seus 36,73% contra os 42,92% de votos para Dilma (Valor, 06/10/10, p. A16), em meio a um oceano de sufrágios da chapa da situação.
A pesquisa dos especialistas no estudo do voto decerto que trará mais luz sobre essa inesperada rebelião do voto popular, que dissentiu da orientação que lhe vinha das estruturas partidárias, das máquinas eleitorais dos governos, inclusive de organizações religiosas influentes, principalmente as de adesão evangélica, como, no caso do Rio de Janeiro, da poderosa Assembleia de Deus. Mas, desde logo, está claro que a religião, para o bem e para o mal, está participando do processo eleitoral, e que a identidade evangélica de Marina contribuiu em não pequena monta para o seu sucesso eleitoral nos setores subalternos da sociedade.
A votação em Marina, porém, claramente transcendeu o voto evangélico, como atesta a consulta do voto de urnas de zonas eleitorais das camadas médias. O tema do meio ambiente, com audiência crescente na sociedade, em particular na juventude, certamente teve um peso considerável, mas a questão que importa reter é que sua votação extravasou do seu nicho temático.
A insistência com que muitos analistas procuram explicar o seu voto pela religião ou pela questão ambiental - há quem fale no voto chique em Marina - deixa de fora a marcação política do seu discurso, sua ênfase nos valores republicanos, e, principalmente, em um debate cujo centro gravitava em torno de papéis a serem conferidos ao Estado, a sua opção em se dirigir à sociedade civil em busca de soluções.
Contudo, mesmo sem a candidatura de Marina, não há reversão possível ao quadro anterior, protagonizado pelas questões sistêmicas, em que o mundo popular era interpelado apenas como consumidor de bens e serviços. O inventário de boas questões trazidas por ela certamente será reapresentado ao eleitor pelos candidatos que seguem na disputa. Mas, sobre a leitura desse primeiro turno, que ora deixamos para trás, paira um risco a ser erradicado pela raiz, qual seja o de franquear o espaço republicano à ação da religião, e, sinal sinistro, a grupos religiosos fundamentalistas.
Quanto a essa decisiva questão não se pode deixar de registrar que, sob o governo Lula, em tratativas com os vértices da Igreja Católica, já foram dados passos de rendição do Estado - laico, por definição constitucional - em matéria de ensino religioso nas escolas públicas, ainda passíveis de extensão a outras designações religiosas.
Tamanha presença da religião no coração da vida republicana que é a escola pública, iniciativa ainda a ser concretizada, só encontra paralelo no regime de Vargas (um positivista sem religião), quando se permitiu, em 1931, que se instalasse no cimo da elevação conhecida como Corcovado, em plena capital federal, a estátua do Cristo Redentor. E, poucos anos mais tarde, até por pressões exercidas pela hierarquia católica, se destruísse a notável experiência, então nos seus inícios, da Universidade do Distrito Federal, projeto liderado pelo grande educador Anisio Teixeira, em razão da sua natureza laica e republicana.
Mais uma convergência - pouco notada, porém sintomática - entre as eras de Vargas e a de Lula. (De passagem, para quem quiser conhecer a posição de contestação dos republicanos liberais históricos ao ensino religioso nas escolas públicas, consultar "A Ilustração Brasileira", de Roque Spencer Maciel de Barros, clássico de 1986).
Mas, se há recuos quanto à natureza laica do Estado, na sociedade civil, em particular no mundo da vida dos setores subalternos, o quadro ainda é mais complexo: a religião, aí, é com freqüência, a principal via de comunicação da população com as agências republicanas. Nesse mundo, nas décadas de meados de 1960 a 1980, a política foi banida pela repressão do regime militar, e, no vazio que restou, infiltraram-se os administradores de clientelas, o narcotráfico e as milícias. E, à falta de república, a religião e seus diversos cultos se instituíram como um dos poucos lugares de ação autônoma nesses territórios onde vige a lei da natureza.
Às instituições republicanas cabe respeitá-los e compreender o seu papel positivo na formação civil do povo, mas sem se render em matéria de princípio, por cálculos eleitorais, a expressões de fundamentalismo religioso, como nessa intempestiva questão sobre o aborto. Esse talvez o metro que nos faltava na sucessão presidencial, a fim de discriminar com nitidez o estadista do mero oportunista com seu Maquiavel mal compreendido.
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador do Iesp-Uerj. Ex-presidente da Anpocs, integra seu comitê institucional. Escreve às segundas-feiras

Que Dilma é essa?

Que Dilma é essa?
No primeiro debate do 2º turno, petista parte para o ataque direto a Serra, que revida
Paulo Marqueiro, Chico Otavio, Fábio Brisolla e Marcelo Remígio – O Globo
 O primeiro debate entre os presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) no segundo turno, realizado ontem à noite pela TV Bandeirantes, foi de ataques do começo ao fim. Logo na primeira pergunta, exaltada, Dilma já partiu para o confronto ao abordar a questão do aborto. Em todo o primeiro bloco, os dois candidatos assumiram um tom beligerante, com acusações mútuas também sobre privatizações, segurança e corrupção.
Ao longo do primeiro turno, o programa de Serra na TV criticava Dilma e o PT, enquanto a propaganda dela se concentrava mais em pregar a continuidade do governo Lula. Ontem, no debate, ela mudou a estratégia e partiu para o confronto direto.
A petista apareceu na tela também muito diferente dos debates do primeiro turno, em que evitava confrontos.
Pesquisa Datafolha divulgada ontem mostrou que a Dilma tem 48% das intenções de voto contra 41% de Serra, uma diferença bem menor do que a que esperavam os petistas.
Ao fazer uma pergunta para Serra, Dilma disse que a campanha do tucano faz calúnias e difamações contra ela. E que o vice de Serra, Indio da Costa, tem feito ataques a ela junto a grupos religiosos. Serra devolveu a acusação com outro ataque: — Eu me solidarizo com quem é vítima de ataque pessoal. Eu tenho recebido muito ataque nessa campanha.
Até blogs com seu nome fazendo ataques, não só a mim como à minha família, numa campanha orquestrada.
Agora, nós somos responsáveis por aquilo que pensamos e falamos.
A população cobra também conhecimento sobre os candidatos, qual foi sua história, etc. Creio que vocês confundem verdades, reportagens, com ataques. Por exemplo: sobre a Casa Civil, você disse que se tratava de invenção da imprensa. Aborto, você disse que era favorável, depois disse o contrário. Aí se trata de ser coerente, de não ter duas caras.
Dilma, ainda mais exaltada, aumentou o tom: — Acho que você deve ter cuidado para não ter mil caras. A última calúnia contra mim, disse que minha campanha tinha aberto sigilos, hoje você é réu de (uma ação) por calúnia e difamação. Se cuida, porque pode estar dando os primeiros passos (para cair) na questão da Ficha Limpa.
Inclusive acho estranho porque você regulamentou o aborto no SUS. E sou acusada de coisas que não vou nem dizer. Mas você regulamentou e eu sou a favor da regulamentação. Entre prender e atender (as mulheres), eu fico com atender. Sua senhora me acusa de uma coisa que é antiga. Porque o Brasil está acostumado com tolerância e não com convivência que instiga o ódio.
Serra ironizou a acusação de Dilma, afirmando que a lei do aborto é de 1940, anterior ao seu nascimento: — A lei não libera o aborto, só em casos de risco para a mãe e risco para a paciente. Em São Paulo, foi até implantada pelo prefeita Erundina, quando era do PT. O que eu fiz foi que isso precisava ter uma norma técnica que balizasse os casos de aborto no SUS, que fosse feito sem risco para a mãe, só isso. Mas você defendeu e passa a fazer o contrário.
Com relação a Deus, a mesma coisa.
Tem entrevista em que você diz que não sabe se acredita, depois vira uma devota. Casa Civil: tem uma pessoa que foi braço direito seu e durante meses organizou um esquema de corrupção, e você diz que não tem nada a ver.
Ao abordar a questão de segurança, Serra disse que no Rio ocorreram 11 arrastões e perguntou a Dilma por que ela é contra a criação do Ministério da Segurança, uma das bandeiras de campanha do tucano.
— Acho que fundamental é perceber que ela tem três aspectos, Justiça, penitenciária e segurança. São Paulo teve uma rebelião que tomou as ruas. A secretaria penitenciária não conversava com a segurança pública.
Ele está dando receita que aqui em São Paulo fracassou. O sistema penitenciário que devia saber quando haveria rebelião não sabia. Não é passo de mágica. O Rio está fazendo grande esforço, pelas UPPs, pacificando as comunidades através de ação preventiva e de outra ação, a autoridade, criando os territórios de paz — respondeu ela.
Na réplica, Serra argumentou que Dilma não respondera: — Não respondeu por que é contra criar o Ministério da Segurança.
Em São Paulo, não houve rebelião significativa. Em São Paulo, os homicídios caíram 70%, acima da média nacional, fato do qual muitos governos do PT poderiam extrair lições.
Não há um enfrentamento das bases do crime, do contrabando de armas e de drogas. Nós vamos criar uma Guarda Nacional, vamos ajudar a frear a exportação de droga para o Brasil. Vamos ter um cadastro nacional de criminosos.
Voltando ao tema, Dilma argumentou que o atual governo fez parcerias com os governos estaduais na área de segurança.
— Até então, (a questão da segurança) era afeita só aos governos estaduais.
Outra coisa que você precisa se informar. Já existe hoje a Força Nacional de Segurança Pública.Vamos comprar veículos não tripulados.
Eu acredito nesse caminho: investimento em ações afirmativas em locais onde o tráfico domina. O governo do qual você foi ministro não investiu em segurança. É bom você lembrar. Eu fico indignada com a questão da Erenice. Seu assessor Paulo Vieira de Souza fugiu com R$ 4 milhões de dinheiro de campanha

Prêmios Nobel e o sentido da vida

Prêmios Nobel e o sentido da vida
MARCELO GLEISER
A ciência atinge patamares mais elevados quando a invenção dos cientistas é motivada pela compaixão
ESSA FOI A semana em que cientistas com aspirações ao Nobel dormem pouco. O telefone pode tocar na calada da noite, e aquela voz com sotaque sueco pode estar do outro lado da linha, dando-lhe os parabéns. Ou, mais provavelmente, pode ser o seu filho com o pneu furado no meio da rua. Tudo bem, tem sempre o ano seguinte.
Neste ano, os prêmios foram bem diversos. Na medicina, ganhou Robert Edwards, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, pelas suas pesquisas pioneiras em fertilização in vitro.
Desde Louise Brown, que nasceu em 1978, são já mais de 4 milhões de bebês de proveta que devem suas vidas à persistência de Edwards. Seu trabalho mostrou que a fusão do óvulo com o espermatozoide é um processo que pode ser controlado.
"Nada é mais especial do que uma criança. Patrick Steptoe e eu fomos muito influenciados pelo desespero de inúmeros casais que não podiam ter filhos. Apesar das dificuldades e dos críticos, lutamos muito por esses casais", disse Edwards.
A ciência atinge seus patamares mais elevados quando a inventividade humana é motivada simplesmente pela compaixão.
Na física, o prêmio foi para Andre Geim e Konstantin Novoselov, ambos russos que trabalham na Universidade de Manchester, também do Reino Unido. Esse, aliás, foi um bom ano para os cientistas britânicos, que estão em meio a ameaças de cortes severos do orçamento destinado à atividade científica.
Eles foram os criadores de um novo tipo de material, o grafeno. Trata-se de uma lâmina extremamente fina de átomos de carbono -com um átomo de espessura- que promete revolucionar a eletrônica.
Um outro feito de Geim foi ter usado campos magnéticos e ímãs para levitar sapos. Quem disse que a física não pode ser divertida?
O grafeno é um material meio mágico: maleável, quase transparente, mas forte como aço. As lâminas de grafeno são excelentes condutoras de calor e de eletricidade, propriedades desejáveis em muitos circuitos elétricos. Em breve, o grafeno poderá integrar telas flexíveis de computador, sensíveis ao toque, e sensores para detectar poluição.
O interessante é como foi descoberto. Partindo de um bloco de grafite, o par usou fita durex para, pacientemente, arrancar essas lâminas ultrafinas de átomos de carbono. Às vezes, revoluções nascem de ideias extremamente simples.
Na química, o prêmio foi divido entre três cientistas que desenvolveram um método para criar cadeias longas e complexas de carbono.
A descoberta realiza, pelo menos em parte, o sonho de muitos químicos de criar uma engenharia molecular onde todo tipo possível de molécula pode ser sintetizada artificialmente. No caso, a invenção dos cientistas ajuda na produção de medicamentos e polímeros diversos.
Esses prêmios celebram a inventividade humana. Quando os comparamos com a recente descoberta de um planeta em torno da estrela Gliese 581, onde pode haver água, vemos a importância da Terra, sua fecundidade e estabilidade, permitindo nossa existência.
Quanto mais aprendemos sobre o Cosmo, mais relevante ficamos. Não por sermos o centro de tudo, mas por existirmos e por podermos refletir sobre quem somos.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

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