domingo, dezembro 26, 2010

Santo, para Charge Online


Pior que o WikiLeaks

Pior que o WikiLeaks
Rubens Ricupero - FOLHA DE S. PAULO
Há mais de um século, um telegrama diplomático quase levou a Argentina e o Brasil às vias de fato
Um telegrama diplomático brasileiro interceptado e violado por agentes do governo argentino provocou, há pouco mais de um século, grave crise que gerou clima de quase guerra entre os dois países.
Muito mais sério que o do WikiLeaks tanto pela autoria oficial da violação como das potenciais consequências, o episódio se passou na segunda metade de 1908. Seus personagens foram o barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, e Estanislao Zeballos, recém-demissionário da Chancelaria argentina que vinha de ocupar pela terceira e última vez.
Durante mais de 30 anos, os dois rivais se haviam digladiado como os heróis da novela "Os Duelistas", de Conrad ou os pitorescos quadrinhos da série "Spy vs. Spy".
O primeiro embate ocorreu em 1875, quando um enviado argentino se retirou do Rio de Janeiro sem despedir-se do imperador em meio a outra crise entre os dois países. O então jornalista e futuro barão escreveu que não se tratava de afronta ao Brasil, apenas de uma "gaucherie", isto é, uma deselegância. Confundindo a expressão com "gauchada", Zeballos revidou que isso era uma "macacada de má lei", aduzindo com racismo: "É melhor ser gaúcho do que macaco"...
Em 1895, os dois voltariam a se confrontar em Washington como adversários na questão limítrofe de Palmas, submetida à arbitragem do presidente Cleveland, dos EUA, e ganha de modo cabal pelo Brasil.
O ato final se daria em 1908, ano marcado pelos temores argentinos diante do programa de rearmamento naval brasileiro.
Zeballos, ainda ministro, havia interceptado e mandado decifrar o telegrama nº 9 enviado pelo Itamaraty à missão do Brasil no Chile, via Porto Alegre e Buenos Aires.
Pela versão argentina, Rio Branco estaria intrigando os países sul-americanos contra a Argentina, acusada de desígnios sinistros sobre o Paraguai, o Uruguai, a Bolívia e o Rio Grande do Sul.
A mensagem conteria até ofensas gratuitas contra o caráter "volúvel" dos argentinos, sua falta de estabilidade e comentário hoje irônico, pois dirigido com frequência aos nossos atuais dirigentes.
O de que "a ambição de ser protagonista os desmoraliza, sacrificando o mérito, com o descrédito de seus estadistas e prejuízos derivados da falta de seriedade que os caracteriza"...
Desafiado a submeter o telegrama a uma corte de plenipotenciários, o Barão contra-atacou de modo fulminante: publicou o texto cifrado, a tradução falsa e a autêntica, totalmente diversa, bem como o código diplomático brasileiro, que se tornou inutilizável.
Liquidou assim a questão com triunfo esmagador.
Esse não foi o único antecedente do WikiLeaks em termos de correspondência diplomática americana relativa ao Brasil. Convém lembrar também os arquivos secretos do presidente Lyndon Johnson, reveladores, em meados dos anos 1970, do grau de envolvimento de Washington com o golpe de 1964 por meio da Operação "Brother Sam".
Rio Branco teria lições a ensinar e não só aos americanos. Refratário a comentários ofensivos gratuitos a outros países, compreendia que o mais impenetrável dos códigos tem como limite a fragilidade dos seres humanos, sobretudo em tempos de crise do consenso interno sobre política exterior.

O mau sinal do governo que nem começou

O mau sinal do governo que nem começou
ELIO GASPARI – O GLOBO e FOLHA DE SÃO PAULO - 26/12/10
A permanência do deputado Pedro Novais (PMDB-MA) no Ministério do Turismo, e da senadora Ideli Salvatti (PT-SC), no da Pesca são um mau presságio para um governo que nem começou. Revelam ligeireza com o dinheiro da Viúva, onipotência e descaso pela opinião pública.
Novais recebeu da Câmara R$ 2.156 por conta de uma nota fiscal do Motel Caribe, de São Luís, relacionada com despesas feitas no estabelecimento durante a noite de 28 de junho. A senadora, que recebe R$ 3.800 mensais para custear sua moradia na Capital, cobrou à Viúva R$ 4.606 referentes a diárias de hospedagens no hotel San Marco, de Brasília, entre janeiro e dezembro deste ano.
Descobertos, ambos atribuíram as cobranças e os "erros" praticados por assessores e informaram que devolveriam o dinheiro. Pedir desculpas à patuleia, identificando publicamente os responsáveis, nem pensar. Cobrança de parte da presidente eleita que acabara de indicá-los para o ministério, muito menos. Preservou-se o padrão de casa-grande dos maganos de Brasília. Ao pessoal da senzala restou o alívio da descoberta do avanço sobre seu dinheiro, feita pelos repórteres Leandro Colon, Matheus Leitão, Andreza Matais e José Ernesto Credencio.
O deputado Novais, um maranhense octogenário, que vive no Rio de Janeiro e chegou ao Ministério do Turismo por indicação do senador José Sarney, do Amapá, foi imediatamente defendido pelo líder de seu partido, Henrique Eduardo Alves: "Ele está esclarecendo de forma competente". Em seguida, pelo futuro ministro da Articulação Política, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ): "O Pedro Novais é um parlamentar experiente e, pela história dele, precisamos dar crédito à sua versão".
Num primeiro instante, a reação de Novais foi típica dos senhores de escravos: "Pare de encher o saco. Faça o que você quiser". Depois, apresentou uma explicação que tem muito de experiente e pouco de competente: "Indignei-me como parlamentar e homem público, mas, acima de tudo, como cidadão e marido. A acusação leviana tenta atingir minha moral e a firmeza de minha vida familiar. Sou casado há 35 anos. Na noite de 28 de junho, data da emissão da nota fiscal, pelo estabelecimento, estava em casa, ao lado de minha mulher. Não posso aceitar que essa falha seja usada para acusações irresponsáveis à minha pessoa".
Mesmo que na noite de 28 de junho o deputado estivesse na Igreja Evangélica Brasileira, que fica na Rua do Amor, nas cercanias do motel Caribe, isso não teria qualquer importância. Foi seu gabinete que apresentou à burocracia da Câmara a nota fiscal do motel. Ademais, uma funcionária do Caribe informou que houvera uma reserva em seu nome.
Admitindo-se que tudo não passou de um erro, Novais deveria ser grato ao repórter Leandro Colon, pois ele permitiu que expurgasse de sua longeva biografia e de seu firme matrimônio a sombra de uma despesa de R$ 2.156 num motel.
Em 2002, a nação petista sabia que o tesoureiro Delúbio Soares ia além de suas chinelas nas mágicas financeiras que fazia com o publicitário Marcos Valério. Acharam que dava para segurar. Em 2003, o poderoso José Dirceu sabia como operava seu assessor Waldomiro Diniz. Achou que dava para segurar. Depois que as acrobacias confluíram no mensalão, Nosso Guia deu-se conta de que deveria ter substituído Dirceu logo depois do caso de Waldomiro. Em todos os episódios, o governo comprou o risco da crise porque tolerou malfeitos que lhe pareciam toleráveis. Isso, supondo-se que Dilma Rousseff não fazia ideia das atividades da família Guerra quando patrocinou a ascensão da doutora Erenice à chefia da Casa Civil da Presidência.
A senadora Salvatti e o deputado Novais foram preliminarmente exonerados pela teoria do "erro", sempre praticado por assessores jamais identificados e nunca disciplinados. Repetindo: nem desculpas pediram. Passou-se adiante o pior dos sinais: "Vamos em frente, não tem problema".
AeroAlckmin
Durante a campanha eleitoral de 2006, o tucano Geraldo Alckmin anunciou que vendera o jato HS do governo do estado de São Paulo e, caso fosse eleito presidente da República, passaria adiante o AeroLula. Fez isso depois de ter usufruído a conveniência do brinquedo durante os cinco anos em que o teve à disposição. Alckmin perdeu a eleição, e seu sucessor recomprou o jato.
Na próxima semana o avião estará a sua espera.
Caso encerrado
Na quarta-feira, o Senado aprovou o crédito de R$ 10,1 milhões para o pagamento das indenizações e das bolsas de estudo para os familiares dos 18 militares mortos em janeiro, durante o terremoto do Haiti. Demorou, mas saiu.
Futuro de Cuba
A constatação de que a Coreia do Sul e a China discutem serenamente o futuro do regime de Pyongyang serviu para fortalecer a ala da diplomacia brasileira que defende o cultivo de uma relação amigável com Cuba.
Por mais que os Estados Unidos briguem com a Coreia do Norte, certamente estarão interessados em evitar que aquele principado das trevas se transforme num condomínio econômico compartilhado por Seul e Beijing. Como diria o rei Leopoldo da Bélgica no século XIX, "quero meu pedaço do bolo".
Não haveria motivo para o Brasil se afastar de Cuba para depois assistir a uma entrada dos Estados Unidos na economia da ilha.
No século passado, o Brasil ficou a reboque dos Estados Unidos, isolando a China, e em 1971 acordou com a notícia de que o presidente Richard Nixon fizera uma surpreendente aproximação com o Grande Timoneiro Mao Zedong.
Aerocracia
Uma previsão maledicente dizia que a primeira lombada do governo de Dilma Rousseff surgiria no caminho de suas relações com os aerocratas.
Ela pretendia criar o Ministério dos Aeroportos. Desistiu e achou melhor deixar as coisas como estavam. Nas mãos do ministro da Defesa, Nelson Jobim, o governo Lula termina com mais uma semana de caos nos aeroportos, explicado pela Anac como consequência do excesso de demanda. Como se fosse novidade o fato de a companheirada viajar no final do ano.
Talvez a doutora Dilma se lembre quando ela achou racional redistribuir os balcões das empresas quebradas e foi convencida a mudar de ideia.
São dois os tipos de interesses que rondam os palácios. Um é o bloco das escavadeiras, que disputam obras físicas. Para o bem ou para o mal, constrói alguma coisa. Outro é o dos teclados, que mexe apenas com papéis. Esse bloco fatura mercadejando normas. O caos aéreo nasce desse segundo tipo.
Jogo de segredos
Um dos jogos prediletos da diplomacia mundial de hoje é a especulação em torno do tempo que demorará até o aparecimento de um mega-arquivo de país emergente no site da WikiLeaks.
Ideia maluca
Apareceu uma ideia tão maluca que pode acabar dando samba. Acompanhado por um vice de algum peso, capaz de permitir-lhe uma saída honrosa em 2014, Lula pode sair candidato a prefeito de São Paulo em 2012, com o propósito exclusivo de iniciar o desmonte da influência tucana no estado.

Simch, para Charge Online


A vida em um flash

A vida em um flash
MARTHA MEDEIROS – Zero Hora
O que valoriza nossas ações não é a ansiedade: é a entrega
O ano passado passou tão apressado/eu sei que foi um corre-corre-corre danado.... E pensar que Rita Lee gravou esta música, Corre-Corre, há 30 anos, quando nem corríamos tanto assim. Ou será que esta impressão de vivermos com pressa vem desde sempre?
Tudo do que reclamamos hoje já foi reclamado um século atrás, e não duvido que daqui a cem anos as pessoas digam: “No início dos anos 2000 a vida era tranquila, não havia esta urgência de hoje”.
Eu não sei quais serão as urgências futuras, mas conheço bem as nossas. Temos relógios digitais espalhados pela cidade nos lembrando que faltam 10 minutos para a reunião começar, sete minutos para o banco fechar, dois minutos para a aula do seu caçula terminar: o que você ainda faz aí, no meio da rua? Corra.
Se não são os relógios, são os espelhos. Impiedosos, avisam: você não tem mais 15 anos. Nem 20. Nem 30. Se quiser ter um filho, apresse-se. Não importa que ainda não tenha encontrado um amor estável, arranje qualquer pessoa, mas, simplesmente, apresse-se.
E o espelho segue avisando: você não tem mais 35. Nem 40. Nem 45. O futuro está encolhendo a sua frente. O que está fazendo aí parado no mesmo casamento, parado no mesmo emprego, parado em frente à tevê? Reparou como todo mundo se diverte lá fora? Não sabe que vai morrer um dia?
Sim, sabemos que não somos eternos. Os telejornais não fazem outra coisa a não ser nos lembrar disso, mostrando cenas sortidas de violência e cultivando nosso medo dia após dia. Ou então são os manuais de autoajuda e matérias de revistas que ordenam: aproveite o momento, aproveite a vida! E aproveitar a vida passou a ser sinônimo de algo que tem que ser feito emergencialmente, ou você estará jogando a vida fora.
Calma.
Nem sempre é rentável esta economia de tempo: chegar mais rápido, fazer mais rápido, consumir mais rápido. O que sobra em nossas mãos? Coisa nenhuma. Nem mesmo a lembrança do que foi realizado, só uma vaga sensação do dever cumprido, como se fôssemos soldados a serviço do calendário.
O que valoriza nossas ações não é a ansiedade: é a entrega. E entrega requer um certo relaxamento. Tempo para falar, para ouvir, para fazer, para desfazer, e fazer de novo, até acertar. Tempo para si, para o outro e para o nada.
Fazer nada virou a tarefa mais angustiante para o ser humano esquizofrênico de hoje. Não é à toa que há um bom número de pessoas que prefere não tirar férias: como preencher um dia livre? Nesta cultura atual do “não desperdício”, pobre daquele que deitar o corpo no sofá, colocar uma música para tocar e desligar o telefone. Terá que se entender com a culpa.
Dedicação, cuidado, foco, tudo isso demanda uma certa introspecção. Um pouco de resguardo. Conectar-se com os próprios pensamentos e emoções é exercício dos mais produtivos. É quando a gente, em silêncio, encontra as respostas para nossas inquietações e descobre os melhores caminhos para atingir nossos objetivos.
Pressa exige atenção para o lado de fora, apenas. E o lado de dentro? Neste corre-corre danado, talvez o que mais estejamos fazendo é justamente perder tempo.

Reinventar-se

Reinventar-se
MOACYR SCLIAR – Zero Hora
Mexer um pouco com nós mesmos pode ser um grande começo de ano, um grande recomeço de vida
Falando do arquiteto Oscar Niemeyer, que quase aos 103 anos resolveu tornar-se compositor e escreveu um samba (verdade que não muito bom), disse um jornal que o grande brasileiro acabava de se reinventar. Reinventar-se: esta é uma palavra que, em 2010, ganhou em destaque em nosso vocabulário.
Explicável: nunca antes na história deste país tantas mudanças aconteceram, a começar pela emergência de uma classe média formada por pessoas que, confrontadas com novas situações, precisam, justamente, se reinventar. E o que significa isso?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que há uma diferença entre inventar e descobrir. Descobrir é achar uma coisa que já estava ali, aparentemente coberta ou oculta. Colombo descobriu a América, mas a América existia, ainda que não com esse nome, era habitada por muitos povos – só que os europeus não sabiam disso, e glorificaram essa ignorância com a palavra descoberta que, não sem boas razões, tem sido contestada, como de resto a descoberta do Brasil.
Inventar é outra coisa. Inventar é criar algo que não existia, um dispositivo, uma máquina, uma substância química. Inventar exige conhecimento, exige criatividade, exige imaginação; escritores são, de certa forma, inventores; eles fazem surgir personagens e situações que não existiam.
A invenção pode ter contornos sombrios, como a guilhotina (bolada por um médico, o Dr. Guillotin) e as câmaras de gás dos campos de concentração. Mas em geral inventores são objeto de nossa admiração, e o Nobel é um testemunho disso.
Já reinventar é um termo que tem conotação irônica, debochada: quando dizemos que Fulano reinventou a roda estamos fazendo uma gozação. Mas a partícula apassivadora “se” dá ao verbo um outro, e revolucionário, sentido; o termo, por assim dizer, se reinventa.
Reinventar-se significa deixar para trás o nosso passado, significa transformar nossa vida (nem que seja em pequenos detalhes) e isso pode ser um antídoto decisivo contra o marasmo, contra o desânimo, contra a apatia. De repente, somos outra pessoa.
Um choque? É. Um choque. Mas um choque benéfico.
Reinventar-se: eis aí um bom lema para o ano que se aproxima. Reinventar-se como profissional, como cônjuge, como pai ou mãe ou filho ou filha, reinventar-se como amigo, reinventar-se como cidadão ou cidadã, reinventar-se como pessoa. Num mundo em que a invenção é um acontecimento contínuo, em que as mudanças se sucedem de maneira vertiginosa, mexer um pouco com nós mesmos pode ser algo muito bom, um grande começo de ano, um grande recomeço de vida.

Abismo racial na saúde

Abismo racial na saúde
Relatório da UFRJ mostra que pretos e pardos ainda têm acesso desigual ao SUS
Carolina Benevides – O Globo
Mesmo 22 anos depois de a Constituição ter sido promulgada e garantido que todos são iguais, “sem distinção de qualquer natureza”, um estudo da UFRJ mostra que ainda existe um abismo entre brancos, negros e pardos no acesso à saúde pública. Economista e pesquisador, Marcelo Paixão se debruçou sobre dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo IBGE, em 2008, para produzir o capítulo ligado à saúde do Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009 — 2010, que ainda será publicado. E constatou: a desigualdade perpassa o Sistema Único de Saúde (SUS), e ainda é preciso avançar muito para que a Constituição seja cumprida.
Segundo o relatório, em 2008, a importância do SUS para pretos e pardos era 19,5% superior do que para os brancos, e eles responderam por 55,2% de todos os atendimentos.
No entanto, nas consultas os negros e pardos são minoria.
Quando se trata, por exemplo, de pré-natal, 71% das mães de filhos brancos fizeram mais de sete consultas; o número de mães de filhos pretos e pardos que passaram pelos mesmos exames é 28,6% inferior.
O estudo mostra ainda que 15,6% dos pretos e pardos que foram atendidos declararam que o serviço era regular, ruim ou muito ruim.
A diferença no indicador entre as mulheres pretas e pardas — as mais insatisfeitas — e os homens
brancos — os menos insatisfeitos — chegou a 5,2 pontos. Entre os que precisavam procurar um médico e desistiram, o número chegou a 33,2% dos homens, e 26,1% das mulheres pretas e pardas.
— Esses indicadores apresentam algumas possibilidades, mais do que conclusões. Mas fica claro que o sistema falha no atendimento. Se a pessoa deixa de procurar e diz que uma das causas é não gostar dos profissionais, ela sinaliza que há um problema — diz Paixão.
Pretos e pardos são 50,3% da população
● Prestes a deixar a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o ministro Eloi Ferreira de Araujo reconhece que a política universalista do SUS ainda não alcança a plenitude.
— Se continuarmos tratando da questão como se todos fossem iguais, vamos continuar reféns de tratamentos iguais para desiguais. Se os negros não se sentem bem, se não se sentem acolhidos, o SUS tem que mudar. Essa população já está exposta a mais vulnerabilidade social, e é preciso acelerar o combate à desigualdade na saúde — diz Ferreira de Araujo.
A população brasileira é, de acordo com a Pnad, de 189.953 milhões.
Desses, 48,8% se declaram brancos; 6,5% pretos; 43,8% dizem ser pardos; e 0,9% são amarelos, indígenas ou não declararam.
Moradora de Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador, a dona de casa Flávia Oliveira, de 24 anos, está no oitavo mês de gestação e espera um menino. Flavia fez uma ultrassonografia e ainda não teve o resultado:
— Vou ao posto, dizem que não chegou, me tratam com indiferença — conta Flávia, que só começou a acompanhar a gravidez no quinto mês. — Na primeira vez que fiquei grávida, também não tive o acompanhamento que queria, e acabei tendo problemas no parto. Tenho medo que isso volte a acontecer.
A pesquisa revela ainda que 43,5% dos homens pretos e pardos não haviam visitado um médico nos últimos 12 meses. Entre os brancos, o percentual era de 38,6%. Jorge de Oliveira e Silva Filho, de 54 anos, se encaixa nesse perfil. Paciente do Hospital Pedro Ernesto, em Vila Isabel, no Rio, ele passou seis anos sem fazer qualquer tipo de exame ou consulta. Só foi ao hospital quando percebeu que estava urinando demais. Descobriu um câncer de próstata, e aguarda o momento de operar. Também paciente, Sérgio Tomé só chegou ao hospital quando já estava doente. Passou por uma bateria de exames, descobriu e operou um câncer, e agora cuida da pressão alta.
— Homem não gosta de ir ao médico, e não é a cor da pele que determina isso. Esse é um dado que mostra que, em condições iguais, os pretos e pardos ainda assim procuram menos o serviço de saúde — diz Paixão. — Não temos a pretensão de sanar o problema, mas de fazer o SUS reconhecer que ele existe. Analisando os indicadores, é possível criar propostas para combater a desigualdade. A Constituição não pode continuar sendo apenas uma carta de intenções, ou corremos o risco de ver a população afro como à parte na população brasileira.
CORPO A CORPO LUIZA BAIRROS
‘Combate ao racismo é responsabilidade do Estado’
Prestes a assumir a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, com status de ministério, a socióloga gaúcha Luiza Bairros, radicada em Salvador desde 1979 e hoje à frente da Secretaria de Promoção da Igualdade da Bahia (Sepromi), lembra que o “racismo é um dos determinantes sociais da saúde”, e que o enfrentamento da desigualdade racial, questão histórica no Brasil, é “questão de escolha política”. Para a futura ministra, que assume no ano internacional dos afrodescendentes,“o combate ao racismo é responsabilidade primária do Estado”.
O GLOBO: A senhora vê avanços no combate à desigualdade racial na área da saúde?
LUIZA BAIRROS: Passos para superar a desigualdade estão sendo dados, e o que concretiza esse avanço é a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, que parte do pressuposto que o racismo é um dos determinantes sociais da saúde. Com isso, seus efeitosna população são encarados. Pesquisas como a da UFRJ permitem medir a ocorrência de possíveis ações discriminatórias por meio do desconforto que as pessoas dizem sentir.
Como a sociedade pode contribuir para que as desigualdades diminuam?
LUIZA: É preciso que a sociedade se mantenha vigilante. Na questão da saúde, é importante que os profissionais mudem suasformas de encarar os diferentes públicos.
A desigualdade racial é uma questão histórica no Brasil.
LUIZA: O enfrentamento é questão de escolha política do Estado. O Brasil assinou em 2001, durante uma conferência mundial (III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas), o compromisso de combater o racismo. Como temos essa garantia, podemos e devemos trabalhar para combater a desigualdade.
Quais serão as prioridades da senhora à frente da secretaria?
LUIZA: Inicio a transição esta semana. A secretaria existe há quase oito anos, e ao longo desse caminho criou muitos programas. Quero conhecê-los para pensar de forma mais embasada nas prioridades. 2011 é, segundo a ONU, o ano dos afrodescendentes. Então, é um ano para trabalharmos ações emblemáticas.

Jorge Braga, para O Popular


O melhor destino

O melhor destino
JANIO DE FREITAS - FOLHA DE SÃO PAULO - 26/12/10
Lula não consegue nem sequer controlar sua perturbação com a saída da Presidência
DEIXAR A Presidência quando desfruta da aprovação de 80 e tal por cento da opinião pública não pode ser fácil para Lula, nem o seria para presidente algum. Por muito menos, Juscelino já saiu do palácio, rumo ao aeroporto, com os primeiros passos de sua candidatura ao retorno.
Lula, porém, não consegue nem sequer controlar sua perturbação. Obcecado, cedo ainda, com a saída inevitável, veio em um crescendo a essas referências que o levaram pelo patético a dentro. Chegou ao despropósito de fazer sua despedida pública antes mesmo do Natal, a oito dias de deixar a Presidência.
Se algum sinal se pode intuir daí para o futuro, não é tranquilizador.
Futuro, quanto a Lula, em que já cabem muitas coisas dissociadas, desde ser apenas um homem que volta à rua, ou um dedicado aos problemas da África. Ou um viajante permanente para pregações pelo Brasil afora, ou idem nas extensões internacionais, e, sobretudo, "um exemplo de ex-presidente" em relação ao novo Poder. Não é o que a dificuldade do desapego umbilical sugere.
Nem a lembrança a que remete. Lá de trás, dos primórdios da ideia fixa: "Vou dizer o que achar errado e vou dar meus palpites". Esta é a ideia de futuro mais próxima do Lula que se vê agora. Seria a transferência de emoções pessoais perturbadoras para perturbação governamental.
Qualquer que seja o grau da crítica e do palpite não pedidos, o que seria apenas palpite e crítica anódina à Presidência -como as de Fernando Henrique a Lula- no caso de Dilma Rousseff, a criatura, assumem as dimensões e os sentidos originários do criador. Perturbação na certa, pessoal, governamental e político-partidária.
Ora os assessores de Lula informam que passará um mês em descanso no exterior, ora que ficará por uma semana em praia brasileira, ou que apenas volta a seu apartamento paulista, agora dignificado pela duplicação.
Não faz diferença. Pode até instalar-se em Brasília, onde não é hábito se ocupar a sério com governo. É o futuro necessário e o que Lula tem a fazer de melhor.
SUJAS TAMBÉM
Só por acaso a miudeza de atos reprováveis é captada, por parte de indicados à composição do governo, em tempo de não os incluir nas relações de escolhidos.
É o que se dá com as revelações de abusos nos gastos da "verba indenizatória", esta excrescência da vida parlamentar brasileira.
Nem por ser uma dentre tantas, de valores individuais em geral baixos, deixa de ser muito comprometedora.
Se a percepção em tempo útil é incomum, a reação não precisa sê-lo.
O "vou devolver o gas- to", próprio de todos os flagrados, não anula a improbidade.
E a improbidade deve anular, por dever dos futuros ou vigentes governantes, as nomeações dos indicados de contas sujas, pequenas fichas sujas.
Na relação de indicados ao novo ministério há meia dúzia deles (por ora) que testam Dilma Rousseff. Testam para nós outros.
EM VÃO
A culminância política de Orestes Quércia foi, como está lembrada por tantos, sua eleição ao Senado em 1974, quando a oposição deu um grande susto na ditadura, em quase todo o país. Foi o momento nacional de Quércia.
Mas a verdade é que, no Senado, deu-se a reversão. Quércia sumiu no silêncio e na omissão. Deliberados, com toda clareza.
Passado o aturdimento inicial pela inutilidade da vitória exuberante em São Paulo, oposicionistas davam-se uma explicação sobre o Quércia inesperado: o SNI tinha feito mais uma. Qual, ou se fez, não ficou provado.

Skoob

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