quarta-feira, abril 28, 2010
Sem melhorar a educação pública, milhões continuarão prisioneiros do assistencialismo, e as empresas, desassistidas.
PERDA DE OPORTUNIDADES NO TRABALHO
EDITORIAL O GLOBO -28/4/2010
As empresas vinculadas ao setor de petróleo no Brasil treinaram e formaram mais de 80 mil profissionais desde 2007, em um programa de qualificação que abrange do nível básico a cursos de pós-graduação. Mesmo assim, não conseguiram atender a toda a demanda de pessoal qualificado identificada pelo setor. A exemplo do petróleo, vários outros ramos de atividade industrial, da construção ou de serviços têm se envolvido diretamente na formação e treinamento de profissionais que não estão disponíveis no mercado.
Nem por isso os índices de desemprego se tornaram irrelevantes no país. Há muitas pessoas que permanecem sem ocupação por serem inabilitadas às vagas e aos cargos que o mercado oferece. São numerosas oportunidades perdidas que se multiplicarão, se a economia brasileira continuar com seu impulso de crescimento — e a qualidade da educação continuar baixa. Afinal, a dificuldade acelerada de se formar e qualificar profissionais na velocidade que o mercado hoje demanda se deve, em grande parte, a deficiências do sistema de ensino brasileiro.
Um enorme contingente de jovens deixa as escolas ainda com falta de capacidade de aprender. O ensino técnico profissionalizante, com honrosas exceções, passou anos sem sintonia com o mundo real. A escassez de profissionais qualificados vem forçando uma transformação nesse sistema de ensino, e algumas iniciativas inovadoras começam a apresentar resultados, o que pode motivar a reprodução dessa experiência pelo país inteiro. No caso do Estado do Rio, merecem atenção os chamados Centros de Vocação Tecnológica, mais voltados para jovens da região metropolitana. Esses centros se diferem do ensino técnico convencional porque ministram cursos de curta duração (de dois meses a um ano, essencialmente) e buscam atender a demandas específicas de grupos de empresas localizadas em suas proximidades. Os planos das autoridades responsáveis por esses centros são de ampliar o número de vagas para 54 mil alunos ainda este ano. O ensino técnico profissionalizante de fato precisa hoje correr contra o relógio, pois, se persistir a falta de pessoal qualificado, as oportunidades acabam definitivamente perdidas pela desistência dos potenciais empregadores.
Mas, simultaneamente a essa premência de curto prazo, espera-se que a cadeia de ensino no país, da pré-escola à universidade, acelere ou implante programas que possibilitem um substancial salto de qualidade. Educadores já contam com ferramentas pedagógicas e tecnológicas que facilitam essa aceleração.
O ensino à distância, mais acessível graças às telecomunicações e aos recursos da informática, pode romper barreiras que antes impediam a universalização de um sistema educacional de boa qualidade.
O aproveitamento das oportunidades que estão surgindo é valioso porque, além da realização pessoal na vida profissional, é um atalho para melhora dos níveis de renda e de bem-estar de fatias cada vez maiores da população brasileira.
Ao lado dos indicadores macroeconômicos, precisamos acompanhar os referentes ao sistema de ensino em geral, e, especificamente, os relativos ao ensino profissionalizante.
Sem melhorar a educação pública, milhões continuarão prisioneiros do assistencialismo, e as empresas, desassistidas.
terça-feira, abril 27, 2010
Problemas ocorridos recentemente em provas expõem a falta de fiscalização do governo nas seleções e nas bancas organizadoras. Sem uma legislação específica, cabe aos órgãos responsáveis fiscalizar o cumprimento do edital.
Falta controle nos concursos
Omissão facilita irregularidades
Letícia Nobre - Correio Braziliense - 27/04/2010
Problemas ocorridos recentemente em provas expõem a falta de fiscalização do governo nas seleções e nas bancas organizadoras. Sem uma legislação específica, cabe aos órgãos responsáveis fiscalizar o cumprimento do edital. Na prática, são poucos os casos de rompimento de contratos por erros O Estado é omisso nos casos de irregularidades em concursos públicos. Sem uma legislação para que o governo fiscalize o que as organizadoras fazem, cabe aos órgãos contratantes ficar de olho no cumprimento do edital, a “lei” das seleções de servidores. Na prática, porém, ninguém faz a sua parte. Diante da enxurrada de problemas que se tem visto nas provas, são raros os casos de rompimento de contratos em função de erros cometidos pelas bancas examinadoras. Nos últimos seis meses, de seis concursos federais com falhas, somente a Polícia Rodoviária (PRF) dispensou a empresa responsável por organizar o concurso, a Funrio. “A Administração Pública pode evitar diversos problemas que vão parar na Justiça”, afirmou o procurador federal Agapito Machado Júnior. Ele explicou que cabe às entidades governamentais interessadas nos servidores públicos fiscalizar a lisura e a transparência do processo, conforme princípios constitucionais. “Se há vícios na seleção ou desrespeito ao edital, o órgão deve interromper e consertar o problema antes que deságue na Justiça”, acrescentou. Para o procurador, os administradores públicos podem usar o preceito de autotutela para agir em casos como os ocorridos nas recentes provas dos ministérios dos Transportes e da Cultura. Ele reconheceu que a Advocacia-Geral da União (AGU) costuma orientar todos os órgãos a evitarem possíveis erros nas seleções, mas nem sempre quem está à frente das instituições acata as recomendações. No caso do concurso dos Transportes, os candidatos de nível superior receberam provas de nível médio, o que causou tumulto e pedido de anulação. Pelo segundo domingo consecutivo, os concurseiros tiveram problemas ao realizar provas. Cerca de 15 inscritos na disputa por uma vaga de agente administrativo no Ministério da Cultura ficaram de fora depois que receberam o endereço errado do local de prova. O grupo se apresentou na 616 Norte e o local certo era a Unieuro, na 916 Norte. Revoltados, eles registraram ocorrência na delegacia mais próxima e procuraram a Procuradoria da República no Distrito Federal. No mesmo local, Aglair Isabel da Penha e Adriane Michelf Brito foram induzidas ao erro pela fiscal Patrícia Silva. As duas pediram atendimento especial — Aglair é deficiente físico e Adriane está com dificuldade de locomoção temporária. Elas foram colocadas sozinhas na sala 5. Às 11h30, a fiscal informou que faltavam 30 minutos para o término da prova. Mas o prazo limite era às 13h, o que Aglair só descobriu depois de deixar a sala com o caderno de questões e discutir com uma funcionária da organizadora do concurso — o Instituto Movens. A candidata foi orientada a voltar para a sala. “Eu ia deixando a sala quando soube que teria mais uma hora. Entregaram novos cartões de resposta para terminarmos a prova, mas não havia nenhum clima para responder o que quer que seja”, reclamou Adriane. Ao fim do novo prazo, as candidatas redigiram uma carta à organizadora. De posse desse documento, na manhã de ontem, registraram ocorrência no 2º Distrito Policial. “Pode não resolver nada, mas não vamos deixar barato”, garantiu Aglair. A seleção recebeu 42.354 inscrições para as 226 vagas de cargos de níveis médio e superior.
O outro lado O Instituto Movens assegurou que nenhuma irregularidade foi registrada nos locais de prova. Em nota, o Ministério da Cultura afirmou que não anulará a seleção, pois uma análise técnica, realizada pelo Movens, concluiu que os horários e os locais foram informados de maneira correta no edital de 17 de abril. E mais: “É de responsabilidade exclusiva do candidato a identificação correta de seu local de prova, bem como o comparecimento no horário determinado”.
AGU desrespeita decreto federal A Advocacia-Geral da União (AGU) teve autorização para desrespeitar o Decreto nº 6.944/2009: vai reduzir de 60 dias para 30 dias o prazo mínimo entre a publicação do edital e a realização da prova do concurso que oferece 120 vagas para a área administrativa. Em portaria publicada ontem no Diário Oficial da União, o órgão atribui a mudança às “necessidades específicas e emergenciais”, para que o processo seletivo seja homologado antes do impedimento eleitoral, que começa em 3 de julho. Os cargos pertencem ao Plano Geral de Cargos do Poder Executivo (PGPE) e contemplam profissionais com níveis médio ou superior. São 49 vagas para administradores, 11 para contadores e 60 para agentes administrativos com salários entre R$ 2.064 e R$ 2,6 mil. A autorização concedida pelo Ministério do Planejamento, em 16 de abril, prevê a nomeação dos novos servidores a partir de julho, mediante nova permissão. O órgão quer acelerar a seleção. O último concurso para área administrativa da AGU ocorreu em 2006, quando foram oferecidas 334 chances para profissionais graduados em contabilidade, engenharia, administração e estatística. Os salários iniciais eram de R$ 3,1 mil. Os candidatos foram avaliados por meio de provas objetivas de conhecimentos gerais e de temas específicos. (LN)
Deve-se tirar lições de atividades como a venda de medicamentos falsificados nas feiras livres. Se há vendedores desse nível é porque há consumidores
PERIGOS DA AUTOMEDICAÇÃO
EDITORIAL - JORNAL DO COMMERCIO (PE) - 26/4/2010
Recente matéria deste jornal sobre automedicação trouxe números assombrosos, cuja repercussão deveria fazer parte hoje das agendas de todas as autoridades, porque ali está visto, em poucas palavras, que estamos perante algo mais grave que um problema de saúde pública. Quando a Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas afirma, por exemplo, que a automedicação mata 20 mil pessoas por ano no Brasil, nos coloca entre as nações sujeitas a guerras. Num cotejo superficial, significa que morrem quatro vezes mais brasileiros em um ano vítimas da automedicação que soldados norte-americanos no Iraque em sete anos de invasão. À mesma Associação recorrem estudiosos em teses acadêmicas, mostrando, entre outras coisas, que cerca de 80 milhões de pessoas são adeptas da automedicação, resultado de fatores como o não cumprimento da obrigatoriedade da apresentação da receita médica, carência de informação e de instrução de grande parte da população brasileira. Isso é uma epidemia gravíssima, da qual resulta, seguramente, a dificuldade em melhorar nossos níveis de expectativa de vida. Entre os raros estudos nessa área, há dados impressionantes, como o da prevalência de automedicação das pessoas em pequenos aglomerados urbanos. Fica até fácil entender o que acontece nesses aglomerados, onde faltam médicos, hospitais, às vezes até farmácias. Daí decorrem graves consequências, que vão da inclusão nas estatísticas de morbidade por intoxicação com medicamentos, até o custo com a transferência de doentes para outros centros urbanos, a superlotação de hospitais com repercussão na qualidade do serviço de saúde e no custo que termina contribuindo para tirar de grande parte da população carente a possibilidade de contar com mais postos de saúde, com mais equipamentos hospitalares, e por aí vai.
Há, nesse problema, uma soma enorme de questões a serem respondidas, a começar pela ausência de estudos que apontem na direção de políticas públicas apropriadas, de onde saiam medidas capazes de dificultar a prática da automedicação, a começar, mesmo, por mais rígidos controles – como os que estão sendo ensaiados hoje pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com a obrigatoriedade da retenção da receita de antibiótico no ato da compra. A cada dia que passa, literalmente, torna-se urgente tomar medidas nessa área, como a identificação dos fatores predominantes, o que leva os indivíduos à prática da automedicação, o peso que representa o extraordinário acesso a informações que os modernos meios de comunicação permitem, como, por exemplo, a possibilidade de acesso a informações farmacológicas através da grande massa de dados sobre medicamentos na internet. Evidente que essas informações têm fundamentação científica e se destinam a público específico, mas também podem chegar com facilidade ao curioso, ao hipocondríaco. Qualquer trabalho na direção do controle dessa epidemia nacional há de levar em conta que o nosso País tem um número de farmácias maior que o padrão médio de outros países e nenhum controle mais rigoroso sobre a venda de medicamentos, até aqueles que trazem tarjas vermelhas, teoricamente dependentes de receita médica. O que pode parecer um receituário fruto da tradição, sem qualquer implicação, sem sequelas, a prescrição também pode conter gravíssimas consequências, gerando doenças crônicas com repercussão para o resto da vida. Além de todas as evidências dos males que pode causar a automedicação, deve-se tirar lições de atividades como a venda de medicamentos falsificados nas feiras livres. Se há vendedores desse nível é porque há consumidores, numa combinação que dá a ideia precisa da urgência com que esse problema tem que ser abordado em nosso País. Quem sabe, até fazer parte da campanha eleitoral que se avizinha.
Há, nesse problema, uma soma enorme de questões a serem respondidas, a começar pela ausência de estudos que apontem na direção de políticas públicas apropriadas, de onde saiam medidas capazes de dificultar a prática da automedicação, a começar, mesmo, por mais rígidos controles – como os que estão sendo ensaiados hoje pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com a obrigatoriedade da retenção da receita de antibiótico no ato da compra. A cada dia que passa, literalmente, torna-se urgente tomar medidas nessa área, como a identificação dos fatores predominantes, o que leva os indivíduos à prática da automedicação, o peso que representa o extraordinário acesso a informações que os modernos meios de comunicação permitem, como, por exemplo, a possibilidade de acesso a informações farmacológicas através da grande massa de dados sobre medicamentos na internet. Evidente que essas informações têm fundamentação científica e se destinam a público específico, mas também podem chegar com facilidade ao curioso, ao hipocondríaco. Qualquer trabalho na direção do controle dessa epidemia nacional há de levar em conta que o nosso País tem um número de farmácias maior que o padrão médio de outros países e nenhum controle mais rigoroso sobre a venda de medicamentos, até aqueles que trazem tarjas vermelhas, teoricamente dependentes de receita médica. O que pode parecer um receituário fruto da tradição, sem qualquer implicação, sem sequelas, a prescrição também pode conter gravíssimas consequências, gerando doenças crônicas com repercussão para o resto da vida. Além de todas as evidências dos males que pode causar a automedicação, deve-se tirar lições de atividades como a venda de medicamentos falsificados nas feiras livres. Se há vendedores desse nível é porque há consumidores, numa combinação que dá a ideia precisa da urgência com que esse problema tem que ser abordado em nosso País. Quem sabe, até fazer parte da campanha eleitoral que se avizinha.
A edição especial da Philosophical Transactions of the Royal Society do dia 28 de maio levanta a discussão sobre como alterações climáticas podem induzir erupções vulcânicas e outros riscos geológicos
Aquecimento global pode provocar terremotos, deslizamentos de terra e vulcões
Emitindo gases de efeito estufa e nuvens de cinzas que encobrem a luz solar, os vulcões podem afetar o clima. Mas será que o clima poder afetar os vulcões? Por John Matson
A edição especial da Philosophical Transactions of the Royal Society do dia 28 de maio levanta a discussão sobre como alterações climáticas podem induzir erupções vulcânicas e outros riscos geológicos, como terremotos e deslizamentos de terra. Entre os problemas que os estudos relacionam com o aquecimento global estão: derretimento dos picos das montanhas, aumento das atividades sísmicas diluindo os depósitos de gelo e aliviando a pressão em algumas partes do mundo e aumentando em outras, e produção de magma sendo impulsionada por mudanças de pressão nos vulcões subglaciais, como os da Islândia. Esse fenômeno chama agora a atenção mundial por causa da nuvem de cinzas do vulcão Eyjafjallajökull, que paralisou o tráfego aéreo em toda a Europa nos últimos dias. A redução da carga de gelo no topo dos vulcões alivia a pressão sobre as câmaras de magma, permitindo a fusão e aumentando a descompressão de rochas derretidas, segundo escreveu um grupo de pesquisadores, com base em observações e em modelos da Islândia. O principal autor do estudo, Freysteinn Sigmundsson, da Universidade da Islândia, disse à Reuters na semana passada que a última erupção não parece ser causada pelo clima. "Acreditamos que a redução do gelo não foi importante no desencadeamento dessa nova erupção", diz ele. Segundo os autores, qualquer magma adicional produzido como resultado de cargas de gelo derretido pode levar décadas ou até mesmo séculos para chegar à superfície. As mudanças de pressão devido ao derretimento poderiam também ocasionar mais terremotos. Como os depósitos de gelo no Ártico crescem menos, essas massas causam menos pressão, aumentam os níveis do mar e a pressão em regiões costeiras em todo o mundo. A sobreposição de camadas, segundo Bill McGuire, da University College London, "pode ser suficiente para provocar uma resposta geosférica". Nos últimos períodos pós-glaciais, observou McGuire, o derretimento dos mantos de gelo parece ter desencadeado uma grande atividade sísmica, como seções da crosta anteriormente oneradas pelo aumento do gelo em um processo conhecido como recuperação isostática. Em outro relato do estudo, Christian Huggel, da Universidade de Zurique, e seus colegas, observaram falhas de inclinação recentes no Alasca, nos Alpes europeus e na Nova Zelândia, e constataram que "todas as falhas foram precedidas por períodos muito quentes". Nas próximas décadas modelos preveem que os períodos quentes nos Alpes suíços aumentam a freqüência de 1,5 a 4 vezes, ou possivelmente mais, o que poderia resultar em um aumento de avalanches locais.
Por que o Brasil não consegue enfrentar essa persistente chaga da insuficiência e da ineficiência do sistema penitenciário e, antes disso, por que a sociedade brasileira produz tantos criminosos?
PRODUÇÃO DE CRIMINOSOS
EDITORIAL ZERO HORA (RS) -26/4/2010
Um levantamento do Departamento Penitenciário Nacional e do Conselho Nacional de Justiça revela que a população carcerária do país dobrou nos últimos nove anos. Diante de uma realidade formada por prisões em número crescente e delegacias superlotadas, as autoridades discutem se a causa da superlotação não seria o excesso de prisões provisórias, de suspeitos que dependem de julgamento, e da facilidade com que tais detenções são determinadas. Em vez de ser exceção, a prisão provisória tornou-se regra. E hoje, do total dos inquilinos das casas prisionais, nada menos que 44% são de presos provisórios. De outro lado, diante de decisões adotadas frente a essas realidades carcerárias, a reação das associações de magistrados é dizer que não é soltando presos que se vai resolver a questão. Na verdade, está faltando uma discussão mais profunda: por que o Brasil não consegue enfrentar essa persistente chaga da insuficiência e da ineficiência do sistema penitenciário e, antes disso, por que a sociedade brasileira produz tantos criminosos?
A situação dos presídios brasileiros é vergonhosa e humilhante. Há 473 mil detentos no país, o dobro do que tinha quando o século começou e o triplo da capacidade das estruturas prisionais existentes. Além disso e às vezes por isso, as prisões tornaram-se depósitos de presos, incapazes de cumprir a função ressocializadora para a qual existem. Sem estudo e sem trabalho, os milhares de condenados cumprem uma rotina de ócio, tédio e inutilidade, saindo das prisões muitas vezes mais perigosos para a sociedade do que quando nelas ingressaram. As casas prisionais, na conhecida expressão, transformam-se em universidades do crime, em incubadoras de novas delinquências. Tal é o retrato do fracasso dessas instituições e de todo o sistema legal-judicial-penitenciário.
Mas há um aspecto ainda mais preocupante. A marginalidade a que amplas faixas da população estão submetidas representa, sem emprego, sem habitação adequada e sem educação e saúde, um caldo de cultura propício para a criminalidade. O país e seus governos precisam ter pressa no enfrentamento dessa situação, que é complexa, delicada e assustadora. O crime parece ser mais eficiente do que os programas de distribuição de renda e do que a preocupação dos governos com educação, casa própria e saúde.
O papel dos governos deve ser secundado por compromissos das organizações da sociedade, desde a família e a escola até entidades associativas e as demais expressões de um dinamismo social positivo e responsável. Nesse contexto, a realidade de prisões deterioradas e ineficazes é apenas um reflexo de um conjunto de deficiências que a sociedade acumula e que só uma ação decisiva e consciente da própria sociedade pode eliminar.
Vem, pois, em boa hora, o projeto de lei que dispõe sobre a normatização dos concursos públicos.
REGRAS PARA CONCURSOS PÚBLICOS
EDITORIAL - CORREIO BRAZILIENSE - 26/4/2010
A Constituição de 1988, ao exigir concurso público para ingresso nos quadros do Estado, abriu caminho para a meritocracia. Deixou para trás a prática ultrapassada de fazer favores com o chapéu do erário. Familiares, amantes, amigos, cabos eleitorais usufruíam do famoso QI, sigla pejorativa do “quem indica”. O mantra “parente é competente” pôde finalmente ser posto à prova. Basta disputar a vaga em condições de igualdade, sem cartas marcadas.
Embora tenha completado mais de duas décadas, a exigência moralizadora ainda não possibilitou a colheita dos frutos esperados. À medida que aumenta a complexidade do processo, aparecem problemas que exigem solução. Eles proliferam em editais abusivos e ilegais, no preparo das empresas contratadas para a seleção, na qualificação da banca examinadora, na excelência das provas, na adequação do conteúdo cobrado para recrutar profissional com o perfil exigido pela função, na logística de distribuição, aplicação e correção dos testes.
Tornam-se cada vez mais frequentes os casos de anulação de questões ou de todo o processo seletivo. Entre as falhas, destacam-se má formulação de enunciados, ambiguidades, troca de gabaritos, fraudes, quebra de sigilo, aplicação de provas trocadas. A incompetência ou má-fé fazem vítimas. De um lado, os concursandos, que investem tempo e dinheiro na preparação, mas não recebem a contrapartida. De outro, o órgão, que pena com a falta de pessoal. No meio, a desmoralização da exigência constitucional.
A administração pública precisa responder às exigências do Estado moderno. Além de ético, ele precisa perseguir a eficiência e a eficácia. De um lado, aprimorar os processos internos— fazer melhor, em menos tempo e a custo mais baixo. De outro, avaliar o resultado. Em bom português: verificar o índice de satisfação do público-alvo, razão da sua existência. Para tanto, necessita de mão de obra de primeiro time.
Vem, pois, em boa hora, o projeto de lei que dispõe sobre a normatização dos concursos públicos. É importante que avance com rapidez. Impõe-se, paralelamente, a regulamentação das avaliações nas carreiras públicas. O servidor que passa na seleção não bate ponto final. Precisa ser avaliado por produtividade, qualidade e outros fatores necessários ao bom serviço.
segunda-feira, abril 26, 2010
Constrangimento na posse do Presidente do STF
Posse de Peluso teve discursos de dois advogados
DÉBORA PINHO
Causou mal estar na OAB o fato de o advogado Pedro Gordilho, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, ter falado “em nome da comunidade jurídica” na cerimônia de posse do ministro Cezar Peluso, na presidência do Supremo Tribunal Federal. O presidente da entidade, Ophir Cavalcante, fez questão de ressaltar logo no início de seu discurso que quem representa advogados é somente a OAB. Ele disse que o “equívoco” deve ter sido do cerimonial do STF. E afirmou, em seguida, que Pedro Gordilho falou em nome dos amigos de Peluso e não como representante da advocacia. “Essa função não é delegada a nenhum outro advogado”. Tradicionalmente é somente a OAB que representa a sociedade civil e a comunidade jurídica nessas ocasiões.
A informação de que Pedro Gordilho faria um dos discursos chegou antecipadamente à OAB. Mas a explicação era de que ele falaria em nome dos amigos de Peluso e não como representante da advocacia. Ophir Cavalcante não gostou, assim como alguns dos advogados presentes à posse, para quem a abertura do precedente foi estranha. Mas o advogado Antônio Corrêa Meyer saiu em defesa da participação de Gordilho na cerimônia. “Há uma relação sentimental entre eles. É uma homenagem apenas e não existe afronta”, disse ele à revistaConsultor Jurídico.
Em seu discurso, Gordilho lembrou de abusos de alguns setores policiais e do “vigor” com que Gilmar Mendes defendeu os direitos fundamentais. O advogado comentou a clareza com que Gilmar Mendes se dirigiu aos cidadãos do país. “Ele esclareceu o que se passa na intimidade de julgamento”. Gordilho também não economizou elogios para o novo presidente do Supremo. Disse que Peluso é “juiz da realidade do seu tempo”. Além disso, afirmou que o ministro tem “elegância no trato e capacidade de ouvir antes de se manifestar”.
Em seguida, Ophir Cavalcante fez o seu discurso. Além de deixar claro que representava ali a advocacia e a sociedade civil, ele criticou duramente a magistratura. “É triste constatar que ainda há alguns magistrados que não cumprem como deviam, os seus deveres de morar nas comarcas, para onde se dirigem em alguns dias da semana, mais parecendo meros visitantes. Há magistrados que convidam advogados a se retirarem das salas de audiência. Há magistrados que só recebem advogados em horários preestabelecidos, inclusive com fichas de inscrição. Há magistrados que chegam atrasados às audiências. Há magistrados que não permitem que advogados retirem autos do cartório. Há magistrados que desconhecem o princípio constitucional da razoável duração do processo”, listou o presidente da OAB no plenário.
Ophir Cavalcante elogiou Gilmar Mendes por “neutralizar boa parte do furor populista de uma polícia pirotécnica e de uma justiça ‘injusta e falha’, e fortalecer o conceito da ‘justiça justa’, aplicada a todos, indistintamente, com celeridade e eficiência, baseada nos preceitos do Estado Democrático de Direito”.
Durante seu discurso de posse, o ministro Peluso comentou a observação da OAB sobre quem representa a advocacia. Ele disse que Pedro Gordilho é “representante dos espíritos livres” e foi aplaudido neste momento.
Nenhum programa de habitação ou de educação poderá ter sucesso enquanto as adolescentes continuarem engravidando nas famílias indigentes ou pobres.
Pobreza extrema é coisa de mulher
Ruth de Aquino é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
raquino@edglobo.com.br
Só um planejamento familiar sério, rigoroso e nacional poderá livrar nossas mulheres de uma equação perversa. As mais pobres engravidam cedo demais. E são abandonadas. Nenhum programa de habitação ou de educação poderá ter sucesso enquanto as adolescentes continuarem engravidando nas famílias indigentes ou pobres. Hoje, mais da metade das famílias em extrema pobreza nas dez principais cidades do Brasil é chefiada por mulheres.
“O Bolsa Família só funciona com famílias chefiadas por homens”, afirma o economista André Urani. “O programa não chega à mãe precoce, abandonada. Ela não tem mobilidade para tirar seu CPF ou ir ao lugar onde se recolhe o benefício. Não tem creche. Não tem como trabalhar. E, mesmo que consiga ser contemplada com o Bolsa Família, não consegue sair da extrema pobreza.”
O Brasil comemora, com justiça, a redução da pobreza e o aumento da classe média. Nas dez principais cidades havia, em 1993, 6,3 milhões de pessoas em extrema pobreza. Em 2008, esse total caiu para 3,5 milhões. Uma queda de 44%. Mas, entre as famílias chefiadas por mulheres, o número de indigentes (com renda mensal de até R$ 104) aumentou de 1,6 milhão para 1,8 milhão. O fenômeno se repete em todas as faixas de pobreza, com renda mensal até R$ 503. Há algo errado, portanto, com a estrutura da família.
Recentemente, ao assistir, na TV Globo, a uma reportagem sobre o lixo, senti um embrulho no estômago. Duas catadoras de lixo tinham 21 anos, estavam grávidas e já tinham dois filhos. As crianças catavam comida e tudo o que fosse aproveitável. As mães achavam normal. A prioridade era sobreviver.
O país está bem melhor. Milhões têm hoje acesso a bens de consumo inimagináveis há 15 anos. Por isso mesmo, não me conformo com a situação de meninas, moças e mulheres que caem na armadilha de parir e interromper estudos que poderiam garantir uma vida mais digna e feliz.
“Ser mulher, para muitas adolescentes, ainda equivale a ser mãe”, afirma a psicanalista Diana Dadoorian, autora do livro Pronta para voar, sobre gravidez na adolescência. Para Diana, o problema não é falta de informação. “Nunca antes os jovens tiveram tanta informação sobre contraceptivos.” O problema é falta de educação.
O Brasil não vai se livrar da miséria enquanto não tratar das mães adolescentes, pobres e abandonadas
As adolescentes pobres frequentemente só tiram carteira de identidade quando engravidam. Elas desejam esse filho. Se podem cuidar de um monte de irmãos pequenos, podem também ter um filho e se juntar com o namorado. O bebê funciona como um passaporte para a visibilidade, na família e na comunidade. Cruel, mas é assim.
Se o país não ajudar a mulher pobre a planejar sua família, com uma assistência social focada e persistente, não haverá “Minha Casa, Minha Vida” que chegue. Como dar um apartamento a uma família que vai triplicar de tamanho sem renda que a sustente? Nas favelas, fazem puxadinhos, lajes. Nos conjuntos, é impossível aumentar a casa clandestinamente.
Na recente tragédia do Rio, o vice-governador Pezão chegou a uma casa ampla e semidemolida na Favela do Complexo do Alemão. “Moravam sete pessoas ali. A mãe e o pai, a filha grávida de 15 anos com o namorado, o filho de 14 anos, que já era pai de uma bebezinha de 1 ano, e a mulher do filho, com 15 anos”, diz Pezão. Essa família será reassentada num apartamento de dois quartos, com 45 metros quadrados. Estão felizes porque terão uma casa segura e nova para chamar de sua.
Mas por quanto tempo se espremerão nesse espaço? Quantos bebês nascerão? Pelas regras do PAC, essa família não poderá vender o apartamento nos próximos cinco anos. Quem vai fiscalizar? Quem garante que não repassarão o apartamento a um parente e voltarão para um barraco mais amplo, numa encosta de risco? Como esses adolescentes com filhos vão se inserir no mercado de trabalho? Por quanto tempo as meninas continuarão casadas? Em que momento serão abandonadas?
Nenhum país tem casa, escola e emprego para absorver com dignidade tantas famílias que começam antes do tempo, sem maturidade, sem trabalho, sem educação, sem noção e sem renda. Não há subsídio nem esmola que chegue. Sem planejamento familiar, essa conta não fecha.
Até que enfim, alguém com firmeza e conhecimento falou a realidade dos fatos!
Entrevista Sérgio Besserman - Por um Rio sem favelas
O economista diz que o inchaço dos morros cariocas foi produzido pelo populismo e defende a remoção dos barracos como um indutor do progresso para todos
Monica Weinberg e Ronaldo Soares – Revista Veja – Edição 2161
Poucos especialistas falam com tanta autoridade sobre a favelização nas metrópoles brasileiras quanto o economista carioca Sérgio Besserman, 52 anos. As últimas estatísticas disponíveis sobre as favelas no país foram produzidas sob sua gestão (1999-2002) como presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Suas opiniões sobre o assunto dão aquele banho de racionalidade que costuma desconcertar o senso comum. Besserman sustenta que retirar os barracos dos morros no Rio de Janeiro é uma solução que, se implementada, vai trazer ganhos econômicos e sociais para toda a população. Diz ele: "A questão precisa ser discutida com rigor lógico, a salvo das influências de ideologias e do romantismo".
A prefeitura e o governo do estado do Rio de Janeiro começaram, na semana passada, a retirar barracos de áreas de risco. Por que nenhum governante fez isso a tempo de evitar tragédias? Por um misto de incompetência e demagogia. No Rio de Janeiro, a remoção de favelas passou a ser um grande tabu, sustentado por um assistencialismo barato segundo o qual o estado deve prover tudo aos pobres dos morros - ainda que sua permanência ali possa pôr a própria vida em risco e acarretar prejuízos à cidade como um todo. A ideia absurda embutida nesse raciocínio é a de que quem vive em favela é um cidadão especial, que não precisa se submeter nem à Constituição e não tem os mesmos deveres dos outros brasileiros. Sob essa ótica obtusa, remover favelas é visto como uma afronta aos direitos dos mais necessitados. Essa bobagem demagógica tem suas raízes no populismo que há décadas contamina a política fluminense. O inchaço das favelas do Rio é resultado da combinação desses fatores.
Como o populismo contribuiu para a proliferação das favelas? Historicamente, ele foi a mola propulsora das favelas fluminenses, tendo como seu principal expoente o governador Leonel Brizola, na década de 80, quando se chegou ao auge de proibir a entrada de policiais nas favelas. O resultado foi um surto de ocupações irregulares. Sem polícia, foi dado o sinal verde para o banditismo. Sob o pretexto absurdo de que havia uma dívida social a ser quitada, foram concedidos aos moradores das favelas direitos inacessíveis aos demais brasileiros pobres ou ricos. Enquanto isso, os populistas iam esparramando nos morros seus currais eleitorais, ganhando votos em troca de tijolos, cimento, dentaduras e bicas-d’água. Isso explica a perpetuação dessa classe de políticos em uma sociedade que se pretende moderna. Eles e as favelas estão aí como símbolos do atraso. Quando alguém fala em remoção de barracos, são justamente eles os primeiros a levantar a voz contra. Claro, não querem perder seus currais eleitorais.
A quem mais interessam a perpetuação e o crescimento das favelas no Rio? Os políticos são apenas os tentáculos mais visíveis de uma enorme rede de ilegalidades que sustenta milhares de pessoas. Prospera no Rio de Janeiro uma indústria da favelização. No braço imobiliário há, de um lado, os grileiros, que invadem terrenos para vender depois, e, do outro, pessoas de fora das favelas que constroem barracos e os alugam. Os bandidos dominam a vida nas favelas. Eles controlam o comércio de botijões de gás e vendem acessos clandestinos às redes de TV a cabo. Os bandidos cobram até uma taxa a título de oferecer proteção aos moradores. É grande, portanto, o grupo dos que lucram com a existência das favelas. Infelizmente, aos poucos a sociedade foi deixando de se espantar com essa aberração urbana, a despeito das atrocidades cometidas a toda hora em plena luz do dia por um estado paralelo.
Por que a aberração foi assimilada? Isso se deve, em boa medida, a uma visão romântica e evidentemente deturpada sobre as favelas, que começou a ser propagada por parte da esquerda ainda nos anos 70. Essa corrente passou a difundir a ideia de que a convivência entre a cidade formal e o mundo da ilegalidade não apenas era aceitável como deveria ser pacífica. Acabou resultando numa glamourização da bandidagem. Nessa ótica distorcida, criminosos são tratados como líderes populares e toda e qualquer favela ganha apelido de comunidade, ainda que as pessoas vivam ali sob o jugo dos bandidos e à margem da lei. Isso tudo fez do Rio de Janeiro um péssimo exemplo de tolerância e benevolência com o mundo do crime no Brasil. Também não ajudou a combater o surgimento das favelas. Ao contrário: do ponto de vista cultural, só lhes deu legitimidade.
Como reverter a situação em um cenário em que a população das favelas cresce até quatro vezes mais rapidamente do que a da cidade como um todo? É preciso fazer primeiro o básico do básico: o estado deve recuperar o monopólio da força nos territórios hoje dominados pelos bandidos. As favelas são lugares em que milhões de pessoas vivem sob outras leis que não a do estado de direito democrático. Na prática, elas não estão sob a órbita da Constituição brasileira. Essa ausência de poder público é um padrão que se dissemina também por outras regiões metropolitanas do Brasil, como São Paulo e Brasília - mas em nenhum outro lugar do país o estado deixou tamanho vácuo. Não é viável almejar uma democracia digna e condizente com os avanços do século XXI sem equacionar essa grande anomalia. O estado moderno surgiu, afinal, para garantir a segurança e a paz social. É justamente o oposto da brutalidade que grassa nas favelas do Rio.
O senhor considera a experiência das Unidades de Polícia Pacificadora nas favelas cariocas (em que os traficantes são expulsos e a polícia passa a ocupar permanentemente os morros) uma maneira eficaz de o estado retomar o controle dos territórios em questão? Diria que o princípio não apenas é acertado como, daqui para a frente, o estado não tem mais o direito de retroceder dessa iniciativa. Finalmente, as autoridades entraram em algumas favelas e retomaram o poder, primeiro passo de um processo civilizatório que precisa continuar.
Por que a remoção de barracos é uma solução? Em contradição com a opinião dominante, acho que há muitos casos em que a remoção se justifica. Antes de tudo, é preciso começar a tratar essa questão com a objetividade que ela requer, longe da sombra da ideologia e dos interesses escusos. Não há como discordar da ideia de que alguém que tenha seu barraco fincado sobre os restos de um antigo lixão, como é o caso de dezoito favelas no Rio, deve ser retirado imediatamente de lá. O mesmo vale para quem tem a casa espetada à beira de um precipício, em flagrante situação de risco. Até aí, prevalece um relativo consenso. No entanto é preciso ir além, encarando uma questão de fundo econômico que é central mas foi posta de lado no debate: as áreas favelizadas provocam uma acentuada degradação da paisagem da cidade, um ativo cujo valor é incalculável. Portanto, quando uma análise de custo-benefício revelar que a realocação de uma favela trará retorno financeiro e social elevado, por que razões não cogitar sua remoção?
Como exatamente a economia da cidade se beneficia de uma remoção? A Lagoa Rodrigo de Freitas, cartão-postal da Zona Sul carioca, é um caso emblemático dos aspectos positivos que podem se seguir a uma remoção. Quando uma favela foi retirada dali, em 1970, os imóveis da região, cujos valores vinham sendo depreciados, inverteram a curva e passaram a se valorizar, aumentando a riqueza do bairro e da cidade, em benefício de todos. A riqueza é destruída no mesmo ritmo em que a favelização se alastra. Os mais pobres também perdem quando a riqueza deixa de ser criada ou é destruída. Os mais pobres são sempre os mais vulneráveis economicamente. Não tenho dúvida de que a política de remoção de favelas, que muitos ideólogos por aí definem como elitista, pode ser inclusiva, proporcionando mais benefícios do que prejuízos à maioria. O discurso da não remoção é um discurso antipobre.
Por que o estado chegou tão perto de remover certas favelas do Rio, mas acabou voltando atrás? Além de toda aquela gente que se beneficia da indústria da favelização e faz pressão contra, a ação de pessoas bem-intencionadas também atrapalhou. Veja o que aconteceu no Morro Dona Marta, em Botafogo, outro endereço valorizado da Zona Sul. Na década de 60, quando ali havia uns poucos barracos, o governo anunciou que faria a remoção. Mas setores ligados à Igreja, sob a liderança do então bispo auxiliar do Rio, Dom Helder Câmara, se insurgiram. O resultado foi previsível. A resistência incentivou a vinda de mais e mais moradores, e o Rio perdeu mais uma vez.
O que fazer no caso daqueles morros que já atingiram dezenas de milhares de habitantes, como a Rocinha? Feitas as contas, existe um consenso de que é muito mais simples e barato urbanizar essas favelas do que removê-las. A ideia central não é apenas prover os serviços nos moldes do velho assistencialismo, mas cobrar por eles, o que é natural com a inclusão dessas pessoas na economia formal da cidade. É preciso ter em mente que 1,3 milhão de habitantes do Rio pertencem ao mundo informal dos morros - o que representa um de cada cinco moradores. A entrada desse contingente na economia formal teria efeito muito positivo para a cidade. Isso depende da implantação de uma política habitacional séria, área em que os governos brasileiros em todos os níveis são tradicionalmente omissos.
Há algum sinal de melhora nesse cenário? Do ponto de vista das políticas públicas, não houve nenhuma novidade relevante nos últimos anos. Mas é preciso reconhecer que o atual ambiente macroeconômico aumenta as chances de avanço. A começar pelo fato de que não existe mais aquele cenário de inflação galopante, que inviabilizava o acesso ao crédito imobiliário para todos os estratos de renda. Habitação é o tipo de demanda que não pode ficar insatisfeita: se o governo não tem uma boa política, as pessoas dão o seu jeito, como tem ocorrido nas favelas brasileiras desde a década de 50. Instalar-se nelas pode até ter sido uma solução boa individualmente para quem não tinha um teto sob o qual morar - mas para as grandes cidades em todo o país significou um verdadeiro desastre.
Como mensurar isso? A experiência internacional mostra - e o caso brasileiro confirma - que a presença maciça de favelas afeta o ambiente de negócios e faz reduzir as chances de uma cidade competir globalmente. Está comprovado que um cartão-postal degradado e grandes áreas tomadas pela informalidade e pela violência são fatores decisivos para prejudicar a dinâmica econômica e afugentar investidores. Olhe o que está acontecendo no México, onde os cartéis da droga passaram a controlar grandes territórios e se tornaram um dos principais obstáculos ao aumento da competitividade do país. O Brasil ainda não chegou a esse ponto, mas caminhará para isso se não der fim ao controle territorial exercido por bandidos nas regiões metropolitanas.
Há perspectivas de que as favelas deixem de existir a longo prazo? Para mim, a melhor de todas as definições de favela é a que a descreve como um território à margem das leis que regem o restante da cidade. Elas começarão a deixar de ser favelas quando o estado se livrar de seus vícios populistas paralisantes e derrotar a bandidagem que exerce poder efetivo sobre o cotidiano de milhões de brasileiros.
Um caso especialíssimo para a Justiça analisar.
Mulher luta para conseguir ter filho de noivo que já morreu
Ela conseguiu na Justiça autorização para tirar espermatozóide dele. No Brasil, ainda não existe lei sobre fertilização após a morte. Uma mulher conseguiu autorização para retirar espermatozóides do noivo depois que ele morreu e agora luta pelo direito de conceber um filho do noivo morto. “Uma parte de mim, de todos meus sonhos de cinco ou seis anos tem de morrer junto com ele?”, diz Nara Azzolini. Ela e Bruno se conheceram na adolescência e tiveram um namoro rápido. Só se reencontraram cinco anos atrás; ela com 28 e ele com 31 anos. A paixão voltou com toda força. Eles queriam muito ter um filho. Estavam se planejando para isso. Mas uma fatalidade mudou o destino do casal para sempre. “Ele teve um aneurisma. Falaram que o caso era irreversível, que ele não tinha como mais voltar, que ele teve sete isquemias, não tinha retorno, que o caso dele é sem retorno, que ia morrer nas próximas horas. Era só esperar”, disse a mãe de Bruno, Eliane Leite. Foi o que aconteceu. Bruno morreu no ano passado. Mas a história de Nara e Bruno não acaba aí. Quando os pais e a noiva receberam a notícia de que as chances dele sobreviver eram pouquíssimas, juntos, eles tomaram uma decisão: Nara levaria adiante mesmo assim o seu sonho de ser mãe. “Você perde a pessoa que você ama e naquele momento você pode decidir que uma parte dele continuar, uma parte dos nossos sonhos, o único que pode ser dado continuidade”, contou Nara. Nara e a família de Bruno procuraram um centro de fertilidade que funciona dentro de um hospital. “O que eles queriam era o congelamento do sêmen do rapaz. Assim que eles chegaram, nós orientamos que precisavam de uma autorização judicial por ser uma coisa incomum, por não existir uma legislação especifica sobre o assunto”, disse a médica Cecília Erthal. Em menos de 12 horas, a família conseguiu autorização do juiz. “Foi um alívio, uma esperança de continuar uma vida. Um projeto que, naquele momento, era tudo que a gente queria”, disse Eliane.
Como foi feito?
Foi preciso fazer uma cirurgia. O paciente já estava em morte cerebral. “Morte cerebral significa que não existe mais o cérebro. Não manda comandos paro corpo para ele continuar vivendo e funcionando sozinho”, disse Maria Cecília Cardoso. Os espermatozóides de Bruno estão congelados e podem ficar assim por mais de 20 anos. Só que a batalha de Nara agora é conseguir na Justiça o direito de ter o filho do ex-noivo por meio de uma fertilização in vitro.
A discussão é polêmica e também está na novela “Escrito nas estrelas”. O personagem Daniel, antes de morrer em um acidente de carro, congelou seus espermatozóides. Agora o pai, interpretado por Humberto Martins, procura uma mãe para gerar um neto dele. “Acho isso maravilhoso. Há uns anos atrás, isso nunca seria possível e hoje em dia toda evolução cientifica pode me proporcionar isso. Uma parte de mim, de todos meus sonhos de 5, 6 anos tem que morrer com ele? Que mal eu estou fazendo, quem eu estou prejudicando?”, disse Nara.
“Estamos pedindo o uso do material genético, ou seja, do sêmen de Bruno para que realmente seja efetivada a inseminação e a Nara possa gerar um filho dele”, explicou Adrienne Maia, a advogada de Nara.
Polêmica
Como será a opinião dos homens? Eles gostariam de ter um filho mesmo depois da morte? A reprodução após a morte envolve muita discussão. A lei deve permitir que uma criança já nasça órfã? E quais serão os direitos dessa criança?
“Esse é um ponto polêmico. A princípio, ela não teria direito a essa sucessão, direito a herança. O registro no cartório seria feito com o nome do pai, mas só isso, sem nenhuma outra repercussão no campo exatamente patrimonial. Sem falar nos problemas de ordem psicológica que essa criança pode vir a ter em razão da falta dessa figura paterna”, explicou o jurista Guilherme Calmon.
“Não me preocupa o fato de meu filho nascer sem um pai, mas ele vai ter estrutura familiar maravilhosa e vai ser amado muito mais que muitas outras crianças que nascem com pai. Ele vai ser amado e desejado”, defendeu Nara.
Paternidade após a morte
Outra questão importantíssima: como saber se o pai realmente gostaria que o seu filho fosse concebido e nascesse mesmo depois da sua morte? “A doutrina jurídica tem entendido que, através de um documento, quer dizer, uma manifestação formal, escrita, de vontade para que essa manifestação possa ser utilizada depois da morte da pessoa”, disse o jurista Guilherme Calmon. No caso do Bruno, ele não teve tempo para assinar, o que torna a situação mais complicada do que normalmente seria, disse o jurista. No Brasil, ainda não existe lei sobre fertilização após a morte, apenas uma norma do Conselho Federal de Medicina determinando que os médicos colham material com autorização do doador. Como Bruno não deixou nada por escrito, o caso vai ter que ser julgado com base nos testemunhos de quem convivia com ele.
“No caso da reprodução assistida, eu não conheço nenhuma hipótese em que isso tenha acontecido. Se houver, vai ser a primeira vez no nosso judiciário, pelo menos que eu conheço. E aí o problema vai ser discutir se aquela prova testemunhal vai ser ou não considerada válida e importante em substituição ao documento”, disse o jurista Guilherme Calmon.
“Eu tenho certeza que gostaria de dar essa criança para nossa família, não para nós, para nossa família, porque seria uma criança que ia alegrar nossa casa de novo, porque a perda dele foi um rombo. A nossa casa ficou vazia sem ele e essa criança iria trazer alegria de novo”, disse Eliane, mãe de Bruno.
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