domingo, setembro 05, 2010
Cidadômetro
Cidadômetro
Merval Pereira – O Globo
Nesses dias em que predomina a percepção de que estamos fragilizados como cidadãos, impotentes diante das seguidas demonstrações de que um órgão do Estado brasileiro como a Receita Federal, que deveria ser o guardião de dados pessoais de cada um dos contribuintes, está exposto à ação de quadrilhas que compram e vendem sigilo fiscal e, sobretudo, à manipulação política, vale a pena discutir o que é possível fazer para reforçar a cidadania contra a leniência (ou cumplicidade) do Estado.
O publicitário Jorge Maranhão, dedicado à causa da cidadania e que tem o site “A voz do cidadão”, onde põe em debate os direitos e os deveres de um cidadão, está planejando colocar em circulação pelas cidades do país o Cidadômetro, concebido como uma complementação do Impostômetro, que mede, em São Paulo, o quanto de impostos o cidadão paga, soma que vai bater R$ 1 trilhão antes do fim do ano.
Assim como o relógio que mede os impostos, localizado na Avenida Paulista, procura chamar a atenção do consumidor para o tamanho de nossa carga tributária, Maranhão quer fazer o que chama uma “medida de cidadania”, tanto no sentido de iniciativa quanto de mensuração propriamente dita.
O projeto procura levar o debate público para a rua, para o cidadão comum, estimulando a pluralidade de opinião. Uma espécie de “Ágora ambulante”, sonha Jorge Maranhão, referindo-se ao espaço público na Grécia Antiga, onde ocorriam discussões políticas e os tribunais populares.
A ideia é testar nas ruas se você é um cidadão tão exemplar quanto imagina.
Maranhão acha que o problema da Receita Federal “é exemplo do que acontece hoje na política brasileira, onde há um claro interesse corporativo que confunde instituições do Estado que devem servir mais aos cidadãos que pagam impostos, do que aos governantes”.
É preciso, segundo ele, entender que as instituições do Estado são perenes e que “ou se constrói a democracia com instituições fortes, ou vamos deixar espaço para que venha um tirano ocupa-lo, tanto faz se é de direita ou de esquerda”.
A própria reação dos governistas, que consideram que as quebras de sigilo fiscal ocorridas nas agências da Receita no ABC paulista não terão repercussão no eleitorado, já que a grande maioria dos eleitores nem mesmo declara o Imposto de Renda, é uma demonstração de como não se leva em conta os direitos dos cidadãos.
“O que estamos fazendo para aperfeiçoar as instituições, como a Receita Federal, para nos apropriarmos publicamente das instituições?”, pergunta Maranhão.
Ele lembra que até bem pouco tempo tínhamos “aquele sensato temor em relação à Receita Federal, à Polícia Federal, que eram vistas como instituições sérias, as famosas ‘carreiras’ do Estado”.
Hoje, o temor saudável transformou-se em receio de que essas mesmas instituições abusem de seus poderes contra qualquer cidadão que seja considerado um “adversário”.
Ou que elas estejam a serviço de interesses privados criminosos, quebrando sigilos fiscais com fins comerciais ou grampeando conversas telefônicas.
Maranhão está convencido, no entanto, de que a opinião pública brasileira hoje quer mais questionar e perguntar do que “ouvir a empulhação das autoridades”.
As afirmações das autoridades nesse caso da Receita não são de políticas públicas, mas de governo. Jorge Maranhão dá o processo de construção da Lei da Ficha Limpa como um exemplo de atuação da cidadania, que interferiu objetivamente na vida política nacional.
Ele se engajou na campanha da Ficha Limpa, colocando sua ONG A Voz do Cidadão ao lado de outras 50 ONGs, entidades e movimentos que atuaram formando o Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE).
“Conseguimos superar barreiras corporativas dentro do Congresso Nacional, fomos inicialmente recebidos a pedradas”, lembra Maranhão.
Para ele, não é apenas a cidadania que é um valor corrompido no Brasil. São todos os valores. “A questão brasileira não é a corrupção política, mas a corrupção dos valores.” Isso gera a confusão do público com o privado, do Estado com os programas de governo. O Cidadômetro pretende sair pelas ruas das cidades — inicialmente no Rio de Janeiro — para perguntar ao cidadão comum: “Você transforma sua indignação em uma arma de engajamento?”; “Você ocupa a calçada com seu carro, mas não gosta que o camelô ocupe a calçada?” A Voz do Cidadão definiu três tipos de cidadão: o “solidário”, que deseja participar, mas o faz mais por caridade, convicção moral ou espírito humanitário do que imbuído de uma plena consciência de seu papel na sociedade. O “consciente”, que sabe o seu papel na sociedade e tem posição crítica em relação a governantes, gestores públicos e políticos, mas não passa disso e acha que tudo se resolve com o Estado. E o “atuante”, que, com base na percepção crítica que o cerca, não só pensa como age em direção à cobrança de resultados e à fiscalização de diferentes esferas de poder público, sempre estimulando os outros a fazerem o mesmo. Este seria o Cidadão Exemplar.
Jorge Maranhão sonha levar o caminhão do Cidadômetro para todos os lugares do país, inclusive Brasília. A questão da ocupação dos espaços públicos é replicável no Brasil inteiro; a demagogia no Morro do Bumba, em Niterói, construída sobre um aterro sanitário, que foi destruída nas chuvas, se reproduz em vários estados do país.
A versão completa do Cidadômetro teria ferramentas eletrônicas de interação, que divulgariam as respostas em tempo real.
Haveria também totens montados em estacionamentos de shopping centers, supermercados, campi universitários. Com base nas respostas, será montado um Índice de Consciência de Cidadania.
Tudo com o objetivo final de estimular o cidadão a agir como responsável pela fiscalização do espaço público onde vive.
A meta é triplicar vagas até 2010
A meta é triplicar vagas até 2010
Brasil começa a se tornar referência para o mundo na formação demão de obra demandada pelas fabricantes de aeronaves. Universidades tentam ampliar cursos sem comprometer a qualidade
Correio Braziliense
A indústria aeronáutica brasileira atravessa um momento de elevada produção e, consequentemente, enfrenta o problema da falta de mãodeobra qualificada.Na Helibras, filial da francesa Eurocopter, sediada em Itajubá, tal escassez é motivo de assombro. A empresa, que já está trabalhando em dois turnos, pretende dobrar de tamanho e mais do que triplicar o número de funcionários até 2012de 300 para 1 mil.
Está difícil encontrar profissionais especializados, tanto engenheiros quanto técnicos, em um momento em que estamos em plena capacidade produtiva, diz o vice-presidente da fabricante de helicópteros, Eduardo Mauad. É reflexo do expressivo crescimento da economia, que está levando junto o setor aeronáutico, acrescenta. A urgência com que a Helibras procura mão de obra qualificada está associada à recente encomenda do governo de 50 helicópteros EC 725 para as Forças Armadas, com capacidade para 30 passageiros.
Mauad conta que a maquete da nova fábrica com 11 mil metros quadrados está pronta e, para garantir a ampliação do quadro de pessoal, a companhia fechou parceria com a Universidade Federal de Itajubá (Unifei). A meta é criar um curso para formação de engenheiros aeronáuticos, no qual os estudantes terão a oportunidade de estagiar na sede da Eurocopter, na França. Dessa forma, vamos garantir a mão de obra para o futuro, pois pretendemos ampliar a fábrica e produzir o primeiro helicóptero concebido aqui mesmo na companhia, afirma.
Paralelamente, a Helibras está buscando profissionais em eventos acadêmicos.
Na semana passada, com o Itaú uma das instituições financeiras que mais têm engenheiros em seu corpo de funcionários a empresa participou de uma feira de carreiras na unidade da Universidade de São Paulo (USP)em São Carlos, que tem um dos mais disputados cursos do país o de engenharia aeronáutica.
Ou fazemos isso ou não conseguiremos preencher os postos que se abrirão com a ampliação da nossa fábri ca, ressalta Mauad. Ainda há uma carência grande para os nossos projetos, admite, lembrando que o Brasil tem uma das maiores frotas de helicópteros do mundo. São quase mil em operação.
Desde a entrada no país,em1979, a Helibras ampliou a sua fatia de mercado 14% para 52%.
Na Embraer, fabricante de jatos comerciais regionais, a retomada das encomendas fez a empresa recontratar parte dos 4 mil funcionários que demitiu depois do estouro da crise mundial, em setembro de 2008. A empresa está operando hoje com 16 mil empregados espalhados pelo mundo e, para suprir a falta de profissionais especializados, recorreu a parcerias com centros de formação como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). O projeto, batizado de Programa de Especialização em Engenharia Aeronáutica (PEE), busca atrair recém-formados em engenharia de diversas áreas. A companhia seleciona 100 engenheiros por ano.
O aumento da produção de jatos executivos na fábrica da Embraer em Gavião Peixoto tem absorvido grande parte dos profissionais que são formados pela unidade da USP em São Carlos. Para o coordenador do curso de engenharia aeronáutica da instituição, Fernando Martini Catalano, com a fusão das empresas aéreas TAM e LAN, aumentará ainda mais a demanda por engenheiros, pois o centro de manutenção de todas as aeronaves da futura companhia, a Latan, funcionará na cidade do interior paulista.
Tomara que tenhamos condições de atender a tanta demanda, diz.
A guerra por cérebros
A guerra por cérebros
Correio Braziliense
Escassez de engenheiros aeronáuticos estimula uma disputa feroz entre empresas e bancos por esses profissionais. Centro de excelência em formação, o ITA quer dobrar o número de vagas
O engenheiro aeronáutico é um profissional raro no Brasil, como um metal nobre, e vem sendo cada vez mais disputado no mercado não somente pelas empresas do setor. Nas poucas faculdades formadoras dessa nata acadêmica, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e a Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP), o assédio a esses cérebros feito pela iniciativa privada, especialmente bancos, já começa no terceiro ano. Ou seja, antes mesmo de o aluno fazer o estágio obrigatório que ocorre a partir do quarto e do quinto anos, ele já é abordado com ofertas de programas de estágio extremamente sedutores e com salários iniciais superiores aos R$ 5 mil praticados pela indústria aeronáutica, que já estão acima da média para o engenheiro iniciante.
O coordenador do curso de engenharia aeronáutica da USP São Carlos, Fernando Martini Catalano, revela que a procura pelas cabeças da universidade do interior paulista é tão grande que a instituição que forma apenas 40 engenheiros aeronáuticos por ano procurou alternativas para que os estudantes não abandonem a aeronáutica no meio do caminho, seduzidos pelo canto dos bancos ou de empresas de vários setores, como petróleo e até mesmo parque de diversões. Buscamos exigir o estágio do quarto e do quinto anos nas áreas de formação, senão os alunos acabam indo muito cedo para bancos ou outras empresas, diz ele, acrescentando que a universidade também estimula o desenvolvimento de projetos de iniciação científica, que acabam dando uma exposição maior para o Brasil no exterior.
Existe realmente um deficit no mercado desse profissional, pois é possível contar nos dedos o total de faculdades com essa cadeira. Até gostaríamos de aumentar o número de vagas, mas não há professores suficientes para dar as aulas, uma vez que eles também são disputados, afirma Catalano.
Temos uma cadeira vaga há mais de quatro anos. O professor de certificação aeronáutica e manutenção aeronáutica da USP São Carlos, James Rojas Watehouse, é taxativo: Quem dá aula, o faz por vocação e não pelo salário. Dono de uma empresa ligada ao setor aeronáutico, ele oferece estágio para alguns de seus alunos. Mas reconhece a dificuldade em concorrer com os salários do mercado financeiro.
Sonho de infância
A grande procura pelos estudantes de engenharia aeronáutica não é de hoje.
Muitos de nossos alunos estão hoje trabalhando em bancos, informa o vicereitor do ITA, Fernando Toshinori Sakane.
Há uma procura grande porque o que os bancos procuram é cérebro. E eu acho que o iteano tem os conhecimentos de matemática, raciocínio lógico que interessam aos bancos, afirma. Ele lembra que algo entre 6 mil e 6,5 mil candidatos disputam anualmente as 130 vagas, das quais 80 são destinadas aos alunos civis, disponíveis a cada ano.O instituto tem planos de dobrar o número de vagas nos próximos cinco anos, mas ainda depende de o projeto ser incluído no Orçamento da União.
Um bom exemplo do assédio do mercado financeiro é Conrado Engel, presidente da filial brasileira do gigante HSBC, maior banco do mundo. Nascido em Concórdia, Santa Catarina, ele saiu cedo de casa para estudar em período integral no disputadíssimo ITA. Ao se formar,em1980,Conrado se deu ao luxo de poder escolher onde queria trabalhar.
Com proposta da Embraer, seu sonho de infância e hoje uma das maiores fabricantes mundiais de jatos comerciais regionais, ele apostou as fichas no Citibank. Podia ter ido para a Embraer.
Fiquei impressionado com o programa de recrutamento que o banco montou no ITA para vender a carreira financeira aos novos engenheiros, relata.
A estudante da USP São Carlos Carolina Lima do Nascimento, 23 anos,que está no quarto anodo curso de engenharia aeronáutica, começa agora a escolher onde fará estágio. Ela diz que prefere seguir a carreira acadêmica e fazer mestrado.
Realmente, há um grande número de amigos meus que estão interessados em estágios oferecidos pelo setor financeiro, diz.Muitos comentam que o que mais atrai os estudantes é o salário inicial para o recém-formado. Eu pretendo ficar na área aeronáutica porque é o que eu gosto.
Contudo, se não houver emprego, vou para a área financeira ou para outra oportunidade que aparecer, afirma.
O economista-chefe do Banco alemão WestLB, Roberto Padovani, comenta que é grande o número de engenheiros no mercado financeiro. Nas últimas décadas, o país não cresceu e muitos engenheiros não tinham onde trabalhar. Isso reflete bem o retrato da economia atual, pois o país voltou a crescer e essa mão de obra começa a ficar escassa.Todos os tipos de profissões atravessam um momento positivo, de ganho salarial. O nível de desemprego nunca esteve tão baixo, afirma.
Já se pode rir. E chorar?
Já se pode rir. E chorar?
Alberto Dines - JORNAL DO COMMERCIO (PE)
A suprema corte confirmou a liberação de piadas sobre políticos no rádio e TV. É um avanço extraordinário numa sociedade construída em torno de casuísmos e hipocrisias. Nossos sumos-magistrados, porém, não se pronunciaram sobre o tipo de humor e o estilo das piadas. Ou cabe aos humoristas redigir um código de autorregulação?
O direito canônico regeu Portugal desde a sua criação, as "Pragmáticas" da Restauração e a legislação pombalina criaram um paizinho engessado e uma colônia licenciosa onde para evitar abusos tudo é arbitrado até mesmo o livre-arbítrio. Graças ao STF, o riso agora é livre, a sátira deixa de ser crime de lesa-majestade, o povão pode rir daqueles que o enganam.
E chorar, pode? Respondam, meritíssimos: é lícito debulhar-se em lágrimas diante do espetáculo oferecido por um Estado incapaz de proteger a privacidade dos cidadãos? A avacalhação do instituto do sigilo - um dos pilares do estado de direito - pode ser lamentada ou esse é um sentimento golpista?
A quebra do sigilo de dados pessoais na Receita Federal é escandalosa, coloca o Brasil no nível da Venezuela. Sobretudo porque configura uma rotina e consolida um conceito de República Vale-Tudo que o Brasil não merece ostentar.
Foi estúpida a decisão do PSDB de pedir a cassação da candidatura da adversária, Dilma Rousseff. Esta não é uma questão eleitoral, é institucional, republicana. Calejado, desta vez o presidente Lula não jogou a culpa nos aloprados. Percebeu que a sucessão de irregularidades reveladas exatos 30 dias antes das eleições comprometem a lisura de um processo do qual é o primeiro e mais importante avalista. Lula precisa ser ajudado a assumir o seu papel de supremo-magistrado e, não, contestado.
O conceito estratégico de inteligência está sendo aviltado por milícias para-políticas, especializadas em arrombamentos e vazamentos, treinadas para lidar com sistemas informáticos de alta-segurança e produzir grosseiras falsificações. Também atuaram contra o governo (caso da espionagem da filha do ministro Mantega e na disputa pelo poder em Belo Horizonte). Nada muito diferente da operação contra a sede do Partido Democrata no edifício Watergate (Washington, 1972).
O governo, seus candidatos e apoiantes precisam compreender que a tática negacionista só ampliará a onda de denúncias. Uma série de rápidas providencias administrativas - incluindo o imediato licenciamento do Secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo - interromperá o fluxo das revelações e impedirá o descrédito de um braço do estado de capital importância. Quando o eleitor sente-se lesado como contribuinte, não há marketing que o acalme.
A descontração da campanha eleitoral completa o clima de milagre econômico estampado na mídia internacional. Mas a liberação do riso não garante a sua perenidade. Já que saiu de moda chorar pela desgraçada Argentina convém evitar que se pergunte ao STF se é permitido soluçar pelo Brasil.
Previsões previsíveis
Previsões previsíveis
JOÃO UBALDO RIBEIRO - O GLOBO - 05/09/10
Na campanha eleitoral que, a despeito das aparências, transcorre no momento, tenho sentido falta de previsões de pais de santo, videntes, astrólogos e outros que enxergam o futuro.
É possível que não haja público para eles este ano, pois já se está cansado de saber quem vai ganhar. Ou então, não duvido nada, todos eles ficaram obsoletos, porque talvez baste entrar no Google, que ele já fornece os resultados das eleições. Quanto a mim, nunca fui capaz de antecipar nem que bicho vai dar, embora tenha até um certo know-how de prever destinos, adquirido durante a breve temporada em que fui leitor de mãos, amador mas afamado. Numa festa, fui brincar com uma senhora, fingindo que lia a mão dela, e nunca consegui que ela acreditasse que eu entendia tanto de quiromancia quanto de sânscrito arcaico.
O resultado foi que passei a ler mãos a torto e a direito, sempre com grande sucesso. O segredo é simples e passo-o a vocês (royalties aos cuidados da Redação, por favor). Para bem enganar enquanto quiromante, são necessárias apenas alguma imaginação, cara de pau e atenção nas reações do dono da mão ao que lhe é dito.
O começo é simples, basta elogiar caprichadamente a configuração geral da palma da mão (eu não conhecia nem os nomes das linhas, só fui aprender depois de veterano e já esqueci) e, logo em seguida, com o cenho levemente franzido, falar em obstáculos.
Um desses obstáculos - podem arriscar, que dá sempre certo - é causado por uma pessoa próxima, talvez um parente. A partir daí, a maior parte dos pacientes só falta soprar ao "quiromante" o que este deve dizer, para ser tido como infalível. Hoje penso em como perdi a chance de aproveitar a maré enchente e me profissionalizar - este negócio de ler livros, em vez de mãos, não está com nada.
Fazer previsões sobre o Brasil no futuro imediato é ainda mais fácil, porque, quando a gente pensa que alguma coisa vai mudar, não muda nada, a começar pelos mesmos, que sempre estiveram aí e, informa a experiência, sempre estarão. Saíram os que morreram ou se incapacitaram, ou passaram tudo para os herdeiros, ou preferiram uma mamata obscura, das incontáveis que no Brasil abundam e a generosa pátria criou para premiar seus filhos operosos.
A maioria engorda, uns alisam ou pintam o cabelo, outros fazem plástica, todos viajam à Europa e nenhum sai pobre, notadamente os que entraram pobres. No papel, são irrepreensíveis, mas todo mundo sabe que estão ricos. Pode-se ver, pode-se tocar, podese falar. Só não se pode provar e muito menos punir a safadagem que alicerçou o enriquecimento.
Sim, mudaram as alianças, nos últimos anos. Vivem mudando e só duram enquanto a chance de morder o filé não trocar de lado. Quando o olhão se acende, a consciência se apaga.
As alianças, em nenhum momento, tomam em consideração questões ideológicas ou mesmo interesses imediatos dos súditos. Fazem-se das maneiras mais esdrúxulas e atentatórias ao pudor, levando quem ontem xingava a hoje exaltar e quem ontem abraçava a hoje repudiar.
Os que se opõem ao sucateamento descarado de princípios e valores são desdenhosamente taxados de ingênuos, primários ou radicais, até porque suas objeções ignoram as exigências da governabilidade. Governabilidade esta que, para quem está de fora, ou seja, os governados, se resume ao preenchimento de cargos públicos e semelhantes pelos indicados por essas alianças. E, pensando melhor, para os governantes também.
Os partidos? Os mesmos e a mesma conversa, com a exceção dos nanicos, que aí estão apenas para compor a festa democrática. No Senado, as mesmas caras, os mesmos ares farisaicos, o mesmo Senado, com as mesmíssimas características. Na Câmara, também os mesmos, os mesmos em toda parte, os mesmos para onde quer que a gente se volte, os mesmos que ressurgem como assombrações quando alguém clama por renovação e que perduram entra ano, sai ano, vem eleição, vai eleição. E os mesmos programas, que promoverão a justiça social, investirão em saneamento básico, darão prioridade à educação e à saúde e assim por diante - ouviu um, ouviu outro.
Agora esse escândalo da Receita Federal praticamente não causou revolta em ninguém e também é facílimo prever que vai ficar tudo por isso mesmo.
Podem perguntar o que quiserem à Receita Federal, que ela é soberana e não dá satisfações e o cidadão não tem nada com isso, tem mais é que pagar, calar a boca e deixar as autoridades em paz. Não consigo imaginar país nenhum em que um descalabro desses não fosse objeto de uma indignação sem medidas e unânime, com todas as consequências disso advindas, inclusive punições, sanções e reformas enérgicas.
Aqui não. Aqui é tratado como uma fofoca de campanha, quando a avacalhação do sigilo de dados confidenciais não precisa ter nada a ver com campanha nenhuma, como comprova a venda acintosa de informações também confidenciais.
É um abuso inominável, um crime contra a credibilidade e a estabilidade das instituições, mas a carneirada dá de ombros e procura o caderno de variedades para ler, em vez da chatice que afeta sua vida. Em que confiar, em que acreditar? Grandes coisas, estas previsões, agora que as vejo aqui expostas. Qualquer um poderia fazer estas e outras, é só olhar em torno ou ligar a televisão. Mas não custa ser explícito e novamente creio que muita gente pensa como eu.
Ninguém mais, que eu saiba, duvida que d. Dilma se eleja (presidenta, segundo ela; daqui a pouco haverá gerentas de bancos e jovens adolescentas).
Acho que apenas o dr. Serra ainda bota fé no contrário. Mas ele deve é se preparar para ter o ex-presidente Lula como companheiro de oposição, uns dois anos depois da posse da presidenta.
Para prever, é só viver e ver.
É abuso inominável, um crime contra as instituições, mas a carneirada dá de ombros.
Ponto crítico
Ponto crítico
Miriam Leitão - O GLOBO - 05/09/10
O principal motor da economia mundial, os Estados Unidos, está perdendo fôlego. Depois de um início de ano em que tudo caminhava para recuperação forte, os termos "duplo mergulho" e "crescimento recessivo" tornaram-se frequentes nas análises dos economistas.
O mais provável é que os Estados Unidos tenham baixo crescimento por mais alguns anos.
Tudo isso piora a vida do presidente Barack Obama.
A economista Monica de Bolle, da Galanto Consultoria, compara a situação atual americana com a que, na física, é denominada de "ponto crítico".
Ou seja, a situação em que não é possível dizer se uma matéria está no estado líquido ou gasoso.
- No caso da economia americana, temos sinais tanto de moderação quanto de início de recessão. Parte da economia está bem, como algumas empresas, mas outra parte está mal, como as famílias e os bancos. Tudo é heterogêneo - explicou.
O Bank of America usou a expressão growth recession (crescimento recessivo).
Significa um tipo de crescimento que não impede o aumento do desemprego. O banco diz que o risco de um duplo mergulho, ou seja, um novo período de recessão, é de 25% para 2011. O pior problema não é nem o crescimento, mas a taxa de desemprego, que fica entre 10% e 9,5% este ano. Não cai abaixo disso. E no ano que vem deve continuar em torno de 10%.
O Morgan Stanley também revisou para baixo seus números.
Cortou em um ponto a previsão para este ano, de uma faixa entre 3% e 3,5% para 2% e 2,5%. O desemprego deve agora fechar 2010 não mais em 9,4%, mas em 9,7%. O Morgan diz que parte da desaceleração vem do crescimento mundial, que também está surpreendendo para baixo, com impacto nas exportações americanas.
O presidente Barack Obama está enfrentando seu maior teste desde a posse na Casa Branca. Como já é tradicional nos Estados Unidos, a eleição parlamentar de meio de mandato define se será um governo de quatro ou oito anos. As indicações são de que o Partido Democrata, que tinha maioria nas duas Casas, vai perder inúmeras cadeiras.
A aprovação do presidente Obama está menor do que a desaprovação. Dependendo dos números de cadeiras perdidas, a segunda metade do governo Obama será mais fraca.
Ele terá menos capacidade de aprovar projetos, um quadro que não ajuda a recuperação econômica.
Obama recebeu uma herança maldita. Ele sim. Economia em recessão, ameaça de depressão, bancos quebrados e duas guerras impopulares.
Evitou o pior, há uma nova regulamentação bancária aprovada, os bancos já se recuperam e ele está anunciando a saída das tropas do Iraque, a mais impopular das duas guerras.
Mas é ele que paga o preço de uma economia estagnada, de um clima de fim de guerra sem vitória, e de um desemprego elevado. Há governos que recebem boa herança e se creditam de todos os bons frutos, outros são debitados pelos insucessos do antecessor. Obama está no segundo time.
No começo do ano, os números da economia americana foram animadores, mas no segundo trimestre a recuperação perdeu força.
Agora, a economia vai apresentar números positivos para o PIB, num crescimento sem emprego porque a confiança dos empresários está muito baixa.
Há grandes chances de o banco central americano revisar para baixo seus números, jogando mais água fria no mercado financeiro. Na quartafeira, a ata da última reunião do Fed apontou que a recuperação levará mais tempo que o previsto e que o crescimento está difuso. Uma avaliação nada animadora depois de dois anos seguidos de estímulos econômicos, seja em redução de juros, seja em pacotes fiscais.
Monica de Bolle avalia que o principal problema da economia americana é o endividamento das famílias. Como elas tiveram problemas com as hipotecas, o pagamento dessas dívidas demanda um tempo maior. Por isso, o consumo do país, que responde por 70% do PIB, está comprometido. Mas Monica não acredita que os americanos voltarão à recessão e muito menos que passarão por problemas semelhantes aos do Japão, que permaneceu uma década com baixo crescimento.
- É razoável que se leve de dois a três anos para que as famílias consigam limpar os seus orçamentos. Mas esse processo não levará a dez anos de baixo crescimento, como no Japão, porque assim que acontecer os americanos voltarão a consumir - afirmou.
Agora, os economistas andam pedindo um novo pacote de estímulo. Raphael Martello, da Tendências consultoria, acha que a eleição no Congresso americano no final do ano pode ajudar na elaboração do pacote, e até ajudar o presidente Barack Obama nesse aspecto. Poucos ficariam dispostos a votar contra um pacote que se apresente como estímulo à criação de empregos. Só que o tempo está se esgotando. As eleições americanas serão dentro de dois meses.
O grande problema de uma desaceleração nos EUA é a contaminação do resto do mundo e um arrefecimento mundial de forma sincronizada. A China, por exemplo, que possui forte relação comercial com os EUA, deve desacelerar de uma taxa de 12% de crescimento, no primeiro trimestre do ano, para 8%, no último trimestre.
O próximo governo brasileiro não terá o quadro internacional favorável que o governo Lula usufruiu. De 2003 a 2008, o mundo cresceu com taxas altas e o Brasil aproveitou pouco esses bons ventos. Em alguns anos, cresceu menos que o mundo e não fez mudanças estruturais na economia. O novo governo encontrará a Europa estagnada, os Estados Unidos tentando sair desse ambiente recessivo, o Japão parado, a China diante de várias incertezas. O novo governo precisará de mais engenho e arte para manter o crescimento brasileiro.
Conselho negocia com os talibãs
Conselho negocia com os talibãs
Presidente Hamid Karzai tenta diálogo com extremistas, que expandem seus ataques dos redutos tradicionais no sul para o extremo norte do país
Correio Braziliense
O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, deu mais um passo para tentar um diálogo em busca de paz com os insurgentes talibãs. O governo anunciou ontem a criação de um conselho responsável por conduzir negociações com o grupo extremista islâmico. A iniciativa foi uma das medidas mais importantes de Cabul para tentar amenizar o conflito iniciado com a invasão dos Estados Unidos, em 2001, em represália pelos atentados de 11 de setembro. No mesmo dia do anúncio, um atentado na cidade de Kunduz, no norte do país, causou a morte de quatro policiais afegãos e três civis, e mostrou que o trabalho de pacificação deve ser árduo.
O conselho será formado por 50 membros da sociedade afegã, inclusive por ex-talibãs e opositores do atual governo, para tentar criar um espaço de negociação. Os membros do grupo devem ser nomeados ainda este mês, de acordo com o governo. “A formação desse Alto Conselho de Paz é um passo significativo para as conversações”, afirmou um comunicado divulgado pelo gabinete de Karzai. As últimas tentativas de diálogo falharam porque os talibãs exigiram que as tropas internacionais deixassem o país como condição prévia a qualquer acordo.
O Afeganistão é cenário de guerra desde o fim de 2001, quando o regime fundamentalista talibã foi derrubado por uma força militar internacional liderada pelos Estados Unidos. Desde então, mais de 150 mil soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) lutam contra os remancescentes da milícia extremista, que mostram força renovada há pelo menos dois anos. O presidente Barack Obama anunciou recentemente que vai enviar mais 30 mil militares para ajudar a controlar a segurança no país, mas pretende diminuir o contingente americano em território afegão a partir de julho de 2011.
O general David Petraeus, que assumiu o comando das tropas da Otan no Afeganistão depois de ter liderado as forças americanas no Iraque, disse à imprensa no último mês que a campanha contra os extremistas deve “ficar mais difícil antes de ficar fácil”. A milícia talibã, que antes concentrava forças no sul do país, começa a atacar o norte, como ocorreu ontem em Kunduz.
Expectativa
A grande expectativa, depois do anúncio do governo, é para saber quem serão os membros do conselho de paz. O presidente Karzai encontrou-se com ex-talibãs na semana passada para discutir a composição do grupo de negociadores. A ideia do governo é oferecer anistia e incentivos para os milicianos que resolverem acatar a Constituição e depor as armas.
O conselho criado por Karzai foi aprovado em junho por uma assembleia tribal, chamada de jirga, que também apoia a iniciativa de garantir a segurança de ex-membros da milícia e libertar os presos capturados pelas forças infernacionais e afegãs. Para o Talibã, a jirga “não representa o povo do Afeganistão” e deixa na mão de governo estrangeiros decisões que afetam o país.
Além da violência, os afegãos também sofrem com a crise econômica. Ontem, as agências do maior banco privado do país, o Kabul Bank, estavam lotadas. A poucos dias da festa que marca o fim do mês de jejum do Ramadã, na qual é uma tradição a troca de presentes, milhares de pessoas foram ao caixa para sacar os salários ou os valores depositados. Circulam rumores de que a instituição vai declarar falência nos próximos dias, depois de várias acusações de corrupção. De acordo com o jornal The Washington Post, o Banco Central do Afeganistão deve assumir o controle da instituição financeira, que paga os salários da polícia e do Exército.
OS NÚMEROS
150 mil - Efetivo das forças estrangeiras no Afeganistão
1.271 - Total de civis mortos no conflito durante o primeiro semestre, segundo as Nações Unidas
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