segunda-feira, novembro 08, 2010
Ensaio sobre Saramago
Ensaio sobre Saramago
ALICE GRANATO – Revista Serafina
O cineasta português Miguel Gonçalves mendes, diretor do filme "José & Pilar", revela a intimidade do Nobel morto em junho
Era uma vez um garoto português encantado pela literatura de seu país. Desde pequeno, Miguel Gonçalves Mendes amava as histórias de José Saramago e as poesias de Mário Cesariny.
O tempo passou, o garoto cresceu e virou cineasta. E lança agora, aos 32 anos, seu filme mais ousado, o documentário "José & Pilar", sobre a vida e a história de amor do único Nobel da literatura portuguesa com sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rio, 28 anos mais nova que ele. Os dois viveram juntos por 25 anos.
Para fazer o filme, produzido pela sua JumpCut, a brasileira O2 e a espanhola El Deseo, Miguel passou quatro anos registrando de perto o cotidiano do casal. Valia tudo, momentos de relaxamento em casa, palestras, conferências, viagens, quartos de hotel, conversas no carro, no avião, em jantares íntimos.
Coletou 250 horas de filmagem, com acesso (quase) irrestrito a Saramago e Del Rio. O resultado é um filme de 125 minutos com os momentos mais doces e surpreendentes. "Tenho um lado arqueológico, quero estudar e preservar as coisas que vão desaparecer", afirma. "Não teríamos outro jeito de conhecer a pessoa generosa que ele era e o humor maravilhoso que ele tinha."
Miguel cursou dois anos da faculdade de arqueologia ao mesmo tempo em que estudava cinema em Lisboa. Optou pelo cinema, e o cinema por ele. Em 2004, ganhou o prêmio de melhor documentário português com "Autografia", sobre o poeta e pintor Mário Cesariny. "Queria muito conciliar meus interesses e conhecer de perto essas duas pessoas que eu admirava tanto."
Foi depois de ver "Autografia" que Saramago decidiu abrir as portas de sua intimidade para o diretor. "Ele me disse uma das coisas mais bonitas que já ouvi: 'faz o que quiser, mas tenho medo de não dizer coisas tão interessantes como o Cesariny", lembra o diretor. "Quis mostrar que ele não era o cara que as pessoas achavam que era, antipático, polêmico. Era humano. Todos nós temos nossas pequenas esquizofrenias", explica.
O lançamento mundial do longa-metragem "José & Pilar" aconteceu em setembro no Festival do Rio, três meses depois da morte de Saramago, aos 87 anos. A viúva Pilar acompanhou o diretor na viagem ao Brasil e fez questão de que ele vestisse, na noite de estreia, um terno e uma gravata de seu marido.
Antes de morrer o escritor assistiu a uma versão do filme, ainda sem os cortes finais. "Fiquei muito nervoso nesse dia", lembra Miguel. "Mas ele gostou muito, pois falava da vida, dos valores, do amor. No final, virou-se para Pilar e disse que o filme era uma carta de amor a ela, que respondeu que a vida dela também era uma carta de amor a ele."
Dois chás e a conta... com Camila Pitanga
Dois chás e a conta... com Camila Pitanga
Mauro Ventura – O Globo - Revista
Como estava previsto, Camila Pitanga gravou no último dia 29 três trechos de “Poema sujo”, obra-prima de Ferreira Gullar, para a videoinstalação “Há muitas noites na noite”, que Silvio Tendler inaugura hoje no Oi Futuro de Ipanema. Ao terminar, falou: “Tá tão bom que posso passar a tarde inteira aqui.” Tendler, que não é bobo, aproveitou e pediu que ela lesse mais.
Sugeriram uma das partes mais ousadas. “Vambora”, topou. No fim, o diretor disse: “Acho que está muito contido. Você pode fazer de novo, mais solta?” Ela obedeceu:
“Tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma entrada para...” Não conseguiu concluir. “Ficou lindo!”, interrompeu Tendler, desculpando-se: “Fiquei tão entusiasmado que entrei no meio.” Ela teve que repetir pela terceira vez, feliz da vida. Essa é Camila, atriz de uma entrega rara, recém-chegada do Pará, onde rodou “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant e Renato Ciasca, baseado no livro de Marçal Aquino. Ela vive a ex-prostituta e ex-drogada Lavínia, de dupla personalidade, casta e devassa. E vai começar a gravar a próxima novela das oito, “Insensato coração”, nova parceria com Gilberto Braga e Ricardo Linhares.
REVISTA O GLOBO: Você participou da gravação de “Poema sujo”. Qual sua ligação com poesia?
REVISTA O GLOBO: Você participou da gravação de “Poema sujo”. Qual sua ligação com poesia?
CAMILA PITANGA: Eu fazia muitos saraus de poesia em casa. Deixava os livros no chão, chamava amigos e vizinhos, cada um pegava um exemplar e lia, sem preparar nada. Isso dessacraliza a poesia.
Varávamos noite, unidos pela palavra. Tomara que esta gravação de agora seja um estímulo para voltarmos. Quando me convidaram, eu disse: “Silvio Tendler e Ferreira Gullar? Estou dentro, não precisa nem me explicar muito.” É da maior importância ler Gullar, isso provoca emoções.
Como foi sua volta aos trabalhos após a maternidade?
No primeiro ano, a gente só quer ficar naquele mundo mãe. Nesse período, só fiz coisas pontuais, “Som Brasil” uma vez por mês, um episódio de “Faça sua história”. Mas depois tem que se descolar. Fiz a novela (“Cama de gato”) e terminei há pouco o filme do Beto e do Renato. Já estou na saudade. Filmávamos em São Pedro, a oito horas de barco de Santarém. Quando não filmava, lia, via filmes. Uma coisa que esse trabalho me modificou foi que ando pensando muito na qualidade do tempo. Tem um lado meu que resolve as coisas, organiza a casa. Mas não posso ser dragada por isso, preciso delegar e abrir janelas para, por exemplo, vir aqui ler Gullar. (Ela levou seu exemplar autografado: “Para Camila Pitanga, atriz e beleza brasileira, com o abraço afetuoso do Gullar.”) Tenho que coordenar o tempo de mãe (de Antônia, de 2 anos) com o tempo do artista, que está também quando a gente lê, olha, caminha.
Como você foi parar no filme?
Beto me disse que pensava em mim para o filme (que estreia ano que vem). Mas falou: “Antes queria que você lesse o livro.” Apaixonei-me pela história e pelo projeto, mas fiquei em pânico. Como materializar aquelas mulheres que são uma só, a Lavínia? Acabou sendo um trabalho libertador.
Transformou-me como atriz e como ser humano. Tive momentos de medo e de prazer. Entreguei-me a ponto de ficar toda ferida, metaforicamente falando. Mas também tenho marcas de espinhos (mostra as cicatrizes no braço). Tive que me desnudar, viver sentimentos e situações muito dolorosos, tocar em questões pessoais.
Que outras coisas ele trouxe para você?
Não sei qual será a repercussão do filme, mas não importa, porque não tem preço o prazer que tive, até o prazer da dor de me entregar a algo em que acredito. Voltei reavaliando meu trabalho, como uma seta para frente. Não quero me perder dessas pessoas, se depender de mim assino contrato de exclusividade com a Drama Filmes (produtora do filme). Outro enlace foi com Gero Camilo (ator do filme). Estamos lendo duas peças por semana, inclusive textos dele. Vamos encenar para ontem. A gente se quer. Pelo menos eu quero. (Risos.)
Como será seu personagem em “Insensato coração”?
A Carol é de origem humilde e se tornou uma profissional bem-sucedida. É publicitária. Na escola, era sem graça, nada popular. Reencontra uma paixão platônica, um machista assumido, galinha, vivido por Lázaro Ramos. Ela fica na dúvida se deve se entregar ou não. “Não posso me apaixonar, é roubada”, pensa, mas o deixa entrar em sua vida.
O que mais me instiga nos trabalhos é a possibilidade de alargar meu repertório de entendimento sobre a vida e o ser humano. No caso da Bebel (“Paraíso tropical”), era entender o que uma prostituta sofre, vê, vive, pensa. É fácil estigmatizar essa profissão. É inegável que a popularidade e o reconhecimento foram uma delícia, mas para mim o maior valor é entender mais o outro.
O que mais me instiga nos trabalhos é a possibilidade de alargar meu repertório de entendimento sobre a vida e o ser humano. No caso da Bebel (“Paraíso tropical”), era entender o que uma prostituta sofre, vê, vive, pensa. É fácil estigmatizar essa profissão. É inegável que a popularidade e o reconhecimento foram uma delícia, mas para mim o maior valor é entender mais o outro.
Diagrama: A estrada que o Brasil precisa pegar
Diagrama: A estrada que o Brasil precisa pegar
Dos países com grande extensão, o nosso é o mais dependente do transporte rodoviário – um desvio que custa caro
Alexandre Mansur, Alberto Cairo e Luiz Salomão. Edição Multimídia: David Michelsohn. Revista ÉPOCA
Os Estados Unidos levam a fama, mas o Brasil é o país mais motorizado. Os americanos têm mais carros individuais e mais possantes, mas têm também boas ferrovias e hidrovias para cargas (os brasileiros dependem dos caminhões). O Brasil leva 65% da carga por estradas, os Estados Unidos apenas 32%. Esse é um dos resultados de um estudo do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVces) para o grupo Empresas pelo Clima, 25 companhias preocupadas com o aquecimento global. “A opção rodoviária é mais poluidora e mais cara”, diz o biólogo Luiz Pires, do GVces. “Quem paga é o consumidor e o exportador.” O estudo defende investimentos em trens e barcos para cargas, além de sistemas de ônibus expresso, como o de Curitiba, para complementar o metrô.
Herói da resistência
Herói da resistência
PAULO WERNECK – Revista Serafina
Desenhista da revista "New Yorker", Jean-Jacques Sempé traduz em livro a melancolia e a poesia dos tipos parisienses
| Jean-Jacques Sempé |
Jean-Jacques Sempé pertence à mesma linhagem de cronistas de Paris que inclui, na fotografia, Robert Doisneau, na canção popular, Boris Vian, e, no cinema, Jacques Tati.
Os tipos populares e desajustados que aparecem nas obras desses artistas, com a dupla marca da graça e do fracasso, do humor e da melancolia, deram a cara da França na segunda metade do século 20. O país curava as feridas do trauma da ocupação alemã durante a Segunda Guerra e já curtia as delícias da "invasão" econômica e cultural norte-americana. Seja nas lentes de Doisneau, seja nas letras de Vian, seja nos desenhos de Sempé, o heroísmo é posto de lado para dar lugar a uma poesia que vem diretamente da rua, do homem comum e da vida cotidiana. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer outra cidade, essas figuras estariam fora de lugar, mas, em Paris, elas não ficam desambientadas. Se existe um lugar certo para ser "gauche" na vida, é ali.
Nas canções de Serge Gainsbourg, os personagens cultivam a melancolia em ambientes escuros, enfumaçados; os de Sempé são diurnos, andam de bicicleta ou em meio à multidão, banhados por uma luz colorida, solar. Mas nem por isso abandonam a melancolia.
Paris é ao mesmo tempo cenário e personagem. Já não é mais a capital napoleônica nem a musa das vanguardas. Cosmopolita e agitada, por vezes adquire ares provinciais ou a atmosfera de um enorme bairro. Os "heróis" são sapateiros, pequenos comerciantes, funcionários do metrô. Sem falar nos tipos desajeitados, que não podem ou não querem se encaixar na sociedade de consumo, cujo símbolo máximo é o solteirão Monsieur Hulot, o desempregado convicto de "Meu Tio", de Jacques Tati.
Em "Raul Taburin", (Cosac Naify, 92 págs.), que acaba de sair no Brasil, Sempé põe em cena mais um desses anti-heróis parisienses. Ao lado de "Marcelino Pedregulho", que saiu em 2009, o livro traz para o Brasil a sua produção menos conhecida, que vai além do trabalho que o consagrou mundialmente, o best-seller infantil "O Pequeno Nicolau" (cujo texto é de René Goscinny, o roteirista de "Asterix").
No livro recém-lançado, Raul Taburin é um renomado especialista em bicicletas (outro ícone parisiense). Tanto assim que, no seu bairro, elas são conhecidas como "Taburinas". Na sua oficina de consertos, Raul é capaz de reconhecer todos os guinchos, rangidos e até os defeitos mais sutis ("nas curvas, ela é um pouco rebarbativa", diz um cliente).
O mecânico esconde, porém, um grande segredo: não sabe pilotá-las. Nunca foi visto andando de bicicleta e foi justamente a incompetência com os pedais que o levou a conhecer, tombo após tombo, cada engrenagem, cada parafuso das engenhocas, e a aprender a fazer curativos como ninguém. Não é o caso do próprio Sempé, que disse à Folha ter andado de bicicleta durante a vida inteira, "até debaixo de chuva e quando ia jantar na casa dos amigos". Só pendurou os pedais depois de um acidente, que, segundo ele, não foi causado por uma bicicleta.
Desde 1978, Sempé é uma das estrelas da revista "The New Yorker", para a qual produz em média três capas por ano. Sem mudar o traço ou a sutileza do humor, ele fala ao mesmo tempo com crianças e adultos sem fazer concessões estilísticas. Não por acaso, um dos programas preferidos de seu tradutor brasileiro, Mario Sergio Conti, quando morou em Paris, era ir ver os desenhos de Sempé com sua filha de quatro anos. Por isso mesmo, os desenhos dele para a "New Yorker" de vez em quando saem na brasileira "Piauí", editada por Conti. Volta e meia Sempé é citado como uma espécie de herdeiro parisiense de Saul Steinberg, o grande ilustrador da "New Yorker" que, de certa forma, também converteu a cidade em personagem lírica e cheia de graça. E que ajudou a elevar a ilustração para a imprensa a um estatuto verdadeiramente artístico.Sua produção para a revista se encontra reunida no livro "Sempé à New York", lançado na França em 2009.
O livro traz uma longa entrevista concedida ao jornalista Marc Lecarpentier em que Sempé narra o sua memorável parceira com a equipe da "New Yorker".
Foi lá que ele teve dois dos encontros fundamentais da sua carreira: com Steinberg e com o mítico editor da "New Yorker", William Shawn. Mesmo sendo fã de Sempé, Shawn fazia algo que até hoje é inusual na relação entre um desenhista e um editor, mas que na "New Yorker" era natural: inúmeros pedidos de retoques –um braço de um personagem precisou ser refeito dez vezes, uma menina desenhada a aquarela precisou ser removida, o que é um trabalhão. "Quando ele me dizia 'é preciso mudar isso aqui", diz Sempé, "eu mudava sem discutir."
Já Steinberg, diz o francês, morreu amargurado, quase agressivo: "Queria ser reconhecido como um artista, não como um desenhista de imprensa". Ao contrário de Steinberg, o francês pode dizer que está chegando lá: sua próxima exposição será inaugurada em novembro em Paris, na galeria Martine Gossieaux, a duas quadras do Museu d'Orsay.
Eu tinha medo
Eu tinha medo
Artur Xexéo – O Globo - Revista
Se alguém me perguntar o nome do papa, vou ter que parar um pouco para pensar.
Mas houve um tempo em que papas faziam parte do meu cotidiano. Aluno de um colégio de padres, via João XXIII como um dos mais importantes integrantes da minha vida.
E rezava todos os dias pela sua saúde.
João XXIII morreu depois de uma certa agonia. Era 1963. E, entre a primeira e a segunda aula, a gente sempre rezava um terço pela melhora do papa. Em vão. Foi a partir daí que comecei a ter medo do papa.
Eu era um católico tão aplicado, tão crente, tão cumpridor das obrigações de minha fé que, se houvesse alguém no mundo para quem o papa apareceria depois de morto, só podia ser eu. E isso me dava medo.
Comecei a não querer dormir de luz apagada, de pés descobertos. Adquiri mil e uma manias na hora de dormir para afastar a alma do papa de perto de mim.
Superei o medo de papa. Mas hoje, quando me lembro da minha infância, qualquer recordação vem cercada daquele sentimento que misturava reverência e pavor. Desde então, não me apeguei a mais papa algum.
Meu último papa foi mesmo o João XXIII.
Mais medo que de papa, só o de areia movediça. Crianças de hoje não sabem o que é isso. Mas as crianças do meu tempo, aquelas que ainda assistiram a filmes em série no cinema, sabem bem do que estou falando. Areia movediça era um perigo que todo mocinho de fita em série tinha que superar e que todo bandido sucumbia diante dele. Poderosíssima a tal areia.
Meu medo era tamanho que passei a aprender truques para quando o destino me fizesse cair naquele lamaçal traiçoeiro. O importante é não se debater, caso contrário, a areia te traga. É claro que, se houver um cipó por perto, dá sempre para se agarrar nele e chegar à margem protetora. Mas, como eu não era bobo, sabia que nunca me embrenharia por uma selva e, portanto, não encontraria meu cipó salvador. Certamente, a areia movediça que me esperava seria urbana. O jeito era nadar. Sim, nadar, como se estivesse numa piscina, para tentar atingir a margem. Como nadar sem se debater? Aí é que está o pulo do gato, o qual, infelizmente, nunca aprendi. Diferentemente do medo de papa, que não tenho mais, o medo de areia movediça me acompanha. E ainda não sei como nadar sem me debater.
Eu tinha medo de prova oral. Por que, sempre que sorteava o ponto, caía capitanias hereditárias? E por que eu teimava em não estudar tal assunto? Até hoje não sei nada de capitanias hereditárias. Trauma escolar. Mas a prova oral foi eliminada da prática escolar e, com isso, meu medo também foi extinto.
Eu tinha medo da Terceira Guerra Mundial.
E, pior, tinha medo de ser convocado para ela. Torcia para que a guerra começasse antes de eu completar 18 anos. E para que terminasse antes disso também.
Só perdi o medo da Terceira Guerra Mundial quando comecei a ter medo de completar 18 anos. Mas isso faz tempo. Já passei da época de ser convocado.
Servidor não pode criticar órgão em blog pessoal
Servidor não pode criticar órgão em blog pessoal
VLADIMIR PASSOS DE FREITAS
A imprensa noticiou, em 27 de outubro passado, que no Rio de Janeiro foram impostas sanções a servidores públicos, sob o título “Policiais são punidos por comentários no Twitter” (Estado de SP, 27.10.2010, C4).
Informa a reportagem que um capitão da Polícia Militar teria sofrido 20 dias de prisão por ter comentado no Twitter sua nomeação para determinado cargo na corporação e que, segundo o Comando da PM fluminense, teria conteúdo irônico e depreciativo sobre ato legal da corporação. Também um delegado da Polícia Civil teria sido removido para um cargo sem importância por defender eleições para a escolha do chefe da Polícia Civil.
Os dois casos são de grande interesse, porque revelam a dificuldade existente em regular algo tão novo como o uso da internet, com reflexos no serviço público. Pessoalmente, sem avançar em qualquer consideração sobre o caso dos policiais do RJ, cujos detalhes desconheço, farei algumas considerações.
A internet, com as suas múltiplas facetas, representa um mundo novo. Uma mudança de hábitos e costumes talvez mais intensa do que a criação da imprensa, por Johannes Guttemberg, no século XV. As comunicações são instantâneas, superam barreiras geográficas, tudo se sabe em tempo real. Por exemplo, do meu escritório posso saber todos os estudos sobre Cortes Tribais (indígenas) dos Estados Unidos.[1]
Ocorre que este novo mundo chegou rápido demais. E o experiente advogado, forjado nas petições impressas, na forma reconhecida e nos termos em latim, de repente se vê obrigado a adotar a assinatura eletrônica, ler acórdãos na internet e receber mensagens extremamente informais de pretensos estagiários.
Um caso judicial simboliza esta mudança de hábitos e merecerá um dia análise em trabalhos acadêmicos. Refiro-me a um mandado de segurança em que fui a autoridade coatora, impetrado por um antigo advogado de Porto Alegre, que contestava a obrigatoriedade de entrar no Juizado Especial Federal com petições eletrônicas. Como exigir de um profissional que mudasse seu comportamento, seus hábitos, sua forma de conduzir-se profissionalmente? Mas, por outro lado, como admitir que as petições seguissem sendo impressas, quando todo o sistema estava preparado para a modernidade do processo digital? Quase a pedir desculpas, sustentei a decisão administrativa, como presidente do TRF-4. A corte, por maioria, denegou a segurança.
Na verdade, seja qual for a profissão do operador jurídico, àqueles que não se adaptam a este novo mundo só resta um caminho: a aposentadoria, podendo dedicar-se a outros assuntos também importantes, como a família, leitura ou serviços sociais.
Por outro lado, a explosão de informações e novidades deixa-nos perplexos diante das situações novas que surgem a cada dia. Não temos regras nem sabemos como proceder diante desta era da comunicação virtual. Que fazer com sites que exibem cenas de menores transando? Como proceder diante de mensagens eletrônicas que, sob o manto do anonimato, atacam a tudo e a todos de forma irresponsável? Quais os limites para o acesso às redes da internet em hora e local de trabalho? É infração administrativa um servidor ofender um colega publicamente na lista de sua classe? Estas e outras tantas são perguntas que não têm respostas prontas. Exigem estudo, meditação, amadurecimento.
A primeira observação é que o artigo 5º da Constituição Federal, no inciso IV, afirma que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” e, no inciso IX, que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
Estão estes incisos a autorizar críticas à repartição do denunciante?
A liberdade de expressão existe e isso é muito bom. Claro. Sem ela, manietada a mídia, acovardadas as pessoas, teríamos campo livre para a verdade única das ditaduras. Mas regras de proteção constitucional não significam o poder tudo. Por exemplo, apesar de proibida a censura, nada impede que a lei regule o acesso a filmes, classificando-os por faixas etárias.
No caso de servidores públicos federais, a Lei 8.027/1990, no artigo 116, inciso II, estabelece como um dever “ser leal às instituições a que servir”. Disto se segue que um servidor ou um agente político (v.g., um magistrado) encontra limites na sua liberdade de expressão.
Na mídia eletrônica, uma notícia se propaga imediata e velozmente, replicando-se em sites diversos. Uma denúncia, verdadeira ou não, pode acarretar resultados de difícil mensuração a partir do momento em que é divulgada.
Imagine-se um tresloucado servidor, bem ou mal intencionado, atribuir a um ministro do STF a condição de corrupto. Divulgado o fato, o efeito, altamente danoso, ocorrerá por si só. Vítima não será apenas o magistrado acusado, mas todo o sistema judicial, porque milhares de brasileiros concluirão que não se pode confiar na Suprema Corte. E isto é péssimo para a democracia, péssimo para o Brasil.
Então, qual o tratamento a ser dado a quem se vale das redes sociais de comunicação em Twitter ou blogs pessoais para atingir terceiros, pessoas físicas ou jurídicas, instituições públicas ou privadas?
Em termos gerais e sem qualquer alusão aos casos noticiados na imprensa, não vejo como direito do servidor público, seja qual for a categoria, o de emitir opiniões críticas ao órgão a que pertence em qualquer dos veículos de comunicação eletrônica.
É preciso que haja um equilíbrio nos interesses em jogo e a ofensa ou a ironia, tornadas públicas nas modernas e múltiplas redes de comunicação virtual, em nada contribuem para o crescimento e o respeito pelos órgãos ou pessoas que os dirigem. O inconformismo de alguns, que pode muitas vezes ter justificativas, deve ser direcionado aos canais adequados (v.g., representação na esfera administrativa ou ação judicial). Não, porém, tornando pessoal a controvérsia e expondo a administração ao descrédito.
Assim, a meu ver, para os excessos que transbordem do inconformismo usual, aplica-se o estatuto do servidor público ou a lei especial, se existente, para determinada carreira. Se outro for o entendimento, estaremos admitindo a quebra total da hierarquia administrativa com consequências imprevisíveis.
[1] http://www.ncsc.org/topics/specialty-courts/tribal-courts/resource-guide.aspx
Festa
Crônica
Festa
Fernanda Torres – Veja Rio
Agora que passaram a Copa do Mundo e as eleições, o ano vai finalmente começar. Será? O feriado de finados deixou a semana passada espremida entre uma quarta e um sábado, de forma que só voltaremos realmente à ativa no dia 8 de novembro. Com o aniversário da Proclamação da República no 15, restarão seis dias úteis para pôr em prática os planos do fim do ano passado. Até o Natal, teremos 34 jornadas de trabalho pesado para a realização de nossos ideais e aí... Bom, aí já vêm réveillon, o verão, as férias escolares e o Carnaval. Só voltem a falar comigo em março. E é melhor que 2011 seja produtivo, porque 2012 tem Olimpíada, seguida de Copa do Mundo em 2014. Um amigo já disse que vai enforcar 2013.
Mas é injustiça dizer que estamos mais preguiçosos. Eu não sei o que aconteceu com o calendário estudantil. Quando eu era criança, tínhamos três meses de férias em dezembro e um mês inteiro em julho. Eu passava tanto tempo longe da escola que batia até saudade da rotina. Atualmente, a parada do primeiro semestre foi reduzida a duas magras semanas, o ano letivo vai praticamente até o Natal e a terrível volta às aulas já acontece em fevereiro. Os moleques dão um duro danado, cursam inglês, francês, alemão, chinês, judô, natação, vôlei, futebol, violão, piano, pintura, desenho, balé...
Para compensar, os feriados se multiplicaram. Zumbi emenda com Nossa Senhora Aparecida, junta com o Dia do Professor, o Dia da Pátria, São Sebastião, Semana Santa, Dia do Livro. Se fizerem as contas, verão que estamos quites com nossos rebentos. Sou a favor do ócio produtivo, por isso não reclamo do engarrafamento de datas santas. Às vezes, é até salutar ter tempo para pensar duas vezes antes de fazer besteira. Aqui vai uma das grandes: Antônio Gomes da Costa Neto, mestrando da Universidade de Brasília, bem que poderia ter dado uma espairecida antes de cometer a insanidade de apresentar uma denúncia à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial alertando para o racismo contido na obra de Monteiro Lobato. Da mesma forma, a senhora Nilma Lino Gomes, professora da Universidade Federal de Minas Gerais e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), poderia ter tirado umas férias antes de se esmerar em um parecer favorável às observações de Antônio Gomes. E uma parada coletiva do CNE também teria sido providencial antes que os conselheiros acatassem por unanimidade a opinião de Nilma e sugerissem que o livro fosse retirado da lista oficial de recomendações literárias ou distribuído nas escolas públicas com um aviso de alerta para os desvios contidos na obra.
Não deviam todos ter tirado umas férias?! O politicamente correto é uma praga tão nefasta quanto o racismo, é o racismo às avessas e se iguala ao primeiro em estupidez. Monteiro Lobato devia ser obrigatório. Meu filho aprendeu matemática com o Visconde, cresci alimentada pelo imaginário brasileiríssimo dos seus personagens. Feliz da criança que tem acesso ao Sítio do Picapau Amarelo. Os problemas de educação do Brasil são tão graves que impressiona que o CNE gaste seu expediente pondo a culpa em Monteiro Lobato. Por que razão a insanidade é sempre mais produtiva do que o bom-senso?
Para terminar, deixo aqui uma sugestão para a gente pensar antes que seja tarde: não sei se é verdade, mas um grupo hoteleiro teria comprado o terreno onde hoje existe o Teatro Scala para construir um edifício. O Scala é uma casa de shows sem maiores tradições. Com pouco trabalho, poderia se transformar em um teatro extraordinário. Não seria pedir muito rogar que o espaço receba o mesmo destino do seu vizinho, o Teatro Oi Casa Grande, cuja reforma de tirar o chapéu beneficiou o público, o shopping, o bairro e a cidade. Depois da demolição do Teatro Glória, Eike Batista se comprometeu com o governador Sérgio Cabral a construir uma outra casa de espetáculo nas imediações. Eu recebi um recado da assessoria do Hotel Copacabana dizendo que a reabertura do Teatro Copacabana é uma questão de honra. Se o prefeito conseguir reabrir o Teatro Manchete, reformar o Dulcina e o Ipanema e salvar o espaço do Scala, se conseguirem barrar a insanidade das secretarias de Educação, já vou achar que 2011 valeu a pena.
Os desafios de Dilma
Os desafios de Dilma
Suely Caldas - O ESTADO DE S. PAULO
Duas pesquisas globais divulgadas nos últimos dias indicam os caminhos que a presidente eleita, Dilma Rousseff, deve seguir se quiser fazer do Brasil um país economicamente desenvolvido e socialmente próspero. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Organização das Nações Unidas (ONU) o Brasil melhorou sua classificação e passou da 77.ª para a 73.ª posição num ranking de 169 países. Mas essa posição recua nada menos que 15 pontos quando são avaliados critérios de desigualdade regional de renda, saneamento básico, educação e saúde de boa qualidade. A segunda pesquisa, o relatório Fazendo Negócios - 2011, do Banco Mundial, foi menos otimista: entre 183 países, o Brasil caiu da 124.ª para a 127.ª posição na avaliação dos que oferecem ambiente favorável para abertura e prosperidade de negócios. Ou seja, por aqui pioraram as condições para empresas investirem, instalarem-se, gerarem crescimento, empregos e renda. E muitas acabam desistindo e mudando de país.
Começando pela segunda pesquisa, a lentidão da ação estatal e o emaranhado absurdo de papéis, documentos e exigências burocráticas, até para pagar impostos, constituem grande parte do problema. Exemplos: são necessárias 2.600 horas para a empresa reunir documentos e executar procedimentos para pagar taxas; um alvará de construção leva um ano e dois meses para ser aprovado; e abrir uma empresa demora quatro meses (na Nova Zelândia leva um dia).
O paquiderme burocrático assusta e piora o custo de produzir no Brasil, já elevado por conta das deficiências na infraestrutura. Não bastasse a desvalorização do dólar, a precariedade na operação nos portos, por exemplo, faz do Brasil um dos campeões em custo de exportação: US$ 1.790 por contêiner. Tudo isso atrapalha, retarda, até expulsa o investimento econômico e precisa ser atacado com energia, determinação. Mas não só isso.
No discurso que leu pouco depois de proclamada eleita, Dilma Rousseff finalmente falou de economia e listou algumas diretrizes de seu futuro governo. O texto lido surpreendeu não por revelar propostas inovadoras para nossos velhos dilemas, mas porque trazia uma profissão de fé em muito do que o governo Lula rejeitou em oito anos, e por vezes incentivado pela própria Dilma.
Em relação às agências reguladoras, ela garantiu: "Terão todo o respaldo para atuar com determinação e autonomia." O que fizeram Lula e Dilma? Enfraqueceram as agências, usadas para abrigar políticos de partidos aliados. "Valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com erros, com desvio e com malfeito", prometeu. O que dizer do mensalão, dólares na cueca, aloprados, vampiros, a rede de corrupção montada pelo PT e aliados, sob o olhar complacente de Lula? "O povo brasileiro não aceita mais inflação nem que governos gastem acima do que seja sustentável", profetizou, em oposição, sobretudo, ao último período de Lula, quando os gastos correntes dispararam, manobras contábeis disfarçaram os resultados e o governo não aproveitou o aumento da arrecadação de impostos para reduzir a dívida pública.
De qualquer forma, a futura presidente sinalizou que irá atacar as mazelas que emperram o desenvolvimento econômico. E, embora tenha se traído em poucos dias e admitido discutir a recriação da CPMF depois de prometer reduzir tributos, ela merece um voto de confiança da população para fazer o que precisa ser feito para o País afastar entraves e crescer continuamente.
A primeira pesquisa - o IDH da ONU - reflete a ascensão de uma parcela de famílias pobres para a classe média, mas ainda mostra avanços muito lentos ou nenhum na erradicação do analfabetismo funcional, na evasão escolar, na cobertura de lares com água e esgoto tratados e na qualidade da saúde e da educação. Em 1980 o trabalhador com mais de 25 anos tinha em média 2,6 anos de estudo, e, 30 anos depois, tem 7,2 anos. É ritmo muito lento, se
comparado com os países asiáticos, que nos anos 80 investiram maciçamente em educação e fizeram disso a base de seu rápido e próspero desenvolvimento econômico.
Jornalista, é professora da PUC-RIO
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