domingo, maio 16, 2010

Histórias e dilemas da vida jurídica na internet

Histórias e dilemas da vida jurídica na internet
Por Fabiana Schiavon
Profissionais do Direito tem a rotina repleta de histórias e casos únicos. Para não guardar essa experiência só nos autos, muitos deles descobriram o blog como forma de divulgar seus pensamentos. Na internet, juízes trocam não só jurisprudência, mas conceitos jurídicos, comportamentais e sociais que presenciam na sua rotina. Promotores usam a rede para receber denúncia, trocar dados e se aprofundar em temas polêmicos.
O blog de Gerivaldo Neiva, juiz de Direito da Comarca de Conceição do Coité, na Bahia, é um dos que chama atenção. Das mais de 160 mil visitas que a página já recebeu, permanece como mais lida, desde 2007, a sentença que retrata o caso de um marceneiro que teve problemas com um celular recém-comprado. Em forma de conto, ele relata no documento todo o dilema do humilde marceneiro e seu desafio de tratar com o atendimento da empresa que lhe responde apenas que trata-se de “placa oxidada na região do teclado, próximo ao conector de carga e microprocessador”. No fim da sentença, justifica a linguagem: “No mais, é uma sentença para ser lida e entendida por um marceneiro”.
Leia o trecho final da sentença:
Por último, Seu Gregório, os Doutores advogados vão dizer que o Juiz decidiu “extra petita”, quer dizer, mais do que o Senhor pediu e também que a decisão não preenche os requisitos legais. Não se incomode. Na verdade, para ser mais justa, deveria também condenar na indenização pelo dano moral, quer dizer, a vergonha que o senhor sentiu, e no lucro cessante, quer dizer, pagar o que o Senhor deixou de ganhar.
No mais, é uma sentença para ser lida e entendida por um marceneiro.
Nos seus textos, Neiva relata os momentos de crise da justiça estadual, como a greve dos servidores judiciários e a descoberta de que alguns servidores recebiam valores adicionais chamados de “remuneração paradigma”, “vantagens pessoais”, “comissões”, “diárias”. O juiz também publica sua agenda atualizada de compromissos.
Ivan  Sartori, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, mantém o blog atualizado com a pauta e decisões do órgão Especial do TJ paulista, além de publicar artigos e informações sobre o maior tribunal do mundo. O último texto trata das dimensões da Justiça paulista e a responsabilidade que o tribunal carrega.
“São, outrossim, cerca de 700.000 feitos aguardando julgamento em segundo grau e, em média, 30.000 que todos os dias úteis ingressam em ambas as instâncias (cf. estatística citada). Esses dados lembram a imensa responsabilidade que assola a Justiça Comum Paulista, não só de prestar a jurisdição adequadamente, na acepção humana do termo, diante de tamanha demanda, mas também de buscar seu aprimoramento, em face da grave defasagem operacional que a acomete”
O blog de Rosivaldo Toscano Junior, da 2ª Vara Criminal, de Florianópolis, comenta os dilemas do país, transforma casos do judiciário em causos e poesia. O campeão de audiência nesta semana, segundo ranking do próprio bloqueiro foi o texto Exorcismo Judicial. Nele o juiz conta a história do juiz que tinha como vizinho uma igreja evangélica. Acontece que o horário das audiências na vara coincidia com o das sessões de exorcismo da igreja, as quais ocorriam em meio a um alarido infernal. O juiz usou de todos os meios para fazer chegar ao pastor vizinho o incômodo que causava o barulho das sessões no bom andamento das audiências judiciais. O desfecho do caso, nas palavras do autor, deu-se assim: 
Na igreja, uns trinta fieis, todos ajoelhados, mãos para o alto ou em direção ao altar. Uns gemendo, outros chorando, olhos fechados e gritando chavões religiosos. No altar de dois batentes, o corpo de uma jovem se debatendo no chão e o pastor tentando, com dificuldade, manter a mão sobre a testa da adolescente.
- Sai, demo, beuzebu, sete capas. Sai agora em nome do Senhor!
De repente entra um ser alto, forte e todo de preto. Sua capa, ao olhar dos que estavam em vias de êxtase, pareceria com o da própria figura do coisa-ruim. E ele brada, com uma voz ensurdecedoramente grave e irritada:
- Dá pra parar com essa esculhambação?!
Cadeiras pra todo lado, fieis saindo pela janela, gritaria total. O apocalipse chegou àquele local. Até a jovem que se debatia ao chão despertou assustada e correu.
Foi a primeira vez que se viu um juiz exorcista!
Há três anos, Marcelo Semmer, juiz de Direito, criou o blog Sem Juizo - “A justiça vista por dentro. O direito além da lei”. Na página, ele mostra seu ponto de vista sobre os assuntos em pauta como o novo Código de Processo Civil, ativismo judicial e abre espaço para artigos de colegas. Nesta sexta-feira (14/5), ele postou o seguinte artigo criticando o abuso da propaganda oficial, que vai muito além da propgapagna partidária ou eleitoral:
Se é verdade que hoje assistimos a um sem-número de inserções do governo do Estado de São Paulo pela TV, também é certo que fomos brindados recentemente com uma enormidade de publicidades de empresas federais, debaixo do slogan comum “um país de todos”. Como aquelas em que a Petrobrás explica quão feliz será o Brasil, quando começarmos a extrair petróleo do pré-sal. Ou até o novo modelo de pronunciamentos oficiais de final de ano, que, sob o manto da prestação de contas, elaboram um ufanista balanço das próprias realizações.
Que os partidos gastem tempo de propaganda política elogiando seus governos, se entende. Mas os cidadãos precisam pagar por este tipo de publicidade, que sempre aumenta vertiginosamente às vésperas da eleição? Quanto nos custa este “direito à informação”?
Nem só de juízes, vive a web jurídica. O promotor Vladimir Aras, do Ministério Público Federal, mantém o Blog do Vlad atualizado sobre as principais questões do Direito criminal e da lavagem de dinheiro. "O Blog do Vlad é especializado em Justiça criminal, processo penal, segurança pública, direitos humanos, criminalidade organizada, lavagem de dinheiro, terrorismo e cibercrimes. Aqui se faz crônica judiciária, mas também se fala de outros assuntos, mais amenos. Afinal, “o crime não compensa”. Pelo menos não deveria compensar…", avisa ele na capa do blog. O também professor da Universidade Federal da Bahia utiliza o espaço para abrir debate com os alunos. Um de seus últimos textos fez uma longa análise sobre o júri dos acusados de matar o cacique guarani-kaiowá, Marcos Verón, em que ele próprio, alegando defender o direito dos índios de ter um julgamento em guarani, abandonou o julgamento e provocou a suspensão da sessão. No blog, ele assim resumiu o episódio:
Resumindo mesmo…
Parou por quê? Paramos porque vimos uma forma de violência cultural. Já não se tratava apenas de conseguir a condenação dos três acusados. Ali já se punha uma questão com significado sócio-jurídico bem maior. No júri, fomos até onde deu. O demais era direito do outro, direito indisponível e inegociável.
No Blog do Promotor, Saad Mazloum comenta notícias, projetos de lei e nova regulamentações da Justiça. Membro do Ministério Público de São Paulo, ele utiliza a internet como canal com a população para receber denúncias, reclamações e apurar dados. O promotor trata o noticiário com seriedade:
Retrocesso
Um retrocesso na área processual penal. Pode ser o fim do poder investigatório do Ministério Público em matéria criminal. A Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou proposta (
Projeto de Lei 4306/08) do deputado Alexandre Silveira que torna obrigatório o inquérito policial para a apresentação de denúncia pelo Ministério Público, sempre que a notificação do crime não contar com os elementos suficientes para a ação penal.
Pelo texto atual do Código de Processo Penal (Decreto-Lei 3.689/41), o inquérito policial é dispensável e o Ministério Público pode se valer de outros elementos ou peças de informação para formar sua convicção.
Mazloum criou também o Blog do Ônibus para apurar informações sobre atrasos nas linhas da cidade. Nele, além de coletar dados, ele também presta serviço à população, reclamando de buracos de rua para a prefeitura e listando os endereços de todos os vereadores conectados no Twitter.
Já o juiz Tadeu Zanoni, 1ª Vara da Fazenda Pública de Osasco que manteve o  blog Jura?? por cinco anos, desistiu da função. No seu último post, ele confessa que se rendeu ao Twitter, onde encontrou um meio mais rápido de se comunicar: 140 caracteres. O juiz se diz satisfeito com tudo o que já escreve em sua rotina. “Jornalista é que gosta de blog. Talvez o que não possam escrever no emprego normal seja desviado para o blog. No meu caso, que escrevo nos autos, que tenho muitos autos para escrever (despachar, decidir e sentenciar), não posso dizer que tenha tanta coisa reprimida para despejar aqui”, argumenta. Na página, Zanoni mostrava seu outro lado. Publicava contos, comentava seus filmes e vídeos favoritos e outras experiências. A deserção é uma pena. O juiz é bom de prosa, como atesta um de seus últimos post:
DESPEDIDA DO PADRE
O Padre no jantar de despedida pelos 25 anos de trabalho ininterrupto à frente de uma paróquia discursa:
- A primeira impressão que tive da paróquia foi com a primeira confissão que ouvi. A pessoa confessou ter roubado um aparelho de TV, dinheiro dos seus pais, a empresa onde trabalhava, além de ter aventuras amorosas com a esposa do chefe. Também se dedicava ao tráfico de drogas e havia transmitido doença venérea à namorada... Fiquei assustadíssimo! Com o passar do tempo, entretanto, conheci uma paróquia cheia de gente responsável, com valores, comprometida com sua fé, e desta maneira tenho vivido os 25 anos mais maravilhosos do meu sacerdócio.
Chega o prefeito para entregar o presente da comunidade, prestando a homenagem ao padre. Ele pede desculpas pelo atraso e começa o discurso:
- Nunca vou esquecer do dia em que o padre chegou à nossa paróquia. Como poderia? Tive a honra de ser o primeiro a me confessar....
Silêncio total... 

Leandro, no Diário de Guarulhos



Lei do inquilinato: novas regras, velhas práticas

Lei do inquilinato: novas regras, velhas práticas

Maria Clara Serra
As mudanças na Lei do Inquilinato entraram em vigor há quase quatro meses e pouca coisa mudou até agora. A dispensa da figura do fiador — o principal benefício da nova lei — não se concretizou. Esse tipo de garantia continua sendo a mais utilizada no mercado. O crescimento da oferta de imóveis, outro efeito espera
do da legislação, ainda não foi suficiente para atender à demanda, sustentando a valorização do mercado. Segundo representantes do setor, o que falta é mudar a cultura da locação: 
— Essas mudanças levam tempo para serem assimiladas, ainda mais por se tratar de um bem durável — disse o diretor-presidente da Protel Administradora, Alfredo Lopes. 
Rômulo Mota, vice-presidente jurídico do Secovi Rio, concorda com Alfredo e acrescenta: 
— O que falta é o mercado saber como os juízes vão interpretar a lei, mas já tivemos uma decisão pauta
da nos novos critérios, e isso é um bom indício. 
A previsão do setor de locações, em geral, é a de que a nova lei modifique concretamente as relações entre inquilino e proprietário, a partir do ano que vem.
Quem paga: locador ou locatário?
Seja com garantia de fiador ou de seguro-fiança, os contratos de locação acabam empurrando o ônus para o colo do inquilino. A prática, bastante comum no mercado, entretanto, encontra barreiras na lei.  O advogado especializado em mercado imobiliário Hamilton Quirino afirma que, Seja com garantia de fiador ou de seguro-fiança, os contratos de locação acabam empurrando o ônus para o colo do inquilino. A prática, bastante comum no mercado, entretanto, encontra barreiras na lei. 
O advogado especializado em mercado imobiliário Hamilton Quirino afirma que, segundo o Artigo 22 da Lei do Inquilinato (8.245/1991), cabe ao locador pagar as taxas de administração imobiliária, se houver, e as de intermediação, como a taxa de cadastro, que verifica a idoneidade e a situação financeira do fiador. 

Costume é outro  Na prática, porém, não é assim que funciona. Imobiliárias grandes, pequenas e até mesmo o Secovi confirmam que a cobrança é feita, na maioria das vezes, ao pretendente do imóvel.
— Em geral, o locatário é quem paga as taxas de análise de crédito e de idoneidade — afirma o gerente geral da corretora de seguro APSA, Marcos Murad. 
Se o contrato tiver como garantia o seguro-fiança, entretanto, os custos passam a ser obrigação do futuro inquilino, pois é ele quem está firmando uma relação jurídica com a seguradora, esclarece Quirino.

A punição indigno Garzón à mídia internacional

A punição indigno Garzón à mídia internacional
Grandes jornais acreditam que a decisão do Judiciário mostra que a justiça espanhola não soube superar os fantasmas do passado
Iñigo Aduriz Textos Ana Delicado, Antonio Lafuente, Iñigo Sáenz de Ugarte e Schäfer Thilo

A decisão do Conselho Superior da Magistratura (CGPJ) para suspender Baltasar Garzón desencadeou fortes reações em todo o mundo. Sua imagem na sexta-feira no Tribunal de Justiça Nacional entre os aplausos de seus pares e da indignação das vítimas de Franco que muitos esperaram na rua, já circulou o mundo e os meios de comunicação de maior prestígio internacional levantaram e tentaram a mesma resposta Pergunta: Como é possível que um juiz que tenha desenvolvido justiça universal sentar no banco dos réus por investigar Franco?

A (contra) ameaça nuclear

A (contra) ameaça nuclear
LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES

Uma análise serena do caso do Irã indica que o governo do país pretende cumprir as promessas de uso pacífico do enriquecimento de urânio

A NÃO PROLIFERAÇÃO insiste no erro de considerar que as armas nucleares são desenvolvidas com intuito de ameaçar. A história mostra que a busca pela sua posse é dissuasória, muito mais resposta a uma ameaça percebida do que preparação para uma agressão.
A carta Einstein-Szilard foi o catalisador do Projeto Manhattan, que desenvolveu as primeiras armas nucleares. Ela afirmava ao presidente Roosevelt que a arma nuclear era viável e o incentivava a dar início a um programa para desenvolvê-la.
Sua justificativa era o perigo da Alemanha nazista ser a primeira a desenvolvê-la, e a certeza de que ela a usaria assim que a tivesse. A gênese dessas armas se encontra, então, na resposta a uma ameaça percebida.
A análise dos casos de proliferação subsequentes, Rússia, Grã-Bretanha, China, França, Israel, Índia, Paquistão e África do Sul, mostra que isso ocorreu em resposta a uma ameaça percebida pelos respectivos governos.
O abandono das armas por África do Sul, Ucrânia, Cazaquistão e Belarus ocorreram porque esses países não tinham percepção de ameaça que justificasse sua posse.
Na Coreia do Norte, a proliferação se origina na queda do Muro de Berlim, em 1989, e a quase certeza de que o "muro" do paralelo 38 cairia em seguida.
O regime busca sua perpetuação tentando extorquir ajuda e reconhecimento. A "dinastia Kim" sabe que a hipótese de uso de suas armas, de eficácia duvidosa, representaria o fim do regime, o que ela não quer.
A teocracia iraniana sempre se sentiu ameaçada pelos EUA, que apoiavam o governo deposto pela "revolução verde". As relações entre o Irã e os EUA nunca se normalizaram.
A ocupação da embaixada dos EUA em Teerã e o resgate de reféns no governo Carter até hoje requerem desagravo. À ameaça americana somou-se a ameaça iraquiana.
Durante e após a guerra entre os dois países, Saddam buscava a arma nuclear. A segunda Guerra do Golfo, em 2003, mostrou que o Iraque não tinha armas nucleares, graças aos controles da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) após a primeira Guerra do Golfo. A ocupação do Iraque levou as tropas americanas à fronteira oeste do Irã, quando elas já se encontravam na fronteira leste, após a ocupação do Afeganistão, depois do ataque terrorista do 11 de Setembro. Isso amplificou em muito a ameaça percebida. A resposta foi o desenvolvimento do enriquecimento de urânio.
Ao contrário da Coreia do Norte, o Irã sempre afirmou seus fins pacíficos. Sua maior autoridade religiosa declarou que a arma nuclear contraria os preceitos do islã, desqualificando as pregações pela "bomba islâmica" dos anos 70.
Uma análise serena do caso indica que o governo iraniano pretende cumprir as promessas de uso pacífico.
O Irã busca a capacitação na produção do material que poderia ser produzido para fabricação de uma arma. É muito pouco provável que realmente venha a produzi-lo, já que isso certamente implicaria na queda do regime islâmico, dada a justa reação internacional que sobreviria.
A AIEA propôs ao Irã a troca de seu urânio enriquecido a 3,5%, para usinas nucleares, por combustível para o reator de produção de radioisótopos de uso médico, enriquecido a 20%. O enriquecimento seria feito na Rússia, e o combustível, fabricado na França.
Note-se que o Brasil é o único país não dotado de armas nucleares que já produziu, sob controle da AIEA, urânio a 20%. Esse urânio foi usado para fabricação do combustível do reator IEA-R1, de São Paulo, similar ao reator de Teerã.
O Irã rejeitou a proposta, por não confiar na intermediação de duas potências dotadas de armas nucleares, e anunciou o início do enriquecimento a 20% em suas instalações.
Face à intransigência do Irã, a comunidade internacional, liderada pelos EUA, segue no momento a receita usual de aumentar o nível de ameaça, brandindo sanções severas.
Essa postura sofre a influência do objetivo maior de descontinuar o apoio material e financeiro que o Irã fornece às facções palestinas, que têm impedido a paz no Oriente Médio.
Esse aumento no nível de ameaça, se corretamente dosado, pode levar o Irã a retornar às negociações sobre a proposta da AIEA.
Se for acima da dose, incluindo ações militares "cirúrgicas", estimularia o governo iraniano a descumprir as promessas que vem fazendo.
A não proliferação nuclear deve ser buscada pela negociação da redução do nível da ameaça percebida pelo país proliferante, e não por atos de força que possam levar à morte milhares de pessoas.

LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES é membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor-Geral da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br /twitter.com/Folhadebate

PIBRJ Culto Matutino do dia 16 de Maio de 2010

Eucanaã Ferraz

Por vezes, não raro...

Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.

No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.

Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.

Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.

Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.

Eucanaã Ferraz
in Dessassombro. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2001.
in 
Dessassombro. Rio de Janeiro: Editora Sette Letras, 2002.

Talento e emoção!

A atuação política sob a abordagem científica.

Os abusos de poder de Lula
JOSÉ ÁLVARO MOISÉS - O Estado de S. Paulo
Existe relação entre a posição do governo quanto aos perseguidos políticos de Cuba, os desrespeitos do presidente à legislação na campanha eleitoral e a irresponsabilidade com que ele e outras autoridades públicas reagiram às catástrofes e mais de 250 mortes no Rio de Janeiro e em Niterói?
Nas últimas duas décadas o Brasil reconquistou o regime democrático. Não está em questão se a democracia existe, mas a sua qualidade. Os escândalos de corrupção, as tentativas de cerceamento da liberdade de imprensa e o discutível desempenho do Congresso Nacional mostram que a consolidação da democracia não depende apenas de votar e escolher governos.
A democracia é mais do que isso. Ela se baseia na soberania popular para ser efetiva e depende de que as instituições que previnem o abuso de poder e asseguram o equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário funcionem a contento, sem sofrer ameaças veladas ou não de governantes ou de seus competidores. Não basta ter uma Constituição para garantir o império da lei, a vigência de direitos individuais e sociais e a obrigação dos governantes de prestar contas de suas ações e se responsabilizarem por elas.
O papel dos líderes que se dizem democratas é essencial, pois eles não são apenas mandatários de cargos administrativos, têm de dar o exemplo de correção e probidade no trato dos interesses públicos e, diante das incertezas próprias da democracia, têm o dever de orientar e educar os cidadãos para respeitarem a lei e as decisões coletivas, conviver com o pluralismo político e aceitar que, além da maioria, as minorias também têm direitos - princípios que distinguem o regime democrático de suas alternativas.
Atualmente, essas qualidades de liderança estão em falta no Brasil. A despeito de seus méritos, como manter a estabilidade econômica e ampliar as políticas sociais de seu antecessor, Lula virou as costas para valores democráticos fundamentais, revelando ao final de dois mandatos outros aspectos de sua personalidade política. Supõe às vezes estar acima da lei, burla o princípio de igualdade política e mistifica a crença dos eleitores de baixa renda, condenados a baixos níveis de educação, por isso mesmo menos críticos diante de quem usa o prestígio da Presidência para fazer crer que é o único autor dos avanços recentes do País.
No caso de Cuba, em vez de reconhecerem a opressão aos perseguidos políticos do regime e a ofensa a direitos assegurados pela Carta da ONU, Lula e os seus se solidarizaram com os dirigentes cubanos que arbitram autoritariamente sobre a vida dos perseguidos do regime, debochando do sentido político da greve de fome como forma de protesto. Lula desqualificou a sua própria experiência na luta contra o regime militar e igualou essa luta à ação de criminosos comuns; ofendeu milhares de perseguidos e torturados no mundo inteiro e gente de seu governo que sofreu perseguição no passado. O silêncio ou a abstenção do governo brasileiro em votações na ONU destinadas a condenar o desrespeito aos direitos humanos na Coreia do Norte, no Irã, no Sudão, no Congo e no Sri Lanka, ou a tolerância à destruição da democracia na Venezuela de Chávez, iluminam outros lados do quadro.
Nesses casos, Lula deixou de lado a posição majoritária dos brasileiros a favor da democracia verificada em pesquisas de opinião. Na campanha por sua candidata à Presidência, em flagrante desrespeito às leis eleitorais, tem se utilizado dos benefícios do cargo há mais de dois anos para fraudar o princípio de igualdade política. Multado pela Justiça Eleitoral, desqualificou as penalidades, convidou o público a debochar das regras e deu a entender que, diferente dos outros cidadãos, despreza as exigências da legislação. A repercussão negativa o levou a pedir cuidado aos ministros, conclamando-os a serem republicanos. Mas o embuste é flagrante - senão a ignorância de Lula quanto ao significado do conceito de res-pública -, pois antes e depois da advertência não se controlou em eventos e inaugurações oficiais, publicizando a sua candidata.
A indiferença de Lula diante dos mecanismos de controle dos Poderes republicanos é evidente. Seu governo desconhece o conceito de accountability, como ficou evidente no caso do mensalão e dos desmandos de José Sarney. Mais dramática ainda foi sua atitude diante das catástrofes no Rio de Janeiro e em Niterói. Primeiro, apelou aos céus diante das chuvas; depois, anunciou a liberação de R$ 200 milhões para ações de emergência e, finalmente, quando veio a público o relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) mostrando que o Ministério da Integração Nacional liberou, em dois anos, mais de 64% de recursos para emergências à Bahia do ex-ministro Geddel Vieira Lima, e menos de 1% para o Rio de Janeiro, Lula chamou o relatório de "leviano".
Não é a primeira vez que ele desqualifica as decisões do TCU. Em mais de uma ocasião, quando gastos indevidos foram identificados pelo tribunal, o presidente se comportou como se não tivesse obrigação de dar explicações ao País. Até agora, nem ele nem seu ex-ministro apresentaram os critérios usados na distribuição dos recursos emergenciais. Ademais, em oito anos de governo, Lula parece não se ter dado conta de que ocupações urbanas de risco não se resolvem com medidas de emergência. Mas, ao qualificar de "levianas" as críticas do tribunal, deu razão a autoridades como o prefeito de Niterói, que, após vários mandatos à frente da cidade, confessou desconhecer os laudos técnicos que condenaram a urbanização do lixão do Morro do Bumba. Lula abusa do poder, rebaixa a qualidade da democracia e, pior, estimula outras autoridades a fazerem o mesmo.
É PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA E DIRETOR DO NÚCLEO DE PESQUISA DE POLÍTICAS PÚBLICAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Kim Haskins - Acrylic on board


Na vida - Pablo Neruda

Na vida - Pablo Neruda
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, 
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, 
não arrisca vestir uma cor nova e não fala com quem não conhece. 
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru. 
Morre lentamente quem evita uma paixão, 
quem prefere o escuro ao invés do claro e 
os pingos nos "is" a um redemoinho de emoções, exatamente a que resgata 
o brilho nos olhos, o sorriso nos lábios e coração aos tropeços. 
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, 
quem não arrisca o certo pelo incerto, para ir atrás de um sonho. 
Morre lentamente quem não se permite, 
pelo menos uma vez na vida, ouvir conselhos sensatos. 
Morre lentamente quem não viaja, não lê, quem não ouve música, 
quem não encontra graça em si mesmo. 
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte, 
ou da chuva incessante. 
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio, quem não se deixa ajudar. 
Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, 
nunca pergunta sobre um assunto que desconhece e 
nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe. 
Evitemos a morte em suaves porções, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples ar que respiramos. 
Somente com infinita paciência conseguiremos a verdadeira felicidade.

O ALUNO E O PROFESSOR

O ALUNO E O PROFESSOR

Um professor ateu desafiou seus alunos com esta pergunta:
- Deus fez tudo que existe?
Um estudante respondeu corajosamente:
- Sim, fez!
- Deus fez tudo, mesmo?
- Sim, professor - respondeu o jovem.
O professor replicou:
- Se Deus fez todas as coisas, então Deus fez o mal, pois o mal existe, e considerando-se que nossas ações são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mau.
O estudante calou-se diante de tal resposta e o professor, feliz, se vangloriava de haver provado uma vez mais que a Fé era um mito.
Outro estudante levantou sua mão e disse:
- Posso lhe fazer uma pergunta, professor?
Sem dúvida, respondeu-lhe o professor.
O jovem ficou de pé e perguntou:
- Professor, o frio existe?
- Mas que pergunta é essa? Claro que existe, você por acaso nunca sentiu frio?
O rapaz respondeu:
- Na verdade, professor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é ausência de calor. Todo corpo ou objeto pode ser estudado quando tem ou transmite energia, mas é o calor e não o frio que faz com que tal corpo tenha ou transmita energia.O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe. Criamos esse termo para descrever como nos sentimos quando nos falta o calor.
- E a escuridão, existe? - continuou o estudante.
O professor respondeu:
- Mas é claro que sim.
O estudante respondeu:
- Novamente o senhor se engana, a escuridão tampouco existe. A escuridão é na verdade a ausência de luz. Podemos estudar a luz, mas a escuridão não. O prisma de Newton decompõe a luz branca nas várias cores de que se compõe, com seus diferentes comprimentos de onda. A escuridão não. Um simples raio de luz rasga as trevas e ilumina a superfície que a luz toca. Como se faz para determinar quão escuro está um determinado local do espaço? Apenas com base na quantidade de luz presente nesse local, não é mesmo? Escuridão é um termo que o homem criou para descrever o que acontece quando não há luz presente.
Finalmente, o jovem estudante perguntou ao professor:
- Diga, professor, o mal existe?
Ele respondeu:
- Claro que existe. Como eu disse no início da aula, vemos roubos, crimes e violência diariamente em todas as partes do mundo, essas coisas são o mal.
Então o estudante respondeu:
- O mal não existe, professor, ou ao menos não existe por si só. O mal é simplesmente a ausência de Deus. É, como nos casos anteriores, um termo que o homem criou para descrever essa ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a Fé ou o Amor, que existem como existe a Luz e o Calor. O mal resulta de que a humanidade não tenha Deus presente em seus corações. É como o frio que surge quando não há calor, ou a escuridão que acontece quando não há luz.

DEUS  É  AMOR.

Diego Figueiredo (Folhas secas)

Reflexões que circulam na web


Promessas de Novo Mundo - É impossível não se emocionar mesmo o vendo várias vezes como já o fiz.

Este documentário, no original – "Promises" – e em versão brasileira "Promessas de Novo Mundo" que aqui assisti no canal GNT, foi um dos mais impressionantes filmes que já vi. Excelente, sem tomar a posição de qualquer dos lados envolvidos, conta a história do impasse entre israelenses e palestinos através da vida de crianças que viviam no meio do conflito. Foi rodado entre 1997 e o verão de 2000, um tempo de relativa paz entre palestinos e israelenses. Fiquei comovida e chorei ao assisti-lo. E é impossível não se emocionar mesmo o vendo várias vezes como já o fiz. Foi indicado ao Oscar, mas infelizmente não ganhou. Uma obra primorosa!

Paul Cézanne – Auvers-sur-Oise.- Musée d’Orsay Paris




Passa uma Borboleta

Alberto Caeiro 
O Guardador de Rebanhos

XL - Passa uma Borboleta

Passa uma borboleta por diante de mim      
E pela primeira vez no Universo eu reparo      
Que as borboletas não têm cor nem movimento,      
Assim como as flores não têm perfume nem cor.     
 A cor é que tem cor nas asas da borboleta,      
No movimento da borboleta o movimento é que se move,      
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.      
A borboleta é apenas borboleta     
 E a flor é apenas flor.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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