O Estado do Paraná
segunda-feira, agosto 16, 2010
Desejo sexual se perde na fumaça
Desejo sexual se perde na fumaça
O Estado do Paraná
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Após o sexo, um cigarro para complementar o prazer. Aquela tradicional cena tantas vezes exibida no cinema, protagonizada por atores famosos, em que, após a relação sexual, fumar um cigarro demonstrava virilidade, status e glamour está, definitivamente, fora de moda.
Isso porque, segundo a medicina, entre todas as mazelas que o uso do cigarro traz, uma delas é o prejuízo ao desempenho sexual.
Está provado que a nicotina diminui o fluxo sanguíneo nos órgãos genitais, o que interfere negativamente na ereção masculina e lubrificação vaginal da mulher.
Outro fato comprovado é que o tabagismo está em decadência. Recente pesquisa do Ministério da Saúde revela que o número de fumantes vem caindo. De 2006 a 2009, o percentual de fumantes da população brasileira caiu de 16,2% para 15,5%.
Além de interferir na qualidade do ato sexual, o hábito de fumar também pode afetar a capacidade de concepção. mulheres que não fumam têm o dobro de chances de conceber, quando comparadas às fumantes.
"No caso dos homens os estudos sugerem que o tabagismo diminui o desejo sexual e afeta o número, a mobilidade e a morfologia dos espermatozóides", afirma André Malbergier, professor doutor do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Impotência sexual
Estudos importantes apresentam a relação entre o tabagismo e disfunção erétil. Um dos mais recentes, um estudo do envelhecimento masculino realizado em Massachusetts, Estados Unidos, encontrou o dobro de chance de moderada ou completa em homens que fumam há aproximadamente 10 anos.
A tendência dos fumantes que ainda não estão motivados e preparados para parar de fumar é minimizar ou ignorar os dados que mostrem essa relação por meio de mecanismos de defesa psicológicos.
Porém, especialista acredita que esse fato pode ser um "gancho" para o tratamento e aumento da motivação dos fumantes. "Já para os motivados, esses dados podem servir como um incentivo maior para a abstinência", avalia Malbergier.
De acordo com a professora doutora Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), nas últimas décadas, com as mudanças de políticas públicas, incluindo a criação da lei antifumo, que proíbe que se fume em ambientes fechados de uso coletivo, há maior estímulo para mudanças de comportamento e procura por tratamento adequado.
Para ela, muitos fumantes ainda desconhecem o tabagismo como fator de risco para a disfunção erétil. "Por outro lado, a conscientização crescente da importância do problema e o surgimento de tratamentos mais eficazes são os grandes responsáveis pela mudança que já se percebe nesse cenário", reconhece a especialista.
Outra constatação se dá quando são analisadas as estatísticas disponíveis que confirmam a estreita relação entre tabagismo e impotência sexual. Se a ocorrência da disfunção erétil no homem não fumante gira em torno de 2,2%, em uma avaliação apenas com tabagistas esse índice sobre para 37%. Portanto, de cada 100 fumantes, 37 vão desenvolver algum problema no seu relacionamento sexual.
Melhora no desempenho
De acordo com os médicos, uma ereção normal requer um fluxo sanguíneo perfeito. No pênis, esse volume precisa chegar em quantidade suficiente ao que os médicos chamam de corpo cavernoso para que ele aumente o seu diâmetro e determine assim a ereção. Ocorre que, no fumante, esse fluxo está continuamente diminuído porque a nicotina - a mais famosa das 4.720 substâncias contidas na fumaça do cigarro - é um potente agente vasoconstrictor que atua diretamente na musculatura do vaso, produzindo uma importante redução no calibre da artéria cavernosa, responsável pela irrigação. Uma redução em 25% já é suficiente para provocar a disfunção erétil.
É importante lembrar que o consumo diário de cigarros, o tempo de tabagismo, bem como a associação com hipertensão arterial, e, principalmente, diabetes é quem vai determinar a precocidade da impotência sexual.
De acordo com Carmita Abdo, uma discreta melhora no desempenho sexual pode ser percebida imediatamente após deixar o hábito de fumar, devido à melhor oxigenação.
Porém, ganhos mais evidentes ocorrem ao longo do tempo e são tanto mais pronunciados quanto menos intensas tiverem sido as complicações produzidas pelo tabagismo.
Combate ao vício
Atualmente, o tratamento farmacológico do tabagismo inclui terapias com ou sem a reposição da nicotina, entre elas, a utilização da vareniclina, desenvolvido especificamente para o tratamento. O medicamento tem mecanismo de ação dupla: se liga aos mesmos receptores no cérebro nos quais a nicotina atua, eliminando o desejo pelo cigarro, e estimula parcialmente tais receptores, o que reduz os sintomas associados à falta do fumo, a chamada síndrome de abstinência. O medicamento é vendido sob prescrição médica.
Doenças e mortes prematuras causadas pelo tabagismo podem ser evitadas no momento em que se abandona o cigarro e se inicia uma terapia orientada pelo médico, acompanhada de mudança geral no estilo de vida, adequação dos hábitos alimentares e exercícios físicos. Além disso, o controle de outras doenças como diabetes e hipertensão arterial também é necessário.
Inimigos do sexo
Além do cigarro, outras drogas também comprometem o desejo e o desempenho sexual
* Maconha - O uso frequente consolida resultados negativos, com a baixa no nível de testosterona e do número de espermatozóides.
* Cocaína - Com o tempo, acaba com o desejo sexual nas mulheres e compromete a fase do orgasmo. Nos homens, afeta a manutenção da ereção.
* Crack - É a droga que destrói com mais rapidez o usuário, fazendo com que nada mais importe. Muito menos sexo.
* Ectasy - Apesar da sensação de excitação, perturba o desempenho sexual.
* Álcool - Provoca diminuição no desejo, rebaixamento do nível do hormônio testosterona e bloqueio ejaculatório.
Adolescente brasileira vive drama nos Emirados Árabes
Adolescente brasileira vive drama nos Emirados Árabes
Época online
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Itamaraty mantém discrição sobre condenação de adolescente brasileira de 14 anos nos Emirados Árabes Unidos. Se a situação não for revertida nos tribunais, pode virar desconforto diplomático para Lula
Depois de se envolver no polêmico caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, que pode ser apedrejada por adultério, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode se ver constrangido por um outro caso polêmico envolvendo as mulheres em um país muçulmano. E desta vez o caso é mais próximo do Brasil. Isso porque a mulher em questão é uma menina de 14 anos, brasileira, condenada a seis meses de prisão por ter feito sexo com um homem de 28 anos nos Emirados Árabes Unidos. O Itamaraty confirmou a ÉPOCA que a menina é brasileira, filha de uma brasileira e cujo padrasto é alemão e trabalha nos Emirados Árabes Unidos. A sentença foi proferida pela Corte Criminal de Primeira Instância de Abu Dhabi na terça-feira (10) e, além de prever a prisão da adolescente por seis meses, determina que ela seja deportada após o período na cadeia. A família vai recorrer da sentença. O homem com o qual a brasileira teria feito sexo é um paquistanês de 28 anos, motorista de ônibus escolar, que foi identificado apenas pelas iniciais, M.H. Ele foi condenado a um ano de prisão e à deportação.
O encontro sexual dos dois teria ocorrido no dia 3 de abril, no apartamento da família, em Abu Dhabi, enquanto os pais dela faziam uma viagem para Dubai, também nos Emirados Árabes. Segundo a imprensa do país, a empregada da família teria ido ao quarto da garota chamá-la para jantar. A adolescente, com um olhar confuso, não teria deixado a empregada entrar e teria saído do quarto, fechando a porta. Cerca de 45 minutos depois, segue a empregada em depoimento, um homem saiu do quarto. Ela, então, ligou para os pais da brasileira.
Inicialmente, a família da adolescente acusou M.H. de estupro. Segundo o jornal local The National, a promotoria árabe acusou a garota de sexo consensual fora do casamento – o que é proibido pela legislação local – depois de descobrir em mensagens que a garota teria marcado o encontro. Além disso, ela teria enviado mensagens de celular “eróticas” para o motorista de ônibus. Em entrevista ao jornal Gulf News, o juiz Saeed Abdul Bashir afirmou que a brasileira teria enviado várias fotos íntimas para M.H., algumas delas totalmente nua. Uma perícia feita no corpo da garota também teria mostrado que não havia sinais de estupro. Diante do juiz, a adolescente teria retirado as acusações de estupro e teria confessado o “sexo consensual”.
O encontro sexual dos dois teria ocorrido no dia 3 de abril, no apartamento da família, em Abu Dhabi, enquanto os pais dela faziam uma viagem para Dubai, também nos Emirados Árabes. Segundo a imprensa do país, a empregada da família teria ido ao quarto da garota chamá-la para jantar. A adolescente, com um olhar confuso, não teria deixado a empregada entrar e teria saído do quarto, fechando a porta. Cerca de 45 minutos depois, segue a empregada em depoimento, um homem saiu do quarto. Ela, então, ligou para os pais da brasileira.
Inicialmente, a família da adolescente acusou M.H. de estupro. Segundo o jornal local The National, a promotoria árabe acusou a garota de sexo consensual fora do casamento – o que é proibido pela legislação local – depois de descobrir em mensagens que a garota teria marcado o encontro. Além disso, ela teria enviado mensagens de celular “eróticas” para o motorista de ônibus. Em entrevista ao jornal Gulf News, o juiz Saeed Abdul Bashir afirmou que a brasileira teria enviado várias fotos íntimas para M.H., algumas delas totalmente nua. Uma perícia feita no corpo da garota também teria mostrado que não havia sinais de estupro. Diante do juiz, a adolescente teria retirado as acusações de estupro e teria confessado o “sexo consensual”.
Ainda de acordo com o jornal The National, os advogados da brasileira alegaram que a menina não poderia ser julgada como adulta, pois apesar de ser “fisicamente madura, não é mentalmente madura”. Nos Emirados Árabes, os crimes sexuais são julgados pela sharia, a lei islâmica. Se os acusados já tiverem chegado à puberdade, são julgados como adultos. Os sinais para isso são pelos no rosto ou a menstruação. Por ter apenas 14 anos, a pena da adolescente teria sido reduzida de um ano para seis meses. OAB: é preciso zelar pela segurança da brasileira
O Itamaraty mantém a discrição do caso para evitar a exposição da família e para não prejudicar o recurso feito pela defesa da brasileira a um tribunal de segunda instância. À BBC Brasil, o ministro-conselheiro da embaixada brasileira em Abu Dhabi, Arthur Nogueira, afirmou que a família está “extremamente nervosa” e que a garota pode ser presa a qualquer momento. O interesse do governo brasileiro é que o caso seja resolvido de forma favorável por meio das instituições jurídicas dos Emirados Árabes Unidos.
Em entrevista a ÉPOCA, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, afirmou que a prioridade da diplomacia brasileira deve se preocupar com a segurança da adolescente. "É preciso que haja uma interferência diplomática para zelar pela integridade física e psicológica da garota", disse. Cavalcante diz que é preciso "ter tranquilidade" pois a questão, se envolve direitos humanos para os brasileiros, envolve o direito e o costume local nos Emirados Árabes, o qual não pode ser alvo de interferência de outros Estados.
Ainda assim, caso a decisão não seja revertida na justiça árabe, o presidente Lula ficará em uma situação no mínimo constrangedora. Após oferecer asilo à iraniana Sakineh Ashtiani, o Brasil se verá obrigado a pressionar também o governo dos Emirados Árabes, que pode prender uma cidadã brasileira de 14 anos por um episódio que, fosse ocorrido no Brasil, ela seria considerada como vítima.
O Estado privatizado na eleição
O Estado privatizado na eleição
Suely Caldas - O ESTADO DE S. PAULO
"Ministro tem que ser ministro. Se alguém quiser fazer campanha política depois do expediente, faça, em carro particular. Façam o que quiser, mas quero eles trabalhando", avisou o presidente Lula aos seus ministros e à imprensa na segunda-feira. Aí eles obedeceram, não foram às ruas nem a comícios e trabalharam trancados em seus gabinetes... para ajudar na campanha de Dilma Rousseff, em escancarado uso eleitoral da estrutura do Estado e da máquina pública - que pertence aos brasileiros, não a partidos políticos - em defesa de um candidato.
Na terça-feira o ministro Guido Mantega dispensou seu secretário de Política Econômica e decidiu ele próprio divulgar para a imprensa o rotineiro boletim Economia Brasileira em Perspectiva, que desta vez trazia uma empolgante novidade: comparava os desempenhos dos governos FHC e Lula com números (alguns errados) cuidadosamente fisgados para mostrar fracasso e sucesso de um e de outro. Assim, sem sair do gabinete, o militante Mantega socorria Dilma que, em entrevista à TV Globo na noite anterior, culpou o governo FHC pelas baixas taxas de crescimento nos sete anos do governo Lula. Horas depois os números viraram manchete no site da campanha da candidata.
Não foi só Mantega. Atento à entrevista do oposicionista José Serra à TV Globo, na quarta-feira à noite, seu colega José Gomes Temporão ordenou aos funcionários imediata e urgente resposta às críticas feitas pelo tucano na entrevista. Agiu rápido: às 22h30 o Ministério da Saúde disparava e-mails para a imprensa contestando os dados apresentados por Serra e glorificando a atual administração na Saúde. Grudada e dependente de Lula nesta eleição, o maior trunfo de Dilma é a gestão do padrinho. Por isso mesmo Lula orientou os ministros a reagirem imediatamente, menos para exercer o direito de defender seu governo e mais para impedir que críticas da oposição prejudiquem sua candidata. Novamente, a versão do Ministério da Saúde foi parar no site de Dilma.
O ministro dos Transportes, Paulo Sergio Passos, não foi tão rápido. Só no dia seguinte divulgou nota explicando a falta de investimento em estradas e as falhas denunciadas pelo tucano nas rodovias paulistas. Já o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que traiu sua tradição histórica de órgão técnico para se transformar num apêndice político a serviço do governo Lula, não poderia ficar de fora da campanha eleitoral. Na quinta-feira divulgou estudo sobre a influência dos municípios no PIB, defendendo a ampliação de programas do governo Lula, incluídos nas propostas de Dilma, para reduzir desigualdades regionais. Sob o comando do petista Marcio Pochmann, seus economistas não precisam ir às ruas gritar pelo nome de Dilma. É mais eficaz usar suas horas de trabalho, funcionários de apoio, estrutura e computadores do Ipea.
Com Lula à frente, seguido pelos petistas trazidos para ajudá-lo a governar, há quase oito anos o País passou a ser administrado com o bastão do interesse político-partidário-eleitoral comandando ações e decisões do governo. O PT passou 20 anos na oposição contestando todos os governantes que o antecederam, com o único e obsessivo propósito de derrotá-los. No Congresso não avaliava as propostas pelo interesse da população e do progresso do País. Era contra por pura selvageria, pela oposição "a tudo o que está aí", sem definir o quê. E pronto. Foi contra a política econômica de FHC, que depois adotou; contra o Bolsa-Escola, que preservou e rebatizou de Bolsa-Família; contra até o Plano Real, que derrubou a inflação.
E, quando finalmente chegou ao poder, trouxe para o governo sua prática de 20 anos: o interesse político-partidário-eleitoral passou a comandar as decisões do governo. Para isso aparelhou o Estado com seus militantes e os de partidos aliados loteando milhares de cargos públicos. Nesse jogo de poder, e ainda mais nesta eleição, Lula e o PT misturam público e privado, abusam do uso do Estado, ofendem e desrespeitam os brasileiros. Como já disse o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga: "É preciso reestatizar o Estado."
Jornalista, é professora da PUC-RIO
Imperial ou imperialista?
Imperial ou imperialista?
Luiz Carlos Bresser-Pereira - FOLHA DE S. PAULO
A nação é imperial, e não imperialista, quando sabe que o nacionalismo do país mais fraco é necessário
Todo país rico e poderoso é "imperial" em relação aos países pobres e fracos que o cercam; os EUA são necessariamente imperiais em relação aos demais países do mundo; o Brasil o é em relação aos países sul-americanos menos desenvolvidos. Ninguém escapa da influência da sociedade mais desenvolvida.
Mas isso não significa que os Estados-nação sejam sempre "imperialistas". Um país é imperialista quando supõe que os interesses do país pobre são idênticos aos seus, rejeita o nacionalismo através do qual esse país busca formar um verdadeiro Estado-nação e se desenvolver e tenta impor-lhe sua verdade superior.
É imperial ao invés de imperialista quando, não obstante seu poderio, compreende que o nacionalismo do país mais fraco é necessário para que ele realize sua revolução nacional e capitalista e, por isso, aceita que alguns interesses de curto prazo de suas empresas sejam contrariados, porque acredita que o desenvolvimento do país vizinho será a médio prazo benéfico para seu próprio desenvolvimento.
Os EUA foram imperiais ao invés de imperialistas logo após a Segunda Guerra Mundial, mas esse foi um breve instante. Já o Brasil, desde os anos 1990, aprendeu a pensar em termos do médio prazo em relação a seus vizinhos.
Isso ficou claro em sua relação com a Bolívia, o Paraguai e a Venezuela: ao primeiro reconheceu a necessidade de o país nacionalizar sua indústria do petróleo e rever alguns contratos leoninos que dirigentes anteriores do país haviam firmado; ao Paraguai fez concessões razoáveis no caso de Itaipu. Em relação à Venezuela, mantém relações amigáveis com Chávez desde que este foi eleito.
Entretanto, setores das elites brasileiras não compreendem esse fato. De repente ficam nacionalistas e querem que o governo brasileiro "defenda os interesses brasileiros" com mais determinação.
Esquecem, assim, que quem rejeitou a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e começou a política sul-americana do Brasil e quem primeiro soube compreender as dificuldades e as contradições que enfrenta um governante de um país pobre e dominado por séculos, como é a Venezuela, foi o presidente Fernando Henrique Cardoso. Nessa política, o presidente Lula não inovou; apenas deu um passo adiante.
O tempo do imperialismo já passou. Quase todos os países pobres sabem que para se desenvolver precisam livrar-se da dependência externa e promover sua industrialização para, assim, realizar sua revolução capitalista.
E sabem também que essa é uma tarefa nacional muito difícil, porque, além de enfrentar os grandes países e seus interesses de curto prazo, enfrentam imensos problemas internos: baixo nível de educação, elites locais alienadas que preferem se aliar às elites externas do que a seu povo, um Estado mal organizado e permanente vítima da corrupção de capitalistas, políticos e burocratas.
O Brasil, que já realizou sua revolução capitalista, compreende esse fato. Compreende que é muito mais interessante para ele que seus vizinhos sejam nacionalistas e construam sua nação, logrando, assim, ter uma competente classe empresarial, uma ampla classe média e uma classe trabalhadora organizada. Por isso o Brasil é imperial, não é imperialista.
Ecologia, jornalismo, elegância
Ecologia, jornalismo, elegância
DANUZA LEÃO FOLHA DE SÃO PAULO - 15/08/10
Até quem não é radical procura onde jogar aquela notinha perversa que vem junto com o troco
A ECOLOGIA ENTROU devagar na mente das pessoas. Quando ouvi falar pela primeira vez do assunto, nem prestei muita atenção; achei estranho pensar em mudar hábitos que praticava desde a infância e que naquela época eram normais.
Tenho em mente, como se fosse hoje, Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, onde morava minha avó. Um rio separava a cidade, e havia os que moravam do lado de cá e os que moravam do lado de lá; todas as casas davam frente para a rua e as cozinhas para o rio. As cozinheiras faziam o que era de praxe: jogavam os restos de comida pela janela, no que era a lata de lixo da cidade, e ninguém se dava conta de que morar de frente para o rio seria o maior dos luxos.
As pessoas largavam nas calçadas saquinhos vazios, maços de cigarro amassados, cascas de banana, latinhas vazias de refrigerante, e todos achavam que isso era o certo. O tempo foi passando, os jornais começaram a falar de ecologia, e latas de lixo foram aparecendo. Até quem não é radical hoje procura onde jogar aquela notinha perversa que vem junto com o troco, apenas uma questão de educação: se não fazemos isso em nossa casa, por que fazer na cidade, que também é nossa?
Mesmo os mais desligados veem hoje, claramente, o que está acontecendo: geleiras desaparecendo, tsunamis matando milhares de pessoas, deslizamentos de terra diários, pequenas ilhas da Indonésia ameaçadas de desaparecer, ondas de calor na Rússia, enchentes no Paquistão, e, há dias, um imenso iceberg, quatro vezes maior do que a ilha de Manhattan, se soltou na Groenlândia. Como o planeta não tem assessor de imprensa, não dá entrevistas nos jornais nem na TV, é a sua única maneira de reclamar dos abusos que estão cometendo, e as catástrofes chegam cada vez mais perto: na semana passada, uma linda praia em Arraial do Cabo amanheceu com um óleo grosso em toda sua extensão, que ninguém sabe de onde veio, e só daqui a 20 dias vai se ter ideia do que se trata. Com tudo isso, ainda tem gente querendo até mudar o curso dos rios; isso não pode dar certo.
Agora um pouquinho de política: parabéns ao "Jornal das 10", da Globonews, que conseguiu entrevistar os candidatos sem o engessamento tradicional dos debates, com perguntas curtas e objetivas, e ainda com direito a comentários no bloco seguinte sobre a atuação dos candidatos. Foi uma conversa civilizada, cordial e sem estresse, nem da parte dos entrevistadores - André Trigueiro e Carlos Monforte -, nem dos entrevistados, que tinham que raciocinar para responder, e não chegar com o discurso já decorado; nem todos conseguiram, pois isso não se aprende, mas o formato foi encontrado, e é o ideal. Uma ideia elementar: colocar um relógio em frente ao candidato, para que ele acompanhe o tempo que lhe resta e não seja surpreendido com um corte no meio do raciocínio.
Agora um pouquinho de política: parabéns ao "Jornal das 10", da Globonews, que conseguiu entrevistar os candidatos sem o engessamento tradicional dos debates, com perguntas curtas e objetivas, e ainda com direito a comentários no bloco seguinte sobre a atuação dos candidatos. Foi uma conversa civilizada, cordial e sem estresse, nem da parte dos entrevistadores - André Trigueiro e Carlos Monforte -, nem dos entrevistados, que tinham que raciocinar para responder, e não chegar com o discurso já decorado; nem todos conseguiram, pois isso não se aprende, mas o formato foi encontrado, e é o ideal. Uma ideia elementar: colocar um relógio em frente ao candidato, para que ele acompanhe o tempo que lhe resta e não seja surpreendido com um corte no meio do raciocínio.
Outro comentário - e esse não tem nada a ver com política: preste atenção à elegância de Marina Silva. Suas roupas são discretas, a combinação de cores, perfeita. Seu porte, com o xale nos ombros, faria inveja a Gisele Bündchen, e ponto para as bijuterias feitas de contas e sementes da Amazônia que, segundo consta, são feitas por ela mesma; isso é que é ter estilo. Além disso, a candidata é serena, bem educada e não grita, coisa rara na política; suas aparições são uma lição de bom gosto a ser imitada pela peruagem nacional.
Chiquérrima, Marina.
Continuidade e alternância
Continuidade e alternância
Ferreira Gullar FOLHA DE S. PAULO
Qual dos candidatos está mais preparado para manter com êxito a continuidade administrativa?
Qual dos candidatos está mais preparado para manter com êxito a continuidade administrativa?
Até o momento em que escrevo esta crônica, a situação dos dois principais candidatos à Presidência da República continua indefinida. A menos que haja uma súbita mudança na avaliação deles pelo eleitorado, a disputa deve se manter acirrada até o último momento.
Na opinião de Lula e do PT, Dilma Roussef vencerá o pleito e até, dizem eles, no primeiro turno. É natural que o digam, ainda que da boca para fora, porque se deixarem transparecer a mínima dúvida quanto à vitória, sua candidatura se desfará como um castelo de cartas.
E a razão disso é que essa candidatura se apoia única e exclusivamente na possibilidade de transferência da popularidade de Lula para a candidata que ele inventou.
Ela mesma, Dilma, nunca pretendeu candidatar-se a nenhum cargo eletivo, muito menos ao posto supremo da nação. Lula a inventou candidata apesar disso, mesmo porque não havia muito o que escolher dentro de seu partido.
A hipótese de Lula é que, apresentando Dilma como a continuadora de seu governo, que conta com mais de 70% de aprovação, ela seria eleita. Parece lógico, mas talvez não seja tão simples quanto parece.
Tudo depende de como o eleitor receberá a proposta de Lula, e depende também de como o candidato do PSDB se comportará em face dela. Se José Serra, de fato, não confrontar a tese de Lula, ela prevalecerá e Dilma terá grande chance de vencer as eleições. Mas e se, ao contrário, ele achar que a história não é bem assim, se entender que a continuidade administrativa é uma norma a ser seguida pelo futuro ocupante do Palácio do Planalto, seja ele quem for?
Aí a coisa muda de figura, pois retira da candidatura de Dilma o único argumento que efetivamente a sustenta, uma vez que ela não tem como provar que é capaz de governar o país, mesmo porque nunca governou sequer um Estado e nem mesmo um pequeno município.
Já Serra, se adotasse tal postura, teria um argumento decisivo no fato de que o governo Lula continuou o governo FHC e foi graças a isso que obteve o êxito que obteve.
Já imaginou se ele tivesse acabado com o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o superavit primário, o Proer e a política de juros do Banco Central, que viabiliza a luta contra a inflação? Foi o temor de que Lula não desse continuidade ao governo anterior que provocou a crise de 2002; continuidade que, na verdade, vem desde o governo Itamar Franco, e que permitiu ao Brasil enfrentar com êxito a crise de 2008.
Logo, se Lula, adversário feroz do governo FHC, o continuou, não há por que Serra não faça o mesmo com respeito ao governo Lula, que deu continuação às políticas implantadas pelo governo do PSDB.
Pois bem, se José Serra assumir claramente esse opção, como ficará a candidatura de Dilma? O fato de Lula afirmar que ela é a continuação de seu governo não é garantia de que ela será capaz de fazê-lo e com a inventividade necessária. O eleitor certamente perguntará: qual dos dois candidatos está mais preparado para manter com êxito a continuidade administrativa?
Se levar em conta a história de um e de outro candidato, a folha de serviços de cada um deles, poderá optar por Serra, cuja competência como gestor público está comprovada, no exercício destacado das funções de ministro da Saúde, prefeito e governador de São Paulo, além da atuação parlamentar de indiscutível eficiência.
Por outro lado, como pode Dilma convencer o eleitor de que é mais capaz que Serra de exercer as funções de presidente da República? Só a palavra de Lula não basta, já que tem interesse em manter o poder nas mãos de seu partido. Durante a campanha na TV, poderá o PSDB demonstrar que Dilma nunca desempenhou o papel que Lula lhe atribui (mãe do PAC etc.), porque a Casa Civil, que ela chefiou, tem funções de mera assessoria do presidente. Não realiza nada.
Isso sem lançar mão de outro argumento, de grande importância para o país, que é a alternância dos partidos no poder, que a vitória de Serra implicaria. Esse é um fator decisivo para a saúde do regime democrático, porque viabiliza o desmonte do aparelhamento da máquina estatal pelo partido (ou pelos partidos) que fique no poder por longo tempo.
Lula de volta ao papel principal
Lula de volta ao papel principal
Wilson Figueiredo - JORNAL DO BRASIL
Mesmo depois que as pesquisas de opinião vacinaram os cidadãos com verdades relativas, o Brasil continua brasileiro, mas com alguns retoques. Um levantamento sobre a maneira brasileira de lidar com a esquerda ao estilo da casa foi uma decepção para quem esperava um salto de qualidade política e melhor expectativa em ano eleitoral. Além de Dilma Rousseff e de José Serra, já estão em cena mais dois pretendentes. Mais atrás (nas pesquisas), Marina Silva, sensível e delicada, esquerda soft, e Plínio de Arruda Sampaio, cabeça atualizada, esquerda hard. O Brasil adernou de vez.
O nível de informação do brasileiro, a respeito da esquerda, revelado pela pesquisa foi deplorável para um país que conta com quatro candidatos por esse lado, enquanto na contrapartida a direita fica no ora, veja! Nas pesquisas, o dito por não dito. Tudo mais se passa fora do espaço eleitoral, e o buraco negro se localiza mais embaixo.
O presidente já transitou em julgado quando vinha pela esquerda e, reparando melhor, notou que estava à direita. Aguentou sem se contradizer. De qualquer forma, foi melhor do que bater de frente num desastre de proporções ferroviárias. As pesquisas não tiraram a inocência política dos brasileiros, que perderam apenas os óculos de ver em terceira dimensão a democracia que, nos últimos 25 anos, confiou à direita e à esquerda (com o liberalismo em maré baixa) a missão de aperfeiçoar e levar adiante o regime, sem aqueles trambolhões e empurrões inaceitáveis. Lula chegou à Presidência da República, como a todos pareceu, pela esquerda, mas sem perder de vista a direita, por motivos óbvios e não por falta de originalidade. Fez bem. Não teve dificuldade para se eleger por um lado e governar por outro. Versatilidade não mata. Na América Latina a esquerda já aprendeu a chegar ao poder pelo voto, mas não sabe o resto. Lula não tem mais nada a ver com o passado e, embora não admita, também não tem com o futuro, que começa quando o mandato acaba. No dia seguinte à eleição, começará a sofrer dos achaques de ex-presidentes.
Avalizado moralmente pela recusa do terceiro mandato, e como se chegasse de um ponto no infinito eleitoral, a figura inarredável do presidente Luiz Inácio Lula da Silva retoma a sucessão presidencial para o grand finale. Encontrou a porta de entrada quando devia ser a de saída, e foi em frente sem tocar a campainha. Depois de uma volta no exterior, semeando para não colher, fez declarações e provocações para medir o efeito, disse e se desdisse com a falta de convicção que o move, assumiu a candidatura de Dilma Rousseff e invadiu o espaço reservado à sucessão. Não sobrou para ninguém do PT, e para o PMDB sobrou o vice.
E, quando dava a impressão de que iria se retirar para voltar a simples cidadão já no primeiro dia do ano, Lula não se segurou e assumiu o papel de personagem principal oculto na própria sucessão.
Um kadish para Tony Judt
Um kadish para Tony Judt
Sergio Augusto O ESTADO DE S. PAULO /SABÁTICO
Como traduzir "contrarian"? Contrariante tem ranço forense; dissidente é melhor e, no fundo, exprime a mesma coisa, mas era de "contrarian", não de "dissident", que Tony Judt costumava ser qualificado pela frequência e pelo arrojo com que discordava das opiniões correntes. Não era do contra por pirraça, nem para fazer gênero e chamar atenção, pois se dizia insensível à notoriedade e avesso a badalações. Apenas tinha um olhar mais arguto e um cérebro mais bem dotado que a maioria dos mortais. Por isso, via ou farejava o que a outros passava despercebido ou era recalcado por algum parti pris ideológico.
Sua morte, no dia 6, aos 62 anos, deu novo alento semântico à expressão "perda irreparável", quase sempre inapropriadamente invocada para folhear de ouro defuntos de latão. Judt fará muita falta no circuito de ideias e questionamentos incômodos. Ninguém usava a História para refletir sobre o presente com a sua acuidade e a sua nonchalance expositiva. Oficialmente historiador, transformou-se, malgré lui, num intelectual público, mas por vocação vigoroso, sem rebuços e em permanente estado de alerta. Jamais permitiu que o conformismo e a complacência debilitassem sua argumentação. Nem que suas convicções políticas e morais lhe envenenassem o raciocínio.
Apesar de ter sido militante sionista na juventude, quando trocou Londres por um kibutz em Israel, revelou-se, nas últimas décadas, um dos mais pertinazes críticos da política externa israelense. Por combater as ocupações do território palestino por tropas israelenses e defender a criação de um estado binacional como a única solução para buscar a pacificação do Oriente Médio, foi tachado de "antissionista" e coisas piores, expulso do expediente da revista The New Republic e proibido de fazer uma palestra no consulado da Polônia, em Nova York, por pressão do American Jewish Committee.
A despeito de sua ancestral simpatia pela utopia socialista, combateu os desvios e atrocidades do comunismo e as escorregadelas das esquerdas com a mesma implacabilidade de suas estocadas na direita, no neoliberalismo e nos desvarios do pós-modernismo. Espinafrou os intelectuais que apoiaram o catastrófico unilateralismo bushista, os historiadores chapa-branca da Guerra Fria e o ideário prêt-à-porter de Thomas Friedman com o mesmo rigor aplicado à "recusa" do marxista Eric Hobsbawm "a encarar o mal de frente e chamá-lo pelo nome". O mal era o comunismo stalinista.
Volta e meia comparado a George Orwell, por sinal patrono de um prêmio que lhe foi conferido em 2009, Judt só assumiu, de fato, dois mestres, ambos também historiadores: a francesa Annie Kriegel, heroína da Resistência ao nazismo e défroquée do comunismo, cuja metodologia analítica, misto de história e ciência política, o encantava, e o alemão George Lichtheim, "um dos mais brilhantes estudiosos do pensamento marxista". Aos dois dedicou uma de suas obras de maior impacto: Reflexões Sobre Um Século Esquecido (tradução de Celso Nogueira), a alentada coda que acrescentou à sua história da Europa do pós-guerra, também traduzida pela Objetiva (José Roberto O"Shea).
Li o que pude do polêmico professor da Universidade de Nova York (formado em Cambridge, com passagem por Oxford, pela École Normal Supérieure de Paris e por Berkeley) e timoneiro do Remarque Institute, think tank bancado pelos milhões doados pela viúva do escritor alemão Erich Maria Remarque, a atriz Paulette Goddard. Seus inventários da evolução, reconstrução e malversação do socialismo na França, com destaque para aqueles dois estudos sobre "o passado imperfeito" da intelectualidade francesa, de que só o primeiro volume foi aqui publicado, pela Nova Fronteira, são uma lição de história, ciência política, narratividade e lucidez.
Sua última publicação em vida, os curtos ensaios de Ill Fares the Land, lançada em março pela Penguin, sairá daqui a sete meses pela Objetiva. Com epígrafes do irlandês oitocentista Oliver Goldsmith (de cujo lamento sobre as desgraças que o acúmulo de riquezas pode causar a uma comunidade e seus habitantes extraiu o título do livro), Orwell, Tolstoi, De Tocqueville, Keynes, Zweig, Proust, e até Camille Paglia, já diz ao que veio nas primeiras linhas.
Depois de notar a existência de "algo de profundamente errado em nosso atual modo de vida", há 30 anos sendo deformado por um egocêntrico sibaritismo, Judt investe rijo contra o culto à eficiência, ao enriquecimento, à livre iniciativa, às privatizações e ao consumismo desvairado vigente nas "sociedades presas ao capitalismo desregulamentado e seus excessos", nos dois lados do Atlântico. Sociedades moldadas, segundo ele, por uma geração de pensadores e economistas austríacos - Peter Drucker, Karl Popper, Hayek, Mises, Schumpeter - fanáticos defensores do estado mínimo; melhor dito, do estado a distância.
Mas não muito distante para que possa ser acionado sempre que der chabu no vai-da-valsa liberalista.
Judt simpatizava com a social democracia, sem um pingo de ilusão: "das opções disponíveis no momento, ainda é a melhor". Abandonar seus ganhos históricos - o New Deal, a Grande Sociedade e o estado de bem-estar social da Europa -, ou até satanizá-los como à esquerda e à direita se fez e faz, configurava, para ele, uma traição àqueles que nos precederam e às gerações ainda por vir.
Amiúde se queixava de que "vivemos a era do esquecimento". Até o fim lutou para que nos lembrássemos de tudo. Para não repetirmos os erros do passado.
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