sexta-feira, agosto 27, 2010

Medida da Paixão. Lenine e Richard Bona

ONU critica França por deportar ciganos e pede respeito a direitos humanos

ONU critica França por deportar ciganos e pede respeito a direitos humanos
De Agencia EFE – há 24 minutos
Genebra, 27 ago (EFE).- O Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial (Cerd, na sigla em inglês) criticou hoje a França pelas repatriações coletivas de ciganos romenos, e aconselhou o país a atuar dentro do pleno respeito dos direitos humanos.
"Recomendamos à França que evite as repatriações coletivas (de ciganos à Romênia)" e que vele para que todas as políticas em relação aos romanis estejam de acordo com a Convenção Internacional da ONU sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, afirma o Comitê em suas conclusões, divulgadas hoje após estudar o caso da França.
O organismo das Nações Unidas também mostrou sua inquietação perante o aumento "das manifestações violentas de caráter racista contra os romanis em território francês".
"Há informações que apontam que os romanis foram enviados de maneira coletiva a seus países de origem, sem que se tenha obtido o livre consentimento de todos os indivíduos afetados", destacou o Cerd.
Estas deportações forçadas contradizem as declarações da delegação francesa em seu diálogo de há duas semanas com o CERD, nas quais afirmou que "tinha sido estabelecido um marco que regesse o retorno voluntário dos romanis a seu país de origem".
Igualmente, o Comitê ressaltou sua preocupação com a "difícil situação da comunidade romani em relação ao exercício de seus direitos econômicos, sociais e culturais".
Por isso, convidou "encarecidamente" o Estado francês a "garantir o acesso dos romanis à educação, à saúde, à moradia, e a outras infraestruturas temporárias dentro do respeito do princípio da igualdade".
O organismo detectou um aumento recente de atos e manifestações de caráter racista e xenófobo no território francês, assim como um desenvolvimento dos discursos racistas na internet.
Também, recomendou que os censos que incluem questões étnicas sejam voluntários e anônimos, e se mostrou "muito preocupado" com o fato de que qualquer medida que seja adotada no terreno da cidadania não tenha efeitos discriminatórios contra nenhuma nacionalidade.
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Alecrim

Deus é carioca. Mas até quando?

ASSALTO A SÃO CONRADO

Deus é carioca. Mas até quando?

Jorge Antonio Barros – Blog Repórter de Crime – O Globo
O assalto a São Conrado - o episódio do tiroteio em plena luz do dia, seguido de invasão de um hotel de luxo e da tomada de 35 reféns por traficantes de drogas fortemente armados, no sábado passado - foi dramático não apenas porque vidas de inocentes ficaram por um triz mas também porque o caso rasgou o véu que protegia as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) como sendo a mais bem-sucedida medida dentro da política de segurança pública do governo do estado. As UPPs representam um grande avanço e são importantes porque já salvaram milhares de vidas, mas infelizmente ainda são uma gota no oceano do vagalhão de problemas que os gestores públicos têm a surfar na busca pela paz na cidade do Rio de Janeiro.
O assalto a São Conrado - ainda que tenha terminado com final feliz - expõe o calcanhar de aquiles do poder público e da sociedade diante da ação impetuosa e nefasta de grupos ilegalmente armados e detentores de territórios em grandes favelas do Rio. Sem contar que, no caso dos traficantes da Rocinha, se viu claramente o emprego de táticas militares pelos criminosos, num sinal de que realmente policiais militares participam da escolta de traficantes como Nem, o chefe do bando da Rocinha.
Por motivo de viagem levei seis dias para comentar o assalto a São Conrado, mas valeu a pena esperar. Em entrevista à revista "Época", aos jornalistas Nelito Fernandes e Ruth Aquino, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, explicou com todas as letras porque a polícia não ocupou a Rocinha, apesar de ter prendido os dez traficantes que escaparam do cerco policial que parou aquela área nobre da cidade, que guarda um retrato da desigualdade social do país, por ter de um lado a maior favela da América Latina e do outro um dos shoppings mais luxuosos do Rio e edifícios onde já residiram chefes de estado, cujo condomínio não cabe no orçamento da maioria das famílias de classe média da cidade.
Como crítico da política de confronto nas favelas - que predominou nos dois primeiros anos do governo Cabral - fiquei feliz ao constatar que o secretário de Segurança chegou finalmente à conclusão que há muito defendo. Ele disse que sabe onde está o traficante Nem, mas não manda prendê-lo para evitar mortes de inocentes na Rocinha. Coerente, Mariano sabe que um tiro na Rocinha, na Zona Sul do Rio,  não é como um  tiro no Alemão - uma  favela encrustada em três bairros da Leopoldina - onde 19 supostos bandidos foram mortos numa das maiores operações policiais em favela, que reuniu mais de mil agentes das polícias civil e militar, em maio de 2007 - o cartão de visitas de Cabral para a bandidagem. Mesmo um tiro em Copacabana não é como na Favela da Coreia, onde a Polícia Civil praticou até safari aéreo.
- Sei onde está o  Nem, e sei até o que tem dentro da casa dele. Não tenho medo de traficante. Mas não posso arriscar a vida dos moradores. Para eu ir buscar essa pessoa, a sociedade está disposta a pagar o custo de algumas vidas?  - disse o secretário Beltrame, na entrevista à revista "Época".
O gestor que antes dizia que não se pode fazer omelete sem quebrar ovos - numa alusão às vítimas em confrontos entre policiais e bandidos - começa a pensar em cuidar até mesmo da galinha dos ovos de ouro. É certo que os inocentes da Rocinha, num momento político como o atual, podem ser medidos em votos - a verdadeira moeda de troca da paz. 
Talvez se não estivéssemos num período eleitoral, a primeira reação policial seria a da ocupação da Rocinha até mesmo como uma demonstração de força. As fortes imagens do asfalto sendo tomado por bandidos da favela - no assalto a São Conrado - gravadas até por cinegrafistas amadores nos levam à tentar entender o que aconteceu ali. Até agora essa é uma das histórias mais mal contadas dos últimos tempos na segurança pública.
"Bondes" (comboios) de traficantes armados de fuzis cruzando as ruas da cidade já não são novidade há um bom tempo. Levantamento feito pelas próprias polícias já havia detectado pelo menos 15 vias que servem de passagem para esses criminosos em carros posssantes transportarem armas, drogas e arrastarem o que estiver pela frente. O fato novo é um "bonde" desses ser visto em plena luz do dia num corredor da Zona Sul - entre o Vidigal e a Rocinha. Traficante politicamente articulado - teria financiado a campanha de um vereador, já morto, e obtido apoio até do MST - Nem sabe que ao ostentar seu poderio bélico não vai ganhar nada além de problemas com policiais que não estão em sua contabilidade. A operação custou ao traficante cerca de R$ 1 milhão, segundo me contou uma fonte do submundo.
Portanto, num mero exercício especulatório, o que pode ter acontecido foi justamente Nem - que teria ido a uma festinha no Vidigal - ter pedido reforço de seus homens ao perceber que poderia ganhar o bote de 12 policiais do 23o BPM (Leblon) envolvidos no cerco e captura ao traficante, sem autorização de superiores. O "bonde" bateu de frente  com os quatro do 23o BPM, que foram condecorados pelo comando, embora  tudo indica que tenham sido os maiores inocentes úteis do episódio. Eles podem ter sido espertos, mas traficante da Rocinha sabe que não compensa matar tiras. Com a chegada do reforço policial - que nunca foi tão rápido, talvez por já estarem nas imediações - foi um pega pra capar, que resultou em sete feridos e na morte da contadora de Nem. A presença dessa mulher indica que realmente Nem escapou por um triz de ter sido pego pelos policiais do GAT (Grupo de Apoio Tático) do 23o BPM. Entre os 29 telefonemas recebidos até segunda-feira pelo Disque-Denúncia (2253-1177), sobre o assalto a São Conrado, pelo menos um dizia que Nem fora visto entrando no Motel Escort,  na fuga.
 Mais perdidos do que cegos em tiroteio, alguns integrantes do bonde de Nem acabaram entrando numa fria - o Hotel Intercontinental, onde eu costumava frequentar os banheiros durante o período que morei na Rocinha para fazer uma reportagem. No quarto que aluguei na Estrada da Gávea havia apenas um banheiro coletivo usado por quatro famílias. Então era inevitável o uso dos banheiros do Inter. Encurralados, os traficantes da Rocinha optaram por se entregar sem ferir nenhum dos 35 reféns. A negociação foi tensa mas teve a participação de um ex-integrante da quadrilha, que agora atua como mediador de conflitos.
O assalto a São Conrado teve um final relativamente feliz, como admite agora o secretário de Segurança. Poderia ter sido mil vezes pior para todos se, por exemplo, algum turista tivesse sido morto na cidade escolhida para sediar a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. 
- Foi uma infelicidade. Eu costumo dizer que, infelizmente, até que o novo Rio seja uma realidade completa, nós vamos ter que conviver com esse velho Rio - disse Beltrame à "Época".
Ao que tudo indica, Deus é carioca. Mas até quando?
 De qualquer modo, eu prefiro abraçar um dos slogans da campanha do GLOBO para a cobertura das eleições: "Eu prometo não deixar os governantes em paz  sobre a questão da violência".

ELVIS, para o Correio Amazonense

O STJ e os planos econômicos

O STJ e os planos econômicos
27 de agosto de 2010 | 0h 00 - O Estado de S.Paulo
A decisão dada pela 2.ª Secção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no caso dos pedidos de ressarcimento das diferenças de correção monetária dos valores depositados nas cadernetas de poupança durante os planos econômicos das décadas de 80 e 90 causou surpresa nos meios forenses e financeiros. Na verdade, houve duas decisões diferentes: uma para os autores de 814 mil ações civis individuais e outra para 1.030 ações civis públicas impetradas por defensorias públicas, associações corporativas e entidades que defendem os direitos dos consumidores, em nome de 40 milhões de poupadores.
No mérito, a 2.ª Secção do STJ entendeu que os correntistas têm direito a uma correção monetária adicional de seus saldos e decidiu que o pagamento é de responsabilidade dos bancos. Esse já era o entendimento das outras instâncias da Justiça Federal. Os ministros também definiram os índices de correção monetária aplicáveis a cada plano: 26,06% para o Plano Bresser; 42,72% para o Plano Verão; 44,8% para o Plano Collor I; e 21,87% para o Plano Collor II.
No entanto, ao julgar uma questão preliminar sobre os prazos de ajuizamento de ações previstos pelo Código Civil e pela Lei de Ação Popular, o STJ entendeu que 1.015 das 1.030 ações civis públicas já haviam prescrito e determinou seu arquivamento. Com isso, cerca de 40 milhões de correntistas representados por entidades da sociedade civil, defensorias e associações corporativas - cerca de 90% dos poupadores que buscaram os tribunais para defender seus direitos - "ganharam, mas não levaram". Só poderão ser ressarcidos os 814 mil autores de ações individuais e os poupadores relacionados nas 15 ações civis públicas admitidas pelo STJ.
Para os bancos, essa decisão reduz significativamente as importâncias a serem ressarcidas aos correntistas das cadernetas de poupança. Antes do julgamento, executivos de bancos privados afirmavam que o montante a ser pago era de R$ 180 bilhões, enquanto a diretoria da Febraban falava em R$ 130 bilhões e o alto escalão do Banco Central e do Ministério da Fazenda trabalhava com o total de R$ 105 bilhões. Cerca de um terço desse montante seria devido pela Caixa Econômica Federal, segundo os especialistas. Os dois terços restantes seriam devidos por instituições privadas.
Com a declaração de prescrição de quase todas as ações coletivas, o valor a ser pago cai para R$ 10 bilhões - valor esse que, segundo o Banco Central, já foi provisionado pelas instituições financeiras, em maio.
Mesmo assim, sob a alegação de que esse valor "continua substancial", os advogados dos bancos anunciaram que devem recorrer da decisão. As entidades que patrocinaram as 1.015 ações civis públicas consideradas prescritas também já anunciaram que irão recorrer. Os recursos serão apresentados ao próprio STJ, que é a última instância da Justiça Federal, mas o caso não deverá ser encerrado tão cedo. Isto porque, além desses recursos, que agora serão julgados pelo plenário da Corte, há uma outra ação judicial impetrada pelos bancos no Supremo Tribunal Federal (STF) que continua tramitando normalmente. E, enquanto a mais alta Corte do País não se pronunciar, a tendência da magistratura das instâncias inferiores é de não seguir a decisão da 2.ª Secção do STJ, mantendo parados todos os processos semelhantes.
Por causa da ação que corre no STF, o Ministério Público Federal propôs que o julgamento da 2.ª Secção do STJ fosse suspenso. Alguns ministros acolheram a proposta. Mas a maioria optou por realizar o julgamento, mesmo sabendo que tudo depende da palavra final do STF. Informalmente, alguns ministros do STJ e do STF afirmaram que, com a prescrição das ações coletivas, as pressões dos bancos sobre a Justiça deverão diminuir. De fato, o balanço do julgamento mostra que ele pendeu para as instituições financeiras. Por isso, o desafio da Justiça agora é explicar para os cidadãos não afeitos às sutilezas do direito, que acreditam no princípio da igualdade perante a lei, por que alguns poupadores foram favorecidos e outros não. 

SPONHOLZ

Deborah Rhode: "A cultura da beleza viola a do mérito"

Deborah Rhode: "A cultura da beleza viola a do mérito"
A advogada americana defende lei para proteger as pessoas da discriminação pela aparência
Letícia Sorg
Ao organizar um evento sobre igualdade entre os sexos no trabalho, a advogada Deborah Rhode, professora da Universidade Stanford, sofreu pressão das amigas para comprar uma roupa nova para a ocasião: não poderia aparecer mal no telão. Deborah cedeu, não sem notar a ironia que ela mesma – que pesquisa a influência dos padrões de beleza no mundo do trabalho – não conseguia escapar das exigências da aparência. Em seu livro The beauty bias (numa tradução livre, O preconceito da beleza), recém-lançado nos Estados Unidos, Deborah analisa como a aparência prejudica carreiras e defende a aprovação de uma lei para impedir esse tipo de discriminação, que ela acredita ser tão intolerável quanto o preconceito de raça ou gênero.
                                                     ENTREVISTA - DEBORAH RHODE                                     

QUEM É
Advogada formada na Universidade Yale, é professora de Direito da Universidade Stanford
O QUE FEZ
Fundou e dirigiu o Centro de Ética Legal de Stanford e o instituto para estudos de gênero da universidade
O QUE PUBLICOU
Escreveu 20 livros, entre eles Legal ethics (Ética legal) (2004), Gender and law (Gênero e legislação) (2006) e The beauty bias (O preconceito da beleza) (2010)

ÉPOCA – Admirar a beleza é instintivo para o ser humano. É factível pensar que uma lei vai mudar isso? Deborah Rhode – Até certo ponto, nossas preferências são instintivas. Vivemos há milhões de anos em busca de fertilidade e mesmo bebês demonstram preferência por rostos simétricos. Mas reconhecer que há uma base biológica e sociológica para nosso comportamento não quer dizer que não possamos mudá-lo. Até porque algumas das normas atuais da boa aparência não são funcionais do ponto de vista reprodutivo. A preferência por mulheres muito magras é um exemplo. Mulheres muito abaixo do peso têm uma probabilidade muito maior de infertilidade do que as mulheres um pouco acima. Mesmo que alguns comportamentos estejam estabelecidos – como o de se sentir mais confortável entre seus semelhantes de cor, etnia ou sexo –, queremos que as pessoas consigam ir além. Daí a importância das leis.

ÉPOCA – Quais são as principais causas da busca pela aparência perfeita?  Deborah – Uma grande parte está relacionada à mídia e às imagens que ela mostra. Mas a indústria de produtos estéticos e de emagrecimento também lucra imensamente fazendo as pessoas acreditar que há um problema a ser solucionado. É preocupante que nos Estados Unidos não consigamos proibir a venda de produtos que prometem soluções mágicas para emagrecer, por exemplo. Isso é problemático, porque a maioria dos americanos não acredita que as empresas possam fazer essas alegações sem nenhuma comprovação. Existe uma lei contra isso, mas ninguém consegue colocá-la em prática. Então, muita gente é persuadida pela publicidade. E, em alguns casos, os produtos têm efeitos colaterais e não apresentaram resultados bons nos testes.

ÉPOCA – Qual é o prejuízo causado pelo preconceito baseado na aparência?  Deborah – Não existe um cálculo simples, porque, além do financeiro, existe o custo psicológico para as pessoas estigmatizadas. Elas sofrem assédio, perdem empregos e promoções. Mas um número relevante é o dinheiro gasto no mundo todo com produtos de beleza e emagrecimento –US$ 200 bilhões por ano. Os economistas também calculam que o prêmio – ou castigo, se preferirmos – por causa da aparência pode chegar a US$ 16 mil por ano para um trabalhador americano. A cultura da beleza viola o sistema de mérito porque ela acaba substituindo a habilidade.

ÉPOCA – De que forma a beleza influencia as decisões de empregadores sobre empregados?  Deborah – Os empregadores usam a aparência como um indicativo de outras características, como profissionalismo e disciplina. Também assumem, sem nenhuma prova, que o consumidor tem certas preferências. É o caso de um dono de pet shop que proibiu os funcionários homens de usar brinco, sob o pretexto de manter um “ambiente confortável de consumo”. Quem vai comprar ração para gato se importa com isso? Frequentemente, as restrições são formas disfarçadas de preconceito contra comportamentos que incomodam o empregador, não necessariamente o cliente.

ÉPOCA – Seis regiões americanas adotaram uma lei específica contra a discriminação pela aparência. Ela ajudou a diminuir o problema?  Deborah – Meus estudos mostram que o resultado da lei é bastante modesto. Não há muitos processos – como previam alguns críticos da lei –, mas as queixas despertam muita atenção da mídia. E provavelmente esse é o aspecto mais importante: tornar as pessoas conscientes dos custos desse tipo de preconceito.

ÉPOCA – Em São Francisco, em 2002, uma instrutora de ginástica processou a academia onde trabalhava com base na lei de preconceito pela aparência. Ela alegou ter sido demitida por estar acima do peso e venceu. Mas estar em forma não é uma exigência razoável nesse caso?  Deborah – Precisamos combater os pré-requisitos que não têm a ver com características essenciais para o trabalho e impõem um custo adicional ao empregado. Não é verdade que mulheres acima do peso não podem ser boas instrutoras de ginástica. Muitas alunas até preferem ter aulas com mulheres que se pareçam com elas. Há casos em que os empregadores alegam que os clientes compram mais de vendedores ou garçons atraentes. Não sei se isso é justificável, porque o argumento é o mesmo usado por quem se opôs, décadas atrás, a leis contra a discriminação racial. Eles diziam: clientes brancos não compram de vendedores negros. E isso era verdade no sul dos Estados Unidos. Até que veio uma lei obrigando os empresários a contratar funcionários negros. Então, não havia mais escolha. Foi uma maneira de gerar progresso social. O mesmo tipo de preconceito vale para a questão da aparência. Temos de ser tão intolerantes com ele quanto somos com o preconceito racial.

"Temos de ser tão intolerantes com o preconceito de
aparência quanto somos com o preconceito racial"

ÉPOCA – A senhora afirma que as mulheres são as principais vítimas do preconceito de aparência. Por quê?  Deborah – Os homens sofrem também com o problema, especialmente os mais baixos ou acima do peso. Mas as mulheres são mais prejudicadas porque os padrões estéticos são mais limitados e o preço por não atingi-los é maior. Elas são punidas por não se preocupar o suficiente e também por se preocupar demais com a aparência. Quem exagera nos cuidados é tido como narcisista, fútil. Quem se importa de menos é tido como preguiçoso, não profissional. Em minha opinião, a sexualização da mulher é uma maneira de puni-la, de diminuí-la no ambiente de trabalho. Um dos muitos exemplos que dou no livro: certa vez, Hillary Clinton (secretária de Estado americana) foi criticada por ter um quadril muito grande. Também vimos comentários sobre a aparência de Elena Kagan, nomeada para a Suprema Corte dos Estados Unidos. Como se ser atraente fosse uma credencial para fazer parte da Corte Suprema. Nenhum indicado homem teve de falar a respeito disso em sua sabatina no Congresso.

ÉPOCA – Recentemente, uma ex-funcionária do Citibank decidiu processar o banco alegando que foi demitida por causa de sua aparência, sensual demais. As belas também sofrem?  Deborah – Em algumas funções, geralmente as de alto escalão, antes ocupadas quase totalmente por homens, mulheres muito sexy ou atraentes não são consideradas inteligentes o suficiente. Elas também são julgadas por suas medidas, não por seus méritos.

ÉPOCA – O movimento feminista ajuda as mulheres a lidar com a pressão pela aparência?  Deborah – A história de que feministas teriam ateado fogo a sutiãs em frente a um concurso de beleza – na verdade, eles foram depositados junto com itens de maquiagem e outros acessórios numa lata de lixo – gerou a ideia de que as feministas eram feias e desajustadas. Hoje algumas feministas veem a aparência como parte da atitude de mulher, uma questão de escolha. Outras, porém, dizem que as escolhas são culturalmente restritas. Não há uma posição coerente a respeito do assunto. As feministas estão divididas entre usar ou não usar salto alto, Botox e silicone. Para mim, a preocupação com a aparência não é só uma questão de escolha pessoal. Temos de pensar nas limitações impostas pela sociedade e na maneira como as pessoas são punidas por não segui-las; no preço que pagam, financeira e psicologicamente, por não se preocupar com a aparência na medida que a sociedade espera. É importante fazer as pessoas perceber os aspectos perniciosos dessa preocupação e que é possível fazer algo para mudar. Seja uma lei, um boicote permanente, outras formas de políticas públicas. Não me iludo com o que podemos ou não mudar por meio dessas ações, mas podemos fazer muito mais do que fazemos agora.

Aria - J.S.Bach - Orquestra de Violinos de Volta Redonda -RJ

Mount Rainier, Washington


Fotografia por Henry Hudson  "Esta imagem é da minha esposa no cume cume da cratera do Monte Rainier. Adoro a interacção entre a montanha, céu, humanos e nesta imagem." -Henry Hudson 

Graham Fuller: “O islã não é o problema”

Graham Fuller: “O islã não é o problema”
O ex-agente da CIA e estudioso do radicalismo muçulmano diz que a política externa americana é o maior combustível do fanatismo
Letícia Sorg – Revista época

ÉPOCA – Em seu livro mais recente, A world without islam (Um mundo sem islã), o senhor imagina um mundo hipotético sem o islamismo para argumentar que a religião não é a causa dos conflitos no Oriente Médio. Por quê?  Graham Fuller – Eu me irritava com as tentativas de escrever análises sobre as dificuldades de “reformar o islã”. As análises não deixam de ter razão, mas ninguém questiona se os EUA, potência com quase 1.000 bases militares espalhadas pelo mundo, provocam impacto direto na região. O islamismo é o veículo, a bandeira, o símbolo, não a origem.

ÉPOCA – Qual é, então, a causa do conflito atual?  Fuller –– Há elementos geopolíticos por trás da maioria deles. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial começaram com os europeus, que acabaram arrastando o Oriente Médio. Durante a Guerra Fria, o Oriente Médio foi novamente arrastado ao conflito entre os Estados Unidos e a União Soviética. A região conviveu com a constante intervenção política e militar americana promovendo golpes de Estado. A lista é grande, e nenhum dos conflitos tem a ver com o islã.

ÉPOCA – O senhor trabalhou para a CIA entre 1965 e 1987 e viveu em vários países do Oriente Médio. Poderia imaginar que as relações com os EUA chegariam ao ponto em que estão hoje?  Fuller – Sim e não. Quem trabalhou no Oriente Médio naqueles anos sabia que a situação estava ficando cada vez pior. Nos Estados Unidos, eu via que as pessoas não percebiam nenhuma mudança. De repente, tivemos o 11 de setembro. Foi um choque, mas não uma surpresa. Osama Bin Laden vinha avisando sobre os atentados e falando sobre o ódio no Oriente Médio por causa da presença de tropas americanas na Arábia Saudita.

ÉPOCA – Em um artigo, o senhor diz que a política externa americana é, provavelmente, a maior contribuição para a unidade do mundo muçulmano desde o profeta Maomé. Por quê?  Fuller – Nos dias de Maomé não havia comunicação, mas, agora, com a internet e outros meios, quando os EUA decidem tomar uma atitude como a “guerra contra o terror”, todos ficam sabendo. Os palestinos veem na TV afegãos sendo mortos, por exemplo. A consciência de ser muçulmano é global, e a identidade islâmica é, portanto, consequência da política externa americana – e não a causa.

ÉPOCA – Como o senhor vê essa iniciativa americana de enviar imames americanos a países muçulmanos para falar de pluralismo religioso nos Estados Unidos?  Fuller O papel dos imames é importante, desde que eles não sejam vistos como instrumentos de Washington. Há tantas suspeitas sobre a intenção dos EUA que alguns podem acreditar que é mais uma desculpa para pressão e intervenção.

ÉPOCA – Qual é sua opinião sobre o projeto da mesquita?  Fuller – É, a longo prazo, ótimo, mas o momento para a sugestão é delicado porque a questão seria politizada.
ÉPOCA – Os Estados Unidos estão ficando mais intolerantes?  Fuller – A fúria a respeito da mesquita em Nova York e a tentativa de criar um dia para queimar o Corão em outros Estados americanos ajudam a destruir mais e mais a imagem dos Estados Unidos perante o mundo árabe. É possível encontrar pessoas dispostas a queimar alguma coisa em qualquer país. A vasta maioria dos americanos sabe que isso é estúpido e ignorante. Mas cria uma má imagem e exacerba um problema que não tem melhorado nada, mesmo durante o governo Obama. 

Lézio Jr., para Diário da Região S. José do Rio Preto

Uma elite abstrata

Uma elite abstrata
Nas Entrelinhas
Alon Feuerwerker – Correio Braziliense

É preciso reconhecer que os jornalistas e o jornalismo somos chegados a umnão me toques. Vivemos a pontificar e a fazer juízos de valor sobre tudo e todos, mas quando o sentido da crítica se inverte acomete-nos um excesso de sensibilidade.
É equivocado acreditar que as críticas à atividade jornalística são por hipótese um atentado à liberdade de expressão.
A imprensa não pode pretender estar imune ao sistema de freios e contrapesos na democracia.
As seguidas reclamações do presidente da República contra o jornalismo pátrio devem ser catalogadas no rol das coisas normais, rotineiras, positivas. De toda crítica, mesmo a mais descabida, recolhe-se algo bom.
Há porém um detalhe curioso na atitude de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o tema: o discurso presidencial é bipartido, contraditório, antagônico em si mesmo. Uma hora sua excelência regozija-se ao decretar o fim do oligopólio dos formadores de opinião. Outra hora se preocupa em protestar contra o tratamento, segundo ele injusto, que recebe dos veículos de comunicação.
Se de fato o jornalismo dito profissional perdeu importância após a explosão planetária das redes que distribuem informação emformato digital, por que razão o presidente da República investe tanto do seu escasso e precioso tempo nesse combate sem tréguas? Vocação incontrolável para ombudsman? Vontade de contribuir generosamente para o Brasil ter a cada dia uma imprensa melhor? A explicação talvez esteja em outro ponto. Quando Lula se retirar para São Bernardo alguém deverá fazer a análise das transformações no discurso presidencial na passagem pelo poder.
Não se faz política sem adversários, uma forma amena de nomear os inimigos. E Lula foi mudando os adversários à medida que se consolidava no manche.
Pouco a pouco, foram desaparecendo da narrativa de Lula e do PT os antes responsáveis pelas desgraças do Brasil.
Os latifundiários da cana viraram heróis nacionais quando interessou ao governo alavancar em escala planetária o etanol como biocombustível global. Os empresários que arremataram as estatais na era tucana viraram amigos de infância o que não impede o PT de continuar falando mal da privatizações, ainda que não tenha revertido nenhuma delas.
E os bancos, com seus lucros estrondosos, gordas tarifas, spreads pornográficos? O que antes era defeito virou qualidade.
Afinal, um sistema bancário sólido e põe sólido nisso! ajudou-nos a sair razoavelmente bem da crise.
Se fosse o caso de completar a lista, o espaço desta coluna seria insuficiente. Permanece, é claro, o discurso genérico contra a elite, uma reverência ritual ao passado. Mas a elite em carne e osso passa ao largo das críticas presidenciais, a não ser quando pode se contrapor a algum objetivo do poder.
Os antes inimigos do PT são agora fustigados apenas nos horários eleitorais das microssiglas de esquerda, o pessoal que luta para sair do traço nas pesquisas de intenção de voto. Assistir a elas na tevê é quase um exercício de arqueologia.
Que inimigos sobraram para Lula? Os atores políticos que eventualmente possam representar algum obstáculo à consolidação e ampliação do poder. Encaixam-se aí, além de um gordo pedaço da imprensa, instituições como o Ministério Público, o Tribunal de Contas, os órgãos de fiscalização ambiental, o Congresso Nacional (quando resiste a seguir os ditames presidenciais).
Qualquer um que se atreva a questionar, no todo ou em parte, as decisões de sua excelência.
E a imprensa, é santa? Longe disso. Não há santidades nessa rixa. Ainda que cada uma das partes insista em apresentar-se como merecedora da canonização.
Lula foi mudando os adversários à medida que se consolidava no manche. Pouco a pouco, foram desaparecendo da narrativa de Lula e do PT os antes responsáveis pelas desgraças do Brasil.

Minimalismo floral #fotografia #fotojornalismo #photos by Johnguardacosta

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