segunda-feira, outubro 18, 2010

França à beira da paralisação

França à beira da paralisação
Às vésperas da votação da reforma da previdência, falta combustível em postos e trens entram em greve
O Globo e RTP - Portugal
Esta semana será crucial para o governo da França, que tentará aprovar a reforma da Previdência em meio à mobilização popular. Ontem à noite, os caminhoneiros começaram a bloquear as estradas, e os ferroviários cruzam os braços a partir de hoje, reduzindo em um terço a circulação do metrô e dos trens, com o tráfego de TGV (trembala) reduzido à metade. Segundo o jornal francês “Le Monde”, a paralisação pode afetar ainda o setor aéreo e o transporte de valores — e consequentemente, os bancos. Apesar de o governo Nicolas Sarkozy afirmar que não há problemas de abastecimento de gasolina, os franceses fazem filas nos postos, que já começam a fechar por falta de combustível.
A reforma da Previdência, que, entre outras medidas, eleva a idade mínima da aposentadoria de 60 para 62 anos, será votada quarta-feira pelo Senado. Para o mesmo dia, os sindicatos convocaram nova mobilização popular, a sexta desde o início dos protestos. Nas manifestações de sábado, estima-se que tenham ido às ruas entre 825 mil (segundo cálculos do governo) e 3 milhões (de acordo com os sindicatos) de pessoas.
Ontem, havia filas em postos por toda a França, apesar de o governo negar que haja escassez. O ministro dos Transportes, Dominique Bussereau, disse na rádio Europe 1 que os postos que dizem estar sem combustível “estão guardando para seus clientes habituais”. Ele estimou que, dos 1.300 postos do país, 200 tenham problema de escassez.
Mas a distribuidora Total tem outro número: só em sua rede, seriam de 300 a 400. Todas as 12 refinarias do país estão paradas.
Os funcionários de um depósito de combustível em Marselha estão em greve há 22 dias, deixando presos no porto 47 navios petroleiros. A cidade ainda sofre com uma greve de lixeiros. Outro depósito, em Vatry, na região do Marne, foi liberado pelo governo ontem pela manhã.
O frentista de um posto em Paris disse ao jornal espanhol “El País” que a gasolina havia acabado às 10h de ontem. E contou que as pessoas têm levado galões de gasolina e diesel, para fazer estoque.
Sobre o fato de o governo negar que haja escassez, ele foi franco: “O que você quer que eles digam?”.
Governo: polícia vai liberar depósitos
O governo também afirmou que não há problemas nos aeroportos, apesar de o ministro dos Transportes admitir que os estoques de combustível em Nice e Nantes estão baixos. Os aeroportos de Paris, segundo o ministro, não ficarão sem combustível graças à retomada das operações, no sábado, do oleoduto de Trapil. Os sindicalistas da CGT, no entanto, disseram à Europe 1 que o oleoduto está sendo operado pelo pessoal administrativo, sem preparo para o serviço. Os funcionários da produção estão em greve.
O ministro do Interior, Brice Hortefeux, disse que a polícia vai liberar os depósitos de combustível que forem bloqueados por piquetes. Semana passada, houve três ações do tipo.
— Digo com muita serenidade: aqueles que quiserem trabalhar não poderão ser impedidos — afirmou Hortefeux no programa “Grand Jury”, do canal RTL, ressaltando, como outros membros do governo, não haver risco de faltar combustível.
Além das filas, a população enfrenta a alta dos preços. O ex-premier Laurent Fabius, do Partido Socialista (PS, de oposição), denunciou ontem que vários postos estão remarcando os preços. A ministra da Economia, Christine Lagarde, prometeu sanções para os casos em que a remarcação for provada.
O primeiro-ministro, François Fillon, foi ontem à noite à rede de televisão TF1 para anunciar que a votação não será adiada, como pediram os partidos de esquerda. E afirmou que o governo não permitirá que os manifestantes parem o país: — O direito de greve não é o direito de impedir o acesso a um depósito de combustível, esta é uma ação ilegal. Não deixarei que parem nosso país, não permitirei que a economia francesa seja sufocada pelo bloqueio ao fornecimento de combustível.
O líder da CGT, Bernard Thibault, disse ao jornal “Le Monde” que o país ainda não está parado, mas que a perturbação do dia a dia “começa a ser real”. Já François Chérèque, líder da central sindical CFDT, disse que, para evitar a paralisação do país, o governo precisa retomar o diálogo.
Um apoio inusitado a Sarkozy veio do ator Gérard Depardieu, de 61 anos.
Ele chamou os protestos de ridículos e de “manipulação dos sindicatos”.

Paixão, em Gazeta do Povo


Em contexto: Proteção demais atrapalha

Em contexto: Proteção demais atrapalha
Para enxergar além dos fatos
Carlos Giffoni – Revista ÉPOCA
Nem sempre quem procura emprego acha – mesmo que existam vagas disponíveis por aí. Esse raciocínio simples para qualquer cidadão que tenha se angustiado com o mercado de trabalho alguma vez na vida rendeu o Prêmio Nobel de Economia aos americanos Peter Diamond e Dale Mortensen e ao cipriota radicado em Londres Christopher Pissarides. O grande avanço dos três foi criar um modelo científico que explica esse desequilíbrio, chamado de “fricção” na lei da oferta e da procura.
Até a década de 1970, os analistas usavam apenas a relação entre oferta e procura para explicar o funcionamento dos mercados. Era simples: se havia 500 vagas de emprego e 500 pessoas desempregadas, uniam-se os dois polos e... problema resolvido. Então, por que não dava certo? Pelo mesmo motivo que juntar 15 homens e 15 mulheres numa sala, todos solteiros, não significa que se formarão 15 casais. Há variáveis como a opção sexual, a atração por um tipo físico, os interesses em comum. O mesmo desencontro entre a oferta e a procura acontece no mercado imobiliário e nas compras em geral. Mas o local onde a teoria dos três mais avançou foi o mercado de trabalho.
O ponto mais importante das teses – e que virou uma espécie de campo de estudos – é a Teoria da Busca. Ela analisa os custos (de dinheiro, tempo, energia) envolvidos na procura do empregado certo ou da vaga mais atraente. “Assim como você não compra o primeiro carro que vê, não deve aceitar a primeira oferta de emprego”, diz Aloisio Araújo, professor de pós-graduação da Fundação Getulio Vargas. “É bom para você e para a economia que haja procura, para haver um encaixe melhor entre suas habilidades e as necessidades do mercado.”
Peter Diamond
Americano, 70 anos, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts)
É conhecido por suas análises sobre serviço social. O presidente Barack Obama o indicou para ser conselheiro do Fed, o BC americano, mas ele precisa ser aprovado pelo Senado 
Dale Mortensen
Americano, 71 anos, professor da Northwestern University
Fez um estudo sobre o “desemprego friccional”, que ocorre quando há vagas disponíveis, e a “Teoria do Casamento”, sobre as dificuldades de unir quem procura e quem tem algo a oferecer 
Christopher Pissarides
Cipriota-britânico, 62 anos, professor da London School of Economics
Seu trabalho mais conhecido é Criação e destruição de vagas: a teoria do desemprego, em que analisa as influências da macroeconomia no mercado de trabalho 
Da Teoria da Busca surgiram as primeiras conclusões interessantes, que se desviam do senso comum. Uma delas mostra que benefícios sociais como o seguro-desemprego, embora ajudem o cidadão que recebe a pensão, têm um efeito secundário perverso. Ao dar ao desempregado um salário, o benefício diminui os custos da procura. Com o estipêndio garantido, a pessoa pode prolongar demais a busca da “vaga ideal”. E, ao esperar demais, ela acaba com grandes chances de ficar defasada tecnicamente.
Um raciocínio similar vale para a legislação que protege demais o trabalhador, comum na Europa... e no Brasil. O sistema de proteção – com multas para quem demite, impostos para criar uma rede de segurança, encargos extras para o patrão – dificulta a demissão. Mas, por isso mesmo, freia as contratações: as empresas pensam duas, três, cinco vezes antes de se comprometer com tamanho custo. Como resultado, a rotatividade do mercado de trabalho cai, e quem está desempregado tende a demorar mais para conseguir vaga.
Esse é um dos temas mais polêmicos nos debates de políticas públicas em todo o mundo. O Nobel dá um pouco mais de força à visão liberal. E pode também garantir um emprego para Diamond. Ele havia sido indicado para conselheiro do Fed, o banco central dos Estados Unidos, e o Senado havia expressado reservas a sua “pouca experiência técnica”. Com o prêmio, sua aceitação ficou mais provável.

Água - Composição de Diego Venancio e Stênio Marcius

Japão lamenta reação 'histérica' da China em litígio territorial

Japão lamenta reação 'histérica' da China em litígio territorial
18 de outubro de 2010 • 08h37min
O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan,
fala ao Parlamento em Tóquio
 TÓQUIO, 18 Out 2010 (AFP) - O governo do Japão criticou nesta segunda-feira as manifestações antijaponesas organizadas no fim de semana na China, dizendo ser "histérica" a reação de Pequim à disputa territorial entre os dois países sobre o arquipélago Diaoyu/Senkako, no mar da China Oriental.
"O governo lamenta as manifestações contra o Japão, realizadas nos dias 16 e 17 na China, e pede energicamente que as empresas japonesas sejam protegidas", declarou o primeiro-ministro japonês Naoto Kan no Parlamento.
O ministro das Relações Exteriores japonês, Seiji Maehara, chamou de "histérica" nesta segunda-feira a atitude da China no litígio territorial no mar da China Oriental, referindo-se à decisão chinesa de suspender suas exportações de metais de terras-raras para o Japão.
Maehara, conhecido pela postura implacável em negociações com a China, foi interrogado no Parlamento em relação a uma série de medidas de represália adotadas pelas autoridades chinesas desde que o Japão deteve, no começo de setembro, o capitão de um pesqueiro chinês perto das ilhas Diaoyu/Senkako.
A China cancelou conversações de alto nível e encontros bilaterais. Fontes da indústria também indicaram a suspensão das exportações de metais de terras-raras para o Japão, essenciais para a fabricação de produtos de alta tecnologia.
"Acho que as medidas de represália tomadas pela China são extremamente histéricas", comentou Maehara, depois das manifestações contra o Japão.
"Em relação à questão das terras-raras, o ministério do Comércio chinês afirma que não adotou semelhante medida, mas neste momento nós não podemos dizer que as remessas voltaram ao normal", destacou.
Os dois países reivindicam este conjunto de pequenas ilhas desabitadas, conhecidas como Diaoyu na China e como Senkaku no Japão, no mar da China Oriental. Taiwan também reivindica soberania sobre o arquipélago.
As ilhas Diaoyu/Senkako estão localizadas em uma área muito rica em peixes, cujo fundo marítimo pode abrigar reservas de hidrocarbonetos.
Depois de um período de calma, a tensão entre os dois vizinhos voltou a aumentar neste final de semana.
Pequim e Tóquio tentavam organizar uma reunião de cúpula até o fim do mês para aliviar os ânimos, mas os protestos de rua deste fim de semana nos dois países mostraram como a disputa inflamou sentimentos nacionalistas na população.
Milhares de chineses, a maioria, jovens, foram às ruas de pelo menos quatro cidades para demonstrar apoio a seu país nesta acirrada disputa diplomática com o Japão.
Em uma manifestação aparentemente convocada pela internet e por mensagens de texto de celular, chineses pediram o boicote a produtos japoneses e atacaram empresas japonesas, como uma loja da Panasonic e outra da Isetan, e carros fabricados no país vizinho.
As autoridades chinesas tentaram conter os protestos, os piores desde 2005, mas não repreenderam a iniciativa dos manifestantes.
"É compreensível que algumas pessoas expressem sua revolta contra as recentes palavras e atos errôneos da parte japonesa", disse no sábado Ma Zhaoxu, porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês.
Os japoneses, por sua vez, protestaram em Tóquio no sábado.
Fonte: Portal Terra

Exército pode começar perícia na fronteira MT-PA ainda em 2010

Exército pode começar perícia na fronteira MT-PA ainda em 2010
 O Exército Brasileiro pode iniciar ainda este ano a perícia técnica determinada pelo Supremo Tribunal Federal para identificação do ponto limítrofe oeste da linha divisória entre Mato Grosso e Pará. A previsão feita nesta sexta-feira (15) pelo procurador-geral de Mato Grosso, Dorgival Veras de Carvalho, tem como base a possibilidade de atendimento – pelo Estado – às necessidades relacionadas para início do trabalho.
Designado pelo Exército como perito judicial para o caso, o diretor do Serviço Geográfico da instituição, General-de-Brigada e Engenheiro Militar Cartógrafo Pedro Ronalt Vieira, pediu que fosse feita comunicação antecipada aos órgãos ambientais e de proteção ao índio, que atuam na região, sobre a natureza do trabalho e seu período de realização.
Ele também alertou que, além de possuir infraestrutura precária, a área a ser periciada convive com chuvas intensas e cheias dos rios locais entre os meses de novembro e março, e apontou a necessidade da liberação antecipada dos recursos para o início dos trabalhos. Uma planilha do orçamento previsto para cobrir as despesas em todas as fases da perícia apontou o custo total de R$ 454.559,00.
“A preocupação do Exército é com a precipitação pluviométrica na região, durante o período, porque ela pode comprometer a realização da primeira etapa de trabalho. Mas, há condições para que ela aconteça até dezembro. Além disso, a PGE já confirmou a disponibilidade dos recursos e eles serão liberados a tempo pela Sefaz (Secretaria de Estado de Fazenda)”, disse o procurador-geral.
Em um relatório com dez itens, apresentado pelo próprio general Ronalt, o Exército planejou suas ações para exatos 136 dias e em três fases: trabalho de campo (16 dias), pesquisa bibliográfica complementar (90 dias) e elaboração do laudo pericial (30 dias), nesta ordem.
A perícia atende determinação do STF que se baseou em parecer da Procuradoria Geral da República para sua execução, motivada pela Ação Cível Ordinária nº 714 impetrada pelo governo mato-grossense.
Histórico do Processo
No dia 06 de abril de 2004, o Estado de Mato Grosso ajuizou no Supremo Tribunal Federal a Ação Cível Originária nº 714 contra o Estado do Pará. Em sua justificativa, estaria incorreto o ponto extremo oeste da linha de divisa dos limites entre os dois estados, conforme Convenção firmada no ano de 1900.
Segundo o autor, o erro teve origem em equívoco cometido em 1922 pelo então Clube de Engenharia, quando da confecção da Primeira Coleção de Cartas Internacionais do Mundo ao Milionésimo. Na carta produzida, teria sido tomado como referência o acidente geográfico denominado “Cachoeira das Sete Quedas” e não o “Salto das Sete Quedas” como acordado na Convenção de Limites de 1900.
Esse erro resultou no domínio, por parte do Pará, de terras pertencentes a Mato Grosso que requereu medida liminar para impedir que o primeiro estado continuasse a titular áreas no território em questão até que o caso seja solucionado.
Participação da Assembleia
O caso vem sendo acompanhado há cerca de 15 anos pela Assembleia Legislativa, com o trabalho político do deputado Pedro Satélite (PPS). Para o parlamentar, o prejuízo financeiro periférico foi negativamente importante. O mais sério, no entanto – ainda segundo ele, são as perdas estratégica, política e da soberania.
Na região de fronteira, agricultores garantem que o interesse de o Pará se ‘avizinhar’ daquela região sempre foi historicamente ardiloso pela questão mineral, em função de suas áreas próximas e com o mesmo perfil geológico da Província Mineral de Carajás.   
Também existiam outros interesses econômicos, uma vez que a área passou a ser ocupada por produtores e, ainda, por causa da rodovia BR-163 e da Ilha do Bananal. Dados constantes do Intermat, à época, demonstravam que o Pará tinha arrecadado milhões de reais com a regularização de terras na região, interrompida pelo Supremo.
Em outubro de 2003, o Governo de Mato Grosso desconsiderou definitivamente a possibilidade de um acordo diplomático ou mesmo político com o Pará e de reaver fora dos tribunais a faixa de fronteira superior a 2,2 milhões de hectares de terras. Por conta disso, em abril do ano seguinte ele acionou judicialmente o estado vizinho no STF.
Os municípios mato-grossenses envolvidos são Santa Terezinha, Vila Rica, Santa Cruz do Xingu, Peixoto de Azevedo, Matupá, Guarantã do Norte, Novo Mundo, Alta Floresta e Paranaíta.
Fonte: Exército e R7

André, para O Imparcial


Dilma e o aborto Carlos Alberto Di Franco – O Globo - O Estado de S. Paulo - 18/10/10

Dilma e o aborto
Carlos Alberto Di Franco – O Globo - O Estado de S. Paulo - 18/10/10
Setembro, reta final das eleições. A ameaça de segundo turno fez a campanha da candidata oficial reforçar a mobilização nos Estados e acionar o presidente Lula como vacina "contra uma onda de boatos que circulou entre católicos e evangélicos". Os supostos "boatos", que fizeram Lula gravar uma inserção de emergência em defesa de sua candidata, não eram boatos. Eram fatos evidentes: a postura pró-aborto de Dilma Rousseff. Mas nós, jornalistas, num primeiro momento, ficamos reféns do jornalismo declaratório e reproduzimos, acriticamente, o que interessava ao marketing da campanha de Dilma.
Mas vamos aos fatos. Dilma, em sabatina no jornal Folha de S. Paulo e em entrevista à revista Marie Claire em 2007, defendeu a legalização do aborto. Reproduzo suas palavras: "Acho que tem de haver descriminalização do aborto. No Brasil é um absurdo que não haja." Logo, não se trata de boato, invenção ou terrorismo fundamentalista. Dilma mudou seu discurso quando passou a vislumbrar os riscos eleitorais de sua opção. Ela deixou de falar da legalização e, ambiguamente, diz que se trata de problema de "saúde pública". Esconde sua verdadeira posição e não diz uma única palavra sobre a principal vítima do aborto: a criança morta no ventre materno. O PT, após o recado das urnas e num exercício incrível de hipocrisia, estuda tirar o aborto de seu programa. O eleitor não é tonto.
O jornalismo de qualidade não se pode restringir às declarações dos políticos, mas à verdade dos fatos. O que interessa não é o que a Dilma diz, mas o que ela fez e, presumivelmente, fará como presidente da República. Vamos ver o que o atual governo, seu partido e sua candidata têm feito em matéria de aborto.
Em abril de 2005, no 2.º Relatório do Brasil sobre o Tratado de Direitos Civis e Políticos, apresentado ao Comitê de Direitos Humanos da ONU, o atual governo comprometeu-se a legalizar o aborto.
Em agosto de 2005, o atual governo entregou ao Comitê da ONU para a Eliminação de Todas as Formas de Descriminalização contra a Mulher (Cedaw) documento no qual reconhece o aborto como Direito Humano da Mulher.
Em setembro de 2005, por intermédio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, o atual governo apresentou ao Congresso um substitutivo do PL 1.135/91, como resultado do trabalho da Comissão Tripartite, no qual é proposta a descriminalização do aborto até o nono mês de gravidez e por qualquer motivo, pois, com a eliminação de todos os artigos do Código Penal que o criminalizam, o aborto, em todos os casos, deixaria de ser crime.
Em setembro de 2006, no plano de governo do segundo mandato do atual presidente, ele reafirma, embora com linguagem velada, o compromisso de legalizar o aborto.
Em setembro de 2007, no seu 3.º congresso, o PT assumiu a descriminalização do aborto e o atendimento de todos os casos no serviço público como programa partidário, sendo o primeiro partido no Brasil a assumir esse programa.
Em setembro de 2009, o PT puniu os deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso por serem contrários à legalização do aborto. Foram expulsos do partido.
Em fevereiro de 2010, o 4.º Congresso Nacional do PT manifestou apoio incondicional ao 3.º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), Decreto n.º 7.037, de 21/12/2009, assinado pelo atual presidente e pela então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, no qual se reafirmou a descriminalização do aborto, além de atacar a liberdade de imprensa. Esse mesmo congresso aclamou a ministra da Casa Civil como candidata oficial do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República.
Em junho de 2010, para impedir a investigação das origens do financiamento por organizações internacionais para a legalização e a promoção do aborto no Brasil, o PT e as lideranças partidárias da base aliada boicotaram a criação da CPI do Aborto, que investigaria o assunto.
São fatos comprováveis. Somente fatos. Você, amigo leitor, ainda acha que estamos diante de boatos?
A legalização do aborto, independentemente da dissimulação de Dilma Rousseff, é prioridade do PT. Os eleitores, no primeiro turno, disseram não à tentativa de camuflar a opção abortista do PT. O brasileiro está cansado de falsidade e jogo duplo. A opinião pública reagiu aos que pretendem impor, contra a vontade expressa da sociedade e em nome da "democracia", a eliminação do primeiro direito humano fundamental: o direito à vida.
A legalização do aborto, estou certo, é o primeiro elo da imensa cadeia da cultura da morte. Após a implantação do aborto descendente (a eliminação do feto), virão inúmeras manifestações do aborto ascendente (supressão da vida do doente) - a eutanásia já está sendo incorporada ao sistema legal de alguns países -, do idoso e, quem sabe, de todos os que constituem as classes passivas e indesejadas da sociedade. Acrescentem-se ao drama do aborto, claro e indiscutível, os imensos danos psicológicos e afetivos que provoca nas mulheres.
Surpreendeu-me, numa viagem à Europa, constatar que algumas vozes em defesa da vida nascem nos redutos feministas. O rasgão afetivo apresenta uma pesada fatura e muita gente começa a questionar seus próprios caminhos.
Não obstante a força do marketing emocional que apoia as campanhas pró-aborto, é preocupante o veneno antidemocrático que está no fundo dos slogans abortistas. Não se compreende de que modo obteremos uma sociedade mais justa e digna para seres humanos (os adultos) com a morte de outros (as crianças não nascidas).
O brasileiro é contra o aborto. Não se trata apenas de uma opinião, mas de um fato medido em inúmeras pesquisa de opinião. Por isso Dilma foi para o segundo turno. A legalização do aborto seria, hoje e agora, uma ação nitidamente antidemocrática. E isso, queiram ou não os petistas, está na agenda da próxima eleição.
DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, É PROFESSOR DE ÉTICA E DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO

Ambientalistas opõem-se ao desenvolvimento?

Ambientalistas opõem-se ao desenvolvimento?
José Goldemberg - O ESTADO DE S. PAULO
Como acontece em outras áreas - tais como as de tecnologia, de padrões de consumo e até da moralidade pública -, as grandes inovações que marcaram os avanços da civilização demoram a chegar ao Brasil. Essa é uma característica geral de países periféricos que ainda têm um peso relativamente pequeno no cenário internacional.
As preocupações com a preservação ambiental caem nessa categoria, como ficou evidente na década de 70 do século passado. Na Conferência de Estocolmo de 1972, que deu origem aos esforços de reduzir a poluição no mundo todo, o Brasil teve um desempenho lamentável, defendendo posições como as que o economista e ex-ministro Delfim Netto expressou recentemente em entrevista ao jornalista Ricardo Arnt: "Se diziam que a indústria do aço ia sair da Europa por causa da poluição, eu respondia: vem para o Brasil, porque temos espaço bastante para a poluição e é mais importante fazer aço; da poluição cuidamos depois" (O que os Economistas Pensam sobre Sustentabilidade - Editora 34). As percepções de Delfim Netto sobre meio ambiente, contudo, melhoraram muito desde então.
Outro exemplo é dado, no mesmo livro de Ricardo Arnt acima citado, pelo também economista e ex-ministro Maílson da Nóbrega - que naquela época era alto funcionário do Banco do Brasil -, ao lembrar que a Rodovia Transamazônica (BR-230) foi criada "em meio ao clamor para se fazer alguma coisa que permitisse a expansão da fronteira agrícola e fosse capaz de resolver o problema de seca no Nordeste". Por essa razão, a legislação que criou a Transamazônica é a que criou o Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do Norte e do Nordeste (Proterra), que tornou viáveis migrações para a Amazônia. Conta Maílson da Nóbrega que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) chegou a fazer uma usina de álcool na Transamazônica, ignorando que a cana "era belíssima, mas sem sacarose para produzir álcool ou açúcar".
A ideia de que reduzir a poluição torna o crescimento econômico inviável é irracional, mas foi, e ainda é, o paradigma usado por muitos economistas e desenvolvimentistas no mundo todo.
Foram essas visões incorretas que levaram ao surgimento do movimento ambientalista mais ligado à "esquerda", que atribui o crescimento predatório a um capitalismo selvagem e, portanto, no seu entender, a solução é combater o capitalismo como um todo. Por outro lado, o ambientalismo mais ligado à "direita" vem do século 19 e tem a característica de tentar preservar o meio ambiente e a paisagem, dando a eles um sabor imobilista que às vezes serve a interesses de grupos de pressão. No atual movimento ambientalista essas duas visões coexistem.
A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 beneficiou-se do movimento ambientalista ligado à "esquerda". A escolha de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, no mesmo ano, refletiu esse apoio. Mas o que ocorreu é que o zelo da ministra em implementar a legislação ambiental logo se transformou num obstáculo às obras desenvolvimentistas que o governo pretendia realizar, como a transposição do Rio São Francisco e a construção de grandes hidrelétricas na Amazônia.
A ficção de que as teses da ministra Marina Silva eram levadas a sério dentro do governo se dissipou rapidamente, resultando na sua saída do governo - tardiamente, a nosso ver. Como resultado, porém, os ambientalistas acabaram sendo caracterizados como inimigos do desenvolvimento, atrasando desnecessariamente, por motivos fúteis, obras de grande vulto, como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O presidente Lula contribuiu consideravelmente para essa tentativa de desqualificação do movimento ambientalista, acusado de se preocupar mais com os "bagres do Rio Madeira" do que com a geração de eletricidade.
O problema fundamental aqui é o de distinguir entre o que os economistas chamam de "crescimento sustentável" - entendido como crescimento econômico sem sobressaltos e sem flutuações na taxa de câmbio - e o assim denominado "desenvolvimento sustentável", em que não somente o progresso econômico é levado em conta, como também o uso eficiente dos recursos naturais, com as melhores tecnologias disponíveis e com a preservação ambiental (na medida do possível). A primeira opção ("crescimento sustentável") é até viável por curtos períodos de tempo, mas só a segunda ("desenvolvimento sustentável") é duradoura. A primeira olha o curto prazo e a segunda, o médio e o longo prazos, sendo evidente que o atual governo só teve em mente o curto prazo.
Por exemplo, o desmatamento da Amazônia para expandir pastagens para gado é uma atividade de baixo rendimento econômico que terá sérias consequências, porque vai mudar (e está mudando) o regime de chuvas de todo o País, além de contribuir significativamente para as emissões de gases que provocam o aquecimento global. Portanto, é essencial dirigir os rumos do crescimento econômico da região em outras direções, o que não foi feito. Argumentar que a Europa também destruiu suas florestas para progredir e que agora querem impedir-nos de fazer o mesmo reflete pura ignorância: a eliminação das florestas europeias ocorreu ao longo de mil anos e o Brasil está fazendo isso em 30 anos, na Amazônia.
As únicas medidas sérias tomadas no Brasil nos últimos anos para orientar o País na direção do desenvolvimento sustentável foram a aprovação de leis propostas pelo prefeito Gilberto Kassab, no Município de São Paulo, e pelo ex-governador José Serra, no Estado de São Paulo, que estabelecem metas e prazos para reduzir as emissões de carbono (e outros poluentes) até o ano 2020. Essas leis vão conduzir o País a uma economia de baixo carbono e não constituem um freio ao crescimento econômico, mas, ao contrário, levarão a uma modernização da indústria brasileira, o que aumentará sua competitividade no comércio internacional.
Professor da USP, foi Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

Tiago Recchia, para Gazeta do Povo


Nobel de Economia e lições para o Brasil

Nobel de Economia e lições para o Brasil
Hélio Zylberstajn - O Estado de S. Paulo - 18/10/2010
O Prêmio Nobel de Economia 2010 concedido a Peter Diamond, Dale Mortensen e Christopher Pissarides é um reconhecimento merecido pela sua contribuição para o entendimento da persistência do desemprego nas economias desenvolvidas. Pretendo, a seguir, fazer uma breve síntese dessa mensagem para, em seguida, extrair uma conclusão aplicável ao caso brasileiro.
Para começar, os trabalhos de Diamond, Mortensen e Pissarides reforçaram o reconhecimento da relevância do ambiente macroeconômico para explicar a taxa de desemprego, mas levaram também à percepção de que mudanças na macroeconomia podem ter diferentes impactos no desemprego, dependendo dos detalhes microeconômicos do mercado de trabalho.
O desemprego não decorre simplesmente da falta de vagas. Os trabalhos dos laureados reconhecem que, mesmo quando existem vagas de emprego, pode haver gente sem trabalho. Acontece que o mercado está sempre em movimento. Simultaneamente, empregos são destruídos e criados. Trabalhadores são demitidos, outros pedem demissão. Alguns saem do mercado, outros entram. Todos esses fluxos contribuem para a taxa de desemprego, cada um à sua maneira.
Tomemos, por exemplo, o fluxo de trabalhadores que pedem demissão. Esse fluxo não aumenta a taxa de desemprego porque, em geral, quando alguém se demite, já tem outro emprego acertado. Muitas vezes começa a trabalhar já no dia seguinte. Por outro lado, quando as empresas demitem, criam um fluxo que engrossa o grupo dos desempregados, porque os demitidos precisarão de algum tempo para encontrar o novo emprego.
A forma como se dá a procura de emprego pode afetar a taxa de desemprego também. Desempregados que se esforçam e procuram intensamente novas oportunidades as acabam encontrando mais rapidamente. Já os que procuram com menos esforço ficam mais tempo desempregados. Da mesma forma, as empresas podem anunciar suas vagas para um público maior e encontrar candidatos rapidamente, ou podem ser menos eficientes na procura por candidatos e demorar a preencher suas vagas.
O tempo da procura de emprego depende do que os desempregados esperam ganhar no novo posto de trabalho. Cada um tem um salário desejado na cabeça e interrompe a procura quando encontra uma empresa que oferece aquele salário. O salário desejado é uma variável crítica para a taxa de desemprego. Quanto maior, mais tempo leva a procura, mais desempregados permanecem nessa condição e maior a taxa de desemprego.
Pesquisadores comprovaram empiricamente que a generosidade do seguro-desemprego pode aumentar o tempo de procura de emprego. O valor e a duração do seguro-desemprego aumentam o salário desejado pelos desempregados e provocam dois efeitos. Um, ruim, seria o aumento da taxa de desemprego. Outro, bom, seria a qualidade do "casamento" do desempregado com a nova vaga. Como o seguro-desemprego permite uma procura mais calma e cuidadosa, o encontro candidato-vaga é de melhor qualidade e o desligamento será menos provável. Um custo maior para um benefício também maior.
A partir do trabalho dos laureados com o Nobel se reconheceu a importância dos contatos pessoais na procura de emprego. Pessoas bem relacionadas socialmente encontram empregos mais rapidamente. Não é à toa que muitas empresas anunciam as novas vagas para seus próprios empregados, pois o boca a boca é uma arma importante e barata para encontrar as pessoas certas.
Essa teoria toda serviria para o Brasil? Afinal, nos anos recentes, a taxa de desemprego caiu muito e as perspectivas para o mercado de trabalho são favoráveis. Será que precisamos nos preocupar com esses detalhes microeconômicos, quando os aspectos macroeconômicos são tão exuberantes? Na verdade, sim. Temos de nos preocupar porque o crescimento por si só não está conseguindo trazer todos para o emprego.
Há pelo menos dois grupos de brasileiros que ainda sofrem muito com o desemprego: os jovens e os pobres. De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego, a taxa de desemprego entre 15 e 24 anos é de 16% (três vezes maior do que entre 25 e 39 anos). De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a taxa de desemprego entre os 20% mais pobres é de 42% (sete vezes maior do que entre os 20% mais ricos!). Os trabalhadores pobres e os jovens continuam vulneráveis ao desemprego, apesar do bom desempenho macroeconômico recente.
À luz dos ensinamentos de Diamond, Mortensen e Pissarides, pode-se concluir que apenas mais crescimento econômico não garantiria emprego para os pobres e os jovens, porque algo diferente acontece com a sua inserção no mercado de trabalho. Seus empregos têm curta duração, sofrem muita rotatividade. Ficam mais tempo procurando emprego do que empregados. Pode até haver empregos para eles, mas são de curta duração. E, como os jovens e os pobres nessa condição são muitos, a taxa de desemprego permanecerá alta, enquanto não encontrarmos uma solução.
Nos últimos anos, o governo tem procurado adequar o perfil desses trabalhadores às vagas existentes por meio de programas de treinamento. O insucesso dessa política sugere que talvez devêssemos inverter o jogo e simplesmente criar empregos adequados para o seu perfil.

"Tá tudo errado"

"Tá tudo errado"
FERNANDO RODRIGUES - FOLHA DE SÃO PAULO - 18/10/10
BRASÍLIA - Quase ninguém fica até ao final da projeção dos créditos de um filme na tela do cinema. Quem tem paciência no caso de "Tropa de Elite 2" ouve o funk "Tá tudo errado", com MC Leonardo: "Tá tudo errado, é até difícil explicar, mas do jeito que a coisa tá indo, já passou da hora de o bicho pegar".
MC Leonardo está certo. O problema é que "o bicho" não pega nunca. Já quase no final do filme, a personagem principal discorre sobre como "o sistema" impede a solução dos problemas do Brasil.
Em "Tropa de Elite 2" é tudo culpa do "sistema", uma entidade abstrata e inimiga dos bons policiais. No trecho final, uma voz faz essa peroração pela enésima vez. Surgem então belas imagens aéreas da Esplanada dos Ministérios, culminando com o Congresso e a Praça dos Três Poderes.
É aquela sutileza (sic) do cinema de entretenimento local. O narrador aponta o "sistema" como vilão. Ao fundo, cenas de Brasília.
A imagem do Congresso Nacional e a lição de MC Leonardo combinam com o resultado da última pesquisa Datafolha. Menos de 20 dias depois de terem ido às urnas, 30% dos eleitores já não se lembram em quem votaram para deputado federal. E 28% tampouco se recordam de pelo menos um nome escolhido para uma das duas vagas em disputa para o Senado.
Alguém explicará esse fato desolador com a lenga-lenga da baixa escolaridade dos eleitores: gente sem estudo não vota direito. Sofisma puro ou autoengano ingênuo. Educação formal não basta para disseminar valores.
A abulia atávica de parte do eleitorado é a gênese do tal "sistema" malhado em "Tropa de Elite 2". O desprezo ou a indiferença por valores republicanos é parte da cultura nacional -não só dos políticos. Em breve, menos da metade dos eleitores se lembrará em quem votou. Realmente, o funkeiro está certo: "tá tudo errado". Mas os brasileiros puxam a fila desses erros todos.

Skoob

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