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domingo, novembro 14, 2010
Blitzkrieg, tática e estratégia
Blitzkrieg, tática e estratégia
ANTÔNIO PALOCCI FILHO - FOLHA DE SÃO PAULO - 14/11/10
A guerra contra a crise econômica exige paciência, estratégia e coordenação conjunta das nações
A DECISÃO recente do Fed (o banco central dos Estados Unidos) de, até junho do próximo ano, injetar mais US$ 600 bilhões na compra de títulos norte-americanos de longo prazo gerou preocupações e reações de todos os tipos mundo afora. Ostensivamente, o objetivo é baixar a taxa de juros de longo prazo, estimulando o investimento.
Mas se teme que esse aumento da liquidez no mercado americano tenha efeitos negativos sobre os países emergentes de melhor desempenho econômico, valorizando ainda mais suas moedas, em detrimento da competitividade de seus produtos.
A União Europeia se impõe uma consolidação fiscal, na expectativa de que possa haver, mais tarde, uma retomada mais consistente no crédito e nos investimentos.
No outro lado do mundo, a China, que tem procurado diminuir sua dependência das exportações de forma bastante gradual, mantém sua moeda ancorada ao dólar, valendo-se do seu robusto superavit externo.
O resultado desses fatores sugere que os países com melhores políticas cambiais acabarão pagando um alto preço enquanto não se alcança um ajuste harmonioso.
Uma desejada ação coordenada entre as grandes economias vai perdendo fôlego.
O G7 se esfacelou, e o G20, que teve papel importante na primeira onda da crise, tem agora dificuldades em induzir cada país a tomar decisões que diminuam o custo do ajuste global, decorrente do esgotamento da capacidade do consumidor americano de garantir o crescimento da demanda mundial, como ocorreu nas duas últimas décadas.
Pelo tamanho da economia americana -25% da economia mundial e 30% do mercado de consumo global, antes da crise-, a sua recuperação tem impacto sobre todas as nações.
Mas a derrota parlamentar do presidente Barack Obama reduziu sua margem de manobra. Há muita gente que parece gostar de ver democratas e republicanos numa luta sem fim. Acha que assim eles têm menos tempo para atrapalhar os negócios ou estourar o Orçamento. Mas isso é folclore.
O fato é que a reação à crise tornou-se tarefa ainda mais espinhosa para o governo Obama. Se já era difícil fazer a coisa certa, agora só se faz o possível, e o governo ficou com poucos instrumentos além da política monetária, com reflexos importantes sobre todos os continentes.
Esse quadro é preocupante porque uma das razões de a crise financeira de 2008 não ter provocado repercussões ainda maiores na economia real foi a preservação do comércio internacional.
No entanto, as medidas de fechamento comercial no período recente têm sido quase três vezes mais frequentes do que as de abertura.
Por isso, é preciso insistir numa ação minimamente coordenada entre as principais economias, valorizando as boas práticas, que equilibrem fluxos de comércio e fortaleçam o nível de renda do trabalhador nos países emergentes.
Um recrudescimento protecionista terá efeitos deletérios de longo prazo. Proteção comercial é fácil de fazer e difícil de desmontar. Mas será um caminho inevitável se muitos países forem deixados à própria sorte.
O governo brasileiro tem feito um grande esforço nos fóruns internacionais por uma ação mais coordenada. Não deve deixar de fazê-lo. Em um mundo que mostra enorme dificuldade de entendimento, não há outra coisa a fazer senão remar contra a maré quando se defende algo essencial.
A reunião do G20 em Seul, iniciada em ambiente de discórdia, encerrou-se com um vago compromisso de cooperação para sanar os desequilíbrios da economia mundial e as desvalorizações competitivas, um resultado modesto, mas melhor do que o esperado.
Mas não devemos nos iludir: nas guerras, os exércitos normalmente ficam exultantes com o sucesso da tática da Blitzkrieg -a ação relâmpago. Só muito tempo depois descobrem que, concentrados na tática, perdem na estratégia.
A guerra contra a crise econômica exige paciência, estratégia e coordenação. Movimentos táticos isolados produzirão apenas um período mais longo de incerteza.
ANTÔNIO PALOCCI FILHO, 50, deputado federal (PT-SP) e ex-ministro da Fazenda, escreve mensalmente, aos domingos, neste espaço.
Recôndita (des)harmonia?
Recôndita (des)harmonia?
Pedro S. Malan - O ESTADO DE S. PAULO
"Pode-se argumentar, como muitos fazem, que nossa democracia não precisa de República, que aos trancos e barrancos vamos construindo a inclusão política e social, e que preocupação com honestidade política, bom governo, valores cívicos e instituições respeitadas é moralismo pequeno-burguês." Mas, como o autor da citação (José Murilo de Carvalho), espero que haja um número crescente de brasileiros que discorde dessa posição. Os eleitores dirão.
As linhas acima concluíram meu artigo de janeiro de 2010 neste espaço. Bem, dos 135,8 milhões de potenciais eleitores brasileiros, 55,7 milhões disseram Dilma, 43,7 milhões disseram Serra e 36,4 milhões ou se abstiveram de votar, ou anularam seu voto, ou votaram em branco. Maioria é maioria e teremos, pelos próximos quatro anos, uma presidente de todos, e não apenas dos 41% (do total de potenciais eleitores) que a sufragaram explicitamente nas urnas.
O processo eleitoral e seu resultado mostraram que existe sim uma "opinião pública" no Brasil. Que esta não é "esquálida", como Hugo Chávez denomina a oposição que se lhe faz. "Eu não sou um indivíduo, eu sou o povo", diz ele. Por aqui tivemos nosso presidente afirmando, pouco antes do primeiro turno: "A opinião pública somos nós."
Porém, dois domingos atrás, nas suas primeiras declarações - lidas - já como presidente eleita, Dilma Rousseff deu a entender que estaria preparada para deixar de lado os discursos de palanque, e a excessiva dependência, tanto de Lula quanto do sistema de "marquetagem" política, para efetivamente se dedicar a governar o País em nome de todos - em princípio, até 2014.
Afinal, como disse o presidente do PT em entrevista ao jornal O Globo no domingo passado: "(No PT) não existe esse negócio de definir projeto de poder por número de anos. (...) Normalmente, são vertentes autoritárias que trabalham com projetos de poder de longo prazo. O nazismo é que trabalhava com um projeto de décadas."
Mas o presidente do PT sabe que seu partido usa o discurso da "comparação de dois projetos para o País". Um seria o projeto de um "novo modelo", que reúne desejos que ou não haviam ocorrido antes a nenhum outro partido político ou que ninguém, nunca antes, havia sido capaz de implementar com tanta sabedoria, engenho e arte.
Existe um problema no debate, a meu ver, simplório e equivocado, desse discurso maniqueísta dos dois projetos: o bom e o mau. Problema que é, em boa parte, das oposições, como muito bem situado no contexto atual por José Alvaro Moisés em seu artigo de domingo passado no caderno Aliás deste jornal (Qual Oposição?).
Mas existe também um problema não resolvido, interno ao lulo-petismo e bem expresso, desde o início, pelo ex-ministro José Dirceu, o ex-capitão do time, o grande operador político do governo (enquanto lá esteve) e dos bastidores do PT até o presente. Vale lembrar que a resposta do PT - em nota oficial de março de 2004 - ao escândalo Waldomiro Diniz (hoje prescrito e arquivado) foi a de propor... mudanças na política econômica do governo Lula!
Mais de 20 meses depois, em entrevista concedida no dia 27 de novembro de 2005, Dirceu, além de dizer que Lula é "personagem difícil", e "estar indo devagar na implantação de um governo de esquerda", reconheceu que "deveria ter saído do governo quando Lula optou, perto do final de 2004, por seguir o caminho defendido por Palocci". Não o fez porque ainda esperava mudanças. Afinal, como notou (em 23 de novembro de 2004) Teresa Cruvinel, sempre muito bem informada sobre esses assuntos, "o PT tem dois objetivos agora: reconquistar a coordenação política do governo para o ministro José Dirceu e mudar os rumos da política econômica".
Há muita gente no PT que acha que esses rumos vêm mudando desde que Antônio Palocci e Paulo Bernardo tiveram sua proposta - de contenção da velocidade de crescimento das despesas primárias do governo - derrotada ao final de 2005. É público e notório quem disparou o tiro de misericórdia na proposta. Como notou Merval Pereira, "nem nos tempos do todo-poderoso José Dirceu a Casa Civil tinha a audácia de ir tão longe no enfrentamento da política econômica". O silêncio de Lula à época foi revelador do que viria.
A presidente eleita sabe que tem uma tarefa hercúlea pela frente a partir de agora. A presidente eleita sabe que as lideranças políticas de um governo, por meio de suas posturas, suas ações e seus critérios na escolha de suas equipes, emitem poderosos sinais sobre os limites do que constituem comportamentos e inaceitáveis no trato da coisa pública. A presidente eleita sabe, espero eu, ainda que - como o presidente atual - tenha dificuldade política em reconhecê-lo de público, que o Brasil de hoje não começou a ser construído em 2003.
A presidente eleita sabe que a escolha do núcleo duro de seu governo e de seus 37 ministros será um momento definidor das expectativas quanto aos próximos quatro anos. Aguarda-se, com especial interesse, o anúncio da composição completa da equipe econômica da presidente eleita - a quem desejo boa sorte.
O grande risco que corremos é o do excesso de complacência e voluntarismo. O Brasil - e seu futuro governo - tem desafios incríveis à frente. Nas questões de infraestrutura (física e institucional). No nível (excessivo), na composição (distorcida) e na eficiência (precária) tanto do gasto público quanto da arrecadação tributária. Na deficiente qualidade de nossos níveis educacionais, quando comparados aos níveis - muitíssimo melhores - de países que conosco competem. Na necessidade de lidar com questões de longo prazo nas áreas previdenciária, trabalhista e tributária - e pensando no longo prazo.
Em suma, tarefas que exigem mais ação consistente e menos discursos de palanque - que, esperemos, sejam muito menos frequentes a partir de agora.
Economista, foi Ministro da Fazenda no governo FHC
segunda-feira, outubro 25, 2010
O endividamento da União e a disputa presidencial
O endividamento da União e a disputa presidencial
Economia e Infra-Estrutura
Paulo Passarinho - http://socialismo.org.br/portal/
O primeiro turno das eleições presidenciais já se encerrou e nos encontramos em plena disputa do segundo turno, mais uma vez envolvendo os candidatos do PT e do PSDB.
Em 1994 e em 1998, esta disputa também se deu, porém FHC - o candidato dos tucanos à época - acabou por vencer as eleições já no primeiro turno. Em 2002 e em 2006, a decisão apenas se deu no segundo turno.
Há dezesseis anos, portanto, a polarização entre PSDB e PT marca a disputa da eleição mais importante do país.
Contudo, ao contrário do que um eleitor mais desavisado poderia supor, a discussão sobre a realidade econômica e as políticas a serem adotadas pelos candidatos, caso sejam eleitos, continuam a ser escamoteadas.
Em 1994, em meio à euforia do lançamento do Real, a plataforma agressiva das privatizações do PSDB não foi antecipada por FHC, assim como em 1998, no direito a uma reeleição comprada por meio de uma emenda constitucional, o mesmo FHC não deu ciência ao país do acordo em curso com o FMI, provocado pela situação falimentar em que se encontrava o Brasil.
Em 2002, tivemos mais conhecimento da crise que vivíamos, por força de um novo acordo celebrado com o mesmo FMI, e do compromisso, que todos os candidatos acabaram por assumir, em respeitar as exigências que nos eram impostas. O que Lula, o vencedor daquela eleição, não divulgou foi a sua intenção em ser mais realista do que o rei. Já como presidente, sua primeira medida foi aumentar a meta do superávit primário estabelecida inicialmente com o FMI, de 3,75%, para 4,25% do PIB.
Em 2006, forçado a uma disputa com o reacionário Geraldo Alckmin, Lula usou e abusou da pertinente acusação de privatista, contra o seu adversário. O que o mesmo Lula não esclareceu ao eleitorado foi a sua intenção, materializada logo no início do seu segundo mandato, em privatizar o trecho da BR-101, ligando o Rio de Janeiro à cidade de Campos, no norte fluminense.
Esses exemplos mostram muito bem como os candidatos de confiança do sistema financeiro - sistema que parece ser uma espécie de fiel da balança dos políticos de sucesso - agem em relação ao eleitorado.
Agora, em 2010, há um silêncio sepulcral, dos ungidos pelas generosas verbas de campanha, em relação ao grave problema do endividamento da União.
Ao contrário, o candidato tucano - apesar de toda a grita de economistas ligados ao seu PSDB contra a "explosão dos gastos correntes" no governo Lula - promete um salário mínimo de R$ 600,00, reajuste de 10% nas pensões e aposentadorias do INSS e 13º "salário" para o Bolsa Família!!
Demagogias ou falsas promessas à parte, o problema é que temos de fato um sério desafio pela frente. Plínio de Arruda, do PSOL, no primeiro turno das eleições, com toda razão apontou a necessidade de uma séria auditoria da dívida pública do país, conforme uma das conclusões da CPI da Dívida Pública, realizada pela Câmara Federal.
E o problema não é a tal explosão dos gastos correntes, genericamente denunciada pelos economistas liberais, em geral mirando novas mudanças nas regras da previdência.
Desde o lançamento do Plano Real, em julho de 1994, a evolução da dívida em títulos da União é espetacular. E esta é a principal dívida financeira que temos de enfrentar. Em dezembro daquele ano, essa chamada dívida mobiliária da União era de R$ 59,4 bilhões de reais. Ao final do ano seguinte, primeiro ano do mandato de FHC, essa dívida chegava a R$ 84,6 bilhões, com um crescimento nominal em relação a dezembro de 1994 de 42%(!!), correspondendo a 12% do PIB. Para quem possa se espantar com essa evolução, lembro que FHC chega ao final do seu primeiro mandato, em dezembro de 1998, com essa dívida já em R$ 343,82 bilhões, correspondentes a 35,11% do PIB.
As razões desse explosivo crescimento da dívida pública em títulos são decorrentes essencialmente da própria forma de funcionamento da economia, pós-lançamento do Real. A integração financeira do Brasil com os mercados financeiros do mundo, com a livre movimentação de capitais, subordina a política monetária aos humores dos investidores e especuladores internacionais.
De 1994 a 1998, a idéia de um Real "forte" (um real = um dólar) exigia acúmulo de reservas em dólar, de modo a se garantir a equivalência da nova moeda nacional com a moeda dos Estados Unidos. Os juros extremamente elevados e o programa de privatizações de empresas estatais garantiram uma enxurrada de dólares para o país. Entretanto, na medida em que esses dólares são transformados em reais, levando a uma expansão do volume de reais em circulação na economia, o Banco Central entra no mercado vendendo títulos públicos, com o objetivo de retirar o chamado excesso de moeda em circulação.
Houve, nesse período também, a maior parte das renegociações das dívidas de estados e municípios com o governo central, federalizando-se essas dívidas, o que ajudou o crescimento da dívida em títulos da União. Porém, o fator mais importante foi a necessidade do acúmulo de reservas, com base em taxas de juros reais elevadas.
A partir de 1999, com a mudança do regime cambial (até então, relativamente fixo) para o chamado câmbio flutuante, o papel das altas taxas de juros - que continuam a vigorar - passa a ser justificado como instrumento vital para se conseguir manter a inflação projetada para cada ano, dentro das metas definidas pela política monetária. A política econômica passa a ser guiada de acordo com o que recomenda o FMI.
Isso não impede que o país vá novamente recorrer ao FMI, em 2002, e FHC entrega o governo a Lula com a dívida em títulos alcançando o montante de R$ 687,30, correspondentes a 46,51% do PIB. É interessante notar que durante esse período, que se inicia em 1999, o governo federal passa a ter de cumprir metas de superávit primário, nunca inferiores a 3% do PIB. Mesmo assim, nota-se que, sempre em função das altas taxas reais de juros vigentes, a dívida continua em trajetória ascendente.
É essa política que Lula deu continuidade. E é por isso que hoje temos uma dívida em títulos que supera a cifra de R$ 2,2 trilhões, mais de 70% do PIB do país, com uma carga líquida anual de juros sempre superior a R$ 150 bilhões. Ou seja: além de o montante dessa dívida continuar a subir de forma astronômica, há um comprometimento crescente da maior parte do orçamento público da União com o pagamento de juros e amortizações. No exercício de 2009, por exemplo, 36% desse orçamento foram gastos com essa finalidade. Ao mesmo tempo, áreas consideradas estratégicas, como a saúde ou a educação, foram contempladas, respectivamente, com menos de 5% e de 3% desse mesmo orçamento.
Essa é a realidade que Dilma e Serra não querem debater. Mas, essa é uma questão que não deixará de ser enfrentada no próximo governo. Até porque, por força da valorização do Real - decorrente da permanente pressão produzida pelos dólares que entram no país - voltamos a ter déficits em nossas transações com o exterior, o que nos torna ainda mais vulneráveis à necessidade de financiamento em dólares.
A dívida externa, por sua vez, apesar de todas as falsas informações veiculadas, muitas vezes pelo próprio Lula, continua a existir e de forma robusta: hoje já ultrapassa a US$ 300 bilhões. Com reservas internacionais de US$ 280 bilhões, para muitos isso não seria um grande problema. Contudo, frente a qualquer reversão do quadro internacional para uma nova onda de fortes instabilidades nos mercados financeiros, não há dúvidas sobre o preço que pagaremos.
Já se observam fortes pressões para uma nova rodada de mudanças nas regras da Previdência Pública. Trata-se, a rigor, da última variável importante para os liberais, na busca de fontes para novos cortes orçamentários, com o objetivo de se tentar segurar um modelo econômico que tem de ser superado.
Fora outrora, o PT seria um aliado nessa luta.
Hoje, frente ao transformismo desse partido, sua candidata à eleição presidencial é apenas mais uma protagonista da tentativa de se esconder do povo brasileiro a gravidade dessa situação.
20/10/2010
Paulo Passarinho é economista e conselheiro do CORECON-RJ
terça-feira, outubro 19, 2010
Adiar a aposentadoria
Adiar a aposentadoria
Celso Ming - O Estado de S. Paulo - 19/10/2010
Paris está paralisada pelas manifestações contra o projeto do presidente Nicolas Sarkozy que prevê o adiamento por apenas dois anos do início da aposentadoria como medida necessária para reequilibrar as contas da previdência social da França.
A expectativa de vida está aumentando em todo o mundo. As finanças do sistema previdenciário estão quebradas porque os governos (e não só o da França) têm de garantir o pagamento da aposentadoria por mais tempo.
Trata-se de fator relativamente novo que não foi levado em conta quando do estabelecimento das bases atuariais com que se criaram os sistemas de aposentadoria e pensão após a 2.ª Grande Guerra.
Mas, desta vez, não são apenas os trabalhadores que estão se manifestando contra esse projeto que obriga as pessoas comuns a trabalhar por um período mais longo do que trabalharam seus pais.
Fato inesperado são os estudantes, universitários e secundaristas, que vêm agora engrossando os protestos, por outra razão. Porque, argumentam, se for aprovado, o adiamento da aposentadoria manterá por mais tempo fechados os postos de trabalho hoje já escassos. Enfim, dizem os jovens, os coroas têm de desocupar a moita para dar lugar a quem vem vindo aí e esse projeto do presidente Sarkozy não olha para isso. É a questão previdenciária agravando o desemprego.
O problema está longe de se limitar à obtenção de cobertura para o rombo do sistema previdenciário. Todo o regime do Estado do bem-estar social (welfare state) adotado na Europa está sendo duramente questionado. Bem antes da atual crise, as despesas públicas vinham aumentando muito acima da capacidade de arrecadação dos governos e ajustes drásticos já eram recomendados.
Na área do euro, a recessão e a falta de moeda própria para desvalorizar tornaram as coisas ainda mais difíceis. Os déficits orçamentários estão se agravando e as dívidas públicas se multiplicando, como mostram os casos da Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal.
Um dos três economistas laureados este ano com o Prêmio Nobel por seus estudos sobre o emprego, o cipriota-britânico Christopher Pissarides, tem advertido que o seguro-desemprego, tal como praticado nos países ricos, deixou os trabalhadores acomodados demais e excessivamente dependentes dos benefícios proporcionados pelo Estado. E esse já é fator de perda de competitividade, que a crise só está agravando.
Mas essa é uma questão mais complexa. Se o objetivo for limitar-se a resolver tão somente a questão previdenciária, e se não for possível adiar a aposentadoria, tal como sugere o presidente da França, porque sabota o emprego dos jovens, então a solução que sobra talvez seja o aumento da contribuição. No entanto, essa medida por si só implicaria redução da renda real que pode ficar abalada pela estagnação econômica e pelo desemprego.
Este é um momento delicado em que os problemas da casa se multiplicam: o conserto da rede hidráulica agrava o da instalação elétrica que mexe com o piso, com as paredes, com o teto. Passa a impressão de que ficaria mais barato demolir tudo e construir uma casa nova, com novo projeto. Mas qual seria? Esta é a maior crise do capitalismo desde os anos 30 e, no entanto, nenhum partido, nenhum movimento político, nem à esquerda nem à direita, aparece com proposta para a saída da encalacrada.
CONFIRA
Mais do mesmo
O aumento do IOF de 4% para 6% na entrada de capitais para aplicações em renda fixa, 15 dias depois de tê-lo subido de 2% para 4%, desestimula as operações de arbitragem com juros (carry trade) de fora para dentro. (São empréstimos em moeda estrangeira a juros baixos para serem trazidos para cá e tirarem proveito, no mole, de juros bem mais altos.)
Hedge mais caro
O aumento de margem de garantia de 0,38% para 6,0% nas operações com derivativos também reduz as operações no segmento do dólar futuro. O efeito colateral é o encarecimento das operações de hedge feitas por quem precisa se defender contra oscilações no câmbio futuro.
Vai funcionar?
São decisões fortes. Falta saber se terão eficácia. Provavelmente ajudarão a segurar o tombo do dólar. Não se sabe até quando. São resoluções que atingem os efeitos e não as causas do problema.
segunda-feira, outubro 18, 2010
Em contexto: Proteção demais atrapalha
Em contexto: Proteção demais atrapalha
Para enxergar além dos fatos
Carlos Giffoni – Revista ÉPOCA
Nem sempre quem procura emprego acha – mesmo que existam vagas disponíveis por aí. Esse raciocínio simples para qualquer cidadão que tenha se angustiado com o mercado de trabalho alguma vez na vida rendeu o Prêmio Nobel de Economia aos americanos Peter Diamond e Dale Mortensen e ao cipriota radicado em Londres Christopher Pissarides. O grande avanço dos três foi criar um modelo científico que explica esse desequilíbrio, chamado de “fricção” na lei da oferta e da procura.
Até a década de 1970, os analistas usavam apenas a relação entre oferta e procura para explicar o funcionamento dos mercados. Era simples: se havia 500 vagas de emprego e 500 pessoas desempregadas, uniam-se os dois polos e... problema resolvido. Então, por que não dava certo? Pelo mesmo motivo que juntar 15 homens e 15 mulheres numa sala, todos solteiros, não significa que se formarão 15 casais. Há variáveis como a opção sexual, a atração por um tipo físico, os interesses em comum. O mesmo desencontro entre a oferta e a procura acontece no mercado imobiliário e nas compras em geral. Mas o local onde a teoria dos três mais avançou foi o mercado de trabalho.
O ponto mais importante das teses – e que virou uma espécie de campo de estudos – é a Teoria da Busca. Ela analisa os custos (de dinheiro, tempo, energia) envolvidos na procura do empregado certo ou da vaga mais atraente. “Assim como você não compra o primeiro carro que vê, não deve aceitar a primeira oferta de emprego”, diz Aloisio Araújo, professor de pós-graduação da Fundação Getulio Vargas. “É bom para você e para a economia que haja procura, para haver um encaixe melhor entre suas habilidades e as necessidades do mercado.”
Da Teoria da Busca surgiram as primeiras conclusões interessantes, que se desviam do senso comum. Uma delas mostra que benefícios sociais como o seguro-desemprego, embora ajudem o cidadão que recebe a pensão, têm um efeito secundário perverso. Ao dar ao desempregado um salário, o benefício diminui os custos da procura. Com o estipêndio garantido, a pessoa pode prolongar demais a busca da “vaga ideal”. E, ao esperar demais, ela acaba com grandes chances de ficar defasada tecnicamente.
Um raciocínio similar vale para a legislação que protege demais o trabalhador, comum na Europa... e no Brasil. O sistema de proteção – com multas para quem demite, impostos para criar uma rede de segurança, encargos extras para o patrão – dificulta a demissão. Mas, por isso mesmo, freia as contratações: as empresas pensam duas, três, cinco vezes antes de se comprometer com tamanho custo. Como resultado, a rotatividade do mercado de trabalho cai, e quem está desempregado tende a demorar mais para conseguir vaga.
Esse é um dos temas mais polêmicos nos debates de políticas públicas em todo o mundo. O Nobel dá um pouco mais de força à visão liberal. E pode também garantir um emprego para Diamond. Ele havia sido indicado para conselheiro do Fed, o banco central dos Estados Unidos, e o Senado havia expressado reservas a sua “pouca experiência técnica”. Com o prêmio, sua aceitação ficou mais provável.
quinta-feira, setembro 23, 2010
Afrouxar ou não afrouxar
Afrouxar ou não afrouxar
Celso Ming - O Estado de S.Paulo - 23/09/2010
A necessidade de despejar mais recursos públicos nos Estados Unidos para reativar a economia não está sendo encarada apenas como providência que, em última análise, vai melhorar o desempenho do setor produtivo global. Começa a ser avaliada como ameaça à estabilidade cambial no resto do mundo.
No momento, a ficha da economia americana é um tanto desoladora. O PIB deste ano não deve crescer mais do que 2,5%; o desemprego é recorde, 9,6% da força de trabalho; os juros básicos rastejam quase nada acima de zero por cento ao ano e tão cedo não subirão; o rombo orçamentário será de US$ 1,5 trilhão no exercício fiscal que termina dia 30; a dívida líquida passa de US$ 8,9 trilhões e deverá saltar para US$ 11,1 trilhões em 2011.
As críticas à administração econômica do presidente Obama se multiplicam. Em apenas três meses, dois dos mais importantes assessores econômicos da Casa Branca, Christina Romero e Larry Summers, saíram do governo. O último comunicado do Fed (banco central) foi lancinante. Reconheceu que o setor produtivo não reage, que o risco de deflação aumenta e que os efeitos ruins sobre o emprego são preocupantes.
Para enfrentar esse quadro, o Fed avisou que pode aprovar novo plano de afrouxamento quantitativo. Trata-se de emitir moeda para recomprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos, com o objetivo de criar condições para a retomada do crédito e do consumo.
Há meses essa proposta passeia pela mesa do presidente do Fed, Ben Bernanke. E uma das poucas razões que o levam a contar até 100 antes de tomar essa decisão são as dúvidas sobre sua eficácia. Até agora, o Fed enfiou para dentro de seu balanço US$ 1,7 trilhão em títulos privados e outros US$ 300 bilhões com recompra de títulos do Tesouro americano. O Congresso aprovou também US$ 150 bilhões em cortes de impostos mais os US$ 700 bilhões do Programa de Alívio para Ativos Problemáticos (Tarp). A título de resultados, vê-se que o pânico foi debelado, mas foi só. Não há sinal de retomada de contratações de pessoal.
A mais provável razão desse insucesso é a de que o despejo desses recursos não teve como objetivo investimentos em infraestrutura, como recomendava Keynes. Foi dinheiro usado no socorro aos bancos, na recompra de títulos de crédito desacreditados do setor privado e, em alguma medida, na criação de mercado para títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Embora alguns analistas insistam em que será preciso aumentar as despesas públicas para garantir a retomada, o Congresso tenderá a rejeitar essa ideia, dado o tamanho do rombo fiscal americano.
Assim, resta a máquina monetária. Os mercados reagiram com ceticismo à manifestação do Fed porque não se trata de botar em marcha projetos de investimento em infraestrutura, mas de novas rodadas do chamado afrouxamento quantitativo, cujo principal efeito será a desvalorização do dólar não só diante das outras moedas, como também de outros ativos (ouro, commodities, imóveis). Em dois dias, o simples anúncio do Fed provocou alta de 2,3% no euro e de 0,9% no ouro.
O que se pergunta agora é se providências dessa natureza não acionarão políticas de defesa cambial ao redor do mundo, que, na prática, neutralizarão os efeitos desejados pelo Fed.
sábado, setembro 18, 2010
Mais de quase nada
Mais de quase nada
Celso Ming - O Estado de S. Paulo - 16/09/2010
Há meses, o ministro Guido Mantega avisa que está preparando um pacote de decisões do governo destinadas a evitar a excessiva valorização do real, mas não consegue inventar nada de especialmente poderoso para reverter a tendência do câmbio.
Apesar da multiplicação das advertências de que a saída de dólares por meio do forte aumento das importações pode provocar fuga de capitais, continua entrando mais moeda estrangeira do que saindo e isso empurra as cotações do câmbio para baixo.
Mas o que fazer para reverter esse jogo que vai tirando competitividade do setor produtivo brasileiro, porque encarece em dólares os bens exportáveis que têm custos em reais?
O problema começa quando se pretende definir o que é "excessiva valorização do real", o que implica eleger um piso abaixo do qual o governo não deixará que as cotações deslizem.
Em seguida, trata-se de saber como agir. Como não dá para voltar ao câmbio fixo, fazer alguma coisa será quase inevitavelmente tirar mais de quase nada. É, por exemplo, levar o Banco Central a aumentar suas compras de moeda estrangeira e incrementar as reservas. Mas já se viu que, além do custo da operação, hoje de US$ 18 bilhões por ano, essa exibição de exuberância contribui para atrair ainda mais moeda estrangeira ou para impedir que saia (o que dá mais ou menos no mesmo), e, dessa maneira, injetar mais combustível para uma maior valorização do real.
A ideia de acionar as compras de moeda estrangeira por meio do Fundo Soberano do Brasil também não muda em muito as coisas. Para isso, o Fundo deverá contar com abundantes recursos fiscais, o que não acontece. E adquirir dólares com reais obtidos com a venda de títulos públicos significa aumentar o endividamento bruto para obter efeito limitado.
Às vezes, o ministro Mantega lamenta a forte entrada de dólares no mercado de ações e no de renda fixa. No entanto, quem quer capitalizar a Petrobrás na maior operação dessa natureza em todos os tempos; quem quer arrumar mais recursos para Banco do Brasil, BNDES, Caixa, Eletrobrás e para as empresas brasileiras que precisam crescer tem de aceitar a maciça entrada de dólares. Quem quer borboletas tem de tolerar a ação das lagartas - já ensinava o Pequeno Príncipe.
A Selic, é claro, precisa cair para reduzir a desproporção entre juros internos e externos e, assim, evitar a especulação. Mas, ao contrário do que tanta gente pensa, os juros altos demais no Brasil não são manifestação de perversidade do Banco Central. São consequência do que está aí, que, no fundo, tem a ver com o baixo índice de poupança interna e com a enorme propensão ao aumento do gasto público, que obriga o Brasil a ter a dívida que tem.
Também não faz sentido taxar com IOF a entrada de capitais, num momento em que o País precisa desesperadamente de recursos para desenvolver o pré-sal, o trem-bala, as obras da Copa do Mundo, da Olimpíada e para tanta coisa mais.
A falta de opções pode ser chocante, mas é um dado da realidade. Para compensá-la, não faz sentido pretender segurar o dólar no grito. A economia do Brasil está pagando no câmbio o preço do bom desempenho até mesmo durante a maior crise desde os anos 30.
A arrecadação bombeia A arrecadação do governo federal segue batendo recordes. Foi em agosto 15,3% mais alta do que em agosto de 2009. E na acumulada do ano foi 12,6% mais alta.
É o consumo... O principal fator que puxou a arrecadação foi o forte crescimento das vendas, de 14,2%, no período de sete meses imediatamente anterior a agosto. É mais um indicador que confirma a expansão do consumo em consequência do aumento das despesas públicas, do avanço do crédito e do esticão da massa salarial.
Cresce pressão para governo conter a valorização do real Valor Econômico – Editorial - 17/09/2010
Cresce pressão para governo conter a valorização do real Valor Econômico – Editorial - 17/09/2010
O exemplo do Japão jogou mais lenha na fogueira da discussão a respeito da valorização do real. Pela primeira vez em seis anos, o governo japonês interveio fortemente no câmbio nesta semana. A venda de 1 trilhão de ienes fez a moeda cair 3%, depois de atingir a maior cotação em 15 anos.
A ação unilateral recebeu críticas generalizadas dos Estados Unidos e da União Europeia porque enfraquece as tentativas de se pressionar a China para abandonar a política de câmbio deprimido. A realidade é que um câmbio depreciado turbina as exportações e ajuda na recuperação econômica.
A desvalorização do dólar, em consequência do enfraquecimento da economia americana e dos juros perto do zero, é uma dificuldade extra.
Mercados emergentes cuja economia estão em melhor situação, que têm câmbio flutuante, juros elevados, como o Brasil, estão sendo particularmente afetados porque recebem um fluxo intenso de capital, o que acentua a apreciação cambial.
Mas o arsenal de instrumentos do Brasil para enfrentar o problema é limitado, dentro das regras atuais de câmbio flutuante, com mínimas intervenções. A principal delas é a compra da moeda americana. Desde maio de 2009, o Banco Central (BC) compra dólares no mercado com o objetivo oficial de apenas absorver os excedentes, sem interferir na cotação. Foram enxugados US$ 24,038 bilhões no ano passado; e US$ 19,42 bilhões neste ano até 10 de setembro.
A atuação do BC vem mantendo o real praticamente estabilizado, embora em níveis históricos elevados. Em setembro, porém, o início da venda de ações da Petrobras fez o real subir 2,4% até agora, com a expectativa de grande ingresso de capital externo para a compra dos papéis. Nos dez primeiros dias de setembro, o BC chegou a realizar dois leilões diários de compra de dólares para segurar a cotação da moeda americana e foram adquiridos US$ 815 milhões.
O resultado foi pífio. Calcula-se que 20% a 30% dos R$ 128 bilhões obtidos com a venda das ações virão do exterior, o que significa a entrada de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões.
Na contramão, o Tesouro foi ao mercado internacional e captou US$ 550 milhões com a venda de títulos. Mas isso é até pouco quando comparado com o fluxo de recursos de outras fontes. Nos dez primeiros dias de setembro, o saldo do fluxo cambial ficou positivo em US$ 2,114 bilhões. O número vai aumentar consideravelmente nos próximos dias com o início da reservas de ações da Petrobras.
A política de compra de dólares tem contraindicações. Uma delas é o custo de esterilizar os reais injetados na economia. O enxugamento do dinheiro custa o equivalente à taxa básica Selic, atualmente em 10,75%, bem mais do que os juros obtidos na aplicação das reservas no mercado internacional.
Outro problema é incentivar os bancos que estão apostando na valorização do real. As posições vendidas em dólar dos bancos estão ao redor de US$ 13 bilhões, quase seis vezes mais do que os US$ 2,983 bilhões de abril, quando os bancos começaram a se posicionar contra o BC. Há ainda posições vendidas no mercado futuro ao redor de US$ 12 bilhões.
Por isso, foi fugaz o impacto no mercado das declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que afirmou que o governo tem "cacife" para comprar dólares. Mantega disse que o governo tem condições de neutralizar o impacto da capitalização da Petrobras no mercado de câmbio com os R$ 16 bilhões que o Fundo Soberano possui em carteira e também com recursos ilimitados provenientes do Tesouro. Mais simples, porém, será fechar o câmbio da venda das ações da Petrobras fora do mercado. É o que o BC costuma fazer com grandes operações, como a da venda dos papéis do Santander em 2009. Essas operações fora de mercado não afetam a cotação e os recursos vão diretamente para as reservas.
A Fazenda não esconde que estuda outras alternativas como as operações de "swap" reverso, que equivalem à compra de dólares no mercado futuro. Outra alternativa seria inibir as posições vendidas de câmbio dos bancos, possivelmente com maiores exigências de capital para bancar esse tipo de negócio.
A realidade é que o governo vem usando o arsenal de medidas para conter o câmbio com parcimônia, quando comparado com as práticas internacionais. Ao menos até o fechamento da capitalização da Petrobras e as eleições, nada drástico deverá ocorrer.
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