segunda-feira, novembro 15, 2010

G20, câmbio e sustentabilidade

G20, câmbio e sustentabilidade
RICARDO YOUNG – Folha de São Paulo
Mais uma reunião multilateral, nenhum acordo razoável. Desta vez, a crise cambial, se não contida, ameaça literalmente "derreter" os ativos de países, empresas e pessoas.
Na semana passada, o G20 reuniu-se em Seul, na Coreia, com o objetivo de tentar estabelecer controles mínimos sobre o sistema financeiro internacional, para evitar, mais uma vez, a bancarrota. Novamente, os aparentes esforços foram quase inúteis.
Os chefes de Estado ali presentes concordaram em assinar um documento com "recomendações" -como se recomendações bastassem! O sistema financeiro global doente, e a "junta médica" faz recomendações... Dentre elas, o G20 legitimou os controles dos países para conter o fluxo de dólares e a desvalorização das moedas locais; ampliou a representação dos emergentes no FMI; e reconheceu que os países desenvolvidos terão de ser mais vigilantes em relação aos efeitos negativos de suas políticas cambiais.
Decisões mesmo só em 2011, em uma prática cada vez mais comum de "empurrar com a barriga" tudo que exige coragem e determinação. Enquanto isso, mais de 160 países que não fazem parte do G20 -e não têm voz em nenhum organismo multilateral- precisam "se virar" para fazer frente à queda de braço entre EUA e China, que não parecem dispostos a abandonar as desvalorizações constantes das suas moedas, como forma de exportar mais e desafogar os seus déficits públicos.
Faltou vontade política ao G20 para dar um basta nesta farra cambial. A continuidade destas políticas de desvalorização artificial vai aprofundar a crise financeira e econômica no mundo, ameaçando ainda mais os cidadãos com desemprego e inflação, bem como destruindo o comércio internacional. A indecisão do G20 em assumir atitudes mais contundentes para segurar a especulação financeira pode acelerar os efeitos de outra crise que está apenas anunciada e cujos efeitos mal conseguimos imaginar: a crise do modelo de civilização que adotamos -baseado no uso intensivo e perdulário dos recursos naturais-, cuja decorrência mais comentada, o aquecimento global, é apenas a ponta do iceberg. Como avestruzes, creem que a solução para a economia global se limita a fluxos financeiros e a consumo.
Sim, vivemos duas crises que correm em paralelo e que vão se cruzar em algum momento. Poucos entenderam que não haverá solução para a crise financeira se não encontrarmos a saída para o modo de produzir e consumir que vigora desde o início da era industrial. Controlar e induzir o capital para a inovação, para a emergência de uma economia verde, inclusiva e responsável. Este é o caminho para a superação das ameaças.
Quanto tempo ainda para nos convencermos?
RICARDO YOUNG escreve às segundas-feiras nesta coluna.

Popularidade e voto

Popularidade e voto
José Roberto de Toledo - O ESTADO DE S. PAULO
Há uma relação direta entre a popularidade de um governante e a chance de ele ser reeleito, ou de ao menos influir na sua sucessão. A questão é onde passa a linha que separa vencedores e vencidos. O ranking de governadores do Ibope dá pistas.
Esta é a primeira classificação, com todas as 27 unidades da Federação, divulgada após a eleição.
Comparando as pesquisas com o resultado das urnas, surgem duas perguntas. Qual patamar de aprovação garante sucesso eleitoral? Ou, ao contrário, qual nível de desaprovação leva o governante inevitavelmente ao fracasso?
O ranking dos governadores tem base nas pesquisas de avaliação realizadas pelo Ibope entre setembro e outubro. Embora as datas não sejam idênticas, são próximas o suficiente para permitir a comparação.
A régua é o "saldo" da avaliação: taxas de "ótimo" e "bom" subtraídas das de "ruim" e "péssimo". O "regular" não entra na conta. Quanto maior o saldo, melhor a posição do governador no ranking. O desempate é pelo porcentual de "ótimo" mais "bom", isto é, de aprovação.
Governador do Ceará, Cid Gomes (PSB) tem 60% de ótimo/bom e 10% de ruim/péssimo. Seu saldo é de 50 pontos, o mesmo do governador do Acre, Binho Marques (PT). Mas Cid ficou na frente, em 6.º lugar, porque mais eleitores aprovam seu governo (60% a 57% do petista).
A correlação entre boa avaliação e desempenho eleitoral fica evidente no quadro. Dos 16 governadores que obtiveram saldo superior a 30 pontos, nada menos do que 14 foram reeleitos ou elegeram seus sucessores.
Dos dois restantes, o tucano João Cahulla perdeu no segundo turno em Rondônia, e Orlando Pessuti (PMDB) desistiu de concorrer e praticamente não influiu na eleição paranaense. Ele era vice de Roberto Requião, que se elegeu senador.
Os três primeiros colocados no ranking de governadores foram também os que alcançaram as maiores vitórias proporcionais nas eleições estaduais - diretamente ou por um herdeiro político.
O mais bem avaliado, Paulo Hartung (PMDB), do Espírito Santo, é quem mais se aproxima, em popularidade, de Luiz Inácio Lula da Silva. Tem 76% de aprovação (25% de "ótimo" mais 51% de "bom") e saldo de 73 pontos.
O presidente tem 80% de aprovação (34% "ótimo" mais 46% "bom") e saldo de 76 pontos. Ambos não puderam disputar a segunda reeleição seguida e preferiram ficar em seus cargos até o final do mandato.
Lula elegeu Dilma Rousseff (PT), no segundo turno, com 56% dos votos válidos. Hartung elegeu Renato Casagrande (PSB), no primeiro turno, com 82% dos válidos. Ao contrário de Dilma, Casagrande tem histórico eleitoral, e vitorioso.
Segundo colocado no ranking, Eduardo Campos (PSB) teve 72% de aprovação, 69 pontos de saldo e acabou reeleito com 83% dos votos válidos em Pernambuco.
Em terceiro ficou Omar Aziz (PMN). Ele era vice de Eduardo Braga (PSB), assumiu o governo quando este renunciou para disputar o Senado, e acabou sendo eleito com 68% dos votos válidos, mesmo porcentual de aprovação do seu governo.
Na parte de baixo da tabela, onde estão os governadores mais mal avaliados, ninguém se reelegeu ou conseguiu fazer seu sucessor. Dos cinco que tiveram saldo inferior a 10 pontos, três perderam a eleição e dois ficaram à margem do processo.
Restam, portanto, 6 governadores que alcançaram saldo entre 13 e 26 pontos. Quatro deles tentaram a reeleição, mas apenas um teve sucesso: José de Anchieta (PSDB), em Roraima. Os outros três acabaram em segundo lugar nas urnas.
Cenários. Antes de tirar conclusões, convém lembrar que a política é dinâmica: o cenário muda, e sempre é determinante no desempenho dos protagonistas nas eleições.
Com a economia e o consumo crescendo, o grau de satisfação do eleitorado estava mais alto este ano do que em pleitos anteriores. É como se o patamar mínimo de aprovação tivesse sido elevado para todos os candidatos ao Executivo.
Assim, a linha de 2010 pode não valer para 2014. Ressalva feita, percebe-se que:
1. Se o governante tiver saldo negativo, melhor não disputar a reeleição. Se apoiar um candidato, corre o risco de atrapalhar mais do que ajudar.
2. Se o saldo for positivo, mas inferior a 20 pontos, ele tem mais chances de perder do que de ganhar a eleição.
3. Não existe garantia de vitória, mas um saldo igual ou superior a 45 pontos está bem perto disso. Se perder, terá o consolo de ser um pioneiro.
4. Saldo entre 25 e 45 pontos torna o governante favorito ou o principal eleitor de sua própria sucessão - embora uma zebra ocorra a cada seis pleitos.
5. A taxa de "ótimo" é melhor indicador do que a de "bom", mas o saldo é ainda mais importante do que a simples soma de ambas.
6. Vice-governadores que herdam governos populares só mantêm o sucesso dos titulares quando são expostos a intensiva propaganda eletrônica ao lado de seus padrinhos.
7. Existe transfusão eleitoral de um governante para seu candidato à própria sucessão. Não existe transferência de votos entre cargos diferentes. Lula elegeu Dilma. Governadores seus aliados se reelegeram, ou a seus sucessores, por mérito próprio.

Fani


Pesos e medidas

Pesos e medidas
CRISTINA GRILLO
RIO DE JANEIRO - Um homem procurado pela polícia sob suspeita de ter estuprado 40 mulheres apresenta-se à delegacia, é reconhecido por três de suas vítimas, confessa os crimes e é solto.
Uma mulher procurada pela polícia sob suspeita de ter mantido relações sexuais com uma aluna de 13 anos apresenta-se à polícia, confessa o crime, revela que o relacionamento já dura seis meses e é presa.
Os dois fatos aconteceram no Rio em 27 de outubro, quatro dias antes do segundo turno das eleições.
No primeiro caso aplicou-se o artigo 236 do Código Eleitoral: de cinco dias antes a dois dias depois das eleições, eleitores só podem ser presos se houver flagrante, se tiverem condenação por crime inafiançável ou por desrespeito a salvo conduto. No segundo caso, há indícios de que a aplicação da lei não foi tão rigorosamente observada.
Não se trata de defender esse ou aquele personagem. A questão é simples: a lei é para todos.
A liberação do suspeito dos estupros atendeu à legislação: não houve flagrante, pois ele se apresentou por vontade própria.
Já na detenção da professora, há dúvidas. A se acreditar no que afirma sua mãe, a prisão foi ilegal.
Em depoimento à repórter Diana Brito, a mãe contou que, ao ligar para a delegacia de madrugada para informar que a filha se apresentaria, ouviu dos policiais que não seria seguro saírem sozinhas de casa àquela hora.
Os policiais teriam então se oferecido para, em escolta, acompanharem a suspeita à delegacia. Chegando lá, foi presa em flagrante. Se tivesse ido sozinha, não haveria base legal para a prisão.
Desde então, está presa. Divide cela com nove detentas em Bangu 8, presídio de segurança máxima.
O suspeito dos 40 estupros cumpriu o que havia prometido: apresentou-se à delegacia passado o período previsto pela legislação eleitoral. Também está preso.

Sinal de alerta

Sinal de alerta
VALDO CRUZ
BRASÍLIA - A crise do banco PanAmericano deveria fazer a presidente eleita Dilma Rousseff refletir um pouco mais sobre a escolha de seu presidente do Banco Central.
A despeito das falhas de fiscalização, a solução dada pelo BC ao banco quebrado de Silvio Santos foi rápida, sem provocar grandes solavancos no mercado.
A atuação de Henrique Meirelles foi elogiada por gente do governo, do mercado e por aliados políticos. Passou segurança, coisa de gente que veio e conhece bem o funcionamento do sistema financeiro.
Manter Meirelles, pelo que comentam assessores de Dilma, está fora de cogitação. Não é isso, porém, que merece reflexão por parte da futura presidente.
Segundo amigos, antes mesmo da crise do PanAmericano, ela estava dividida entre uma solução caseira ou um nome de fora. No primeiro caso, sua opção seria promover a presidente o diretor de Normas, Alexandre Tombini.
Até pouco tempo, ela tendia a nomear Tombini, que conta com apoio dentro do PT e do Palácio do Planalto. Seria um nome sem compromissos com o mercado.
Um assessor confidenciou, contudo, que ela costuma lembrar que os últimos presidentes do BC vieram do mercado e trouxeram diretores com experiência no dia a dia do sistema financeiro.
Um modelo que deu certo com Armínio Fraga, no governo FHC, e Meirelles, com Lula. Só que, por conta da pressão de petistas, os diretores vindos do mercado foram saindo aos poucos.
Como seria a reação de um BC formado só com prata da casa diante de uma crise mais grave? Claro que não dá para dizer que seria insatisfatória. A turma caseira pode muito bem dar conta do recado. Fica, porém, a dúvida.
É nesse cenário, agravado pela crise do PanAmericano, que Dilma deverá definir seu BC. Meirelles está fora, mas ela deve estar sendo aconselhada a dar uma olhada para o mercado.

Humberto, para o Jornal do Commercio


Inconsistências contábeis

Inconsistências contábeis
Paulo Brossard - ZERO HORA (RS)
Como ocorre em países que adotam o sistema presidencial, especialmente quando há mudança de orientação partidária na chefia do governo, e a despeito de não ser esta a situação em que vive o país, tanto que o presidente expirante elegeu sua candidata, em cuja campanha ele pintou e bordou, já aparecem sinais do que ocorre ou pode ocorrer, quando o presidente que vai sair é uma espécie de ser insepulto e o presidente eleito é, ainda sem ser. E o presidente, embora em fim de mandato, pode criar situações desastrosas para o que vai ser. Mas isso é da lógica do sistema presidencial.
Vários são os fatos que têm vindo a público depois da eleição e que poderiam ser funestos se divulgados antes dela. Vou indicar um ou outro. O do Enem – Exame Nacional do Ensino Médio é um deles. Pela segunda vez, desde que concebido, o programa veio com cólicas, que molestaram uma parte de alunos. O fato começou negado, depois minimizado e, por fim admitido, mostrou que, se não tinha meios para fazer bem feito, não deveria insistir na brincadeira, por mil e uma razões, inclusive pelas despesas, que não são poucas.
As primeiras declarações do presidente foram terminantes e pontificiais como um senhor de terras e mares, “foi um sucesso total e absoluto”. Não demorou, e ainda categórico, afiançou “vamos investigar o que aconteceu efetivamente no Enem, e a Polícia Federal já está em campo”. Se isto fosse dito por um rancoroso adversário ou desafeto pessoal, teria uma explicação, mas dito pelo presidente é muito mais significativo, pois o presidente ao dizer que a “PF já está em campo”, é que sabe o suficiente para reconhecer tratar-se de ilícito grave.
Mas não é só. Embora se diga que o governo não ignorava o fato antes das eleições, sabe-se agora, que no Banco Panamericano ocorreu desvio de proporções sesquipedais e, não obstante, o Banco Central nada viu, os peritos também. Não devo e não quero entrar nessa selva selvaggia, que importa em R$ 2,5 bilhões que o presidente do Banco Central suavizou com a delicada expressão de “inconsistências contábeis”, ficou apenas um dado já confirmado: a Caixa Econômica Federal, sem notar nenhuma “inconsistência”, adquiriu 49% das ações do Banco Panamericano. Adquiriu de qual acionista? Não se sabe. Mas se sabe que os peritos da Caixa Federal que examinaram o negócio também nada viram que aconselhasse um pingo de prudência. E da CEF não se ouviu uma palavra de esclarecimento a respeito da escabrosa operação. E tudo vai ficar como dantes no quartel de Abrantes?
E para não dizer que não falei de flores, ocorre-me notar que não é ofício de jornalista fuxicar nos quadros funcionais da equipe de transição da presidente eleita, como de uma profissional que pediu demissão antes de entrar em exercício, pois teria um caso a esclarecer, e outro, de cabeleireira gaúcha contratada como secretária com remuneração de R$ 6.800 mensais.
Tenho visto muita coisa no serviço público e não sei se as “equipes de transição” obedecem às regras gerais que disciplinam a administração, aliás expressas na Constituição, ou se disciplinadas por regras próprias; aliás, ainda não sei se a secretária foi contratada não por ser secretária, mas por ser cabeleireira; ainda que ambas as aptidões possam ser conjugadas. A mesma pessoa pode ser excelente secretária e sofrível cabeleireira ou o inverso, sofrível secretária e excelente cabeleireira. E pode também ser secretária insuficiente e deficiente cabeleireira. De modo que também é difícil saber se a remuneração de R$ 6.800 é razoável, justa ou suspeita. De qualquer sorte, perquirindo os relatórios administrativos não encontrei precedente ilustrativo, de maneira que aí talvez esteja a oportunidade da presidente eleita enriquecer a praxe administrativa. De todas as hipóteses possíveis, só me arrisco a adiantar que, sendo gaúcha, cabeleireira-secretária ou secretária-cabeleireira, deve ser competente...
*Jurista, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal

Hino da Proclamação da República

Abaixo de R$ 140

Abaixo de R$ 140
FERNANDO DE BARROS E SILVA – Folha de São Paulo
SÃO PAULO - Um tanque de gasolina. O preço de dois ou três livros. Um jantar razoável para duas pessoas. Tudo isso pode custar R$ 140. Pense no quanto você gastou nesses dias de feriado. Mais de 30 milhões de pessoas (15,5% da população) ainda vivem com menos de R$ 140 por mês no Brasil. Há dez anos eram 57 milhões de pessoas (33,3% da população) nessa condição.
Seria o caso de comemorar e de ter vergonha ao mesmo tempo. Dos quase 31 milhões de miseráveis, 12,4 milhões ainda são considerados "indigentes". É como são chamados, tecnicamente, aqueles que sobrevivem com renda mensal de até R$ 70. Temos alguma ideia de como é a vida dessas pessoas?
O problema, na verdade, é maior. O próprio governo reconhece, na reportagem publicada ontem pela Folha, que R$ 140 mensais per capita (que define o teto da clientela do Bolsa Família) é um valor ridiculamente baixo. A economista Lena Lavinas, da UFRJ, defende que a definição de pobreza seja reconsiderada: quem vive com menos de 60% da renda familiar média per capita (R$ 465), ou seja, com até R$ 280 mensais. No momento em que Dilma promete erradicar a miséria, seria bom aproximar um pouco a nomenclatura da realidade.
O governo Lula, no entanto, entre tantos erros e acertos, teve o grande mérito histórico de dar visibilidade aos pobres, alargando a percepção do país sobre si mesmo. Lula fez com que os pobres se vissem como portadores de direitos sociais e protagonistas da política.
A questão da miséria está colocada em novos termos no centro do debate nacional -menos do que poderia ter sido, para parte da esquerda; com os vícios do paternalismo e do clientelismo, para outros; de modo incômodo para uma fração das classes médias e altas, inconformadas com "esses nordestinos". As reações, muitas vezes antagônicas ou regressivas, sinalizam que, apesar da pasmaceira da política, algo se mexe na iníqua paisagem social brasileira.


Nani, para Charge Online


''Espero que Dilma não se cubra com o véu quando visitar o Irã''

''Espero que Dilma não se cubra com o véu quando visitar o Irã''
Gustavo Chacra / Correspondente / Nova York - O ESTADO DE S. PAULO
Ativista diz lamentar que Lula não visitou sindicalistas presos quando foi a Teerã e pede a presidente eleita que ajude na luta das mulheres iranianas por liberdade
Demonstrando insatisfação com a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a iraniana e Nobel da Paz de 2003, Shirin Ebadi, recebeu o Estado em um hotel de Nova York para enviar uma mensagem para Dilma Rousseff. Na avaliação dela, "Lula visitou Teerã, abraçou (o presidente, Mahmoud) Ahmadinejad, deu-lhe um beijo no rosto e partiu. Mas parece ter se esquecido que pessoas são mortas e postas na prisão no Irã."
Qual a sua opinião sobre a iniciativa do Brasil de negociar a questão nuclear com o Irã?
Em geral, prefiro negociações para resolver os problemas. Mas o Brasil não foi capaz de resolver nada. A forma de agir do governo brasileiro não foi positiva. Na verdade, Lula visitou Teerã, abraçou Ahmadinejad, deu-lhe um beijo no rosto e partiu. Parece ter-se esquecido que pessoas são mortas e colocadas na prisão no Irã. Enviei mensagens a Lula, que foi um sindicalista, dizendo a ele que se encontrasse com as famílias de trabalhadores iranianos que estão na prisão por suas ligações com os sindicatos. Quando Lula esteve no Irã, (Mansour) Osanlou, um líder sindical como ele, já cumpria pena de cinco anos. A Organização Mundial do Trabalho pediu a sua libertação, mas Lula o ignorou. Osanlou tem diabete, problema de visão e está com paralisia. Embora o médico tenha dado certificado para ele deixar a prisão para se tratar, o governo não autorizou.
Há também dezenas de mulheres presas atualmente no Irã. A sra. espera que Dilma Rousseff faça algo para ajudá-las?
Depois de 1979, uma série de leis discriminatórias contra as mulheres foram aprovadas no Irã. A vida de uma mulher equivale à metade da de um homem. Por exemplo, se um homem e uma mulher saem para a rua e são atacados, a indenização que a mulher receberá será o equivalente à metade da do homem. Na Justiça, o testemunho de duas mulheres equivalem ao de um homem. Um homem pode casar com quatro mulheres. E existem várias outras leis discriminatórias. A presidente eleita, como mulher, certamente não concorda com essas leis. E as mulheres iranianas tampouco as aceitam. Mas, quando elas protestam contra a legislação, são detidas por ter agido contra a segurança nacional, segundo o governo. As advogadas que as defendem também acabam nas prisões. Uma destas advogadas é minha colega Nasrin Soutodeh. Ela foi presa há dois meses. Desde o domingo, está em greve de fome. Estamos preocupados com a vida dela. Gostaria que a nova presidente do Brasil a ajudasse. Todas as mulheres, muçulmanas ou não, que cheguem ao Irã, têm de cobrir a cabeça. É uma lei estranha, pois quem não é muçulmana não precisa usar o véu. Por favor, diga à sua presidente, em meu nome, para ela não se cobrir com o véu se for ao Irã. Não precisa ter medo da lei no Irã. Por ser presidente, possui imunidade diplomática. Alguém precisa mostrar ao governo do Irã que esta lei não é correta.
Então sua mensagem para Dilma é para ela não se cobrir quando for ao Irã?
Sim, e também conversar com movimentos independentes de mulheres, não apenas as que estão no Parlamento.
Fala-se muito sobre a situação de Sakineh Ashtiani no Brasil. E as informações são muitas vezes diferentes. Um dia dizem que ela será morta, no outro não. Às vezes dizem que será por apedrejamento, outras vezes não. Uns dizem que seria porque ela traiu o marido. Mas outros afirmam que ela é acusada de assassinato. Qual é a verdade?
Sakineh foi sentenciada ao apedrejamento. Há inúmeras campanhas internacionais para defendê-la. Mas ela não é a única sentenciada. Há várias outras com a mesma sentença no corredor da morte. Em vez de apenas fazer campanha por Sakineh, deveríamos lutar pelo fim deste tipo de sentença, ajudando a todas. Queria adicionar que as punições corporais foram aplicadas depois da revolução (de 1979). Não só o apedrejamento, mas também a crucificação e o corte das mãos. No mês passado, três ladrões tiveram as suas mãos cortadas. Um deles havia roubado uns chocolates e US$ 1.000. Isso é tão grave quanto apedrejamento. O que todos os defensores de direitos humanos deveriam fazer é repudiar todas essas leis. Sempre que nos opomos a essas leis, o governo diz que elas são religiosas. Mas isso não é correto. Clérigos respeitáveis no Irã disseram que essas leis poderiam ser revertidas. Eles (o governo) querem administrar o país como há 1.400 anos.
Se o regime de Teerã abdicasse de seu programa nuclear, sua situação se normalizaria, ficando como a Arábia Saudita, que também desrespeita direitos humanos, mas não sofre punições. A sra. acha que o foco das sanções deveria mudar?
Nos últimos anos, sempre que falam do Irã, pensam só na questão nuclear - se esquecem de pessoas sendo mortas e presas. Costumo dizer aos países ocidentais e também ao Brasil que tudo bem falar da questão nuclear. Mas também abordem a falta de democracia e os direitos humanos. Fiquei surpresa que um homem respeitável como o Lula tenha ido ao Irã, falado da questão nuclear, e partido.
O Irã, que enfrenta uma crise econômica, gasta centenas de milhões com grupos estrangeiros como o Hamas (palestino) e o Hezbollah (libanês). No mês passado, Ahmadinejad foi recebido como herói no sul do Líbano por ter ajudado na reconstrução de vilas destruídas na guerra contra Israel (2006). A população iraniana não reclama desses gastos no exterior enquanto enfrentam dificuldades no próprio país?
Ahmadinejad foi ao Líbano a convite do Hezbollah. E o xeque Hassan Nasrallah disse que o Irã ajudou os libaneses com US$ 450 milhões e agradeceu ao líder iraniano por contribuir com a reconstrução. A população iraniana considera os libaneses amigos e está feliz em ajudar. Mas se pergunta sobre qual é a diferença entre nós e o Hezbollah. Seis anos atrás, a cidade de Ban, no Irã, foi abalada por um terremoto e totalmente destruída. Mas o governo iraniano não a reconstruiu. Preferiu reerguer as casas no sul do Líbano. Ban permanece em ruínas.
O Irã também deu dinheiro para o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai. O governo iraniano negou a ajuda inicialmente, mas acabou desmentido. O próprio líder afegão confirmou e agradeceu Teerã. Esta ajuda financeira ocorre depois de o Irã registrar o pior crescimento econômico de todo o Oriente Médio. O crescimento foi de 1,6% no ano passado. Pior até mesmo do que o Iraque e o Afeganistão.
Com Mir Hussein Mousavi ou Mehdi Karroubi (candidatos opositores nas eleições presidenciais) as coisas seriam melhores realmente? Eles não faziam parte do regime?
O movimento democrático não tem como base a ideologia. É apenas democrático. Mousavi e Karroubi não são os líderes, mas integram o movimento. E as decisões são tomadas em grupo. Todos, em comum, opõem-se ao governo e defendem a democracia.
O que ocorreria se Israel ou os EUA bombardeasse o Irã?
 Nem Israel bombardeará o Irã, nem o Irã bombardeará Israel. Os israelenses não têm o poder de atacar o Irã e o governo iraniano sabe disso. E o Irã sabe que, se atacar Israel, as consequências seriam muito grave. Os Estados Unidos tampouco atacarão o Irã. Eles já têm muitos problemas no Iraque e no Afeganistão. Mas quero deixar claro que sou contra um ataque ao Irã porque deterioraria ainda mais a luta pela democracia e os direitos humanos. O governo iraniano sempre usa estas ameaças de ataque para despertar sentimentos patrióticos, desviando a atenção das pessoas para questões nacionalistas.
(Publicado em 14/11/2010)

Elvis para o Correio Amazonense


Erradicar a miséria

Erradicar a miséria
EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO - editoriais@uol.com.br
Reportagem publicada ontem pela Folha mostra que a promessa de campanha mais ambiciosa da presidente eleita, Dilma Rousseff -erradicar a miséria do país- poderá ser cumprida em seu mandato. Para tanto, será preciso ampliar os gastos com o Bolsa Família e manter o crescimento econômico com expansão do emprego.
No que tange ao programa de transferência de renda, consomem-se hoje R$ 13,4 bilhões ao ano para atender 12,7 milhões de famílias. Segundo cálculos do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, o país precisaria de mais R$ 21,3 bilhões anuais para atingir a meta de retirar da miséria e da indigência todos os brasileiros. O gasto nesse caso iria a 1% do PIB por ano.
É preciso no entanto fazer uma ressalva: no Brasil são considerados pobres os indivíduos com renda mensal abaixo de R$ 140 ao mês (R$ 4,60 ao dia). São classificados como indigentes os que recebem apenas R$ 70. Há quem entenda, com razão, que a linha deveria subir ao patamar do salário mínimo ou não muito abaixo.
Cerca de 30 milhões de pessoas (15,5% da população) vivem hoje com menos de R$ 140 ao mês.
Essa massa de pobres era praticamente o dobro (57 milhões, 33,3% da população) há dez anos. Para que caísse de maneira significativa foi preciso contar também com o fator emprego. Aproximou-se de 14 milhões o número de vagas formais criadas no período de Lula. Mas será difícil o próximo governo manter esse ritmo, já que o aumento da produtividade exigirá crescimento maior do PIB para ampliar a oferta de postos.
O desafio de deixar a pobreza para trás dependerá ainda da melhoria das políticas públicas - em especial da educação, o principal instrumento de democratização do acesso ao mercado de trabalho e de redução de desigualdades.

Obama e o ódio aos Estados Unidos

Obama e o ódio aos Estados Unidos
Novembro 15, 2010 - Autor: Claudio Mafra
 Quando Obama obteve a nomeação democrata, em junho de 2008, ele disse a uma multidão exultante que: “Poderemos olhar para trás e dizer aos nossos filhos que este foi o momento em que começamos a prover saúde aos doentes e bons empregos aos desempregados; este foi o momento em que a subida dos oceanos começou a desacelerar e nosso planeta começou a sarar; este foi o momento em que terminamos uma guerra, garantimos nossa nação e restauramos nossa imagem como a última e melhor esperança na Terra”. Alguém já viu alguma coisa mais megalômana? Mais doida? É um delírio. O ego do sujeito é assustador. Frases desse tipo – em país civilizado - só foram usadas na Europa, na década de trinta, e nós sabemos quem foram os autores!
Obama apoiar a Índia para o Conselho de Segurança é um erro. O Conselho funciona muito bem com os seus atuais integrantes, EUA, China Rússia, Inglaterra, França. Trazer a Índia é irresponsabilidade, é procurar problemas. Para Obama, trata-se de democratizar, tirar poder dos Estados Unidos, inovar, revolucionar (ele se julga um revolucionário), um desejo absurdo de que o mundo seja simpático aos Estados Unidos, sem ter a menor ideía de que os motivos da aversão aos americanos são muitíssimo mais profundos do que ele imagina.  Em sua ignorância liberal e juvenil, deve achar que os EUA  são prepotentes, imperialistas. Vocês se lembram que logo no início de seu governo ele partiu para fazer o seu ridículo “tour de pedido de desculpas”? Os conservadores ficaram indignados, ultrajados, e com toda a razão. O país que ganhou as duas guerras mundiais que os europeus arrumaram em um espaço de vinte anos, um país que evitou que a URSS tomasse a Europa. O país que evitou que o comunismo dominasse o mundo.
Essa aversão fortíssima, visceral, aos Estados Unidos vem de no mínimo 70 anos e está ligada principalmente ao fascínio do socialismo. No momento em que Stalin derrotou Hitler e se tornou um dos aliados, o delírio socialista explodiu no mundo. Junto com ele veio a lavagem cerebral dirigida por Moscou. Até que era fácil. Se o capitalismo era imoral, perverso, e o seu maior representante eram os EUA, esse país tornou-se instântanemente o alvo de todo o mundo, principalmente das pessoas com maior grau de escolarização, jovens e intelectuais. Nossos pais eram muito mais cautelosos nesse assunto. Eles tinham visto o Stalin de antes da guerra, no tempo em que havia unanimidade mundial em considerá-lo um monstro, e o comunismo um regime de maldade e terror. Os intelectuais, ao contrário, sempre foram simpáticos à novidade redentora.
É rarissimo encontrar uma pessoa isenta desse rancor contra os USA. Quase todo o mundo é anti-americano. Até os nossos militares, tão anti-comunistas, têm grandes reservas quanto aos Estados Unidos. Por difícil que possa parecer também é fruto da lavagem cerebral. Eles nunca aceitaram o socialismo, sempre o tiveram como o inimigo número um, mas foram atingidos pela propaganda que mostrava os USA sedentos de poder, querendo todas as riquezas do mundo. Não vamos entrar no fator psíquico desse ódio universal, que é ocasionado por inveja, complexo de inferioridade e muita coisa mais.
Voltando ao Obama, ele assumiu a presidência achando que com oito anos reverteria esse quadro extraordinariamente complexo, ou deixaria um legado que estabeleceria novos rumos ao relacionamento internacional americano. Bastaria buscar o diálogo, e dizer claramente que os USA se arrependiam de seu passado. Procuraria os pontos nevrálgicos, como a questão palestina, o respeito aos muçulmanos, colocar-se contra as ditaduras de direita (sua gafe em Honduras), e assim por diante. Tudo absolutamente simplório. Um Jimmy Carter negro e modernizado. Esperava também que sua imensa popularidade em todo o mundo, seu carisma, seu entusiasmo, sua bela figura, e a negritude, fizessem a sua parte. Acha (achava?) que Bush tinha uma grande dose de culpa nessa rejeição aos americanos. Profunda ignorância. No seu raciocínio primaríssimo, as duas guerras haviam incendiado a opinião pública contra o seu país. De fato, elas apenas fizeram vir à tona o velho sentimento que o mundo nutre pelos USA. Esse sentimento fica inerte por algum tempo, até que algum acontecimento de relevo o traga de volta. Provavelmente só vai desaparecer daqui há 100 anos, ou quando os Estados Unidos deixarem de ser o país mais importante do mundo. O episódio das torres foi exemplar. As pessoas experimentaram uma ambiguidade: se por um lado ficaram horrorizadas com o crime, havia um sentimento difuso, pouco explicável, algo muito profundo, que foi ficando mais forte à medida que se passaram os dias. Esse sentimento não admitido era:  “até que os Estados Unidos mereceram”.
Obama e os liberais continuam acreditando principalmente que a impopularidade americana vem do problema palestino, e do seu apoio à Israel. Não sabem que se por um passe de magica a questão fosse resolvida, e de forma amplamente favorável aos palestinos, não adiantaria nada, coisa alguma. Os Estados Unidos continuariam sendo detestados do mesmíssimo jeito.
Por último: Obama é bem desonesto. Na Indonésia, outra vez bate na tecla de que no governo anterior não se fazia distinção entre os jihadistas e os muçulmanos em geral. Novamente fala mal de Bush, e insiste em que agora, com ele, é diferente. Essa é uma grande mentira. Bush cansou de dar declarações dizendo que os Estados Unidos não estavam lutando contra o islamismo, mas unicamente contra o terror. Está gravado em mil vídeos.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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