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segunda-feira, junho 20, 2011
Guerra ao gugu-dadá - RUY CASTRO
Guerra ao gugu-dadá - RUY CASTRO
RIO DE JANEIRO - Se seu filho vai fazer um ano e ainda não fala nem gugu-dadá em inglês, você pode ser acusado de negligente como pai ou mãe, sabia? Escolas especializadas estão oferecendo cursos de inglês para recém-nascidos. A ideia é a de que o imediato pós-parto é o "melhor momento para aprender uma segunda língua". Ou seja, os bebês aprendem a falar inglês antes de aprender a falar. Ótimo. E quando será que começam a aprender a primeira língua, no caso, o português?
Outra notícia recente trata da fabricação de sutiãs infantis com enchimentos que imitam o formato dos seios, para meninas na faixa dos seis anos que querem imitar a mãe. Bem, historicamente, as meninas sempre quiseram imitar a mãe, mas, até há pouco, tinham de ser criativas e improvisar. Agora dispõem de equipamento para tal, como os sutiãs, além de sapatos de salto alto e uma linha completa de maquiagem, produzidos para sua idade, seja esta adequada ou não.
Se você teme que isso estimule uma prematura competição estética nas garotas, saiba que, em vários países, há concursos de beleza infantil em que meninas de sete anos sofrem as mesmas exigências que as misses adultas (a atual Miss Mundo da categoria é uma brasileira). Algumas dessas meninas têm as bochechas injetadas com botox, o que as torna versões infantis do monstro da Lagoa Negra.
Junte a isso bebês de um ou dois meses sendo submetidos a dietas para prevenir a obesidade e crianças de seis anos já com acesso ao Twitter e ao Facebook, para se convencer de que há uma conspiração universal contra a infância.
No passado, era a pobreza que jogava as crianças na vida adulta. Hoje, é a afluência - não se pode esperar que elas cresçam para consumir como adultos-, em conluio com mães levianas, cujos filhos precisam crescer rapidinho para que elas se transformem em suas irmãs apenas um pouco mais velhas.
segunda-feira, março 21, 2011
A cola e a escola
A cola e a escola
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 21/03/11
RIO DE JANEIRO - A tentação é grande. Ao receber a incumbência de produzir um texto sobre um assunto xis, o aluno -de qualquer grau, escola ou universidade- vai ao Google, digita-o entre aspas, clica e recebe uma chuva de referências, páginas e até livros inteiros a respeito. Certo ou errado, não importa - está "tudo" ali, ao alcance dos dedos.
E copiar é ainda mais fácil. Pode-se puxar o texto para nosso arquivo sem precisar sequer digitá-lo. Sob o pretexto de fazer "pesquisa", e graças à internet, o plágio se tornou uma prática maciça entre os estudantes brasileiros. Se temos cola, para que escola?
Por sorte, os professores estão aprendendo. Primeiro, eles já não aceitam que determinado aluno, que passou o ano com a cabeça em Shakira ou Lady Gaga, possa de repente citar Cassirer ou Merleau-Ponty em seu trabalho. Para se certificar de que estão diante de um plágio, vão eles próprios ao Google, digitam entre aspas um trecho do trabalho, clicam -e o original completo, de autoria alheia, aparece gloriosamente na tela do monitor.
Outro motivo de suspeita é quando o mesmo trecho, com as mesmas palavras, aparece nos trabalhos de metade da turma, sinal de que foram à mesma fonte ou se copiaram uns aos outros.
É verdade que, no tempo da caneta-tinteiro, da pena de ganso e do mata-borrão, também existiam a preguiça, a cópia e o plágio. Mas o acesso aos livros era menor, havia menos títulos circulando e estes eram conhecidos pelos professores. Era preciso grande descaro para transcrever trechos mais longos.
Às vezes, mandam-me trabalhos escolares sobre a bossa nova, Nelson Rodrigues, Garrincha ou Carmen Miranda. Passo os olhos na esperança de encontrar alguma novidade e, de repente, deparo com páginas que me soam familiares. Vou conferir e descubro, com divertido espanto, que sou o autor delas.
segunda-feira, janeiro 24, 2011
Dias de Grandeza
Dias de Grandeza
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 24/01/11
RIO DE JANEIRO - Não será por falta de solidariedade que a região serrana do Rio voltará a viver grandes dias. Na verdade, já está vivendo.
Sei de pessoas, no Rio e em São Paulo, que, desde as chuvas, não fazem outra coisa senão disparar mensagens, pedir donativos, organizar entregas, controlar postos de arrecadação, divulgar contas para depósitos, denunciar adoções ilegais de crianças, alertar sobre animais abandonados, doar sangue. Enfim, se doar. Isso é grandeza.
Sabe-se de lugares onde os donativos só puderam chegar de helicóptero, com risco para o piloto - efetivamente, um caiu, outro dia-, ou porque voluntários se arriscaram em peregrinações mata adentro. Alguns fizeram esse caminho de volta, trazendo nas costas idosos e doentes. E, assim como há cretinos que desviam as doações para vender, também há famílias que, no limite de resistência, insistem em repartir suas rações com os ainda mais necessitados.
Sabe-se de pessoas que enfrentaram corredeiras de água, pedra e troncos para salvar crianças cujas mães gritavam desesperadas. Outras já podiam ter ido embora dos lugares onde perderam quase tudo, mas preferiram ficar para ajudar vizinhos que perderam tudo. Os dias passam e a possibilidade de achar sobreviventes entre os desaparecidos é mais remota, mas alguns não desistem de escavar.
As pessoas enfrentam o cheiro da morte, que, a esta altura, já não se distingue do que sobrou da vida - ambos se compõem de lama, sangue, flores podres. Os enterros são feitos em sequência por quem, até então, nunca sequer presenciara um. Crianças e jovens estão amadurecendo rapidamente- um dia ali está contando por anos.
O povo da serra e os que chegam de fora para ajudar estão aprendendo lições para o resto da vida. Tomara as autoridades também as aprendessem, pelo menos para o próximo verão. Ou chuva.
segunda-feira, dezembro 27, 2010
Grato ao destino
Grato ao destino
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 27/12/10
RIO DE JANEIRO - O deputado Tiririca (PR-SP) começa a aprender o que fazem as pessoas no emprego que ganhou de 1,5 milhão de seus fãs. Se se aplicar, logo terá dominado tanto a etiqueta do cargo (que obriga a dirigir-se aos colegas como Vossa Excelência e, ao se referir a eles para terceiros, mudar o tratamento para Sua Excelência) como sua liturgia, composta de emendas, dispositivos, quóruns, regimes de urgência, adiamentos e a diferença entre o valor de um voto contra ou a favor de um projeto.
Mais difícil será, para o deputado Tiririca, lidar com o dinheiro de que, de repente, passou a dispor na sua vida pessoal. Habituado à instabilidade de empregos em mafuás, circos e TVs, ele se vê agora com um salário de R$ 25.703,00 -15 vezes por ano, sem possibilidade de atraso ou beiço. E, para não se sentir desenturmado fora do plenário, poderá povoar seu gabinete com funcionários até R$ 60 mil por mês.
Deputados não gastam dinheiro com gasolina, aluguel de carros e passagens aéreas. Muito menos com telefone, telégrafo, internet, estafeta ou pombo-correio. Uma verba extra de cerca de R$ 30 mil mensais cuida dessas despesas.
Aluguel, nem pensar: se o deputado Tiririca não aceitar morar num apartamento funcional pelos dois ou três dias por semana que passar em Brasília, receberá R$ 3 mil por mês de auxílio-moradia.
Se quiser exercitar seus dotes recém-adquiridos de leitura e escrita, o deputado Tiririca terá direito à assinatura anual de cinco jornais e revistas e a utilizar os serviços gráficos da Câmara, podendo imprimir anualmente o equivalente a quatro mil exemplares de 50 páginas, não importa se de textos técnicos ou poéticos.
Enfim, com um salário tão generoso e benesses nunca sonhadas, quero crer que o deputado Tiririca, grato ao destino que o colocou ali, periga ser o político mais incorruptível da história de Brasília.
sábado, novembro 13, 2010
Liberdade ainda que tardia
Liberdade ainda que tardia
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 13/11/10
RIO DE JANEIRO - Meu velho amigo Tárik de Souza -o que ele não conhece de música popular ninguém precisa conhecer- tem uma ideia revolucionária para libertar os acervos de música brasileira dos túmulos a que foram condenados pelas gravadoras. Túmulos sobre os quais elas se sentam e cujo conteúdo desprezam e desconhecem.
A ideia se resume numa palavra: desapropriar. Viria por meio de um decreto-lei, como já se fez muito no Brasil e ainda se faz por aí, motivo pelo qual Tárik a está chamando de "Lei Hugo Chávez". Por esta lei, as gravadoras brasileiras (na verdade, multinacionais instaladas aqui há décadas) entregariam tudo que gravaram de artistas nacionais, de, digamos, 1970 para trás, a um órgão central (como o MIS ou a Funarte), que disponibilizaria os fonogramas para quem quisesse relançá-los.
Não que as multis tenham os fonogramas originais. No seu desinteresse por qualquer música que não vá para as paradas, elas deixaram que coleções inteiras se perdessem. E estas teriam desaparecido de vez se não fossem os pesquisadores, que, por amor, conservaram tudo que se gravou no Brasil desde 1902. O que se quer é que as gravadoras abram mão e liberem -para sempre- o uso desses fonogramas, para serem "baixados", prensados ou o que for por quem tiver uso para eles.
Isso significaria a volta imediata de Pixinguinha, Francisco Alves, Carmen Miranda, Orlando Silva, Ciro Monteiro, Lucio Alves, os Anjos do Inferno e mil outros ao patrimônio nacional, assim como a reabilitação de homens como Alcyr Pires Vermelho, Zé da Zilda, Haroldo Lobo, Haroldo Barbosa, Garoto, Valzinho, Luiz Antonio e muitos mais, autores de tantos sucessos e eles próprios quase desconhecidos.
Essa medida é impensável nos EUA, e sabe por quê? Porque, lá, as gravadoras não se atreveram a deixar a grande música americana fora de circulação.
Nada inocentes
Nada inocentes
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 12/11/10
RIO DE JANEIRO - Fess Parker, o ator que interpretou o caçador Davy Crockett numa série produzida por Walt Disney para a TV americana nos anos 50, morreu em março último, e seus obituários ressaltaram o assombroso sucesso dos filmes: 40 milhões de telespectadores por semana, de 1954 a 1956, e um gigantesco merchandising em torno do personagem.
Durante anos, os garotos americanos obrigaram seus pais a comprar-lhes um chapéu de guaxinim, com rabicho e tudo, como o usado por Davy. Além dos mocassins, jaquetas de franjas e calças (tudo de couro), mochilas, rifles de brinquedo, machadinhas, quebra-cabeças, gibis, o disco com "The Ballad of Davy Crockett" e toda quinquilharia que se referisse ao herói.
Hoje, o herói já não o é tanto. Descobriu-se que Crockett, vivendo na floresta, não matava animais apenas para comer, mas esfolava-os -coatis, gambás, castores, alces, gamos e até ursos- às centenas, e vendia seus couros e peles para os intermediários que abasteciam os empórios. Vivia disso. E, de couro dos pés à cabeça, ele já era um comercial de si próprio.
Sem saber que incidia em pecado, a série também mostrava Crockett como matador de índios e feroz perseguidor dos mexicanos que ousavam conspurcar o solo dos EUA. Enfim, agora descobrimos que, aos olhos do politicamente correto, não podia haver personagem pior.
Até morrer, em 1966, Walt Disney (o Monteiro Lobato americano, só que ao cubo em matéria de negócios) nunca se preocupou com isso. Os meninos que idolatravam a série também não reparavam nas maldades de Davy. Da mesma forma, os milhões de brasileiros inocentes que lemos Lobato em criança nunca nos demos conta de que Tia Nastácia vivia sendo humilhada pelo autor. Tivemos de esperar 50 anos para que adultos de hoje, mais perspicazes e nada inocentes, finalmente nos informassem disso.
quarta-feira, novembro 10, 2010
Passivo de radiação
Passivo de radiação
RUY CASTRO – FOLHA DE SÃO PAULO
RIO DE JANEIRO - O avião pousa em Congonhas, 99% dos passageiros sacam o celular e anunciam para alguém: "Cheguei". Eu, o 1%. As pessoas que me esperam para uma reunião sabem a hora do meu voo e podem passar sem essa informação. Desço a rampa rumo aos táxis, a tempo para o compromisso e saboreando o encontro com alguém querido ou o jantar que virá depois. Enquanto isso, sujeitos passam por mim afobados, rebocando a mala e bufando ao celular, discutindo medidas que não podem esperar nem um minuto ou para quando tiverem acabado de chegar.
Para mim, o estresse provocado por essa comunicação fácil e onipresente já seria asfixiante, motivo pelo qual mantenho distância de celulares -não quero ficar "on" o dia todo. Pois, agora, as graves denúncias da cientista americana Devra Davis, 64 anos, autoridade mundial em saúde pública e ambiental, completam minha apreensão. Seu livro "Disconnect", lançado em NY em setembro e ainda sem editor no Brasil, tem o subtítulo "A Verdade sobre a Radiação dos Telefones Celulares".
Segundo ela, a radiação que se desprende de um celular à orelha reduz as defesas do cérebro, induz à perda de memória, aumenta o risco de Alzheimer, interfere no DNA e é um agente cancerígeno. E a indústria sabe disso, mas ninguém interfere num negócio de trilhões de dólares se não for obrigado.
É cruel. As crianças são loucas pelo celular, e seu cérebro, ainda em formação, absorve até mais radiação que o dos adultos. A radiação de um celular usado num elevador rebate nas paredes e afeta quem está por perto, como acontece com o fumo. E é possível que só agora, anos depois, os verdadeiros efeitos nocivos dos celulares estejam se fazendo sentir.
A primeira pessoa que conheci com celular, em 1993, morreu este ano, de câncer no cérebro. Era um famoso jornalista esportivo.
segunda-feira, novembro 08, 2010
Alguém abre um livro
Alguém abre um livro
RUY CASTRO – Folha de São Paulo
RIO DE JANEIRO - Outro dia, falando num encontro de livreiros, eu dizia que todos nós, que trabalhamos com livros -que os escrevemos, editamos, distribuímos, vendemos ou promovemos-, devíamos nos sentir privilegiados. Nosso produto não anuncia na TV, não é vendido na farmácia junto com os xampus, fraldas e chinelos e, para ser apreciado, precisa ser lido linha a linha e ainda temos de lamber o dedo para virar a página. Mas, toda vez que um brasileiro abre um livro, o Brasil melhora.
Tal afirmação ameaça parecer uma pieguice poética num país que, segundo o novo relatório divulgado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), pode estar em 73º lugar no ranking mundial de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) -o que, em si, já é uma vergonha-, mas, num dos itens mais importantes, empata com o Zimbábue, que, em 169º no ranking, é o mais atrasado do mundo.
Nossos estudantes passam o mesmo número de anos na escola que os infelizes zimbabuenses - os quais precisam lutar para não morrer de fome em criança ou de Aids em adulto, além de ter de viver correndo do leão. Nossos garotos não têm um leão nos calcanhares e ainda podem empinar pipa na laje ou brincar de médico com a vizinha. Talvez por isto fiquem apenas 7,2 anos na escola, contra 12,6 anos da Noruega, que está em 1º no IDH.
Não se sabe o que os noruegueses fazem com tanta educação. Mas o Brasil também não tem se notabilizado pelos seus cientistas, filósofos ou professores. Na verdade, o que mais produzimos são cabeças-de-área, duplas caipiras e flanelinhas - e, se já é difícil hoje fazer um país com eles, imagine no futuro.
Por isso, quando alguém abre um livro por aqui, é por conta própria, à margem do Brasil oficial. Significa que essa pessoa tem uma meta pessoal e está usando a cabeça para persegui-la.
sexta-feira, novembro 05, 2010
Sem limites
Sem limites
RUY CASTRO – FOLHA DE SÃO PAULO
RIO DE JANEIRO - Uma amiga me envia, assustada, cópia de uma redação escolar que circula na internet. É um trabalho de sala de aula. Tem 20 linhas, foi escrito a mão e parece produzido por um aluno da 7ª ou 8ª série -13 ou 14 anos?-, não sei em que colégio ou Estado do Brasil. O tema é o homossexualismo. O garoto não se conforma com a existência de tantos "gueis e sapátas" à sua volta.
O tom da composição é de ódio e ameaça. Se, em vez de palavras, o menino usasse qualquer ferramenta, teríamos uma grave ocorrência policial. Mas a violência já está na própria linguagem com que ele se expressa. "Esses bando de filho duma éguas não tem vergonha na cara deles mesmos própios", diz. "Eles deveriam morrer para sempre da vida eterna".
"Eu não tenho nada contra nem a favor, muito pelo contrário", continua, num lampejo de culpa que logo se dissolve. "Eu fico é puto com esse negócio de cú (çanecagem) entre eles. Deixo minha indignação (tou puto mesmo) e peço os corretos que intenda minha revolta". Outros trechos da redação são marcados por "é foda", "esses viados" e "vão pra puta que pariu".
Como alguém tão pouco à vontade com a língua pode passar da 2ª ou 3ª série? Isso é o ensino no Brasil? E o que permite que um estudante brasileiro componha tal redação em aula e a entregue à professora? Onde estão os limites que deveriam balizar a postura do aluno em face da autoridade ou de uma pessoa mais velha? E se este não for um caso isolado?
A professora anotou 27 erros na redação - na verdade, são mais de 50. Deu zero ao garoto e escreveu ao pé da página que encaminharia o texto à direção do colégio. Se for uma escola pública, tudo bem. Mas, se for um colégio particular, arrisca-se a ser suspensa ou despedida por contestar a paupérrima, miserável expressão de um aluno em dia com suas mensalidades.
sábado, outubro 30, 2010
Por dentro da tragédia
Por dentro da tragédia
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 30/10/10
RIO DE JANEIRO - Esta semana, assisti com grande atraso ao documentário "102 Minutos que Abalaram o Mundo", do History Channel. Trata do atentado ao World Trade Center, em Nova York, a 11 de setembro de 2001, e foi feito a partir dos sons e imagens captados por celulares e câmeras de populares na área da tragédia -apavorantemente ao vivo. Leva-nos para o centro dela, como nunca antes.
Fez-me rever meus conceitos sobre o século 20 como o mais documentado da história. Até então eu me regozijava por viver numa época em que quase tudo que aconteceu desde 1900 teve alguma espécie de registro, em foto, filme, disco, desenho, vídeo etc. A frase continua valendo, mas quanto disso sobreviveu e chegou até nós?
Oitenta por cento dos filmes mudos, pré-1929, se perderam -até mesmo nos EUA, incluindo alguns de Greta Garbo-, assim como 99% do material filmado para cinejornais. No Brasil, essa perda se estendeu por décadas. Dos seis filmes que Carmen Miranda rodou aqui nos anos 30, só restou "Alô, Alô, Carnaval!". Que imagens de Garrincha você conhece, exceto duas ou três, manjadas, de 1962? E, ao ver hoje cenas das passeatas de 1968, tem-se a impressão de que, juntamente com os estudantes, elas também foram pisoteadas pelos cavalos da PM na porta da Candelária.
Já o que está sendo registrado em nosso tempo periga durar para sempre, não pela indestrutibilidade das mídias, mas pela quantidade de registros. Todo mundo está agora acoplado a uma câmara. O 11/9 foi há nove anos, quando o número de filmadoras em celular era ínfimo se comparado ao atual. Mesmo assim, o History Channel produziu quase duas horas de horrível emoção sem recorrer ao material das grandes redes de TV.
Pelo visto, o que ainda vem por aí em matéria de registro e documentação ameaça despachar o século 20 para o século 13.
De volta a 1952
De volta a 1952
RUY CASTRO
RIO DE JANEIRO - Uma nota no jornal, há dias, me intrigou: Georgia Jagger, 18 anos, filha de Mick Jagger e Jerry Hall, disse à revista "Harper's Bazaar" que "sua família não se chocou" com as fotos em que aparece fazendo topless para a campanha de lançamento de um jeans. Que bom, sua família não se chocou.
Embatucado, li de novo a nota. O pai da garota, Mick Jagger, seria um certo Sr. Michael Brewster-Jagger, 58 anos, corretor de imóveis em Gloucestershire, influente paredro do Rotary local e filatelista amador? E sua mãe, a Sra. Geraldine Hall, 56, de prendas domésticas e autora de uma receita de torta de fígado famosa na Cornualha?
Não. O dito Mick Jagger é o roqueiro de 67 anos, líder dos Rolling Stones, que há quase meio século incendeia fantasias e por quem mulheres e homens já se rasgaram, se mutilaram e até se mataram. E Jerry Hall, 54, é a mulher com quem ele passou séculos casado, a supermodelo, a favorita do fotógrafo Helmut Newton e rainha do infernal Studio 54, em Nova York. Os amigos do casal incluíam Salvador Dali, Andy Wahrol e Truman Capote, e sua dieta envolvia pansexualismo, drogas, rock'n'roll, cultos satânicos e o uso de omeletes psicodélicos para fins imorais.
Folgo em saber que Mick e Jerry não se chocaram pelo topless de Georgia para o anúncio. Em compensação, os jornais, principalmente os online, vivem se chocando com notícias sobre esta ou aquela atriz ou cantora que apareceu em público com uma blusa transparente ou foi fotografada beijando seu galã fora do expediente. A continuar assim, onde vamos parar?
Já parou. Eu me pergunto que fim levaram a revolução sexual, as relações adultas, o alegre desbum, o fim das culpas e, principalmente, a imprensa que não se espantava com nada nos anos 60 e 70. A folhinha de hoje diz século 21, mas não é verdade - voltamos a 1952.
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