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sábado, outubro 30, 2010
Crianças desta terra
Crianças desta terra
Miltom Hatoum - o Estado de São Paulo
Do balcão do sobrado vi bolas e bonecas de plástico cobrindo a rua de pedras da minha infância. E quase ao mesmo tempo vi crianças da minha idade disputando esses dois brinquedos universais. Brinquedos de graça, que alegravam também as mães pobres da cidade.
Na manhã amarela ouvi pela primeira vez a palavra "eleições". Não sabia o significado exato dessa palavra; sabia que o candidato ao governo distribuía milhares de brinquedos às crianças, depois ele as abraçava, beijava mães, tias e avós, era uma festa colorida num novembro distante, que agora recordo sem nostalgia.
Depois o candidato continuou sua campanha festiva e caridosa em outros bairros... Não o vi naquela manhã, apenas divisei, de relance, um bigode espesso, como se vê o desenho de um urubu minúsculo no canto de um mural colorido. Foi o primeiro bigode político que vi na infância, um bigode jovem, que já era um líder regional, quase tão onipresente quanto um pequeno deus, pois ouvíamos sua voz no rádio e víamos seu rosto em cartazes pregados em muros, fachadas e cercas.
Quatro anos depois vi de novo bolas e bonecas na carroceria de um caminhão, e outras crianças disputando esses brinquedos, e o mesmo bigode beijando e abraçando mães, tias, avós. Em 1964, um parente me disse que esse líder tinha sido cassado, embora não fosse de esquerda, nem de direita. Afirmar que era um homem de centro é apenas um culto à simetria. Outras vozes comentaram: foi cassado por corrupção. E mesmo aos 12 anos de idade, essas palavras ainda não tinham um significado claro para mim. O fato é que todos nós perdemos o bigode de vista. Não foi exilado, mas viveu no ostracismo, que é uma espécie de exílio na própria pátria.
Quando ele voltou à cidade, dizem que foi recebido com júbilo pelas crianças que agora eram filhos das crianças que eu tinha visto na minha infância. Não o vi depois desse retorno glorioso, porque eu já morava muito longe da cidade. Parece que era vingativo e cruel com inimigos, terrível com amigos que o traíam e com desconhecidos que flertavam com as mulheres de seu harém: as meninas que tinham recebido bonecas das mãos dele e agora eram moças feitas. Mas esse homem, que destruía seus inimigos, também erguia grandes obras. Construiu na floresta uma central elétrica movida a óleo diesel, um desastre ambiental e um fiasco energético; construiu maternidades onde as mães recebiam afagos e os recém-nascidos ganhavam bolas e bonecas com as quais brincariam nos próximos anos; construiu escolas e hospitais, pavimentou ruas, e cada obra pública inaugurada por ele recebia seu próprio nome, seguido de um algarismo romano, como se fosse um rei. E como fazia um dos reis de Shakespeare - que se disfarçava de soldado para conhecer de perto seu exército -, ele se disfarçava de enfermeiro, de professor, de carcereiro e andava por escolas, hospitais e presídios; depois advertia funcionários incompetentes, faltosos, levianos, e demitia os que falavam mal dele.
Também demitia os líderes grevistas, os diretores de escolas que não o bajulavam, os funcionários que o desprezavam, todos ingratos, ele dizia. Por tudo isso, ele se considerava um democrata exemplar.
Mesmo de longe, eu acompanhava sua gloriosa ascensão política. Anos depois, ao visitar minha cidade, andei por bairros que desconhecia, onde vi casebres à margem de rios com cor de ferrugem, e crianças brincando com bolas e bonecas de plástico em imensas crateras de aspecto lunar; vi fileiras de casinhas de alvenaria construídas em áreas desmatadas, pareciam casas de boneca ou canis que brilhavam ao sol como buquês de fogo. Vi escolas mal ventiladas, sem biblioteca, cujas fachadas feias tinham sido apedrejadas por vândalos. Nenhuma creche. E mesmo assim, ele era reeleito e idolatrado...
Às vezes a passagem do tempo é imperceptível como uma distração. Quando me dei conta, tinham passado mais de 40 anos. E quando voltava à cidade, lá estavam os cartazes e outdoors com o rosto dele, e em qualquer estação de rádio a mesma voz com o tom assertivo e triunfante de um animal político que ignora a dúvida e o diálogo.
Durante quase meio século nunca vi o rosto dele, só via as imagens e me lembrava do bigode: o diminuto urubu acenando de algum mural do passado, que agora parecia um pesadelo da infância.
Há pouco tempo soube que ele estava num hospital de São Paulo, onde se internam os grandes líderes doentes da minha cidade. Foi um encontro breve, e talvez seja exagero dizer que foi um verdadeiro encontro. Parei na porta do quarto e divisei o homem deitado, olhando vagamente para a tela de um aparelho de tevê silencioso. Das quatro gerações de mulheres de seu harém, nenhuma estava ao lado dele. Vi, enfim, o rosto que não me viu nem podia me ver. Não usava mais bigode, e no olhar perdido na tela muda, não havia mais fulgor nem ambição nem ódio.
Dizem que foi enterrado com pompa na nossa cidade, e que em sua lápide está gravada esta frase singela: Nenhum outro homem público amou tanto as crianças desta terra.
sexta-feira, outubro 22, 2010
A Copa que o rei sonhava
A Copa que o rei sonhava
João Máximo – O Globo
No primeiro Mundial que disputou do início ao fim, a participação decisiva na conquista do tri e a eleição como Arquivo/21-6-1970 como craque dos craques
Quarta-feira, 18 de março de 1970. Mais do que nunca Pelé sabe que a próxima Copa do Mundo, provavelmente a sua última, será também a mais importante. Mais até do que a de 1958, quando, menino, ajudou o Brasil a ganhar seu primeiro título mundial, consagrando-se ele próprio como a maior revelação do futebol do Mundo nas últimas décadas. Mais importante para ele, Pelé, que leva nos ombros o peso de não ter conseguido terminar as duas Copas anteriores, a de 1962, no Chile, por uma distensão muscular, e a de 1966, na Inglaterra, por entradas desleais do português Morais. Desse modo, o que pensará ele do que os jornais vêm noticiando nos últimos dias? O que pensará das manchetes de hoje, como esta, do GLOBO: “Não preocupa o olho de Tostão e sim o de Pelé”? São tempos complicados para o futebol brasileiro, estes meses que antecedem o embarque da seleção para o México. Tempos complicados também para Pelé, que está longe de atravessar sua melhor forma, física ou técnica. Há três dias, num jogo treino com o Bangu, em Moça Bonita, foi uma cópia piorada do melhor Pelé, o Pelé do Santos e de outras seleções brasileiras.
Sua atuação mereceu de anônimo cronista do mesmo GLOBO o seguinte comentário: “Pelé, apesar do esforço que demonstra, anda mesmo mal (...) e vez por outra consegue desfazer a impressão com uma jogada certa, mas, em linhas gerais, não consegue convencer.” Quando, em outros tempos, alguém ousaria dizer isso do maior jogador do mundo, hoje na plenitude de seus 29 anos? Há três dias, o técnico da seleção ainda era João Saldanha, que se baseou no jogo treino em Moça Bonita (1 a 1, o gol da seleção feito por um beque do Bangu, contra) para barrar Pelé no amistoso contra o Chile, na quinta-feira da próxima semana: “O crioulo está mal, precisa descansar”, justificou Saldanha.
De fato, os jogos pelo Santos e pela seleção, ao longo da desgastante temporada do ano passado, afetaram Pelé, cuja presença, nos amistosos do Santos no exterior, continua sendo exigência contratual dos promotores. Sem Pelé, o Santos e a própria seleção valem menos. Por isso, a barração surpreendente será citada como uma dos fatores que apressaram a queda de Saldanha, demitindo pelo presidente da CBD, João Havelange.
Saldanha caiu ontem, terça-feira, e os jornais de hoje já fazem referência à sua preocupação com a vista de Pelé. Maior do que a com a vista de Tostão? Saldanha diz que sim. Segundo ele, Pelé tem uma deficiência visual que teria escapado aos médicos da seleção. Para estes, apenas uma miopia leve, mais acentuada no olho direito, nada que o impeça de jogar normalmente.
No máximo, teria de usar óculos para ler. Definitivamente, não são boas as notícias que os jornais levam a Pelé nestes idos de março.
São mesmo tempos complicados o que o futebol brasileiro vive a três meses da Copa. Complicados, incertos, difíceis de entender. O olho esquerdo de Tostão é mesmo um problema, o descolamento de retina sofrido em fins do ano passado levandoo à cirurgias e outras idas a Houston, Texas, para se tratar com médico brasileiro. Não há garantia de que ele, artilheiro das eliminatórias do ano passado, possa ir ao México. E agora essa, Saldanha pondo em xeque a visão de Pelé.
Saldanha perdeu o comando da seleção da mesma forma com que vinha perdendo a serenidade que o levara a transformar um grupo desacreditado em “feras” para o tri. Nesta mesma quarta-feira, o presidente do Flamengo, André Richer, entra na Justiça com uma ação contra Saldanha, por ter este invadido, de revólver, a concentração de São Conrado atrás do treinador Yustrich. Um episódio que sucedeu à crise na comissão técnica, a maioria fazendo pressão para que Saldanha convocasse Dario, o favorito do general Medici, numa forma de agradar “o torcedor número um do Brasil”. Saldanha reagiu a seu modo: “O presidente escala o ministério dele e eu escalo o meu time.” Pelé e seus companheiros de equipe sabem de tudo isso pela imprensa. E é ainda com uma interrogação que recebem o novo técnico, Zagallo, que nada tem a ver com os rumos até políticos que as coisas tomam. Por exemplo, hoje mesmo Havelange vai a Brasília prestar contas ao ministro Jarbas Passarinho, já prometendo relatório com cópia para os generais do SNI e das Casas Civil e Militar, explicando a quantas anda o futebol brasileiro.
Mas a Copa do Mundo de 1970 é tão importante para Pelé que ele enfrenta tudo isso com calma de fazer inveja: — Nem que seja com lente de contato, vou jogar esta Copa.
quinta-feira, outubro 21, 2010
A voz essencial
A voz essencial
RUY CASTRO
Por volta de 1950, a música popular passava por uma importante transformação: o fim das grandes vozes e a instauração dos cantores suaves, sem vibrato, mais "naturais", estimulada pela alta fidelidade das gravações em fita magnética. No Brasil, essa tendência não foi logo percebida. Tanto que, naquele ano, o crooner de um promissor conjunto vocal foi demitido da Rádio Tupi por cantar "muito baixinho", não ter extensão nem volume de voz.
O conjunto era Os Garotos da Lua, e o crooner, Jonas Silva, 22 anos. Por sua causa -segundo o diretor artístico da rádio, Antonio Maria-, o grupo inteiro tinha de cantar baixinho e, com isso, "ninguém ouvia nada". Veio o ultimato: ou o conjunto trocava de crooner, ou iam todos demitidos. Por mais que gostassem de Jonas, seus amigos -pernambucanos, como ele, e baianos recém-chegados ao Rio- gostavam mais ainda de almoçar e jantar. Daí, o sacrificaram.
Para seu lugar foram buscar na Bahia um jovem capaz de soltar a voz e cantar até Carnaval: João Gilberto, 19 anos, fã de Orlando Silva e Lucio Alves. O novo cantor deu conta do recado. Mas, tempos depois, já fora do conjunto, João Gilberto também decidiu reduzir sua voz ao essencial, e seria com este jeito contido de cantar que, em 1958, ele faria a bossa nova.
Jonas conservou (para sempre) os ex-colegas como amigos. Inclusive João Gilberto, a quem recebeu no Rio como um irmão. Sua curta carreira solo teve algum prestígio e nenhum sucesso. E nunca se ouviu dele uma palavra contra seu sucessor por ter se consagrado com um estilo parecido com o seu. Jonas até ria quando as pessoas, ao escutar suas gravações de "Amor Certinho" ou "Pra Que Discutir com Madame?" (muito anteriores às de João), o acusavam de estar imitando João Gilberto. Ele era assim.
Jonas Silva morreu neste domingo, no Rio, aos 82 anos.
A Corrida de Biga e o Menino que Não Conhecia Pelé
A Corrida de Biga e o Menino que Não Conhecia Pelé
Pedro Bial – O Globo
Durante meus 8 anos como correspondente internacional, passei por alguns maus bocados, péssimos, ossos do ofício. Diante de armas e ameaças pesadas, nos lugares mais remotos do mundo, aprendi palavrinhas mágicas para desembaraçar tais ciladas e adiar meu féretro: “ Pelé, Brasil, futebol, Pelé, Pelé!” . Pelé salvou a minha vida dezenas de vezes. Não só a minha, mas a de muitos brasileiros que se arriscam pelo mundo, seja por missão jornalística, comercial, humanitária ou que tais. Pelé fez mais pela imagem do Brasil no exterior do que todos os nossos barões, chanceleres, políticos e presidentes. Não existiria o Brasil contemporâneo sem o sangue mineiro do Rei, negro além do racialismo hoje decretado no país.
Pois não é que depois da extinção daquele adorável “playoff” de oito times, o sistema de pontos corridos súbito nos brinda com essa reta final de oito jogos com oito times (no mínimo) com chance de título e/ou Libertadores?
Trata-se de uma apoteose, ainda mais agora com a garantia — se é que pode-se aplicar tal palavra a qualquer decisão atribuída a Conmebol — de que serão seis brasileiros na Libertadores.
Importante registrar-se que o sobe-desce do Vascão é diretamente proporcional ao silêncio-gritaria no banco cruzmaltino. Quanto menos nosso aguerrido PC Gusmão grita, melhor o time joga. PC esgoela-se em vão, gritos são para treinos e vestiários. Eu vi, ninguém me contou, era o Flu no ataque, sob a batuta de P.C., ele aos berros: “Vira! Vira o jogo! Vira!” Quando a criatura de chuteiras virou a tal da bola, a defesa adversária já tinha virado junto, o técnico não tinha apenas telegrafado, tinha cantado a jogada... Quieto, come quieto, PC. Vai, pupilo, enfim se libertar do mestre, aquele que já teria dito que o jogador chutou a bola no ângulo, cumprindo suas ordens soberanas de técnico. Ai.
Treinador este, Vanderlei Luxemburgo, que terá agora seu primeiro embate de gente grande, contra... o Vasco de PC Gusmão.
Ah, tem dedução estapafúrdia nova na praça de nossos sábios comentaristas: quando o jogador não reclama, isso quer dizer que o juiz acertou. Ora! Então, se um zémané reclama, põe sob suspeita a decisão de outro zémané, ou pior: a não reclamação de um zémané referenda o erro do outro zémané! Não, não e não. Exemplo claro: o pênalti, bem cavado e mal marcado, que inaugurou o placar na inverossímil vitória do Flamengo sobre o poderoso Inter.
Mais uma vez o Fluzão foi superior ao adversário, mais uma vez um craque voltando de contusão ao departamento médico retornou, mais uma vez as chances desperdiçadas nos deixaram a um grito da liderança, sofre-se assim a caminho do título?
Antes de contar uma história sobre o maior jogador de futebol de todos os tempos, vejo-me na obrigação de comentar um tema mais que batido, pisoteado, relativo ao voleibol.
Faz de conta que um certame de esporte coletivo é um torneio de esporte individual, natação, por exemplo. O que faz o técnico do nadador? Prepara o atleta para atingir o seu ápice na prova final, a que vale a medalha de ouro, certo? No esporte coletivo, também, apenas uma partida vale o lugar mais alto do pódio. O que deve fazer o treinador? Levar, nas melhores condições, dentro do regulamento, sua equipe até a partida decisiva. E mais, tal decisão só vai adiante se tomada em espírito colegiado, unânime. O resto é falta de assunto e falso moralismo.
Agora sim, a historinha prometida no início: “O menino que não conhecia Pelé” .
Nos arredores de Luanda, depois das eleições fracassadas de Angola, em 1992, fomos capturados pelos guerrilheiros da UNITA.
Confiscaram todo nosso equipamento e nos preparamos para o pior, um longo cativeiro.
Meu companheiro, cinegrafista experiente, Paulo Pimentel, tentou desanuviar o ambiente de fuzis engatilhados: “ Somos do Brasil, futebol, Pelé, Pelé!” . O menino, de seus 14 anos, criado na selva, tendo como único brinquedo da vida inteira sua metralhadora, longe de toda e qualquer informação, respondeu: “ Quem é Pelé?” . Paulo sussurrou: “Estamos mortos...” .
Para provar que existe vida após a morte, na semana que vem tem mais...
Ah, a corrida de bigas! Alugue “Ben Hur” em qualquer locadora.
Se o filme datou, ficou chato, corra para o capítulo da corrida de bigas, ainda é irado.
Duas ou três lembranças de teatro
Duas ou três lembranças de teatro
Artur Xexéo – O Globo – Segundo Caderno
Iniciando uma carreira teatral ou não colunista se espanta com o público
A primeira vez em que fui ao teatro, deve ter sido em Lorena, no interior de São Paulo. Minha prima Neusa participava de uma montagem amadora de “A bruxinha que era boa”, de Maria Clara Machado. Eu tinha 6 ou 7 anos. E fiquei fascinado.
Mas hoje, pensando bem, imagino que tenha assistido a pelo menos uma peça antes dessa. Volta e meia, algum grupo teatral passava por Piquete mambembando. E minha mãe, entusiasmada com a chegada da trupe teatral, sempre emprestava um ou outro mobiliário lá de casa para ajudar a compor o cenário dos visitantes. Lembro-me muito bem que “Morre um gato na China”, de Pedro Bloch, foi um dos espetáculos que ocuparam o palco do cinema do cassino dos oficiais da Vila Militar de Piquete. Eu estava na plateia, torcendo pelo bom desempenho da escrivaninha do meu quarto. Não me lembro de muito mais. Para mim, a grande estrela de “Morre um gato na China” era a escrivaninha.
Depois, já no Rio de Janeiro, tinha uma amiga da Déia, minha tia, que me levava para espetáculos no Tablado. Se ainda hoje alguém me perguntar quais foram as dez melhores peças que vi na vida, eu não vou deixar de citar “Maroquinhas Fru Fru”, mais uma vez de Maria Clara Machado. De quebra, descobri, mais tarde, que aquela foi a estreia de Jaqueline Laurence no teatro.
Teatro profissional mesmo, só fui ver com uns 9 ou 10 anos. Foi a histórica montagem de “My fair lady”, no Teatro Carlos Gomes, com Bibi Ferreira. Já contei aqui que Bibi sempre foi a atriz predileta lá de casa. Não sei quantas vezes a gente viu, na televisão, Bibi cantando “Mulher rendeira” em vários idiomas. E a gente ficava babando com o talento dela todas as vezes.
Depois, o teatro ficou meio afastado das prioridades da família. Teleteatro, não. Teleteatro, eu sempre vi. Sergio Britto, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, aqui no Rio, no “Grande Teatro Tupi”. Ou Laura Cardoso, Lima Duarte, Dionísio Azevedo no “TV de Vanguarda”, em São Paulo. Mas teatro mesmo, ao vivo, só no fim da década de 60, com o exuberante desempenho de Marília Pêra em “Fala baixo senão eu grito”, de Leilah Assumpção.
Daí por diante, virou vício.
Eu queria mudar de assunto. Falar do debate de domingo, dos crimes na novela das oito, do resgate dos mineiros no Chile... mas, nos últimos dias, tenho respirado teatro. Cometi a ousadia de aceitar o convite de escrever um texto para teatro. Mais ousado que eu, só o grupo de atores, diretora, figurinista, cenógrafo, iluminador, coreógrafo, produtores e diretoras musicais que aceitaram participar da transformação de meu texto em peça. Nos últimos dias, tenho visto como essa gente de teatro se empenha para levantar um espetáculo.
Para proporcionar uma hora e quinze minutos de entretenimento, essa turma trabalha 24 horas por dia. E refaz um arranjo musical, ajusta a luz, tira um elemento do cenário, diminui a caixa cênica (meu Deus, o que será isso?), corta uma parte do texto aqui, acrescenta um caco ali, muda uma marcação...
Eu acho que o espetáculo está pronto há um mês. Mas sou novato no assunto. Pelo que deu para entender, um espetáculo teatral nunca está pronto.
Mais surpreendente do que essa gente que transforma os palcos de teatro, só mesmo a plateia que os frequenta. Ela nunca reage da mesma maneira. Uma noite, o público morre de rir com o que o autor escreveu para ser uma piada. O autor fica tranquilo. Deu certo.
Na noite seguinte, a plateia, no mesmo momento, não esboça sequer um sorriso. Como é que pode? Eles devem estar combinando antes de entrar no teatro. Vamos rir naquela hora, vamos ficar sérios naquela outra, só para desnortear o autor. Tenho chegado cedo ao Sesc Ginástico só para ver se vejo esse momento em que todos combinam como vão se comportar. Mas ainda não peguei ninguém em flagrante. Eles são mais espertos. Minha dedicação ao começo da temporada de minha peça — vou ao teatro todo o dia — me fez deixar de acompanhar um dos meus programas preferidos dos últimos tempos, a propaganda política no horário eleitoral gratuito.
Dia desses, tentei retomar o hábito adquirido durante o primeiro turno. Estava no ar o programa da Dilma. Ela se orgulhava do crescimento da indústria naval brasileira e mostrava a construção do navio João Cândido.
“O João Cândido é um dos navios que transportará as riquezas brasileiras”, narrava o locutor da propaganda. O PT pode ir bem no movimento dos estaleiros do país, mas vai de mal a pior na gramática. É “transportarão”, Dilma! Transportarão. O colunista desinformado reclamou do horário tardio de exibição de “Vale tudo”, de Gilberto Braga, no canal Viva, mas não se deu conta de que a emissora também transmite a novela em horário alternativo: meio-dia. Dona Candoca, que dorme muito cedo, está acompanhando as maldades de Maria de Fátima na hora do almoço.
E-mail: axexeo@oglobo.com.br
domingo, outubro 17, 2010
Dia das Mães
Dia das Mães
ARTUR XEXÉO – O Globo - Revista
Hoje é Dia das Mães na Argentina. Não fico catando calendários pelo mundo, mas quis o destino que uma revista argentina caísse nas minhas mãos esta semana. E, em meio a notícias locais, descubro que hoje é “dia de las madres” no país vizinho. O noticiário se divide entre a chiquitita que morreu de anorexia, o costume de Cristina Kirchner de mandar recados políticos pelo Twitter e o hábito dos brasileiros de não deixarem gorjeta nos restaurantes (eles se fingem de distraídos, reclamam os donos dos estabelecimentos). Os anúncios, quase todos, lembram que 17 de outubro é o Dia das Mães. Não sei como eles chegaram à data. Hoje é o terceiro domingo de outubro, o que me faz acreditar que eles não celebram tal dia no segundo domingo do mês, como fazemos em maio. De qualquer forma, em qualquer lugar do mundo, o Dia das Mães é sempre domingo. Será que todo domingo do ano é Dia das Mães em algum país? Será que minha mãe não quer que, aos domingos, eu sempre me lembre dela? Minha mãe tinha características muito peculiares.
Ela estava sempre comprando um sítio, por exemplo. Mais tarde, geralmente motivada por dívidas de jogo — ela gostava de um carteado —, precisava vendê-lo. Mas, enquanto tinha o sítio, era, definitivamente, uma mulher do campo. Plantava, colhia, fazia artesanato com madeira e não gostava de críticas a seus espaços campestres.
— Mãe, tem muita aranha por aqui.
— Aranha é bom, meu filho. Ela come as moscas.
— Mãe, esses cachorros tão muito maleducados.
Tem cocô no gramado.
— Cocô de cachorro é bom, meu filho.
Afasta os mosquitos.
— Mas atraem as moscas.
— Ah, por isso tem tanta aranha por aqui. A natureza é sábia.
E, assim, nós, o resto da família, citadinos irrecuperáveis, íamos convivendo com aranhas, moscas, mosquitos e cocô de cachorro.
Sem reclamar.
Sempre teve, em alguma parede lá de casa, um quadrinho com os dizeres “O mundo todo não vale o meu lar”. Tenho certeza de que, na verdade, o lar organizado por minha mãe é que não valia para o mundo todo. Ela era baixinha e, por conta disso, as proporções lá de casa sempre foram diferentes das do resto do planeta. A pia do banheiro, por exemplo, que para ela estava instalada numa altura normal, batia um pouco acima do joelho do resto da família. Sempre tive vergonha quando amigos iam ao banheiro e saíam de lá com as calças molhadas. Mas ninguém tinha coragem de dizer para ela que a pia era muito baixa.
Fumava muito, o que não significava que houvesse muitos cinzeiros lá em casa. Os cigarros eram abandonados em pontas de mesa, braços de cadeiras, cabeceiras de camas... Com o tempo, as marcas de queimado espalhavam-se pela casa. Ela não dava o braço a torcer.
— É a marca do Zorro — brincava.
Sempre achei que ela deveria ser estudada pela Medicina. Tinha uma capacidade de calcificação inacreditável. Volta e meia quebrava um braço ou uma perna. Uma semana depois, estava usando agulhas de tricô para se coçar em locais que o gesso não permitia. Mais uma semana, começava a usar uma tesoura para diminuir o gesso e, pronto, em alguns minutos arrancava tudo. E não se falava mais nisso.
Você deve estar se perguntando por que cargas d’água estou falando de minha mãe. Sei lá. Hoje é Dia das Mães na Argentina. Pela lógica da minha mãe, não duvido nada de que ela esteja esperando uma homenagem.
Email: axexeo@oglobo.com.br
sexta-feira, outubro 15, 2010
Uma viagem ao interior
Uma viagem ao interior
Milton Hatoum
Não conhecia Alumínio, um município paulista perto de São Roque, que todos conhecem por ser uma cidade histórica cercada por serras. No passado, esse relevo verde fazia parte da mata atlântica. Hoje, apenas um parque sobreviveu a essa floresta. Fundada há mais de quatro séculos por bandeirantes, a história de São Roque - capela, fazenda e escravos - diz muito sobre a história de São Paulo e do Brasil.
Mas Alumínio, muito mais recente, também tem uma história. A diretora da biblioteca me mostrou com orgulho várias fotografias antigas de seu município. Vi a estação ferroviária de Rodovalho, construída em 1899; vi a imagem de um trem que atravessava o vale; vi trabalhadores negros vigiados por um capataz que, na foto, estava de costas e usava um chapéu branco; vi enormes manchas escuras que formavam a mata exuberante das serras. E quando olhei através da janela da biblioteca, vi um relevo de eucaliptos, como se fossem bosques tristes na paisagem de Alumínio.
Perguntei à diretora da biblioteca quem tinha sido Rodovalho. O dono de uma fábrica de cimento, ela disse. Depois acrescentou: coronel Rodovalho: Antônio Proust Rodovalho.
Proust?, perguntei, soletrando o sobrenome do grande escritor francês.
Proost, ela soletrou, mitigando minha obsessão pela literatura.
O que pode fazer uma única vogal! Olhei o céu acinzentado de Alumínio e, sob esse céu cor de cimento, avistei um amontoado de casas inacabadas, erguidas na mesma serra que acabara de ver numa das fotografias antigas. Disse a mim mesmo que a paisagem urbana não é menos tenebrosa que a natureza devastada. E perguntei à diretora como se chama aquele bairro que crescia na serra.
Alvorada, ela respondeu. Os estudantes já chegaram, mas ainda temos tempo para um café.
Tomei um gole, e enquanto relia o roteiro da minha palestra, a chuva caiu com um estrondo. Gotas grossas, pesadas e ruidosas, que desabavam inesperadamente e me recordaram a chuvarada no equador e o cheiro da floresta.
Alvorada é também o nome de um bairro pobre de Manaus, um bairro que eu havia esquecido e agora reaparecia na minha memória, com suas casas de madeira amontoadas à beira de um igarapé sujo. Nas tardes de sábado eu dava uma carona para Eliandra, a faxineira do edifício onde eu morava. Entrava no bairro, um labirinto de ruas estreitas e esburacadas, e deixava Eliandra perto de uma escada íngreme, que ela subia até alcançar uma rua de terra no alto de um barranco. Uma tarde quis visitar sua casa, ela me disse: no próximo sábado.
Eliandra me disse que morava com um motorista de caminhão, mas não conheci esse motorista. Conheci a casa de madeira, cuja fachada de tábuas empenadas e sem pintura debruçava-se sobre um abismo. Eliandra me serviu café e bolo de macaxeira. Abriu um álbum, onde vi imagens de passeios pelo Rio Negro, ela e o motorista no convés de um barco de linha. Eram felizes, ou pareciam felizes naquele passeio. A casa era apenas um quarto, uma saleta e uma cozinha. O banheiro ficava do lado de fora e não havia esgoto. Perguntei se ela estudava ou se tinha estudado, e ela disse não. Depois disse: mas quero muito. Sabia costurar: nossa roupa, as cortinas, as toalhas de mesa... Costuro qualquer coisa, disse Eliandra. E num sábado, quando dei a última carona, ela me revelou que morava sozinha, o motorista tinha sumido no ano passado: foi embora sem me dizer uma palavra. Nem um bicho faz isso. Chorou quando eu disse que ia morar longe de Manaus. Mas quis ficar com o meu gato de estimação e prometeu que ia cuidar dele. Como se fosse meu, ela disse.
Quando a chuva parou, tomei mais um gole de café e me dirigi ao auditório da biblioteca de Alumínio.
E assim começou minha viagem literária pelo interior de São Paulo.
Dr. Sinézio - De Niterói para o mundo
Dr. Sinézio - De Niterói para o mundo
Leda Nagle – Jornal O Dia
Pessoas generosas de verdade sempre me encantam. Quando falo de generosidade, não falo de fazer um cheque e mandar para instituição de caridade. Até porque, se o saldo da conta é positivo, fazer um cheque não dá trabalho nenhum e pode aliviar muitas culpas. Também não falo de dar roupas que não cabem mais no armário ou na própria pessoa. Falo de generosidade mesmo. De fazer trabalho voluntário, de dar seu tempo para alguém ou algum grupo, sem interesse econômico, político ou pessoal.
Em outras palavras, não se trata de ‘fazer bonito’ nem com seu próprio chapéu nem com o chapéu dos outros. Por exemplo? O cirurgião plástico Sinézio de Souza. Há quatro anos, ele opera crianças em situação de risco em países como Paquistão, Afeganistão, Iraque, Angola, Moçambique, Costa do Marfim, Tanzânia, Etiópia, Congo. Não se trata de afinar o nariz ou tirar rugas. E sim de fissuras de lábio leporino, queimaduras de guerra, deformidades de mãos e pescoço. Ele faz parte de uma organização internacional que se chama Smile Train, de origem italiana.
Dr. Sinézio nasceu em Niterói, é apaixonado pelo Rio de Janeiro, onde mora há mais ou menos 30 anos. Mangueirense convicto, flamenguista sem fanatismo (estava no Maracanã no hexacampeonato), gosta de um bom vinho, de jazz e de cinema. Adora dar uma corrida, acha correr terapêutico. A família é uma de suas maiores paixões. É casado, tem dois filhos do primeiro casamento, um casal do segundo casamento e um neto de 3 anos.
Pergunto a ele se não tem medo de ir a estes lugares, ver de perto estas guerras. Dr. Sinézio diz que não e que também não tem medo da morte. Diz que o tesão pela vida o leva a estes países. Que nada se compara à alegria de devolver, ao colo de uma mãe desesperada, o filho mais sadio. Criado na Igreja Católica, gosta do Budismo como filosofia de vida, acha que as pessoas estão cada vez mais loucas no mundo atual , cada vez menos felizes e mais carentes.
Ele se dá por satisfeito com cinco horas de sono por noite, tem mais de seis mil fotos dos países onde operou, das pessoas que viu. Um dia, quem sabe, pretende fazer alguma coisa com este material. O que ele tem certeza é que volta mais leve e feliz depois de cada viagem. Calcula que já tenha feito mais de 400 cirurgias nestes quatro anos. Continua trabalhando na Santa Casa do Rio, no serviço de cirurgia plástica. E em fevereiro de 2011 vai operar de novo, na África.
Leda Nagle é jornalista e escritora e apresenta na TV o ‘Sem Censura’
Mateiro por ofício, quilombola por acaso
Mateiro por ofício, quilombola por acaso
MARCOS SÁ CORRÊA - O GLOBO - 15/10/10
As perneiras de couro, contra picadas de cobra, são inseparáveis do ritual de ingresso na Linha Martins. Mas vêm do estoque cheirando a mofo, apesar da discreta espanada que lhe deu o guia, antes de entregá-la. E não adianta dizer que sabe andar no mato, não tem medo de cobra ou faz calor.
É a norma, Miro responde.
Ele se chama Almiro Marcelino Pereira.
Mas avisou de véspera que não adiantava procurá-lo por esse nome nos confins do parque nacional com o município de São Miguel do Iguaçu, onde uma estrada de terra magra como um aceiro costeia a floresta e a soja: "Aqui, todo mundo só conhece Miro." A divisa do parque com o município é um corte reto, traçado a máquina.
E tão estreito, que a sombra das copas se projeta na margem das plantações. É seu único anteparo contra o sol que cai sobre os campos como uma praga dos céus. Aprender o apelido é indispensável porque sem Miro não se pisa na Linha Martins.
Não basta procurá-lo diretamente no portão de entrada, porque ali ele vai pouco. É um escritório caprichado, feito com toras de eucalipto.
Tem pórtico na frente, varanda nos fundos, virada para floresta, e até enfermaria. Mas turista é a coisa que Miro menos vê na Linha Martins, desde que passou a operá-la lá vão mais de cinco anos.
Onça, sim, é visita que não lhe falta.
Cada avistamento de onça, pintada ou não, está metodicamente inscrito, com dia, hora e local, na planilha da administração. O resto da fauna não merece tamanha consideração.
Miro perdeu a conta das varas de porcos do mato, dos bandos de macacos, das antas e das jaguatiricas com que topou em suas andanças, capinando regularmente uma trilha que, por falta de uso, está sob o risco permanente de invasão pelo mato.
A prática tirou-lhe o pavor que tinha das jararacas, cascavéis e outras serpentes que lhe atravessam habitualmente o caminho.
Mas as perneiras continuam sagradas. Miro cresceu do lado de lá da cerca, sem nunca se meter no mato. Criou-se num fundo de fazenda loteado em pequenos sítios de um alqueire, a maioria comprada por negros, em geral vindos de fora. São 25 pessoas.
O bastante para, em terra de louros, virar a Vila dos Pretos.
Como tal, uma comissão de Curitiba reconheceu-a como Comunidade Quilombola da Sanga Funda.
Com o título vieram promessas de mais terras, sementes gratuitas e outras prerrogativas oficiais de quilombo. Nem tudo saiu. Nem por isso Miro deprecia as vantagens de virar quilombola. "As pessoas assim nos tratam com mais consideração", ele garante.
A picada corta o parque de um lado a outro, em menos de quatro quilômetros, a menor distância entre seus limites. Já se pensou em extirpar essa verruga florestal da unidade de conservação, encravada como está numa fronteira agrícola sempre em avanço. A demarcação definitiva preservoua. E a Linha Martins foi uma compensação, para calar as críticas de que o parque fica de costas para quem mora longe de seus portões.
Nisso, fracassou. Ela recebe raros visitantes E da vizinhança, até hoje, não veio ninguém. Só o prefeito de São Miguel do Iguaçu passou por lá na inauguração, sem parar para ver o que havia além do pórtico. Miro, no entanto, mantém a picada pronta para o que der e vier. Aplica ao pé da letra o regulamento para grupos, mesmo se atende um visitante que lhe sugere, à falta de testemunhas, esquecer aquela história de calçar perneiras. É um mateiro cioso e tarimbado, que só conheceu o mato na Linha Martins. Mas vive num país que só consegue enxergá-lo como quilombola.
MARCOS SÁ CORRÊA é jornalista.
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