quarta-feira, maio 19, 2010
Menina de foto que se tornou símbolo da Guerra do Vietnã reencontra jornalista
Menina de foto que se tornou símbolo da Guerra do Vietnã reencontra jornalista
Rebecca Lumb - Da BBC News
Kim Phuc, a menina vietnamita que é vista em uma foto icônica fugindo nua de um ataque a bomba durante a Guerra no Vietnã, reencontrou-se pela primeira vez com Christopher Wain, o correspondente de guerra que ajudou a salvar sua vida há 38 anos.
O reencontro, promovido pela BBC, é tema de um documentário que será transmitido nesta terça-feira pela Rádio 4 da BBC. O último encontro dos dois tinha sido em 1972, quando o jornalista, na época correspondente da rede de televisão britânica ITN, foi visitar Phuc no hospital. Ela estava deitada em uma cama, com queimaduras de primeiro grau cobrindo mais de 50% do seu corpo. As queimaduras foram provocadas por uma bomba lançada sobre o vilarejo onde ela vivia, no que na época se chamava Vietnã do Sul.
História
O ataque aconteceu no dia 8 de junho de 1972. Christopher Wain e sua equipe estavam no Vietnã cobrindo o conflito há sete semana. "Naquela manhã, chegamos ao vilarejo de Trang Bang, que tinha sido infiltrado pelos vietnamitas do norte dois dias antes. Eles estavam preparados, esperando um contra-ataque", disse Wain. "No final da manhã, dois bombardeiros vietnamitas começaram a sobrevoar a área." Muitos dos moradores já tinham procurado abrigo em um templo. Entre eles, a menina Kim Phuc, de nove anos de idade. "Nós achávamos que ali estaríamos seguros - então vi o avião", conta Phuc. "Chegou tão perto!" "Ouvi o barulho das bombas e de repente vi o fogo por toda parte, ao meu redor". "Estava apavorada e corri para fora do fogo. Vi meu irmão e meu primo. Nós continuamos correndo. Minhas roupas foram queimadas pelo fogo. "Wain e sua equipe estavam a 400 metros do ponto onde as quatro bombas de napalm explodiram. "Houve uma onda de calor, como se alguém tivesse aberto a porta de um forno. Então eu vi Kim e as outras crianças. Elas estavam silenciosas - até que viram os adultos. Então começaram a gritar."
Documento
Naquele dia, um fotógrafo vietnamita, Nick Ut, também estava cobrindo os acontecimentos no Vietnã do Sul. Quando Kim Phuc corria pela rua, os braços estendidos, gritando por ajuda, Ut tirou o que é hoje uma das mais icônicas imagens da Guerra no Vietnã. Ela ainda corria quando Wain a parou e começou a jogar água sobre seu corpo, enquanto comandava a equipe a filmar as cenas terríveis. "Tínhamos pouco filme e meu câmera, Alan Downes, estava preocupado porque eu queria que ele usasse o filme precioso para filmar cenas horríveis demais para ser transmitidas. Minha opinião era que precisávamos mostrar o que estava acontecendo. E a ITN de fato exibiu as imagens." O fotógrafo Nick Ut levou a menina para o hospital. Pouco depois, fotos e filme foram mostrados em toda a imprensa ocidental. Como resultado, o mundo inteiro queria saber o que tinha acontecido com a Kim Phuc. Quando, dias depois, Wain encontrou Phuc no hospital e ouviu da enfermeira que a menina ia morrer no dia seguinte. Apesar de tudo o que aconteceu com ela, e tudo o que ela passou, ela se tornou uma mulher muito impressionante.
Christopher Wain
Wain decidiu transferir Phuc para um hospital de cirurgia plástica para tentar salvar sua vida. Foram 14 meses de internação e 17 cirurgias, e Phuc sente dores constantes até hoje.
Garota Propaganda
No entanto, a foto que salvou sua vida também lhe custou caro: durante anos, Phuc foi usada por governos, primeiro no Vietnã, depois em Cuba, como um "símbolo da guerra". Em várias ocasiões, teve de interromper seus estudos de medicina para cumprir deveres como um instrumento de propaganda oficial. Quando estudava na Universidade de Havana, em Cuba, conheceu o estudante vietnamita Tuan, com quem se casou. Os dois viajaram para a Rússia em lua-de-mel e de lá conseguiram fugir para o Canadá, onde vivem hoje com os dois filhos. "Eu ouvi rumores de que muitos estudantes cubanos desciam no Canadá na volta de Moscou, quando o avião fazia escala para se reabastecer", disse Phuc. "Fazendo isso, finalmente conquistei minha liberdade." Hoje, Phuc não se considera mais uma vítima da icônica foto. "Percebi que agora, em liberdade e vivendo em um país livre, posso assumir o controle da foto", ela diz. A Fundação Kim Phuc, criada por Phuc, oferece assistência médica e psicológica a crianças que são vítimas da guerra.
'Mulher Impressionante'
O jornalista Chris Wein continuou a trabalhar para a ITN por mais três anos, antes de ser contratado pela BBC. Ele se aposentou em 1999 e não esperava ver Phuc novamente. "Na época (o bombardeio em Trang Bang) era apenas mais uma notícia, embora terrível. Foi certamente a coisa mais horrível que já vi", disse Wain. "Mais tarde, quando o interesse ressurgiu, senti que Kim estava sendo usada. Por isso, dez anos atrás, recusei uma proposta de reencontro com ela no programa de Oprah Winfrey na TV (americana) - parecia exploração." Hoje, depois de se encontrar com ela, Wain diz que mudou de ideia. Para o jornalista, ela não é mais uma vítima daquela foto. "Apesar de tudo o que aconteceu com ela, e tudo o que ela passou, ela se tornou uma mulher muito impressionante." O documentário It's My Story - The Gils in the Picture, apresentado por Chris Wain, pode ser ouvido no site da Rádio 4 da BBC. A Guerra do Vietnã aconteceu entre 1959 e 1975 envolvendo o Vietnã do Norte, de orientação comunista, o Vietnã do Sul, uma ditadura militar aliada aos Estados Unidos, e também o Laos e o Camboja. A retirada das tropas americanas do país marcou a derrota dos Estados Unidos e o fim da guerra. O Vietnã foi reunificado sob regime comunista em 1976.
Voz de mãe ao telefone conforta tanto quanto abraço, diz pesquisa
Voz de mãe ao telefone conforta tanto quanto abraço, diz pesquisa
Estudo diz que liberação de hormônio independe da presença física
Um estudo de pesquisadores americanos sugeriu que ouvir a voz da mãe ao telefone conforta tanto quanto receber um abraço.
Os cientistas submeteram 60 meninas entre sete e 12 anos de idade a situações de estresse e monitoraram as respostas hormonais delas à voz materna, um toque carinhoso e um filme.
Em um artigo na revista científicaProceedings of the Royal Society B, os pesquisadores afirmam que os dois primeiros gestos proporcionam o mesmo nível de conforto – medido pelos níveis do "relaxante natural" oxitocina.
"Assumia-se que a liberação de oxitocina em um contexto social requeria contato físico", disse a coordenadora do estudo, Leslie Seltzer, da Universidade de Wisconsin-Madison.
"Mas esses resultados deixam claro que a voz de uma mãe pode ter o mesmo efeito de um abraço, ainda que elas não estejam fisicamente presentes."
Vencendo a distância
As conclusões indicam que mães que precisam sair para trabalhar e deixar as crianças na creche podem tranqüilizá-las com uma simples ligação telefônica.
Pesquisas anteriores feitas com roedores se concentravam na liberação de oxitocina em situações de tensão através do contato físico.
A substância é uma espécie de "sedativo natural" associado à empatia e capaz de aliviar os efeitos do cortisol, o chamado "hormônio do estresse".
Na pesquisa, as meninas tiveram de falar e resolver questões de aritmética em público inesperadamente, o que fez acelerar os seus batimentos cardíacos e elevar os níveis de cortisol.
Após a experiência, elas foram divididas em três grupos: o primeiro recebeu uma ligação telefônica materna logo após a situação de estresse; o segundo, recebeu um toque carinhoso, como um abraço; o terceiro foi levado para assistir ao filme A marcha dos pingüins, considerado "emocionalmente neutro".
Segundo os cientistas, os níveis de oxitocina subiram nos dois primeiros grupos em praticamente igual medida. Não houve aumento no nível desse hormônio no terceiro grupo.
As eleições e a internet
As eleições e a internet
Andrea Dunnningham – Jornal do Brasil
Pesquisa recente da consultoria norte-americana Digital Daya mostra que, dos 164 países das Nações Unidas, 24 têm seus líderes presentes no Twitter. No Brasil, os políticos têm usado essas e outras redes sociais para fazerem sua campanha este ano, além de outras ações de marketing digital. A tendência é que encontremos uma certa variedade de ações, inspiradas tanto em casos de sucesso de empresas que trabalham suas marcas nas mídias sociais quanto estratégias adotadas por políticos de fora do Brasil. Nesse aspecto, o sucesso da campanha online de Barack Obama tem sido um dos modelos utilizados como base para a formatação de campanhas digitais brasileiras, pois é um caso de muito sucesso. Ele serve de exemplo para praticamente toda ação, seja ela política ou se insira nos negócios, mas Obama não fez nada sozinho.
Ele investiu pesado nas redes, contando com uma equipe de 40 pessoas, dentre elas excelentes estrategistas digitais, já habituados com as redes e o comportamento dos usuários nelas. Além disso, a campanha mobilizou as pessoas em torno de uma causa e, então, fortaleceu uma rede de apoiadores. Obama ressaltou o poder do voluntariado e mostrou como mover as pessoas em torno de algo em que elas acreditam. Ele atentou para esta verdade: aqueles que acreditam na própria marca disseminarão o conteúdo por vontade própria e alcançarão cada vez mais um número maior de pessoas.
Seguindo modelos ou criando novas estratégias, a regra mais importante e básica para se atuar nas mídias sociais é: você precisa estar disposto a ouvir as pessoas, receber suas críticas, e comunicar-se com elas de forma mais transparente. Quando você entende o que o seu público quer e ele enxerga em você como algo de bom, que não quer apenas vender, mas estar junto dele, participando e, muito importante, respondendo a suas dúvidas, é muito mais fácil chegar a ele e criar uma conexão, um vínculo. As mídias sociais trouxeram esta comunicação de mão dupla de uma forma que ela já não pode mais ser ignorada, e as pessoas hoje exigem. É preciso entender isso e mudar o modelo de pensamento, principalmente no caso dos políticos, que precisam ter a população junto deles, acreditando e apoiando seu trabalho.
É importante lembrar que tudo ainda é recente quando o assunto é mídias sociais, portanto, nada melhor do que experimentar. Ninguém sabe tudo sobre o marketing na internet, mas aqueles que o conhecem a fundo sabem que, depois de compreender bem o ambiente digital, é necessário fazer testes - mas testes conscientes.
Ministro do STF critica campanha antecipada de pré-candidata do PT
Ministro do STF critica campanha antecipada de pré-candidata do PT
"O dirigente maior do País não pode ter candidato a ponto de praticamente sair em campanha", advertiu ontem MARCO AURÉLIO MELLO, ministro do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. "O presidente deve adotar postura equidistante. Eu fico muito triste quando vejo o que houve com a propaganda partidária do PT em termos de deturpação, que se tornou em apologia de uma pré-candidata à Presidência da República." Após evento na FMU, em São Paulo, Marco Aurélio se disse perplexo com o que classifica de campanha antecipada de Dilma Rousseff (PT). "É abandono a princípios, perda de parâmetros, inversão de valores." Ele sugere "pena mais incisiva para o beneficiário do ato ilegal, com suspensão do programa na TV". "O presidente não pode tripudiar e impor goela abaixo certa candidatura."
FLORBELA ESPANCA
Vaidade
Sonho que sou a poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada! ...
FLORBELA ESPANCA
Militância contra ditadura esquenta debate eleitoral
Militância contra ditadura esquenta debate eleitoral
Principais personagens da atual cena política combateram o regime militar, que ruiu em 1985, quando 18% dos eleitores não tinham nascido
Roldão Arruda - O Estado de S.Paulo
A ditadura militar acabou oficialmente há 25 anos. Do conjunto de 133 milhões de cidadãos que hoje compõem o colégio eleitoral, 18% nem tinham nascido naquele ano de 1985, quando a Presidência da República foi entregue a José Sarney ? o primeiro civil no cargo após 21 anos de mandatos de generais. Outros 24% tinham menos de dez anos.
Do ponto de vista da experiência pessoal, portanto, a ditadura não foi vivida ou constitui uma vaga lembrança para 42% do eleitorado. Apesar disso, estão surgindo sinais de que o tema voltará a ganhar espaço no debate eleitoral deste ano.
O primeiro deles foi uma campanha, ainda em curso na internet, contra a candidata Dilma Rousseff, do PT, apontando-a como terrorista e sequestradora. O segundo foi a resposta a essa campanha, no programa partidário do PT, na semana passada, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a candidata. Disse que lutou pela democracia e a comparou a Nelson Mandela, na resistência ao apartheid.
No domingo, Marta Suplicy, que deve concorrer a uma cadeira no Senado, fez novo disparo. Disse que quem sequestrou mesmo na ditadura foi Fernando Gabeira? O candidato do PV ao governo do Estado do Rio e aliado de José Serra, o tucano que está em campo para disputar a Presidência com Dilma.
Pode-se dizer que o elemento desencadeador dessa retomada daquele período histórico é o desembarque de Dilma na cena eleitoral. Ela participou, de fato, de uma organização que defendia a resistência armada e incluía no seu rol de ações assaltos a bancos e sequestros. Por causa disso, ela foi presa e torturada.
Mas não é tudo. Quem observar o teatro político verá que alguns dos principais personagens em cena começaram na ditadura. Gabeira participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. Serra ajudou a fundar a Ação Popular, que também se opunha os generais, embora sem recorrer às armas.
Marina Silva, do PV, cresceu politicamente na resistência democrática. Lula foi preso por desafiar o poder ditatorial. Seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, amargou o exílio por defender a democracia.
Essas e outras histórias têm sido revividas e exploradas em cada eleição. Ora para enaltecer o candidato, mostrando-o como um defensor da democracia, ora para atacá-lo. Até 2002, o passado de Lula era lembrado pelos seus opositores como símbolo de baderna e insegurança? Por causa das greves que conduziu e pelo apoio que dava às ações dos sem-terra.
Para o cientista político Alberto Carlos Almeida, autor do livro A Cabeça do Eleitor, o efeito dessas reverberações, para o bem ou para o mal, já não têm o peso que seus autores pensam ter. "O eleitor ouve como curiosidade e pergunta: e agora? Vamos discutir o que é mais importante?"
Na opinião de outro analista político, Marco Antonio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas, o debate começou mal. Ele considerou errados tanto o ataque a Dilma quanto a resposta petista. "Ter lutado contra a ditadura é algo positivo do ponto de vista da democracia."
terça-feira, maio 18, 2010
Trotes eletrônicos
Trotes eletrônicos
CARLOS HEITOR CONY – Folha de S. Paulo
RIO DE JANEIRO - Quando o uso do telefone tradicional tornou-se comum, ao alcance de quase todos, os mais conservadores temeram que a privacidade de cada um ficasse ameaçada. Afinal, com o número do aparelho num catálogo geral podia-se penetrar na intimidade do lar, da empresa, na vida de todos.
Houve época em que os trotes eram frequentes. Quem não tinha muito o que fazer pegava o telefone, discava um número qualquer, xingava a mãe do sujeito, acusava a mulher de adultério, cobrava uma dívida inexistente.
Lembro um sujeito que, nos anos 40, deu um tiro no seu telefone porque um gaiato ligava todos os dias para cobrar maior vigilância sobre a mulher, que, segundo a voz anônima, era uma galinha.
Com o computador começou a haver não apenas o trote, mas a informação ociosa, poluidora da telinha. Ofertas de dinheiro fácil, de mulheres também fáceis, em épocas eleitorais a agenda dos candidatos pelos grotões do Brasil afora, campanhas mirabolantes disso e daquilo, um mundão de propostas que não interessam a ninguém.
Há também trotes, encontros que não se realizam, convites falsos, denúncias de falências, de corrupção, de pedofilia, que agora entrou na moda.
Certa vez, fiquei sabendo que um cidadão famoso havia morrido e fora sepultado no São João Batista às escondidas. Empresário importante no mercado, sua morte não podia ser divulgada. Teriam arranjado um sósia, que ocupou seu lugar na família, na empresa e na sociedade.
Tempos atrás, recebi uma oferta de um apicultor que me queria vender uma colméia de abelhas. Nos meus delírios mais extravagantes, já pensei em chegar a papa, a ser barítono do Metropolitan, a craque do Real Madrid. Mas Deus é testemunha de que nunca pensei em mexer com abelhas.
Justiça determina que pais de aluno indenizem professora agredida no RS
Justiça determina que pais de aluno indenizem professora agredida no RS
Docente teria levado tapas no braço e no ombro ao repreender estudante. Decisão foi tomada em segunda instância; cabe recurso.
A Justiça do Rio Grande do Sul determinou que os pais de um aluno que agrediu uma professora, em Jaguarão (RS), devem indenizá-la em R$ 2 mil por danos morais. De acordo com o Tribunal de Justiça do estado, a decisão foi tomada em segunda instância. Cabe recurso.
Segundo o TJRS, a professora foi agredida depois de repreender o aluno, que estava atirando bolinhas em outra estudante durante o recreio. A professora afirmou à Justiça que o garoto, de 13 anos, teria dado tapas em seu braço e em seu ombro. Após o fato, a educadora tirou licença para acompanhamento psicológico. O Tribunal de Justiça não informou a data em que ocorreu o caso.
Em primeira instância, a Justiça determinou o pagamento de indenização de R$ 690 por danos materiais e R$ 3,5 mil por danos morais, mas os pais do aluno recorreram da decisão. Em segunda instância, a Justiça manteve a condenação, mas reduziu a indenização para R$ 2 mil por danos morais, por entender que a quantia é suficiente para compensar os danos sofridos pela vítima. A Justiça manteve o valor fixado para danos materiais, pois os gastos foram comprovados por recibos.
Força da natureza
Força da natureza
Folha de S. Paulo - 18/05/2010
Com biografia incomum e amplo reconhecimento, a candidata Marina Silva representa a reciclagem da política verde no Brasil
O LANÇAMENTO da candidatura da senadora Marina Silva à Presidência é um sinal de amadurecimento das propostas ambientais no país.
Em 1986, a fundação do Partido Verde refletia, no Brasil, um movimento da política europeia. No final dos anos 1970, militantes pacifistas e ex-simpatizantes de organizações de esquerda, frustrados com os rumos teóricos e práticos do socialismo, encontraram na causa ecológica uma nova perspectiva de militância radical.
Tratava-se, àquela altura, de contrapor-se à ameaça nuclear e ao modo como o desenvolvimento técnico e industrial era concebido tanto no Ocidente quanto na esfera de influência soviética. Não por acaso, a versão brasileira do PV nasceu da iniciativa de ex-exilados políticos, ligados à luta armada, que viram de perto a experiência da Europa.
Sem envergadura para voos próprios, o partido e os primeiros simpatizantes das teses verdes acabaram por se tornar uma espécie de ornamento ecológico das agremiações de centro-esquerda -como o PSDB e, sobretudo, o PT. A identificação entre reivindicações ambientalistas e militância petista não era difícil de acontecer num país marcado por conflitos fundiários e desigualdades na economia rural. Propostas como reforma agrária, apoio à agricultura familiar e preservação das florestas facilmente enquadravam-se na lógica primitiva do confronto entre representantes arcaicos do poder agrário, habituados a seguir sua própria lei, e a massa de despossuídos do campo, submetida a condições precárias, quando não sub-humanas, de vida.
O país no entanto mudou. Não superou as assimetrias e não se tornou um perfeito exemplo de equilíbrio nas relações entre economia e natureza. Mas certamente avançou em diversos aspectos e adquiriu um tipo mais sofisticado e amplo de entendimento da questão ambiental. Da mesma forma que na Europa o movimento verde abandonou posições isolacionistas, dispôs-se a fazer política e conseguiu atrair o apoio de governos e empresas, no Brasil, a sociedade vai se habituando à pauta ambiental como algo que não diz respeito apenas a esta ou àquela área ou doutrina.
É o que a candidata Marina Silva, com seu léxico característico, costuma chamar de "transversalidade". Sua presença na disputa eleitoral, depois de atritos com o que se poderia chamar de "desenvolvimentismo de alto carbono" do governo Lula, na figura da tocadora de obras Dilma Rousseff, representa a reciclagem da proposta verde no Brasil. Pela biografia incomum e pelo reconhecimento que conquistou, Marina reúne condições de obter apoio de empresários, encampar bandeiras como a reforma do Estado e influenciar a agenda das demais candidaturas. Seja qual for o resultado da eleição, não poderá ser ignorada. Terá, ao menos, exercido papel relevante para retirar a política ambiental de seu antigo gueto.
Ousar é pecado?
Ousar é pecado?
BENJAMIN STEINBRUCH - Folha de S. Paulo - 18/05/2010
O Brasil não pode perder oportunidades por puro conservadorismo, tanto na economia como no futebol
O SUBSTANTIVO ousadia foi muito usado na semana passada, quando o técnico Dunga anunciou os nomes dos jogadores convocados para a Copa do Mundo.
Vá lá que o Banco Central peque por falta de ousadia -que mantenha os juros desnecessariamente altos, que não se preocupe com o crescimento econômico e com a criação de empregos. Enfim, que seja conservador ao extremo, perdendo oportunidades de acompanhar o ritmo de outros países emergentes. Já estamos acostumados, embora isso seja muitas vezes incompreensível. Mas não poderíamos esperar que essa regra fosse adotada também no futebol. Nessa matéria, o Brasil é vanguarda, pode e deve ousar. A pátria em chuteiras, desde 1950, sempre foi um momento ímpar para o país. A cada quatro anos, quando chega a Copa, vai embora nosso complexo de vira-lata. Todos perdem a vergonha de vestir verde-amarelo, de carregar a bandeira e de gritar "Brasil, Brasil". Até espaços como este, de economia, são usados para palpites sobre futebol.
O que ocorreu na semana passada foi uma decepção para os brasileiros. É curioso, mas fazia muito tempo que a escolha dos nomes dos jogadores para a seleção não despertava tamanho interesse. Talvez porque os melhores jogadores, exportados para clubes europeus, não tivessem mais nenhum vínculo com as torcidas de clubes brasileiros.
Desta vez, porém, houve uma espécie de corrente de torcidas em favor de dois jovens jogadores do Santos, Neymar e Paulo Henrique Ganso. De uma hora para outra, os dois viraram unanimidade nacional.
Torcedores de todos os clubes passaram a defender a convocação desses "meninos" para a Copa. Eles passaram a representar o resgate de um futebol corajoso e ofensivo, característica brasileira.
Desta vez, porém, houve uma espécie de corrente de torcidas em favor de dois jovens jogadores do Santos, Neymar e Paulo Henrique Ganso. De uma hora para outra, os dois viraram unanimidade nacional.
Torcedores de todos os clubes passaram a defender a convocação desses "meninos" para a Copa. Eles passaram a representar o resgate de um futebol corajoso e ofensivo, característica brasileira.
A comissão técnica não teve sensibilidade para entender o que se passa no país do futebol. Misturar jovens talentos com profissionais experientes é uma das qualidades do bom administrador, não apenas no futebol. Em 1958, os novatos Garrincha e Pelé, este com 17 anos, viraram titulares na Suécia e foram heróis da conquista da primeira Copa. Em 1966, na Inglaterra, escalou-se um time de veteranos das duas Copas vitoriosas anteriores e foi um fracasso. Em 1998, alguns jogadores da campanha de 1994, fora de forma, jogaram na França e a campanha só não foi um fracasso total pelos milagres do goleiro Taffarel.
O argumento usado para justificar a não convocação dos dois jovens talentos é inaceitável. Diz-se que o técnico já tem uma base formada há três anos e que não pretende destruí-la. Desde quando a inclusão de duas pessoas pode destruir um grupo de 23? A base estaria mantida de qualquer forma.
Este artigo, porém, não é uma peça pessimista sobre a seleção na Copa. Até o Goldman Sachs considera o Brasil favorito. Com ou sem Neymar e Ganso, tem condições de ganhar o hexacampeonato. A tradição diz que seleções europeias não ganham Copas fora da Europa. Então, o Brasil é o maior favorito, seguido da Argentina.
Faço, portanto, apenas um protesto contra a falta de ousadia. Seria muito melhor ganhar jogando ofensivamente, como em 1958 e em 1970 ou mesmo em 1982, quando o Brasil perdeu a Copa, mas marcou época. O hexa que pode vir certamente será muito parecido com o tetra de 1994, burocrático, sofrido e sem arte.
O Brasil não pode perder oportunidades por puro conservadorismo, tanto na economia como no futebol.
O Brasil não pode perder oportunidades por puro conservadorismo, tanto na economia como no futebol.
BENJAMIN STEINBRUCH , 56, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).
A luta antimanicomial e a psiquiatria
A luta antimanicomial e a psiquiatria
JAIR MARI e GRAHAM THORNICROFT - Folha de S. Paulo - 18/05/2010
Nenhum sistema de saúde mental pode funcionar sem que haja a disponibilidade de leitos suficientes para acolher o paciente em crise
HOJE É O DIA reservado para comemorar a luta antimanicomial. Dia de levantar a questão: quais os princípios que devem nortear as políticas de saúde mental? Os serviços de assistência à saúde mental em países em desenvolvimento não estão conseguindo atender às necessidades de tratamento dos pacientes, face à alta morbidade psiquiátrica na população. Um princípio fundamental da disseminação da assistência mental à comunidade é a noção da igualdade de acesso das pessoas aos serviços em seu bairro ou região de moradia.
Outro princípio fundamental é a garantia dos direitos de autodeterminação e autonomia dos indivíduos com transtornos mentais como cidadãos. Esses princípios foram ratificados pela Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotados em 1991.
Outro princípio fundamental é a garantia dos direitos de autodeterminação e autonomia dos indivíduos com transtornos mentais como cidadãos. Esses princípios foram ratificados pela Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotados em 1991.
São textos que estabelecem três pontos importantes, em se tratando da pessoa com transtorno mental: o direito de ser tratada sem discriminação; o direito à presunção de capacidade legal, a menos que a incapacitação fique claramente demonstrada; e a necessidade de envolvimento dos usuários dos serviços e seus familiares no desenvolvimento de políticas que afetam diretamente suas vidas.
As mudanças nas políticas de saúde mental podem ser divididas em três fases: o estabelecimento dos asilos psiquiátricos, a partir de 1880 até 1955; o declínio do sistema de institucionalização e isolamento, pós-Segunda Guerra; e a reforma dos serviços de saúde mental de acordo com abordagem baseada em evidências, no equilíbrio e na integração de serviços comunitários e hospitalares.
A integração entre comunidade e serviços hospitalares é reconhecida como um "modelo de assistência equilibrado", no qual a maioria dos serviços funciona na comunidade, em centros próximos à população atendida, onde a internação hospitalar é reduzida e, geralmente, efetivada nas enfermarias psiquiátricas dos hospitais gerais.
Os países em desenvolvimento devem estruturar cinco categorias de recursos para organizar o desenvolvimento dos serviços: clínicas ambulatoriais para atendimento de pacientes; equipes de saúde mental comunitária; serviços de atendimento ao paciente em crise; assistência domiciliar baseada na comunidade; e serviços de encaminhamento para emprego, ocupação e reabilitação.
A assistência orientada para a comunidade deve preencher, ainda, os seguintes requisitos: atender às necessidades de saúde pública, com prioridade para o tratamento dos doentes mais graves; desenvolver centros locais e acessíveis; mobilizar a participação dos usuários e seus familiares nas políticas de planejamento; e provisionamento dos serviços de saúde mental.
A Associação Mundial de Psiquiatria nomeou uma força-tarefa para produzir diretrizes sobre as etapas, os obstáculos e os erros a serem evitados na implementação de um sistema de saúde mental comunitário. O conteúdo desse editorial estará no próximo número da "Revista Brasileira de Psiquiatria" e o relatório completo será divulgado na edição de junho do "World Psychiatry".
O relatório levantou vários erros-chave. Primeiramente, não há planejamento de saúde mental sem a participação de psiquiatras e usuários. Em segundo lugar, o planejamento deve ser acompanhado por sucessão racional de eventos, de modo a evitar o fechamento de um hospital psiquiátrico antes que o serviço comunitário de assistência esteja solidamente estabelecido na mesma área.
Nenhum sistema de saúde mental pode funcionar sem a disponibilidade de leitos suficientes para acolher o paciente em crise. Outro erro comum é associar a reforma a um interesse ou grupo político particular, o que pode fazer com que qualquer mudança de governo comprometa as ações tomadas por predecessores. Concluindo, os princípios fundamentais de orientação das políticas de saúde mental nos países em desenvolvimento preveem que estas devem se basear nas necessidades de saúde pública, levar em consideração a proteção dos direitos humanos e serem projetadas levando em conta sistemas de saúde mental baseados em evidência e custo-efetividade.
É o momento, portanto, de se buscar um consenso para a defesa da melhoria de serviços de saúde mental de qualidade, capazes de atender milhões de pessoas sem recursos e completamente desassistidas, nos países em desenvolvimento.
JAIR MARI é professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo).
GRAHAM THORNICROFT é professor do Instituto de Psiquiatria do King's College, em Londres.
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